PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

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domingo, 18 de dezembro de 2011

PONTA DE FACA


           
   Luz de triunfo nos alvos cimos
   E o canto nas ilhas selvagens
   Como o céu vivo da estrela
   Ao mundo quando renasce o trovão

   De certo modo enfrentei nas costas
   As enchentes dos ouros dos bronzes
   A idade da arma da bomba
   Os olhos sangrentos da triste época

   É uma luz sanguinária dos exércitos
   Ante o declínio do reino pacífico
   Uma lagoa de prazer sob os miseráveis
   Um banquete para o horror

   No coro das feiras mortas
   Alimentos podres da força bruta
   Como um ditador bravo
   Um tirano asno de total poder

   Quem é estrondo e barbárie
   Aos quatro cantos do mundo
   O que é genocídio
   Qualidade do homem estúpido de hoje

PRETENSÕES JUVENIS



   Eu me preparo para tudo
   Em um segundo,
   Mas não sei nada do que deveria saber,
   Eu não sei mesmo quem sou,
   Tal o que fui não interessa,
   Como foi a ingenuidade
   Ainda possuída
   Que virou maldade
   Exorcizada.

   Sob medida para matar,
   Para roubar, desespero da noite,
   Sublime primeiro riso,
   Eu achava nobre
   Admirar a brutalidade,
   Combate de forças,
   Velocidade,
   Toda a cidade destruída.

ENSAIO SOBRE A INQUIETUDE


   Miséria do mundo
   De noite as ruelas
   Os cadáveres
                   Eu vim desavisado
   Tanta chance tive
                   Joguei-as no vento
   Eu tenho mais agora
   E tanto mais depois.

   Que venha a nova revolução,
   Revolucionar o espírito,
   Para os homens e mulheres
   De bem,
   Eu nem conquistei o mundo,
   Nem vou mudá-lo,
   Nem tenho ousadia,
   O sabor da carnificina
   Me pegou dormindo
   E foi embora,
   Eu muito sofri e muito desesperei,
   Há dias que o tumulto interior
   Põe de volta novas alternativas
   Para mim,
   Eu saberia notá-las
   Com a percepção aguda
   Da estratégia,
   Conseguir enfim o que se quer,
   Quanto o que puder
   Fazer para ter o bem e a felicidade.

   Discordei da lei da morte,
   Pois é a vida
   O que posso dizer que é o real,
   Cotidiano real da vida,
   Eu me vi entre a vida e a morte,
   Sou uma nova alma
   Concebida ao paraíso.

domingo, 4 de dezembro de 2011

PLATEAU


                                 
   Tudo rolou sem parar, quando da chegada do grande Homem.

   O dilúvio se fez em cima dos facínoras,
   Tempestades cruéis de sangue e lodo,
   Firmou-se o fim das Eras, o fim que a Guerra não teme.

   Mas, o grande Homem, o Todo Poderoso indignou-se ao sabê-lo,
   Fez do barro um desgraçado ... o pavio estourou a bomba!

   Quem nos fez ardilosamente? Quem nos sanou da Loucura?

   Lodo e sangue! Música aos tímpanos, ludíbrio!
   Morreu ontem um imbecil sarnento, um gigolô na esbórnia.
   Desde o núncio fanfarrão, o Verbo se fez carne, uma carne podre deveras!

   Os bois eram os homens, os párocos eram os sub-homens.
   Pois o quê? Homem! Este ser estapafúrdio e desregrado,
   Por mais aguilhoado e temerário que seja! Um dia só em minha vida ...
   E o apocalipse, não ... era uma visão idiota.
   Visionário, poeta, uma raça de infortunados, uma raça amaldiçoada,
   Tal os peles-vermelhas, os negros.

   Eu sou pernóstico, assíduo no pedantismo, colaborador da balbúrdia.
   Vou aqui e ali, no profundo do desdém do mundo, iníquo.
   Que é a Música? Que é o Dilúvio? Que é a minha máscara?
   Basta de jogos! Um cego que vê! Assim mesmo, joguete.

   Não saberei a pronúncia das línguas celestes,
   Lá, eles são mudos e meditativos.
   Mas aqui é treva, a treva sanguinolenta dos prazeres do corpo,
   Eu o renego, mas em que porrete?
   Lá vai, Profeta! Morra de uma vez!
   Um livro, pois, que é a vida, mas a vida grandiosa!

