PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

Mostrando postagens com marcador Resenha Século Diário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenha Século Diário. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A PEÇA MACACOS

“sucesso de público e de crítica”


Macacos é um monólogo em 9 episódios e 1 ato. A peça é visceral, numa perspectiva histórica ainda há pouco camuflada na historiografia escolar. O trauma colonial, de um pacto mercantil, que provocou um deslocamento geográfico de pessoas tratadas como corpos-mercadoria, e que, como consequência, foi um descentramento cultural, em um mistifório recriado a partir dos navios negreiros.

Tal herança se misturou a uma nova realidade, recomposta, e que teve um auge de tortura e morte durante a escravização, um genocídio, o maior da História no Brasil e no mundo, mais do que os dos gulags soviéticos, vindos do período czarista, da fome maoísta e do nazi-fascismo. 

Falamos aqui de uma paisagem constrangedora, em que nosso país foi o último a assinar a abolição do sistema escravista, advindo do extrativismo da cana-de-açúcar, do chamado pacto colonial mercantilista, em um período pré-capitalista, fundado no comércio internacional marítimo. Com a pressão do novo modelo da revolução industrial inglesa, no entanto, os senhores das terras se viram sem saída.

Foi quando findou o sistema vindo do colonialismo português, o que decretou, junto à proclamada Lei Áurea, da Princesa Isabel, tanto o fim da monarquia, que perdeu seu apoio do poder agrário, como acabou selando o caminho imediato e histórico de uma cisão social pós-escravista, de um mal ajambrado e hipócrita processo de transição para pretos livres etc. 

O problema veio de políticas urbanas higienistas e que foi uma tentativa mal sucedida de segregação que consistiu em “livrar-se” de um problema fingindo que ele não existe. Ou seja, o higienismo buscava separar áreas demarcadas entre a cidade funcional, e uma periferia forçada por rearranjo da derrubada de cortiços, com o exemplo maior na política de Pereira Passos no Rio de Janeiro, inspirada na reforma urbana parisiense do Barão Haussmann. 

O fingimento foi “bom” até o momento em que a ressaca veio na forma de pobreza mal resolvida e crescimento exponencial da violência urbana, cada vez mais sofisticada e organizada, retroalimentando um racismo estrutural em que existe o tal “perfil de bandido” etc. Quer dizer, o segregacionismo higienista do início do século XX revirou-se em um racismo estrutural advindo de um desenho sociodemográfico terrível e excludente.

Clayton Nascimento realiza uma performance física, intensa, no tablado, que é liberado de objetos, plano aberto, tal qual seu papel corporal, de bermuda, sem camisa, correndo para lá e para cá, por todo o tablado, podendo-se ouvir o barulho de seus pés descalços sobre a madeira, numa experiência acústica nua, a qual pude ver-ouvir no Teatro Riachuelo, “sold out”, no Centro do Rio de Janeiro. 

Isso, para mim, sem citar todo o processo histórico que ele iria deslindar ali, me marcou bastante, esta parte sensorial, de corpo-som-tablado, do teatro físico. E a linguagem vem como um soco, na sua repetição da palavra “macacos”, já como um cartão de visitas do que estaria por vir. O que seria o impacto de um texto que está em consonância com a performance corporal do ator, num suadouro intenso tal qual o que é narrado, com a força do texto aliada a um teatro físico incansável.

Clayton Nascimento também narra a sua experiência direta com o racismo estrutural, ele mesmo confundido com bandido, sendo acusado de ser assaltante quando era roubado, na verdade, por um casal que era de fato quem assaltava Clayton, numa inversão em que testemunhas da cena na rua acharam que ele que era o ladrão, tendo seus bens saqueados enquanto era espancado pelo casal. 

Tal episódio é bem sintomático de uma máquina social de ilações produzidas a partir do racismo estrutural que, se não fosse trágico, estaria beirando a caricatura, como neste caso real narrado por Clayton, do qual ele mesmo foi vítima. Esse foi o violento episódio real de 2018 que provocou um ponto de virada biográfico para a criação do monólogo e a pesquisa do racismo estrutural que costura todos os episódios da peça Macacos, em que Clayton Nascimento coloca um foco autobiográfico e histórico.

A peça funciona como uma autoficção que se mistura a uma narração histórica que atravessa de modo diacrônico o racismo, e que revela, na frente, de modo sincrônico, a parte estrutural que vem deste processo histórico longo e complexo. Além destes aspectos de autoficção, teatro físico e de teatro histórico, temos as referências pessoais de Clayton com seus ídolos negros. Por exemplo, nas figuras de Elza Soares, Bessie Smith e Machado de Assis. 

Diante de personagens negros (as) destacados (as) na História, Clayton tem também a esperança e a utopia como guias de seu caminho, e não somente memórias pessoais e históricas dolorosas. O que também revela uma cultura que se desenvolveu na música, na literatura, no próprio teatro, se lembrarmos de Abdias Nascimento, com seu teatro experimental do negro, em que a dramaturgia de Clayton contrabalança a denúncia fundante e fundamental que já vem do nome da própria peça, com esta luz que salva tudo, no livramento destas constantes ameaças de morte e desaparecimento que ele narra.

Clayton também fala de sua mãe, dona Maria do Carmo. De seu pai, durante o périplo até sua entrada na universidade, em que seu pai sempre repetia no fim o verbo “persevera”. Lembra do caso de Claudia Silva, que foi baleada ao sair de casa para comprar pão, e que teve seu corpo arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro ao cair do camburão do carro de polícia que a tinha pego. 

Em uma de suas falas, Clayton nos lembra : “Se fizermos uma rápida divisão entre 388 anos de escravidão divididos por 521 anos de Brasil, teremos cerca de 69% da nossa história toda pautada em escravidão. Se dividirmos cerca de 40 anos de democracia por 521 anos de Brasil, teremos apenas 7% da nossa história pautada em democracia.”

A palavra macaco, que vem no singular na abertura da peça, como título do episódio 1, “um macaco”, entra no texto no plural, como um xingamento de torcida, como gritos de uma massa popular, e é este plural que encerra a peça, em que Clayton anuncia uma união deste bando de “macacos”, como a imagem final da peça.

Este bando traduz-se em pessoas que aparecem no cenário social e de corte racial como estes “outros”, num processo de luta contra a exclusão e desumanização, em que esta alteridade se afirma transculturalmente não por via pacífica, de uma mestiçagem cordial, mas num movimento contra as violências, em choque, em colisão, em que tanto no Brasil como em outras realidades mundiais, a complexidade cultural é mais produto de conflito do que através de diálogos pacíficos. 

