PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

DE QUEM É A CULPA DO TARIFAÇO

 “Estados Unidos justificou a taxação alegando falhas do Brasil”


Com a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre grande parte dos produtos exportados pelo Brasil pelo governo Trump, a disputa de versões no debate político do país retomou a pauta e a crise comercial vira um dos focos principais de impacto sobre as próximas eleições presidenciais brasileiras. O embate se dá, sobretudo, entre as candidaturas do atual presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), até agora, e cada um coloca a culpa em seu adversário político. 

Da parte da militância da campanha governista o termo “TariFlávio” foi adotado para direcionar a culpa do tarifaço trumpista na conta da família Bolsonaro, como traidores da pátria e sendo acusados de terem pedido sanções contra o Brasil. Flávio Bolsonaro, de seu lado, atacou Lula chamado-o de “Biden brasileiro”, como metáfora para a inação do governo. E na tentativa de se desvencilhar da versão lulista, Flávio disse que sua viagem aos Estados Unidos foi para convencer pelo adiamento das sobretaxas trumpistas para depois de outubro, o que seria após o primeiro turno das eleições. 

A estimativa é de que haja um impacto entre 18% e 25% sobre as exportações brasileiras para o mercado norte-americano, com um impacto de até U$ 9,51 bilhões. Os Estados Unidos também publicaram uma lista de exceções, mais de 2.000, que são insumos isentos da sobretaxa para evitar o desabastecimento doméstico, com itens que incluem café, suco de laranja, carne bovina, minerais e petróleo. 

O Congresso Nacional buscava uma aceleração na tramitação de medidas de socorro à indústria nacional, e tanto setores governistas como da oposição intensificaram cobranças sobre o Itamaraty, exigindo uma postura mais agressiva na OMC (Organização Mundial do Comércio), com um consenso político em torno da Lei da Reciprocidade para blindar o mercado interno. E agora o governo brasileiro formalizou um pedido de consultas contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), com a medida tomada pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) para contestar o "tarifaço" imposto pela gestão de Donald Trump.

O recurso do governo federal foca em duas barreiras alfandegárias principais, que são a tarifa de 25%, aplicada sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana, e a tarifa de 12,5%, justificada pela alegação de que o Brasil falhou em fiscalizar e impedir produtos associados ao trabalho forçado. O que agrava mais a situação é que para uma parte das mercadorias exportadas, as taxas são cumulativas e chegam a 37,5%, o que implica num prejuízo para os produtores brasileiros de US$ 6,6 bilhões, impactando setores de máquinas, calçados, móveis, confecções, óleos e madeira.

Ao mesmo tempo, Brasil e EUA abrem um período de negociações diretas em Genebra para buscar um acordo. Caso não haja consenso, o Brasil pode solicitar um tribunal de julgamento. No caso do Órgão de Apelação da OMC, diplomatas brasileiros admitem que o recurso funciona mais para marcar posição internacional, pois devido ao travamento do órgão, a OMC está paralisada desde 2019, após seguidos bloqueios dos próprios Estados Unidos, em que o tribunal não consegue julgar recursos por falta de quórum de juízes. 

Paralelamente à ação jurídica internacional, o governo federal avalia acionar instrumentos da Lei de Reciprocidade comercial interna como forma de resposta. Contudo, após a reunião do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, com lideranças industriais e empresários brasileiros afetados pelo novo tarifaço de 25% confirmado pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos, o setor privado se opôs à aplicação da Lei da Reciprocidade, esta que imporia taxas de retaliação a produtos americanos, defendendo uma postura mais moderada e pragmática.

Também com o objetivo de  impedir uma possível escalada de prejuízos econômicos, consolidou-se o consenso pragmático e a rejeição à revanche comercial, pois a avaliação da indústria brasileira é a de que diante da imprevisibilidade de Trump, tal confronto poderia gerar mais instabilidade ainda e novas restrições tarifárias. Alckmin frisou que a estratégia oficial será a negociação contínua e ampliação da busca por mercados alternativos em outros continentes, embora tenha classificado as sanções baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA como "injustas e descabidas", uma vez que os Estados Unidos já acumulam superávit comercial histórico na relação bilateral com o Brasil. 

No lugar de retaliações comerciais, os empresários defenderam medidas pragmáticas internas para amortecer o impacto financeiro do tarifaço norte-americano nas exportações brasileiras, com pedidos de redução de tributos acumulados na cadeia produtiva e a ampliação dos prazos e facilidades do mecanismo de drawback, que é a isenção de impostos para insumos usados nos produtos exportados, isto é, mirando a redução do chamado Custo Brasil. 

Outro objetivo traçado foi o do aperfeiçoamento do Programa Brasil Soberano, em que o setor de máquinas pleiteou maior flexibilidade nas regras de elegibilidade das linhas de financiamento criadas pelo governo federal, como um meio de socorro às empresas que enfrentam perdas imediatas no mercado norte-americano. E com o apoio da ApexBrasil haverá esforços do governo no redirecionamento do escoamento de mercadorias para novos blocos econômicos.

Setores da indústria de transformação, bens de capital e manufaturados de alto valor agregado lideram o movimento pragmático para evitar o agravamento da crise comercial caso haja retaliações precipitadas, pois a Lei de Reciprocidade ainda está na pauta e pode ser acionada, podendo escalar o conflito diplomático e comercial com os Estados Unidos. 

Estes setores são representados por entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e empresas ligadas à Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) lideram a cautela diante do tarifaço trumpista. No caso destes setores ocorre exportação de maquinários agrícolas, ferramentas industriais e equipamentos de mineração customizados sob encomenda, e uma retaliação intempestiva do governo brasileiro poderia travar de vez os contratos de longo prazo com compradores norte-americanos.  

A cautela ainda envolve o setor automotivo e componentes (autopeças), em que fabricantes são altamente dependentes das cadeias globais de suprimentos que abastecem as montadoras norte-americanas. No caso do setor de calçados e vestuário, representado por entidades como a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), os Estados Unidos são o principal mercado internacional dos produtos brasileiros, com margens de lucro historicamente limitadas, e caso a crise escale, a cumulatividade de taxas poderá paralisar linhas de produção com demissões em massa.

Temos também os setores de madeira, móveis, papel e celulose, que envolvem produtos manufaturados com forte concorrência internacional,  em que há uma defesa de uma via diplomática e investimentos em lobby em Washington para negociar a inclusão de produtos em listas de exceções tarifárias. O setor sucroenergético, com produtores de biocombustíveis e derivados da cana, tiveram o etanol e o açúcar sobretaxados diretamente na Seção 301, ao contrário de commodities tradicionais como o café, a soja e a carne bovina, poupados pelo tarifaço trumpista. 

Esses diversos setores possuem uma estratégia de lobby internacional que funciona através da intervenção direta nos centros decisórios de Washington, usando advocacia jurídica, diplomacia empresarial corporativa, pressão política indireta, frente aos canais políticos limitados do governo federal brasileiro com a gestão de Donald Trump. Empresas e associações brasileiras contratam lobistas e escritórios de advocacia. 

O CNI e a Abimaq contratam firmas especializadas em Washington de perfil republicano e próximas ao governo trumpista. Ainda há a atuação de profissionais sob o FARA (Foreign Agents Registration Act), com o intuito de abrir diálogo direto com o DOC (Departamento de Comércio) e no USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos). 

Tais iniciativas ocorrem, por exemplo, com o lobby, que pode encontrar brechas técnicas nas regras da Seção 301 e Seção 232, através dos advogados que podem protocolar petições provando que determinados insumos brasileiros são insubstituíveis, na tentativa de garantir cotas de isenção e retirada de produtos específicos do tarifaço. 

E a indústria brasileira mobiliza as próprias empresas norte-americanas que compram produtos desta, fazendo com que companhias dos Estados Unidos vão ao Congresso de seu país para reclamar que a sobretaxa sobre peças, motores ou madeira brasileiros aumenta os custos de produção e gera inflação para o consumidor norte-americano. Por fim, as empresas industriais brasileiras ainda podem se unir a coalizões de outros países afetados pelas mesmas tarifas, junto a indústrias da União Europeia, Japão ou México, por exemplo.

