PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

QUADRA EFÊMERA

Sobre o cadafalso um grito na chuva.
Sofre o ímã dos ventos com ar de lufada,
nasce doído o tão casto calor da lua,
e nada existe na rua encharcada.

Vai-te ao sino dos sinais misteriosos,
luta em teu contorno de flama,
vai e subjuga o temor dos lamuriosos,
fazer da carne o mais bruto drama.

Joga o susto na paz demudada,
e livra o povo da adaga do sol,
pois de luta o fraco faz nada,
 e o porto descansa com a paz do anzol.

Gerações idiotas, um poema aviltante!
Quem sabe a luta pela flor vingada
seja o tempo em seu falso instante,
e da flor não fique nada.

27/02/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

QUADRANTE SOLAR

O sol do poema se veste
como leão na esfera veraz
de minha cantiga agreste
na terra da paixão que jaz

O sonho trevoso refulge
em tons vicejantes de poder
nas luas sentidas de condoer
varando a noite no meu lume

Das abóbadas sonhadoras de vigor
um sentimento pátrio de rima
verga o tronco do poema devedor
de meus sóis que vão em dor vendida

No passo ao címbalo de meus átrios
corroem céus submersos de mar
num verbo corrente do verso amar
sem chão e sem solilóquios vários

Em vã solidão não há céu em clarão
senão o limbo das almas derrotadas
por não saberem se voltarão
sem riquezas na lida das mansardas

Como lírio de selva na miragem
saberá de seus pendões a morte
que um dia foi o norte que não volte
de um tempo ímpio que não mais fazem

Pelo sino que toca à hora funda
se volta ao campo em dor e pranto
não mais rima que vai à barafunda
roer os ossos ociosos que canto

Ver de verde firmamento a escuridão
no silêncio da noite tal sentimento
com vigor terrível do mar que arrebento
no sal do poema que revelarão

Não serei torpe figura de tropa
ao ver de través meu langor
em lindo vagar que nunca soçobra
pelo canto sem rumo e sofredor

No acalanto das feras em prístinas eras
quando louvarei meu vitral
senão desperto em sonho venal
do que fui e de poesias severas

O estro e astúcias aos borbotões
ascensionam almas no vinho bruto
ao sol deserto da carne que tu pões
não virá sem hora na dor do murro

O poeta sentirá na carta o poema
e seu verdor refletido nas parcas
como em costuras fiéis e armadas
do livro que terá o poente que lamenta

Eu verei sem rancor e sem vertigem
a cor da vida pelo céu azul
pois dada à suma que é virgem
um terror sem bruma do debrum

Deblaterando-me com dor de fel
visto minha cabeça de aurora
uma vez rimada na lua que demora
perder-me em açoite como um fiel

Ao horror do último fragor
eu olharei a sensação ferida
qual lampejo que ama o sonhador
pelo que vi qual luta ser a vida

E a vida nunca tão esbelta
quão bela é a espada
vai viver a senda da nau esparsa
de lustre brilhoso de poeta

Vai o sol aurora férrea
redivivo senhor de si
avivar o vinho da azaleia
parar o corpo que ri

Da comédia ao drama da arte
tem todo o sonho quão delírio
desvelar o mar que aqui miro
uma vez por todas sem matar-me

Das nuvens o cume do lugar
desdita do criador anuncia
o poema do tigre sem desandar
num cais da nave em sinestesia

E jurar sob o sol no lagar
um juramento de ritmo à lua
vento soprando que não se ruma
senão para o silente caminhar

E na noite qual felicidade
ver tudo sem nada que arde
a não ser da noite o vil sonho
que não sei  mais como lhe ponho

Pois da carne ao labor da alma
tudo é lama e chão que nunca acaba
é o caminho eterno do poeta
que tem e entende tudo que acerta

Das dores os sóis pungentes
dos prazeres vis corpos de gentes.

20/04/2012 A Lírica do Caos
(Gustavo Bastos)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

CANÇÃO DA RELVA

Venho de canto silvestre
orar pela chuva no sol
do meu desejo agreste
de cantar no arrebol

Venho sem fim até o nada
velejar no velame vetusto
encontrando o céu e a mansarda
pela noite qual veludo

Não via toda a queda da ânsia
pois forte vinha a poesia
dizer sem medo e sem jactância
que tudo no vinho eu veria

O verão caiu em sonho estrelado
da noite o iridescente chão
que num momento desejou o enfado
e depois restituiu a razão

Não há temporal ou tempestade
que me tire do meu encanto
já que vivo num dia de saudade
o passo firme do meu pranto

Encontro a certeza destes ares
derrotando vis langores de trevas
com a mão forte de todas as artes
contemplar o fulgor das relvas.

