Na mais pura glória do anseio,
ferve em toda a pena
um serviço de febre
que dança melíflua.
Em todo o vinho que nas águas marinhas
funda seu contraforte,
vai, poeta!
Vai, poeta! Que dos anúncios vis
cuida o enfermo com suas
luzes artificiais,
que o mundo moderno
se cuida com suas
falanges,
que dos negócios escusos
a gente toma conta,
poeta náufrago,
poeta calcário,
poeta lunático,
tal a poesia cândida
de teu anzol,
poeta puro, poeta chulo,
poeta de poesia esmeralda,
poeta da boca do lixo,
poeta bêbado
de sol.
02/09/2017 Gustavo Bastos
sábado, 2 de setembro de 2017
ESPERANÇA
A terrível mão do assassínio
nos faz sentir a canção dorida
de uma alucinação.
Mão terrível, cadavérica!
Que nos inflama o negror dos sóis
como mil infernos de abismo.
Ah! Que venha a doce esperança,
esta que não morreu de violência,
que não caiu na farsa,
que não dançou na corruta política,
esta que não desistiu de seu próprio
sorriso.
Esperança vã na senda do infortúnio,
esperança boba na comédia dos costumes,
fria luminescência dos idiotas letargos,
esperança mais indolente
que o jogo de cartas marcadas
dos milionários,
frente ao assassinato,
enfrentando a hipocrisia,
esmurrando no manicômio,
esperança de asas indecentes
e certeiras
no palco
da mentira.
02/09/2017 Gustavo Bastos
nos faz sentir a canção dorida
de uma alucinação.
Mão terrível, cadavérica!
Que nos inflama o negror dos sóis
como mil infernos de abismo.
Ah! Que venha a doce esperança,
esta que não morreu de violência,
que não caiu na farsa,
que não dançou na corruta política,
esta que não desistiu de seu próprio
sorriso.
Esperança vã na senda do infortúnio,
esperança boba na comédia dos costumes,
fria luminescência dos idiotas letargos,
esperança mais indolente
que o jogo de cartas marcadas
dos milionários,
frente ao assassinato,
enfrentando a hipocrisia,
esmurrando no manicômio,
esperança de asas indecentes
e certeiras
no palco
da mentira.
02/09/2017 Gustavo Bastos
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Poesia
O ANIMAL
O animal transitava na fauna,
procurava o faro tal fome,
o animal errante,
na fauna do abismo.
Ele detinha as garras e os guizos,
o corpo rente ao estro popular,
os dentes maciços como espadas,
guerreiro da corte real,
animal furibundo
de boca faminta.
O animal comia até o esqueleto
suas presas indefesas,
comia com a arte do assassinato
suas vítimas vaticinadas,
o animal indócil em sua
dança febril.
O poema, este pobrezinho inseto,
lhe apontava com asas de libélula
o fim da carnificina:
o pobre animal,
carne de caça,
nas mãos
do caçador.
02/09/2017 Gustavo Bastos
procurava o faro tal fome,
o animal errante,
na fauna do abismo.
Ele detinha as garras e os guizos,
o corpo rente ao estro popular,
os dentes maciços como espadas,
guerreiro da corte real,
animal furibundo
de boca faminta.
O animal comia até o esqueleto
suas presas indefesas,
comia com a arte do assassinato
suas vítimas vaticinadas,
o animal indócil em sua
dança febril.
O poema, este pobrezinho inseto,
lhe apontava com asas de libélula
o fim da carnificina:
o pobre animal,
carne de caça,
nas mãos
do caçador.
02/09/2017 Gustavo Bastos
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Poesia
MÁQUINA DE DOIDOS
Imagem esta talhada a fórceps,
bem esguia, que contempla
o frêmito de uma asa dorida.
Eu, que passeava por Copacabana,
com as luzes dos carros de passeio,
a buzina de um som estridente,
o bálsamo "on the rocks"
em mãos,
lia o livro de cabeceira
on the road,
imagem poderosa que me levava
à estrada perdida
de David Lynch,
um como encômio ou ditos de paraninfo
nos estertores de uma razão crítica
que balbuciava ao fim
da madrugada alcoolica,
estro, destes de roer a corda dos reis,
poeta, destes de girândolas
nos navios espatifados
nas rochas,
destes escritores melífluos
em sonhos de Parnaso
em delírios transumanos,
máquina de doidos.
