PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

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terça-feira, 3 de outubro de 2023

AS HORAS DO SOL

(POEMA EM PROSA)

Sentado diante do livro, uma luminária sutil vigiava a noite translúcida pelo cetim e pela seda. O poeta imaginava o seu próximo trem, qual vagão e qual visita. Enobrece a alma o vinho. Se tenho muita matéria em que me apoiar, foi porque fiz tudo em prazer e um misto de alegria e dor. Pois, a penumbra não compromete a minha paisagem, nem muito pode contra o sol que desenhei. O poema tem astúcia, ninguém governa seu galardão. 

Se observava na viagem dos degredados estes silvícolas que murmuravam rezas inauditas, um trovão tomou de posse uma entidade que parecia uma caveira, e urrava na madrugada chuvosa diante de uma fogueira protegida por folhas de palmeira, e gritos tribais cercando a cena como numa viagem dos descobridores. Anotei esta passagem em meu caderno, era seção 3.2, capítulo 9, onde eu falei do mundo selvagem que a veia literária deixara escapar ao beijar o mármore e seus sulcos, beijar os balaústres e suas abóbadas, e toda uma gama de florilégios, floreios, rame-rames de arpejos, veios talhados para dândis frufrus etc. Todo o magma ainda vivia sob a crosta, a borbulhar no manto, com sua fúria primal.

Fumava meu ópio diante da nau, e via na minha parede a moldura que sustentava uma escopeta. Objetos de caça, facas, adagas, uma coleção de relíquias, e um cheiro de pólvora na qual matei algozes e sabujos no poder de minha máquina. Escrevo a sorte, debulho este sequioso canto de verdor, e o jardim da delícia está qual éden em seu encanto, vendo o porvir em sabores solares, como na harmonia de um cântico. 

Tânatos ainda provocava seus dissabores, toda a aleivosia e a perfídia dos mendazes reinavam nos capitólios e assembleias, tomada por uma turba amarfanhada entre o butim e o fausto fátuo do poder. Eis o reino : seu ídolo, sua matilha, sua alcateia, seus mártires e seus bobos. Um reino de bazófia blasonada entre os mui amigos e inimigos fatais. 

Veio a turbamulta que é uma malta na mamata dos nababos aos borbotões, a fazer da terra uma morte de sal e provocar a devastação dos sonhos em que esta terra teria um dia sido fundada. Se perdeu no tempo o códice em que se registrou como na pedra angular os valores que foram tolhidos na famélica escala da ganância. Esta escala astronômica de uns pavões escalafobéticos. Monumentos do mau gosto de uma elite rebuscada, com cheiro de castiçal e mobília de mogno. A fazenda fundamental em que a demência virou virtude. E as colunatas lívidas de uma paródia da Hélade. “Bullshit”, como dizia o poeta boêmio que bebia.

Deixe esta lamúria azinhavre, destes derrotados na lona, que choram a própria frouxidão, com os ossos que doem mais que a ressaca moral de seus ardis manjados e exterminados. O poema tem com a poesia este fulgor de prorromper os rios e seus cursos, de fluxos como decisões que correm em sua correnteza, impassível, e que se destina ao mar.

Os livros escritos na nova era, pois, ainda estão na confecção, qual a nuvem de prata que ainda nasce, mas já vive e respira. O tempo diz coisas, e a confiança na plenitude dos desígnios é como saber que “Ele” está morto, subjugado e derrotado, sob os pés da Arte. Eis a inveja e sua sevícia, e o suplício necessário da magia negra. Pois bem, haja confetes na saída, ao mar que me liberta e me salga, ao horizonte que meus olhos se acham ao invés de se perderem, horizonte da vida a ser vivida, de um poema a ser escrito, de uma galhardia talhada no desassombro da certeza.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Data : 03/10/2023 Poema em Prosa 


sábado, 20 de novembro de 2021

A PRATA E A LUZ

As cordas revelam a tensão da nota, com o corpo retesado o som é mais puro, toda a canção precisa de um metro maduro, tinindo de prata, e a cor púrpura no céu. Se tem no sol do dia meu caos de aurora, o fim da História ainda não vira assunto, sua anti-filosofia não me interessa. Penso : O que posso é o que sou. 

Ainda, tinha um tal de pássaro no horizonte de meu arcano, toda estrela virada em raio tem também o seu próprio arcano, não sei exatamente se sua decifração tem da astúcia o seu método, pode ser. Abre todo o caminho, toda ponte vertida e o clássico mais forte da linha mestra. Ferve a pena e o dia vigora potente. Dá-me sol, disse a praia, e o mar queria água. O sal, neste brio todo de luz, fazia toda a marmórea surra de suas ondas. As espumas de esmeralda e o silêncio quando olho e um albatroz mergulha.

Hoje, como se carregasse a minha pistola, andei na rua ressecada, todo o vinho tinto estava roubado da adega, dentre os convivas não havia daquela sede embrutecida qualquer esperança, só o consolo da vadiagem. O caos quando se instala não tem paradeiro, toda sorte de argúcia e manha toma a noite como numa festa escura.

Preciso de meu relógio articulado com o meu plano, e a bomba para explodir na hora certa. Pois o nome, deste brio montanhoso, é um riso e um soco, é a força e sua explosão. Não há nada que detenha, impassível canto não tem medo e sopra violento.

Canto de seus ardores, e sua natureza retilínea que corta e mata. O baile e toda a pompa furiosa, teu poema mesmerizado na vitória plena, sua praia revirada de santidade apátrida, o caos cosmológico e seus deuses perdidos, e um tal desassombro meio febril, como é comum à loucura.

O poema serve a este mestre náutico como seu dom, sua linha traça sem hora de morte, a fortuna dos bravos é esta, não há o que temer, quando a sorte se lança quem atira primeiro mata o inimigo. O corte é profundo nesta carne aprendiz, o caminho é um rito acidentado que depois abre seu horizonte, tudo amplo e a vivificação da plenitude, que não é um platô, mas um novo estudo de si.

Nada o detém, nada o conserva. Funda a tua seita brutal, da vinha e toda a canção de mármore dos poetas afetados e alambicados, e depois a mofa dos poetas sujos e malditos. Abre este campo preciso e teu verso meio absurdo, abre toda esta estrada estupefata em sua fumaça, em seu vinho e embriaguez, e seu canto que fuma e bebe tem toda a memória de seus dias.

Fortuna está no campo aberto de seu sangue, o canto escarlate e o fogo alaranjado, a fúria toda de sangue como seu vigor que brota e borbulha, vai e teu fogo queima o morto, vai e teu fogo avança impassível por toda a alameda. Nenhum absurdo maior que este : a morte exangue dos hipócritas.

Tem este brio que se irrita com a frouxidão e a languidez moral de embusteiros. O nojo no canto e na História, e todo o tédio que lhes domina a face mesmerizada. O poema passa através com sua fúria, seu sangue vai ao verão como um tiro. Como sempre foi aos poetas o preço do naufrágio ou de se chegar ao porto, o risco é todo o poema, abrir o peito contra o choque das ondas. 

20/11/21 - Poema em prosa - Gustavo Bastos

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O SOL VIOLENTO

Um golpe e tudo o que se vê na dança de Salomé é a cabeça de João Batista, na pia batismal o impostor canta nas nuvens sua vida de nefelibata. Ardor, o horror na chuva que cai como tempestade, nada mais que o rito que foge na escada e pelo vão, a rua está imunda, o caos se instala nos becos, as garrafas de vinho estão espalhadas pela taberna, Márcio está embriagado, o Luís corre na pindaíba, está sem um puto, pede emprestado sem pagar, cai a noite, a tempestade, a mulher Salomé oferece o corpo por cem copeques. Uma roupa fajuta é que veste o menino Roque, toda a sua astúcia está em rimar o puteiro com dinheiro. Nada mais há nesta noite, o cais está manso e dormente, lá o pescador Alves está encastelado, com trinta dentões para vender na próxima aurora.

Pano rápido : a peça montada estava atrasada, o diretor sonhava em estreia rápida, mas o produtor desistiu. Nada sobra deste sonho, o poeta pinta este esmalte enfadonho, que grita, qual um demente. Desta feita, o modo frígio empresta às escalas um ar sucinto, as garras da paixão lutam contra o frio. O poeta está violento como o mar, e vil como um raio. A mulher Salomé corta a cabeça de um velho esbanjador, lhe dá o nome próprio, escroque. Um corrupto a menos, grita Márcio, e toma um gole fervoroso de cerveja alemã. Roque dá de ombros, teria uma comissão de Salomé, a santa da noite.

Os castelos das fábulas são como eram nos contos infantis, os algodões, os acolchoados, todo um conforto perdido, o choro soprando e o riso no campo, tudo se perdeu na noite suja, Roque é vil como um ser criado sem destino. A peça está cancelada, a taberna está cheia. Vai-te o músico, o sino toca a corneta, o tombo do navio, o sal que surge na esmeralda, espuma e beira de praia, um vento suave, qual zéfiro.

Estoura uma corda do violão, vinte quilômetros para chegar ao pouso, uma violência imortal, um dia fatal, uma seta no coração, os mortos da chuva, puro ataque de tiro, uma plateia chocada, um soco na cara.

Roque volta e rouba o velho adormecido, Salomé lhe dá mais uns trocados. Foda-se, diz o vil menino. Fábulas são contadas aos magotes, um puro furor de poesia encanta tomadas de set bêbado. Creia, hipócrita, que o sol não está aqui na noite, que a lua empalidece no meio da madrugada. Vento venta que nem um sopro, pois a ventania é um hausto, ao peito cheio de sonho, que infla como um balão que irrompe e cresce.

Vai-te pintor, à roda de sua tortura, trotar com o cavalo xucro de seu pincel, e uma goiva prateada para fazer um boneco mambembe. O poeta está todo cheio de marfim, um mármore pedra e salinas, toda uma fervura, seu gesso estalado, sua briga esbofeteada.