11/04/2012 A Lírica do Caos
(Gustavo Bastos)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

VELHAS RIMAS AO RELENTO

Vida ínfima, de que tão
corroída vida faz frente
ao vinho e à solidão,
vida fria como quente.

A poesia dá seu encanto
ao poeta mestre de si,
que dá tanto ao canto
quanto ao que sofri.

Não sei de nada e vivo assim,
sou eu mesmo perto de ti,
e nada sou quando fico no fim,
pois de mim vou ao que vi.

Não há nada que me convença,
sou poeta e não cantor,
vivo deste modo a vida intensa,
e não sou filósofo do rancor.

Vai a nau destemida como a força,
vai vadiar na rua meu estro,
levando consigo tão rara moça,
ela morreu e eu fiquei desperto.

Ó terrível mandala dos sonhos!
Me afogo em teu vinho ou veneno,
ao que me largo em vis assombros,
de que um dia foi sofrimento.

Não há paz e nem alento,
do que venho em meu livro,
escrito pois no relento,
que não me salva do que sinto.

Poetas destas moradas,
quão falazes são vossos versos,
que eu pequeno sonho de touradas,
morro nu no meio dos desertos.

Não tem vida neste campo estéril,
sou o temor e a liberdade,
pois de cada um ao seu mistério,
me resta a poesia e a saudade.

03/02/2012 A Lírica do Caos
(Gustavo Bastos)

terça-feira, 14 de junho de 2011

PRANTO DESALMADO

Calada e funda, a noite miserável.
Minha morfina em alma decantada,
faz de mim vinho tinto memorável
pelo canto do cisne em dor atormentada.

Desejos espúrios brotam da vontade,
e um lagar em campos edênicos
me vinga a carne de toda vil arte,
já posta em ritmo de sóis sinfônicos.

Perto de mim uma dama cega de paixão
canta sua dores incalculadas,
e o meu amor morre com frio de ilusão,
que do inferno cai em loucuras desazadas.

Forte foi a bebida seminal
que eu ingeri pela brava beatitude,
em céu tão tenebroso não sou marginal
que peca sem volta ao destino da juventude.

O amor que vem desesperado,
não é o amor que quero ao meu lado.

14/06/2011 Delírios

domingo, 27 de março de 2011

SONHO DE UMA ALMA EM DEVOÇÃO

Pela breve chama que um dia aportou no meu caminho

tenho o sonho vão de fazer de mim clareiras

onde o universo conspira numa veste de linho

tenho alta a amorosa luz com que me vêm as feiticeiras



Onde o alvo se esconde com a penumbra

sou o pássaro da luz distante

para o que há no voo de tanta pena rubra

faz deste céu o meu mais caro diamante



Leve e sucinta a a alva flor que desperta

pois ali é que o beijo se faz repentino

tal como se abrem as asas de um anjo asceta

em que a palavra canta seu eterno ninho



Das almas o vento traz sua veia ondulante

o tempo para os mártires de um sopro breve de vida

a viagem com que nunca terminará o amante

sua dor de brocados numa paz entristecida



Para nós basta somente um instante

o átimo em que está a resposta

apenas uma languidão de veia inebriante

que renasce em minha alma devota



02/05/2009 Gustavo Bastos

domingo, 23 de janeiro de 2011

SEMINAL

Saber o que é principal na existência,

eis o que é sábio para a vida.

Somos asas de pura iridescência,

folgados brasões de livre partida.



Eis o vinho que nos faz voar,

numa febre de volúpia

ao som do libertino tear

em que a poesia é cerúlea.



Do karma que tudo carrega,

sou deste vinho e do mar.

Da vida que nada entrega,

sou da lida de tudo encontrar.



Eu sei o quanto posso filosofar,

mas não é ainda a teoria,

mas a prática de amar

a minha mais pura ambrosia.



Pois na canção está o êxtase do vitral,

que num momento é o vinho seminal.



21/08/2009 Gustavo Bastos

AINDA ENQUANTO EXISTO

Ninguém partiu desta vida

sem extasiar-se antes da morte,

quando tudo se diz antes forte

do que mal agouro de faca suicida.



Não lamento quando tenho o intento

de arcar com o coração no frêmito

estando em vida como unigênito

saudando o zênite de todo esquecimento.



Mas com a visão desarmada

posso cantar por todo o amor

que é de uma vida o seu fulgor

e que é pranto e vida em flechada.



Ninguém se diz morto enquanto vive.

