PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

LULA REELEITO

“Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos”


A intenção de um debate propositivo na Globo, no segundo turno presidencial, para evitar o fogo cruzado de acusações que sequestrara o debate anterior na Band teve efeito relativo. Mesmo com certas rédeas temáticas, nada evitou o último bloco que, independentemente de um regramento mais rígido, deve contemplar o tema livre e de confronto direto, o que, obviamente, diante do cenário de polarização que permanece no país, descambou para deslizes de Flávio Bolsonaro, que não conseguiu dissimular certos traços de caráter, apesar do cinismo, que é uma máscara frágil quando lida com suas contradições, hipocrisia e mentira.

Quanto ao debate temático tivemos a questão econômica, em que se falou sobre o custo de vida, alvo de Flávio devido ao problema generalizado da inflação acumulada nas compras de mercado, ligado também ao endividamento das famílias, enquanto Lula falou de suas políticas sociais e criticou Flávio como aquele que faria o chamado “tesouraço”, ou seja, faria cortes que atingiriam as classes mais pobres. 

Ficou logo evidente a falta de consistência das propostas de Flávio, que parecia um malabarismo fiscal que prometia ajustes e farras ao mesmo tempo, com ideias estapafúrdias de adiamento de dívidas, demonstrando a fragilidade de uma equipe que incluía Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal. Ou seja, promessas sem uma fundamentação razoável, falácia eleitoreira. 

O debate, evidentemente, também teve discussões sobre Vorcaro e o Banco Master, em que Lula acusou Flávio de ter “criado” o banqueiro citado e sobre a proximidade dos dois. Falou, claro, dos R$ 134 milhões, ao passo que o senador e candidato lembrou que a prisão de Vorcaro foi decretada pelo ministro André Mendonça e não por iniciativa do governo petista. Flávio ainda citou Rui Costa e Jaques Wagner, ministros petistas que tinham vínculos com o ex-banqueiro, o uso político da Polícia Federal pelo governo e o investimento de bilhões de reais no Banco Master pelos fundos de pensão estatais sob suposta propina durante a atual gestão. 

Flávio ainda insistiu na reportagem sobre o presente que Lula teria recebido de Vorcaro, uma garrafa de uísque avaliada em cerca de R$ 500 mil, em que o senador fez uma ironia tosca dizendo que um único copo da bebida equivaleria a meses de pagamento de dezenas de beneficiários do Bolsa Família. E ainda citou Lulinha e a empresária Roberta Luchsinger. E Lula rebateu falando sobre polêmicas e investigações envolvendo os irmãos e o pai do senador.

A gafe que repercutiu foi quando Flávio se referiu a Lula sob o termo pejorativo de “nove dedos”, e depois que Lula reclamou e lembrou das circunstâncias que envolveram um acidente de trabalho quando ainda era menor de idade, o senador pediu desculpas, mas o estrago já estava feito. A seguir, Lula lembrou de uma denúncia sobre a participação do senador em julho de 2020, durante a pandemia, em uma festa numa lancha em Brasília, com a presença de lobistas da Precisa Medicamentos, empresa que foi investigada na época no caso da tentativa de venda da vacina Covaxin ao Ministério da Saúde.

Outra polêmica foi em torno do caso da menina Ana Clara, que foi morta por um policial no Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro integrou a equipe jurídica que assinou recursos no STJ em favor do policial militar envolvido. A mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, estava presente na plateia do estúdio da Globo. Ao passo que Flávio justificou sua atuação técnica ao afirmar que buscava reavaliar falhas de perícia e garantir a correta tipificação jurídica do caso. A gafe de Lula, por seu turno, foi quando cometeu um deslize verbal ao dizer que iria “acabar com a polícia e deixar o território livre". 

Falando da campanha do segundo turno, depois do susto que a equipe de Lula tomou no primeiro turno, foi criado o chamado “Exército do Lula”, um canal massivo de WhatsApp coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que atuou como personagem central da estratégia digital para a campanha de reeleição de Lula, uma inovação da campanha que foi determinante para a virada contra Flávio. 

Este canal concentrou a militância digital de esquerda, com cerca de 3,4 e 5 milhões de seguidores na reta final da disputa. Ao passo que a campanha de Flávio, no segundo turno, focou no discurso voltado para a mudança, explorando a pauta da dívida familiar e do medo econômico, com atuação digital e de mobilização das ruas com a participação efetiva do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

O domingo de votação começou com relatos de problemas com transporte público e chuvas, e ambas as equipes de campanha acionaram o TSE para solicitar a prorrogação da votação até as 19 h. Contudo, depois de confirmada a vitória de Lula, já com a repercussão do resultado, Flávio contestou o resultado perante os problemas ocorridos de prorrogação e fechamento de urnas antes da chegada da ordem do tribunal nas sessões eleitorais e anunciou a intenção de solicitar formalmente a anulação do pleito. 

Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, com uma vantagem final de mais de 4,4 milhões de votos. Com esta vitória, Lula alcança um feito inédito na história do país, iniciando o seu quarto mandato presidencial. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, destacou que as eleições ocorreram com segurança, sem comprometer o resultado final. E a prorrogação inédita do horário de votação até as 19h no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi determinada por uma liminar do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do tribunal eleitoral. 

No entanto, a confusão ocorreu pelo fato da ordem judicial ter sido emitida e comunicada em cima da hora, minutos após as 17h, num erro de tempo que foi mais um episódio da atuação caótica do Poder Judiciário durante os últimos dias, pois no momento em que a decisão foi oficializada, a imensa maioria das seções eleitorais do país já havia encerrado as atividades pontualmente às 17h. 

Ou seja, a ação foi lenta e não acompanhou o ritmo dos acontecimentos, mais uma vez, deixando evidente que a justiça brasileira, incluindo a eleitoral, precisa de uma agilidade e de uma coerência maior para lidar com a realidade atual, pois o que se viu foi um excesso de intervenções, solícitas ao emperrar e atrapalhar as coisas, somada a uma lentidão em questões importantes.

Por questões de segurança, quando a urna encerra a votação, a mesma emite o Boletim de Urna (BU), e o sistema impede eletronicamente sua reabertura para novos votos. Portanto, a prorrogação foi aplicada apenas de forma parcial, mantendo abertas somente as seções que ainda não haviam concluído os trabalhos. O que ocorreu foi o fato do TSE já ter iniciado a totalização e divulgado os primeiros resultados da votação. 

Então, para cumprir a determinação judicial de não influenciar quem ainda estava votando, o tribunal precisou interromper a divulgação oficial até as 19h. Por conseguinte, os detalhes técnicos sobre o bloqueio e o percentual exato de urnas apuradas naquele momento devem ser verificados nos relatórios oficiais do TSE. Para se ter uma ideia, em diversas partes do país, mesários relataram que só souberam da medida quando os portões já estavam fechados e as mídias recolhidas, gerando frustração em eleitores que compareceram fora do horário regular.

O próximo mandato presidencial de Lula terá que lidar com questões de governabilidade diante de um poder legislativo mais hostil que o herdado das eleições de 2022, devido à ampliação brutal das bancadas do Partido Liberal (PL) na Câmara dos Deputados e no Senado. Portanto, para governar e aprovar projetos estruturais, Lula terá uma dependência maior de composição com os partidos do Centrão, o que já ocorre na movimentação do próprio Lula em torno do apoio, junto ao Centrão, das candidaturas de Hugo Motta à presidência da Câmara e de Davi Alcolumbre à presidência do Senado, visando barrar o avanço do PL no comando das duas Casas.

O esperado é o avanço de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto Lula terá o direito de indicar mais quatro ministros para a mesma Corte neste seu novo mandato. Questões terão que ser enfrentadas como o controle de despesas obrigatória e o cumprimento de metas fiscais, num cenário de desconfiança do mercado financeiro diante da reeleição, que entrou em circuit break, depois de uma aposta na vitória de Flávio.

O governo Lula, em seu novo mandato, ainda terá que lidar com governos conservadores na América Latina, alinhados com o trumpismo intervencionista do “Escudo das Américas”, já que o Brasil deverá manter forte parceria com a China e o bloco dos BRICS, com a relação ambígua entre Lula e Trump, em que o presidente norte-americano já declarou não confiar na lisura do resultado das eleições brasileirasl, apesar de “gostar de Lula etc”. 

Outro impacto da reeleição de Lula será na situação jurídica de Jair Bolsonaro e na tramitação do projeto de anistia, que barrou o caminho do indulto presidencial para Jair, caso Flávio tivesse vencido, restituindo os direitos políticos do pai e ex-presidente. Portanto, a pena de 27 anos e três meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado, imposta pelo STF, continua vigente. 

E antes mesmo do pleito, Lula já havia afirmado que vetará qualquer projeto de anistia aprovado pelo Congresso que beneficie Jair Bolsonaro ou os envolvidos nos atos antidemocráticos. Portanto, a vitória de Lula torna improvável uma "anistia ampla, geral e irrestrita". Pois, mesmo com a oposição tentando fustigar o Executivo com a pauta da anistia no Congresso, a falta de apoio do governo e diante da barreira do STF, o texto pode enfraquecer para um projeto de dosimetria, e sem a aprovação da anistia, Jair Bolsonaro continua inelegível até 2030.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teve seus passaportes apreendidos e cancelados por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, decisão tomada em sigilo de justiça, que se baseou em declarações de Eduardo Bolsonaro, este já foragido nos Estados Unidos, que sugeriu a fuga de Flávio em caso de derrota nas eleições. 