02/09/2017 Gustavo Bastos
bem esguia, que contempla
o frêmito de uma asa dorida.
Eu, que passeava por Copacabana,
com as luzes dos carros de passeio,
a buzina de um som estridente,
o bálsamo "on the rocks"
em mãos,
lia o livro de cabeceira
on the road,
imagem poderosa que me levava
à estrada perdida
de David Lynch,
um como encômio ou ditos de paraninfo
nos estertores de uma razão crítica
que balbuciava ao fim
da madrugada alcoolica,
estro, destes de roer a corda dos reis,
poeta, destes de girândolas
nos navios espatifados
nas rochas,
destes escritores melífluos
em sonhos de Parnaso
em delírios transumanos,
máquina de doidos.
02/09/2017 Gustavo Bastos
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terça-feira, 29 de agosto de 2017
HAMILTON NOGUEIRA – DOSTOIÉVSKI – PARTE II
“Eu amo o realismo, um realismo tangenciando o fantástico –
diz Dostoiévski”
O ESPÍRITO DO MAL EM OS
POSSESSOS
Dostoiévski faz com alguns de seus personagens uma ligação
entre características humanas e angélicas, mais exatamente no aspecto de anjos
caídos, isto é, demônios. Tais personagens demoníacos se imiscuem na trama dos
atos humanos para provocar a desordem, num movimento de desagregação
sistemática, sutil, e muitas vezes manhosa, que revela como a inteligência
voltada ao mal ganha caráter demoníaco por arte do ardil que reina em ações de
manipulação como são próprias aos demônios encarnados.
Tais movimentos desses personagens na trama aparecem como
provocadoras de certas atmosferas angustiosas e de pavor, e que na inspiração e
no trabalho literário dostoievskianos ganham uma intensidade sui generis pela
mão deste grande romancista, um dos melhores que já surgiu na literatura
mundial. Dostoiévski consegue, segundo Hamilton Nogueira “comunicar-nos as
maiores vibrações de ordem espiritual e afetiva, em poucas palavras, em traços
rápidos, o suficiente para conter o máximo de energia de ideias e de
sentimentos”.
Portanto, o poder psíquico de Dostoiévski está na condensação
máxima de intenções num plano muitas vezes violento e bem medido, em que as
artes humanas nos aparecem no romance dostoievskiano como exemplos bem acabados
da natureza humana muitas vezes vista e descrita em experiências extremas, tal
como é próprio a todos nós sermos autênticos quando nos vemos em
situações-limite, no que em Os Possessos isto aparece em tramas que envolvem
manipulação, suicídio e assassinato.
Stefan Trofimovitch, em Os Possessos, recebe uma visita
enigmática de Liputine, mas, ao vê-lo, tem uma sensação de horror ou de
desgraça próxima, mas, contudo, Liputine representa ainda um tipo inferior de
possesso, isto se este for comparado ao satânico Pedro Verkhovenski, a maior
figura diabólica criada por Dostoiévski. Tal personagem desliza com terrível
desenvoltura e liberdade no romance Os Possessos, e tal atuação se dá como um
agente que provoca a vaidade dos outros e que também lhes inflama desejos, e de
tal modo que estes outros se tornam manipuláveis ao extremo.
Verkhovenski é o principal agente da tempestade que se
desencadeia em Os Possessos, como o centro no qual se ligam os fios das
relações e como o grande responsável por vários destinos que vão afundar nas
sombras, em tramas alucinantes que colocam tais personagens como seres
subjugados pela força demoníaca de Verkhovenski. Este então atua como uma força
irresistível de aniquilamento com um tipo de ação dissolvente e corrosiva.
Verkhovenski tem em suas mãos almas dominadas que se tornam peças inúteis e
descartadas depois que este endemoninhado consegue seu intento.
O realismo dostoievskiano tem um tanto de um movimento que é
de ascensão do real ao fantástico neste romance Os Possessos, no que temos o
próprio Dostoiévski nos dizendo: “Eu amo o realismo, um realismo tangenciando o
fantástico – diz Dostoiévski. – O que para os outros é o fantástico, para mim
constitui a essência mesma do real”. Dostoiévski traz em seus personagens um
drama humano que é uma luta destes para sair de uma zona subterrânea, vencer o
mundo dos sentidos que nestes atua como um tipo de prisão, e que é a luta do
homem autêntico contra a mediocridade, um terreno buscado na área do sonho
contra o homem de ação, o que é também um terreno escorregadio em que se perdem
tais personagens.