É vã a noite de lua, toda esta miséria vã, vilania e noitada, a crise social enlutada, a luta renhida e o fracasso que vai à taberna, junta-se toda uma gama de idiotas, a noite é uma febre surgida na vinha, seu elenco é medonho. O poeta se suicida, é um mártir, se regela, se fulmina, tem o peito brotado, estourado, como uma floração, tem a memória enevoada, e seu fumo se espalha no saloon.

Creia, hipócrita, que a fúria do rei mata o fraco, sua fúria de rei que mata o fracasso, tem na noite seu canto imortal, creia, idiota, que o navio chega ao porto como se sabe, o mar violento nunca nos mata, aos que nadam ao norte, de seu sul o frio e o gelo já traçados, ao que passa solene para sua praia de sal, e se banha qual peixe. O cadáver que boia na sopa, creia, hipócrita, idiota, é do pasmado que se derreteu em seu fogo exangue.

O poeta está sempre atento, e o tiro de sua bala atravessa o caminho em seu estampido, sua espoleta voa na cara do que dorme, e seu sol está sempre vivo, o ataque é sempre frontal, certeiro, atira para matar, e a vida imortal nunca cessa, o mar se abre, seu sangue se mistura à areia e ao mar, flutua seu navio que ruma, todo este sol violento, inclemente, ele bem o quis.

Poema em prosa – 26/08/2021

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A PESTE

O mundo em convulsão com o surto de Wuhan, das feiras animais o que abre a besta-fera viral que se espalha ininterruptamente. Os corpos se infectam desta tosse que cai do pulmão e tapa a respiração, a tragédia mundial em sua escala tectônica.

O surto, seu nome : pandemia. Na China que entra em sua convulsão mais intensa, a morte começa sua caminhada em Wuhan, os dias parecem ser ainda tranquilos, as notícias não fazem alarde, tudo corre no ritmo do mundo que labora dia a dia, ainda estamos vendo a normalidade fazendo a sua rotina, não há sinal da devastação.

Vamos ao mundo em seu tear, no entanto, a doença se instala, como um cancro, pela Europa, a vida tenta seguir, em vão, a Itália cai em sua densidade e Bérgamo sofre como num ritual macabro, estamos vendo algo histórico, a pandemia é oficial, não há mais a tranquilidade que imaginávamos de algo que ficasse quieto como um pequeno surto local.

Caem mais corpos, a doença se espalha, os rostos ficam contritos, o coração gela, a doença é fatal, a fatalidade toma todo o campo e todo o ar, o ar nos falta, vamos para casa, não há nada além do quarto, a distância vira um imperativo, não é inédito, as pestes são seculares, mas é chocante, um mundo distópico é visto como nos romances ficcionais.

Mais corpos caem, o cheiro de morte toma o plano e o noticiário é cada vez mais tétrico, a distopia é o delírio real desta morte viral, o mundo convulsiona com toda a sua dor, as famílias enfrentam o sofrimento, a prova de resiliência mundial vê na palavra esperança a mais pura forma de superação, diante do inominável, e lidando com o imponderável.

O poema é o susto, o poema é o surto, a História será contada com toda a sua dor dos que se foram sem poderem respirar, I can`t breathe! O poema não pode respirar, ele é solidário com os mortos, a tragédia vem com toda a sua força imensa de destruição, a pandemia nos toma a rotina e o pensamento, a prova de vida vem por cada dia vivido.

A saída para respirar este ar que nos falta, a pandemia fecha a respiração de todos, em seu isolamento, em seu distanciamento, a tragédia não nos deixa respirar, o ar é poluído pelo cheiro de morte, o poema não silencia, tenta respirar em meio da tragédia, as palavras tentam capturar o sentido, mas não faz sentido, o frio cego do acaso leva estes corpos, estas vidas, estas histórias, uma faca cega que corta e que ceifa, sem podermos prever a dimensão exata de seu termo.

I can`t breathe, diz George Floyd, e os respiradores tentam dar ar aos que estão internados, não há mais o que fazer a não ser precaver, esperando a vacina, lidando com as fake news que se multiplicam, os remédios falsos que são vendidos como panaceia, e o ridículo dos poderes em meio ao caos.

A doença se espalha como rastilho de pólvora, a pandemia toma a vastidão dos países, vi nestes noticiários o choro incontido dos que perderam seus entes queridos, a dor vira a rotina de um enfrentamento humano, há um tipo trágico de comunhão da pandemia, a humanidade na mesma lida diária, a doença que ceifa vidas de forma bruta e constante, as estatísticas assustadoras e a proporção gigantesca de uma coleção de mortes com nomes e histórias.

Não existe a luz da sabedoria que nos conduza a um oásis, é uma tragédia, os nomes e as histórias se vão, e tudo parece congelado esperando um novo momento de liberdade, o mundo está sob um gelo espesso em que ninguém se move, tudo em suspenso, para lidar com a saída que será a nova liberdade depois da pandemia. O poema também está congelado, sob o gelo espesso da tragédia.

A tecnologia tenta contornar com seus movimentos este gelo, a vida tenta lutar em suas saídas possíveis, as vidas possíveis da pandemia, em seu isolamento que se move em meio ao gelo terrível da morte que nos paralisa, tudo em suspenso, na verdade, e esta verdade é a pandemia que mata cada dia e os que gritam de dor, podem ser ouvidos, mas o grito é seco, também congelado, num velório estranho e distante.

A pandemia não escolhe seus mortos, não há escrita coerente da carga viral, todos estão expostos, o caminho é brutal, pedregoso, acidentado, as mutações e caminhos são tortuosos, o mecanismo aleatório do vírus em seu caminho de morte e infecção é imprevisível, o imponderável é a noção mais gritante de lidar com uma pandemia, sabermos que existe algo que nos ultrapassa e que nos exige ação inteligente. A tragédia, por sua vez, não é uma lição do universo, é a natureza que age por suas próprias leis, como quando um vírus sai de uma feira e mata meio mundo.

O poema é este, e que a sobrevida da pandemia vire muita vida nesta nova liberdade que virá.

 

Poema em prosa – 28/12/2020 – Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

VISÕES

Um estudo profundo e eu lhe anotei os hemistíquios, uma febre obnubilada sob a sombra e o campo vasto que fremia entre o ventre  e a cabeça, um mar de poesia se abria, como em toda nota sol vigorosa, passei ao relento e a chuva caía aos cântaros aos borbotões, torrencial, trevosa, tonitruante.

Avisei aos camponeses que a hora do martírio havia passado, em cada gesto de foice o vinho na cara seca do sol, meu frêmito, o espasmo, a sede, cada canto silvestre, a pérola, o mármore, cada sonho e cada poema como um suspiro que cai exangue diante da lama dos dias.

Sim, os estudos críticos avançavam, da plêiade o topázio brilhava em berilo, como toda astúcia, a esmeralda renascia forte, verde neste campo de ambrosia, cada fastígio como um enigma, e todos os rios castanhos na bela queda do estro, um estrondo quando cai a cachoeira, a correnteza era misteriosa, todos os ídolos do passado acordavam neste nascedouro de ressurreição, eu e o poema nos entendíamos, toda a escrita flui nesta intimidade abissal.

O poema estudava a si mesmo, se media e se fazia, como um exercício físico, um exame de seu próprio corpo e de sua potência, vi, venci, na luta do campo de marte matei um bárbaro, ele sangrou sob a minha espada, lhe retirei as tripas e joguei aos abutres, como gritei na noite de verão, como um astro na fúria de seu show, como um presidente que acabara de se exaltar num comício.

O rio castanho com todo o seu fulgor era fogo e era furibundo, descia ao mar com a certeza dos espíritos inteiros, completos, bem estudados, bem testados, conhecedores de todos os venenos e de todos os antídotos, como o poema deve se conhecer, para que o poeta não o tropece, não o derrube, o levante como um corpo, e não se coloque em seu caminho, lhe conduza como rio castanho que é.

Na luta violenta da noite, se matavam os suicidas, matavam os assassinos, brigavam os beberrões, choravam os desiludidos, roubavam os delinquentes, corriam os perdidos, passavam frio os mendigos, e os poetas nada sabiam da noite, apenas viviam a noite, como profetas de fancaria sobre estrelas que moravam em suas cabeças de abóbada, na verdade com suas almas como vinhos embriagados, repetindo ladainhas sobre satori para parecerem cool, imitando beats como se fosse a glória.

Joguetes alucinavam, eu joguei o carteado como um furor de cada choque em meu braço e meu blefe, vi a passagem ao céu firmar um canto estrelado sem pestanas, sem peias, sem ornamentos, apenas um bel canto depurado como um som do coração, tal o poema que pensei, ou melhor, senti.

Assim, depois, penso em fazer de novo estas astúcias de abóbada, de páramo, ou talvez pensar ao rés do chão, cavando da terra meu sumo, e pensar que do mundo da vida, a colheita é farta para quem prorrompe de si tudo o que tem, pense : os poemas não nascem de seu capricho, eles surgem de sua inteligência, mas nada vem, a não ser de tua vontade potente e soberana de querer tudo fazer, assim tua inteligência se torna vontade, e tua ideia, um poema.

Dez meses passam na luta renhida dos corsários, como na procissão, eu cansei de ver mártires, cansei de ver santos, cansei até de ver os demônios imaginados da demonologia, passei ao largo das rezas, das cantorias, dos delírios religiosos, vi o êxtase, mas logo o deixei para trás, nada me interessa em mística, simplesmente me passa a ser enfadonho todo o esforço inútil de cobrir de ouropéis o que se pode ver a olho nu, a maravilha dos átomos em atividade e nada mais.

As visões caem aos cântaros, aos borbotões, são visões de vinho, de céu na terra roxa, são visões de horizonte, eu estou em meu poema como uma visão, vejo tudo em toda cor, neste átimo está a paralaxe do sol que passa, neste silente campo, o aleph, sente deste sempiterno som todo som, e deste exangue verso branco o vinho de sua tinta na cor de seu sonho, pense em todos os dias vividos.