Falar de transculturação, hibridismo etc, portanto, não pode ser capturado por um discurso ingênuo e alienado da História real, e que a dramaturgia de Clayton Nascimento faz questão em destacar. Nada vem de graça, começando pela Lei Áurea, cuja visão romantizada já caiu por terra, e hoje a data comemorativa não é mais a da abolição e sim da Consciência Negra, com inspiração na luta quilombola de libertação do escravismo e do colonialismo, com a imagem destacada de Zumbi dos Palmares, dentre outras figuras de proa na História de luta negra brasileira.

A denúncia contra silenciamentos, apagamentos, contra mortes tanto físicas como simbólicas, é uma luta pela vida e pela liberdade, e que Clayton Nascimento, na sua peça Macacos, vocaliza e também organiza, pois seu texto traz muita informação, muito importante, o que é até mais central que todo o cenário físico e de sua performance intensa de ator. A peça é sucesso de público e de crítica e o ator, performer e dramaturgo é devidamente reconhecido no cenário cultural brasileiro contemporâneo. 

Clayton Nascimento é dramaturgo, ator, professor de artes dramáticas e diretor de teatro. Nascido no Piauí e criado em São Paulo, graduou-se pela Universidade de São Paulo (USP), além de ter cursado a escola Célia Helena Centro de Artes e Educação, São Paulo. Começou a escrever Macacos quando ainda era estudante e morava no centro universitário, o Crusp. 

A peça Macacos recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio de Melhor Ator no XX Festival de Teatro do Rio de Janeiro e Melhor Dramaturgia no Narrativas Urgentes no Festival Breves Cenas de Teatro no Amazonas. A peça Macacos estreou no Teatro Popular Oscar Niemeyer, em 25 de setembro de 2016, integrando o festival de teatro de Niterói em Cena, em Niterói, RJ. Uma dramaturgia-denúncia escrita entre 2015 e 2021, montada como uma peça sem cenários e dividida em episódios apenas por uma questão dramatúrgica. Coisa nossa, do Brasil-sil-sil.

E cabe aqui lembrar o Episódio 4, uma notícia pra qualquer um, em que Clayton Nascimento destaca : “... e a Terezinha virou notícia num jornal para qualquer um. [em tom jornalístico] Terezinha Maria de Jesus, mãe do menino Eduardo de Jesus, assassinado aos 6 anos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em 2015, precisou se mudar de estado após a morte do filho. O seu casamento acabou. No final de 2016, a Justiça brasileira julgou o caso Eduardo de Jesus e decidiu que todos os policiais envolvidos no caso estavam absolvidos. Por legítima defesa. O caso foi arquivado. No dia 5 de dezembro de 2019, o delegado do caso menino Eduardo de Jesus se tornou réu. Foi acusado de corrupção. Fim do jornal.

Desde que a peça Macacos estreou, por volta de 2016, eu fui me aproximando cada vez mais de Terezinha. Eu ainda me lembro de que na apresentação da peça no Teatro Baden Powell, em Copacabana, a poucas horas da apresentação, chega uma jovem senhora, muito bonita, vívida, de sorriso largo, de braços dados com uma amiga e rodeada de algumas crianças: — Boa tarde. Eu sou Maria Terezinha. Mãe de Eduardo. Vim falar com o ator. Soube que ele tá falando de mim na peça. A Terezinha me contou sua história. E notei que ela tinha detalhes bastante diferentes de tudo o que eu já havia lido para preparar essa peça. [como se numa lembrança repentina] Nessa semana, essa última que passou, eu falei para a Terezinha que eu estaria aqui, fazendo a peça pra vocês…”

Ainda neste Episódio 4, Clayton cita outro caso : “Joselita de Souza, mãe de Roberto de Souza, o Betinho! Assassinado aos 16 anos em Costa Barros com 111 tiros da polícia, enquanto saía com os amigos para gastar seu primeiro salário de Jovem Aprendiz. Cento e onze tiros. Após a morte do filho, a mãe, Joselita, não aguentou a dor e foi internada. O salão de cabeleireiro, que ela tanto sonhou abrir, fechou. Nessa última semana, essa mesma que passou, o seu filho mais velho, Vinicius, foi visitar a mãe no hospital.” 

O Episódio então se encerra : “MACACO: Aquela foi a última conversa entre mãe e filho. Joselita de Souza, quarenta dias no hospital, sem alegria e comendo apenas sopa, morreu. Não aguentou a morte do caçula. Quando a gente fala sobre o “genocídio negro” no Brasil, a gente sempre imagina que será uma figura negra, na maioria das vezes homens entre 20 e 30 anos, mortos pelas mãos do Estado brasileiro. Mas e as mães? E as mães do genocídio negro? E essas mães? E as mães do genocídio negro? Quem fala delas, dessas mães?” A peça Macacos também foi publicada em livro pela editora Cobogó, pela Coleção Dramaturgia, em 2022, com 72 páginas. E sobre o Episódio 4, destaquei o texto de Clayton que fala por si. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-peca-macacos/ 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUANDO DEIXAMOS DE ENTENDER O MUNDO, DE BENJAMIN LABATUT

“narrativa documental”


Benjamin Labatut é um escritor chileno que ficou conhecido por obras literárias que misturam ficção e temas reais, num tipo de escrita que mescla elementos de realidade histórica, referências científicas, e a partir disso ergue um texto que levanta temas complexos, muitas vezes, em uma forma de literatura que se pode acessar mesmo sem conhecimento prévio dos temas e informações (ou fabulações) que ficam inseridos em contos e romances que parecem um documento de eventos do mundo real, o que pode ser verdade ou não, ou ainda um híbrido que resulta numa literatura nova e original. 

O escritor nasceu em Roterdã, na Holanda, e mora desde os quatorze anos em Santiago, no Chile. Publicou La Antártica Empieza Aquí, ganhando o Prêmio Caza de Letras, depois lançou Después de la Luz, sendo a sua terceira obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, que teve indicação para o International Booker Prize em 2021. Esta última obra, publicada originalmente em 2020, não se limita a ser uma narrativa histórica, mas flerta com o ensaio, a ficção científica e o romance de ideias.

Nesta obra Labatut tem influência de autores como W.G. Sebald, de onde recebe o caráter documental como um recurso literário inovador, misturando fatos reais, história e ficção. Com Thomas Pynchon ele recebe uma espécie de narrativa científica e filosófica, com questões como a fronteira entre a genialidade e a loucura, que lembram o que Thomas Pynchon realizou em O Arco-íris da Gravidade. Nesta obra temos a abertura que se dá com uma epígrafe de Wernher von Braun. 