Temos então que tais personagens em sonhos fora do terreno da
ação acabam por ser dominados por outros que são centros atuantes de
manipulação e ardil, a prática do mal atravessa outras almas desprevenidas, e
temos então uma junção na trama entre lutas contra a ação cotidiana pelo sonho
do fantástico e a invasão demoníaca dentro destas almas que sucumbem depois de
ver-lhes atiçadas as vaidades e os delírios de grandeza e glória, como presas
perfeitas para a arte do mal destes demônios em forma de gente, como é o caso
do satânico Verkhovenski.
Verkhovenski envolve de tal modo os outros personagens que
estes aparecem como presas em tramas ocultas de caráter diabólico, em que a
salvação pelas forças humanas se perde em meio ao sombrio e malicioso autor de
tramas manipuladoras que é Verkhovenski, com vítimas tais como Kirilov e
Chatov. Kirilov que, por sua vez, vive um sonho suicida em que tal ato capital
é de um tipo de alucinado que ele representa na sua utopia insensata, pois
associa isto com uma ideação de renovação da humanidade pelo suicídio,
quebrando o limite humano feito pela crença em Deus ou de um sofrimento
infernal em decorrência de tal ato, que seriam possíveis meios de evitar esta
ideia de morte total.
Verkhovenski, então, manipula Kirilov ao bel-prazer e
consegue dele o compromisso suicida junto com a confissão falsa do mesmo por
carta do assassinato de Chatov. Pois é Verkhovenski que mata Chatov com um tiro
na testa, pois ele e seu bando consumam a cena, confirmando este assassino frio
tanto como o centro das ações como a figura demoníaca que tem no ardil seu
leitmotiv. Verkhovenski é a figura demoníaca principal do romance
dostoievskiano, tanto em seu poder de manipulação e ardil como em seu ato
extremo de violência, pois age e faz agir com a desenvoltura própria de um
demônio encarnado.
O único personagem que reconhece em Verkhovenski uma figura
demoníaca, contudo, é Stavroguine, e mesmo assim este sofre o seu assédio, tal
como sofreram por esta mesma manha os personagens Kirilov e Chatov, e este
demônio atua, então, obsessivamente sobre Stavroguine, começando pela lisonja
em que lhe inflama a vaidade revolucionária com sonhos de grandeza, e que neste
lugar lhe demonstra a fragilidade humana, invariavelmente presas fáceis tanto
da sensualidade como do orgulho. Da ascensão de Stavroguine resta ao fim a
destruição dos laços sociais deste por obra de Verkhovenski, e isto até levá-lo
a um estado de tortura extrema que causará o seu suicídio.
O romance Os Possessos é uma das mais fulminantes obras de
Dostoiévski, a qual figura como obra-prima da literatura universal. Neste
romance em que o real ganha ares de fantástico temos personagens imortais como
Kirilov, Verkhovenski e Stavroguine. E os demônios que Dostoiévski nos
apresenta são o lado obscuro da natureza humana, com formas de manipulação
revoltantes e alucinadas, demônios estes que representam o interior dos
personagens dostoievskianos mais ardilosos de que se tem notícia, imagem do
inferno consumada de forma magistral em sua invenção máxima do mal que é o
personagem Verkhovenski.
A presença dos demônios na tragédia de Dostoiévski é esta que
confere a universalidade humana em que se misturam as luzes espirituais e da
razão com o lado tenebroso em que se fundam a dor e o desespero, os atos
alucinados no limite e no extremo do sofrimento, as torturas manhosas e o
conflito que busca o esplendor do enigma da vida, a vida atormentada e a
loucura, o aniquilamento e a luz de uma última salvação, a veia do mal e o
sentimento religioso de uma ascensão espiritual, neste paradoxo de céu e
inferno na terra, de demônios como homens que vão do real ao fantástico neste
romance Os Possessos.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35513/17/dostoievski-eu-amo-o-realismo-um-realismo-tangenciando-o-fantastico
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Resenha Século Diário
domingo, 27 de agosto de 2017
CRUZ E SOUSA – BROQUÉIS E FARÓIS – PARTE III
A POESIA DE CRUZ E
SOUSA E A CRÍTICA LITERÁRIA
“uma poesia de visão aérea, obscura, e que ao fim se firma
com sua afetação mística”
Quando da primeira edição dos dois volumes da História da
Literatura Brasileira, de Sílvio Romero, este consegue realizar uma análise
rigorosa e crítica de muitas obras, Cruz e Sousa, no entanto, ainda não aparece
nesta edição, pois trabalhos como Julieta dos Santos e Tropos e fantasias, de
1883 e 1885, continuavam inéditos para o crítico. Sílvio passa a conhecer um
pouco depois a prosa de Missal e os sonetos de Broquéis, bem como os poemas de
Evocações, mas Sílvio Romero mal situa o nome de Cruz e Sousa na sua segunda
edição da História publicada em 1902.