Pense em tudo, não se transborde como um sentido mole, prorrompa como um estro forte, conduza o trabalho das flores, neste seu campo de trigo, neste seu vasto horizonte, as visões não são delírios, são o plano de sua arquitetura, a tessitura de sua biografia, a costura de seu caminho, violento em seu mar e em sua vitória.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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Poema em prosa – 15/10/2020

 

 

 

 

 

domingo, 11 de outubro de 2020

CANÇÃO DO FOGO

A peste se expande, caio na febre montanhesa sobre estrelas fugidias, na horda que nasce deste poema, primeiro o líder montês anuncia que cortará a cabeça de seus soldados, ele está delirando uma festa, chama o sacrifício pelo seu nome próprio : a fogueira.

Vá, pois os demônios da noite tocam tambores em transe, a noite ferina que do fogo se haure, o peito intumescido do poeta que tem delírios na seta que lhe corta a carne, a dama brumosa que da chuva cai aos cântaros, sua chuva torrencial de sacrifício.

Em todos os ritos que o líder manda, as estrelas caem do céu, o vinho derrama sob as luzes da lua, rente aos ídolos de madeira, um escravo morre na sangria, os tambores entram em frenesi, um litofone ronca, os músicos ardem no fogo, é o delírio da noite em seu êxtase de poesia.

Agora o cinéfilo olha novamente, deste primeiro momento antes da Suméria, a horda some no tempo, passamos aos ritos de Gilgamesh, cada vício em todos este vítreos versos do primeiro poeta, qual um Téspis, para depois brindar Homero em seu documento sobre os micênicos, a Ática em polvorosa, Anacreonte e a lira.

Vamos, os beats ainda não chegaram, temos versos metrificados e enfadonhos, troqueus e espondeus para dar em bardos na cantilena do amor cortês, os bas-fonds ainda não eram mainstream, ainda não havia punks de boutique.

Bruma na suada cantata, vamos, os sete sonhos da curva, as quedas monumentais, as enormidades com que fizeram da epopeia uma saraivada de ignomínias, cantos porosos, um vidro se espatifa, o poeta sangra, se corta, quase morre, ele delira outro século, grita feito um touro, pede anarquia no meio acadêmico, em vão.

Eu vejo este cinéfilo, seu elenco é só de atores amadores, seu plano-sequência chama ao trabalho duro, seu set encanta e o roteiro é improvisado, o diretor filma fumando, charutos Cohiba, sim, o poeta tem suas suturas, tá todo remendado, suas cicatrizes são de quem viveu, ele pensa em se afogar, em nadar ao horizonte, ele pensa em tudo e não tem norte, seu livro é uma miscelânea de sonhos infantis.

Fica pronto seu livro infantil, Os Poemas da Plêiade, seus cantos anacrônicos não dão em nada, ele vai à praia, compra badulaques, sonha, acorda, toca violão, nada. O filme fica pronto, o diretor fuma filmando, nada vai dar certo, seu disco é flopado como um brio que morre logo, não dá em nada este filme improvisado emulando Cassavetes, até seu P&B ficou afetado, uma semana em cartaz e acabou.

Ponto e final, o poema que nasce da desordem é este vício beatnik, vento e Buda, satori e maconha, tudo em escrita automática, um furor literário sem eira e nem beira, ah, parou, porra, que é isso? As vontades literárias são um estrondo, vem cá, eu vi a noite quente nos tambores, desmaiei, estava bêbado, deitei no chão, dormi, acordei, ainda era noite.

Fui ao mar, a lua estava cheia, tudo claro, o mar refletia esta lua potente, nadei, vi tudo em um mar de esmeralda, quase saí voando, era um sonho, acordei suado numa manhã quente, sem janelas, encastelado como uma cobra na toca, pensei que era um tipo de bicho, vomitei.

Melhorei e peguei meu bus para mais uma aventura sem destino, fui ao morro cantarolar com as armas, meu vício virava fumaça, vi todos os meus conhecidos se arrebentarem, sobrevivi, este livro que deixo é só um documento vasto feito de sangue.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Poema em Prosa – 11/10/2020

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

LITERATURA DO DESATINO

Haverá o dia da verdadeira literatura, com os vincos da enorme paisagem que se abre, os cantos de malditos nas tabernas, eu vi desde Anacreonte e Safo aos libelos de Whitman, ao dias que lendo as suratas um ardor se ouvia do Anjo, ele assinava seu nome de anjo sobre a pedra de Roseta, traduzi meus versos infames para o aramaico para ver este Deus castanho de rio, este Deus verde de mar, este universo que pinta meu labor com as cores da Biblioteca que ergui com meus braços de aço.
Obra esta que tem um certo vínculo irrefreável que dialoga diretamente com Ginsberg e se publica com os laços de Ferlinghetti, sim, pois na verdade austera de T.S.Eliot, tocava no rádio Nirvana e dizia “I don`t have a gun” ou “teenage angst has paid off well” etc. Clicava no ícone das startups, tomava xarope syrup roxo e ficava doidão, já gostei de certos ares de maconha, hoje curto mais ficar na Heineken vendo anos 60, hora que vejo anos 60, ah, flower power e o hábito de chamar as outras pessoas de bicho ao invés de cara, ou, sei lá, chamar de psiu.
Lembrei, depois de beber um Pera Manca, que gosto de tocar violão apenas rock, ou ainda lembro que toco as escalas com afinco, mas volto e brinco de power chord, ah, bem divertido é saber tocar acordes, C/G/B, volto e faço deste poema um canto solar, vou à praia e bato tambores com todo o sol que tem pela frente. O sol, este Deus verdadeiro de Amón, Akhenaton quis nomeá-lo Aton, e vi que Rá era soberano num Templo de Karnak ou na selva dura em que as cataratas levavam a Anúbis perto dos etíopes e talvez no reino perdido da Líbia, caí em crateras, fiz mapa da lua e suas fases, elenquei os signos e abri as lâminas do Tarot de Marselha, vi o enforcado, o louco e a fortuna, ah, ri muito, sofria de gota e de esquizofrenia, li minha carta maior, o arcano me dizia o seguinte : não sei bicho, vai na tua.
Certo, certo, reli Michel Foucalt, vi a diferença entre o frenesi e a mania, e como a melancolia entrava numa amálgama geral em que tudo era classificado a esmo dentro das estultícias, ou melhor, asneira, opa, insensatez? Não, era a classe da nau dos insensatos que virou desatino, tudo era desatino e nada era desatino, até que virasse cultura médica e não hospital geral de higiene social, sim, eu passei pela cultura médica e pela cultura mediúnica, me senti mago e doente mental, claro, depois virei sábio da montanha e comediante que faz ponte com o outro mundo, este mundo imaginário dos personagens brutais que se fingem de loucos e acabam enlouquecendo.
Como este poema se abre como rosa, delicada rosa, certa bruma me possui, eu vejo entre o que já foi escrito, mais uma frente de ideias para realizar, jogo buraco, jogo pôquer, não sei muito, royal straight flush? Ah, mesmerizo mesmo no rock, tem agora um tal de streaming, discos que viram streaming, lançamentos de álbuns que viram streaming, tudo virando playlist, eu também faço, vou atrás e os poemas podem entrar na playlist, listo alguns poetas, pode ser Neal Cassady, Bob Dylan, Renato Russo, Cazuza, pode ser Ana C., pode ser eu mesmo, e faço coda com som de guitarra, Hey Joe, where you goin' with that gun in your hand? Ou : Evil man make me kill ya/Evil man make you kill me. E finalizo, meu poema vive, e vive bem.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Poema em Prosa – 22/07/2020


terça-feira, 30 de junho de 2020

PLANET CARAVAN

Nas voltas da vida, a dar o galope com meu cavalo negro, entre as estradas que se abrem em meu sonho e minha canção visionária. A caravana avança sobre os castelos de mármore, sobre as pedras jogadas na beira do rio castanho, na flor ametista eu tenho meu recanto e meu refúgio, as letras se formam no caudal das vinhas e de todo este ópio que delira calmamente sobre as finesses da papoula. O poema, este ser estelar que gira com fúria, no entanto, sempre pousa delicadamente depois que se esgota em sua coda, como na saciedade depois do orgasmo, uma calma búdica de quem está completo.
O poema tem um certo rigor nas astúcias, uma manha honesta que nada sabe e tudo faz, como aconselha toda boa sabedoria prática de ação direta, e todo ser que realiza todas as suas possibilidades, sem regatear seu destino e sua vontade que deve ser soberana de sua vida. O poeta é este tradutor de enigmas, este faz-tudo que em poema escrito condensa um mundo inteiro de noções, sua cavalgada vai a seu termo, em seu fim glorioso de vitória, sua caravana luminosa de sol, nas voltas da vida, no poema que circula seu espaço de ação vitoriosa, um lema e seu ás na manga, sua filosofia de vida, vencer com o seu dom de máquina e de tear firme e resoluto, com a certeza do amor vigoroso que não enfraquece.
A força de sua vontade soberana, seu tear de máquina que não cede ao holocausto da loucura, que não morre exangue na batalha, o poema em seu poeta, o poeta em seu poema, a vida em uma dose de sonho que avança implacável sobre as horas dos dias de luta, a cavalgada que este poema dá sem hesitar diante de um grande caminho que se abre em sua fortuna, sua Terra e sua cidade, seu campo e sua tarde, sua manhã e o descanso em sua noite estrelada, não se esqueça, o poeta tem todo este poder de fogo como um grande épico das batalhas campais pela vitória, a caravana avança contra os dentes da morte, o poema não cede, não regateia, vence, e sua filosofia é a glória de seu caminho livre, a liberdade em seu poema, a poesia em sua liberdade.
O poema se abre em flor com um dom mesmerizante que decifra sete céus na nota de febre de versos que se derramam na música que corre como vinho, na praia de seu flagelo ele vive e entende o sorriso na arma derrotada, ele, o poeta, entende de enigmas, de linguagens cifradas, de brumas subliminares, de hieróglifos infensos à razão, entende da linguagem dos loucos, dos bêbados, das putas, dos insensatos, dos mendigos, dos frenéticos, dos furiosos, entende dos fracassados, entende sua vitória ao ver a desdita dos românticos exaltados, ele lê todos os códigos, já experimentou todos estes venenos, ele retira as quintessências depois de muitas doses de veneno e de antídotos, ele estuda os meandros da loucura e da sabedoria, por conhecer os venenos, lhe depreende os descaminhos, por agora conhecer as quintessências, sabe do bem viver e abraça o universo com toda a sapiência de quem mergulhou nos bas-fonds e saiu vivo, o poema avança, em sua cavalgada ao destino de sua vitória.
A caravana avança, rumo ao seu ato de artista, na hora deste dia imenso, que o poema tem por estar livre em sua vontade soberana, o poeta monta em seu cavalo negro, avança pela estrada sem fim, anda e corre pelo vasto campo florido, realiza seu graal e decifra seu próprio enigma, estuda a sua própria alma, desce ao inferno, sobe ao céu, e anda sobre a Terra com seus pés firmes e uma fortaleza de quem plantou a sua sorte na seta certeira de um coração nobre, seu poema é seu escudo, seu poema é sua sabedoria, a caravana avança, o destino do poeta é escrever.