Este construiu uma das armas mais letais que seria utilizada pelo regime nazista, ao passo que tentava descobrir a existência da vida após a morte e da imortalidade da alma. Este se muda para os Estados Unidos e trabalha pela Disney e ainda a Nasa. Este personagem terá um caráter multifacetado semelhante aos cientistas retratados nesta obra de Labatut, em que o conhecimento avançado se mescla com a mística e a ambivalência política. 

Outras influências de Labatut também incluem o beatnik William Burroughs, além de Roberto Bolaño, Eliot Weinberger e Pascal Quignard. E esta obra possui quatro narrativas que parecem ser a leitura de verbetes de enciclopédia ligados a cientistas de destaque dos últimos séculos, com vidas complexas e incompreendidas, com uma base narrativa associada também ao autor Éric Vuillard, de A Ordem do Dia, concentrada em fatos, mas com um revestimento literário. 

A principal influência para Labatut, no entanto, foi o poeta chileno Samir Nazal, que coloca as tradições chilenas em narrativas complexas que se ligavam ao insólito, com criaçôes de mundos falsos, além da crise ontológica, existencial, diante de um mundo dominado e movido pela técnica, com uma desconstrução da realidade através da ficção que aparece de modo semelhante nesta obra de Labatut, Quando Deixamos de Entender o Mundo, que interpretado pela crítica literária como romance de não-ficção, um oxímoro, também sendo chamado de literatura pós-autônoma e de hibridismo, em que Labatut coloca a biografia de diversos nomes da ciência em perspectiva ficcional. 

Em seus contos Labatut produz um material inventado, porém, de difícil distinção de fatos reais, pois a narrativa documental, pode reunir figuras como o físico Erwin Schrödinger, além do matemático Alexander Grothendieck, este que foi o mais importante do século XX, um ilustre desconhecido fora de seu meio, com trabalhos incompreensíveis para leigos, e que se isola para descobrir a origem dos sonhos, em ele teorizava que tinham todos a mesma fonte, pois vinham de um deus conhecido como Le Rêveur, “o sonhador”. 

Diante das revoluções científicas e as mudanças de cosmovisão advindas destas transformações no conhecimento, sobretudo no século XX, Labatut toma isso como eixo de sua obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, em que o título já designa esta mudança de paradigma, sendo que a matemática, por exemplo, nesta obra literária, rompe suas próprias fronteiras, em que os personagens, a princípio históricos, nesta narrativa de Labatut acabam descambando para um caminho delirante de cunho místico e filosófico.

Ruptura que pode ser associada com uma das insígnias apocalípticas do século XX, que foi quando o cientista Robert Oppenheimer, citou Bhagavad Gita, ao descrever a criação da bomba atômica : “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos”. Labatut reforça que o uso da ciência e da tecnologia produz desdobramentos políticos e de poder. Nos deparamos, por exemplo, com uma matemática alienígena, que rege o funcionamento das partículas elementares, em um texto, o quarto do livro, em que figuram os físicos Schrödinger e Heisenberg, num flerte com a loucura, desafiando a compreensão humana, culminando em perspectivas metafísicas e religiosas. 

Labatut também aponta a ruína da busca de um conhecimento totalizante, levando a uma verborragia enciclopédica, delirante, levando cientistas a um ponto de não retorno, em que a descoberta impacta a vida e a relação com o mundo desses personagens, que entram em parafuso, como o matemático japonês Shinichi Mochizuki e Alexander Grothendieck, que abandonou a carreira depois que descobriu o perigo de sua nova descoberta, escolhendo o silêncio, tentando evitar a má utilização daquele conhecimento que ele havia conquistado. 

Grothendieck foi um matemático alemão que alcançou avanços significativos na álgebra e na geometria, em que foi oferecida a ele a Medalha Fields, considerada o Nobel da área, mas Grothendieck recusou-a e foi viver afastado, sem compartilhar as suas pesquisas individuais, construindo uma história de vida que pode ser comparada com a do japonês Shinichi Mochizuki, que em 2012 publicou artigos demonstrando uma das mais importantes conjecturas da teoria dos números, considerada impossível de resolver até então, mas foi incompreendido.

O título de Quando Deixamos de Entender o Mundo também nomeia o conto que fala do embate entre entre Schrödinger e Heisenberg, da física quântica, em que a matemática descreve um mundo contra-intuitivo, distante do senso comum, onde Werner Heisenberg irá fundar o Princípio da Incerteza, em que a própria observação científica passa a modificar a realidade. Heisenberg revolucionou a física com este princípio, ao mesmo tempo que se defrontou com os limites do conhecimento da realidade, em que Labatut questiona como tais descobertas podem, por vezes, afetar a sanidade desses cientistas. 

No conto Azul da Prússia, o astrônomo Karl Schwarzschild, que foi pioneiro na idealização dos buracos negros, ficou com horror da própria descoberta, pois ali a física deixava de fazer sentido, e a natureza volta a mergulhar no mistério e na loucura. Ao passo que o químico judeu Fritz Haber contribuiu na criação da tecnologia que produziu o Zyklon B, gás letal que depois seria usado contra a sua própria família nos campos de extermínio. Ele conseguiu extrair nitrogênio da atmosfera, o que permitiu uma revolução na agricultura e o crescimento populacional, levando também à criação do gás sarin, que foi usado como arma química de guerra.

Esta narrativa conta como a descoberta acidental do pigmento azul da Prússia, enquanto se tentava criar o carmim, usado para pintar mantos da Virgem Maria, acabou levando à criação do cianureto e do gás usado nas câmaras de extermínio nazistas. Aqui se remonta um tema de Thomas Pynchon, em que o conhecimento acaba colaborando com métodos de genocídio, onde conglomerados como a IG Farben podem se apropriar de novas descobertas para a sua utilização no extermínio de pessoas. 

O desvio da busca científica de desvendar enigmas da natureza e do universo para um uso político e militar é a contradição trabalhada por Labatut nesta obra. O progresso científico perde a sua neutralidade em seu uso, pois move interesses de poder, em que o saber como este meio para o exercício de poder é uma virada moderna, em que o domínio técnico, que vinha das artes servis, antes subestimadas, ganham protagonismo no status da ciência como eixo da cognição moderna e contemporânea, repleta de contradições. 

