PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A POLÊMICA DOS APLICATIVOS DE ENTREGA DE COMIDA

“Com o problema dos entregadores enfrentado durante a pandemia, tivemos o chamado “Breque dos Apps”””

Nesta pandemia, houve um aumento da demanda por entregas de refeições e lanches a domicílio, e os entregadores por aplicativos, passaram a ser mais  acionados, o que aumentou o número de cadastros nestes aplicativos para pessoas trabalharem e, consequentemente, caiu o preço das entregas, diminuindo o lucro dos entregadores deste aplicativos, com a queda das taxas de entrega. Isto envolve aplicativos como iFood, Uber Eats, Loggi e Rappi.

Por exemplo, com a pandemia, o número de entregadores querendo trabalhar no iFood mais que dobrou, pois 175 mil pessoas se inscreveram para trabalhar na plataforma em março, em comparação com 85 mil no mês anterior, de acordo com dados da própria empresa.

No iFood temos um esquema criado chamado “operador logístico” (OL), por exemplo, em que o motoboy trabalha para um intermediário e com uma carga horária de trabalho definida. Neste modelo de OL, por sua vez, o entregador tem direito a uma folga semanal, podendo ser na segunda, terça ou quarta, e uma vez por mês pode folgar em um dia do final de semana. O OL, contudo, não pode reivindicar nada ao iFood, pois ele trabalha para uma outra empresa, terceirizada, não trabalha diretamente para o iFood.

Só que os que mais sofrem com a plataforma iFood não são os OLs, mas a grande maioria, os chamados “nuvem”, que recebem por demanda, isto é, pelo número de pedidos que forem aparecendo, e passaram a fazer reivindicações simples, como um auxílio-lanche. Na outra ponta deste sistema estão os restaurantes, e as plataformas cobram deles comissões que variam de 15% a 35%, o que faz os restaurantes aumentarem os preços de seus produtos.

Este modelo de cobrança de comissões de restaurantes causou diversos processos que foram movidos contra estes aplicativos, e o argumento levantado é que este modelo de negócios criou monopólios, pois cria uma relação de dependência de muitos restaurantes, que têm que se curvar a estas exigências destes aplicativos para se manterem abertos ou competitivos.

Este modelo de negócios, que cria uma dependência dos restaurantes a suas exigências, faz, de outro lado, uma rede de exploração dos entregadores, e os aplicativos, atuando como intermediário entre restaurantes e entregadores, diminui o ganho destes dois, enquanto aumenta a oferta de ambos.

Com o problema dos entregadores enfrentado durante a pandemia, tivemos o chamado “Breque dos Apps”, que teve uma primeira paralisação em 1 de julho deste ano, que envolveu entregadores para aplicativos como iFood, Rappi, Loggi e Uber Eats, num movimento organizado por WhatsApp, e que reivindicou questões que passam pela definição de uma taxa fixa mínima de entrega por quilômetro rodado até o aumento dos valores repassados aos entregadores pelo serviço, além de máscaras e luvas para prevenção da Covid-19.

Parte dos entregadores, por sua vez, no influxo dos protestos, tenta criar um caminho alternativo aos aplicativos, que são as cooperativas de entrega, e que, contudo, não é um processo barato, apenas o desenvolvimento inicial de um aplicativo enxuto do tipo custa cerca de R$ 500 mil, e muitos dos chamados Entregadores Antifascistas contam com o apoio voluntário de diversos profissionais liberais, além de programadores e estudiosos do cooperativismo de plataforma.

Tal conceito de cooperativismo foi criado por Trebor Scholz, intelectual e ativista americano, que se volta para o fenômeno crescente no mundo do uso de plataformas cooperativas, que tem como objetivo fazer que os trabalhadores se apropriem da lógica da plataforma, passando a usar estes algoritmos a seu favor, pois como está sendo feito pelos aplicativos de grandes empresas, estes algoritmos são programados de forma obscura, num gestão algorítmica que beneficia estas empresas.

Os Entregadores Antifascistas buscam inspiração no cooperativismo criado na Europa, como é o caso da Mensakas, criada em Barcelona a partir de um movimento grevista contra a Deliveroo, uma empresa forte de entregas na Europa, em 2017.

O grupo brasileiro buscou apoio da CoopCycle, uma federação que reúne 30 cooperativas do tipo, sendo 28 na Europa e duas no Canadá, esta que é sediada na França, e permite que cooperativas em diferentes cidades compartilhem seus serviços, numa utilização de um software comum, que reúne em um único aplicativo estas cooperativas de diversas regiões. O trabalho dos Entregadores Antifascistas agora é adaptar o modelo à realidade brasileira.

A realidade é que a concorrência com as grandes empresas de aplicativo não é simple e nem fácil, o trabalho das cooperativas, portanto, é mais de encontrar nichos de mercado do que ocupar o espaço dos grandes aplicativos, pois o cooperativismo de plataforma não elimina a big tech (grande empresa de tecnologia), o desafio das cooperativas em relação às grandes empresas é mais de escala.

