PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

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segunda-feira, 8 de julho de 2024

WISLAWA SZYMBORSKA E A POESIA REAL

 “ distanciamento do sublime, do elevado”


Como se disse no texto anterior sobre a poeta Szymborska, um dos modos de situar sua poesia, muitas vezes, é uma característica de seus versos terem descrições de cenários que podem remeter a historietas, pequenas narrações rápidas, em que a coda leva a uma reflexão filosófica sobre o que foi contado nos versos como um todo. Em poemas como “Acontecimento”, por exemplo, Szymborska coloca indagações a respeito da natureza dos acontecimentos sobre os quais não se tem nenhum controle e que determinam a vida ou a morte.

Por sua vez, no poema “Medo do palco”, esse caráter narrativo de seus versos leva à poeta Szymborska a tecer uma ironia a respeito dos poetas como prosadores, tentando tirar uma certa aura da poesia que poderia levar a mistificações sobre esta atividade literária como algo “elevado”, “superior” etc. 

A tendência do senso comum em situar a poesia na dimensão do sublime contrasta com a colocação da prosa no terreno do mundano em relação a este mesmo entendimento comum. Szymborska, com sua poesia, torna estes limites tênues e até os subverte, pois tal noção é falsa, como se houvesse uma hierarquia na literatura, em que existe o sublime que é tomado por superior ao mundano e quetais.

Por outro lado, nos remetendo às temáticas que a poeta Szymborska gosta de elencar em seus versos e, mais uma vez, fazendo este distanciamento do sublime, do elevado, temos a ciência como um dos interesses desta poeta, em que podemos citar a astronomia, a matemática e a biologia. 

A matemática aparece no divertido poema “Número Pi”. Na biologia, a questão da evolução das espécies aparece em vários poemas, incluindo “Thomas Mann”, em que o nome do escritor apenas dá o título ao poema, e em seus versos aparecem reflexões sobre a fantasia, de um lado, e a questão da evolução, refletindo sobre os fatos da natureza, de outro lado. A fantasia, por sua vez, ligada ao prodígio, escapando às leis naturais, é a mão que escreve, isto é, a literatura de Thomas Mann.

Por sua vez, o antropocentrismo passa longe das reflexões de Szymborska em seus poemas, no que temos versos que tematizam sobre entes que desarticulam tal discurso, colocando em destaque indagações sobre uma pedra, um grão de areia, uma planta e até microrganismos, colocando esta perspectiva como afirmativa da complexidade do mundo e a limitação da consciência humana em relação a este mundo.

A poeta Szymborska, a propósito, declarou : “Dou voltas incessantemente ao redor deste mundo que não é apenas nosso, mas também de muitas outras formas de vida, e procuro entender como elas nos recebem.” 

Por exemplo, no poema “O silêncio das plantas”, a poeta Szymborska situa o eu lírico no esforço de um diálogo impossível entre o ser humano e o mundo vegetal. No poema “Visto do alto”, por sua vez, o encontro de um besouro morto num caminho campestre levanta a comparação do sentido desta morte com a morte dos homens. E no poema “Microcosmo” é dado destaque aos microrganismos.

O questionamento da tradição, nos versos da poeta Szymborska, tem um papel importante, pois quando a poeta tematiza personagens bíblicos, mitológicos, sobretudo da mitologia greco-romana, além de interpretações poéticas da literatura e da História, por fim, colocam verdades da tradição em suspenso, esvaziando esta, e destacam a dimensão humana em tais temas.

No poema “Noite”, por exemplo, o eu lírico se rebela diante do sacrifício de Isaac por Abraão a partir de uma ordem divina. No poema “Monólogo de Cassandra” a profetisa deplora sobre o seu afastamento da vida e das pessoas. No poema “O resto”, Ofélia, personagem de Shakespeare na peça “Hamlet”, não cai na loucura por causa da rejeição amorosa, mas vira uma atriz preocupada com a vida prática, a sua roupa e seu cabelo, por exemplo.




LIVRO III - MUITO DIVERTIDO


CENSO : O poema subverte a herança histórica e a situa em um novo paradigma a partir de novas descobertas arqueológicas, no que temos : “Na colina onde ficava Troia/foram escavadas sete cidades./Sete cidades. Seis a mais/para uma única epopeia./Que fazer com elas? Que fazer?/Arrebentam os hexâmetros,/um tijolo efabular espia pelas brechas,/no silêncio do filme mudo, muros derrubados,/vigas queimadas, correntes rompidas,/cântaros esvaziados até a última gota,”. O poema segue com as sensações da poeta sobre tal derrubada de paradigma histórico e suas consequências, e as imagina, sendo que um dos fatos principais seria a implosão da epopeia, e a substituição desta por uma nova versão caótica para historiadores e literatos, e a descrição de Szymborska aqui é rica e inteligente, no que segue : “Nossa dose de antiguidade vai crescendo,/fica apinhada de gente,/inquilinos brutais se empurram na história,/hordas de carne para a espada,/extras de Heitor iguais a ele em bravura,”. A multiplicação das cenas, as dobras que as novas descobertas provocam, e todos os seus desdobramentos continuam a inspirar os versos de Szymborska, no que temos : “Era tão fácil não saber nada sobre isso,/tão comovedor, tão amplo.” (...) “Que fazer com eles? O que lhes dar?/Algum século pouco povoado até agora?/Um pouco de apreço pela arte da ourivesaria?/Pois é muito tarde para o juízo final.”. A poeta descreve também a crise épica, a implosão do que era narrado pela epopeia até então conhecida, e descreve a estranheza deste novo mundo, no que segue : “Nós, três bilhões de juízes,/temos nossos problemas,/nossas turbas inarticuladas,/estações, arquibancadas, procissões,/incontáveis números de estranhas ruas, andares, paredes./Desencontramo-nos para sempre nas grandes lojas/comprando um jarro novo./Homero trabalha num instituto de estatística./Ninguém sabe o que ele faz em casa.” E tal estranheza é tomada, por fim, literalmente, na coda do poema, em que Homero é diluído, por fim, numa atividade comum, incógnito.


MONÓLOGO PARA CASSANDRA : O isolamento de Cassandra, refugiada em seu monólogo, nos dá uma sensação do mundo na perspectiva angustiante de um distanciamento, no que temos : “Sou eu, Cassandra./E esta é minha cidade sob as cinzas./E estes são meu bastão e fitas de profeta./E esta é minha cabeça cheia de dúvidas.”. A profetisa ainda tenta enaltecer o que ainda possui, mas logo seu mundo é desvelado em seu próprio monólogo, como um tom hipnótico e repetitivo de uma monotonia conquistada em sua solidão perpétua, no que vem : “Triunfo, é verdade./Minha razão em chamas até lambeu o céu./Só os profetas desacreditados/têm essa vista./Só aqueles que tiveram um mau começo,/e tudo podia concretizar-se tão rápido,/como se eles nunca tivessem existido.”. Do alto de uma torre de marfim, em que seu privilégio de ver o futuro é o que ela entende por dom, paga o preço de ignorar o mundo real, palpável, das pessoas reais e dos fatos cotidianos, e seu isolamento traz esta iluminação espiritual triste, uma ascese sobre o futuro, uma visão dormente, no entanto : “Recordo claramente agora/como as pessoas, ao me ver, emudeciam./Morria-lhes o riso./Desentrelaçavam as mãos./As crianças corriam para as mães.” (...) “Eu os amava./Mas amava do alto./Acima da vida./Do futuro. Onde sempre é vazio/e nada é mais fácil do que ver a morte.” O vazio e a morte são as sensações com que flerta Cassandra, agora, neste seu distanciamento, num mundo supralunar sem contato com a vida que pulsa nas coisas dadas, vividas terrenamente, no que segue : “Lamento que minha voz fosse dura./Olhem para si mesmos das estrelas - bradava -” (...) “Viviam na vida./Varridos por um grande vento./Já condenados./Presos desde nascidos em corpos de despedida.” (...) “Foi como eu falei./Só que disso não resulta nada./E estas são minhas vestes chamuscadas./E estes são meus trastes de profeta./E esta é minha face contorcida./Uma face que não sabia que podia ser bela.”. Sua constatação, mais uma vez, é de uma coda vazia, em que a poesia aqui se conforma a uma fatalidade fria e dura.