E na última hora não há o que esperar,

senão o parco da memória que é amar

o desvario enquanto ainda tudo existe.



21/08/2009 Gustavo Bastos

DO APRENDIZ DAS RIMAS

Aprendi a tocar com o toque da carícia

tudo ao meu par serei eterno

eu que me dou em coração terno

rompendo a noite fatigada em delícia



Do meu reino mostrarei as lápides

onde o cão morre triste e sem alma

estarei como o vinho em seus mármores

colunas do meu reino onde se tem a cor alva



Aprendi o sonoro tempo da magia

para o meu prato de virtudes

para o certo rumor das minhas atitudes

aprendi a ser eu mesmo diante da covardia



Sou a alma selvática em miragem e pó

sou quem renasceu no serviço das marés

aprendi a cantar diante da morte sem dó

me revirei nos cascos numa manhã de convés



Do meu reino sou o cristão navegante do abismo

virei-me em anjo e nau combalida

virei-me em céu e cantata na subida

subindo mais além do temor sem risco



Ao que posso esquecer não me dou mais por inteiro

a minha face inteira será de quem a compreende

sou o aprendiz de feiticeiro

na dádiva de todos os tempos na vida presente



06/03/2009 Gustavo Bastos

A REZA DA PRAIA (VIDA URDIDA)

Do meu pendão se cria a pia batismal

na qual se honrou o meu parto heroico

e caiu na realidade a minha vinha visceral

de todo porto onde vive o mar do meu introito



Eu estava calejado pelo tempo em seu costume

de ter a peste por dama e musa do meu cajado

e o vinho seco e as várias crias de betume

para o excelso sabor das minhas filhas navegado



Sou o que perdeu as virgens em barca infindável

o meu leque e a proa vivem em mar catastrófico

a tragédia do ardil em que se fez o impossível

abriu-se em flor e depois a bela dança saiu no trópico



Deste verão eu sei o calor deste verão amor

seu lema é a vida hermética e temporal

da queda dos anjos onde vem cair o verdor

das árvores da simetria para combater o mal



Deitei-me seminu como cadáver no poço

a praia estava ótima e resplandecente

eu orei por horas para a salvação que ouço

bramir espadadas nas cabeças doentes



Não temai o meu sorriso e a minha cavalaria

passou o carnaval como noite urdida

pelos cânticos dos anjos de bondosa orgia

e os santos sabendo a reza da qual se fez a vida



03/03/2009 Gustavo Bastos

sábado, 18 de dezembro de 2010

O DIA EM QUE MORREREI



Nunca saberei de que maneira morrerei

se vou deixar os meus iguais tristes

nunca sentirei a pálida sensação dos que enterrei

onde posso sentar-me em nuvens agrestes



Nunca morrerei sabendo se vou pairar

no alto da madrugada com o sabor da terra na boca

ou se encontrarei o símbolo da vida no mar

e se terei tempo para a minha noite louca



Nunca ouvirei os pássaros após este fato

vou me embora sem tempo de acumular os dividendos

vou sair por aí numa nuvem preta como um rato

acabar com os meus poemas apenas como elementos



Nunca arrumarei os livros que posso ler

numa ordem lógica dos rumores que eles guardam

e apenas morrerei sem saber se posso ainda ver

os olhos de minha amada que na noite se fecharam



Nunca levarei em mim o amor pétreo

de uma redoma chamada mistério



Nunca saberei de que maneira morrerei

qual o dia e em que espírito estarei

nunca vou mudar até este dia

onde a guerra fará sua armadilha



28/02/2009 Gustavo Bastos

SENTIMENTOS INÚTEIS


Nesta paixão que me devora

vou seguindo o idílio e esperança

de um dia te ter nos raios da bonança

numa paz que já em mim é a tua memória



Paixão da vida devorada em sândalos

primeira fêmea despida nos ardores

em que canto a liberdade em clamores

nos meus amores que foram escândalos



Nasci de um parto partido de luta insana

fui o meio do caminho em uma dor profana



Mel da flor sou o teu trovador

o teu fulgor na casa dos meus vinte anos

anos de feras e fantasmas dos campos

uma vil flor do meu amor



Nesta paixão nasci de um parto sério

na vida que devora o fundo mistério



Sou o acaso e o ocaso de um bruto sentido

vida sentida em pavor com os ares dançantes

das minhas canções em tuas curvas insinuantes

onde posso me refestelar em teu gemido



A paz que já não me habita e me consola

é uma paz que foi embora plantada numa estaca

onde o coração transborda uma adaga

que me mata e me esfola



Antes de te perder para todo o sempre

sou a vida remota de um nubente



Sou a semente no acaso do ocaso

ocultada pela nuvem infernal

de um karma déspota e imoral

fruto do meu trabalho e roçado



Me devora a paixão de uma estrela brilhante

e eu a esqueço já agora no meu peito vacilante



23 de janeiro de 2009 (Gustavo Bastos)