Por seu turno, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos justificou a taxação alegando falhas do Brasil no comércio digital, acesso ao mercado de etanol e no controle ao desmatamento, como já havia feito na primeira onda do tarifaço, depois em parte revogada por Trump, na historinha da química com o Lula, mais um sonho numa noite de verão para incautos e impressionáveis, além de uma balela midiática.

Agora temos o governo Lula que acusa Trump, o da química, de estar retaliando ideologicamente a autonomia econômica brasileira, principalmente por causa do Pix, e devido à independência diplomática do Brasil. Enquanto isso, o argumento da oposição foca no discurso beligerante de Lula contra os Estados Unidos e na incapacidade de negociação do Ministério das Relações Exteriores para a costura de acordos comerciais bilaterais sólidos como causas do novo tarifaço trumpista. 

Mesmo depois da opinião pública tender a aderir mais pela versão governista que culpa Flávio Bolsonaro pelas sobretaxas recentes do governo norte-americano, com base nos dados Quaest, na primeira rodada de pesquisas institucionais, que também revelou que 49% da população acha que os Estados Unidos agiram para frear o avanço de tecnologias brasileiras como o Pix. 

Os desdobramentos políticos no Brasil, a partir deste último tarifaço trumpista, foram o racha no Centrão, com partidos de centro que estudavam alianças com a oposição tendo que recalcular a rota. Tudo para não se associar à imagem produzida pelos governistas do “TariFlávio”, com mais adesão na opinião pública do que a do “Biden brasileiro” para Lula, por exemplo. 

Frente aos dados institucionais, restou à oposição uma mudança tática, direcionando a sua crítica ao governo no tema da inflação, com a militância bolsonarista inundando as redes sociais com projeções de aumento de preços de produtos importados e demissões na indústria, na tentativa de transformar o tarifaço em um "imposto do Lula".

O sucesso do Pix perante a opinião pública, entrando como fator principal no debate em torno da soberania nacional na questão das disputas comerciais com os Estados Unidos, dificultou críticas da oposição neste caso específico, como a defesa técnica das tarifas feita por setores liberais, e reforçou a percepção do motivo real da USTR ter citado o Pix como uma barreira comercial. Na verdade, o Pix reduziu o mercado das gigantes norte-americanas de cartões, tais como Visa e Mastercard, e de serviços de pagamento. 

O governo norte-americano alega que o sistema é subsidiado pelo Banco Central e, portanto, tem custo quase zero, constituindo concorrência desleal contra empresas privadas dos Estados Unidos que precisam cobrar taxas por transação. Enquanto Lula e seus aliados difundiram a ideia de que o Brasil está sendo punido por sua competência tecnológica, com o discurso de que: "Eles querem taxar nosso café e aço porque criamos um sistema melhor e mais barato que o deles". 

Associar o tarifaço ao sucesso do Pix é uma tentativa de blindagem do governo brasileiro de críticas sobre falhas diplomáticas. E para a oposição se configura uma armadilha em que Flávio Bolsonaro tenta se equilibrar entre a defesa do Pix e a relação com Trump, ou seja, isso incluiu uma tentativa pífia de convencer o eleitor de que o Pix foi lançado no governo Bolsonaro, com o lançamento de jingles como "O Pix é do Bolsonaro". 

Por fim, Flávio precisa manter a aliança com Trump, numa posição complexa em que tenta manter este apoio sem que isso passe a mensagem de defesa dos Estados Unidos e ataque ao Pix, algo que demandará uma hipocrisia política e uma cara-de-pau que, convenhamos, nunca faltou ao bolsonarismo. 



Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/de-quem-e-a-culpa-do-tarifaco/

quarta-feira, 15 de julho de 2026

MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA NO CASO VORCARO

 “as ações eram orquestradas”


O alvo principal da 10 ª fase da Operação Compliance Zero foi o publicitário Thiago Miranda, envolvendo os desdobramentos da investigação da fraude bilionária do Banco Master, em que este atuava sob as ordens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Seu papel principal era o de atacar o Banco Central.

Miranda atuava coordenando e pagando influenciadores digitais e perfis de fofoca para deslegitimar a imagem e a atuação de autoridade monetária nacional. Além disso, havia a criação de dossiês e monitoramento de profissionais da imprensa para intimidar e chantagear jornalistas na tentativa de atingir a reputação dos mesmos, como no citado caso da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que citei na coluna anterior.

Thiago Miranda movimentou até R$ 2 milhões em contratos blindados por rígidas cláusulas de confidencialidade, através de sua agência de propaganda. Ele é suspeito de ter acessado dados sigilosos como na obtenção e vazamento de dados privados de autoridades e executivos, tal como o do CEO do banco Itaú. 

Com a apreensão de seu passaporte e proibido de sair do Brasil, por determinação do ministro do STF, André Mendonça, pelo risco iminente de sua fuga para Miami, na Flórida, e logo após as buscas em seus endereços, o publicitário anunciou o fim das atividades de sua agência, a MiThi, alegando que partirá para um “ano sabático”.

De acordo com os relatórios do inquérito da Polícia Federal, junto a decisão do ministro André Mendonça (STF), a agência de Miranda operava para espionar e coagir opositores de Daniel Vorcaro, em que o publicitário utilizava plataformas clandestinas para a venda não autorizada de dados pessoais e financeiros. Os advogados de Miranda, através de nota oficial emitida, negam a prática de crime contra o Banco Central por parte de seu cliente, ao passo que o encerramento da agência já era algo planejado. 

A atuação descrita em trechos da PF e destacada pelo STF evidenciam a cooptação e corrupção de policiais, incluindo federais, na extração de dados sigilosos, além da citada criação de dossiês que eram feitos com a compilação de relatórios pela agência de Miranda, através de informações obtidas ilegalmente. 

Os ataques eram voltados a pessoas que representavam obstáculos ou riscos reputacionais aos negócios do Banco Master, incluindo o CEO do Itaú, Milton Maluhy, uma vez que a PF localizou um arquivo compartilhado com dados de identificação civil, CPF, patrimônio e informações pessoais do executivo e de sua esposa. Como dito, outro destaque foi a investida contra a jornalista Malu Gaspar, descrita na coluna anterior e reiterada aqui.

Em vista do monitoramento ilícito operado pelo publicitário, a Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou e o STF autorizou a preservação de dados digitais vinculados a este, em que a PF obteve autorização forense para o acesso a contas em nuvem, históricos de sincronização, metadados e registros de IP para evitar o apagamento de provas. A defesa de Miranda afirma a legalidade de seus contratos de gestão de crise, no entanto, e que o publicitário nunca participou de ações de intimidação ou violação de dados pessoais de terceiros. 

A agência MiThi usava contratos de assessoria com multas astronômicas e cláusulas rígidas de confidencialidade, em que os influenciadores eram impedidos de revelar quem era o verdadeiro contratante e a origem do dinheiro, que era distribuído através de notas fiscais fictícias de prestação de serviços de publicidade, ocultando o vínculo direto com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master. 

As publicações pagas tinham a missão de descredibilizar a atuação do Banco Central, com narrativas sobre a parcialidade de autoridade monetária e a perseguição a instituições financeiras. Estes influenciadores recebiam roteiros prontos, com orientações diretas da agência de Miranda para publicar estes conteúdos com datas e horários combinados. As ações eram orquestradas, pois eram acionados dezenas de perfis simultaneamente, num esquema que conseguia inflar o alcance das fake news no meio digital, levando os ataques aos “trending topics” (assuntos do momento). 

A Polícia Federal mapeou essa rede por quebras de sigilo bancário e interceptações telemáticas na Operação Compliance Zero, com identificação de CPFs e CNPJs que receberam repasses da agência MiThi, e o STF, por determinação do relator do caso do Banco Master na Corte, o ministro André Mendonça, autorizou a PF a intimar e colher depoimentos de 50 influenciadores digitais e donos de perfis de fofoca mapeados no esquema.

As medidas incluem também o rastreamento financeiro completo das contas dos envolvidos, com o objetivo de cruzar dados para identificar o destino dos repasses que saíram da agência de Miranda, além do acesso a metadados de publicações antigas para comprovar a coordenação e a simultaneidade dos ataques ao Banco Central. 