No Epílogo "O Jardineiro Noturno" é feita uma síntese de todos os contos anteriores, podendo citar Alexander Grothendieck, o matemático que se isolou da sociedade ao perceber o potencial destruidor de suas descobertas. Temos ainda o "Gato de Schrödinger", em que é feita a interpretação do experimento do gato. A obra perpassa em seus quatro contos esta fronteira entre uma busca racional e produtiva, científica, e pendores de destruição política e militar, além do isolamento e loucura de cientistas atormentados.

Por fim, na obra ainda temos o próprio Labatut descrevendo estes contos : “Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais. A quantidade de ficção aumenta ao longo do livro; enquanto em “Azul da Prússia” só há um parágrafo ficcional, nos textos seguintes tomei liberdades maiores, tentando permanecer fiel às ideias científicas expostas em cada um deles. O caso de Shinichi Mochizuki, um dos protagonistas de “O coração do coração”, é particular: inspirei-me em alguns aspectos do seu trabalho para adentrar a mente de Alexander Grothendieck, mas a maior parte do que é dito sobre ele, sua biografia e suas pesquisas é ficção. A maioria das referências históricas e biográficas utilizadas nesta obra podem ser encontradas nos seguintes livros e artigos, a cujos autores também gostaria de agradecer”.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/benjamin-labatut-quando-deixamos-de-entender-o-mundo/

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND - PARTE XV

“período de auge do True Norwegian Black Metal”


Depois destes incidentes e de sua repercussão, a polícia norueguesa, já em 1998, acabou publicando um relatório intitulado Kirkebranner og satanistik motiverte skavederk (Danos de incêndios em igrejas e de crimes de motivação satânica), o que no livro em Lords Of Chaos encerra um capítulo e que vem com o título de “A História Oficial”, isto é, se tratava das conclusões produzidas pelo esforço de 4 oficiais de polícia e do poder judiciário, incluindo um procurador, envolvendo agências de investigação, em que este relatório detalha como a cena black metal se organizava na época, sua subcultura, dando recomendações para investigações futuras.

Mesmo com a relativa distância temporal, como engenharia de obra pronta, mesmo assim o relatório teve que lidar com um cipoal de contradições de uma cena dominada ainda por adolescentes, numa realidade absurda de inconstâncias internas do chamado “inner circle”, feitas para confundir desavisados. Entretanto, o relatório cai em exageros e extrapola, contudo, quando cai em mistificações em relação à dimensão da presença do satanismo no inner circle, e a relação de um culto satânico ligado diretamente à queima das igrejas na Noruega naquele período de auge do True Norwegian Black Metal, que era a segunda geração desta vertente do metal. 

O material do relatório, quando entra neste mérito, parece se contaminar com uma espécie de fundamentalismo cristão herdado dos Estados Unidos e vira um tipo anódino de manual de como lidar com criminosos satanistas e quetais. Aparece, como dito no livro Lords Of Chaos, “uma farofa de propaganda sensacionalista cristã sobre o satanismo, no estilo que motivaram os surtos satânicos que varreram os EUA no final dos anos 1990 - surtos motivados por histeria que, quase invariavelmente, revelavam-se infundados”.

Quanto ao satanismo, o relatório também peca por desconhecimento e de forma açodada confunde a autoria de O Livro da Lei, de Aleister Crowley, com a de um obscuro líder do Templo de Set de nome Michael Aquino, que era uma pequena dissidência da Igreja de Satã. Existe até um calendário atribuído ao satanismo que é condenado pelas próprias organizações satânicas estabelecidas, envolvendo abusos sexuais de menores. 

O nível do movimento, ou seja, um grupo de adolescentes, descambava, contudo, em poses histriônicas de um Varg Vikerknes, por exemplo, ironizando o julgamento que levava pelo poder judiciário na Noruega, uma certa empáfia, misturada a uma fleuma orgulhosa, mas que não dobravam os experientes investigadores da Kripos, no entanto. Por sua vez, tais enfrentamentos denotavam um contraste com a seriedade caricata do relatório quando se referia histericamente a tudo que se relacionava ao satanismo.

Mesmo diante da ironia de Varg, a Kripos o encurralou ao refazer o traçado feito pelo Conde e seus asseclas, cerco que se fechou com o envio do Grupo de Incêndios de Igrejas pela polícia de Oslo para Bergen para realizar as tratativas. Vikernes, finalmente acuado, declarou que “estava farto de ser assediado pelas autoridades, e que a investigação policial sobre a cena black metal deveria ser encerrada”. Por fim, no livro Lords Of Chaos temos : “Quando o líder de operações respondeu que Vikernes não parecia ter a autoridade judicial para dar ordens à polícia, Vikernes deu um passo atrás e levantou seu braço em uma saudação romana, ao estilo nazista”.

E ainda, segundo Lords Of Chaos : “Ainda que ambas as histórias tenham vindo da polícia e possam ter sido floreadas pela sua fonte, elas não são difíceis de se acreditar. Afinal, foi provavelmente a propensão de Vikernes a demonstrações teatrais que o levou a transformar seu processo judicial em um circo midiático, armando então o palco onde ele faria o papel do seu cartunesco personagem “O Conde” - um papel que posteriormente se voltou contra ele, quando tribunais levaram seus rompantes ameaçadores a sério ao lhe darem a sentença mais severa permitida pela lei norueguesa”.

Seguindo Lords Of Chaos : “Portanto, quando Vikernes alega que de certa forma ele é um preso político, ele tem uma certa razão. Seria quase impossível para alguém da idade de Vikernes sem antecedentes criminais receber uma sentença de vinte e um anos de prisão. Bard Eithun, em comparação, recebeu uma sentença de dois terços do tamanho, por um assassinato de brutalidade semelhante. As diferenças entre as sentenças podem muito bem ser políticas, pois Eithun, apesar de nunca ter expressado muito remorso, não fez questão de provocar o tribunal da forma que Vikernes fez ao usar a oportunidade para declarar sua adesão ao nacional-socialismo”.

Para saber das relações estabelecidas dentro do inner circle, por exemplo, temos o de uma sistemática frieza entre os próprios integrantes da cena, tendo um retrato disto quando membros do Mayhem atual se referem a Euronymous ou Dead, como se falassem de algo que eles leram ou ouviram falar, sem vivenciar ou sofrer com isso, sendo sempre a nota fria de um relatório de fatos. Ao mesmo tempo, Varg pouco se importava com Euronymous e Bard Eithun era completamente oblíquo em relação ao que tinha feito também. Tudo o que aconteceu naqueles anos do auge da cena era obra de uma adolescência que parecia ter produzido adultos herdeiros de histórias nada comoventes para si próprios, num modus operandi que era, como dito já em Lords Of Chaos, de um estenógrafo.