E após pressão de governadores aliados como Tarcísio de Freitas e de advogados que apontaram fragilidade jurídica em uma anulação geral da votação, Flávio desistiu da estratégia e anunciou que apresentará uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) no Tribunal Superior Eleitoral para pedir a cassação da chapa Lula-Alckmin, alegando abuso de poder econômico e político.

Como o senador não entregou o documento no prazo determinado, a Polícia Federal cancelou seus passaportes e passou a investigar se Flávio deixou o Brasil clandestinamente e o alarme sobre uma suposta fuga internacional foi acionado após publicações na imprensa e desdobramentos operacionais na fronteira. Para se ter uma ideia, o portal argentino Infobae relatou na madrugada desta terça-feira (27) que Flávio teria cruzado a fronteira terrestre em direção a Puerto Iguazú, na Argentina, utilizando apenas sua carteira de identidade (RG).

A decolagem foi cancelada de última hora pela Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA) argentina porque um dos quatro passageiros previstos não se apresentou no terminal. Dados do serviço Flightradar24 confirmaram que a aeronave voou de Buenos Aires para Puerto Iguazú na noite de segunda-feira (26), mas não registrou saída posterior rumo aos EUA. 

Não havia qualquer registro oficial ou migratório que comprovasse a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Além disso, o Ministério da Segurança da Argentina informou que o parlamentar não tinha ingressado no país por nenhum posto de controle oficial e a Casa Rosada então afirmou que não tinha recebido nenhum pedido de asilo político por parte do senador. Ao passo que agentes da PF realizaram checagens minuciosas em postos migratórios terrestres e aeroportos. Até então a informação era a de que equipes deveriam se deslocar até as propriedades do parlamentar em Brasília para tentar localizar os documentos e confirmar o paradeiro do político.

Havia relatos de um esquema de saída do país montado de última hora sob estrito sigilo. Com a confirmação da fuga, em sua chegada a Miami, na Flórida, sob apoio de Trump, e uma carta delirante publicada de uma “presidência autodeclarada”, por parte de Flávio, em meio a um ensaio mal ajambrado de liderança da oposição e da direita, digamos, remotamente, fica evidente que o ex-candidato derrotado está imerso em relações milicianas e de banditismo, comprovada pela sua evasão do país como um rato. O senador Flávio Bolsonaro chegou aos Estados Unidos, em uma viagem que ocorreu menos de 48 horas após sua derrota no segundo turno das eleições presidenciais.

A chamada "Operação Alba" foi divulgada nas redes sociais por Simón Levy, empresário, advogado mexicano e aliado próximo ao movimento MAGA de Donald Trump, que afirmou que o mentor por trás da retirada de Flávio do Brasil foi o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Levy ainda afirma que dentro do território norte-americano, Flávio Bolsonaro assumirá uma posição segura para liderar a oposição contra o governo do presidente Lula. 

Autoridades do Departamento de Estado dos Estados Unidos confirmaram formalmente à imprensa a emissão de vistos para o senador, sua esposa e suas duas filhas, garantindo a legalidade de sua entrada em solo norte-americano. Fontes governamentais tinham relatado que o desembarque ocorreu no estado da Flórida, o que se confirmou. 

No Brasil, como Flávio não entregou seus documentos no prazo de 24 horas estipulado pela Justiça brasileira, a Polícia Federal cancelou diretamente seus passaportes comum e diplomático. E pela fuga não ter sido registrada oficialmente nos postos de fronteira regulares, deputados de partidos aliados ao governo federal solicitaram a decretação de sua prisão preventiva e a inclusão de seu nome no alerta vermelho da Interpol. 

Apologia de Sócrates : 

Enquanto o filósofo aguardava na prisão a execução da sentença de morte por cicuta, seu amigo Críton visitou-o nas primeiras horas da manhã para apresentar um plano para resgatá-lo. Críton e outros amigos ricos já haviam organizado recursos financeiros para subornar os guardas e assegurar a saída de Sócrates. Havia locais e amigos dispostos a acolhê-lo fora de Atenas, como na Tessália. Sócrates rejeitou a fuga e decidiu permanecer para cumprir a sentença.

Argumentou que, ao viver por 70 anos sob as leis de Atenas, desobedecer ao tribunal seria destruir a própria autoridade das leis. Fugir seria uma contradição com toda a sua vida dedicada à verdade, à virtude e ao ensinamento ético. A condenação de Sócrates a beber cicuta ocorreu em 399 a.C., em Atenas, e representa um dos momentos mais emblemáticos da História da Filosofia. A cicuta é uma planta extremamente venenosa que causa paralisia muscular progressiva até a morte por parada respiratória. 

Sócrates foi levado a julgamento por um tribunal popular. As acusações formais foram a de corromper a juventude, por incentivar os jovens a questionarem as tradições e as autoridades de Atenas, além de impiedade, por não acreditar nos deuses tradicionais da cidade e por introduzir "novas divindades", o que era uma referência ao seu “daimonion”, a voz interior ou consciência que o guiava.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/lula-reeleito/