Sílvio Romero em sua primeira edição de sua História, vai ao
longo do ensaio fazendo uma reflexão sobre a poesia brasileira num panorama
geral que segue a Prosopopeia de Bento Teixeira, vai então delimitando os
estertores do Romantismo na escola condoreira, fechando seu ciclo, e que depois
reflete a ascensão parnasiana em Delfino, Bilac, Raimundo Correia, Alberto de
Oliveira, Teófilo Dias, e que acerta no Simbolismo quando se depara com Cruz e
Sousa.
Em 1899, sobre o livro Primícias, de Carvalho Aranha, Sílvio
Romero publica o ensaio "O simbolismo", no qual ele descreve a
inauguração da escola poética simbolista como um evento original. Sílvio então
embarca numa poesia que ele define de um desnorteamento completo, em que ele
confronta esta nova poesia como uma reação mórbida ao idealismo, uma poesia de
visão aérea, obscura, e que ao fim se firma com sua afetação mística. Sílvio
Romero descobre Cruz e Sousa como um exemplo de um poeta novo, mesmo que já
morto, analisando Missal, Broquéis e Evocações como grandes trabalhos da
Literatura Brasileira.
Na poesia de Cruz e Sousa temos uma composição que delimita
uma elevação da alma, sentimentos nobres, inspiração que muitas vezes se volta
para a natureza, sem esquecer os confrontos com a sociedade, e ainda pode
conter as nuances doridas e prazerosas do coração, com o poder etéreo evocativo
próprio do estro simbolista, em que a poesia não é descritiva e nem narrativa,
pois se trata de uma poesia sugestiva, rarefeita, que desliza nos meandros do
espírito.
O Simbolismo, por sua vez, representa uma poesia que vai de
encontro ao Naturalismo e suas grosserias, ao diletantismo esteta da arte pela
arte do Parnasianismo, e que é assim uma reação espiritualista que envolve um
clima lírico que pode, em certa medida, no seu auge de composição, retornar ao
Romantismo na sua melhor expressão. A versão brasileira do Simbolismo, no
entanto, terá de se desvencilhar de ladainhas e afetações como as de Bernardino
Lopes e Alphonsus de Guimaraens, para, enfim, seguir a trilha aberta por Cruz e
Sousa, que supera sua prosa abstrusa em Missal e nas Evocações, e que ganha
propriedade lírica nos Faróis e nos Últimos Sonetos.
POEMAS:
RECORDA : O poema memorial e simbólico ao
mesmo tempo evoca em poesia pura um recordar que é o poema mais que uma descrição
de fatos específicos, como convém ao toque sugestivo e não enunciativo da
poesia de estro simbolista: “Quando a onda dos desejos inquietantes,/Que do
peito transborda,/Morrer, enfim, nas amplidões distantes,/Recorda-te, recorda
.../Revive dessa música já finda/Que nas estrelas dorme./Volta-te ao mundo
sedutor ainda/Da Ilusão multiforme!/Volta, recorda eternamente, volta/Aos
faróis da Esperança,”. O poema exulta e também é dorido, esta oscilação comanda
toda a inspiração que então se torna hiperbólica, grandiloquente, sem, no
entanto, afetar pose extrema de esteta, no que temos: “Revive! Goza! Desolado,
embora,/Sorrindo e soluçando,/Erguendo os véus de já passada aurora,/Recordando
e sonhando .../Cada alma tem seu íntimo recato/Numa estrela perdida/E cada
coração intemerato/Tem na estrela uma vida.”. O poema segue ainda exclamativo,
intenso: “Recorda! Sonha! Nas estrelas erra,/Beduíno do Espaço./Aos sonhos
brancos, que não são da Terra,/Dá, sorrindo, o teu braço ...” (...) “Ah! volta
aos desenganos primitivos,/Volta à essência dos anos,/Volta aos espectros
tristemente vivos,/Ah! volta aos desenganos!/Volta aos serenos, flóridos oásis,/Volta
aos hinos profundos,/Volta às eflorescências dos Lilases,/Volta, volta a esses
mundos!” (...) “Para o Amor, para a Dor e para o Sonho/Nas Esferas transborda
.../E entre um soluço e um segredo risonho/Recorda-te, recorda ...”. E aqui
faço a ligação do poeta com as Musas, encantos que da memória viram poesia,
inspiração, portanto, divina.
