PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

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domingo, 3 de julho de 2011

A DESCOBERTA DO POEMA

Descobri agora um poema

que se calou por muito tempo,

sem rima e sem dor,

sem alma e sem olor.

Eis um poeta que sentiu

nada deste poema,

ele nunca o concebeu,

eu vi a tristeza que está

em todos os versos

deste poema oculto

e agora à luz do dia

ele se revela

com a água e o ar,

tão fluente em suas ondas

quanto o mar infinito,

tão desejoso de morrer

quanto um suicida sem temor,

eis o que é o seu horror,

eis o que é o seu amor,

poema ... um fato de palavras,

palavras por muito tempo

ignoradas e contidas,

e que neste momento do presente

vem à claridade de todos os poetas

que querem prová-lo,

seu desenlace é agora,

seu tempo é o mistério

que o verso agora dá fôlego

a quem o escreve

sem medo da morte

ou da solidão.



07/08/2010 Gustavo Bastos

TERNURA E MELODIA

Tenho andado, nesses dias passados,

como uma flecha sem rumo

até ao alvo inesperado.



Sou testemunha da vida,

observo as vidas deste caminho

pelo qual sou poeta sem poetisa

ou sem musa.



Venho do mundo paralelo do verso

que tudo vê e tudo sente,

sou o inverso no que se escreve

neste verso,

sou azul ou amarelo,

tenho as cores em mim

e um vazio violento

de abismo e saudade.



Olhos ao encontro do dia,

sei do que sei ao sentir a nuvem

do claro dia,

e no outro dia que vem,

o sol se vai e a chuva vem,

sou como todos,

um eterno humano

que se faz de amor, ódio

e alegria,

sou o fim humano,

finito na carne

e infinito no coração.



07/08/2010 Gustavo Bastos

domingo, 26 de junho de 2011

DOCE CANÇÃO

Tão perto quanto deseja o meu desejo,

tenho audácia no peito

e vejo tão clara nuvem

e uma flor vermelha

no coração da donzela,

e aqui vão mil palavras,

tudo indo com espanto e admiração.



Tão longe o vento navegante ...

que de sonhos e delírios

clareou o dia e escureceu a noite,

que planejou o infortúnio do destino

e as vagas da liberdade,

que furtou a riqueza para um céu particular

no paraíso imaginário,

jardim edênico que invade o tempo,

flor descalça, mulher que flutua,

tão devassa e tão nua,

que entre eu e ela

exista a distância do infinito,

e que o futuro seja agora,

como a hora do último suspiro.



12/06/2010 Gustavo Bastos

VIAGEM PARA O FUNDO

A casa mal amada dos olhos meus

está na neblina do olvido.

Quero ferir o coração

em tenebrosa nuvem escura,

e dardejar o pranto

com o eclipse do tempo

mal contado do relógio.



Sou o trigo desta terra bendita.

Caio num sopro pelo infinito

de navios e cais.

Tenho em minha varanda

o sol sempre sonoro

de uma lama vermelha

do crepúsculo final.



O ventre de uma vil fêmea

não me fez alegre e nem homem

viril.

Sou vítima do ardil suicida

da tempestade da bomba,

um serviçal do agouro

para a metafísica das sombras,

o exílio fumegante

da dor carnal esquartejada

pelo ódio dos soldados

ao pé da montanha negra

dos meus ares imaginários.



Cada queda fazia o meu poema,

e eu vivia de onde o mar era oceano.

Pelo canto fatal eu não dormia,

e era a manhã de um cinza pálido

que depois a aurora cobriria

de arrebol em todos os lares,

e as antenas e satélites

tomariam fôlego

para a imagem etérea do dia

e o fim funesto da noite.



Eu queria como queria deitar

na várzea sob um signo de espanto,

e matar os bois para um apetite

devorador e eterno.



Não terei que me fazer poeta

por estes estertores e devaneios,

sendo isto, a sombra transcendente,

o meu silêncio para o nada.



Desta casa e desta varanda,

sonho com um coração imenso

donde se tem uma visão da praia

em que posso beijar o mar,

e deste imenso da imensidão,

mergulhar para o profundo

do qual ninguém sabe voltar.



07/06/2010 Gustavo Bastos

terça-feira, 21 de junho de 2011

OLHOS DA CANÇÃO

Olhai a vasta canção,

é feita de pó e de estrela,

é do céu a mais perfeita sonoridade.



Seja esta canção o encanto

da magia de viver,

que por um soluço após o silêncio

seja farta de belezas.



Não será uma visão pueril

e nem um verso escasso,

pois de poetas vive o viço das árvores

e o marulho do mar no seu abismo.