O STF realça o entendimento jurídico de que tais influenciadores contratados não estão protegidos pela liberdade de expressão, uma vez que aceitaram dinheiro oriundo de fraudes financeiras na orquestração de campanhas difamatórias, de modo inflacionado e simultâneo, em que estes respondem por organização criminosa, lavagem de dinheiro e embaraço a investigações. 

Por fim, a PF descobriu que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro assinou uma minuta de contrato com o publicitário Thiago Miranda de dentro da prisão que previa a produção de um documentário audiovisual sobre o “Caso Banco Master” e este documento acabou apreendido durante as buscas da 10ª fase da Operação Compliance Zero na residência de Miranda. 

A obra conteria dados exclusivos, entrevistas gravadas e documentos internos cedidos por Vorcaro. Embora pessoas presas preservem a capacidade civil, legalmente falando, de assinar negócios e contratos, o  ministro do STF André Mendonça afirmou os contornos penais do documento dentro de um contexto que torna a produção suspeita como meio de manipulação midiática contínua contra as autoridades do caso. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/manipulacao-midiatica-no-caso-vorcaro/

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A VIA RÉGIA

Perfeito dia dos lidos livros, dos dons das viagens.

Este vil estertor dos cleptocratas, este quinhão doído

em que o chicote canta a litania a ladainha o lamento,

vem o veio e este choro de rachar o cântico.


Eis a força, esta rocha e o vulcão, pois

leia e viaje, tenha isto depois de tomar porrada,

de suicidar-se do penhasco, tenha o que olhar,

seu sol que nasce, seu doce sonho de luz.


Ah, quem estaria ali, no deserto, sem flores?

Um delirante na chuva? Um ermo na noite profunda?


Mais que mármore estava lá o parnaso,

e de outro lado, o bebum e o cigarro de rasgo,

sua tosse e seu espirro, o poeta da overdose.


Ali no castelo, o dândi, riso 

de canto de boca, poetaço,

uma rima rica, um estro pobre,

uma vida idílica, e sua afetação

de esteta da plêiade. 


Como se faz agora, besta-fera?

A verve é cáustica, e os ditos

caem à sorrelfa, vem deste modo

bruto, na bruta carne, escaldando

o fervente guizo, batendo na cara

da insciência, com o coro dos apitos.

09/07/2026 Monster 


VORCARO E A IMPRENSA

 “esquema de controle da narrativa digital”


A Polícia Federal (PF) apreendeu mensagens de dados de celulares recolhidos na Operação Compliance Zero em que Daniel Vorcaro realizou um monitoramento ilegal e uma devassa nos dados pessoais da jornalista de O Globo e da Globo News, Malu Gaspar. Ainda houve uma tentativa malsucedida de suborno da jornalista. Pois o avanço das apurações jornalísticas fez com que Vorcaro tentasse conter e interromper as reportagens que Malu Gaspar estava publicando, nas quais se evidenciava as fraudes e a situação financeira no Banco Master. 

Essa falha miserável de Vorcaro foi feita em parceria com o publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi. O ex-banqueiro enviou recados em que afirmava que precisava “frear” e “calar essa mulher”. Miranda disse, então, que iria levantar tudo sobre a vida da jornalista para achar algum podre. Dentre os dados, foram compartilhados o endereço residencial de Malu, além de dados sobre seus familiares e de contas bancárias.

Além disso, ainda houve um deboche sintomático sobre o modelo de carro da jornalista, em que fica evidente o caráter jeca de grande parte de uma elite brasileira, sobretudo essa nova onda de influencer/bandido que ostenta riqueza nas redes sociais, num exibicionismo de gosto duvidoso, deslumbramento superficial, e que inclui, por conseguinte, essas mesmas figuras da corrupção sistêmica, tudo de uma afetação rasa e vazia.

Depois do deboche parvo da dupla, o resultado é tal qual, pois não havia nada para atingir a jornalista, e o desastre foi ainda maior depois de uma oferta milionária para que ela trabalhasse nos canais de comunicação geridos por Miranda, que incluía o pagamento de R$1,5 milhão em luvas e um salário fixo de R$120 mil mensais. Contudo, a proposta foi implicitamente rejeitada pela jornalista, pois ela voltou à carga contra Vorcaro. A investida e sua falha foram patéticas e o ex-banqueiro ficou descontrolado.

Tanto Malu Gaspar intensificou as publicações sobre as fraudes do Banco Master em O Globo. como assinava matéria também em conjunto com o colunista Lauro Jardim. As ações da dupla Vorcaro e Miranda foram repudiadas publicamente tanto por O Globo como por entidades como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), em que os métodos dos meliantes foram classificados como de “mafiosos” e uma tentativa criminosa de calar a imprensa, além de cobrarem investigações sobre o abuso e assédio sofridos pela jornalista. 

O vazamento dessas mensagens agravou a situação jurídica de Daniel Vorcaro, pois diante disso a Procuradoria-Geral da República (PGR) recuou na negociação de uma proposta de delação premiada com o ex-banqueiro. Este que também planejou violência física contra o jornalista Lauro Jardim, em que a Polícia Federal (PF) descobriu mensagens no celular de Vorcaro em que ele orienta Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, a armar uma emboscada física simulando um crime comum, em que Vorcaro declarou : “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”. 

Este caso revelou uma estrutura paralela chamada “A Turma”, que era um braço operacional criminoso do grupo financeiro de Vorcaro, uma milícia privada que levantava dados sigilosos e intimidava testemunhas, monitorando e pressionando qualquer pessoa que pudesse ameaçar os negócios e a reputação do ex-banqueiro. E este andava furioso contra Lauro Jardim, pois o jornalista estava revelando bastidores comprometedores do Banco Master. 

Lauro Jardim revelou casos como o da viagem de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) em companhia de advogados ligados ao Banco Master, além de enriquecimento e contratos suspeitos envolvendo familiares de magistrados com o conglomerado financeiro. Consequentemente, diante do risco à integridade física do jornalista, o ministro André Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de seus principais executivos operacionais dentro do escopo da Operação Compliance Zero. 

Diante da revelação desses planos, entidades de classe, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abranji) emitiram notas públicas em repúdio às ações e classificando o caso como um ataque à liberdade de imprensa, à democracia e ao Estado de Direito. O jornal O Globo também manifestou solidariedade ao jornalista afirmando que seus jornalistas não se intimidariam com as ameaças. 

Na guerra de narrativas que também cercou o caso Vorcaro tivemos a atuação de blogueiros e sites alinhados à esquerda contra a jornalista Malu Gaspar, em que seu nome foi contraposto ao do ex-banqueiro e de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Investigações da Polícia Federal, dentro da Operação Compliance Zero, apontam que Daniel Vorcaro teria comprado o silêncio e a linha editorial de veículos de esquerda que até então o criticavam. 

Aqui temos o Caso DCM, em que mensagens apreendidas indicam que o ex-banqueiro teria pago o site Diário do Centro do Mundo (DCM) para que parasse de publicar notícias negativas sobre o Banco Master, e que atacasse quem investigasse ou prejudicasse os interesses dele, Daniel Vorcaro. Pois inicialmente o ex-banqueiro ameaçou processar o DCM por "fake news", mas a relação teria mudado para uma "parceria" financeira com o objetivo de blindar a imagem do Banco Master e desviar o foco das denúncias.

Além da questão financeira envolvendo Vorcaro, a reação ideológica veio de influenciadores e blogs de esquerda, como a Revista Fórum e Brasil 247, contra Malu Gaspar, devido às reportagens que expunham a família do ministro Alexandre de Moraes, em que foram reveladas que o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, tinha um contrato milionário com o Banco Master, com valores que variavam entre R$ 50 milhões e R$ 131 milhões em minutas e propostas, coincidindo com um período em que o banco buscava ter influência nos tribunais superiores. 