A posição patética do relatório intitulado Kirkebranner og satanistik motiverte skavederk (Danos de incêndios em igrejas e de crimes de motivação satânica), por sua vez, parecia a obra de caipiras impressionáveis, que mistificaram a relação da cena do inner circle com o satanismo, exagerando nas tintas e pintando um anedotário involuntário que faria rir até um leitor juvenil de revistas de ocultismo que anelava brincar de alquimista do mal etc. O desconhecimento tanto do tema do ocultismo, como uma visão unidimensional sobre o inner circle, também reflexo de uma histeria anti-satanista, contribuíram para uma piada pronta quando a polícia norueguesa teve que lidar com a empáfia e a fleuma de um jovem que se auto intitulava Conde.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-a-sangrenta-historia-do-metal-satanico/

domingo, 16 de junho de 2024

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND - PARTE XIV

"foi testemunhada a transformação de uma retórica violenta em acontecimentos trágicos reais”


A cena black metal norueguesa, durante a década de 1990, embora tenha havido algumas mortes, os membros deste círculo parecia indiferente ao destino fatal desses outros que também pertenciam à mesma cena. 

Por exemplo, quando Dead se matou, Aarseth viu uma oportunidade de alavancar o hype do Mayhem, pois colheu os ossos de seu crânio e distribuiu entre os músicos da cena e tirou uma foto do cadáver do vocalista com a cabeça estourada por uma espingarda, que estava ainda junto de Dead, foto esta que virou a capa do álbum “De Mysteriis Dom Sathanas” do Mayhem. 

E quando o próprio Aarseth morreu assassinado, dois anos depois, os próprios membros do Mayhem falaram sobre o assunto de forma indiferente, segundo o autor de “Lords of Chaos” : “que mais se adequaria a um estenógrafo de tribunal.”

Depois de um tempo de discursos sobre a morte e sobre o mal, a cena passou a ser levada mais a sério a partir dos eventos com igrejas e os assassinatos. Por exemplo, Vikernes declarou, já na cadeia, durante seu julgamento : “Basicamente eu sou um adorador de Odin, o deus da guerra e da morte. O Burzum existe exclusivamente para Odin, o inimigo de um olho só do Deus cristão.” Esta obsessão com a guerra e com a morte era partilhada por grande parte dos membros da cena black metal da época, pois isso era proclamado em encartes de CD e também em fanzines. 

Portanto, foi testemunhada a transformação de uma retórica violenta em acontecimentos trágicos reais, e foi quando a cena toda viu o gênio sair da lâmpada, no sentido de que os assassinatos cometidos por Bard Eithun e Varg Vikernes mudaram toda uma configuração retórica de jovens rebeldes para uma realidade de ocorrências policiais e problemas com a justiça. Oystein, por sua vez, conseguiu se firmar como Euronymous, um dos expoentes da cena, traduzido por “o príncipe da morte”.

A maioria das bandas, durante este período, estavam com membros integrantes enfrentando problemas na justiça, incluindo os assassinatos, violações de sepulturas, incêndios de igrejas etc. Esses processos judiciais desestabilizaram a cena, e houve uma cisão dentro dela, com um lado pró-Vikernes e o outro lado pró-Euronymous. As bandas de black metal norueguês, por sua vez, em sua maioria, enfrentavam um hiato, com exceção, dentre as mais conhecidas, da banda Darkthrone. 

Varg Vikernes, por sua vez, estava se dissociando de amizades antigas, declarando não ter mais relação com a cena, pois seus interesses agora se voltavam para o nacionalismo e a adoração de Odin. Ele mantinha uma atitude impassível nas interações com a polícia e a justiça, mais do que seus colegas, embora tenha sido o responsável por chamar atenção da polícia para a cena, isto na famigerada entrevista feita ao Bergens Tidende. Contudo, Varg Vikernes se recusava a colaborar com as autoridades, defendendo que era inocente das acusações. Dentre os outros infratores da cena, a maioria confessou seus crimes.

Em Lords Of Chaos, podemos ler : “Samoth explica suas próprias experiências com a polícia, e seus motivos para confessar, que provavelmente são semelhantes aos de alguns dos outros : Eu fui detido em setembro de 93 e fui preso. Eu fui levado para ser interrogado várias vezes. A primeira vez foi logo depois do Vikernes, por algum motivo, ter declarado abertamente para um grande jornal de Bergen que o “Círculo Negro” estava por detrás das queimas de igrejas, e também que ele sabia de algo a respeito do “assassinato do Parque Olímpico”. 

Eu não falei merda nenhuma pra polícia nessa vez. A vez seguinte foi em agosto de 93, logo depois do assassinato do Euronymous, em conexão com o assassinato cometido pelo Bard Eithun, assim como com os vários incêndios em igrejas. Eu não falei nada de relevante pra polícia a essa altura. Quando eu fui preso, todo mundo já tinha sido preso e o Eithun já tinha confessado.”

Na entrevista dada em Lords Of Chaos, Bard Eithun, por sua vez, descreve a sequência de eventos de sua captura e prisão. Ele começa dizendo que tudo se deu quando Oystein foi morto. A semelhança da morte de Oystein com a morte do homossexual, com várias facadas, ocorreu quase na mesma época. A polícia foi investigar e algumas pessoas citaram o nome de Bard Eithun. Ele não acredita que tenha sido gente da cena, mas um pessoal que desejava entrar na cena, que tiveram acesso a informações que não tinham sido escritas nos jornais.

Bard Eithun foi preso enquanto bebia com um pessoal em Kvikne, do lado de fora de um motel. Os policiais tinham um mandado de captura e queriam ir no apartamento de Bard Eithun para revirar as suas coisas. Por fim, Bard Eithun foi parar na delegacia em Oslo, preso pelo assassinato deste homossexual que tinha sido esfaqueado. Ele foi interrogado e acabou confessando o crime depois de ser convencido pelo seu advogado.

Varg Vikernes ficou enojado com a onda de confissões de crimes enquanto ele mantinha o silêncio, pois os considerava como delatores dos crimes, e com acusações e confissões, por sua vez, foram mobilizadas diversas personalidades da cena black metal, e testemunhos saíram em todas as direções, implicando diversas pessoas e até as próprias testemunhas. 

No julgamento de Varg Vikernes, por sua vez, a mobilização também foi grande, e diversos documentos foram apresentados à justiça, como o contrato de gravação levado por Vikernes até Oslo, cartas escritas por ele e por outros, mapas e relatórios forenses, além da famigerada matéria do Bergens Tidende.