PALAVRA ASSENTADA


Completo serei com o sentido da vida

existência fluida que completa o idílio

sou peça do mundo um pouco cronista

do mesmo mistério em que povoo o delírio



Sou o índio o menino e o autor da poesia

uma estrela cansada na queda do ser

um poeta desesperado no tempo do ver

aqui eu canto profundo o canto do dia



Eu levo a canção para onde o magma explode

vou angariando votos múltiplos de orgia

sábio numa delícia de vida onde o poema é minha sorte

miríades exatas de um poema de sabedoria



Não atinjo o cume da palavra

palavra é o que eu quero

palavra destemida onde há verso

palavra escrita e lida onde há morada



Desde então tenho o poder da letra

a letra infinita e o tempo infinito

a letra que é um cometa

para o sol do vivido



Somos então poetas e visionários

assuntos diversos da pena louca

imagem solta

de um poeta e seus dicionários



10/01/2009 Gustavo Bastos

VIRTUDE DEMONÍACA


No vitral reflete uma imagem angelical

onde dormiam as catacumbas dos cristãos

em fervor o demônio ameaçava do umbral

de quebrar o vitral e perder-se no mal dos pagãos



Verte o sangue a paz emudecida

taciturna e cadavérica num sopro

ardendo por sete dias de uma semana perdida

onde o imortal seria apenas o denodo



De ter tal ousadia a peste correria

enlameada peste dos algozes

na nua vida de sons de artilharia

fazendo o enterro do que veio de risos ferozes



O vento espatifaria o sacro vitral

e a dor seria um pânico irremediável

num antro de espectros sem moral

onde a astúcia é a virtude venerável



Vai o santo e o demônio na contenda do universo

fazer da manhã seguinte a paz de antanho

onde o que se dá é um amálgama diverso

na ferocidade do eterno rebanho



09/01/2009 Gustavo Bastos

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O ALTAR E A FORTALEZA


A promessa vã é feito eldorado imaginário

onde a rosa delira na campina

e os livros se destróem num vão itinerário

pelo que sei certo no porvir da lamparina



Selva é o meu encontro de fadas e gnomos

parte de mim está no meu prazer

outra parte é recônditos de salmos e estrondos

na vaga sentimental do odor e do lazer



A promessa vã da andorinha e do pardal

é a triste pena de servir ao léu

numa borrasca infinita diluviana e astral

em busca do altar dos sacrifícios e do bordel



Respiro ardor e fervor na fé santa

quente moldura de um santo pagão

na envolvente nuvem mitológica da guirlanda

enquanto anjos tocam seus alaúdes em oração



Eis que o dia acalma em toda plenitude

de ser belo e forte como a fortaleza inquebrantável

onde ninguém se arvora a ser infinitude

mas que humildes se prostam no chão imutável



Lancei o funeral neste palácio diamantado

onde o rei é degolado pelas feras

e o escravo é alforriado

numa libertação de mazelas



09/01/2009 Gustavo Bastos

FLORILÉGIO DO IMENSO MUNDO


Estou no costume de entender o florilégio

das noites fabris em meu doce mel

dizer sobre o assombro da máquina do mistério

eternal como o fogo e a vida de fel



Nas cascatas em que habita o indizível

vou à maior chama me tomar de indolência

e me sentir liberto e pleno do leme sensível

ao toque da cítara e do címbalo em plena consciência



Harmos do meu fatal leque de visões

ataques prontos da música no som da bateria

são os haustos exauridos das monções

em que serei o feto original da ambrosia



O toque é forte e serpenteia no peito varonil

de que as aves são as bênçãos e o voo a leveza

e a leveza o céu íntimo da ideia no fio

alma pronta e fustigada pela alta defesa



Não sei decifrar a musa do mistério

se é este o mistério profundo

o meu gládio e magistério



Aprendo na forca a sobreviver do furibundo

sobrevida de poeta e seu monastério

mistério meditabundo do imenso mundo



09/01/2009 Gustavo Bastos

A MENSAGEM DO FORTE


Ardendo o sol silencia na torre

e uns papéis voam de poemas proscritos

na leve paisagem de um vingador torpe

que não fez o seu intento de ventos varridos



Uma clareira se aninha no pórtico

e a luz assombra a vida na noite terrível

e o vinho questiona seu sabor exótico

enquanto a chama azul vacila num bruxulear aprazível



Ardendo os campos doentes em que se entrega