DECAPITAÇÃO : A poeta conta com ironia a História da Inglaterra, num poema romanceado em que se dá o contraste entre duas rainhas, uma condenada e uma vitoriosa, e as cores de suas vestes, no que temos : “Decote vem de decollo,/decollo significa corto o pescoço./A rainha da Escócia Maria Stuart/chegou ao patíbulo numa veste apropriada,/a veste era decotada/e vermelha como uma hemorragia.” (...) “No mesmo momento/num quarto apartado/Elizabeth Tudor, rainha da Inglaterra,/estava à janela num vestido branco./O vestido vitoriosamente abotoado até o queixo/terminando num rufo engomado.” (...) “A diferença no traje - sim, dessa tenhamos certeza./O detalhe/é inabalável.” A coda conclui esta ironia rascante, em que toda a descrição parece confluir para um chiste, uma constatação de mofa sobre o conflito histórico entre os Stuart e os Tudor na História inglesa. 


THOMAS MANN : O poema que tem o nome de um escritor, desfaz a fantasia tanto literária como das fábulas e dos mitos e logo coloca a natureza tal qual ela é como contraste à falta de parâmetros de animais fantásticos e as concepções imaginosas deste mundo fictício e fabular, no que temos : “Caras sereias, assim tinha que ser,/amados faunos, ilustríssimos anjos,/a evolução definitivamente os renegou./Não lhe falta imaginação, mas vocês e suas/barbatanas do devoniano e peitos do holoceno,/suas palmas digitiformes e cascos nos pés,/seus braços não em vez de, mas além de asas,/esses seus esqueletos, deus nos guarde, difiléticos,/com caudas fora de hora, chifres por despeito,/bicos surrupiados de pássaros, essas misturas, aglutinações,/esses mistifórios finórios, esses dísticos,/rimando gente com garça com tal mestria/que voa, é imortal e tudo sabe/-vocês devem admitir que seria uma piada/eternos excessos e chateações/que a natureza não quer ter e não tem.” O chamado mistifório do mundo das fábulas é renegado pelo mundo natural e real da evolução das espécies, pois todo o excesso imaginoso aqui é submetido à eficiência dos seres na natureza e a evolução aparece como o governo que faz esta seleção entre os seres que desempenham melhor, o que no mundo imaginário e fantástico da fábula não existe, pois lá a prioridade é o excesso e a fantasia livre e ilimitada, no entanto, Szymborska delimita este mundo natural tal qual ele é, e suas breves concessões funcionam aqui como uma ironia em relação à fantasia e à fábula, no que vem : “Já é bom ela permitir a certo peixe voar/com desafiadora perícia. Cada voo desse/é um consolo na norma, uma anistia/da necessidade universal, um dom maior/que o necessário para que o mundo seja mundo.” (...) “Já é bom ela permitir cenas tão faustosas/como um ornitorrinco amamentando os filhotes./Poderia se opor - e quem de nós descobriria/que foi roubado?” (...) “Mas o melhor é que/lhe escapou o instante em que surgiu um mamífero/com a mão prodigiosamente emplumada com uma Waterman.”


LIVRO IV - TODO O CASO


AS CARTAS DOS MORTOS : A poeta aqui descreve o desnível entre o mundo dos mortos e as expectativas testamentárias, prospectivas, e demais esforços de planejamentos, e o mundo dos vivos, dos que ficam, no que temos : “Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,/mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores./Sabemos quais dívidas não foram pagas./Com quem as viúvas rapidamente se casaram./Pobres mortos, mortos cegos,/enganados, falíveis, canhestramente previdentes./Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas./Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.” Este descompasso entre o esperado e o que acontece é a ironia do poema e da poeta Szymborska entre os anelos daqueles que se foram e o que aconteceu depois, no que vem : “Seu mau gosto, Napoleão, vapor e eletricidade,/seus remédios mortíferos para doenças curáveis, seu tolo apocalipse segundo são João,/o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques …/Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,/só que movidos três casas à frente./Tudo que previam aconteceu de modo totalmente diverso,/ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso./Os mais fervorosos nos fitam nos olhos com confiança/porque, segundo suas contas, verão neles a perfeição.” As contas feitas, por sua vez, todas revelam a ignorância essencial, e que está inserida neste mundo dos acontecimentos. A ironia, como coda, faz troça desta pretensa perfeição.  


AUTONOMIA : A cisão da existência parte de uma narração mitológica, no que a poeta Szymborska contrasta um lado auspicioso com outro lado de revezes, no que temos : “Em perigo, a holotúria se divide em duas :/com uma metade se entrega à voracidade do mundo,/com a outra foge.” (...) “Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,/em multa e prêmio, no que foi e no que será.” (...) “No meio do corpo da holotúria se abre um abismo/com duas margens subitamente estranhas.” (...) “Em uma margem a morte, na outra a vida./Aqui o desespero, lá o alento.” (...) “Se existe uma balança, os pratos não oscilam./Se existe justiça, é esta.” A justa medida é também tematizada nesta divisão perfeita, contudo, quando a aplicamos à dimensão humana, esta fronteira se borra e toda uma amálgama de fatos e sensações se dá em toda a sua complexidade, o que ocorre também nesta divisão final entre vida e morte, no que vem : “Morrer só o necessário, sem exceder a medida./Regenerar quanto for preciso da parte que restou.” (...) “Também nós, é verdade, sabemos nos dividir./Mas somente em corpo e sussurro interrompido./Em corpo e poesia.” (...) “De um lado a garganta, do outro o riso,/leve, logo sufocado.” (...) “Aqui o coração pesado, lá non omnis moriar,/três palavrinhas apenas como três penas em voo.” (...) “O abismo não nos divide./O abismo nos circunda.” (In memoriam Halina Poswiatowska). A verdade é que o humano está permeado por tudo e inserido em tudo, e seu ser não delimita qualquer fronteira de fato, apenas em sua razão, pois o humano está, na verdade, circundado por uma mescla de coisas, um mistifório em que os limites, fronteiras, etc, estão diluídos em uma complexidade que ultrapassa a consciência e a compreensão. 


UM AMOR FELIZ : A poeta questiona a consistência e até a existência de um amor feliz neste poema repleto de ironia, no que temos : “Um amor feliz. Isso é normal,/isso é sério, isso é útil?/O que o mundo ganha com dois seres/que não veem o mundo?”. Diante de um mundo hostil e acidentado, este amor feliz é descrito no poema como uma provocação, no que segue : “Enaltecidos um para o outro sem nenhum mérito,/os primeiros quaisquer de milhões, mas convencidos/que assim devia ser - como prêmio de quê? De nada;/a luz cai de lugar nenhum -/por que justo nesses e não noutros?/Isso ofende a justiça? Sim.”. Não seria um fato da justiça, nem algo espiritualmente justo, este amor feliz atua no poema como uma subversão de uma ordem natural de aridez, de ambientes inóspitos à plenitude dos sentimentos e de sua boa sucessão, no que temos : “Observem estes felizardos :/se ao menos disfarçassem um pouco,/fingissem depressão, confortando assim os amigos!/Escutem como riem - é um insulto./Em que língua falam - só entendi na aparência./E esses seus rituais, cerimônias,/elaborados deveres recíprocos -/parece um complô contra a humanidade!”. Esta provocação é descrita pela poeta em fina ironia, e ainda se questiona mesmo a necessidade deste tipo de acontecimento no mundo, no que segue : “É difícil até imaginar onde se iria parar,/se seu exemplo fosse imitado./Com que poderiam contar a religião, a poesia,/o que seria lembrado, o que, abandonado,/quem quereria ficar dentro do círculo?” (...) “Um amor feliz. Isso é necessário?/O tato e a razão nos mandam silenciar sobre ele/como sobre um escândalo das altas esferas da Vida./Crianças perfeitas nascem sem sua ajuda./Nunca conseguiria povoar a terra,/pois raramente acontece.” (...) “Os que não conhecem o amor feliz que afirmem/não existir em lugar nenhum um amor feliz.” (...) “Com essa crença lhes será mais leve viver e morrer.”. A descrença dos infelizes sobre esta realidade os confortaria, enfim, pois a hostilidade de um mundo com tão poucas oportunidades à uma maioria, ver algo de tão pleno neste meio seria uma ofensa à própria existência como esta normalmente se dá, nesta ordem do mundo fundada em limitações e desditas.