Em Lords Of Chaos, podemos ler : “As declarações e os interrogatórios policiais foram o bastante para condenar Vikernes por assassinato, incêndio criminoso e posse ilegal de armas. Como ele próprio resume : “Eu fui condenado a vinte e um anos na prisão por três incêndios em igrejas, em que eles tinham uma testemunha como a única “evidência” em cada um dos incêndios; uma tentativa de queima de uma torre de sino em que duas das mesmas testemunhas eram a única “evidência”; roubo a armazenagem de 100 quilogramas de dinamite e 50 quilogramas de gelignita (explosivos de ignição lenta) - isso eu confessei -, e alguns arrombamentos em algumas cabanas onde dois livros foram roubados.’”

Varg Vikernes tinha 21 anos e foi condenado a 21 anos de prisão em segurança máxima, que era a pena máxima possível na Noruega. Nesse mesmo dia da sentença de Varg, por sua vez, foram queimadas duas igrejas na Noruega. Bard Eithun pegou 14 anos de pena pelo seu assassinato. 

Snorre, que fora cúmplice de Vikernes no assassinato de Oystein Aarseth, levou 8 anos de prisão. E caras como Samoth e Jorn Inge Tunsberg, que tinham queimado igrejas, receberam sentenças de 2 a 3 anos, também para serem cumpridas em instituições de segurança máxima. Outros envolvidos nos incêndios em igrejas pagaram multas gigantescas para pagar pelos danos e custos de reconstruções.

Durante todo o tempo dos processos, que ocorreram em 1994, por fim, a figura de Varg Vikernes virou um pária na Noruega, contudo, fazendo a alegria dos jornalistas de tabloides, capitalizando todo o escândalo que passou a cercar o inner circle do black metal norueguês.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : ​Lords of Chaos: a sangrenta história do metal Satânico underground - parte 14 - Século Diário (seculodiario.com.br) 




domingo, 3 de dezembro de 2023

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE XIII

“Varg admite que estava de saco cheio de Oystein”


Segundo Varg Vikernes, em relação a queima de igrejas, Euronymous (Oysten) era apenas um falador. Tirava onda de que “nós” queimamos outra igreja etc., e na verdade “seu único crime que eu sei que ele já cometeu foi um roubo, um arrombamento de uma igreja”. E o que o Conde Grishnackh (Varg) falava, segundo o próprio, Oystein (Euronymous) repetia para a repercussão geral na cena black metal da Noruega. Portanto, para Varg Vikernes, “Ele era falador, e a gente zoava sobre ele ser a ‘boca de Grishnackh’.

Quando perguntado sobre os outros da cena, se eles antipatizavam com Oystein, Varg diz : “O Darkthrone percebeu o babaca que ele era. Eles não queriam nenhuma relação com ele. O Fenriz gostava do Oystein, mas os outros caras odiavam ele. Com toda a certeza. Eles amaldiçoavam ele em rituais - eles eram satanistas.” A razão deste ódio, segundo Varg, era a de que Oystein passava uma imagem falsa de si mesmo, que mentia e que era um parasita. E Varg conclui : “E também, ele era meio lapão, um sámi, então isso era um bônus. Bastardo!”.

Além disso, Varg alega a desonestidade de Oystein, que se aproveitava das pessoas, e no caso de Varg : “Eu recebi encomendas de pré-venda pro miniálbum Aske, e como eu estava na prisão na época eu só repassei as encomendas pra ele, pra ele poder cuidar delas. Ele só pegou todo o dinheiro e não enviou sequer um único álbum.” 

Varg admite que estava de saco cheio de Oystein, que ele ligava querendo ir para Bergen, se podia ficar na casa de Varg, e ele recusava. Mas o motivo da morte de Oystein, e que Varg irá repetir sempre é que ele matou Oystein (Euronymous) porque este tentou matá-lo. E que antes do acontecimento Oystein já tinha falado disso com Samoth (Emperor) e pra algumas pessoas, sendo que uma dessas pessoas ligou para Varg o avisando de que Oystein planejava matá-lo. 

O que aconteceu depois é que Varg foi até a casa de Oystein às três da manhã e, segundo Varg, Oystein entrou em pânico e o atacou. Deu um chute no seu peito, e Varg o empurrou no chão. Então Oystein correu pra pegar uma faca na cozinha. Aí Varg sacou a sua própria faca. Antes que Oystein conseguisse pegar uma faca, levou uma facada de Varg. Aí Oystein tentou ir a seu quarto para pegar uma espingarda, a arma que o Dead tinha usado para se suicidar. De repente, Oystein correu para fora e começou a gritar por socorro e tocar as campainhas dos vizinhos. Aí Varg foi e o matou. 

Varg também alegou que ficou sabendo de um plano de Oystein de que este planejava atirar em Varg, usar sua arma de choque nele, amarrá-lo e torturá-lo até a morte. Varg então disse que ao invés de fugir, decidiu ir até a casa de Oystein. Por outro lado, Varg afirma que não planejou a morte de Oystein, que tudo aconteceu naquele momento. 

Na entrevista em Lords Of Chaos, contudo, o entrevistador é categórico quanto ao que rolava : “A história ‘oficial’ é que você planejou o assasinato - criando um álibi ao alugar um filme que você supostamente tinha assistido naquela noite em Bergen, pedindo para um amigo fazer um saque em um caixa eletrônico com seu cartão enquanto você estivesse em Oslo, e por aí vai, pra parecer que você nunca tinha saído de Bergen.”

Varg nega, de diz que portava luvas militares de tiro no bolso, e que se fosse o caso de premeditar algo, com certeza, teria calçado as luvas. Ele insiste, então, mais uma vez, que ele reagiu a um ataque de Oystein e que, portanto, não teria como ter planejado o assasinato dele. Varg disse que a condenação está errada. E que os vizinhos mentem dizendo que foram dadas vinte e três ou vinte e quatro facadas. Varg, segundo o próprio, correu atrás de Oystein, dando quatro ou cinco facadas. A primeira foi no peito. E como Oystein tentava fugir o tempo todo, também levou facada pelas costas. 