CANÇÃO DO BÊBEDO : O poema transita com surto de
bebedice, e vai ao encontro boêmio e importuna o infortunado bêbedo, personagem
do poema: “Na lama e na noite triste/Aquele bêbedo ri!/Tua alma velha onde
existe?/Quem se recorda de ti?” (...) “Por que é que ficas à lua/Contemplativo,
a vagar?” (...) “Que flores de graça doente/Tua fronte vem florir/Que ficas
amargamente/Bêbedo, bêbedo a rir?”. O bêbedo ri em meio à desgraça, miséria é
teu nome, mas comicidade é sua fuga: “Que soluço extravagante,/Que negro,
soturno fel/Põe no teu ser doudejante/A confusão da Babel?/Ah! das lágrimas
insanas/Que ao vinho misturas bem,/Que de visões sobre-humanas/Tu`alma e teus
olhos têm!” (...) “Bendito seja o carinho/Que já te faça morrer!/Sim! Bendita a
cova estreita,/Mais larga que o mundo vão,/Que possa conter direita/A noite do
teu caixão!”. A morte do bêbedo é a coda extrema de um poema que faz troça e
aqui desata a miséria alcoolica.
ESQUECIMENTO : Este poema agora nos fala do
esquecimento, no que vem: “Ó Estrelas tranquilas, esquecidas/No seio das
Esferas,/Velhos biliões de lágrimas, de vidas,/Refulgentes Quimeras./Astros que
recordais infâncias de ouro,/Castidades serenas,/Irradiações de mágico tesouro,/Aromas
de açucenas.”. O poema então tem um estro celeste, estelar, em que as quimeras
dançam em frutos da juventude, no que segue: “Desvendai-me as Mansões do
Esquecimento,/Radiantes sentinelas./Dizei que palidez de mortos lírios/Há por
estas estradas/E se terminam todos os martírios/Nas brumas encantadas./Se
nessas brumas encantadas choram/Os anseios da Terra,/Se os lírios mortos que há
por lá se auroram/De púrpuras de guerra.”. As imagens do poema são fortes e
ricas, no que o céu aparece voluptuoso: “O céu é o berço das estrelas brancas/Que
dormem de cansaço .../E das almas olímpicas e francas/O ridente regaço ...”
(...) “O Esquecimento é flor sutil, celeste,/De palidez risonha./A alma das
cousas languemente veste/De um véu, como quem sonha.”. O poema ridente tem um
esgar de alegria poética, simples e ao mesmo tempo profunda, fundo em que reside
um sorriso de veia triste: “Como que o coração fica sorrindo/De um modo grave e
triste,/Languidamente a meditar, sentindo/Que o esquecimento existe.” (...) “Rio
do esquecimento tenebroso,/Amargamente frio,/Amargamente sepulcral, lutuoso,/Amargamente
rio!/Quanta dor nessas ondas que tu levas,/Nessas ondas que arrastas,/Quanto
suplício nessas tuas trevas,/Quantas lágrimas castas!/Ó meu verso, ó meu verso,
ó meu orgulho,/Meu tormento e meu vinho,”. O amargor só se cura com o verso,
que aqui funciona como um vinho consolador: “Embora o esquecimento vão dissolva/Tudo,
sempre, no mundo,/Verso! que ao menos o meu ser se envolva/No teu amor
profundo!” (...) “Esquecimento! eclipse de horas mortas,/Relógio mudo, incerto,/Casa
vazia ... de cerradas portas,/Grande vácuo, deserto,/Cinza que cai nas almas,
que as consome,” (...) “Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,/De negra
majestade,/Soluço nebuloso das Distâncias/Enchendo a Eternidade!”. A coda é o
verso então como vinho enchendo a tão sonhada utopia, esta ideia rarefeita
chamada eternidade.