BAIXEZA


                       
   No trânsito escaldante arde a esperança do limbo
   Quase como a quermesse e a caverna e o inferno
   Que borbulhavam o asfalto asfixiante
   No qual a boca sedenta se embriagava.
   O mais inconsequente sonho
   Possuía o meu tempo, eu saía pela madrugada
   Debaixo do mundo estrondo do espaço sanguinolento
   Das larvas que me roíam a alma por dentro.

   Eu sentia que um milagre seria o maior susto
   E o século que veio na caveira do novo milênio
   Que subiu ao histérico relógio do tédio
   Deixava-me fantasmagórico como o bruxo
   Com suas carnes indecentes
   No pavio do desespero.

   Eu medi cada verme em minha roupa
   E fiz um despacho na podre masmorra
   Dos estéreis torturados,
   Gozei no mistério da morte
   Que os olhos amantes
   Tomariam o melhor cálice de vinho
   Para o pássaro que voou para um lado
   Bem de lá da vida submersa.
   Eis-me na poesia como um corvo
   Um abutre um comedor de fezes.
   Seria grande artilharia atrás dos funerais
   O meu desdém.

O SINISTRO


                 
   Leve-me daqui para sempre o infinito
   Que destrói o mar de barco casco infernal,
   Para que a memória se divirta como o sol mergulhará
   Em toda entranha puxando do vácuo o tumor
   A desdenhosa queimadura dos delírios e o mal
   Silente ornato da flor crua do selvagem morto
   Acidente em meu jardim de cemitério.

   Quero ser o refém dos gritadores dos alcoólatras
   Das mocreias dos vampiros das guilhotinas
   Que serão toda a vítima, toda a metralhadora
   Quando solto o soco nas caras vagabundas,
   Sempre quem verá o verão indo por meu coração
   Ao fascínio da onda arrebatada do altar negro
   Que os demônios tateiam cegos.

   Leve-me, ó Senhor, do veneno que adormece
   No temporal das inspirações, contarei os suicidas
   Os traumas as revelações dos doentes mentais,
   Matarei os profetas,
   Seriam os horríveis sábios assassinados
   E a musa um passeio sob a noite do sinistro.

   Leve-me, ó Diabo, demolindo mundos
   Eu chorarei para beber sangue
   Como o fogo que me dará vida nova,
   Eu até o eterno o mar
   Que é o amor que fugindo da miséria
   Se saciará num banquete de ossos e devaneios.

PRINCESA DO SUBMUNDO


   À espera de quê? Se sirvo bem para nada
   E com os seios flores cortei-as,
   E como quem não é fada
   Mataria a mulher das veias
   Que é uma, e aqui eu pego
   Os olhos magos do princípio filosófico.

   Eu ante o tédio ferveria consciências
   Varado por angústias prantos e ânsias
   Que varrem o mar insólito
   Que anteveio antevéspera do holocausto.

   À espera dos sons fúnebres
   Participei do vodu, da bruma
   E da coisa finda na barca
   Do prazer híbrido clamando
   O meu espécime raro amando
   Que foi um triste
   Prazer
   Fogo elementar
   Com a pátria suada do corpo
   Rezando tentações e o pó arriado
   Da festança devorada.

   Até logo, madame telepática,
   Mostra a tua cara paralítica.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

CORPO FECHADO


   Tens o quê? Sei não coisas tuas,
   Os teus solos pobres,
   Que eu pouco me faço nessas contas
   De soberba que carregas.

   Fé na música, fé do pó ritmado
   Em brutos, descubro olimpo
   Meu caminho que da fonte
   Carrega o muro, teus alardes
   Sonoros vácuos perdidos.
   Fazer-se de navio e certeza,
   Fazer-se no afogar,
   Acertar a vida na força
   Que te levas, de pouco a muito
   Chegar aonde quer.

         Das primeiras
   Mortes tuas entranhas
              Ardem
      Com o inferno da
             Serpente
            Procurando
           Envenenar-se
   Se eu tenho a discórdia tua
   Valendo-se do que nem sabes,
   Se tens vida perturbada
   Em sonhos de fogo, pois éramos
   Talvez o universo, depois nos
   Desfizemos no vinho.