Ao contrário destes grandes aplicativos de entrega, que operam em centenas de cidades, e também em diferentes países, as cooperativas de entrega costumam atuar localmente e com poucos cooperados. E como dito, um dos meios de diminuir essa desvantagem é o modelo de federação usado pela CoopCycle.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-polemica-dos-aplicativos-de-entrega-de-comida 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

SAFO DE LESBOS


                                               
                                   I

   Safo de Lesbos nasceu de família aristocrática em Êresos, na costa ocidental da ilha de Lesbos (mar Egeu), em torno de 630 a .C. A poeta viveu numa cidade da costa oriental, a próspera Mitilene, onde teria morrido em cerca de 580 a .C. Seu nome figura desde seu tempo entre os expoentes da poesia grega e de um de seus gêneros mais importantes, a mélica ou lírica. Safo é o único nome feminino no conjunto de poetas da Grécia arcaica (c. 800-480 a .C). A mélica sáfica eram canções para performance ao som da lira, em solo ou em coro. A poesia da Grécia arcaica, e sáfica, por sua vez, fazem parte de um tipo de poesia de tradição oral. Safo, ao lado do poeta e guerreiro Alceu, são os primeiros poetas lésbios dos quais sobreviveram, para cada um, corpos de obra substanciosos. Na forte tradição poética lésbio-eólica figuram ainda os célebres citaredos Terpandro (séculos VIII-VII a .C.) e Árion (séculos VII-VI a .C), estes levaram suas práticas métrico-musicais para outros dois pólos culturais da era arcaica: Esparta e Corinto.
   À Terpandro era creditada a invenção da lira de sete cordas, o que é refutada ante as descobertas arqueológicas que indicam que tal instrumento já era conhecido no mundo minoico-micênico, que é o período que antecede a “Grécia histórica”. Árion, por sua vez, é dado como o poeta do ditirambo, canção de forte aspecto narrativo. Safo e Alceu, na mélica, por sua vez, são nomes notáveis. A mélica, canção destinada à performance, tanto em solo (o chamado simpósio), como em coral (nos festivais cívico-religiosos), acompanhado da lira (além de outros instrumentos), se insere na tradição oral que será chamada de “cultura da canção”. Tal poesia se revestirá, recitada ou cantada na performance, de ideias morais, políticas e sociais. Além disso, a lírica grega, uma vez que era ligada à comunidade de que fazia parte, não tinha o caráter intimista muitas vezes visto na poesia moderna, mas sim se apresentava numa situação de diálogo entre o performer e a audiência. O diálogo, por sua vez, marcou toda a tradição de poesia oral da Grécia, desde a épica homérica e seus poemas monumentais, a Ilíada e a Odisseia (onde havia uma divisão entre narrativa de ação e diálogo), como na lírica grega por todo o período arcaico e antigo.
   A oralidade da composição lírica se vale de estruturas e procedimentos estilísticos de caráter mnemônico, apesar de já haver o alfabeto grego, adaptação do fenício, que se disseminava desde o século IX a .C. A transcrição de tais poemas orais, portanto, não eram para salvaguardar o poema e torná-lo duradouro e famoso, pois a tradição oral fazia isto pela mnemônica, a escrita servia, então, apenas como transcrição de algo já bem estabelecido pela oralidade e que mantinha a sua tradição protegida pela memória, numa existência socialmente bem reconhecida.

                                    II

   A lírica, como nome tardio, deriva do modo de performance, é a referência moderna ao corpo de textos que não são nem poesia hexamétrica (como a épica), nem dramática (tragédia e comédia). Na era arcaica, o nome lírica servirá à mélica, à elegia e ao jambo. E a mélica, como lírica, era a identificação da canção para a lira, daí lírica. Não cabe aqui neste texto, no entanto, entrar no mérito da lírica em seu significado moderno. A composição dessa poesia antiga é pragmática, não serve à explosão da individualidade da lírica moderna, a poesia antiga, por ser oral, não se fixa em regras escritas, não há na poesia arcaica e clássica, leis fixas, tudo passa pela demanda da oralidade que confluirá no encontro entre o poeta e sua audiência. O conceito de literatura moderno, com sua preocupação pela originalidade e criatividade, não servem à análise da poesia dos antigos, uma vez que nesta (a poesia elegíaca, jâmbica e mélica da Grécia arcaica, sobretudo, e clássica) temos mais engenho e menos paixão, mais convenções e menos individualidade, a poesia antiga, essencialmente oral, está submetida à vida social da pólis grega arcaica, é composta, por ser oral, como discurso.
   Quanto à questão do acesso a esta poesia antiga pelos modernos, temos grandes e intransponíveis dificuldades, uma vez que só sobraram poucos fragmentos de tal período, no caso de Safo, uma que se salvou, mesmo assim só temos um poema completo dela, soma-se a isto a falta quase absoluta de conhecimento da biografia destes poetas, muitas vezes misturadas num amálgama de lendas e anedotários. A obra de Safo tem um fato curioso: ela se compõe, do que se achou, de apenas um poema completo, aproximadamente dez fragmentos substanciais, uma centena de citações breves de autores antigos e cerca de 50 peças de textos em papiro, que emergiram das areias do deserto egípcio. Pode-se falar então, não em obra de Safo, mas em fragmentos de Safo. Quanto aos outros poetas da lírica antiga, a poesia jâmbica, a elegíaca e a mélica, é similar ou pior do que o caso de Safo.
   A lírica grega, portanto, torna-se quase que totalmente inacessível, temos que esmiuçar os fragmentos para deles tirar um ínfimo néctar do que sobrou, e aí nos contentarmos com inumeráveis interpretações desses despojos que, modernamente, são quase inaudíveis, a oralidade antiga só sobrevive nos nossos tempos pela escrita presente em raros fragmentos. Portanto, aos que buscam Safo, por sua vez, restam os fragmentos, estes ainda pulsam vida, desafiam os que neles se debruçam, só não temos a própria Safo com sua lira, a parte material é o fragmento quase que totalmente destruído, resta aproveitar o que temos, e não se fundar tanto nas lendas que cercam o nome de Safo, a mulher, a lésbica, pois os mitos sempre rondaram as biografias, e os biografados nada puderam dizer de suas contradições, o que ocorre até hoje com os vivos, que dirá com os mortos de ontem e com os que desapareceram já há milênios.