Gustavo Bastos, 30/06/2020

MAGMA

Em países distantes estava o lume lisérgico e sua taenia saginata que esculpia o verme na pintura. Eu revisei meus tédios na pátria amada que ardia. Logo, entre os ventos da vinha, num terror azul escuro da noite, sofri sob a espada que cortava meu sabre e minha adaga, um partido peito nas braçadas do mar. Nadei por várias paragens, entre as nereidas fui rei, depois de uma embriaguez em que acendi meu cigarro na véspera do caos, olhei em volta, imaginei Londres sob um pub de uísque escocês, fumaça de charuto, brotos de salada, carne no fogo, eu vi o Vesúvio, na semana seguinte, regurgitando poetas de Pompeia, alucinações de Creta, guerra dos hilotas, dos espartanos, uma derrota em Maratona, um assassinato no Senado romano, duas facadas no presidente que foi deposto com notas frias de holocausto.
Rimei minhas pedrarias, diamante e ametista, o rubi cantava suas notas doces como harpa angelical, eu prendia minhas dores numa teia de resistência, a fortaleza urdia seu calor pétreo e decidido, um azougue me tomava o peito, eu corria rumo à minha própria vitória, independente, vigoroso, com a certeza de ser um bom e belo poeta, com todas as histórias e fraturas de um bom e belo poeta, com todas as misérias dos vícios e as glórias da virtude em meu dorso biográfico, um ser moldado, feito na fervura e ganhando seu soldo depois da guerra total contra os abismos da hipocrisia, eu era o guerreiro, e tinha em meu escudo a primeira ponte para o ataque de minha adaga contra o coração da derrota.
O Vesúvio, este Deus caudaloso de lava, regurgitava os poetas de Pompeia, poetas de fogo banhados em lava, fruto do magma, o mistério do fogo em sua fervura, do manto da Terra para a camada atmosférica em fumaça negra petrificando sonhos no mármore, invocando os espíritos infernais que despertavam sob a febre do oráculo e das danças ditirâmbicas antes do primeiro ato de Téspis. Eu fundei, estudando Aristófanes, as nuvens, Eurípides, Ésquilo e Sófocles, a unidade de tempo de um dia para consumar o ato, as parcas cegas do destino, tecendo contra os muros a Moira, e na loucura do suicídio as Eumênides que atacavam os ouvidos do guerreiro em seu delírio de queda.
O magma descia entre as ruas e as casas de Pompeia, os poetas dançavam seus últimos dias na Terra, iriam ao rio sombrio, navegar com Caronte, guiando seu barco rumo a Cérbero, os poetas na lava seriam devorados pelo fogo, o magma em Pompeia daria o destino final a estes ditirambos que nasciam da lira de uma pantomima, de um gesto vulcânico mesmerizado, de um tear fulvo que semeava em seu fogo a grande vida deste magma que preenche o manto da Terra, a doce Terra Gaia, que junto com Cronos regurgitava, e seu magma era o poema final desta astúcia de poeta, deste mimo de artista que nos dá seus amuletos e talismãs, seus poemas feitos do fogo da paixão e da firmeza da vontade, os poetas de Pompeia morriam tocando a lira, se afogando na lava do magma do Vesúvio que entrava em erupção.
Marca desta terra em seu vulcão, o magma deste poema todo que é fogo e que é a loucura da Terra em sua essência, eu me vesti com meu manto diante da grandiosidade do Vesúvio, meu sonho de Pompeia em que ouvia Echoes de Pink Floyd na viagem de meu ácido poético, o magma tocando música, e os poetas de Pompeia, que agora eram estátuas de cinzas paralisadas por uma Medusa de lava, o magma e seu poder sobre o tempo destes corpos, um instante, o momento em que o Vesúvio tomou Pompeia e seus poetas e deu ao fogo seu poder e sua razão.

Gustavo Bastos – 30/06/2020

sábado, 14 de março de 2020

DEGELO NO TIBET


Andei no Tibetan Freedom, e com um olho atrevido pensei em burlar a máquina de caça-níqueis que o crupiê tinha programado para roubar a cada vinte minutos um incauto que se empolgava ganhando cem dólares antes da queda. Joguete do destino, este patife que opera via seus acasos mortais, os poemas aqui não cabiam no gelo do Himalaia, maiores topázios ou ópios que sussurravam o êxtase de seus mistérios.
Na nota de um fracasso de poeta suicida, o elenco de uma filmografia morria de tifo ou gota, os senhores que produziam faziam as cenas em um plano-sequência de vertigem, nada a dever aos fantasmas mais miseráveis de um expressionista maquiado de olheiras fundas a fazer do pré-guerra suas intuições sinistras.
Em Lhasa eu conheci um monge esteta, pintava suas astúcias e as destruía em seguida. A hipnose de que fui vítima tinha um ar viciado que simulava um satori cheio de diabinhos pintados na tela de minha mente extática. Rumorejava o vento em cantos sutis que abria a vertigem para uma nova paisagem onírica, os sete candelabros que urdiam um poema sacro com brios profanos e um chá alucinógeno que fazia ouvir música celeste com os ouvidos sinestésicos que pintavam o sol do meio-dia com asas de anjo e ardis bem diabólicos, como uma face dupla que ardia meus infernos com sentimentos de céu em meio ao caos da morte que me cercava.
Quando eu lia Ginsberg depois de uma passagem por Katmandu, eu nasci de novo antes de certos passos irrisórios e febris. Já antes ainda de eu nascer de novo, na sombra de dias mortiços, o cheiro de enxofre possuía meus rituais, ouvia os delírios de minha pena com certa delícia, mas a minha alma ainda estava morta, viciada nas flores oníricas e nos germes que eclodiam as farsas e as canções ditirâmbicas de antepassados que se perderam no tempo da História.
Lhasa ainda não tinha sido invadida por chineses e nem os lamas tinham ainda fugido para a Índia. Rinpoche Tarthang dizia certos enigmas mais possessos que todos os koans elencados pelo zen, sua fusão fazia Jazz e batia tambor com sede e fome como grandes deuses irados e famélicos, Shambala me dizia em quinze centúrias todas as regras do jogo e de como quebrá-las sem violência, apenas com o uso da mente clara e decidida, o poder da decisão como o cerne da escolha, e a consequência inaudita e planejada no mesmo diapasão, como um compasso de música que metrifica um destino inteligente.
O sol ardia na manhã calma da montanha, o Himalaia amanhecia com o canto dos lamas a fazer balões coloridos voarem naquele frio marmóreo que convidava à meditação. O sol que nascia vermelho e ficava amarelo, e Tarthang que pintava logo adiante um Shambala verde e azul, simulando demônios depois da alucinação do chá de flores oníricas que tomava o espaço e que um dos lamas delirava para testar se ficaria louco depois do êxtase e da sinestesia, pois tocava tambor alucinadamente enquanto cantava coisas incompreensíveis, num frenesi próprio e enigmático.
O jogral apareceu ao fim daquela manhã, o tal lama que tinha alucinado desde que o sol nasceu acordava de seu transe e caiu num sono de Morfeu. Tarthang fazia a sua palestra debaixo de uma araucária e depois dizia sobre os diversos venenos a evitar, sua doutrina sobre a atrabílis e como a saúde era mais forte com os dons bem cuidados e não apenas dependentes da inspiração. O poema metrificado em tibetano fazia novamente um tipo de jogo mais paradoxal, uma espécie de delírio armava o raciocínio como um joguete, samsara operava ali.
Em Lhasa aparecia Shambala como a deidade irada a provar o fracasso filosófico dos projetos doutrinários que buscavam a verdade, a sapiência era fraca e exangue, a meditação apenas evidenciava a morte da alma cognoscente, Tarthang então cantava para o sol inutilmente, a sua sabedoria também não era nada, virava pó de estrela em um gesto de morte, indo para o bardo para se livrar de sua verdade e de suas mentiras.
O jogral, a esta altura, não fazia mais ninguém rir, todos meditavam, e a imagem de Shambala no fólio desafiava a imaginação, um sinal de que a quietude era um exercício contra a perturbação da loucura alucinatória dos transes oníricos, o embusteiro que se jogava hipnotizado do penhasco, achando que iria voar, e sua morte suicida como um ser de asas que nunca existiu e que se espatifou no chão duro de sua finitude. Este era o jogral, ele se matou depois de falhar em sua peça de comédia, o bobo que se cortou depois de uma queda, o fraco da desdita que se jogou, que teve a queda definitiva depois de cair, o suicida que nem poeta era, o que conheceu a sua morte e nunca mais poderá rir.
Tarthang já sabia o que poderia acontecer ao que espera agradar com salamaleques, vira um joguete de seu próprio fracasso, e o sol só brilha a quem quer a si mesmo, a quem se edifica para si, a construção de uma alma forte que desafia os olhares, pois nunca será o jogral agradável que ri para fazer cena e chora por ocultar seu vazio. Os lamas então saíram de tarde com mais balões coloridos, os poemas de fogo foram embutidos em tais balões, em Lhasa tinha uma paz imortal que nada pedia ao sol, apenas agradecia. Tarthang meditava por mais uma hora, e a certo momento de um sol vermelho, levitou e entrou em um transe em que viu Shambala novamente, a lhe ensinar sem falar novas intuições que ele nem suspeitava, um êxtase e mais um dia vívido como fogo.
Depois de uma semana, voltei para Katmandu, tive a inspiração de fazer um poema esteta e bem afetado, um rito parnaso que empolava em língua morta, a fazer uma versão aguada adrede de uma experiência mística, tentava falar do jogral e de seu fracasso triste, e de como o sucesso só se fortalece ao não atender a qualquer expectativa, mas à verdade de valores inesperados, como um soco na barriga que dobra as línguas de almas mortas e sebosas.
Katmandu teve uma festa na noite em que estive lá, ao pé do Himalaia eu vi mulheres e crianças felizes em meio de uma pobreza, nada faltava, pois as ambições ali tinham virado uma quietude que me lembrava do sol de Lhasa, e o degelo da agonia que tinha passado depois de ver Shambala dançando na nuvem, com Tarthang flutuando a dizer que nada se salvava, as poeiras sumiriam no éter, o bardo provaria que não teria mais nada pela frente, o vento nos levaria para além, e nunca se soube do infinito o que ele nos diz, o céu sempre silencia, e assim se entende tudo no silêncio.