a vida do poeta pelos idos anos da luxúria

este poeta se entrega na véspera da queda

pelo dia adventício da calma contra a fúria



Vindo de onde está o cavaleiro não descansa

somente pede um pouco de água sagrada

e não quer sentir a dor insuportável da lança

mas apenas refugiar-se no templo com a mão desatada



A torre então já mira para a lua

e o poeta que é o cavaleiro da miragem

corre a galope com o seu cavalo em vida crua

tal como o governo dos céus faz a sua viagem



Ardendo o poeta pede passagem

e a calma da plenitude já sofre de antemão

uma vida que pode ser apenas uma doce imagem

ou uma cena desvanecida de ilusão



E nas casas em que a solidão corrói

tudo evapora depois da chuva intensa

que o poeta traz em si e não destrói

mas apenas faz desta a sua oferenda



E lá se vão todos os anos da vida

que não são somente vultos de alegria

e nem tampouco expiações de uma ferida

mas uma visão completa de harmonia



Eis que é o vinho da morte

o brinde em que se sacia a vida do forte



06 de janeiro de 2009



Gustavo Bastos

O DESPERTAR DO BARDO (RIMAS SERENAS)


O que o bardo explora quando dorme

é um sonho intenso de fogueira e torpor

cais onde desce o paraíso em possuído horror

na dama que desfalece em seus braços de cobre



O que a vida cintila na visão da moldura

é a sinalização para um corpo refulgente

em que a cidade de seu sonho fortemente

se refugia no mosteiro da clausura



O bardo então acorda com o som dos pássaros

passando a vida em tom de melodia maviosa

em que a dor e a alegria são o branco da rosa

rosa branca em tudo altiva para os nossos lábaros



Não teme a chama indômita do verão astuto

nas oliveiras e gramíneas verdejantes

e tem a vida nos seus vitrais pulsantes

tanto quanto antes tem o vinho em seu leito puro



O bardo já está posto defronte ao temor

e tudo que ele abarca é de sonho enorme

sonho tão livre que nos leva ao rio forte

onde as almas são leves e não temem a flor



06 de janeiro de 2009



Gustavo Bastos

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MANTA NEGRA


Mais escura é a noite das feras

em que o passo recorda

a sutil vida que vai embora

na labareda dos sonhos de quimeras



O ardor sequioso em que me chama

a fronte sadia dos férteis campos

são os meus sonhos de acalantos

em vida própria que tudo derrama



Vai o viajor perder-se em vagas enormes

deste rancor insiste em tonitruante fuga

em tudo que o labor poético segura

da vil tempestade em que tu dormes



Mais escura é a pantera em seu negror

lutando com o chacal na borrasca

e o sol latejando nas horas de couraça

é o meu terror e o teu no mesmo pranto e fervor



Traz para mim o encanto fugaz da servil noite

em que tu me chamas de cavaleiro disforme

em que tu me aconselhas de ser sempre forte

porque a vida é a força que tudo traz no açoite



Belas e pueris sereias são os dias chorosos

na manta negra de tua vida de esplendor

traz comigo o veneno de que sou pecador

e vem subitamente me tomar os dias ditosos



03 de janeiro de 2009



Gustavo Bastos

PENSAMENTO ILUSÓRIO


Póstumas são tais miragens

do poeta a planar sobre as urtigas

ali voam as estampas das imagens

em que veem os astros suas feridas



De além-mar os corsários

fogem em mantos diáfanos

em mortes sutis nos mostruários

de uns cavalheiros de lábaros



Queimei o céu em palco degredado

com um pouco de vinho ao meu amor amargo

que em épocas remotas são pastos de um roçado

na veste púrpura do frio afago



Vem de ventre hirto pelo frio consumado

vagar pelo corpo delineado pela unção

de cadáveres mortais em seus ares de mago

o sol pestilento em tais águas de ilusão



Póstumas miragens do poeta pagão

foge da maldita Circe no inverno

e traz de um ignoto verão

a sua delícia de estar no mar eterno



Da vida o pouco que resta

é a noite vil de um barco solitário

que cai em um florão e em uma peça

o seu último ato de fiel sacrário



Póstumas as virtudes do poeta

que são as algas aventureiras

de um mar soturno em que se encerra

as miragens de seus cantos em poeiras



Pois é o fim da vida

para o velho monsenhor

na sua renascida orquídea

iluminada no farol do pecador



30 de dezembro de 2008



Gustavo Bastos