   E que sinto da tua maldade, assassino?
   Eu era voando, eu era voando.
   Tu me buscavas, nojento.
   Se tu perdestes o senso?
   Foi o mais ridículo da criançada.
   Certo, tu se danou,
   Teu inferno ao que lhe dou
   Este inferno,
   Ao que peço que tu sofras infinitamente.

   Mas que mais peço?
                          Tu vais embora veneno!
   Serei da liberdade, serei do eterno,
   Serei da felicidade.



 

RECLAMAÇÕES E ESCRITOS DIVERTIDOS


   Eu consigo ter a ideia
   Que na vida dos tempos estradas
   Cai sob a sombra,
   A última heroica visão
   Dos lumes, esperar torto, vão e louco,
   Cair dos fins que há de ter
   Em qualquer ócio,
   Faço negócios com mercadorias,
   Tenho o barril em que guardo moedas
   Para um vento e para todo encontro.
   Era de honra um caixão de empréstimo.

   Quem sabe se da louca e furiosa ambição
   Que passeia, quando o filósofo enxerga,
   Tentei passar contramarés,
   Busquei paradoxos torpes e contravinganças.
   Se tenho uma ideia, não é só uma ideia,
   Tanto se esquece do que perguntas.
   Não é o reino fantasma do abstrato,
   Teus males não podem me eliminar
   De minha própria face.
   Só um bom senso, prazer da consequência,
   Ou perder-se, irritar-se,
   Desumano protesto, parque de homicídios,
   Fenômeno infinito da raça deletéria,
   Os meus intestinos se róem,
   Se de tal besteira me quero,
   O senhor bem disposto traz suas críticas,
   São o foco do que me leva à procura,
   Ter e não ter, coisas descritas sob o fogo.

   Eu creio sempre em devaneios,
   Muito há na crise que se abre
   Com a falta da chave,
   Se vão limites mal consumidos,
   Uma vida não seria tão espúria,
   Tiveste a fé neste tormento
   Quão cheia de si, vil e tortuoso
   O labirinto que carregamos.

   Eu espero o tempo retomar um estilo,
   Reencarnar às noites eternas,
   Ó vício, eu ver o todo sem tomá-lo,
   O que a selva do vício
   Me tortura, sei que poderia morrer,
   Quando existe um destino
   Sem estar nele, fugindo do que vem,
   Comer o silêncio e viajar o infinito,
   Uma encosta do descanso faminto,
   Poderia escrever bilhões de sóis.

   Vem chegando
                      O meu
                    Movimento
                 Como um susto
                       Dentro
                          Do
                       Corpo.
                              Eu e todas as quimeras
                              Do ser.
                              Sento-me e possuo o meu tempo.
                        Fica a bosta de todo o resto, pouco importa.

 

FASTIO DA DEGENERESCÊNCIA


   Sei que todo anjo torto é transcendência maldita.
   Sei que todo morto quer viver, quer viver como se não morresse.
   Sei que não é tal ser de asas a salvação do mundo.
   Sei de todo o resto que vai acontecer,
   Quando tiver sol na frente da minha dor
   E eu puder ver o alívio defronte ao nada mais,
   Somente o sol e nada mais de percalços,
   Somente o sol e nada mais do curso interminável
   De ser como somos, somente o sol e nada mais.

   Dias após as guerras e as torturas,
   Sei que sou qualquer nuvem,
   Sei que sou qualquer tempo,
   Quando só tiver o sol, quando só tiver o sol,
   E nada mais, nada além do sol.
   É disso que falei nos anos todos de uma vida à margem
   Dos acontecimentos importantes.
   Mas, que é tão importante?
   Não sei se dou importância aos acontecimentos importantes,
   Por importarem tão pouco para o meu viver.

   Ainda antes do fim das guerras e das torturas,
   Estou enfurnado numa cova que não me quer,
   Estou absorto numa memória que não me lembro.
   Sei que é a transcendência maldita do anjo torto
   Aquele que cai do céu das ideias imutáveis
   E se torna mutante, escroto e mortal
   Como nós.

   Sei dos acontecimentos sem importância,
   Esses que tanto importam aos poetas do incidente,
   Na gelada noite nos fins da tempestade e da canção.
   O anjo torto pode ser a miséria do paraíso perdido
   Para sempre em meu coração.
   A miserável decadência de ser consanguíneo
   De toda a humanidade.

domingo, 30 de outubro de 2011

MORTALIDADE


           
   Um homem agônico descansa na alma pálida
   Qual seja a forma de sê-la.
   Este irônico que ri de qualquer zelo
   Que com ela se arraste.
   O frio neste instante
   É nada como sua alma sem prazer.