Olhai a vasta canção,

sua origem é o coração,

que morto ou vivo está,

que na poesia está ...

tudo mais será ruínas,

a fatalidade do tempo

é a música que brota

no eterno campo revelado

sob a forma de poema.



Não tenhais medo,

vós todos que nunca sabem

qual será a hora da morte,

se vivo estais.



12/05/2010 Gustavo Bastos

SONHOS ENIGMÁTICOS

Pelos cantos atávicos de uma tribo

se ceifou a vida noturna em fumaça,

e toda a prole da selvageria

se ungiu em fonte eterna e pagã.



A seita na qual o enfermo convalesce

é a ordem fundamental do cosmos em poesia,

e tudo que é rarefeito torna-se sólido

como um verso de pedra.



Antigas cavernas tinham caçadores

de sonhos e delírios brutais,

hoje são apenas fósseis desnudos

e que eram enterrados sob fogueiras.



Do além o grito subterrâneo

acorda um diabinho azul

fazendo corte às mulheres do sultão,

e o cadáver revive qual lazarento

disforme em filosofal ressurreição.



Os donos das palavras

vivem no silêncio da noite,

pois é o mistério da vida

o grande enigma do pensamento.



15/04/2010 Gustavo Bastos

OCEANIA LAGUNA (THE LAKE)

Peço à vida que não perdi

um oceano de calma

sem um rio de mágoa.



Peço ao transeunte que me ignora

que olhe ao redor e não pro chão.



Poucas coisas são tão belas

quanto a enseada e o binóculo

que quer todo o horizonte.



Eu sei de coisas que não ouso confessar,

das vidas possíveis

sobrou uma boa fome

de palavras.



Exilado fui de minha cabana

e de meus idílios,

sou o corpo desfigurado

do verso como um fogo

de astúcia e vento.



15/04/2010 Gustavo Bastos

domingo, 12 de junho de 2011

A MESSE DA VIDA

Penso agora como é certo

estar bem interessado

em toda sorte de aventuras.



Passo diante do jumentinho

e das águias luzentes.

Passo com o meu coração

em chamas.

Hoje tive um sonho,

e era um sonho cheio

de pétalas vermelhas

com uma mulher banhada

em sangue.



Onde pulsa a juventude

está a luz e a sombra,

onde pulsa a juventude

está o rio e o mar,

onde pulsa a juventude

está tudo.



O amor pode ser um cadáver.

O amor pode ser imortal.

O amor pode ser uma mentira,

mas é uma mentira fatal.



Penso em todas as coisas do universo,

até das coisas desconhecidas cogito,

a imaginação beira o delírio,

e a juventude é o cio da noite

até ao raiar do dia

quando o sol nos apanha.



Não morro agora.

Não morro amanhã.

Há uma estrela que me guia

para o meu lar.

És bela como a mulher devorada,

todo corpo belo tu és,

toda beleza tu és ...

não falo de fantasias somente,

eu apenas sinto o querer fervendo

de paixão.



Não quero amar para o infinito,

prefiro morrer de amor.

Não quero que seja agora

a hora fatal,

espero viver muito mais,

com a leveza da seda

em meu sorriso,

e com os teus olhos

em minha boca faminta.



Olho-te, és deusa,

te chamo de poesia,

quem tu és?

Te chamo de poesia,

poesia é destino,

sedução e castigo.



Tenho na alegria do poeta

o seu canto desvelado.

Amor ... tudo passa!



Então me esqueço,

não tenho mais mágoa,

apenas sou perdão,

o vinho é o meu escárnio,

e a carne o meu martírio.



Agora sim não é mais o sepulcro

a minha morada,

mas antes a eternidade

que vive no céu a voar.

Tudo é de Deus,

sou apenas um grão,

messe após messe,

faço a minha vida.



07/04/2010 Gustavo Bastos

THE FEELINGS OF TOMORROW

When my eyes are opened,

I feel today like yesterday,

I like to swim in my heart

and get my tools

to break all the places.



I got so high these days,

I feel today like yesterday,

so I don`t pay for the priceless soul, then.



My selfish way got the design

of release,

from my desk I cannot write

the wright way I do love ...

What the hell?

Heart is pain, pain is peacefully

my feelings over my turns.



I feel today like yesterday,

and tomorrow I`ll never say.



02/04/2010 Gustavo Bastos

A VIDA É UM SOPRO

Considero que a chance de viver

por mais que a dor pungente

nos doa, é o maior desafio´

para todos os que estão no mundo.



Concordo que nada é perfeito.

Mas qual seria a graça da perfeição

sem os nossos defeitos?



Vamos vivendo, seguindo sem rumo

o que nos acomete no árduo caminho

com o qual nos damos de súbito.