Segundo Varg, a seguir : “Ele quebrou uma lâmpada na escadaria durante a perseguição e caiu de costas nos cacos de vidro, o que é claro, causou várias feridas, que eles disseram ter sido cortes de faca. Ele também estava com pedaços de vidro na sola do pé, porque ele caiu e se levantou em seguida. A autópsia foi uma merda. Eles disseram que ele morreu de hemorragia. A verdade é que ele morreu por causa de uma facada na cabeça. Ele morreu instantaneamente. Bam! ele estava morto. Direto no crânio. Eu inclusive tive que puxar a faca pra fora. Ela ficou presa no crânio e eu tive que forçar ela pra tirar, ele estava preso nela - e aí ele rolou escada abaixo. Eu acertei ele direto no crânio, e os olhos dele fizeram boing! e ele estava morto.”

Segundo testemunho, contudo, e que municiou a versão oficial, é a de que Varg teve dois cúmplices e que o assassinato de Aarseth foi premeditado. Os cúmplices, por sua vez, foram Snorre Westvold Ruch, de 21 anos, também conhecido como “Blackthorne”, membro da banda de Bard Eithun, Thorns. Este foi até Oslo com Varg. E o outro, um amigo de Bergen, ficou por lá, para que fosse feito o álibi. Na pressa, contudo, Varg entregou o cartão errado, e o tal saque não pode ser realizado. Em Oslo, também, Varg levava um contrato que liberaria o material do Burzum do selo de Aarseth, DSP. A entrega do contrato também significava para Varg que ele nunca mais precisaria manter contato com Oystein.

Varg diz que só foi preso pelo fato de ter sido delatado. Varg diz : “A primeira coisa que aconteceu foi que eu fui preso depois que um cara me caguetou, Snorre. Ele é um zé-ninguém, um perdedor. Um cara doente e frágil. (...) É claro que na hora que um cara morre, aí todo mundo diz que era amigo dele. Ninguém conhecia o Dead, ninguém tinha nem ouvido falar dele, mas depois que ele morreu ele vira legal. Isso é típico. 

Aí eles começaram a prender outros, porque uma vadia idiota da Romênia, uma suposta sueca chamada Ilsa, confessou que o Bard tinha matado um cara, exatamente o que ele tinha contado para ela. Ele foi preso. É claro que eles não tinham provas, mas ele admitiu tudo. (...) Aí a coisa chegou no próximo cara, e no próximo cara, até que tudo foi revelado. É típico, esse pessoal sem importância acha que pode se tornar importante assim, caguetando uns aos outros. Então eles fizeram isso. E é claro que eu era o grande vilão.”  

A versão de Snorre é outra, a tese dele é a seguinte : “Uma coisa é que ele tinha inveja do Bard, porque o Bard havia matado um homem. Varg não tinha feito isso. Varg dizia que o que o Bard tinha feito não era tão legal, mas dentro da cena as ações do Bard impunham respeito. “O Bard só matou um viado idiota, não é nada para se gabar”,o Vikernes pensava. Se gabar por ter matado alguém é uma coisa bem extrema de se fazer. O Conde dizia que matar alguém não era nada demais.” E se perguntou a Snorre se havia outra razão, no que ele respondeu : “E também era que ele não gostava muito do Oystein. Mas os boatos de ter acontecido por ele ser comunista ou homossexual não tem nada a ver.”

No livro Lords of Chaos, a conclusão sobre a entrevista de Snorre, como de sua figura como um todo é bem crítica. Aqui o livro sustenta que o que Snorre contou no tribunal, numa posição ambivalente na participação do crime de Varg são cobertos por comentários questionáveis na entrevista dada. A partir de sua observação do assasinato, pode se constatar essa impressão, pois, em suas palavras : “eu não era nem a favor, nem contra. Eu não me importava com o Oystein, eu não tinha nada a ver com ele”. 

Mais uma vez aqui Snorre se contradiz, pois ele havia se juntado ao Mayhem como um segundo guitarrista pouco tempo antes do assasinato. Portanto, fica difícil aceitar a tese de que Snorre não deu a mínima para o assassinato do fundador da banda onde ele estava, ficando mais difícil ainda ao se saber a posição do Mayhem no underground. Snorre, segundo o livro, tinha também um histórico de problemas mentais, podendo ser que fosse “obtuso demais para entender exatamente no que ele estava se envolvendo”.

Por sua vez, quando se pergunta de Snorre, se ele morava em Bergen, Varg responde : “Ele estava morando no meu apartamento por um tempo. Ele era um amigo em comum nosso; o melhor amigo de Oystein - meu pior amigo! Mas eu não estou culpando os outros, porque eu que sou burro de ter socializado com uns idiotas desses. Eu devia ser muito burro pra não perceber que esses caras eram só uns perdedores. A única burrice que eu fiz e a única coisa que eu me arrependo, é de não ter matado (Snorre) também. Se eu tivesse matado ele também, minha pena não aumentaria caso eu fosse pego e, em segundo lugar, eu não teria sido pego. É disso que eu me arrependo.”

Em seguida, tem a entrevista de Hellhammer, e vem a pergunta : “O guitarrista do Mayhem se envolveu diretamente no assassinato de Euronymous? R : O Varg e o Blackthorn estavam morando em Bergen, a umas sete horas de carro de Oslo. O plano era que eles iriam matá-lo. Então ele participou do assassinato, mas ele não esfaqueou ele, só ficou em pé vendo.” Segue-se a pergunta : “Você não parece muito abalado com isso. R : Não. Você não era próximo ao Euronymous? R : Bom, eu gostava muito dele, mas o fato de ele ser comunista me ofendia. O Euronymous queria ser a pessoa mais extrema, e ele achava que o comunismo era muito extremo, com as coisas da Rússia soviética, sabe? Mas depois de um tempo, uns anos, ele descobriu que o comunismo era uma merda. Ele percebeu isso e passou a se dizer fascista, mas eu não sei. Ele era um comunista, infelizmente”.  

Aqui se revela a fácil adesão ideológica de membros do “inner circle”, evidenciando o fato de que quando houve tais eventos na Noruega, a cena era dominada por músicos ainda bastante jovens. A suscetibilidade do ego de Varg, o seu empreendimento de reduzir moralmente a figura de Euronymous, após a sua condenação (o que vem a calhar, pois, querendo ou não, Oystein tinha sido importante para toda a cena que surgira na Noruega), tudo pode cair numa caricatura deste tipo de necessidade de pertencer a um grupo, próprio da juventude. E neste caso, tudo culminou numa espécie de competição macabra para ver quem era o mais “malvadão”, chegando ao ponto de uma eleição suposta de Bard Eithun, para depois toda a cena norueguesa sucumbir ao escândalo do assassinato de Euronymous, envolvendo outra figura da cena, Varg Vikernes.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-xiii








domingo, 2 de outubro de 2022

WILLIAM FAULKNER NARRA A DESOLAÇÃO SULISTA NORTE-AMERICANA

“uma trama sobre a fatalidade da existência humana” 

 

Luz em Agosto é um romance de William Faulkner publicado em 1932, e tem um caráter mais acessível do que romances do autor como O Som e a Fúria, a trama se desenvolve com mais ação e não se concentra mais tanto nos monólogos interiores que davam origem ao chamado fluxo de consciência. 