   Quem, de todos, diria serem pálidas
   As formas desmembradas
   Dos sentidos, das razões finitas,
   Do cérebro ígneo da dúvida?
   O agônico pasto do mundo
   Canta com seus penitentes,
   Que deixam longe o segredo
   Dos seres cósmicos,
   Preferem o sol sobre a carcaça.
   (Vem lá de cima a ilha do paraíso,
   Não esperem chegar lá).

   Este homem, vês quem é?
   Com afinco me dedicarei a matá-lo.
   Este fantasma dos fantasmas
   É o pior dos idiotas, o mais mortal
   De todos os mortais.
   Eis que é o homem que não se vê,
   A mais noturna ambição
   De querer ser alma
   Quando nela se quer o mundo,
   Poeira de mundo,
   Maravilha de coisa alguma
   Em todas as coisas.

   Qual é a agonia maior do que ignorar-se?
   Qual é a mentira maior do que ignorar-se?
   Tal é a condição humana,
   Este homem é qualquer homem.
   Tal é a falta de um si mesmo infinito
   Sem as fissuras do tempo mortal,
   Seríamos anjos?
   O dia não há de chegar, pois é amanhã.

FRAGMENTO DEIXADO NO HORIZONTE


   O que eu sei, se pouco tenho a ideia exata,
   É o enorme universo no cair dos horrores.
   O que eu sei, enfadonho artista,
   É o meu pouco exato sentimento de esperança.

   O que eu sei do mundo é um enigma
   Pouco secreto, os celestes não renascem,
   Os campos morrem como devem morrer,
   Os celestes não ouvem,
   São deuses olvidados,
   O enorme universo
   No cair dos horrores.

   Fartas nações infaustas, nações aleijadas.
   Farsa farta! Farta de mim, farta de todos!
   Descortinado o uivo do sempre,
   Deuses celestes não me veem,
   Não vêm, não copulam.

   O que eu sei não é exato, nem é mistério,
   Mistério não se deve ver,
   Cegos não devem ver,
   Surdos não ouvem gritos,
   Castrados não querem prazer,
   A carne não vai temer a carne,
   Desovaram o uivo do sempre.

   No cair dos horrores
   O enorme universo,
   Cerimônias que a ideia não consola.
   Deve estar longe a estrela,
   Deuses celestes não me veem,
   Não me ouvem porque não querem.

   Castrado foi o povo. E o mundo é pouco.
   Muito é pouco. Nações não copulam,
   Não se amam.
   O que é meu, se pouco eu tenho,
   Não é mais ou menos valoroso.
   O caráter não mede o instinto.

   Instinto: a carne quer a carne.
   Instintos copulam, corpo-a-corpo,
   Tudo é ar de luxúria, selvagem,
   Do pouco farto mundo.
   O mundo que não é muito,
   E que pouco me falta.

MAIS UM LAMENTO


                 
   Marcha a estrada na noite, atropelados como eu
   Dançam. Com as migalhas da vida perfazendo
   Todas as minhas ações, torno-a maior ainda
   Em meus pés, e o solo se reveste de flores.

   Com o sol perto da rocha, e com o céu claro,
   A estrada amanhece e continua sempre.
   Marcha agora no dia, para depois retornar ao escuro
   Sem sol, vendo apenas os montes
   Nos quais o meu amor desfalece.

   O sensível toque de altivez ressoa na febre
   E nos cartazes do tempo. Torna-se logo apatia.
   Eis a vida suprimida, por não ter o amor
   Que tanto sonhava, por não ter férias em minha
   Alma de tragédia. Por não revelar, ou esconder,
   O mais silencioso palácio dentro de mim,
   Um palácio vazio, um palácio escuro,
   Em que o sol não ousa entrar,
   Que a luz da vida já não ousa entrar,
   Que a cidade ignora,
   Palácio da noite que o silêncio afaga.

   Lembro de juventudes e de sonhos,
   Sem tê-los mais, sem o céu ou o amor,
   Restando a esbórnia solitária
   Na cidade que um dia cantou,
   Cidade que mora longe,
   Cidade em que estou.    

domingo, 23 de outubro de 2011

A BOCA DO MUNDO E A FOME VIZINHA


   Sonho este que está no tempo
   Ido e doído, corrói o sêmen
   E o prurido escapando
   Com o céu da boca em pranto
   Em curtas passadas da língua
   Que é a mesma fala falaciosa
   Faladeira em falsa forma.