Gustavo Bastos – POEMA EM PROSA – 14/03/2020



terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O PENSAMENTO EM ESTADO DE FLORAÇÃO


Brota nas alturas das sombras o elmo que revira as astúcias qual poemas podres de poderes cáusticos. Lia Allen Ginsberg dentro da editora de Ferlinghetti, não via saída para Cassady na linha do trem, sua cabeça foi esmagada. Ria alto depois da chuva, não lia nada que me aborrecesse, nada enfadonho, pensava em estudar Química e cinemática escalar, não via interesse em deambulações adolescentes depois dos trinta.
No roteiro estava escrito certos cortes, não lia a fotografia na descrição da cena, o fade out era postiço, não rimava com a aparição do protagonista, era uma chuva de erros de continuidade e uma febre bruta de cantos improvisados. Caros leitores, eu não via nenhum motivo para aprovar o roteirista, o chamei a um canto e disse umas verdades : ele não tinha talento, falei para ele fazer outra coisa da vida etc, e ele me xingou e quebrou minha caneca de caveira, saiu revoltado e disse que aquilo não ficaria assim, o esculhambei e não tomei conhecimento de seu ódio.
Jogral das rimas, o bobo elencava depois mais uma aventura de tolo, destas aventuras de utópicos que não têm aonde cair morto, poetas de livretos carcomidos de esquina, que fumam mais maconha do que escrevem etc. Ah, não sou ingênuo, lia de novo Ginsberg e gargalhava quando ele tartamudeava na prosa, um improviso de jazz que fumava ardorosamente enquanto rimava.
Ferlinghetti, de chofre, era a verdadeira cabeça pensante, eu não via mais a estrada de Kerouac senão no cinema, e não via mais grande coisa em citar route 66 para tirar onda de “easy rider”, poeta maldito, e estas baboseiras que vendem nos letreiros dos carros e nos out-doors de vendas a jato. Pois sim, puto da vida eu xinguei o motorista de filho da puta, disse a ele que ele tinha passado do ponto, ele me chutou e me jogou na esquina perto de uma boca de fumo, mas eu tinha largado o vício, fiz que não tinha acontecido nada, e saí com uma fleuma qual altivo ego de pombo.
Cortei umas batatas para fazer um prato que inventei, salada de pank com cebola e batatas, não sabia fazer, não li tutorial, cortei também uns tomates, e taquei pimenta, ficou uma merda. Resolvi que ler era melhor, escrever nem tanto, passei a Whitman, desisti. Fui ler Baudelaire, De Quincey, viciados em ópio, Lord Byron, putanheiros que viviam em notas de rodapé, ébrios amalucados que sonhavam em ser épicos, iludidos que pensavam ser gênios, gênios que não estavam nem aí, e projetos abortados por suicídio.
Ginsberg, neste ponto da história, citava Omar Khayann, ah, eu lia o Islã como uma mofa para machistas inveterados, destes governos totalitários que tratam mulheres como bibelôs, e fumam haxixe de tarde para rezar no ramadã em jejum. Nada de novo no front, o baixo clero é como baixa magia, obscurece a mente e faz mal ao coração, nada de novo, tudo velho, com velhacos e delirantes pré-iluministas. O coração das trevas anuncia : Kurtz está no timão, e vai matar seus escravos com tiro de espingarda, suando álcool na testa. Como no romance de Conrad, um ataque contra a degeneração dos costumes, que sempre precisa de um tirano imprevisível.
Reto vai um buda preguiçoso, rimar com os vagabundos iluminados, os poetas bobos que confundem iluminação com vício e decadência, em seus cantos infrutíferos que não passam de versos feitos sob fumaça e ilusão, nada que a consciência desperta considere no mínimo esperto ou inteligente, uma imposição de fracasso que não tem nada de útil na estrada da porrada e da vitória. Volto com mais vigor, já tinha lido todos os sacanas e embusteiros da História, vendi meus livros lidos, e fui ler Hegel, Kant, só filosofia alemã, fiz que entendi a Crítica da Razão Pura e os juízos sintéticos a priori, mas preferia citar o imperativo categórico, e depois de cair em Fichte passei logo e correndo para os bandoleiros de Schiller, este sim um campeão que competia com Goethe, um fausto astuto que era a antítese de um Werther lacrimoso e destinado à morte ritual.
Caiba nesta fábula o que disse, os mártires são idiotas, me recuso a morrer. Vai andando pelo caminho seu poeta pândego, como uma estrela potente que faz plêiade e faz jazz e blues com letras de rock.
Nota final : este poema astuto não foi produzido sob efeito de estupefacientes.

31/12/2019 Gustavo Bastos (poema em prosa).

domingo, 30 de junho de 2019

PROSA DA MEMÓRIA


Certamente que o osso duro de roer dá as cartas num vento de força que urra e bate o martelo, fechado o contrato sem loucos senis, sem floreios de mártir, sem nada a dever ao mundo cão, um livro que tem a consistência de uma rocha, e os poetas de um elenco forte que lhe dão a mão, poeta que reluz sua carne em espírito. Ossos do ofício, lembra do lumpen, lembra dos dias sofridos da vida aberta e sem chão, daquela sua juventude que se fortaleceu no raio impiedoso do desamparo, lembra de quem você é, lembra de sua luta e por tudo o que você passou, ganhe vitória de sua luta também, mas lembra, lembra.
A memória reluz este teu campo de azul que revira em verde, veste tua armadura, gestos pontuais lhe trabalham o corpo, seu estro profundo vem da guerra em busca da paz, sempiterno sentimento de garra, tua batalha gera tua espada, teu gládio gera tua fortuna, se defenda dos precipícios, arme seu dom, se defenda, sobretudo. Venha ao ataque também, funde uma república alternativa, fume seu sonho e realize seu intento, ganhe teu rio castanho em mar, volte ao tempo de infância, vire velho, torne-se adulto, conheça os países, viva como um nababo, saiba viver como um renunciante, saiba que tudo passa, volte e retenha este tudo que passa, viva o presente, lute pela memória do passado, lute pela ambição nobre do futuro, seja seus três tempos, seja completo, inteiro, sem estilhaço, sem fissuras, se revolte, bata de frente, lute que nem um poeta, lute que nem um escritor, lute pela sua filosofia, ame quem luta também, não se arrependa disto.
A poesia, numa lufada, ganha em tempo sua força, ganha todo este tempo forte que nem um soco, verte sangue e música qual a barafunda de uma azáfama de turba que gira como rebanho que parte em todo o caminho de povoados, aldeias viram mundos na pena do artista, e seu canto universal pode vir de um vilarejo de cantores trovadores e repentistas, a poesia do povo também registra os sonhos de uma poesia de gabinete, de uma poesia erudita e declamada, tenho no slam, certamente, a imagem mais bela da poesia do futuro, o futuro é slam, bicho.
Eu logro vitória à poesia mnemônica, o slammer que diz “sou aqui este que canta e rima, minha vida não foi sopa, mas tenho minha firma, yeah, não dou mole para mané, pois aqui mantenho a minha fé”, e segue ali, em meio ao burburinho e à cerveja. Não julgue teu passado, vire a mesa e ganhe o jogo, mantenha a coluna ereta, o sangue frio e os nervos de aço, tenha nesta regra a sua autoridade máxima, ao que negar o seu espaço, o chame de louco. Louco! Diz o poeta. Primeiro, riram. Depois, choraram. E agora, respeitam.
Louco! Gritavam os loucos. Louco! Ah, mas a poesia é de uma ignorância solene, bem ligadinha na cultura salutar e infalível do foda-se, venha aqui lutar por um mundo melhor, mas fume seu baseado e se defenda com jah rastafári, eles vão odiar. Louco! Gritavam os loucos. Louco! E depois calavam, atônitos com a guerra que eclodia. Louco! Gritava o idiota. Louco! Chorava o idiota. E todos ali se encastelavam depois da tragédia, pois faziam número para inglês ver, e o poeta em seu foda-se tudo como uma grande denúncia. Loucos! Agora gritava o poeta.
Mnemosyne, acho que alguns estão agora tanto ouvindo o foda-se que acabam de se foder, a poesia solene ignora os sentimentos de hipocrisia, os aniquila sem piedade, seu coração de poeta, memória, tem de seu sentido reto seu mais perfeito mérito. E eles agora gritavam : Poeta! E o poeta, depois de um foda-se bem dado, apenas dizia, numa serenidade de quem passou por muito, obrigado.