LIVRO V - UM GRANDE NÚMERO


SALMO : A visão de um mundo unívoco, sem divisões, aqui aparece à poeta como a tematização da natureza, em como esta se funda indiferente às fronteiras humanas, e assim segue : “Oh, como são permeáveis as fronteiras dos países!/Quantas nuvens flutuam impunemente sobre elas,/quanta areia do deserto passa de um país a outro,/quantas pedras da montanha rolam para terras alheias/com saltos desafiadores.” (...) “Devo mencionar um a um cada pássaro que voa/ou que pousa na barreira abaixada da fronteira?” (...) “Oh, abranger com um único olhar essa confusão/sobre todos os continentes!/Pois não é a alfena da outra margem que/contrabandeia pelo rio sua centésima-milésima folha?/E quem senão o polvo de longos braços impertinentes,/viola os limites sagrados das águas territoriais?” (...) “E como se pode falar de uma ordem qualquer,/se nem dá para separar as estrelas/para saber qual brilha para quem?”. A poeta enumera diversos exemplos de como a natureza, não possuindo limitações e fronteiras, atua livremente, e o mundo cósmico, também como natureza, é tal qual, sem as marcações da dimensão humana, em que se vê o nativo e o estrangeiro, e o governo das diferenças se impõe, e isto ocorre cercado de um mundo natural em que a mescla, uma grande amálgama, não se importa com linhas demarcatórias e as diferenças entre regiões, seres, etc. No que temos : “E esse condenável dispersar da neblina!/E o pó que pousa sobre toda a estepe,/como se ela não estivesse dividida ao meio!/E o ressoar das vozes nas complacentes ondas do ar:/pipilos apelativos e gorgolejos sedutores!” (...) “Só o que é humano pode ser verdadeiramente estrangeiro./O resto é bosque misto, trabalho de toupeira e vento.”


NÚMERO PI : A matemática é um governo de grandezas e infinitesimais, vai ao macro e ao micro, e possui ao mesmo tempo perfeições bem acabadas e aporias inextricáveis, e a poeta exemplifica aqui o número Pi como uma destas desproporções num mundo que o senso comum entende como razão e proporção, e a desproporção e grandeza imensurável se dão aqui numa sequência que em Matemática se chama número irracional, sem dízima periódica, Pi como um grande caos numérico que se estende indefinidamente, desafiando a busca de uma constante, sob pena do pesquisador ficar louco, no que temos : “O admirável número Pi/três vírgula um quatro um./Todos os seus algarismos sucessivos também são iniciais,/cinco nove dois porque não acaba nunca./Não se deixe abranger seis cinco três cinco pelo olhar/oito nove pelo cálculo/sete nove pela imaginação,/e nem três dois três oito numa piada, ou seja, na comparação/quatro seis com qualquer coisa/dois seis quatro três no mundo./A cobra mais comprida da terra acaba depois de alguns metros./O mesmo, embora um pouco depois, fazem as cobras das fábulas./O desfile de algarismos que compõem o número Pi/não para na margem da página,/consegue estender-se pela mesa, pelo ar,/pelo muro, folha, ninho de pássaro, nuvens, direto para o céu,/por toda a extensão e profundeza do céu.” A ironia da poeta se dá entre a citação da sequência numérica e suas colocações de mofa e chiste, no que vem : “e mais pede-se manter a calma,/e também o céu e a terra passarão,/mas não o número Pi, esse não, nada disso,/ele ainda está aí com seu passável cinco,/um nada mau oito,/um não último sete,/incitando, ah, incitando a indolente eternidade/a durar.”. Aqui se abre uma fresta da eternidade, de um caos indefinido, interminável e incompreensível.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/wislawa-szymborska-e-a-poesia-real-1

segunda-feira, 15 de abril de 2024

O AMOR FELIZ DA POETA WISLAWA SZYMBORSKA

"a poeta deixa evidente a importância de dizer “não sei””


A partir da publicação do livro “Poemas”, pela Companhia das Letras, em 2011, no Brasil, a poeta Wislawa Szymborska deixou de ser uma desconhecida dos apreciadores de poesia no país. 

Esta poeta polonesa, que ganhou o Nobel de literatura em 1996, se tornou familiar ao leitor brasileiro de poesia e de literatura, pois este livro “Poemas”, repercutiu tanto entre estes leitores como na imprensa, e o resultado imediato foi aparecer mais uma tradução da poeta polonesa no Brasil, agora com o título de “Um Amor Feliz”, coletânea que reúne 85 poemas, a partir de uma seleção de livros publicados, originalmente, a partir de 1957 até o ano de morte de Szymborska, em 2012.

Este livro “Um Amor Feliz” tem a predominância de poemas da fase inicial da obra de Wislawa Szymborska, dos livros de 1957, Chamando Por Yeti, de 1962, Sal, e de 1967, Muito Divertido, além da fase final, abarcando os poemas publicados já no século XXI, incluindo a obra póstuma “Wystarczy” (Chega), lançado em 2012. 

A distribuição dos poemas é cronológica, dando uma ideia dos temas que a poeta abordou durante meio século de atividade literária. A lista de interesses da poeta podia ir, por sua vez, das ciências e da filosofia, passando por questões históricas da Antiguidade e do mundo contemporâneo, a vida cotidiana, donde se retirava sempre algo inaudito, e também se ligando a temas do micro e do macrocosmo. A linguagem de seus poemas também possuía um humor e uma leveza.

As tragédias do século XX, embora fossem temas sérios e tratados como tal, tinham também a fina ironia da poeta como fundo crítico. A vida em sua fragilidade e seu caráter efêmero também apareciam com riqueza em seus poemas, o silêncio indiferente do universo, ensimesmado em seu enigma, a incomunicabilidade entre as pessoas, dentre outros temas. 

Também se pode ver em sua poesia a condução de um olhar que não domina o saber em seu todo, mas que tem como valor a curiosidade de quem descobre a indagação fundamental, desestabilizando certezas arraigadas, pré-concepções de mundo, cosmovisões engessadas, e tudo o que impede o movimento do mundo, e isso através de perguntas fundantes e insólitas, o que também dá corpo a seus poemas filosóficos. É em seu discurso do Nobel que a poeta deixa evidente a importância de dizer “não sei” para fazer os seus poemas, pois isto abre novos modos de ser e de ver.

A poesia de Wislawa Szymborska, mesmo acessando profundidades através de questionamentos insólitos e inauditos, mantém a sua proximidade com o leitor, pois não vira um hieróglifo indecifrável ou algo de uma filosofia de fundamentação abstrusa. Ou seja, a poeta consegue salvaguardar a clareza de suas ideias, mesmo no enfrentamento contra certezas e aparências que tendem a simplificar o mundo de modo equívoco.

Os poemas de Szymborska começam de modo provocativo, partindo de perguntas aparentemente banais, ou observações e afirmações prosaicas, mas que logo avança para algo inaudito, imprevisível, mas que conclui tudo de modo claro e lógico. A proximidade destes poemas com o leitor comum, sem afetações enigmáticas ou abstrusas, caracterizam os poemas de Szymborska como distantes de qualquer lirismo elevado.

Em uma entrevista de 1975, a poeta conclui : “Parece-me que esses críticos que acham que eu às vezes escrevo como que novelinhas em miniatura, que são na verdade pequeninas histórias com alguma ação - talvez tenham razão”. 


Poemas : 

Livro : Chamando Por Yeti

Noite : O poema deste livro de 1957, início da atividade literária da poeta, já nasce com o tema bíblico extremo do sacrifício de Isaac para Jeová, mas que é suspenso em cima da hora como prova de fé, por parte de Abraão, no que temos : “Mas o que foi que o Isaac fez?/seu padre me diga.” (...) “Os adultos que durmam/um sono tolo assim,/esta noite/eu preciso vigiar até a aurora./A noite se cala,/mas se cala contra mim,/escura/como o fervor de Abraão”. A poeta encara a noite, tal como se esta se desse para ela com o mesmo fervor de Abraão, no que segue : “Onde vou me esconder,/quando em mim pousar/o olhar bíblico de Deus/como pousou em Isaac?/Antigos feitos se quiser/Deus pode ressuscitar./Por isso gelada de medo/cubro a cabeça com o cobertor.” (...) “Algo logo vai/embranquecer diante da janela,/encher o quarto com o zumbido/de um pássaro ou do vento.”. O temor mortal da poeta está presente no poema, como se fosse Isaac partindo ao sacrifício, no que segue : “Deus vai fingir/que voou para dentro por acaso,/que não era para estar realmente ali,/e depois vai levar meu pai/para a cozinha confabular sobre o caso/e com uma grande trombeta lhe soprar ao ouvido.” (...) “E quando amanhã bem cedo/meu pai pela estrada me levar,/vou, vou/enegrecida de ódio./Em nenhum amor, nenhuma bondade,/vou acreditar,/mais indefesa/do que as folhas de novembro.” (...) “Nem amar,/carregar um coração vivo no peito./Quando acontecer o que tem que acontecer,/quando acontecer,/vai me bater um fungo seco/em vez do coração.”. Parece que existe um destino inevitável, tal como o de Isaac, mesmo com este suposto Deus tendo entrado como um vento do acaso por ali, na presença da poeta e de seu pai, a grande trombeta parece soar ao ouvido da poeta, e isto a congela de medo da morte, no que segue : “Deus espera/e da sacada das nuvens espia/para ver se alta e bela/queima a fogueira/e verá como/se morre de teimosia,/porque vou morrer,/não vou deixar que me salve!” (...) “Desde aquela noite/além dos limites de um sono malsão,/desde aquela noite/além dos limites da solidão,/Deus começou/pouco a pouco/devagarinho/a mudança/do literal/para o metafórico.” Foi assim, que da noite e de seu temor, a metáfora nasceu da poeta, a indagação que vem do espanto, com a sua poesia que não se sabe se é destino ou tampouco acaso, apenas existe.