                                     III

   Safo, vivente ainda numa Grécia da oralidade, onde a escrita não era ainda uma prática consolidada na produção artística, possui, no entanto, um corpus extenso: São cerca de 200 fragmentos, um dos quais uma canção completa, o “Hino a Afrodite”. Mas, Safo, embora não seja a única poetisa grega antiga, é a única do período arcaico. Safo pode muito bem ser considerada, então, como a primeira poetisa grega. Pois a questão de se os fragmentos de todos os poetas antigos que sobreviveram, revelam uma proeminência ou não necessariamente dos mesmos, em relação aos seus contemporâneos, não contradiz, contudo, o epíteto dado à Safo da poetisa que abriu caminho, numa poesia madura, para outras poetisas percorrerem, uma vez que da tradição Safo tirou, com sua poesia, ainda na sua época, uma grande reputação. Da poesia antiga, não temos nenhuma outra além de Safo com o tamanho dela, ninguém a superou, dentre as poetas mulheres, em sua época e também na Grécia clássica.
   Um fato curioso é que as poetisas que surgiram na era arcaica e clássica da Grécia eram das regiões de Lesbos, da Beócia e do Peloponeso, mas não da Ática, o que revela que nas outras três regiões temos uma posição diferente e mais livre da mulher do que na Ática. Na Ática ainda tínhamos, como em Atenas, o confinamento das mulheres ao oîkos (casa), espaço feminino por excelência na Grécia, enquanto Safo, por sua vez, recebera educação esmerada e pertencia à aristocracia. Na Ática, por exemplo, só era permitido às mulheres, suas saídas do confinamento em casos de ritos religioso-cultuais, contudo, elas não podiam ser vistas e nem ouvidas, a única esfera de ação civil permitida às mulheres áticas era a religiosa, na qual eram bem atuantes.
   A condição de mulher poeta, para Safo, que tem em suas canções uma temática onde predomina o erótico e o amoroso, e que tem no universo feminino a sua força, donde se tem tentativas de retirar de tais canções ilações biográficas possíveis, e donde se tem o mito de Safo ser lésbica, culminam na questão da sexualidade feminina e de seu exercício a partir da figura de Safo, que pretendem explicar a poesia e a vida de Safo, mas que não têm nenhuma credibilidade histórica. Contudo, livres desta necessidade da historicidade, podemos nos remeter aos relatos que se formaram pelo século IV a .C. em diante. Neles, temos uma Safo com um marido, uma filha, muitos irmãos, numerosas amigas e companheiras, com as quais, segundo alguns relatos, manteve relações sexuais, além de um incrível salto suicida de um penhasco.
   O que se sabe é que, nos diferentes períodos históricos que se sucederam, tivemos várias imagens de Safo, desde a idealização do período romântico no século XIX, que é tão fantasiosa quanto os relatos antigos, e uma variada gama de imagens que não passam de idealizações de desejos, uma vez que a idealização nunca se refere a dados objetivos, fazendo de sua fantasia a imagem que lhe convir, um sonho evanescente que carece de conhecimento consistente sobre quem foi realmente Safo. O problema nevrálgico dos “maus” biógrafos, como tentei fazer entender antes. Mas, contudo, a imagem que temos, certa ou errada, é a da Safo lésbica, o que é uma imagem que já não pode ser mais apagada, o mito se entronizou e os parcos registros históricos se calaram, por falta de material legítimo.
   O grande problema, no entanto, quando temos uma força do mito da Safo lésbica mais forte do que os seus próprios fragmentos, é que podemos estar num caminho de erro irreversível, uma vez que nada prova em favor ou contra, partindo de tais fragmentos objetivamente, que haja como saber, indubitavelmente, qualquer coisa da biografia de Safo senão fantasias de antigos, românticos e modernos, nada mais que isso. A partir de Aristófanes (séculos V-IV a .C.) e da comédia clássica, passamos a ter referências das mulheres de Lesbos e o uso dos verbos lesbiázein e lesbízein, (“agir como uma mulher de Lesbos”), que conotavam luxúria e lascívia, além da prática da felação, que as lésbias teriam inventado, mas nisto não há nenhum respaldo histórico. (Lésbia ou moça de Lesbos tinham a típica conotação de fellatrix e não de lésbica no sentido moderno do termo). Nada tem de provado, mas, sabe-se, desde a Ilíada, da fama de mulheres belas e sensuais da ilha de Lesbos, o que pode ter dado motivos para tais fantasias do período clássico e depois na modernidade, lembrando que o termo lésbica é moderno, do final do século XIX, como resultado de uma polêmica acadêmica em torno da sexualidade de Safo. E esta, se Safo era lésbica ou não, se tornou, infelizmente, a grande questão sáfica, e não a sua poesia. Na verdade, o que temos de dados da questão sáfica, além de seus fragmentos, é um emaranhado de assunções que vêm desde comédias gregas, até romances italianos, culminando em pornografia francesa.
   Nos fragmentos de Safo, a linguagem em que se apresentam imagens de paixão erótica, é uma característica comum a vários poetas gregos, tais como Hesíodo (c.700 a .C.), Arquíloco (c. 680-640 a .C.), Íbico (c. 550 a .C.) e Eurípides (c. 482-406 a .C.). Tal movimento erótico se reveste sob uma prática genérica de composição oral que se consolida em percepções mantidas pela repetição que se fundam na tradição. Portanto, ao falar de éros numa linguagem tradicional, Safo reflete nada mais que as práticas poéticas de seu tempo e de seu lugar histórico, pois a linguagem e as imagens que Safo usa ao tematizar a paixão, são as mesmas que encontramos em Arquíloco, e em outros poetas, antes e depois dela.