   Sonho meu e teu e nosso
   Que a boca do espanto
   Contorce a língua que flui
   Em tons dialetos e palavras próprias
   De um viver de cultura e História.

   Sonho todo em tudo que nada além
   Diz não aos que choram.
   E dorme como come, e baba como bebe.

   Boca miúda, cala-te!
   Este sonho não é o nunca ver
   Do visto que é o mundo incômodo
   Que vem aos olhos?

   Sob o céu da boca da fome o grito.
   O real é a boca sem céu
   Do purgar-se do purgatório
   Nosso de cada dia.
   E cada noite sozinha
   Acende a vela do sétimo dia ...
   Desnutrição.

   E cada um em si já foi sêmen um dia
   Que saiu e virou gente.
   E cada um em nós é um só da mesma
   Reunião de gentes.

   Assim se vai do ventre à boca,
   Da barriga grita a fome
   Do corpo inteiro desnudo.

   O mundo assim de nós mesmos
   Que comemos, são a fachada
   Do sonho. O real que não
   Queremos não é o nosso.
   Estamos cheios, repletos de tudo,
   Longe das bocas ignotas da fome
   Sem fama sem fundo sem mundo.
   O mundo lhes é negado
   Tanto quanto se pode.
   Tudo que é tempo e sonho
   Desfez-se como gostaríamos.
   Dois mundos não se tocam.
   Um que é ser, outro que é nada.

   Nos esquecemos
   Da morte da fome
   Do que não tem nada
   E nada espera
   Senão o não
   Do mundo que lhes
   Evita.

REDAÇÃO DO INFANTE


                                     
   Lá no campo longínquo, que faz séculos que no horizonte descansa, esteve em olhos marejados um tímido coração tremendo no espanto da vida.
   No silêncio da alma não há esperança, não há alegria.
   As pedras nos sonhos jazem em masmorras, poesia sem dono que o fantasma do profundo quer como um abismo, que este filho da dor desenhou ao infortúnio, e declarou-se como o líder de uma gangue dos ínferos.
   O riso que além escapa, e a boca sedenta, derramam a alma que não quer se expor. Guardada em gavetas, a poesia não quer se revelar estonteante ou bela como antigamente.
   Antigamente, havia um paraíso, que no mar sumiu, no azul do fim.
   A fumaça vigora, a desgraça vigora. Esteve o vinho lamentando a taça vazia e o estilhaço do coração sufocado.
   Sempre o pássaro, imagem qual era, ascende em outros cimos. E a noite, agora possessa, deveria tomar o dia, e jamais trazer o sol que antes brilhava, pois o fogo da vida findou no tédio e na revolta.
   Lembro-me apenas: Antigamente é só infância. O campo longínquo não voltará.

EXISTÊNCIA


             
   É de tudo o que enfraquece, o tempo
   Do minúsculo relógio de fogo.
   Flores nos jardins me fascinaram tanto,
   Que a minha tranquila vida acabou.
   Este viço de vida que acaba
   Por ter perturbações,
   O reflexo do espelho quebrado,
   A dança morna que invade a alma.
 
   Imóvel, me movimento por dentro,
   Quando tanto sentido escapa da vida.
   E vento, ou nuvem, talvez a chuva
   _ não me convalesçam.

   O fraco sou eu.
   O tempo não é meu e de ninguém.
   As flores nos jardins que me fascinaram tanto,
   Tampouco se revelam verdadeiras.

   Não é o campo o meu êxtase.
   Não é a cidade o meu fim.
   Meu tempo que não é meu e de ninguém,
   Talvez chamando o que é este passar de tudo,
   Por tudo passa sem ter o que buscar.

   O fraco é o poeta.
   Minúsculo, esquecendo da grandeza.

                                   

NA NEGRA NOITE, UM SONHO QUE VEM


   Em mim um sonho se avizinha,
   E bate à porta.
   Por lares em que tudo alinha,
   Dou o meu verso agora.
   É noite que vive lá fora!

   Andei entre as gaivotas,
   Que mexem meus livros usados,
   E me dão às livres revoltas,
   Serena luta de reinados.