Ainda : A poeta fala aqui do holocausto, e retrata o transporte dos judeus nos trens para os campos de concentração e de extermínio do nazismo, no que temos : “Vão pelo país em vagões selados/os nomes transportados,/mas para onde vão assim,/será que a viagem terá fim,/não sei, não direi,/não perguntem.” As pessoas que são transportadas, todas, sem exceção, estão com medo de morrer, incertas quanto ao futuro, e Szymborska cita alguns de seus nomes, no que vem : “O nome Natan esmurra a parede,/o nome Isaac canta louco de fome,/o nome Sara pede água para o nome/Aarão, que morre de sede.” A poeta prevê que alguns destes condenados pelo regime nazista sobreviverão, e pede que tenham resiliência, que não desistam de viver, pois Davi, por exemplo, que pensa em se jogar do trem, ainda terá um filho no futuro, no que temos : “Não pule do trem, nome Davi./Você é um nome que ao fracasso condena,” (...) “Que teu filho tenha um nome eslavo,/porque aqui cada fio de cabelo é contado,/porque aqui o bom do mau/pelo nome e feição é separado.” Este lugar do extermínio, em que cada gesto é vigiado, toda gente registrada, em que características físicas e pretensamente raciais separam o bom do mau, em que o próprio maligno julga como maligna e amaldiçoada toda raça que não lhe seja espelho, num plano de solução final, não sabe que de sua tragédia ainda resta a esperança de um outro dia, quando isso tudo passar, no que temos : “Não pule do trem. Ainda não é hora./Não pule do trem. Será Lech o teu filho./Não pule. A noite como uma risada sonora/arremeda o rolar das rodas no trilho.” (...) “Uma nuvem de gente sobre o país seguiu,/ nuvem grande,/chuva pouca,/uma lágrima caiu,/chuva pouca,/uma lágrima/secura./Os trilhos dão em uma floresta escura.” (...) “Sim, é assim, segue pelos trilhos o trem./Sim, é assim. O transporte dos gritos de ninguém./Sim, é assim./Desperta na noite escuto/sim, é assim, o surdo martelar do silêncio.” O poema se conclui na obscuridade destes trens, com seu trajeto, seus trilhos e a floresta escura, os gritos de ninguém, em meio aos nomes que a poeta citou no mesmo poema.

De uma expedição não realizada ao Himalaia : A poeta aqui narra o trajeto feito por montanhistas no Himalaia, num poema que descreve imagens e sensações, no que temos : “Ah, então este é o Himalaia./Montanhas correndo para a lua./O instante da largada fixado/no rasgar súbito do céu./Deserto de nuvens perfurado./Um golpe no nada./Eco - mudo branco./Silêncio.” A poeta também traça o contraste entre a paisagem insólita do alto da montanha com o cotidiano que acontece no Yeti, ao pé do Himalaia, no que vem :  “Yeti, lá embaixo é quarta-feira,/tem abecedário, pão/e dois e dois são quatro/e a neve derrete./Tem rosa amarela,/tão formosa, tão bela.” Cabem aqui palavras de esperança da poeta, diante da contemplação da natureza, no que vem : “Yeti, não só crimes/acontecem entre nós./Yeti, nem todas as palavras/condenam à morte.” O mundo não herdará a morte, ainda temos esperança, no que segue :  “Herdamos a esperança -/o dom de esquecer./Você vai ver como damos/à luz em meio a ruínas.” (...) “Yeti, temos Shakespeare lá./Yeti, e violinos para tocar.” (...) “Aqui - nem lua nem terra/e a lágrima congela./Ó Yeti meio lunar,/pense, volte!” (...) “Entre as quatro paredes da avalanche/assim eu chamava pelo Yeti/batendo os pés para me aquecer/na neve”. Diante da avalanche, na iminência da tragédia, a poeta assim chamava pelo Yeti, cantando a esperança, dando à luz em meio às ruínas, em que a cultura shakespeariana se misturava à neve indiferente na qual a lágrima congela.

Sonho de uma noite de verão : Como numa peça shakespeariana, a das poções de amores ilusórios e efêmeros, como uma Titania, aqui se insinua a poeta Szymborska, no que temos : “Já se acende o bosque de Ardenas./Não se aproxime de mim./Tola, tola,/me meti com o mundo.” Ela alerta sobre o que pode representar um perigo, mas nada mais que o perigo natural do amor, que se enfrenta e do qual se usufrui, mesmo assim, no que vem : “Por isso cuidado comigo. Vá-se embora.” (...) “Vá-se embora, vá-se embora, mas não por terra./Navegue, navegue, mas não por mar./Voe, voe, meu caro, mas não toque o ar.” (...) “Fitemo-nos de olhos fechados./Falemo-nos com os lábios cerrados./Abracemo-nos através de um largo muro.” (...) “Dupla pouco divertida esta :/em vez da lua, brilha a floresta/e um forte vento, ó Píramo, inflama/o manto radiativo de tua dama.” A interação da natureza e do amor aqui revela dons de poesia e do teatro, o que pode se traduzir como fantasia. A poeta descreve o flerte em meio à radiação que isto envolve. 

Livro : Sal

Um instante em Troia : A poeta agora se volta à mitologia grega, mais especificamente na Ilíada, e descreve as suas chamadas Helenas, no que temos : “Menininhas,/magras e descrentes,” (...) “parecidas com o papai ou a mamãe,/e sinceramente assustadas com isso,” (...) “diante do prato, diante do livro, da frente do espelho/sucede serem raptadas para Troia.” (...) “Nos grandes vestiários de um pestanejar/se transformam em formosas Helenas.” O poema segue descrevendo a beleza, e o que esta provoca, entre os que tombam por estas Helenas, no que segue : “Ascendem as escadas reais/num sussurro de assombro e de sedas.” (...) “Sentem-se leves. Sabem que/a beleza é um descanso,/que a fala assume o sentido dos lábios” (...) “Seus rostinhos/que valem a demissão dos emissários/se projetam com orgulho de colos/dignos de um cerco.” (...) “Os morenos dos filmes,/os irmãos das colegas,/o professor de desenho,/ah, todos tombarão por elas.” E estas belezas inebriantes se fiam num cenário de hipocrisia, no que segue :  “As menininhas/torcem as mãos/num rito inebriante de hipocrisia.” Em meio a uma Troia em chamas, a tragédia se abre em seu lamento universal, no que segue : “As menininhas/contra o fundo da devastação/no diadema da cidade em chamas/e os brincos do lamento universal nas orelhas.” (...) “Pálidas e sem uma lágrima./Saciadas da visão. Triunfais./Tristes somente/de ter que voltar.” (...) “As menininhas/voltando.” O triunfo dos helenos e de suas helenas vence com frieza, e então só resta a tristeza do retorno da viagem.

O resto : No teatro shakespeariano, aqui diante do clássico Hamlet, temos a personagem Ofélia, a irmã do príncipe que acaba se suicidando, numa peça em que a filosofia do suicídio tem seu primeiro esboço, bem antes de Camus ou Cioran, no que temos : “Ofélia acabou de cantar cantigas loucas/e saiu de cena preocupada :/será que o vestido não amarrotou, o cabelo/caiu nos seus ombros do jeito que devia?” (...) “Para cúmulo da verdade, lava o cenho do negro/desespero e - como filha de Polônio que é -/para ter certeza conta as folhas tiradas do cabelo./Ofélia, que a Dinamarca perdoe a mim e a ti :/morrerei com asas; sobreviverei com garras práticas./Non omnis moriar de amor.” A poeta, contudo, contraria o cenário niilista e sobrevive, sem morrer de amor.