                                IV

   Como dito anteriormente, a poesia de Safo se encaixa no chamado à época gênero mélico, que se liga à canção, que era nada mais que a performance ao som da lira, o termo lírica, tardio, é datado do período helenístico (c.323-31 a .C.) em diante. Mélica ou lírica designava o verso que era cantado para a música e a dança, com mélos sendo, na literatura grega arcaica, o poema lírico, e o poeta, o melopoiós, o “fazedor de canções”. Na performance a canção podia ser entoada em solo e com acompanhamento da lira, ou em coro, com a inclusão de outros instrumentos e da dança, tendo então um espetáculo.
   Na métrica, a composição da mélica dá-se em estrofes de pés mistos, mais breves e menos complexas na modalidade monódica do que na coral. Sendo que a canção monódica comportava uma variedade de temas, que iam da vida cotidiana da pólis a eventos de um passado recente,  tudo em relação direta com a voz poética; enquanto que no coral tinha-se subgêneros como a celebração, a narrativa mítica e o canto de autorreferência à performance em execução pelo coro. O que fica claro é que a poesia mélica ou lírica grega arcaica era sempre vinculada à voz, uma vez que era na canção e na música que tal poesia se realizava, havendo aí, fundamentalmente, a interação geral entre o poeta, sujeito da enunciação, e seus destinatários, provocando um efeito lírico e estético que nós, modernos, não podemos imaginar, uma vez que só o espólio escrito deste período é o que resta para as análises e interpretações modernas.
   Recompondo minimamente o cenário, haveria para a canção solo várias audiências e ocasiões de performance possíveis, destacando-se o simpósio, central também para gêneros como a elegia e o jambo. O simpósio foi, por sua vez, no mundo grego, até o século V a .C., em que não estava previsto “um público de leitores”, o lugar de conservação e evolução da cultura “literária” relativa a temas alternativos ao ecumênico do epos e à ambientação pública do canto religioso oficial e da lírica agonística (temas que eram muito trabalhados na elegia, no jambo e na mélica monódica). O simpósio tinha como característica a expressão do modo de vida aristocrático dos homens na pólis, regido por um código rígido de honra, onde o beber era privilegiado e ritualizado, e onde em meio a essa fase, tinha lugar a performance, sendo então o simpósio, fundamental na difusão e preservação da poesia mélica ou lírica.
   Relaxados, bebendo vinho, os gregos ouviam e cantavam e/ou recitavam elegias, trechos de poemas homéricos, além da mélica, numa competição de habilidades entre aristocratas, tornando-se o simpósio uma ocasião adequada ao caráter informal e privado da mélica monódica. E tal simpósio de mélica monódica se dividia em dois estilos: erótico, dirigido aos membros do simpósio; e o de invectiva, dirigido aos que estão fora do simpósio. O simpósio, então, era voltado ao mundo privado, menos formal e oficial que o festival próprio à performance da canção coral.
   Em Safo, vendo seus fragmentos, encontramos em sua maioria a mélica monódica, contando também com um fragmento de lírica narrativa de caráter épico, além de pequenos fragmentos de mélica coral de tradição popular (os epitalâmios ou canções de casamento). A canção coral tinha a característica de ser uma performance em festival cívico-religioso, patrocinado pelos governos e aristocratas das cidades gregas, onde se tinha lugar o agón (competição) poético para cada gênero, com o poeta como compositor das palavras e da música, em que o humano e o divino eram celebrados e cantados, podendo, em outras ocasiões mais particulares, o coro conduzir grandes funerais ou grandes bodas, tendo em comum todos estes três tipos de coro o caráter solene e religioso, numa linguagem elevada, com forte traço mítico, no canto autorreferente do coro, e nas máximas éticas e morais que reafirmam os valores da comunidade.
   As composições de Safo, por sua vez, são fundamentalmente canções, fragmentos que demonstram que a melodia antiga era serva das palavras, numa obediência à pronúncia quantitativa da fala, sendo a poesia grega, então, não orientada por uma escansão dos versos por acento, mas por duração breve ou longa de pronúncia da sílaba, o que confere uma sonoridade bem ritmada.
   E, quando pensamos na mélica grega, voltamos às suas origens pré-literárias, como os cantos de culto aos deuses, de lamento ou de celebração de vida e morte, cantos que acompanhavam os trabalhos, como na colheita de uva. Portanto, a mélica tem profundas raízes populares, refletindo toda uma tradição.
   Quanto ao “Eu poético”, trata-se de lembrar que, ao contrário da poesia moderna, em que pode haver ou não relação da primeira pessoa do verso e um eu do poeta empírico que insere algo de sua biografia nos seus poemas, não podemos elucidar com precisão esta questão no que se refere à poesia grega antiga, pois neste caso temos o caráter de performance de tais poemas, e que uma vez direcionados a uma audiência, e na entoação da voz com métrica, pode ser que haja uma grande despersonalização do poeta antigo que está mais vinculado às tradições e sua mnemônica do que a um eu biografado em tais poemas, sem falar nas exigências do canto, do metro e do diálogo, que foram enumerados anteriormente.

