PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 7 de março de 2024

HISTÓRIA DE UM PASCÁCIO

Maravilhado, o menino 

exultava seu prêmio,

ele crescia, matutava 

e trabalhava o muque.


Aprendeu a xingar, 

fazer troça, de chiste em 

chiste, apertava o saco, 

coçava, dava um arroto

e ria alto.


Ele sabia que 

seu mundo era assim,

do tamanho de um ovo, 

e sua cabeça achatava,

seu muque tinha 

que estar em dia,

sua risada e sua mofa,

sempre em cima do lance.


Foi este homem, já feito,

trouxa que só ele, 

que do dia para a noite,

tomou um baile, um golpe.


Em sua blasonada malandra, 

e de sua gabolice de gabarola,

não sobrou nem um muxoxo.

E de uma tarde para outra,

tudo se desfez.


O seu mundinho oco, 

do tamanho de um 

ovo gorado, tinha sido

devorado por bestas feras

engravatadas, do poço

do submundo financeiro,

a chamar de roceiro,

matuto e ingênuo,

o malandro de faca

e de bar que ali 

zurrava de ódio.


Agora, sabendo-se néscio,

pascácio, da mofa

dos cavalgaduras

virou troça,

um naif,

piada de salão 

nas negociatas,

já há muito

sem a sua bazófia,

sem ter notado

a porfia dos 

madraços.


Ele, bebum,

restou a um 

número final

de patuscada

e pantomima,

pois era o mais

pateta que da 

idiotia blasonou

a própria agonia.


07/03/2024 Gustavo Bastos 

OS SACRIFÍCIOS NOTURNOS

Que cantoria pernóstica, 

dos meandros de um marchand

pedante, a saber mais 

dos registros oficiais que

das matizes e da pincelada, 

como o ocre do vinho

que se espatifa e 

desce este rio roxo,

tudo vai pelos ares 

com o artista louco.


Vem ver, que da fúria se 

capta a luz iridescente

das feras que habitavam 

o antigo mundo,

e que nas fadas fantasistas, 

qual vestais, no campo fértil 

servia à vassalagem

dos ébrios sátiros 

da dança do Sabá.


Eis o poeta, este esteta que,

na loucura de seu absinto,

esquartejou o intelecto azinhavre,

este fatídico purista, pudico,

que foi sacrificado numa noite

de gritos, à famélica fauna

dos ídolos de pedra

e de madeira, com

a poesia mais brutal

que um ancestral 

totêmico pudesse

um dia ter delirado.


07/03/2024 Gustavo Bastos

FUFUQUISMO E JANONISMO

“ a versão bananeira que conspurca a Nova República”


O fufuquismo é um derivado político do atual ministro dos Esportes e deputado federal licenciado, André Fufuca. Por sua vez, o janonismo, que também foi chamado de janonismo cultural, vem da atuação do atual deputado federal André Janones. Para explicar melhor, o fufuquismo é uma das versões fisiológicas e clientelistas da política tradicional. 

O janonismo cultural, por sua vez, virou um flanco de combate contra a extrema direita, desde que Janones abdicou de sua candidatura à presidência da República em 2022 e passou a apoiar a candidatura de Lula, indo para a área de comunicação da campanha, adotando métodos heterodoxos de enfrentamento, muitas vezes fazendo com que o bolsonarismo e a campanha de Bolsonaro à presidência da República provasse do próprio veneno, com fake news polêmicas plantadas nas redes sociais e viralizando.

O grande feito do fufuquismo, por sua vez, foi empurrar para fora do Ministério dos Esportes, a ex-jogadora de vôlei Ana Moser, que até então ia bem na função, já tecendo projetos, mas que se deparou com um dos arranjos mais postiços e forçados dos últimos tempos, meio que num pressão do Centrão, para colocar André Fufuca como novo ministro dos Esportes. Nunca se viu um clientelismo e um fisiologismo tão mal ajambrado, chegou a ser constrangedor, parecendo mais um arranjo de casta que joga pela janela amores autênticos, uma pagaiada e a foto de aperto de mãos etc.

André Fufuca foi o deputado estadual mais jovem a ser eleito. O fufuquismo pode se estender como expressão para arranjos políticos forçados e de fancaria. Tudo ali é postiço, a vermelhidão das bochechas remete a um ventriloquismo em que o jogo do poder passa por cima de disposições verdadeiras e autênticas e, da noite para o dia, temos ministérios republicanos sendo tomados por uma clientela que vive dessa dança das cadeiras interminável, movida a pressões chantagistas e regateios superficiais, eis a essência do que podemos batizar como fufuquismo.