Para qualquer um é a mesma vida

com as várias possíveis chegadas,

já que das partidas todos começam

pelo inescapável choro ao nascer,

e quando morremos,

poderemos ver se há o outro lado do mundo,

e se houver, descobriremos

que somos eternos

e não carne de vermes.



Eis que nada é surpresa,

o corpo fica nu na madrugada,

e o tédio é a companhia

dos que não têm nada.



Ora, este é o consolo:

A vida é um sopro,

já disseram isso antes ...



01/04/2010 Gustavo Bastos

DESPEDIDA

Vai-te agora e não fale mais comigo,

pois a noite envolve toda mentira,

e o amor que nunca foi meu

passou ao ódio e ao rancor,

mas esta febre passa,

como passou o torpor.



Vai-te para nunca mais e bem longe.

Tua carne eu nunca quis,

um belo corpo

não vale mais

que um poema qualquer,

e eu sou louco pela miragem

que há no delírio de todo prazer.



Vai-te para o inferno,

que eu escolho o meu destino.

A vida é uma perdição dos sentidos,

e só a fé me fortalece,

depois de uma luxúria fria

e sem valor.



Vai-te para o tédio dos teus dias,

e me deixa com a minha caduquice

de poeta trágico

e pronto para a peleja

de ser o que sou.



Este poema é a veia fatal,

este poema é o vinho da vida,

e aqui me tenho como um jogral.

Vai-te então, e não olhes para atrás,

aqui eu fico e te desejo boa sorte,

o paraíso do amor é a messe do futuro.



05/03/2010 Gustavo Bastos

terça-feira, 7 de junho de 2011

DO MEIO-DIA À MEIA-NOITE

Antes morrer com uma flor

em meu peito,

do que no fogo padecer

pelo despeito.



Antes o sol nascer

na sua aurora,

e toda a claridade aparecer,

do que o poeta não escrever

tudo o quanto sente.

E que em seu peito ferido,

saiba ele conduzir com maestria

o seu verso que sai

do coração pungente.



Vamos saudar o meio-dia,

todos os que escrevem,

todos os que pintam,

todos os músicos,

todos os artistas.



Pois neste nosso século

todos se dizem artistas,

mas são poucos os que honram

com o coração caro

a beneficência de saber

respeitar ao universo e aos homens,

e terminar na meia-noite

com uma ideia perfeita da vida.



01/03/2010 Gustavo Bastos

ALÉM DA ESCURIDÃO

Ali, logo ali, onde passa

essa gente toda,

estou olhando além,

o horizonte é este destino

ao qual o meu olho quer ver.



Dia após dia, toda a gente passa

e a vida quer sempre

estar além das ruas,

além das casas,

além do chão,

bem para lá do céu ou do mar.



Eu então me purifico

de todas as toxinas

que me deixam exangue,

me purifico

da grande máquina do mundo,

e assim posso sorrir

por ter ido além das minhas fraquezas,

este sim o além que vale para a vida,

toda a gente também se salva,

num momento propício

em que a fé abre o véu do segredo

da terra, e nos revela

seu amor sem fim.



01/03/2010 Gustavo Bastos

POEMA PRA PULAR CARNAVAL

Com as unhas

com os dentes

segura o pandeiro que é carnaval!

Agarro a mulata sorridente

com as unhas

com os dentes

vamos pular que é carnaval!

O bloco sai na rua

e gritam os vendedores de cerveja!

Vamos que o malandro

vai passar com o seu sapato branco

e um monte de estória

pra te conquistar!

Vamos nessa, sonho carnavalesco,

vai passar, vai passar ...

a Mangueira é a minha escola,

verde e rosa eu quero pra mim,

quero o sol radiante

do mestre-sala e da porta-bandeira,

o reco-reco, a cuíca,

o bandolim, o cavaquinho,

a bateria nota dez!

O samba e o choro,

o rouxinol e a multidão,

com as unhas e os dentes

eu sou folião!

Esta é a canção! Esta é a canção!

Carnaval é para todos,

a democracia sexual

de nossa ópera fundamental!

Carnaval é a alegria do povo,

carnaval pra pular,

no batuque negro

desta alma popular,

num país continental

com suas mazelas

e virtudes,

este é o nosso

sonho de uma noite de verão!



12/02/2010 Gustavo Bastos

CIÊNCIA DA FELICIDADE

Terras das quais eu quero o ópio,

na nuvem que cobre a razão dos dias

sobra um entorpecimento feliz no oceano

de frente ao vasto solo

de liras e canções.



Terras desbravadas pelo moço

que escreve o próprio dia,

razão e certeza da vida que ele leva.



Uma menina, no seu canto,

declara amor à selva de viver,

funda em sua casa

o amor comum de sua feminilidade.