Foi quando blogueiros passaram a desqualificar a atuação da jornalista, com sites como a Revista Fórum que publicou textos acusando Malu Gaspar de criar uma narrativa artificial contra o ministro do STF, alegando, ainda, que o próprio Vorcaro era uma fonte da jornalista, numa tentativa de inverter a lógica da denúncia.  Com o Brasil 247 questionando, através de artigos de opinião, por que Moraes não processava quem o acusava, pois as reportagens de Malu Gaspar faziam parte de um ataque coordenado da mídia liberal contra o STF (Supremo Tribunal Federal). 

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) emitiram notas de repúdio contra os ataques sofridos por Malu Gaspar, com a Abraji destacando os ataques misóginos sofridos pela jornalista nas redes sociais, logo após a publicação das reportagens que atingiam figuras poderosas, com citação específica da cobertura sobre as conversas entre Alexandre de Moraes e Gabriel Galípolo (presidente do Banco Central). 

No esquema de compra de parte da opinião pública orquestrado por Vorcaro tínhamos então a proteção da imagem do Banco Master e a tentativa de destruição da reputação de opositores, com blogs de esquerda e redes de influenciadores digitais. Depois do Banco Central aplicar sanções e liquidar o Banco Master, mais de 40 perfis nas redes sociais, incluindo páginas de celebridades, entretenimento e culinária, sem nenhuma relação com economia e política, publicaram simultaneamente textos idênticos, com material que vinha pronto da agência, tendo a intenção de atingir diretores do BC no caso, enquanto defendiam Vorcaro.

E no esquema de controle da narrativa digital, estava Henrique Vorcaro, pai de Daniel, no pagamento de salários fixos de até R$ 35 mil mensais para hackers, que tinham como tarefa o rastreamento do andamento de investigações sigilosas no sistema da polícia, invasão de contas de cidadãos que faziam publicações contra o Banco Master nas redes e a derrubada de perfis como forma de censura aos comentários negativos sobre Vorcaro e o banco na internet.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/vorcaro-e-a-imprensa/


quarta-feira, 1 de julho de 2026

ABISMAL

Querer os giros as glórias as estradas os fios da vida

pluriplural, a vida vivida, quente abisma, frias estadias.

Os fulvos, os fogos, os mergulhos nos golfos,

dos folguedos, da febre terçã, folgazã, o festivo festival,

de fastio o festim, o fastígio da flâmula, dos filhos das pátrias,

dos pútridos hipócritas, das preces dos próceres, em que os

arquidiabos se refestelam e os spin-doctors são basbaques,

dos escrutínios das abúlicas afasias, estafetas, doença vítrea,

dos vícios, das astúcias, em que entrementes estão os beócios,

aos asseclas, néscia cantilena, dos sabujos, e a birra do rei,

encastelado, babando, com as vísceras da fartura, nababo,

besta-fera, matando os ócios no matadouro dos aziagos,

num canto ardido, azucrinando a zica dos azinhavres,

com seu estábulo que foi para o vinagre, enquanto

os anódinos apedeutas zurram como uma patota.


01/07/2026 Monster  

A PIRÂMIDE DE VORCARO

 “o Banco Master operava com carteiras de crédito fictícias”


O caso Vorcaro teve um modus operandi que pode ser comparado aos esquemas Ponzi ou de pirâmide. Ainda evocando, também, a fraude financeira de Bernie Madoff, Daniel Vorcaro emitiu ativos sem lastro real pelo Banco Master, em que todos estes esquemas criam um cenário de solvência e sucesso, disfarçando um  mecanismo em que a entrada de novos investimentos servem para quitar o retorno prometido aos aportes anteriores, o que é a lógica em que a cobra morde o rabo e todos são picados.

Charles Ponzi foi um imigrante italiano que nos anos 1920 criou um sistema de arbitragem de selos postais, onde o golpe consistia na promessa de lucros acima do normal. E o esquema Ponzi que causou escândalo em Wall Street foi operado por Bernie Madoff, com uma movimentação financeira em torno de US$ 65 bilhões, em que, como presidente da bolsa Nasdaq, ele atraiu fundações de caridade para grandes bancos, em uma fraude de pirâmide clássica com investimentos fictícios, até que o castelo de cartas desmoronou na crise econômica de 2008, quando os resgates superaram os novos aportes e Madoff foi condenado a 150 anos de prisão. 

No caso do Banco Master, as investigações da Polícia Federal e do Banco Central apontam para um modelo de negócios criado por Daniel Vorcaro que se trata de uma pirâmide financeira ou esquema Ponzi. Todos os quesitos do modus operandi de pirâmide estão lá, como a simulação de lucro na captação de novos aportes para pagar os antigos, com recursos sendo tomados de modo agressivo com a emissão de CDBs com taxas de juros muito acima da média do mercado. 

Como em toda pirâmide financeira, havia a simulação de dinheiro rendendo com investimentos de alta performance, com produtos financeiros inovadores, mas sem lastro, com lucros fictícios, operando em cascata, para adiar a inadimplência indefinidamente, e no caso Vorcaro, o Banco Master operava com carteiras de crédito fictícias, com fundos como os da gestora Reag, inflando a liquidez de modo artificial através de triangulações em que se comprava títulos sem valor real por preços inflados para camuflar a verdadeira situação do balanço patrimonial.

O esquema Ponzi ficou à luz do dia já quando o Banco Central decretou a intervenção e liquidação do Banco Master e, face a uma declaração patrimonial em torno de R$ 80 bilhões em ativos, constatou-se que havia apenas R$ 4 milhões disponíveis em caixa. Era o cenário de colapso da pirâmide operada por Daniel Vorcaro, após uma movimentação agressiva de bônus e comissões sobre um abismo sem lastro. 

O colapso ocorreu quando os pedidos de resgate superaram a capacidade de entrada de novos participantes ou no momento em que as operações foram barradas por órgãos reguladores. Especificamente, a queda veio quando o banco tentou vender R$ 12,7 bilhões dessas carteiras de crédito falsas para o Banco de Brasília (BRB) para cobrir o rombo. O Banco Central detectou a fraude nos papéis, proibiu o negócio, e o castelo de cartas desmoronou com a intervenção regulatória e as prisões.

Este caso tem semelhanças com a dinâmica de pirâmide, mas é classificado como uma fraude financeira estrutural e sistêmica, pois sua execução foi feita dentro do Sistema Financeiro Nacional, com a utilização de mecanismos legais de mercado de capitais, de alta sofisticação, como FIDCs, CDBs e fundos de investimento, para camuflar o crime, o que culminou na Operação Compliance Zero da Polícia Federal e na liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central.

O caráter sistêmico da fraude se deu pelo fato da operação ter sido feita utilizando-se do ecossistema regulado e de canais institucionais do país, esferas legais, gerando riscos no mercado de capitais, que quase o desestabilizaram, em que era feita a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com o pagamento de taxas sobrevalorizadas de até 140% do CDI ou 40% acima da média do mercado, uma operação contínua que foi drenando recursos do varejo e que culminou numa crise bilionária para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que teve que intervir para cobrir o prejuízo de investidores privados.

O descalabro sistêmico, contudo, atingiu o paroxismo quando veio a tal “Emenda Master”, uma emenda constitucional redigida pelo banco insolvente para que parlamentares federais alterassem as regras federais do FGC, tudo para que o próprio Estado, através do fundo garantidor, cobrisse uma fatia ainda maior da pirâmide de fraude de CDBs caso o Banco Master quebrasse, com a elevação do limite de garantia por CPF de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. 

Esta infiltração sistêmica ocorreu em institutos de previdência de servidores municipais e estaduais, neste caso, dentro do RPPS (Regime Próprio de Previdência Social), que é o sistema de previdência exclusivo para servidores públicos concursados de cargos efetivos da União, estados e municípios, com legislação própria. E que, diferente do INSS, não é unificado, com uma gestão independente, feita por cada ente federativo. 

A organização criminosa, então, subornava com propinas os gestores desses fundos, em que o Banco Master recebia aportes bilionários de poupanças públicas de trabalhadores, com a injeção de dinheiro real em carteiras de investimentos, tudo sem lastro e em cascata, como no esquema Ponzi e de pirâmide, só que dentro da legalidade sistêmica, uma fraude operando na falha estrutural e moral do Estado. 