Bodas de ouro : A poeta descreve como o amor conjugal pode surgir e se desenvolver, mas, claro, envolvido na metáfora poética e um olhar sui generis de descrição e compreensão, no que temos : “Devem ter sido diferentes um dia,/fogo e água, diferindo com veemência,/sequestrando e se doando/no desejo, no assalto à dessemelhança.” (...) “Um dia a resposta antecipou a pergunta./Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outro/pelo tipo de silêncio, no escuro.” Na dessemelhança, depois do nadir da sexualidade, semelhanças aparecem mais, e a confluência se dá de um modo mais elevado, no que vem : “O sexo fenece, os segredos se consomem,/na semelhança as diferenças se encontram/como todas as cores do branco.” E a questão está em quem se conserva como é, ou quem foi engolido, como num jogo de duplos, em que se multiplica a pergunta por quem é quem e como se gêmeos surgissem da interação mais aprofundada pelo tempo, em que já não se faz distinção nenhuma, nem entre os filhos, e a pomba pousa, então, nas bodas de ouro, tudo idêntico, em que se juntaram as formas e temperamentos, por fim : “Qual deles está duplicado e qual aqui está faltando?/Qual sorri com um duplo sorriso?/A voz de quem ressoa nas duas vozes?” (...) “Quem arrancou a pele de quem?/Quem vive e quem morreu/enredado na linha - de qual mão?” (...) “Devagarinho, de tanto olhar, nascem gêmeos./A familiaridade é a mais perfeita das mães -/não faz distinção entre os seus dois filhos,/mal recorda qual é qual.” (...) “No dia das bodas de ouro, dia festivo/uma pomba vista de forma idêntica pousou na janela.”

As mulheres de Rubens : A poeta agora descreve as mulheres pintadas por Rubens, o pintor brabantino de estilo barroco, no que temos : “Herculinas, fauna feminina,/nuas como um ribombo de barris./Aninham-se em leitos pisados/dormem de boca aberta para cocoricar./Suas pupilas fugiram para o fundo/e penetram no interior das glândulas,/donde os fermentos se infiltram no sangue.” (...) “Filhas do barroco. Incha a massa na gamela,/banhos soltam vapor, vinhos enrubescem,/galopam pelo céu leitões de nuvens,/trombetas estrondeiam o alarme físico.” A pompa e o detalhe rebuscado da pintura barroca se reflete neste poema, em que a poeta faz uma imitação de tons e variações da pintura de Rubens, no que segue : “Ó aboboradas, ó desmesuradas/e duplicadas pela renúncia das vestes/e triplicadas pela violência da pose,/pratos gordurosos de amor!” (...) “Suas irmãs magras levantaram mais cedo,/antes que clareasse no quadro./E ninguém viu quando seguiram em fila/do lado não pintado da tela.” (...) “Banidas do estilo. Costelas à mostra,/pés e mãos de pássaros./Tentam voar nas espáduas salientes.” (...) “O século treze lhes daria um fundo dourado./O vinte - uma tela prateada./O dezesseis não tem nada para as retilíneas.” As mulheres magras ficam ao lado, o gosto estético da época de Rubens privilegia as formas bojudas, e a poeta descreve esta distinção de gosto que evolui e muda com a História, no que temos : “Porque até mesmo o céu é bojudo/bojudos os anjos e bojudo o deus -/um Febo bigodudo que num corcel suado/cavalga para a alcova fervente.”

Água : A poeta descreve neste poema, de forma rica e bonita, a água, e tudo o que poeticamente pode ser pensável e metaforizado em poesia, e a maleabilidade própria da água se revela aqui na forma literária, mais especificamente, poética, no que temos : “Uma gota de chuva me caiu na mão/extraída do Ganges e do Nilo,” (...) “da geada ascendida ao céu no bigodinho de uma foca,/da água dos potes quebrados nas cidades de Ys e de Tiro.” (...) “No meu dedo indicador/o mar Cáspio é um mar aberto,” (...) “e o Pacífico flui dócil para o Rudawa/o mesmo que flutuava como nuvenzinha sobre Paris” (...) “no ano setecentos e sessenta e quatro/em sete de maio às três da manhã.” (...) “Não há bocas suficientes para proferir/teus nomes fugazes, ó água.” A descrição de lugares e os nomes que a água recebe, regiões, etc, é tão rico, que o poema enfim sucumbe como num afogamento, no que segue : “Alguém se afogou, alguém que morria te chamou./Foi há muito tempo e foi ontem.” (...) “Extinguias o fogo de casas, arrastava casas/como árvores, florestas como cidades.” (...) “Estavas nas pias batismais e nas banheiras das cortesãs./Nos beijos, nas mortalhas.” (...) “Roendo pedras, alimentando arco-íris./No suor e no orvalho das pirâmides, dos lilases.” (...) “Como tudo é leve numa gota de chuva./Com que delicadeza o mundo me toca.” (...) “O que quer que, quando quer que, onde quer que/se passou, está escrito na água de babel.” Aqui temos a chuva, a água, e sua imensidade, por fim, como uma babel.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/cultura/o-amor-feliz-de-szymborska

quinta-feira, 29 de junho de 2023

WISLAWA SZYMBORSKA É A RENOVAÇÃO DA POESIA POLONESA

“toda uma ideia mistificadora de aura sobre o poeta é desmontada com a ironia, a autoironia e o riso”


Wislawa Szymborska, como poeta polonesa contemporânea de vulto, prêmio Nobel, está entre os escritores do país que recontaram a História e a Verdade da Polônia, uma vez que prevaleceram versões passadas feitas pelos regimes autoritários e que tinham ganhado status de única versão das coisas que aconteceram no país. Os poemas de Szymborska, portanto, já formulam indagações que contestam a versão do regime autoritário sobre a História polonesa, seja de esquerda ou de direita. E ainda são poemas que exploram as feridas abertas durante os períodos nazistas e comunistas no país.

A ironia toma o comentário político na poesia de Szymborska e a guerra vai sendo mostrada em cenários, como no rastro de destruição, que vemos no poema “Fim e começo”, e outras chaves para entrar no tema em outros poemas. Com o tom reflexivo de seus poemas, a crítica identificou certo caráter existencialista em Szymborska, mas em entrevistas ela negou sua filiação ao movimento filosófico ou sequer um cultivo interior deste tipo de filosofia ou qualquer outra. Seu tom brincante, por exemplo, segundo ela própria, não combinava com a sisudez dos existencialistas. Para ela, seus poemas buscam um tipo de chiaroscuro em que se misturam na mesma tela o sublime e o cômico ou trivial.

A distância irônica do Eu lírico consegue suavizar temas sérios, e no caso de Szymborska esta é uma constante em seus poemas.  A densidade e toda uma ideia mistificadora de aura sobre o poeta é desmontada com a ironia, a autoironia e o riso. A função do poeta, colocada em perspectiva vulnerável, usando a ironia sobre a própria atividade, desativa qualquer aura imaginária que se ainda poderia ter. Resta ao incauto enfrentar a realidade e acordar da visão romantizada que um dia fez de uma atividade laboral que é escrever, também no caso dos poetas. A visão romântica do poeta-criador, demiurgo e profeta da Humanidade, feita para donzelas existenciais, dá lugar a um cotidiano caótico em que tal obra se ergue, uma vez que castelos de marfim só existem nos contos de fadas. A poesia retira uma suposta aura sagrada e se destina a um lugar mundano, além de ser cultivada por aficionados e não por toda a população. 

O sentimento de identidade nacional, na poesia polonesa, teve sua versão canônica na poesia romântica produzida neste país durante o século XIX, período em que esta nação deixou de existir, sendo dominada por prussianos, russos e austríacos. As várias insurreições no século XIX para a reconquista da independência da Polônia acabaram fracassando e muitos artistas e intelectuais poloneses foram para o exílio. Os poetas Adam Mickiewicz e Julius Slowacki, exilados na França, se ergueram como vozes e consciência da nação polonesa, após esta ter sumido do mapa político europeu, com estes poetas passando a ocupar então um lugar ilustre no panteão de heróis nacionais. 

Os poloneses passaram a memorizar os versos destes dois poetas, entrando em currículos escolares obrigatórios, com seus poemas sendo declamados no país em celebrações, saraus etc. Portanto, durante o século XX, seguinte a estes poetas-heróis, todo jovem poeta teve que enfrentar este cânone, e no caso de Szymborska esta rebelião contra o cânone aparecia em uma poesia que não gosta do pathos. Ou seja, a estética patética da poesia romântica, tomada pelo sublime e por uma linguagem elevada, é descartada nos versos escritos por Szymborska.  E as constantes revisões que a poeta faz sobre seus escritos torna tudo ainda mais sintético e menos pomposo. 

Por sua vez, o humor de Szymborska se alia ao cotidiano e alcança uma linguagem simples, contudo, sintética e não simplória, pois temas complexos podem atravessar estes poemas de linguagem depurada e condensada. Por fim, é esta característica coloquial, com ironia, humor, rigor formal ao não colocar mais palavras do que se precisa, cortando o que puder ser cortado, é que Szymborska rompe a zona de conforto da poesia romântica canônica e cria uma poesia polonesa contemporânea, com uma dicção renovada.