29/06/2019 Gustavo Bastos




sábado, 29 de junho de 2019

AVENTURAS DE BLAKE


Quem se abisma como fera nas ruas de uma fumaça metafísica, fuma teu intento como um mártir, o poema que lhe diz que a alma sombreia e margeia o caos sabe do poeta toda a cor de seu drama existencial. As drogas alucinógenas fazem o número do verso como um meteoro que se espatifa entre os sóis que dormiam antes da bomba.
Longe um castelo, e eu rumo a Paris com um canto de Lautréamont sob efeito de beladona, viés romântico anulado, cadafalso azucrinado como um rei decapitado, lembro de meu maldoror, de meu matrimônio do céu e do inferno, uma pintura astuta de Blake que surgia em notas subconscientes.
Veja : os silentes monges levitam sob a fumaça de erva mística, uns poucos idólatras se ressentem de um ataque de riso de um poeta, pois da poesia burilada temos um ardor e um torpor inigualáveis, maldoror veste vermelho, o fragor da rosa estoura meu olfato, eu vejo em sinestesia o sentido metafísico desta alucinação divina.
Veste a rosa fundada em espírito e corpo, dando às nuvens sentidos de sedução e vitória, com a poesia mais estourada como uma boiada e o forte impacto de um touro. Vem, e de Lord Byron tens um tanto de noite opiácea, de um Percy Shelley o naufrágio poético, se mata como Florbela, reflui e volta, se irmana de seus asseclas como um guru virado em lua, um lunático que é escutado por autoridades das mais diversas, como um Rimbaud nascido de uma lótus embriagada.
A nuvem translúcida ecoa em vento a matriz destes cantos ébrios, um ópio futurista que embebeda todas as cores de funda metafísica, o poema se funda como um eixo insuperável da flor universal, eu tenho toda esta fúria como um animal que sai da jaula, eu tenho toda esta fortuna e vitória conquistada pela firmeza de propósito e um lance divino inconteste.
Venho de longe com as sedes desérticas de um beduíno, venho de longe com as águas de um oásis que some na amplitude da visão, venho com todo o peito forte que rege astutamente toda a fábula do caos. A poesia canta na rua, os doentes mentais têm dela um vislumbre, os idiotas dela fazem troça, os embriagados dela têm o sumo supremo como uma flor nauseada que ruma ao campo vasto que dorme como um nababo depois da orgia.
Vento que se ruma todo feliz sem cadafalso ou carrasco, vento de poesia que ruma indelével e idôneo como grande saúde frente à guerra brutal dos sonhos. Passo rente aos filósofos que estudam filigranas, a visão geral me evoca novamente a mística psicografada de Blake, os martírios derramados de Florbela, os gritos primais dos poetas primatas, os lances de dados de um Mallarmé que ecoa toda a próxima poesia de vanguarda. O louco das cartas vaticina, como louco que é, a explosão de uma cidade, o louco delira como um cavalo baio que pula entre as tropas assassinas.
O oásis de seu delírio vaticina como um idiota obsediado seu caos brutal que vira pó. As notas febris e apaixonadas não eram nada mais que cartas adolescentes rasgadas depois de um surto de raiva, seu sentimento como Werther era a paixão idiota que sofre em seu âmago a dor do fim, funesto jovem que caduca sem envelhecer, seu sofrer mesmerizado que canta poesia chorosa na loucura do plenilúnio e chora rosa com um manto azul.
Maldoror e matrimônio do céu e do inferno lhe dão as flores de um espírito grande que explode como grau de mestria, a barcarola e barcos ébrios cantam e se movem como esferas numa harmonia de Kepler, ruma teu verso em atavios que sobem ao céu em ascensão de Maria, e os pássaros que voam lá são tão vistosos que ofuscariam a visão da carne mortal.
Lembra-te que o fino da bossa vem de uma resiliência máxima às intempéries brutais, e forma teu estro sob o prisma imbatível que ferve força e exibe o peito como um bicho treinado no fogo. Blake lhe serve ao espírito como uma espada que corta rente toda a sombra de palco, que ruma todo inteiro com um pincel que delira toda a cor que funda teu estro veemente e vituperante, lhe dá toda a fortuna teu brio formoso que renasce, ressuscita, e qual fênix brota do chão arrasado da morte e dá uma lufada qual um éolo louco e protuberante.
Graças ao Netuno que lida ao mar seu vinho mais fremente, e lhe dá ao peito teu estro e profundidade de máquina, dá ao teu vinho o sabor seminal que enlouquece toda a cor como uma fúria ébria que estoura champanhe na noite dos fuzis, e ruma ao capital como um corsário que vive o espanto de seu sonho qual lagar e giro de tempo em golpes de martelo. Vem a teu atavio cantar Blake e seu canto visionário como este que é poeta e que delira.
O louco das cartas bombeia seu vento qual um coração de absinto que juramenta seu trabalho como grande músico de trombeta e tambor, bate no coração das horas o tempo e ventila sobre o céu estrelado longas noites de som e de vinho, o louco delira Blake, e ressuscita, em toda a campanha em seus campos de marte, as suas batalhas sonhadas com erva e diamante.

29/06/2019 Gustavo Bastos (poema em prosa – Netuno)



sábado, 24 de março de 2018

O HOMEM VITRUVIANO

Numa garganta diabólica se faz o Homem, este ente que não se reduz ao solo de um ser inanimado, embora seja pó quando confrontado com a morte. Seu sonho rutila como foice e trabalho duro que se expande no cosmos e na mente universal, logo eu que sou poeta teria que contar-lhes do destino cósmico, como um grande som que faz melodia na escalada do tempo infinito, como um pássaro que vê luz e sombra, mas não perde o voo.
Assinatura dos artistas em suas pinturas, eu vi em um grau violento os ângulos da visão filosofal, em termos que o notório saber se anulava frente ao dom místico e visionário que somente a poesia em seu ébrio fardo poderia nos decifrar sua simbologia, é o dom do ocultismo que revela as águas de Caronte, os vinhos que não se detêm no mar dos mortais, eu tinha uma velha arma de brinquedo que eu trazia no meu colo quando eu era ladrão, e minha ideia de luta era um nariz quebrado.
Eu deleitava os chifres de um diabo azul, eu carregava em vermelho as astúcias de uma dose de uísque quando derretia o gelo. Lá na pedra ametista remava com langor o santo beberrão que idolatrava o anjo caído dos sóis, leve como a pluma um vingador lutava também, com a cara na areia, seu deserto intelectual, seu academicismo que era deglutido pelo mundo cão das efervescências de álcool e patifes.
Dentro do proscênio andava a diva dos horrores, pintava a cara de rosa, como uma feiticeira olhava ao derredor, era casta, embora na galhofa se portasse qual prima-dona. Uma ópera se enegrecia no campo do fastio, o solo seco em que o vinho indócil descia era feito dos ossos de antepassados que nos velhos trágicos de Ésquilo vestiam-se de embriaguez e máscara.
Ali, perto do Oriente, dravidianos faziam um ensaio do Mahabarata, velhos lemas contorciam-se no barato transcendental de um soma pré-Huxley. Eu cantava de gaiato um pouco desta concórdia besta de estar impressionado com a natureza e a paisagem, um futuro se abrindo como um leque florido e cheio de vivo calor, somente quando eu entrava em transe é que era possível ver o fantasma que morava dentro da poesia de salão, um meneio de menina rosa somava-se ao caos que o trabalho ajudava a desenhar naquele átrio de pedra.
Um cachorro cego e louco latia com estribilho rouco, eu disse ao dono da banca de jornal ali perto que o dono deste cão deveria estar preso, um homem vitruviano e renascentista do futuro não poderia tolerar violência contra o cachorro louco, era contra a paz urbana que reinava na manhã de domingo quando eu lia na página de cultura que um poeta havia passado por uma prova de fogo, saía da lama e do lodaçal e agora vivia num jardim com seus gnomos cantando alegria do lótus e mantras da era de aquário, ele e seus bobos cantores subiam a montanha para se embriagar de vinho e ver na estrela vésper talvez um disco solar ou uma nave vinda de órion ou do portal que um médium de umbanda havia psicografado na noite de sexta na festa de exu.
Depois deste conhecimento oculto travado com os dravidianos, se costumava ter uma certa memória fictícia de um tibet longínquo ou ainda de Rama, mas mesmo no maior do silente campo, nada superava a dinastia atlante depois das colunas de hércules, sete sábios e um livro do sol em que as coordenadas já estavam postas, o dom da profecia estalava naquele sol vermelho após o dilúvio. As bruxas do mar já dançavam, e as sereias ainda viviam naquele mar de arquipélago em que creta ainda reinava. Somente o capitão fenício tinha rompido as fronteiras em direção ao sol marroquino e a uma cartago que ainda balbuciava nas primeiras casas de terra marrom.
O mapa que tinha o sol ao centro agora, neste mundo contemporâneo, invadia-se de sinais de rádio, de sons de vidas conectadas, elétrico sonho de hiperlink, o sonho faustoso dos programadores cobol, as sinapses virando-se em máquinas em busca da imortalidade, o delírio subatômico e a eterna busca da teoria de tudo, um certo rancor capitalista de injustiça e sonhos derrotados, uma grande miséria rondando o progresso técnico, e o fim da linha para uma sociedade que produz lixo.
Na beira do precipício vira o milênio o homem vitruviano, este que para visionários tem o espírito completo, é uma luz búdica, e que diante da técnica não se satisfez em ter o dom da luz, mas quer se unir ao seu maquinário para ser um ser híbrido, confrontando seu espírito imortal, seu corpo finito, e sua mescla robótica e sua memória que poderá virar um chip dentro do circuito da imortalidade eletrônica. O futuro estará em mãos androides, um fundo distópico sempre realizado em cibercultura, o hiperlink da memória produzirá um super-ser, não mais homem, não mais máquina, este que tinha o dom da luz, e agora tem como que um sonho de golem para conquistar a natureza que lhe destruirá, o homem vitruviano que perderá seu ângulo com a natureza, e como homem decaído, será levado pelo caos climático deste seu sonho de indústria e máquina.
Corta agora para cá, a cinemática romperá a febre do milênio, novos remédios, novas aventuras, abre-se a estrada do sol, como em toda road trip, um poeta e alguns loucos, um filósofo e um cientista, um monge e um ébrio. Abre esta carta náutica, temos dois pólos, uma linha equatorial, eu espero sinceramente que o feitiço que produziu o universo tenha um bom dom de revelar talentos quando tudo está perdido, e o dom da poesia nos faça sol em meio da tempestade, eu rimava bem como um furto, eu ia bem antes do surto, mas não tem tempo de lamento, tem tempo de razão, e minha mira já derrubou diabos e pobres diabos, tenho em mim várias cores em que firmo meu diapasão, e na bússola que sonha, delírio é poesia.
Acerta teu contrato com o editorial do dia, o julgamento político atingirá os carreiristas, os afortunados passarão por provação, já ligo os pontos que um idiota tentará se eleger, em vão, o dia brilha e o sol é justo, vamos em frente com toda a rotina, as cartas estão na mesa e na manga, tira um coelho e mata dois coelhos, tira um ás e guarda teu coringa, um diabo faz guerra, um anjo traz paz, entre os demônios da roda de sangue, a guerra acaba, e a paz mais funda tem poema que lhe dê a forma, que é a forma do riso, poema que enforma, a forma alegre, o dom de ser feliz.
Mas, não fique aí, este teu lamento é de poetas que se suicidam, não seja um poeta triste, se és um homem vitruviano, você, homem e mulher, trans ou o que quiser, teu dom já vem todo inteiro, como Buda, já temos tudo, o dom de ser é que já temos, e nada mais importa, viverá mais quem for ver que tudo cabe em um mundo mais justo, o mundo cão dos injustos cairá, nada restará aos porcos do sistema, vejo luz em vocês, cada um ao seu tempo, como uma orquestra ou big band que se inspira com o raio do sol.