    HINO A AFRODITE

   O “Hino a Afrodite” é não só a mais famosa canção de Safo, mas a única integralmente preservada no tratado Sobre o arranjo das palavras, de Dionísio de Halicarnasso (retórico, século I a .C.) , além de ser a primeira canção do livro I de Safo, compilado na célebre Biblioteca de Alexandria, provavelmente na virada dos séculos III-II a .C. . Segue o poema traduzido:

                        De flóreo manto furta-cor, ó imortal Afrodite,
                        filha de Zeus, tecelã de ardis, suplico-te:
                        não me domes com angústias e náuseas,
                        veneranda, o coração,

                        mas para cá vem, se já outrora –
                        a minha voz ouvindo de longe – me
                        atendeste, e de teu pai deixando a casa
                        áurea a carruagem

                        atrelando vieste. E belos te conduziram
                        velozes pardais em torno da terra negra –
                        rápidas asas turbilhonando, céu abaixo e
                         pelo meio do éter.

                         De pronto chegaram. E tu, ó venturosa,
                         sorrindo em tua imortal face,
                         indagaste por que de novo sofro e por que
                         de novo te invoco,

                         e o que mais quero que me aconteça em meu
                         desvairado coração. “Quem de novo devo
                                                                                          [persuadir
                          (?) ao teu amor? Quem, ó
                          Safo, te maltrata?

                           Pois se ela foge, logo perseguirá;
                           e se presentes não aceita, em troca os dará;
                           e se não ama, logo amará,
                           mesmo que não queira.”

                           Vem até mim também agora, e liberta-me dos
                           duros pesares, e tudo o que cumprir meu
                           coração deseja, cumpre; e tu mesma,
                           sê minha aliada de lutas.

Bibliografia:

Safo de Lesbos, Hino a Afrodite e Outros Poemas, Editora Hedra.
(texto baseado na Introdução de Giuliana Ragusa)

30/05/2012 Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
       


 
 
         

domingo, 28 de agosto de 2011

ENTORPECIDOS PELO SONHO AMERICANO

(CRÍTICA DO FILME E DO LIVRO “MEDO E DELÍRIO” DE HUNTER S.THOMPSON)