O Banco Master fez contratos simulados com grandes gestoras para a transação de papéis podres, num sequestro do sistema com uma engenharia reversa das normas bancárias, onde o desvio bilionário acabava protegido pela subversão da lei e da regulação de balanços auditados, em que Daniel Vorcaro viajava para várias cidades oferecendo pagamento de propina para gestores de fundos de pensão e previdência. 

A iminência da queda do esquema começou na tentativa de empurrar um rombo de R$ 12 bilhões para o BRB (Banco de Brasília), corrompendo o ex-presidente da instituição pública, Paulo Henrique Costa, na viabilização de compras de carteiras fictícias para inflar o caixa do Banco, em que este acabou preso pela Polícia Federal, depois de investigações em que foram encontradas mensagens e indícios de que Costa teria recebido imóveis luxuosos avaliados em mais de R$ 140 milhões em troca de aprovação dos negócios com o Banco Master. 

Na Operação Compliance Zero, com a prisão de Daniel Vorcaro e de vários executivos, o Banco Master acabou liquidado pelo Banco Central, enquanto o BRB busca socorro financeiro para se recuperar do impacto do investimento bilionário nos ativos podres do Master. Tanto Vorcaro como Paulo Henrique Costa são os alvos principais da órbita das delações premiadas com autoridades da Justiça e do Ministério Público. 

Por sua vez, apareceram versões conflitantes de Vorcaro e do ex-presidente do BRB durante as oitivas, quanto a origem e a legalidade das carteiras de crédito negociadas. E agora a Procuradoria-Geral da República (PGR) recusou a proposta de delação premiada de Costa, por entender que ela não trazia fatos inéditos nem indicava como recuperar os desvios.

Paulo Henrique Costa foi preso em 16 de abril, na 4ª fase da Operação Compliance. Os advogados dele alegaram que a rejeição da PGR surpreende, pois eles afirmam que Costa nunca foi ouvido formalmente pela procuradoria para detalhamento da delação. Contudo, mesmo diante da recusa da PGR, ainda é possível um acordo para uma delação de Costa diretamente com a Polícia Federal, mesmo sendo mais determinante um acordo com o Ministério Público para a obtenção de benefícios legais do STF.

E com a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central, a consequência é a maior operação de ressarcimento da história do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). O colapso advindo da fraude do Banco Master afetou o patrimônio de milhares de pessoas, o que teve como consequência uma mudança estrutural das regras do Sistema Financeiro Nacional. 

O FGC também sofreu efeitos da fraude, pois a quebra do Banco Master, que arrastou junto o Will Bank e o Banco Pleno, gerou um rombo de R$ 51,8 bilhões, em que R$ 40,6 bilhões deste montante correspondem somente ao Banco Master. E como o banco usava a proteção do FGC como um “selo de segurança” para captar bilhões de reais oferecendo taxas acima da média do mercado, isto colocou o mesmo FGC na situação de pagar as indenizações que consumiram quase um terço de toda a liquidez deste, com um saldo operacional que despencou para quitar estes passivos. 

Consequentemente, o FGC aprovou uma medida extraordinária para recompor o patrimônio do fundo e conter o risco sistêmico, em que os maiores conglomerados bancários do país injetaram R$ 32,2 bilhões no fundo com a utilização de recursos de depósitos compulsórios no Banco Central, antecipando 60 meses de contribuições. E com a liquidação do Banco Master, todas as suas contas foram congeladas, operações como PIX e TED foram interrompidas e o aplicativo saiu do ar.

O direito ao ressarcimento pelo FGC foi estabelecido no limite legal de R$ 250 mil por CPF/CNPJ, de clientes que tinham dinheiro em conta corrente, poupança ou aplicações em CDBs, LCIs e LCAs no Banco Master. Quem tinha valor acima do limite estipulado, perdeu o excedente. E o impacto maior foi sobre 18 regimes próprios de previdência social (RPPS) de estados e municípios, onde fundos de pensão de servidores públicos foram investidos em Letras Financeiras de Vorcaro, sem cobertura do FGC, que viram esse dinheiro também sumir. 

No INSS, investigações apontam milhares de aposentados e pensionistas lesados pelo Banco Master através de descontos em folha referentes a créditos consignados falsificados, que nunca tinham sido contratados pelos correntistas atingidos. Isto fez com que o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central mudassem as regras do jogo ao instituir uma trava baseada em um "ativo de referência”.

A mudança estabelecida foi a de que se uma instituição emitir títulos garantidos pelo FGC além de seus parâmetros de segurança, o Banco Central obriga a aplicação desse dinheiro em títulos públicos de baixo risco, como um modo de impedir que bancos com problemas de liquidez abusem desta garantia para se alavancar. Ou seja, agora existe esta trava diante de fraudes que funcionam como verdadeiras pirâmides, disfarçando mecanismos em cascata que terminam insolventes e em colapso, se beneficiando do lapso sistêmico, como no caso Vorcaro. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-piramide-de-vorcaro/

quinta-feira, 18 de junho de 2026

COMPLIANCE ZERO

“lobby judicial e tentativa de blindagem”


A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) em novembro do ano passado, envolvendo a investigação da maior fraude contra o Sistema Financeiro Nacional na História do Brasil. A trama se insere no centro do sistema financeiro, com desdobramentos pelos poderes públicos e o crime comum, com implicações nada republicanas de uma metástase ética no plano político, econômico e administrativo do Brasil. 

A investigação envolve o esquema do Banco Master, que era controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, em que já ocorreu o bloqueio de R$27 milhões em bens, com o decreto de liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central. Além da fraude financeira, o caso também inclui o vazamento de dados, corrupção e articulações políticas do empresário. As apurações, além do rombo que soma bilhões de reais, envolve a criação de carteiras de crédito inexistentes e esquemas de propina, inclusive com a tentativa de usar o Banco de Brasília (BRB) para salvar a instituição.

O esquema consistia na negociação de títulos falsos, ou seja, o grupo fraudador fabricava e negociava carteiras de crédito sem lastro financeiro através de empresas de fachada, totalizando R$12 bilhões, incluindo fraudes previdenciárias, em que o Banco Master captava ilegalmente recursos de fundos de previdência de servidores municipais e estaduais, com promessas irreais de retorno. 

O erário teve um prejuízo que foi ressarcido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). E a primeira proposta de delação premiada de Vorcaro foi rejeitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal (PF), uma vez que não apresentava novas provas e havia a recusa da devolução dos valores desviados, e a Polícia Federal avaliou também que o empresário estava tentando proteger figuras políticas e familiares.

A Operação Compliance Zero teve 8 fases, com investigações que se dividiram em diferentes núcleos, numa escalada que vai do setor financeiro até a alta cúpula política. A primeira fase teve a prisão de Daniel Vorcaro e de diretores do Banco Master, na segunda fase houve o bloqueio de R$5,7 bilhões autorizado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e com foco em familiares de Vorcaro.

A terceira fase teve a prisão da ala violenta da investigação, incluindo a prisão de Luiz Phelipe Mourão, o Sicário, detido por ser responsável pelas intimidações, espionagem e abafamento de investigações sob as ordens de Vorcaro. Seguindo, na quarta fase, onde houve a prisão do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, acusado de combinar R$ 146,5 milhões em propina com Vorcaro. 

Na quinta fase houve o envolvimento do núcleo político, incluindo o senador Ciro Nogueira, que virou alvo de buscas, e a sexta fase atuou sobre núcleos criminosos que realizavam ameaças, espionagem e tráfico de informações sigilosas, resultando na prisão de Henrique Vorcaro (pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro) e de policiais federais.

Na sétima fase houve a investigação de vazamentos internos sigilosos da própria Polícia Federal que beneficiavam os investigados. E na oitava fase o foco foi o Rio de Janeiro, com a investigação do direcionamento ilegal de R$ 3 bilhões do Rioprevidência (fundo dos servidores do RJ) para o Banco Master, colocando o ex-governador Cláudio Castro sob a mira de buscas da PF.