POEMAS:
RECORDA
Quando a onda dos desejos inquietantes,
Que do peito transborda,
Morrer, enfim, nas amplidões distantes,
Recorda-te, recorda ...
Revive dessa música já finda
Que nas estrelas dorme.
Volta-te ao mundo sedutor ainda
Da Ilusão multiforme!
Volta, recorda eternamente, volta
Aos faróis da Esperança,
Do Sonho estranho as grandes asas solta
A celeste Bonança,
Recorda mágoas, lágrimas e risos
E soluços e anseios ...
Revive dos nevoeiros indecisos
E dos vãos devaneios.
Revive! Goza! Desolado, embora,
Sorrindo e soluçando,
Erguendo os véus de já passada aurora,
Recordando e sonhando ...
Cada alma tem seu íntimo recato
Numa estrela perdida
E cada coração intemerato
Tem na estrela uma vida.
Aplica o ouvido à correnteza fria
Dos golfões da matéria
E recorda de que lama sombria
É composta a miséria.
Recorda! Sonha! Nas estrelas erra,
Beduíno do Espaço.
Aos sonhos brancos, que não são da Terra,
Dá, sorrindo, o teu braço ...
Dá o teu braço, pelos céus sorrindo
E recordando parte
E hás de entender os claros céus, sentindo
Que andas a recordar-te.
Bate à porta dos Astros solitários
Dos eternos Fulgores,
Em busca desses mortos visionários,
Almas de sonhadores.
Ah! volta aos desenganos primitivos,
Volta à essência dos anos,
Volta aos espectros tristemente vivos,
Ah! volta aos desenganos!
Volta aos serenos, flóridos oásis,
Volta aos hinos profundos,
Volta às eflorescências dos Lilases,
Volta, volta a esses mundos!
Fique na Sombra e no Silêncio d `alma
Todo o teu ser dolente.
Para tranquilo, com ternura e calma,
Recordar docemente ...
Na Sombra então e no Silêncio denso,
Como em mágicas plagas,
Faz acender o alampadário imenso
Das Recordações vagas ...
Pousa a cabeça, meigamente pousa
Nesse augusto Quebranto
E nem da Terra a mais ligeira cousa
Te desperte do Encanto.
Para o Amor, para a Dor e para o Sonho
Nas Esferas transborda ...
E entre um soluço e um segredo risonho
Recorda-te, recorda ...
CANÇÃO DO BÊBEDO
Na lama e na noite triste
Aquele bêbedo ri!
Tua alma velha onde existe?
Quem se recorda de ti?
Por onde andam teus gemidos,
Os teus noctâmbulos ais?
Entre os bêbedos perdidos
Quem sabe do teu – jamais?
Por que é que ficas à lua
Contemplativo, a vagar?
Onde a tua noiva nua
Foi tão depressa a enterrar?
Que flores de graça doente
Tua fronte vem florir
Que ficas amargamente
Bêbedo, bêbedo a rir?
Que vês tu nessas jornadas?
Onde está o teu jardim
E o teu palácio de fadas,
Meu sonâmbulo arlequim?
De onde trazes essa bruma,
Toda essa névoa glacial
De flor de lânguida espuma,
Regada de óleo mortal?
Que soluço extravagante,
Que negro, soturno fel
Põe no teu ser doudejante
A confusão da Babel?
Ah! das lágrimas insanas
Que ao vinho misturas bem,
Que de visões sobre-humanas
Tu`alma e teus olhos têm!
Boca abismada de vinho,
Olhos de pranto a correr,
Bendito seja o carinho
Que já te faça morrer!
Sim! Bendita a cova estreita,
Mais larga que o mundo vão,
Que possa conter direita
A noite do teu caixão!
ESQUECIMENTO
Ó Estrelas tranquilas, esquecidas
No seio das Esferas,
Velhos biliões de lágrimas, de vidas,
Refulgentes Quimeras.
Astros que recordais infâncias de ouro,
Castidades serenas,
Irradiações de mágico tesouro,
Aromas de açucenas.
Rosas de luz do céu resplandecente,
Ó Estrelas divinas,
Sereias brancas da região do Oriente,
Ó Visões peregrinas!
Aves de ninhos de frouxeis de prata
Que cantais no Infinito
As Letras da Canção intemerata
Do Mistério bendito.