Segue aqui o último trecho do poema :

TEMPO SOLAR :
Eis que tudo é ritmo, eu sei, eu sei,
Acendo um cigarro ou um charuto
e parece sempre tudo a mesma coisa,
mas nem toda revolução se dá no susto,
o território a se tomar muitas vezes
tem o tempo, este mestre, para
nos dar a razão com que sempre
sonhamos.

24/03/2018 Gustavo Bastos
(poema em prosa)







  


sexta-feira, 10 de março de 2017

HOLLOW

I
Tantos casos estudados nesta cosmologia, e que são seres nus, como poucos vermes que sobrevivem ao mundo, e que tentam abarcar os númenos com galhardia de soberbos e alvissareiros, pois por pouca monta os severos e os antoninos sucumbem ao senado pueril, eu de meu turno resvalo e reservo fortuna para um cabedal brio de espuma no vento sacal dos hindus e seus vímanas, como uma corrente literária manchada de lodo e vinho, este que é sabor estulto na glória do sistema, este também estulto, capital armado e nauseabundo, contrito o esquema de Aristóteles explode com o rigor de um kantiano crítico feroz do sono metafísico, com um Hume sensitivo na campanha de um fundo vitral que arde por entre os ventos mais modernos, um plano cartesiano que ribomba pétreo com sarcasmo de poeta, e o riso enfermo que mora num castelo em Copacabana, na mais miserável canção que está de frente à rua que grita somos os outsiders, os mamulengos e vitrolinhas da paixão antiga, dos poemas rebuscados com notas de absinto, das rimas ricas como idólatras que têm sede.
Dos poetas antiquados que não vivem no mundo, não neste mundo, em mundo algum, moram em carne e osso como vapores de veneno na história mundial, moram tal os animais ou bestas repletas de carbono em seus corpos e polímeros cosmogônicos teodiceia da arte rupestre, um totem burilado com sílex na caverna de Paris, setenta ladrões como gangue, viralizados costumes que são a rixa e o riot das galeras fumegantes, dos estertores do fracasso, dos lenhadores e tremores que sorriem para alguns capatazes com seus enfermos vitoriosos, guerra e paz na aura de um anjo fetichizado com bombas de esterco na fome do boi, estes senhores do mundo que vivem morrem como indigentes da fama, como desejo ruminado nas estrelas mais abscônditas, remadores dos sonhos de pano por entre frestas que olham ao nada, rasputins negros com faces de mago, monitoram os passos a cada dia, e sentam na torre de lume viscoso, eles olham o pote de ouro que revela poesia na esbórnia, são telemas e budismos ranqueados num campeonato de astúcia, num grimório de fardos e buchas de canhão.
Sete pantokrators que vivem giro de escopeta, de fumo revirado com espoleta, belicosos que querem a paz mundial, fervores de antros pacificadores, de não-violência, dos hippies de ocasião, dos fashionistas que definem o mundo de segunda mão, da realidade aumentada como manto e segredo penhorados depois do escaldo e martírio. Venha, os ogros imantam servos com náiades esbeltas como anacoretas, e bebem uísque com tambores na cabeça e flautas nos braços, senhoras músicas que de guitarra e trompete repete o fusion indefinidamente, pois cada retrato destes ossos têm a espessura de uma densidade de átomo, indivisível como uma bola de gude, temerários como templos e pagodes na sarça briosa que elenca vates e vedetas. Canção esmerada que tilinta tal o metal de rigor que funda filosofia de poetastro depois da bebedice, que define saudade como uma rima fugitiva.

II
Aéreo o plano aedo cintila, rumoreja ferve e briga, e ferve tal o campo mestre que cintila, como cobra serpentina, e um estrelado estribilho que cintila, bruma rebuscada que mesmeriza tal o sino que dobra, e o banho em festonado vinho, odre pecaminoso que bebe e ventila, evento e evidência de poema, a prova científica do terror, vertido como água benta na pacífica amurada, um grafite terroso no sonho de poeira, levedura que nos dá a boca de saída, pentecostes nos ombros de atlas com o mapa ao pé do geógrafo, bolhas de mundo estouradas por revoluções, penedos que caem como mísseis no apocalipse, espíritos imundos que brigam com pastores, brechas do sistema que assomam no estudo corrupto dos punguistas, leves sintomas de hematomas que roem a corda do enforcado, sete flechas de indigenistas que buscam o eldorado, tânatos dorido que fervilha necromancia depois do ritual poético.
Linho que costura cada gesto artaudiano com gags beckettianas. Olhos mesmerizados que ensinam a palavra morte aos neófitos que ainda sonham acordados, pleito burlado por campanhas sujas de pós-verdade, brotos de floresta que povoam um mundo perdido, paraíso silvestre que nos dá selvagens novos de literatura da mata, poetas novos que caem como cometas no frio do sistema falido das artes comerciais que deliram anátemas proscritos. Banho de lua nas noites que eu servia ao mártir, estes barcos que navegam mar azul de diamante, frio de mar turquesa caribenho, milhares de remadores que vão à galáxia dos aviadores, reis setentrionais contra centuriões que formam o exército brancaleone dos românticos suicidados.
Eis que vive um novo brio bíblico que sonhava holocaustos na hégira e no êxodo, benta a água de poder de tais sacerdotes em seus levitas pasmados com o Deus-homem. Eis que venho de sonhos tempestuosos e kafkianos e pesadelos de Godot depois do milagre indômito que delirava o paraíso de permuta entre cantores de fancaria. Ai! Ai de mim! Tenho cada visão que caio em deslumbramento como um ósculo olvidado depois do porre. Mas, no meio da canção, com dotes de artista, reverbero samples e synths mais que anacrônicos, são vinhas de monastério com ritmo de jazz na fusão dos elétrons que batem entre neutrinos invisíveis da bala perdida, eis que numa viagem astral venho contar-lhes a dor profunda da miséria dos poetas, mas ainda tenho fogo que queimar na sarça mais potente do sol.

III
O fog londrino me apetece, o beberrão morde os tímpanos com rock de estrada, fervilha um berro kerouakiano, um velho mestre que se chamava Ferlinghetti, Neal Cassady que morria na linha do trem, os Estados Unidos e toda a gama de capitalistas de Wall Street e seu touro valente que faz tentações de estelionato, os espiões da Big Apple que reviram seus bens com fome ventral de cartas na manga, pois que eu tenho por mim que prefiro Louvre e seus melismas potentes como mantras sinfônicos, já que vejo as litanias repetirem Fausto e Mefistófeles depois do urro brutal que Goethe não evitara nem na sua invenção de Werther epistolar, ah que nem mesmo a lenda medieval nos salva do capital, mas é seu cristal mais atraente, e o dinheiro gasto em tais deambulações serve ao historiador para contar uma biografia acidentada como pinguelas de rua de terra, de rios de cobre depois do caos mimético dos plantonistas que encontram a morte com dentes de fogo na noite violenta, pois que sumido está o zen na hora enferma, e nem tenho mais tibetanos que lembrem de maoístas sem lhes ferver as pestanas, e o desastre sonha em se proteger da mediocridade, pois ela mata e delira cabeças ocas como hollow men que não servem para nada.
Ah! Ai de mim! Estou no inferno de Caronte, nas uvas de Dioniso, na febre inaugural de Téspis, nos trágicos que de Ésquilo e seu Prometeu Acorrentado apenas faz loas ao abutre, e leis cósmicas são fado nestas peças antigas, o que hoje temos como puro acaso, e que nos idos putrefatos de Março estavam como novos ventos de um novo mundo cristão, que tem o reverso da moeda como Inquisição, o que também hoje tem o nome de manicômio, e que custa a verba pública para os bolsos de seus torturadores, nova platitude medieva, oh como cada burgo sonhava revolução, e como cada soviete sonhava revolução, e como cada hollow man sonhava status quo.

IV
A caça às bruxas está aberta:
Grimório do capa preta,
Eis que rumina maçons
Na sete emblema de arquiteto
Que campeia marmóreo
Como capiteis em Parthenon
Oh Crowley e seus cantos heroicos
Oh bruxos como celtas em Stonehenge
Ah fada musicada que burila soma
Na mente mística do Absoluto
Ah como cada magia tem altas paragens
O paraíso perdido e seus sapientes embriagados
O êxtase de Santa Teresa D`Ávila
No fim da aurora que rutilava salvação.