Outro dia qualquer eu também

encontraria a minha razão,

esta estaria perdida no mundo

como uma voz dispersa no infinito,

eu a traria de volta para mim

num suspiro desta viagem insólita

que é ter que viver

sem reclamar do tédio

e da cerveja,

uma vida plena e feliz

independente da solidão,

uma vida igual a do moço e da menina,

uma vida sempre viva para viver,

mesma canção de todas as outras

pelo caminhar dos meus dias,

sou feliz e pronto.



01/02/2010 Gustavo Bastos

SEM PORQUÊ

Puríssima tristeza, no que vai o meu desespero.

Estou curvado diante de ti, imensa sombra

na minha vida.



Esta sombra, a qual denuncio

de meu passado cabisbaixo.

Este meu passado sem solução

do meu soluço.

O meu choro de lágrima diária

é por nada ser tudo o que existe,

pois da porta de casa à rua

eu vi um suicida cantar

a sua morte,

mas estou vivo sem porquê,

apenas me sinto mais perto

de meu delírio,

sou o cartaz do filme escuro

da sombra triste

de um passado mortal,

sou a reza sentimental

do próximo carnaval,

viver sem saber,

morrer sem porquê.



30/01/2010 Gustavo Bastos

MISTÉRIOS DOS MEUS EUS

Em meu destino mora

uma infinita incógnita.

Quem sou eu por toda a eternidade?

Selvagem, uma criatura ímpar

como todas,

cheio das dores amargas

e dos doces enlevos

de uma vida

como todas.



Ora, onde deixei o rio caudaloso

invadir a minha memória?

Pois a minha vida é um rio vasto

que não acaba senão no mar

que é de um brilho verde e azul

que uns costumam

chamar de fúria

e outros de tudo amar.



A incógnita fatal é a minha morte,

apenas um norte numa névoa

de floresta indecifrável

em um plano geométrico

em que não há cálculo humano

que possa concebê-lo

sem vertigem.



Eu sou a pátria do meu sangue,

sou eu somente com a minha coragem,

sou eu e a minha espada,

pronto ao futuro.



12/01/2010 Gustavo Bastos

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O QUÊ (POEMA NONSENSE)

Da própria fala eu guardo o gesto abjeto.

Teatralidade do caos, eu salvo a meretriz

e bendigo o ladrão.



Da escrita só nos resta a palavra morta,

outro dia eu vi um ovo nascer

das letras renascidas

que querem o além do ver.



Para tanto o que eu quero

é o não querer.

Para tudo não para somente nada,

e isto é tudo que eu não paro.



Poema-caixão.

Poema do caos e do inferno.

A palavra é um espasmo da alma

enquanto carne que fenece.

Além de todos os símbolos

está a fossa de tudo perder,

perdido corpo de nuvens

e o esmero do poeta

que é o suicídio do verso.



Ora tão pronto quanto o homem,

maduro para se ter

os olhos decididos

para um mártir desiludido.

A paz é agora

a guerra da palavra

sem sentido.



Vamos escrever para quê?

Vamos caminhar para onde?

A selva dos porquês,

um cipoal da existência.

Não tenho tempo

para me fazer entender.

A vida é um sem saber o quê?



25/12/2009 Gustavo Bastos

SONHO MISERÁVEL DO AMOR

Me detive na névoa

e um pássaro pousou nos

meus olhos,

era um sonho.



Mas o que não é um sonho?

Eu conheço a alucinação

do amor perfeito,

é uma tristeza bela

como a musa insana

do meu calafrio.



A névoa é um livro que eu escrevo sonhando.

Pois é neste sonho que eu sou

o mais terrível sonhador.

Eu quero tudo, como quero

nesta vida um pouco de felicidade

e depois uma melancolia

para que o poema nasça

negro e cheio de dor

para depois voar

como o pássaro

que vai para o céu

sem pensar que a vida

pode ser uma miséria

ou uma canção de amor.



25/12/2009 Gustavo Bastos

DA VIDA QUE ME ESPERA

Nua noite, o que me espera?

Esta vida de rosa

vermelha escandalosa.

Mergulho em teu ventre

e encontro a pérola da saudade.



Sei o que desejo ao abortar o amor

da esmeralda em teu calor.

A praia também está nua,

o albatroz, a gaivota

e o barco de pesca

são personagens de um cenário

da ficção poética

do sal e do mar.

Tenho que planar, ó saudade da noite

tão em festa!



Por uma vida rubra como a minha,

não vou navegar em vão

pelo destino em que me encerro,

sou o horizonte do meu livramento,

quero a paz do meu lamento,

sou uma dose entorpecente

de fogo,

quero a minha vez no amor

do sangue jovem

que não quer descanso.



Ó juventude! Está passando o tempo.

No futuro que me leva

sou apenas um tempo para a morte.



25/12/09 Gustavo Bastos