Turíbulos de graça e encantamento
Das sidéreas umbelas,
Desvendai-me as Mansões do Esquecimento,
Radiantes sentinelas.
Dizei que palidez de mortos lírios
Há por estas estradas
E se terminam todos os martírios
Nas brumas encantadas.
Se nessas brumas encantadas choram
Os anseios da Terra,
Se os lírios mortos que há por lá se auroram
De púrpuras de guerra.
Se as que há por cá, titânicas cegueiras,
Atordoadas vitórias,
Embebedam os seres nas poncheiras
E no gozo das glórias.
O céu é o berço das estrelas brancas
Que dormem de cansaço ...
E das almas olímpicas e francas
O ridente regaço ...
Só ele sabe, o claro céu tranquilo
Dos grandes resplendores,
Qual é das almas o eternal sigilo,
Qual o cunho das dores.
Só ele sabe, o céu das quintessências,
O Esquecimento ignoto
Que tudo envolve nas letais diluências
De um ocaso remoto ...
O Esquecimento é flor sutil, celeste,
De palidez risonha.
A alma das cousas languemente veste
De um véu, como quem sonha.
Tudo no esquecimento se adelgaça ...
E nas zonas de tudo,
Na candura de tudo, extremo, passa
Certo mistério mudo.
Como que o coração fica cantando
Porque, trêmulo, esquece,
Vivendo a vida de quem vai sonhando
E no sonho estremece ...
Como que o coração fica sorrindo
De um modo grave e triste,
Languidamente a meditar, sentindo
Que o esquecimento existe.
Sentindo que um encanto etéreo e mago,
Mas um lívido encanto,
Põe nos semblantes um luar mais vago,
Enche tudo de pranto.
Que um concerto de súplicas, de mágoa,
De martírios secretos,
Vai os olhos tornando rasos de água
E turvando os objetos ...
Que um soluço cruel, desesperado
Na garganta rebenta ...
Enquanto o Esquecimento alucinado
Move a sombra nevoenta!
Ó rio roxo e triste, ó rio morto,
Ó rio roxo, amargo ...
Rio de vãs melancolias de Horto
Caídas do céu largo!
Rio do esquecimento tenebroso,
Amargamente frio,
Amargamente sepulcral, lutuoso,
Amargamente rio!
Quanta dor nessas ondas que tu levas,
Nessas ondas que arrastas,
Quanto suplício nessas tuas trevas,
Quantas lágrimas castas!
Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,
Meu tormento e meu vinho,
Minha sagrada embriaguez e arrulho
De aves formando ninho.
Verso que me acompanhas no Perigo
Como lança, preclara,
Que este peito defende do inimigo
Por estrada tão rara!
Ó meu verso, ó meu verso soluçante,
Meu segredo e meu guia,
Tem dó de mim lá no supremo instante
Da suprema agonia.
Não te esqueças de mim, meu verso insano,
Meu verso solitário,
Minha terra, meu céu, meu vasto oceano,
Meu templo, meu sacrário.
Embora o esquecimento vão dissolva
Tudo, sempre, no mundo,
Verso! que ao menos o meu ser se envolva
No teu amor profundo!
Esquecer é andar entre destroços
Que além se multiplicam,
Sem reparar na lividez dos ossos
Nem nas cinzas que ficam ...
É caminhar por entre pesadelos,
Sonâmbulo perfeito,
Coberto de nevoeiros e de gelos,
Com certa ânsia no peito.
Esquecer é não ter lágrimas puras,
Nem asas para beijos
Que voem procurando sepulturas
E queixas e desejos!
Esquecimento! eclipse de horas mortas,
Relógio mudo, incerto,
Casa vazia ... de cerradas portas,
Grande vácuo, deserto,
Cinza que cai nas almas, que as consome,
Que apaga toda a flama,
Infinito crepúsculo sem nome,
Voz morta à voz que a chama.
Harpa da noite irmã do Imponderável,
De sons langues e enfermos,
Que Deus com o seu mistério formidável
Faz calar pelos ermos.
Solidão de uma plaga extrema e nua,
Onde trágica e densa
Chora seus lírios virginais a lua
Lividamente imensa.
Silêncio dos silêncios sugestivos,
Grito sem eco, eterno
Sudário dos Azuis contemplativos,
Florescência do Inferno.
Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,
De negra majestade,
Soluço nebuloso das Distâncias
Enchendo a Eternidade!
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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