   Li o livro “Medo e Delírio em Las Vegas” (uma jornada selvagem ao coração do sonho americano) de Hunter S.Thompson e logo em seguida assisti ao filme de 1998 baseado no livro. Gostei de ambos. Tanto o livro como o filme retratam bem uma época pós-hippie, o ano era 1971.
   Como quem leu o livro sabe, os fatos relatados são reais, não sei se um pouco romantizados, acho que não, apesar do recurso metafórico, em certas passagens, para descrever as viagens de drogas que os dois principais personagens do livro têm durante o decurso da história. Viagens que vão de haxixe, mescalina e LSD até  éter e adrenocromo. Meus caros, Hunter S.Thompson, criador da narrativa de estilo transgressor e revolucionário batizada de jornalismo gonzo era o que podemos chamar de um típico “doidão”.
   Hunter é nomeado para fazer uma cobertura jornalística em Las Vegas de uma corrida de motocicletas, a Mint 400. E, como se vê ao começarmos a ler o livro ou a ver o filme, Hunter não é um jornalista padrão, seus métodos de trabalho vão logo se mostrar heterodoxos ao extremo, a viagem a Vegas vai se transformar numa épica de drogas e viagens alucinadas e circunstâncias bizarras e engraçadas, para não falar perigosas. Hunter e seu advogado de “raça samoana” vão se aventurar na estrada, alugam o Grande Tubarão Vermelho, um imenso conversível vermelho da Chevrolet. Aí começa a aventura gonzo rumo a Las Vegas a 160 Km/h no deserto.
   Eles seguem rumo ao Sonho Americano, dentro do conversível um arsenal de drogas e bebidas, ... One toke over the line ... era o itinerário que eles seguiriam para ver se era tudo verdade, se enfim conheceriam o Sonho Americano. Ao som de “Sympathy for the Devil” no último volume eles dão carona a um garoto que encontram na estrada no meio do deserto, logo começa a piração, Hunter rememora como recebeu a incumbência de cobrir aquela matéria, como pegou o conversível e juntou as drogas para levar na viagem, mas depois de umas loucuras, como uma viagem de morcegos voando em volta dali, o garoto se assustou e saiu do conversível, ficou no meio do deserto, ali era encrenca, pensaram Hunter e o advogado, mas seguiram adiante.
   Enfim, Hunter e seu advogado chegam ao hotel Mint, Hunter chega até a recepcionista completamente transtornado e se intitula Raoul Duke, o advogado contorna a situação com a recepcionista, Hunter estava louco de ácido, logo começa a viajar com lagartos e poças de sangue, um zoológico de répteis. Eles vão para o quarto. Logo depois vão, então, para o evento do Mint 400, e a cabeça do advogado de Hunter cheia de éter e ácido. Finalmente, porém, Hunter vai cobrir a matéria. Era a quarta edição anual da Mint 400. Logo em seguida saem as motos, de dez em dez, e somem numa nuvem de poeira. Depois os dois vão a um cassino atrás do “Sonho Americano”. Quando volta ao quarto do hotel, Hunter vê seu advogado na banheira, submerso em água verde. Ao lado da banheira, um rádio ligado na tomada. Hunter logo percebe que seu advogado tinha mastigado uma folha de ácido inteira, e no rádio estava a fita de Surrealistic Pillow da banda Jefferson Airplane, o advogado surta e pede White Rabbit, era uma viagem suicida, seu advogado queria novamente White Rabbit, e no clímax em que o coelho corta a própria cabeça queria que Hunter jogasse o rádio dentro da banheira, Hunter fingiu jogar o rádio e atirou uma laranja na banheira como uma bala de canhão, seu advogado começou a berrar enlouquecido, mas Hunter, a esta altura, já tinha tirado o rádio da tomada e colocado pilhas.
   Depois, a imprensa demanda nova tarefa a Hunter, cobrir a conferência nacional dos promotores públicos num seminário de quatro dias sobre entorpecentes e drogas perigosas. Era uma matéria para a revista Rolling Stone. Um jornalista gonzo numa conferência misturado com mil policiais de todos os cantos dos Estados Unidos para discutir sobre o problema das drogas, dessa vez num Cadillac branco ao invés do Grande Tubarão Vermelho. “Se os Porcos estavam se reunindo em Las Vegas para uma importante Conferência sobre Drogas, nada mais justo que a cultura das drogas mandasse representantes.” Disse Hunter.
   Hunter volta ao quarto do hotel e encontra seu advogado nu com uma menina que parecia bem nova e fica irado, o nome da garota era Lucy e estava cheia de pinturas do rosto de Barbra Streisand, levam ela para o aeroporto louca de ácido e mandam ela para o hotel Americana.
   Os dois vão à suíte do hotel em que estavam para a conferência, e aí começa a maior viagem, “Extrato de pineal”, Hunter toma adrenocromo (as glândulas de adrenalina de um corpo humano vivo) e logo depois começa a ter uma viagem alucinógena ouvindo a voz de Nixon na TV repetindo a palavra “sacrifício”. No dia seguinte, os dois vão à conferência sobre drogas trabalhar. Depois de ouvir um punhado de asneiras sobre drogas das autoridades os dois ficam de saco cheio, deixam a conferência e descem para o cassino.
   Mais alguns percalços e tudo termina, Hunter conclui a sua jornada atrás do Sonho Americano, mas não chega a conclusões definitivas, a busca continua, Hunter passou seu tempo em loucuras com drogas para talvez ter a percepção do que seria o Sonho Americano, mas no caminho o que conta são os percalços, e a aventura, não podemos levar uma vida comum, a vida tem que ser extrema, como extrema é esta narrativa gonzo de Medo e Delírio, um registro que é mais do que drogas e piração, é o coração do Sonho Americano pulsando no perigo e na adrenalina, comparando o livro com o filme, sinto que o filme levou isto mais para o lado do humor ou da comédia, com os excelentes Johnny Depp e Benito Del Toro, mas o livro é mais visceral, sem dúvida, e um conselho: por favor, leiam o livro antes de ver o filme.