As investigações do caso Banco Master e da Operação Compliance Zero prosseguem sob a relatoria do ministro André Mendonça no STF, avançando nos quatro núcleos, incluindo o trabalho da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal (PF). O primeiro núcleo é o político e inclui os governos estaduais, em que se investiga como o banco utilizava propinas e influência política para captar dinheiro público de fundos de previdência.

Neste núcleo a PF apura o desvio de R$ 3,7 bilhões do fundo de pensão dos servidores do Rio de Janeiro, e ainda temos uma apuração sobre articulações políticas em Brasília para tentar usar o Banco de Brasília (BRB) em uma operação financeira para salvar o Banco Master antes de sua liquidação pelo Banco Central. 

Outro núcleo envolve o Congresso e financiamentos suspeitos, em que se investiga se projetos privados e contratos culturais foram utilizados como fachada para lavagem de dinheiro ou evasão de divisas, onde a PF apura o contrato de R$ 134 milhões (com R$ 61 milhões efetivamente transferidos) para o filme biográfico de Jair Bolsonaro, Dark Horse.

Neste núcleo tenta-se comprovar se o projeto cinematográfico internacional configurou venda de influência política do senador Flávio Bolsonaro para abrir portas ao Banco Master em órgãos públicos. E ainda inclui uma análise do STF para provar se emendas parlamentares também foram direcionadas de forma cruzada para beneficiar financeiramente produtoras e empresas ligadas aos operadores do esquema. 

No núcleo judicial e de blindagem, que analisa operações de lobby, o foco está nas suspeitas de interferência e vazamento de dados que protegiam os executivos do Banco Master. A PF aprofunda sua investigação sobre o financiamento de um resort de luxo e uso de jatinhos do Banco Master, após o ministro Dias Toffoli deixar a relatoria por conflito de interesses, pois havia a menção de valores de até R$20 milhões relacionados a uma empresa familiar do magistrado.

Este núcleo inclui o caso Sicário, Luiz Phelipe Mourão, em que se investiga mensagens deste que é apontado como o braço-direito operacional e principal operador de táticas violentas de Daniel Vorcaro. Este núcleo mirou agentes da ativa e delegados da PF que vendiam senhas de sistemas sigilosos e relatórios de inteligência para o grupo chamado “A Turma”, ligado  em atividades de vigilância, coerção, perseguição e graves ameaças contra jornalistas, autoridades e desafetos que contrariassem os interesses financeiros do banco, ou seja, a parte violenta do esquema.  

Ainda temos, por fim, o núcleo financeiro e de recuperação de ativos, este que busca rastrear o destino do dinheiro desviado, em cooperação internacional com o FBI e a Interpol para o congelamento de contas e identificação de patrimônio oculto em paraísos fiscais. O ministro André Mendonça tem exigido que Vorcaro revele o paradeiro dos bilhões de reais desviados nas fraudes, a fim de reparar os investidores, e as negociações de delação continuam sendo o foco dos investigadores da PGR e da PF. 

O caso todo revela a proximidade e o trânsito de Vorcaro com várias alas políticas, dentre senadores, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e membros do governo, em uma atuação de "lobby judicial" e tentativa de blindagem. No núcleo financeiro, a propósito, novas evidências são reveladas pela PF sobre uma junção de interesses ilícitos e o pagamento de vantagens de luxo frequentes ao senador Ciro Nogueira.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), que já tinha sido alvo de mandados de busca e apreensão para apurar o seu envolvimento em um suposto esquema bilionário de fraudes financeiras, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, em que o senador, por exemplo, era suspeito de receber “mesada" de Vorcaro.

Este caso envolve mensagens interceptadas que revelam indícios de repasses mensais frequentes do banqueiro Daniel Vorcaro para Ciro Nogueira, com valores que começaram em R$ 300 mil e teriam chegado a R$ 500 mil por mês, somando pelo menos R$ 6 milhões. Ainda tem a investigação sobre uma suposta troca de favores políticos na qual Vorcaro enviava minutas de projetos de lei e emendas parlamentares diretamente para a residência do senador. 

Uma dessas propostas visava alterar regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para beneficiar diretamente o Banco Master. No caso, esta emenda, que expandia o teto do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, poderia "sextuplicar" o tamanho do banco. 

Além disso, a PF apurou sobre empresas da família do senador que mantiveram parcerias societárias atípicas com empresas de Vorcaro, e ainda identificou o pagamento ilícito de viagens aéreas, férias internacionais, por exemplo, para Nova York, Paris e Courchevel, além de diárias em hotéis de luxo em Lisboa custeadas pelo banqueiro. A defesa do senador inicialmente alegou que as transações financeiras eram devidas a uma "profunda amizade" com o banqueiro, versão contestada pela PF em vista dos fluxos de interesse legislativo identificados, no caso das emendas e dos projetos de lei enviesados. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/compliance-zero/

terça-feira, 9 de junho de 2026

PÂNTANO

Pantagruel, o idiota, empanturra-se e bebe vinho,

com sua verve mimada, explode em risos.

Carcaça, botinada, e seus afrescos rasgados.

Lote 3, 4 etc. O bairro todo cagado. O pus

que entra nos dentes, a boca aberta.


Um poço sem fundo, um canto infindo,

a ladainha rouca dos emblemas mofados.

No último capítulo, um adendo, um parêntese,

pobre de quem é escravo deste balofo,

que arrota na cara e peida na sala,

que coça o saco e dá um muxoxo.


09-06-2026 Monster  

quinta-feira, 28 de maio de 2026

NOITE DE CÉSARES

Estende-se a bandeira, tal símbolo na carne e no sangue das gentes,

o peito hirto, o olhar no rito, a nacional chama, o porco chauvinista,

de uma maçada, patacoada, se fez a festa, como uma esbórnia,

e o lagar, toda a cachaça, e os brilhos nas avalanches, nas cátedras,

os azougues que levam chibatas, com os spin doctors batendo lata,

uma malta de assessores, o dinheiro adorado com anelo basbaque.


Pois, mortífero, pestilento pesadelo, e este poema anticlímax,

de ação direta, contra o rolo compressor, um anarco reggae

punk brota de uma luta metálica, virada em guitarra,

e este sêmen, toda a patota batuta, aos borbotões,

como bororos, bacantes, borrando o pátio de cadáveres,

do fascismo, a cadela no cio, o fastio, o festim,

o fastígio da carne queimada, do óleo diesel

na boca do subversivo, como nos folhetos

e nos lambe-lambes, nos poemas concretos

da esquina, na rua dez ou na rua zero,

a terra do nunca dos que morrem na praia.


28/05/2026 Monster 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

GARRAFA DE VINHO

As vidas estalam no vento, com os vícios

da atmosfera, a tosse, o vinho, a ira.

Pois a poesia rebate cáustica, e vem de 

prisma, de fio desencapado, com as gritas,

devaneios, e astúcias na luta lida cantoria.


Tem do vate o bardo no peito, do canto

à lua, ao sol e ao mar, dos versos sonoros

que o castelo vibra, e o vítreo púlpito

ressoa, tem este fogo e esta marca furiosa,

e o ritmo que encara toda senda brutal.


Eu escrevo os inícios do jovem poeta,

seu sangue simbólico, sua arte velhaca,

e o mármore antigo de leituras estupefatas,

e que somem nas espumas dos dias.


A livre borrasca, tempestade plangente,

dos ódios amores dores e os desvarios,

as porradas na porta e na janela um bebum.

Temos esta noite de boêmia, na astuta noite

dos poetas da festa nos langores e as danças

de vindimas nos dosséis das musas.


07/05/2026 Estrela Estrela  

quarta-feira, 6 de maio de 2026

RAIO VERTENTE

Sei dos lírios e seus risos, as nuvens

que brotam do dia, como o raio vindo

na longa estrada, dardo lançado,

a espuma do mar, vai e vindo,

como a estética aflorada em poesia.


Com os ditos e sentenças decorados,

Mnemosyne com esta astuta farra,

os delírios estetas do estuário,

os veios dos livros lancetados,

da ignara malta, a miséria não lida,

que estava dormindo.


Pois o mundo gritava, doía,

maltratava-se. O mundo bruto,

monolítico, absurdo.