   É o vão da noite que assusta!
   Toda fé e toda luta
   Correm pelos vinhos,
   Tudo gigante, em vasos e ninhos.

   É a dor que cai onde fugimos,
   Da dor que é dor sem céu,
   Da dor que vem e que é sem véu,
   Da negra noite que surgimos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

LADRÃO SORTUDO A GALOPE


   Para não me tocar um só desaforo sequer; tudo é engate de céu, terra e inferno.
   Tenho o Axis Mundi. O galinheiro é o pasto. Estandartes de vinho caem como óperas.
   Dou ao idiota a sorte de moleque sacana. Um probo vence sem fileiras. Os doidos são a infantaria. Fãs o amam e o querem. O barão é o ladrão dos impostos. Quem é o jovem? Que diz o jovem? Ele se ruboriza, se encastela.
   Diante da fachada, terras tectônicas!
   Quando cai o azul, sobe o fogo!
   E volta, martírios sacros queimados de luxúria, para as fogosas mortíferas, para os alquimistas. Um ladrão elegante, que leva ouro sem roubar. E que de nada se arrepende. É majestade! Tripa e gordura. Carne e coração. Vísceras, nervos, estômago faminto, pulmão cheio de fumaça. Bicha louca infortunada. Homem-máscara de outros confins. Besteira não registrada. Balas de revólver mastigadas. E os seus sectários, todos vis nas cabanas dos tabus. A morte é o tabu!
       
                                   Soa o vinho, suor latino bárbaro.
                                   Ladrão com virtude, este homem menino.
                                   Era o alerta, o comércio ilegal.
                                   O afrontador das leis.
                                   Tenebroso, dos quereres e do intelecto.
                                   Pórtico em que ele encosta.
                                   Igreja fumada até o talo.
                                   (Galope, cavalo, notícia).

   Sei de tudo isto. É certo e sombrio. Os mentirosos choram constrangidos.
   Aqui se faz tabaco e tosse. Aqui a sorte. Aqui o tempo.
   Qualquer lei ou costume se perde, tudo está subvertido.

 

BENQUISTO MANDRIÃO


   Sofre a modorra, lenda incoerente das têmporas do sol. Sereia que o buscava, em torno das luas miseráveis dos escravos lobisomens.

                                  Era o acalanto e a enfermidade.
                                  Música das celas e dos chiqueiros.
                                  Era um tonto divagando sobre o próprio caminhar.
                                  Dava uns passos ... dois para lá, dois para cá.
                                  Entoava o livro de muquifos sem móveis.
                                  Bibliotecas sem armários. Ó rua!

   Benquisto era cidadão raro. Sofria de contubérnio de alarido. Eis o casaco que lhe protegia, ou o guardião que lhe segurava. Um filho era dançante. Um filho era doutor. E as meninas encantadas com este engodo, enfático como a bosta.
   Dava de cara com a polícia, tomava cacetadas bem sensíveis.
   Na sustança de sua pensão, outros mendigos dormiam.
   E vai ... e volta ... e vai ... bem para lá ... longevidade!

                                     O poema é estranho.
                                     Um ser de cores e cravos.
                                     O terreno guardava o pó da lasca.
                                     Começava tudo sem terminar.
                                     E loas, e vivas!
                                     Aleluia ou Jah?
                                     Um demente, sai uma quentinha da costela.
                                     Adão sem pecado.
                                     Ou pecado sem Adão.
                                     Inimigo de Eva.
                                     Ou a própria serpente.

O SERVIÇAL DO SOPRO MATUTINO


Embolora o sonho pátrio,
   Era sonho caído
   Aos pés de outono.
   Corado de vergonha misteriosa.
   Cretino ou besta ou tarado.
   Sem furor, sem batina.
   Era o vento matutino, degola.
   Das arqueadas fuligens que borram o ar.
   Deste andor mal versado.
   Como dolente ou idólatra pútrido.
   Ao seu regime estapafúrdio de horas trocadas.
   Sem susto, no vento decola.
   Ouvindo o seu segredo, o vagabundo.
   Serviçal, amo, boçal.
   Consorte da dama refrigerada.
   Ou lar de solitude ou pimenta.
   Cremado e telúrico.
   Fonte do vício espesso da coragem viandante.
   Um céu solstício pouco apreciado.
   Doceria de confeites coloridos.
   Mortos chumbos vivos.
   Quem um frio lastimou.