Por outro lado, as rachadinhas do janonismo cultural, por seu turno, revelam o mesmo arranjo esquemático de sempre, mas com um verniz midiático e polemista que, se convenceu alguém um dia, hoje não passa da produção barulhenta com métodos colhidos da baixa política, de um bullying até bem direcionado contra figuras como chupetinha e quetais, mas que se limita a esta característica histriônica, tão séria como um sketche para parvos. 

O janonismo cultural patina na falta de uma seriedade maior e tropeça nas próprias pernas com denúncias recentes de rachadinhas no gabinete do deputado federal André Janones, este que faz muito barulho desde a fatídica greve de caminhoneiros. Esta pretensa pecha de cultura não sobrevive a uma primeira ventania, pois o caráter do janonismo está mais para uma comicidade de gosto duvidoso do que algo que possa ser chamado, até numa conversa de botequim, como cultura ou “cultural”.

O que se vê é que tanto o fufuquismo como o janonismo jamais serão contribuições sérias e sólidas para o espírito republicano que deveria inspirar nosso parlamento, pois é mais do mesmo, reflexo de uma turba fisiológica e que também arrisca uma versão midiática, polemista e, no frigir dos ovos, ambos sucumbindo a um superficialismo que vai de um arranjo de casta forçado e uma grita de fake news tão escancarada como de seus alvos preferenciais.

O fufuquismo e o janonismo padecem de um mesmo mal essencial anti-republicano, ceifando horizontes do que deveria evoluir para um Estadismo de fato, com uma política democrática para o bem comum e não para produzir ministros de fancaria e figuras histriônicas que se limitam ao bullying de uma quinta série engraçadinha, e que logo em seguida passa por denúncias de facilidades e práticas que se repetem ad nauseam de rachadinhas, ambos reforçando a versão bananeira que conspurca a Nova República. 

O fufuquismo, por sua vez, também não poderia ser diferente, e também teve denúncias de corrupção, desde um apoiador de Fufuca, anos antes dele virar ministro dos Esportes, ter negociado um par de chuteiras em troca de voto,  até pelo fato de seu desempenho nas eleições para deputado federal no Maranhão ter sido produzido por compra de votos. 

Ou seja, o fufuquismo e o janonismo vivem de uma mesma mediocridade essencial, razão de ser, e se instalam na República através de apadrinhamentos, no caso do fufuquismo, e de polêmicas midiáticas, no caso do janonismo, e de sua versão cultural, o que é bem contestável, uma vez que o janonismo como cultura não passa de uma expressão para o histrionismo do dito deputado federal do que qualquer outra coisa.

Espero que a Nova República, depois de ter se livrado da versão bolsonarista no Poder Executivo, possa também se ver livre destes pastiches de ocasião como o fufuquismo e o janonismo, pois temos que estar atentos, pois “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, como disse o orador irlandês John Philpot Curran, que viveu de 1750 até 1817. 

Ou seja, o espírito republicano não pode tolerar mais apadrinhamentos de ocasião como o do fufuquismo ou uma imaturidade histriônica que busca a polêmica, que é o pretenso janonismo cultural, uma infantilização política que já teve que aguentar personagens como Tiririca, por exemplo. Que o Brasil, sua democracia e sua República possam ter um espírito estadista pelo bem comum, se livrando do pastiche e do fisiologismo. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/fufuquismo

SEMEAR

A idiossincrasia poética
tremula sua bandeira,
em uma ventania
semiótica, no poema
que abusa de sua simbólica
platitude, romanceando
a língua, estupefata
a sua fala, demonizada
a prole de sua obra.

O poeta, este pobre diabo,
decifrando os rios metálicos
e liras de esmeralda,
fazendo doridas montanhas
caçarem suas nuvens
de cume, escala
o frio e o lumiar
de um sol que nasce
defronte ao estro,
e sorri olhando
para o mar.

07/03/2024 Gustavo Bastos 

FARINHA SECA

Deste ardil, ao poço de piche, 

ao farináceo das azêmolas,

todo um covil bestializado, 

da febre destilada, obedece,

na cegueira do temporal, 

um poema agreste,

e o plectro, mais absurdo 

de cacofonia, lampeja 

no lodo da litania.


Prenhe a vaca leiteira,

donde o bezerro de ouro

se espalhou em febre,

do poeta a matiz

de uma canção 

briaca.


Açoitando as putas tristes,

em um melado de cana,

com a boca babada,

e o ventre hirto,

a besta fera

compõe sua 

lufada, bem temido

crápula, em idílio

elegíaco.


Festa dos beócios,

cretinos, a fauna

fantasiosa dos

senhores suados,

à caça das damas

laceradas de porre,

na febril escansão

do metro que mede

a fúria dos dias.


07/03/2024 Gustavo Bastos