28/08/2011 Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
   
 
   

quarta-feira, 23 de março de 2011

SOBRE ROBERTO PIVA E SEU LIVRO PARANOIA

Acabei de ler o livro Paranoia de Roberto Piva. Devorei rapidamente suas páginas como um louco feroz que se ensandeceu na geração beat. O poeta faz um percurso por São Paulo e suas influências que vão de Garcia Lorca a Jorge de Lima. Esse caldo poético resulta num apanhado de imagens originalíssimas que não devem nada à beat generation americana.

Por muito tempo presente apenas no meio culto dos poetas, a poesia de Piva reaparece e está sendo revitalizada, o valor de sua escrita está finalmente saindo do submundo dos poetas e vindo ao público com justiça, mesmo que tardiamente. Aliás, o atraso no reconhecimento de alguns poetas é um mal brasileiro.

Para mim se destacam no livro Paranoia quatro poemas: Praça da República dos meus Sonhos; Jorge de Lima, panfletário do Caos; Os anjos de Sodoma e Poema Porrada. A obra de Piva é bem intensa, mas a geração beat brasileira foi ofuscada pela geração conservadora de 45 e pelos neoconcretos, espremida entre essas duas correntes, passou desapercebida do grande público, que hoje pode ter acesso à obra de Piva e de seus amigos “beats” com mais facilidade, sem falar na publicação da obra de Piva pela editora Globo que relançou o poeta e lhe tirou da nuvem tóxica da obscuridade, parabéns aos editores que fizeram isso, assim poderemos sair de poucas opções de leitura na poesia de língua portuguesa que, cada vez mais, se excede nas citações de Drummond e Pessoa, e se esquece de milhares de outros que honraram a nossa língua com tanta maestria quanto eles, faça-se a justiça e evite-se os excessos reverentes que deturpam a grande criatividade de nossos poetas.

Voltando-me à qualidade da escrita formidavelmente caótica de Piva, no poema “Praça da República dos meus Sonhos” temos os nomes ilustres de Álvares de Azevedo e de Garcia Lorca citados logo de saída, tudo num clima urbanoide de ritmo narcotizado, esse poema é um fruto proibido do pecado alucinógeno, donde se tem o Delirium Tremens de um alcoólatra poeta, nascido do caos de seus versos para o mundo que lhe cerca, logo adiante trombando com pederastas e Dom Casmurro, um papo cabeça genial em forma poética invade a minha mente, em que putas logo passam e o poeta se depara com o jovem prodígio Rimbaud que se encerra numa sabedoria debruçada numa porta santa.

O segundo poema que eu destaco é “Jorge de Lima, panfletário do Caos”, em que Piva demonstra seu entendimento sobre o poeta, com a palavra azul que cintila em Piva dando o tom do poema decifrando numa constelação de cinza o poeta Jorge de Lima, despedaçando vagalumes contra os ninhos da Eternidade, chamando o poeta de professor do Caos, aliás, uma virtude também presente em Piva que, em relação ao mestre Jorge de Lima, Piva se comporta como o seu aluno do Caos.

O terceiro poema que eu cito é “Os anjos de Sodoma”, um poema de aliteração, recurso exaustivamente usado por quase todos os poetas alguma vez na vida, e que nesse poema de Piva é usado discretamente evocando o mantra do título do poema que é um voo de anjos até o céu que têm suas asas destruídas pelo fogo, algo meio como Ícaro? Maybe. É um poema curto e que se funda na mística dos anjos que se encerra com o arrependimento de Deus, imagem poética perfeita que fecha a ideia de Piva para o poema.

Finalmente, encerro a minha análise com o curioso “Poema Porrada”, seria algo semelhante ao “Poema em Linha Reta” de Fernando Pessoa? Maybe. Fui ver e ler, então percebi que era algo tão forte, intenso e criativo quanto o poema de Pessoa (que é o meu favorito do poeta junto com A Tabacaria). Pois bem, Piva “desce a lenha” nesse poema honrando o título que lhe deu, é uma porrada mesmo, ele desfere golpes impiedosos com versos que não devem nada a nenhum gênio da raça, citando Oscar Wilde e Modigliani, com o universo sendo cuspido por um cú sangrento de um Deus-Cadela, imagem escatológica que pode ser uma boa alegoria para a criação do mundo, Deus talvez tenha nos regurgitado em seu sonho megalomaníaco (licença poética de minha autoria), Piva delira e encerra o poema com uma porrada monumental realizando o seu desejo de destruição e fuga com a loucura como um “espelho na manhã de pássaros sem Fôlego”. Genial!