Este poema é dito recôndito,

da chama ainda acesa,

diante dos lagares,

da luta e frêmito,

as asas abertas

dos amores 

leves, dos 

cantos de

aurora

e fim. 


06/05/2026 Sublime  

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O APOCALIPSE PARIU UM IDIOTA

“uma dinâmica de bravatas megalomaníacas e recuos patéticos”


“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá (…) Talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!” Assim disse Trump em sua bravata mais patética desta quadra da História.

Era uma coletiva de imprensa em que o presidente norte-americano ameaçava realizar um ataque sem precedentes sobre o Irã caso este país não reabrisse o Estreito de Ormuz até a noite de terça no dia 7 de abril. Contudo, Trump concordou em suspender ataques ao país do Oriente Médio por duas semanas. Tal anúncio ocorreu duas horas antes do fim do prazo estabelecido pelo ultimato trumpista, em que Trump afirmou que os Estados Unidos tinham alcançado uma “vitória total e completa”. Decisão tomada após conversas com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, que pediram a suspensão das ações militares imediatas.

Tal cessar-fogo, que estava condicionado pela reabertura do Estreito de Ormuz, era um plano de Trump de suspensão dos ataques contra o Irã por duas semanas. Seria um acordo bilateral. Uma das razões é que Trump havia declarado que os Estados Unidos já teriam alcançado os seus objetivos militares e que um acordo definitivo já estaria próximo, o que incluía uma proposta de dez pontos do Irã, que foi considerada pelo país norte-americano como uma base viável para um acordo mais amplo. 

Depois de anunciar que faria ataques contra infraestruturas como pontes e usinas de energia no Irã, Trump afirma em publicação na plataforma Truth Social que tinha decidido pelo adiamento dos ataques após conversas com autoridades paquistanesas, em uma manobra diplomática do Paquistão para que as negociações avançassem durante este cessar-fogo, além de reduzir as tensões na região. O premier paquistanês Sharif pediu que Trump ampliasse o prazo para o Irã e também pediu a Teerã a reabertura do Estreito de Ormuz. Tal diplomacia tinha resultado incerto, e foi o que se provou logo em seguida. 

Em meio a questionamentos sobre a campanha norte-americana contra o regime iraniano, em que esta alternância entre guerra e cessar-fogo, em que se dá uma dinâmica de bravatas megalomaníacas e recuos patéticos de Trump, consolida-se uma imagem de fraqueza na opinião pública em relação ao governo trumpista, sobretudo diante de China e Rússia, num contexto de retrocesso estratégico, em que a hegemonia do poderio militar dos Estados Unidos se vê minado em uma guerra assimétrica de drones caseiros e golpes na economia mundial representada pelo petróleo. 

Trump lida com o desastre de um problema econômico inventado, os tarifaços, e uma guerra também inventada pelo seu narcisismo, num caos geopolítico em que a invencionice, que é ir além dos problemas naturais e culturais normais, da vida em sua dinâmica, tomando este rumo produzido por um ego mimado, narcisista, que extrapola a realidade, sem as vicissitudes da psicose delirante ou alucinada, mas fora da realidade, com postagens que viram memes como numa autoparódia messiânica de uma ego trip mundial. O narcisismo é fronteiriço com a realidade das coisas, tal qual o psicótico que delira e alucina, contudo, neste caso, a bomba cai na cabeça dos outros. 

O cessar-fogo trumpista, depois de uma bravata patética de uma épica anacrônica, culmina também em algo frágil, que desmorona num estalar de dedos, com os ataques de Israel contra o Hezbollah no Líbano, que ganham escala com mais de duas mil mortes e bombardeios intensos em Beirute e no sul, incluindo também ataques contínuos na Faixa de Gaza. E Israel também atacou o Irã, em um conflito que envolve o controle militar israelense em partes da zona costeira, através de campanhas aéreas intensivas contra instalações militares e nucleares iranianas.

Israel julgou o momento propício devido à vulnerabilidade em que se encontra o regime dos aiatolás, no intuito de impedir que a teocracia chegue à construção de uma bomba atômica, o que se sabe, pelas próprias análises feitas por autoridades, que está bem longe da realidade. Tais ataques ocorreram horas após o anúncio do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, em que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu afirmou que o conflito no Líbano não se aplicava ao acordo, e Donald Trump endossou a posição israelense, embora o mediador paquistanês, logo a seguir, tenha afirmado que o Líbano estava incluso na trégua. 

Neste ínterim, o Irã acusou Israel de violar o cessar-fogo e voltou a fechar o Estreito de Ormuz. E o Irã está tanto frágil internamente como tem seus principais aliados em vulnerabilidade também, pois sofreram derrotas sucessivas em confrontos com Israel, com apoio das principais potências militares do Ocidente. O Hezbollah perdeu sua liderança, milhares de combatentes e parte de seu arsenal devido aos ataques no sul do Líbano. A Síria teve a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. Em Gaza e na Cisjordânia, o Hamas e a Jihad Islâmica continuam sendo atingidos por Israel. 

Além disso, foram assassinadas importantes lideranças militares iranianas, além de comandantes regionais ligados à Força Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã. O regime dos aiatolás também enfrenta desafios internos em que a economia sofre inflação alta e sanções internacionais, lida com protestos contra o governo, iniciadas em 2022 após a morte da jovem Mahsa Amini por não estar usando “corretamente” um véu islâmico para cobrir os cabelos, e que continuam acontecendo, diante de grande repressão. 

Israel tentou se antecipar a um novo entendimento entre Irã, Estados Unidos e países europeus, pois após isso as ações militares israelenses contra a infraestrutura iraniana seriam consideradas como uma violação do consenso internacional. Benjamin Netanyahu também visa a sua manutenção no poder, uma vez que enfrenta uma crise de credibilidade política, que se ampliou com a crise de Gaza, e o estado de guerra de Israel interessa, portanto, ao primeiro-ministro. 

Israel intensificou os bombardeios contra o Líbano com o início da guerra no Irã, após ataques do Hezbollah contra o país israelense, enquanto o grupo xiita alega agir em retaliação aos ataques de Israel contra o país libanês e como resposta ao assassinato de Ali Khamenei, líder supremo do Irã. E o conflito também está ligado à destruição da Faixa de Gaza a partir de 2023, em que o Hezbollah lança foguetes contra o norte de Israel em solidariedade aos palestinos e para atingir a defesa israelense.  

O cessar-fogo feito em novembro de 2024 entre o grupo xiita e o governo de Israel, após este ter matado lideranças do Hezbollah, não impediu violações sistemáticas do acordo, com ataques periódicos contra o Líbano, por parte de Israel, para atingir a infraestrutura do Hezbollah. Tal acordo tem sido frágil e ganhou uma prorrogação agora através do anúncio norte-americano, com mais três semanas de trégua, após reunião na Casa Branca, com Trump, J D Vance, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e os embaixadores de Israel e do Líbano. Tais negociações que ocorrem um dia depois da morte da jornalista libanesa Amal Khalil em um ataque aéreo israelense no sul do Líbano. 

O Líbano defende o cessar-fogo como condição para a retirada de Israel do país e definição das fronteiras terrestres, ao passo que Israel quer o desmantelamento do Hezbollah como garantia para a segurança na fronteira. Irã mantém o cessar-fogo no Líbano como parte das negociações com os Estados Unidos. E tanto o Hezbollah como o Irã relacionam o cessar-fogo no Líbano à força conjunta do Eixo da Resistência, que é uma aliança anti-Israel e anti-Ocidente liderada por Teerã, que inclui grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, uma rede de apoio predominantemente xiita e que inclui grupos sunitas.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-apocalipse-pariu-um-idiota/

segunda-feira, 30 de março de 2026

ESTREITO DE ORMUZ E BEIRUTE

“postura instável de Trump”


Com o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, em retaliação aos Estados Unidos, cerca de 15 milhões de barris de petróleo diários deixaram de passar na região, com impactos no mercado mundial de petróleo e de abastecimento de diesel.  A disparada nos preços dos barris fez com que a AIE (Agência Internacional de Energia) fizesse a maior liberação de reservas estratégicas de petróleo da História, num total de 400 milhões de barris agora em março. Tal ação envolveu países da Europa, junto a países das Américas, da Ásia e da Oceania. Os 32 países-membros da AIE realizaram esta ação coordenada para reduzir a pressão no mercado de petróleo causada pelo bloqueio iraniano, visando garantir a estabilidade do mesmo. 