POEMAS :


EXCESSO


O poema abre como se narrasse uma nova descoberta astronômica : “Foi descoberta uma nova estrela,/o que não significa que ficou mais claro/nem que chegou algo que faltava. (...) A estrela é grande e longínqua,/tão longínqua que é pequena, (...) A estranheza não teria aqui nada de estranho/se ao menos tivéssemos tempo para ela.”. A distância astronômica, o tamanho reduzido produzido por esta distância, na verdade, não se faz de anos-luz, mas sobretudo de uma distância psíquica de nós mesmos e esta estrela, que não atinge o nosso cotidiano, como uma notícia comum que passa batida e é logo esquecida, longínquo aqui ganha um sentido espiritual de relevância para a vida humana comum. E nos círculos mais esclarecidos, tampouco isto produz frisson, uma tese de doutorado, ou uma beberagem de vinho que faça linha direta com o céu, no que temos : “A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela, tudo isso quiçá seja suficiente/para uma tese de doutorado/e uma modesta taça de vinho/nos círculos aproximados do céu:” E para os que ainda tinham nas estrelas algo de influência sobre a vida humana, em sentido místico ou próximo disto, Szymborska trata de devastar tal perspectiva com o realismo necessário para a vida : “A estrela não tem consequência./Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo,/na mudança de governo, na renda e na crise de valores.” (...) “Excedente em face dos dias contados da vida.” (...) “Pois o que há para perguntar,/sob quantas estrelas um homem nasce,/e sob quantas logo em seguida morre.” (...) “Nova./__ Ao menos me mostre onde ela está./__ Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada e aquele galhinho de acácia mais à esquerda./__ Ah __ exclamo.” Por fim, Szymborska constata que se esgarça nessa procura vã entre o que liga a estrela e a vida humana, e termina exclamando exausta, na falta de conclusões.


A CURTA VIDA DOS NOSSOS ANTEPASSADOS


Szymborska demonstra neste poema a diferença brutal de longevidade entre a vida moderna e a de nossos antepassados, e isto se estende num sentido de referências temporais, em que ao invés de se contar os anos, se contavam as redes, os machados, os ranchos, pois a percepção temporal também tinha outra estrutura : “Não eram muitos os que passavam dos trinta./A velhice era privilégio das pedras e das árvores./A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos.” (...) “Meninas de treze anos gerando filhos,/meninos de quatro rastreando ninhos de pássaros na moita./jovens de vinte servindo de guias nas caçadas … /ainda há pouco não existiam, já não existem.” (...) “De todo modo, não contavam os anos./Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados.”  No tempo curto da vida de nossos antepassados, a sabedoria tinha que surgir rápido, antes das cãs, pois se morria antes que a velhice chegasse, no que temos : “A sabedoria não podia esperar os cabelos brancos./Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse,/e ouvir toda voz, antes que ela se propagasse.” Também a moral ainda era algo nublado, e as noções de bem e de mal, em esforços tribais, se resumia ao reinado de um mal e de um bem que se alternavam, e com diferentes modos de operar seu triunfo ou fracasso, no que vem : “O bem e o mal __/dele sabiam pouco, porém tudo :/quando o mal triunfa, o bem se esconde;/quando o bem aparece, o mal fica de tocaia.” (...) “Por isso se há alegria, é com um misto de aflição,/se há desespero, nunca é sem um fio de esperança./A vida, mesmo se longa, sempre será curta./Curta demais para se acrescentar algo.” Szymborska conclui nesta brevidade da vida, no começo da civilização, que toda alegria era efêmera, contendo nela aflições futuras, e o desespero levava consigo a esperança, uma vez que não se tinha muito a perder, e neste caso o investimento afetivo na esperança era mercadoria barata num mundo ainda hostil para a longevidade.


PRIMEIRA FOTO DE HITLER


Eis um poema bem humorado, e que se reveste de uma contundência brutal, o humor aqui é uma ironia rascante e seminal, um poema impressionante, e uma ideia que eu adoraria ter tido, no que Szymborska vem : “E quem é essa gracinha de tiptop?/É o Adolfinho, filho do casal Hitler!/Será que vai se tornar um doutor em direito?/Ou um tenor da ópera de Viena?/De quem é essa mãozinha, essa orelhinha, esse olhinho, esse narizinho?”. A ironia aqui se disfarça como flores mimosas e um cheirinho de lavanda, no que temos : “Anjinho, pimpolho, docinho de coco, raiozinho de sol,/quando chegou ao mundo um ano atrás,/não faltaram sinais na terra nem no céu:” (...) “votos de bom augúrio envoltos em papel crepom rosa,/pouco antes do parto, o sonho profético da mãe :/sonhar com uma pomba - sinal de boas-vindas,/se for pega - vem uma visita muito esperada./Toc, toc, quem é, é o coraçãozinho do Adolfinho que bate.”. O poema é rico pelo subtexto, a violência mais ignominiosa da História, no que segue : “Fralda, babador, chupeta, chocalho,/o menino, com a graça de Deus e bate na madeira, é sadio,/parecido com os pais, com um gatinho no cesto,/com os bebês de todos os outros álbuns de família./Não, não vai chorar agora,/o fotógrafo atrás do pano preto vai fazer um clique.” (...) “Ateliê Klinger, Grabenstrasse Braunau,/e Braunau é uma cidade pequena mas respeitável,/firmas sólidas, vizinhos honestos,/cheiro de massa de pão e de sabão cinzento./Não se ouve o ladrar dos cães nem os passos do destino./Um professor de história afrouxa o colarinho/e boceja sobre os cadernos.” A descrição do bebê Hitler termina e a paisagem do noroeste da Áustria se estende com a coda mostrando com tranquilidade o bocejo de um professor de História sobre os cadernos assim que afrouxou o colarinho. Aqui aparece a brutalidade da ironia de Szymborska, com esta coda em que um historiador inocente aparece sem saber o que lhe aguarda.  


OPINIÃO SOBRE A PORNOGRAFIA


Szymborska se serve da ironia, mais uma vez, e aqui faz do pensamento e de seu desenvolvimento uma orgia, como se fosse uma fita pornográfica, em que cada uso ou método de raciocinar se assemelha a um orgasmo, no que vem : “Não há devassidão maior que o pensamento./Essa diabrura prolifera como erva daninha/num canteiro demarcado para margaridas.” O pensamento, propriamente dito, na perspectiva de Szymborska, se associa ao profano, portanto, à dessacralização, e seus métodos servem para desativar pressupostos irrefletidos, e detonar uma desova para uma nova realidade, em que debulhar os fenômenos através de análises, sínteses e a exposição crua do fato, portanto, mostra a melhor via da verdade da vida, uma vida pensante, desbravadora e depravada, em que a reflexão e a ação estão sempre munidas de técnicas de decifração e deboche, no que segue : “Para aqueles que pensam, nada é sagrado./O topete de chamar as coisas pelos nomes,/a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,/a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,/o tatear indecente de temas delicados,/a desova das ideias - é disso que eles gostam.” (...) “À luz do dia ou na escuridão da noite/se juntam aos pares, triângulos e círculos./Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros./Seus olhos brilham, as faces queimam./Um amigo desvirtua o outro./Filhas depravadas degeneram o pai./O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.” A contaminação entre as ideias, o intelecto que contagia no outro uma nova busca, esta orgia serve a si mesma e contra o medo da ignorância, o pensamento é uma ameaça ao status quo que se acomoda na convenção preguiçosa, o choque é promovido a método em que este pensamento se afirma, pois a coragem é que move o mundo adiante, nas sacudidelas dadas em velhas cidadelas e fortalezas dos acomodados, e nesta orgia do pensamento a festa é longa e até se pode, eventualmente, se espiar a rua, rica também em ideias e inspirações. A poeta Szymborska coloca aqui o tom sexual e pornográfico sobretudo como ligado ao prazer de pensar e de aprender, o pensamento livre é o que conhece, que deseja o saber, e esta descoberta do prazer de uma consciência expandida é um exercício prazeroso como o sexo ou uma eventual fita pornográfica. Todas as associações de Szymborska aqui afirmam esta verdade, que a inteligência é afrodisíaca : “É chocante em que posições,/com que escandalosa simplicidade/um intelecto emprenha o outro!/Tais posições nem o Kamasutra conhece.” (...) “Durante esses encontros só o chá ferve./As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.” (...) “Só de vez em quando alguém se levanta,/se aproxima da janela/e pela fresta da cortina/espia a rua.”