23/03/2011 Crítica Literária

(Gustavo Bastos)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sobre o novo álbum do Alice In Chains


A NEW BEGINNING




O novo álbum do Alice In Chains (Black Gives Way To Blue) é o primeiro da banda sem o grande vocalista Layne Staley, lembrando que a sua voz era a marca registrada das músicas da banda, salvo algumas exceções com o guitarrista Jerry Cantrell nos vocais (lembrando que o guitarrista é o cérebro da banda, o principal compositor, que até então dividia as letras com Layne).

Bom, Layne Staley morreu de overdose de heroína e cocaína em abril de 2002, e sua voz faz muita falta tanto para o Alice In Chains como para o rock como um todo, sua voz, vale dizer, é incomparável, na minha opinião ele foi o melhor vocalista da era efêmera do grunge. Mas, já que os mortos não voltam, a banda se desmantelou durante os anos posteriores à morte de Layne.

Só que nos dias atuais tem uma “modinha” de renascimento de bandas mortas, e isso é visto com muita desconfiança por alguns e com entusiasmo por outros. Sinceramente, quando anunciaram a volta do Alice In Chains com um novo vocalista, minha primeira atitude foi torcer o nariz, eu dizia: “É uma piada de mau gosto.” Porém, quando o novo álbum foi lançado no ano passado (2009) a curiosidade falou mais alto e então eu decidi baixar um MP3 do álbum para ouvir, e as músicas me agradaram.

Então, embora o vocal do Layne seja insuperável, nós temos ainda o Jerry Cantrell, a grande cabeça por trás do Alice In Chains, e é preciso dar um crédito a ele por tudo o que ele já fez pelo rock.

A formação do Alice conta agora com William DuVall nos vocais, cujo timbre de voz é muito parecido com o de Layne Staley, mas para por aí, são duas coisas diferentes, e a maioria das composições do novo álbum são de Jerry Cantrell, entretanto podemos afirmar sem medo de errar que se trata de um verdadeiro álbum do Alice In Chains, mesmo sem o Layne, o que eu achava impossível, mas como fã da banda eu decidi não ser conservador ou uma “viúva” do Layne, precisamos ter desprendimento e ouvidos abertos em matéria de música.

Os destaques do álbum são os petardos “Check My Brain” e “A Looking In View”, mais a balada “Your Decision”, com direito ao piano de Elton John na última música do álbum que dá o nome ao mesmo “Black Gives Way To Blue”. É só ouvir e conferir, sem preconceito e sem chorar pela morte de Layne Staley.

SOBRE O NOVO ÁLBUM DE JIMI HENDRIX “VALLEYS OF NEPTUNE”


Posso dizer que sou um grande fã de Jimi Hendrix, e sempre fui fascinado pelo seu som vibrante e repleto de alucinações sonoras de pedal wah-wah e de efeitos que só o nosso mestre foi capaz de realizar magistralmente com uma guitarra elétrica.

Neste ano de 2010 fomos brindados com mais um lançamento do espólio deste gênio incomparável chamado “Valleys Of Neptune”. Quando fiquei sabendo de tal lançamento, fui correndo para uma loja de CDs para comprá-lo, mesmo sem tê-lo ouvido antes, já que em se tratando do maior guitarrista de todos os tempos, e sendo tal lançamento oficial (da Experience Hendrix, que é administrada pela irmã de Hendrix), apostei cegamente no álbum, comprei e fui escutá-lo morrendo de curiosidade.

Depois de lançamentos dos 3 LPs de quando ele era vivo remasterizados (Are You Experienced? + Axis: Bold As Love + Electric Ladyland), além dos póstumos (Live At Woodstock, este duplo, First Rays Of The New Rising Sun + South Saturn Delta + Band Of Gypsys) veio este “Valleys Of Neptune”. Posso dizer que ao ouvi-lo pude ver que ele veio com três músicas que eu ainda não conhecia do repertório inesgotável do grande guitarrista, são elas: a segunda do álbum chamada “Valleys Of Neptune” que dá o nome do álbum (Gostei muito dessa música, e tem agora o novo clipe dela rodando por aí), e as duas últimas chamadas respectivamente “Lullaby For The Summer” e “Crying Blue Rain” (Também legais, mas não diria extraordinárias, Valleys Of Neptune é melhor).

Seguindo a minha audição do álbum me deparo com versões que eu diria serem secundárias de suas versões mais conhecidas tais como “Stone Free” e “Fire”, e ainda temos uma versão do blues mais clássico de Hendrix “Red House” que eu diria não ser nenhuma novidade. Então, vem ainda a grande “Hear My Train A Comin” (gostei, mas também não soa como novidade), a quinta com o título de “Mr.Bad Luck”, que não é nada mais que uma versão pior da grande “Look Over Yonder” do álbum “South Saturn Delta”, que é seguida por nada mais que a clássica do Cream “Sunshine Of Your Love” em alto e bom som, versão alongada de uma música que já está em meu DNA rockeiro.

Por fim, tenho como os grandes destaques deste álbum “Valleys Of Neptune” e “Hear My Train A Comin”, é só conferir e ver que eu não minto.



Gustavo Bastos