11/03/2017 Poema em prosa

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





terça-feira, 7 de março de 2017

SPIRITUALS

I – O FUNDO MITOLÓGICO
Os passarinhos do céu são longânimos:
Atitude ventral: o caboclo sete flechas retira-se da batalha campal, a tosse espirra com bruma valente, o exú sete trevas rebomba a nau mestra com galhardia. Veio meu sumário neste dia frouxo de meu poema: a lida é seca e pura, eu via igrejas pasmadas como delírios na rota de saberes moucos, surdos aviltados por barulhos, mudos gritando com as mãos, a saber navega em si o poeta que não sabe de si, louco como um assunto estorvo, mutante que revigora as pestes de que a antiguidade é farta, pois Seth revirava Bek, Osíris e a fada Ísis, pelo canto sumério um deserto se abria em Tigre e no Eufrates, pois Baal, como se via na gira, borbulha tal o elmo, pois Tamuz, Enlil, o grande Marduk face a face com Tiamat, todo este séquito sabia todas as notas do sistema sexagesimal, um outro castelo feito na rua astronômica em que dormia tal estrela, vestes de vestais com Deméter, riso e troça com miasma de tal defumação do rigor da luta, pastores e ribeirinhos falando tupi no meio do defumador, eu que lia as cartas e Pai Antônio das Almas apenas fazia fumaça.
II – O FUNDO MUSICAL
As avezinhas do céu são libertárias:
Quando se ouvia Robert Johnson se tinha em seus dedos e palheta ou sabe-se lá o que foi teu pacto, a ver nas fazendas de algodão um martírio se ouvia os lamentos virarem arte, pois de outro modo seria apenas sofrimento e não ladainha, e não saída voilá da parte d`alma que canta, ou se tudo fosse de fato só duramente forjado, não haveria poesia, só roncos e patifes, não haveria poesia, só murros em cada passo, não haveria música, só um estrondo que rimaria desesperado. Pois, com as notas musicais se edifica o espírito da verdade, e não se rima em demasia a produção dorida, mas se faz templo de ritual com sete cortes na jugular, como um cancioneiro que ritualiza não teu dorido lamento apenas, mas teu apaziguado sonho que floreia mais a utopia geral do que o flagelo do mundo, pois, com todo o concerto, não temos apenas a dor do coração, mas a felicidade que ruma ao paraíso depois de morta, uma visão ou antevisão, um dom se assim se quer chamar, ou a violência pacífica que tem norte e sul em cantorias vertidas do sangue ruim da vida, do líquido sonhado e azul que não sangra mais, da nobreza escrava que dedilhava as mãos de blueseiros depois de um drama nas unhas fincadas em algodão.
III – O FUNDO POÉTICO
Os cucos do céu são pontuais:
A poesia métrica ou espatifada são sonoras e musicais, são discursivas e modais, são poemas com cavaletes, com vinhos, com romanceiros, vertem fúrias, sobra o espírito vulcânico, corrompe o demônio interno, fulgura como montanha e galardão. Nota a poesia com vinha retinta, bruma de banho e sol, como fia sem porfia, como tanto se faz com doses de lida, e nem se faz idiota, ou pouco inteligente, mas sim como um coro trágico desperta, e longa ou curta se esmera. Vai-te poesia de sim e de tudo! Mas quanto melisma simbólico, e frutos metafóricos! A vida se frutifica como mel e maná, otimiza sem lugar, viraliza sem notar, sem cerimônia o poema eterniza, e rima qual longo sonho ou delírio, mas, cônscia e reta, a poesia fulmina e gira, tal a sua geologia, tal a arte geodésica, a rima gravita, o verso em crosta se firma, e à atmosfera voa. A poesia é esta nau dos insensatos que nada mais faz além de cantar, pois dádiva tu és, poesia como empresa, vinho como glória, alma como mérito, corpo como guerra, vícios e virtudes como o que se é. Poesia, tua morada é de mitos, sua tez é democrática, teu legado é todo o universo, pois uma vez lida, poesia, tua fuga se encontra, e pasma o mundo sem ter te visto ou mirado quando tudo se sucedia a olhos vistos, poesia, poesia. Ah, mas que rima pouco dada, que vagabundo sem sorte! Mas não, poesia tem tudo em uma linha, tudo em dez linhas, como o fio que não faz porfia, como Ariadne que mata o cão, linha de linha e costura de armadura, poesia é linda como o verão, respeitável como o inverno, faz verso na primavera, e depois se despede no outono, com folha seca da relva vermelha, rubra seca folhagem do sangue, via de fogo fátuo que a natureza assimila sem enfado, poesia é um grau de mestria por espada e flor, por guerra e paz, poesia é contradição absolutizante, paradoxo que borbulha champanhe, vinho tinto seco que lambe a garganta dos sonhos que não são vãos, poesia farta o homem como um banquete, e quem não a entende passa fome, e o faminto morre por nada mais, sem poesia. Farta a tua seiva, a tua sebe, a tua colheita, farta do mundo cão teu verso potente como som, farta do mundo vão dos que passam fome sem saber.  Poesia é comida, é refeição sagrada da alma, poesia é esta alma canora que dá de comer ao mundo, mesmo que o mundo prefira a fome.
IV – O FUNDO LITERÁRIO
As andorinhas do céu são veraneios:
A Literatura espiritual que conquista o coração das coisas, o literário que emana tua estrela pátria, e se expande tal o cosmos que brilha, tem no livro um maná inesgotável da aventura, pois a escrita se faz em ode e elegia, alegria e mutação, dor parida e fonte de feliz canção, o poema astúcia deste concerto é a coroa da vida, a literatura se serve de tudo o que existe na imaginação, e o mundo real é um espelho que joga com este delírio. Vamos! Toda a sorte do mundo e todo o amor do mundo neste universo literato, que nos leva além, que nos dá a luz que vem de um estalo de sol, que nos dá a noite profunda da reflexão, que nos traz estórias loucas que o mundo surpreende, tais são as aventuras letradas que sorriem para o dia auroral que nos dá tudo, e que nos livra de todo o mal. Literatura é um pássaro que vai e voa para mais longe do que o olhar ao horizonte, que nos vinga de frios eternos da morte, que nos leva ao cerne de todo o existir, pois que da sombra faz treva espiritual se demudar em luz própria, e nos dá salvamento para o Orfeu que toca o coração da música, a literatura vem de poesia e aedos rapsodos e começa a se inserir em ficção, duas frentes libertárias que é poesia e estória, música e imaginação. Vem me dar o dia à tarde a carta escrita no outono da vida, no mar que bem se quer com a flor benquista que bebe vinho, com a dor vertida que nos leva à filosofia mais bruta do mundo, para mais que tudo o sonho reverter-se do pó e virar céu azul ao infindo voo, e eis que o torpor não é mais o desejo da pena, mas a lucidez extrema que povoa o mundo real, a vida mais autêntica que conquista todo o universo com loas de suprema letícia. As minhas canções saem na rua que grita estamos aqui, rua da cidade que pula e ri, o circo que passa no vento da careta que faz a criança, o lúdico que se embrenha em meio ao caos, a cidade mais alta torre se despe pelo calor e se cobre no frio, todas as canções atingem o coração das coisas, e a literatura, deste modo, canta de si mesma o seu terreno imaginoso, de que a terra é repleta, a plenitude é o clímax que o poema, enfim, ventila, por saber-se tão preso ao chão, mas com o espírito livre que bebe e come cheio de esperança! Sim! A terra é da literatura e de seu espírito livre, uns dizem alma de poeta, outros dizem inspiração de artista, e os que fazem dizem esperança. Literatura é vida reafirmada em sol e gerações delirantes.   
V – O FUNDO FILOSÓFICO
Os anjos do céu são eternos:
A filosofia espiritual emana como a esfinge fundamental que do karma mais bruto nutre os passos de paquiderme à leveza da angelitude, passos firmes que sonham alto, passos delicados que trabalham com cuidado, esmero na arte e força no coração, leão de todas as horas é filosofia e seu corte na coisa toda, espírito aqui é analítico e sintético, espiritual é o idealismo totalizante de uma figura final, mas não tem fim, e o estro do espírito tenta ser sistema, depois tenta ser crítica, antes ainda essência, depois ainda nada disso, uma das perspectivas, a liberdade, e se está sempre diante da esfinge que é o universo, o pensamento tem força, mas a existência tem uma força descomunal diante do pobre pensador que tenta se organizar, toda a poesia que bebe em filosofia, certa se embriaga, mas continua só cantando, pois do total que se dá a todo o tempo, os pré-socráticos diziam ser algo, os contemporâneos ainda o sentem em certas cosmologias, mas tudo que brilha no olhar destes todos que vivem é a encarnação da dúvida e da origem do mal, sonhamos muito na paz, e somos sempre bélicos na estrada, se tudo fosse perfeito ruiria, pois nem poeta e nem filósofo, na sua melhor hora, será pleno ou perfeito, ondas de humor povoam a terra e seus dramas, o mal do mal gerado inverte e bem vem como utopia, o canto espiritual ainda ecoa como um pequeno oásis, já se perdeu, toda esta estória de plenitude já se perdeu, em algo ainda moramos na esperança, como uma entidade benfazeja nos dizendo que há luz no mundo, e que nem tudo é grave ou pecado, e que nem tudo a filosofia dá conta, e que nem tudo a poesia e a literatura resolvem, e que nem no mundo mais brando do coração não há conflito, a batalha espiritual busca a sabedoria, esta sim entidade dificílima, repleta das nossas contradições e repetições, a plenitude dos erros que nos dá tudo que temos, a poesia e toda a literatura, juntando-se à filosofia e ao mito, como forma de esperanças que tentam dar conta do mundo e melhorá-lo, e que do erro tenha vez este todo acerto da imperfeição total, spirituals vem de canto dorido para cantar a esperança que já está em todo coração que sonha e faz, libertação é o nome de spirituals, este é o poema.

07/03/2017 Gustavo Bastos