ALGUNS GOSTAM DE POESIA


A poeta Szymborska aqui tenta medir a importância da poesia de acordo com a sua relevância real, e parte direto ao ponto, se perguntando sobre quem gosta de poesia ou não, no que segue : “Alguns -/ou seja nem todos./Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria./Sem contar a escola onde é obrigatório/e os próprios poetas/seriam talvez uns dois em mil.” (...) “Gostam -/mas também se gosta de canja de galinha,/gosta-se de galanteios e da cor azul,”. A especulação poética em torno de seu próprio valor, ganhando este caráter aparentemente pragmático, termina por estar na pergunta essencial do que é poesia, e assim definir seu valor simbólico, a sua causa de existir e sua finalidade, no que Szymborska não conclui e deixa a questão em aberto, esta mesma abertura em que se desenvolve o pensamento e a própria poesia. Neste caso, aqui temos isto na sua coda : “De poesia -/mas o que é isso, poesia./Muita resposta vaga/já foi dada a essa pergunta./Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso/como a uma tábua de salvação.”


FIM E COMEÇO


Szymborska aqui descreve o cenário comum de reconstrução material do pós-guerra, suas vicissitudes e a posterior transição para uma nova realidade em que o estrago feito pela guerra vai se dissipando, no que temos : “Depois de cada guerra/alguém tem que fazer a faxina./Colocar uma certa ordem” (...) “Alguém tem que jogar o entulho/para o lado da estrada/para que possam passar/os carros carregando os corpos.” (...) “Alguém tem que arrastar a viga/para apoiar a parede,/pôr a porta nos caixilhos,/envidraçar a janela.” (...) “A cena não rende foto/e leva anos./E todas as câmeras já debandaram/para outra guerra.” (...) “As pontes têm que ser refeitas,/e também as estações./De tanto arregaçá-las,/as mangas ficarão em farrapos.” (...) “Alguém de vassoura na mão/ainda recorda como foi./Alguém escuta/meneando a cabeça que se safou./Mas ao seu redor/já começam a rondar/os que acham tudo muito chato.” Portanto, aos poucos, na sucessão geracional, o esquecimento da guerra, de sua violência, de seus mortos, toma conta do cenário, e as edificações e ruas destruídas já não fazem mais parte das lembranças, pois a maioria agora já nasceu após estes eventos catastróficos, no que temos : “Os que sabiam/o que aqui se passou/devem dar lugar àqueles/que pouco sabem./Ou menos que pouco./E por fim nada mais que nada.” Por fim, caberá até mesmo um idílio poético onde um dia se fez o cenário desta guerra : “Na relva que cobriu/as causas e os efeitos/alguém deve se deitar/com um capim entre os dentes/e namorar as nuvens.”


COMEDIAZINHAS


O poema fala dos anjos e do que devem ser seus gostos. Na visão de Szymborska eles não se encantam pelos romances e nem pela poesia, mas sim por comédias do cinema mudo, no que segue : “Se existem anjos/acho que não leem/nossos romances” (...) “nem os nossos versos/reclamando do mundo.” (...) “Os espasmos e os gritos/de nossas peças teatrais/devem - suspeito -/impacienta-los.” (...) “No intervalo de seus afazeres/angélicos, isto é, não humanos,/assistem antes/às nossas comediazinhas/do tempo do cinema mudo.” E Szymborska vai explicando as razões desta preferência, no que segue : “Aos que se lamentam,/rasgam as vestes/e rangem os dentes,/preferem - penso eu - aquele pobre-diabo/que agarra o que se afoga pela peruca/ou faminto devora/o cordão do sapato.” A pergunta condicional se existem anjos é altamente especulativa, transitando entre crenças judaicas e cristãs e a fantasia evidente para os céticos. Contudo, Szymborska, ainda que condicionalmente, respeitando limites filosóficos, especula em cima de um ente que também não dá a certeza de sua existência, uma especulação poética para escrever um poema, e assim a arte embeleza uma incógnita, como muitas vezes faz, no que segue : “Se existem anjos,/deveriam - assim espero -/estar convencidos/dessa alegria que oscila no terror/e nem sequer grita socorro socorro/porque tudo se passa em silêncio.” (...) “Ouso até imaginar/que aplaudem com as asas/e que de seus olhos caem lágrimas/pelo menos de riso.”


ENTRE MUITOS


O enigma da origem toma a poeta Szymborska neste poema. Aqui no sentido de ser ela quem é e estar onde está, na especulação que envolve as circunstâncias de uma vida, suas transformações ou não, e que define um caminho de possibilidades ou da falta destas, no que temos : “Sou quem sou./Inconcebível acaso/como todos os acasos.” (...) “Fossem outros/os meus antepassados/e de outro ninho/eu voaria/ou de sob outro tronco/coberta de escamas eu rastejaria.” (...) “No guarda-roupa da natureza/há trajes de sobra./O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo./Cada um cai como uma luva/e é usado sem reclamar/até se gastar.” Szymborska também se questiona entre seu individualismo e a possibilidade de poder ter sido mais gregária, como num cardume ou num enxame, por exemplo, no que segue : “Eu também não tive escolha/mas não me queixo./Poderia ter sido alguém/muito menos individual./Alguém do formigueiro, do cardume/zunindo no enxame,/uma fatia  de paisagem fustigada pelo vento.” (...) “E se eu despertasse nas pessoas o medo,/ou só aversão,/ou só pena?” Szymborska então parte para a especulação insana sobre a condicional de se ela tivesse tido outra origem, o que ela seria, e aqui vemos : “Se eu não tivesse nascido/na tribo adequada/e diante de mim se fechassem os caminhos?” (...) “A sorte até agora/me tem sido favorável.” (...) “Poderia não me ser dada/a lembrança dos bons momentos.” (...) “Poderia ser eu mesma - mas sem o espanto,/e isso significaria/alguém totalmente diferente.” Ser diferente, um outro, já não é mais ser o que é, o princípio de identidade aqui se liga umbilicalmente ao enigma da origem, no que se refere à individuação e o surgimento de uma personalidade, de uma pessoa, aqui no caso da poeta Wislawa Szymborska.


(obs : Título do livro : Poemas / Autora : Wislawa Szymborska / Tradução : Regina Przybycien / Editora : Companhia das Letras)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

A POETA WISLAWA SZYMBORSKA E SUA FORMA POÉTICA

“O eu lírico de Szymborska também marca aqui a sua identidade como ente feminino”

A poesia de Wislawa Szymborska tem um caráter filosófico que suspende a certeza sobre a realidade e a coloca em questionamento, a parte reflexiva de sua poesia pode facilmente se associar ao conhecimento filosófico nesta sua forma de abordar a vida e o pensamento que produz em seu fazer poético este choque para renovar a perspectiva que temos da realidade como um todo.

No confronto com o acaso, o eu lírico em Szymborska se coloca neste fazer que também é evolutivo, a qualidade do pensar que se condensa em sua atividade poética. Um saber especulativo que desestabiliza estruturas viciadas é o papel do filosofar e aqui este tipo de inflexão é feito com a composição poética que Szymborska pratica.

Szymborska também insere temas insólitos ou incomuns em sua poesia e que não são usuais na poesia como um todo, tais como abordagens sobre as ciências naturais, e temas que têm origem na biologia. Ainda temos temas mais tradicionais à poesia como a História e a mitologia, e aqui em Szymborska temos temas bíblicos e da Antiguidade clássica.

O conhecimento sobre o mundo, indo agora além da pura metafísica especulativa, enriquece a poesia de Szymborska que, nesta sua inflexão reflexiva, se serve dos fatos do mundo para produzir o seu próprio pensamento condensado na forma poética, nesta brevidade que a poesia se faz e que consegue numa operação metafórica reunir toda uma amálgama e nesta forma acabada e breve da poesia dizer muito com pouco.

O estranhamento que se produz com a reflexão filosófica se torna um instrumento a serviço da produção poética de Szymborska. E como o manejo da linguagem também é o recurso da poesia, ou melhor, o seu recurso central, todo este trabalho coloca a linguagem fora de sua forma convencional. O eu lírico, por possuir este dom de manejo, consegue sair da convenção linguística e com isso produzir material novo e inédito para o mundo.

O eu lírico de Szymborska também marca aqui a sua identidade como ente feminino, a enunciação poética deixa clara a sua procedência feminina, neste caráter que define este feminino em seu lugar que difere em muitos tons de uma poesia masculina, e isto naturalmente, também pelo imperativo biológico e histórico, a não ser quando falamos de transições de gênero, o que não é o caso aqui. Portanto, em Szymborska também teremos a temática do feminino.

As marcas de gênero na poesia de Szymborska atuam no plano gramatical, em que temos isto em adjetivos e também na conjugação verbal, que no caso das línguas eslavas temos alguns verbos que possuem gênero, e os poemas também se referem a gêneros no plano semântico, tanto no poema “Museu”, que se refere a objetos, como na identificação do eu lírico a personagens femininas, como temos nos poemas “A mulher de Lot” e “Vietnã”. Não há aqui um eu lírico como sujeito transcendental e anônimo de enunciação, pois temos a presença da individualidade, de uma voz individual e que se define pelo feminino.