A agência já afirmou que em caso de necessidade poderá fazer novas liberações. Na AIE os países-membros devem manter estoques que equivalem a pelo menos 90 dias de suas importações líquidas de petróleo do ano anterior. Este mecanismo de reservas estratégicas serve exatamente no controle de volatilidade de preços e para garantia do abastecimento do mercado durante crises ou guerras, nos casos em que rotas comerciais importantes possam ser afetadas. Estas decisões pela liberação de barris de petróleo das reservas estratégicas sempre são coletivas, feitas pelos países-membros da AIE em conjunto. 

Não se sabe se esta medida agora será suficiente frente à dependência tanto da duração desta guerra como dos impactos provenientes do bloqueio do Estreito de Ormuz. Mesmo com a liberação de 400 milhões de barris de petróleo, essa é uma fração ínfima em comparação com os cerca de 15 milhões de barris diários que atravessam o estreito fechado pelo Irã. Tal liberação da AIE, mesmo sendo a maior da História, pode acabar em 26 dias, sem compensar a perda de oferta e com poucas opções de contenção de preços, tampouco no varejo. 

Esta liberação de petróleo feita pela AIE é uma medida temporária, pois a solução para o problema somente depende de uma desescalada militar, embora as perspectivas de reabertura do Estreito de Ormuz ainda sejam incertas, com o Irã realizando minagem na região, com cerca de 6.000 minas navais, provocando mais um desdobramento para a crise, em que o controle do estreito pelo Irã reforça o caráter paliativo desta medida da AIE. 

Mesmo com declarações intempestivas de Trump de que a guerra terminaria em breve, pois não havia mais alvos significativos no Irã,  e o anúncio da Saudi Aramco, a maior produtora de petróleo do mundo, de que aumentaria o fluxo de petróleo bruto através do oleoduto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, retomando 70% de seus embarques de petróleo, com o preço do barril de petróleo caindo a US$ 90 e as bolsas reagindo positivamente, houve logo o contraditório com as declarações de membros da administração trumpista, como o secretário de Defesa, que indicavam que a guerra continuaria, deixando clara que a declaração do presidente norte-americano era apenas uma tentativa de acalmar os mercados financeiros, diante do receio de uma escalada militar duradoura no Oriente Médio. 

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, já tinha declarado que não havia nenhum plano da aliança militar de se envolver na guerra com o Irã, e também elogiado a ação norte-americana e israelense como importante para degradar a capacidade iraniana de expansão nuclear e de produção de mísseis balísticos. Mesmo com a recusa de entrar na guerra, países como Reino Unido, França e Alemanha afirmaram que auxiliarão os Estados Unidos no intuito de deter os ataques iranianos. Com o Reino Unido autorizando o uso de suas bases militares pelas forças norte-americanas no ataque a mísseis e locais de lançamento no Irã. 

Mesmo com o apoio de grande parte da Europa, a guerra com o Irã ganhou uma oposição da Espanha que, através do primeiro-ministro Pedro Sánchez, se posicionou de modo a condenar o regime teocrático sem, no entanto, aprovar a intervenção militar, que foi considerada pelo governo espanhol como injustificável e contrária ao direito internacional. E com o aumento das ameaças a navios pelo Irã no Estreito de Ormuz, com alguns que já foram atacados recentemente na região, os apelos pela proteção dos navios mercantes pela União Europeia se intensificaram.

A Operação Aspides, que foi criada há dois anos para defesa do tráfego marítimo contra ataques do grupo Houthi do Iêmen, como uma missão naval de segurança da União Europeia, envolvendo a navegação comercial do Mar Vermelho, Mar Arábico, Golfo de Áden e áreas adjacentes, teve a sua prorrogação até fevereiro de 2027. Tal crise com o grupo Houthi atingiu o tráfego no Canal de Suez, um dos mais importantes do mundo no comércio internacional marítimo. E neste contexto da guerra no Irã, temos a França no envio de dois navios de guerra para o reforço desta Operação, para o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, que são as portas de entrada para o Canal de Suez, elo de ligação do Mar Vermelho com o Mar Mediterrâneo. 

Depois dessa posição da Otan, em que foi considerada a intervenção no Irã como crucial para a segurança da Europa, sem envolvimento da aliança militar diretamente, mas com apoio logístico e acesso para as operações em curso, o chefe da diplomacia da UE (União Europeia), Kaja Kallas, fez a convocação de uma reunião com os países do Conselho de Cooperação do Golfo, com os ministros das Relações Exteriores, ao passo que o bloco comercial e econômico visa a estabilização dos países vizinhos do Irã e de outros países vulneráveis da região, em que Kallas afirma que a UE tem o objetivo de conduzir esforços diplomáticos para a redução das tensões e para impedir que o Irã adquira armas nucleares.

As negociações para a reabertura do Estreito de Ormuz envolvem duas frentes, uma entre os Estados Unidos e o Irã, e outra em que uma coalizão de 22 países, com o anúncio do chefe da Otan, estão se organizando na tentativa de reabertura do estreito, com o objetivo de conter a alta dos preços dos combustíveis. O Irã afirma ter controle total da região, em meio a um ultimato de Trump para a liberação do estreito em 48 horas sob ameaça de represália e depois recuo do presidente norte-americano.

Tal postura instável de Trump agravou a postura iraniana, com o anúncio do fechamento total da área e ataques a empresas norte-americanas caso haja bombardeio de suas usinas de energia. Diante do relato de tentativa de diálogo entre os Estados Unidos e o Irã para uma reabertura do Estreito de Ormuz para que em seguida seja possível um cessar-fogo, este foi desmentido pela imprensa iraniana como “fake news”. E Mark Rutte, secretário-geral da Otan, por outro lado, também não esclareceu como será feita essa reabertura do estreito na prática, pois há uma presença militar de outros países além dos Estados Unidos e do Irã que pode representar um risco de escalada do conflito. 

Diante dos problemas para a reabertura do Estreito de Ormuz, pelo lado de Israel temos os ataques realizados sobre Beirute, no Líbano, em que se tem relatos de bombardeios recentes nos subúrbios do sul, com foco das Forças de Defesa israelenses em infraestruturas do Hezbollah, em que o país judeu expande seus ataques sobre a capital libanesa, no centro da cidade, levando pavor à população local e causando deslocamentos, com ações que fazem parte de uma intensificação das ofensivas militares de Israel na região, visando infraestruturas e centros de comando vinculados ao grupo terrorista xiita Hezbollah. 

Esses bombardeios ocorrem em meio a uma escalada em que se tem relatos de lançamentos de foguetes do Hezbollah contra o norte de Israel, e com os israelenses também enfrentando ataques iranianos, em que o país judeu sofreu ataques sobre Tel Aviv e a região histórica de Jerusalém, ao passo que Beirute teve seu centro e subúrbios densamente povoados sendo atingidos. Em que Beirute e todo o Líbano enfrentam agora uma crise humanitária, com deslocamento massivo dentro do país em torno de 1 milhão de pessoas, e com mais 130 mil que já fugiram para a Síria. 

O sistema de saúde também enfrenta pressão com a morte de ao menos 34 profissionais da área por causa dos ataques militares. Ainda se calcula a morte de 1.350 civis, incluindo centenas de crianças, e ataques de Israel contra a infraestrutura libanesa com a destruição de alvos militares, além de pontes, vilas e estradas estratégicas, impondo dificuldades na ajuda humanitária e no deslocamento dos civis. Por fim, o Secretário-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) alertou contra crimes de guerra que incluem ataques contra forças de manutenção da paz no sul libanês, depois da invasão de tanques israelenses a bases da organização. O governo de Israel justificou a ofensiva como necessária, no entanto, para o controle de posições estratégicas e como impedimento dos ataques do Hezbollah em sua fronteira norte.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/estreito-de-ormuz-e-beirute/