A poesia de Szymborska, por sua vez, não entra diretamente em temas políticos específicos, mas está envolvida nas transformações que ocorreram na Polônia, tanto na ocupação nazista como na ascensão comunista no país. O caráter temático mais universal de sua poesia, no entanto, pode ser palatável para diferentes culturas, tornando a sua poesia cambiável e de fácil adesão.

POEMAS :

UM GRANDE NÚMERO, 1976

AGRADECIMENTO : Este poema mistura a ironia a uma espécie de visão desassombrada sobre o amor e a liberdade de ter na autonomia sentimental um tipo de trunfo em relação à vida, no que temos : “Devo muito/aos que não amo.” (...) “O alívio de aceitar/que sejam mais próximos de outrem.” (...) “A alegria de não ser eu/o lobo de suas ovelhas.”. A poeta anda com os que ela não ama para desfrutar desta liberdade original de não-pertencimento, como uma nômade sem porto, no que vem : “A paz que tenho com eles/e a liberdade com eles,/isso o amor não pode dar/nem consegue tirar.”. Ela não sente a ansiedade apaixonada, seu coração não palpita, ela tem uma alegria insuperável de quem comanda a própria vida, tem o leme de seu destino, e tem um coração que voa sem ficar na espera desesperada, no que temos : “Não espero por eles/andando da janela à porta.”. Com os que ela anda, ela tem o sucesso de sua independência, ela vislumbra uma paisagem clara, e temos : “As viagens com eles são sempre um sucesso,/os concertos assistidos,/as catedrais visitadas,/as paisagens claras.”. Sua conclusão existencial é seu espaço sem lírica e sem retórica, no que temos : “E quando nos separam/sete colinas e rios/são colinas e rios/bem conhecidos dos mapas.” (...) “É mérito deles/eu viver em três dimensões,/num espaço sem lírica e sem retórica,/com um horizonte real porque imóvel.”. Ninguém se importa por aqui, todos seguem o seu caminho, nas escolhas de seus corações, e o amor aqui tem um sabor livre e que não se afunda : “Eles próprios não veem/quanto carregam nas mãos vazias.” (...) “Não lhes devo nada -/diria o amor/sobre essa questão aberta.”

A MULHER DE LOT : Aqui temos o tema de Gênesis, na Bíblia, da queda de Sodoma, em que a mulher de Lot dá uma última olhada para a cidade em sua fuga e vira uma estátua de sal, no que temos : “Dizem que olhei para trás de curiosa./Mas quem sabe eu também tinha outras razões./Olhei para trás de pena pela tigela de prata./Por distração – amarrando a tira da sandália./Para não olhar mais para a nuca vitoriosa/do meu marido Lot./Pela súbita certeza de que se eu morresse/ele nem diminuiria o passo./Pela desobediência dos mansos./Alerta à perseguição./Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.” A mulher de Lot elenca os seus motivos, a poeta Szymborska pontua a partir daí uma sugestão de reflexão, e lógico que isto está associado à ruína da mulher de Lot, em sua decisão desastrosa, no que temos : “Olhei para trás por receio de onde pisar./No meu caminho surgiram serpentes,/aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.” As consequências logo vêm, e são inevitáveis, no que temos : “Olhei para trás de solidão./De vergonha de fugir às escondidas./De vontade de gritar, de voltar./Ou foi só quando um vento bateu,/despenteou meu cabelo e levantou meu vestido./Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma/e caíam na risada, uma vez, outra vez./Olhei para trás de raiva./Para me saciar de sua enorme ruína.” A descrição da ruína de Sodoma aqui se mistura à ruína interior da mulher de Lot, tudo vindo como consequência de escolhas ruins, no que temos : “Eu continuava correndo,/me arrastava e levantava,/enquanto a escuridão não caiu do céu/e com ela o cascalho ardente e as aves mortas./Sem poder respirar, rodopiei várias vezes./Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava./É concebível que meus olhos estivessem abertos./É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.”

O TERRORISTA, ELE OBSERVA : A observação tétrica do terrorista aqui se ri do acaso e da tragédia, enumerando de forma cruel a relação entre o tempo cronológico e a morte, no que temos : “A bomba vai explodir no bar às treze e vinte./Agora são só treze e dezesseis./Alguns ainda terão tempo de entrar;/alguns de sair.” A poeta Szymborska acompanha este olhar do terrorista diante de sua obra de morte, no que segue : “O terrorista já passou para o outro lado da rua./A distância o livra de todo mal/e a vista, bom, é como no cinema:” (...) “Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra./Um homem de óculos escuros, ele sai./Uns jovens de jeans, eles conversam.” Toda uma rotina normal que estava prestes a levar um choque, no que vem : “Treze e dezenove./Parece que ninguém mais entra./Aliás, um gordo careca sai./Mas remexe os bolsos como se procurasse algo/e às treze e vinte menos dez segundos/ele volta para buscar a droga das luvas.” E a explosão : “São treze e vinte./O tempo, como ele se arrasta./Deve ser agora./Ainda não./É agora./A bomba, ela explode.”

RETRATO DE MULHER : A poeta enumera aqui os predicados do feminino e a relação de expectativas com uma mistura de humor e ironia, no que temos : “Deve ser para todos os gostos./Mudar só para que nada mude.” (...) “Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um./Ingênua, mas a que melhor aconselha./Fraca, mas aguenta./Não tem cabeça, pois vai tê-la./Lê Jaspers e revistas de mulher.” E a descrição se torna plena, risonha, e segue : “Jovem, como sempre jovem, ainda jovem./Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida/seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua”. E temos o amor que também aqui se pretende pleno : “Corre para onde, não está cansada./Claro que não, só um pouco, muito, não importa./Ou ela o ama ou é teimosa./Para o bem, para o mal e para o que der e vier.”

O QUARTO DO SUICIDA : A descrição aqui nos dá um retrato de um suicida não como inserido num cenário paupérrimo ou desolador, podemos ver aqui uma riqueza de referências, e como isto ainda foi insuficiente e não poupou este desastre do suicídio, no que temos : “Vocês devem achar que o quarto estava vazio./Pois havia ali três cadeiras de encosto firme./Uma boa lâmpada contra a escuridão./Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais./Um Buda alegre, um Jesus aflito.” A poeta segue em sua descrição e nos sugere uma visão do suicídio fora da chave habitual de um desespero óbvio em que o desamparo é evidente, aqui podemos ver que o suicídio ocorre em todos os cenários possíveis, a sua falta vem de lugares inauditos, imprevisíveis, no que temos : “Acham que faltavam livros, quadros ou discos?/Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras.” E tão terrível, que é um suicídio silencioso, sem carta : “Na estante Ulisses num sono reparador/depois dos esforços do Canto Cinco./Os moralistas,/seus nomes inscritos em letras douradas/nas lindas lombadas de couro./Ao lado, também os políticos perfilados.” (...) “Devem achar ao menos que a carta explicasse algo./E se eu lhes disser que não havia carta -/éramos tantos os amigos e coubemos todos/no envelope vazio apoiado no lado do copo.”

VIDA NA HORA : A vida aqui é tomada por si mesma, sem inflexão conceitual e, sobretudo, sem metafísica, em sua lida direta, objetiva, tal como vem, segue a poeta : “A vida na hora./Cena sem ensaio./Corpo sem medida./Cabeça sem reflexão.” (...) “Não sei o papel que desempenho./Só sei é meu, impermutável.” A astúcia vem deste poder de decisão rápida, consequente, e segue :  “De que trata a peça/devo adivinhar já em cena.” E o ritmo vertiginoso em que o acontecimento joga entre o plano e o inaudito revela a resiliência e toda a responsabilidade das escolhas, no que segue : “Despreparada para a honra de viver,/mal posso manter o ritmo que a peça impõe./Improviso embora me repugne a improvisação./Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas./Meu jeito de ser cheira a província./Meus instintos são amadorismo.” A poeta revela também as suas falhas e eventuais amadorismos, atuando com dicção provinciana, por vezes, diante de desvãos sofisticados, no que segue : “Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes/ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!/Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.” Ela pensa em como refazer, mas só poderá recomeçar : “O palco giratório já opera há muito tempo./Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas./Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia./E o que quer que eu faça,/vai se transformar para sempre naquilo que fiz.” E a fúria irreversível do fato, do feito, para o bem e para o mal, neste palco deslizante da vida.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-poeta-wislawa-szymborska-e-sua-forma-poetica