A mesma prosa caudalosa, no entanto, aparece neste romance e temos novamente o Sul dos Estados Unidos e um cenário de decadência moral e econômica. A narrativa mais simples, em comparação aos trechos intrincados da leitura de um O Som e Fúria, por exemplo, não furta este romance Luz em Agosto de apresentar uma complexidade ligada ao grande número de seus personagens. 

Portanto, uma vez colocado este universo que revela uma miríade de personagens, temos entre eles tramas e acontecimentos que se entrechocam, produzem consequências diversas e que apresentam histórias que podem tanto se completar entre si, como uma perspectiva corrigir a outra. E o cenário está aqui na cidade de Jefferson, no fictício condado de Yoknapatawpha. 

Os centros gravitacionais do romance se compõem por três párias que são a adolescente Lena Grove, que está grávida, diante da fuga do pai da criança, o reverendo Gail Hightower e o forasteiro Joe Christmas. Este último é um branco que acredita ter sangue negro.  

E aqui se desenrola uma narrativa não-linear, polifônica, que passa por um Joe Christmas em busca de sua identidade e sendo humilhado pela intolerância racial e pela violência do sul dos Estados Unidos dos anos 1930, em plena vigência da lei seca. Vemos esta sua luta contra toda a intempérie e o destempero puritanista que o condena fatalmente ao fogo do inferno, o juízo moral lhe consome a alma e a reputação. 

Lena Grove vem do Mississipi, também no condado de Yokanapatawpha, em busca do pai de sua criança que iria nascer, e o reverendo Hightower é um tipo de pária moral acusado de ter sido responsável pela morte de sua esposa adúltera. Um destino trágico aguarda Joe Christmas, as desventuras existenciais mais uma vez dominam o clima neste sétimo romance da obra de William Faulkner. 

O tema do puritanismo norte-americano aparece, então, neste romance Luz em Agosto, com tintas fortíssimas, toda a hipocrisia moral que condena e mata, e que elege seus párias, os jogando num destino trágico, está aqui condensada e retratada. Junto com o romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann, existe aqui uma visão cósmica sobre o puritanismo. Aqui um tipo de cosmologia que deixa a Deus a escolha de jogar os homens e as mulheres diante de seus próprios desafios e tragédias. 

A perseguição a Joe Christmas por um assassinato, e logo depois por sua negritude, insufla e mesmeriza a comunidade de Yokanapatawpha, este tem um assecla de nome Brown, o mesmo que engravidou a errática jovem Lena Grove. Brown vira delator de Joe Christmas e sela o destino deste. A sanha moralista e puritanista ganha ares de loucura inquisitória e Joe Christmas já não teria defesas espirituais para suportar e mudar a rota de sua tragédia pessoal.  

Lena Grove segue obstinada em sua busca, Brown, que era Lucas Burch, não pretendia cumprir com suas obrigações, e a trama de busca de Lena Grove ganha tonalidades de absurdo da existência. Lena, por fim, confunde Byron Bunch com o seu Lucas Burch, e sua busca se torna caótica. Mas este se apaixona por Lena e a coloca, no entanto, de volta na pista de Brown, o verdadeiro Lucas Burch. 

William Faulkner cria neste romance uma riqueza de situações e um número considerável de personagens que agem o tempo todo e dialogam entre si. A prosa aqui se desenvolve e se expande com uma desenvoltura da narrativa do autor, ele ganha uma fluência que coloca Luz em Agosto tanto como uma trama de ação, como um romance cosmológico sobre o puritanismo sulista norte-americano. 

Portanto, temos também, no romance Luz em Agosto, este fundo cosmológico de pessimismo religioso, de estar narrando uma trama sobre a fatalidade da existência humana, deste regionalismo sulista que é desolador e que conta as desventuras de seus personagens, com fatos que emergem e que podem ser interpostos, revelando uma suposta voz deste povo do sul norte-americano. Luz em Agosto, por fim, tem um mérito apenas comparável ao seu sucessor, o romance Absalão! Absalão!, este que seria publicado quatro anos depois, no ano de 1936. 

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

 

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/cultura/willian-faulkner-narra-a-desolacao-sulista-norte-americana

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

OS POETAS SUICIDAS - PARTE II

"O russo Maiakóvski se suicidou em 1930, aos 36 anos, vitimado por perseguição política e desventuras amorosas"

 

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO 

 

Mário de Sá-Carneiro foi um poeta da Primeira Geração Modernista, conhecida como “Geração de Orpheu”, e escreveu na mesma época que Fernando Pessoa, em Portugal, tendo conhecido Pessoa e sido seu amigo pessoal. Sá-Carneiro viveu de 1890 até 1916. Sua obra tem destaque para a poesia de Portugal. 

Em 1910, Sá-Carneiro escreveu a peça “Amizade” junto com Thomas Cabreira Júnior, que viria a se suicidar no ano seguinte. O suicídio de seu amigo fez Sá-Carneiro escrever um poema dedicado a ele, intitulado “A Um Suicida”: 

 

Tu crias em ti mesmo e eras corajoso, 

Tu tinhas ideais e tinhas confiança, 

Oh! quantas vezes desesp'rançoso, 

Não invejei a tua esp'rança! 

 

Dizia para mim: — Aquele há-de vencer 

Aquele há-de colar a boca sequiosa 

Nuns lábios cor-de-rosa 

Que eu nunca beijarei, que me farão morrer. (...) 

Em 1914, em Lisboa, o poeta Mário de Sá-Carneiro se juntou a Fernando Pessoa para colaborar para a revista “Orpheu”. Neste mesmo ano Sá-Carneiro publicou o livro de poemas “Dispersão” e a novela “Confissões de Lúcio”. No final de 1915, saiu seu livro de contos “Céu em Fogo”.  

No retorno de Sá-Carneiro a Paris, por sua vez, seu pai entra em falência e corta a sua mesada, que era o seu sustento, e foi em meio a esta crise financeira que o poeta começou a ter ideações suicidas. Mário de Sá-Carneiro, enfim, cometeu suicídio no Hotel de Nice, em Paris, no dia 26 de abril de 1916, com 26 anos.  

 

VLADIMIR MAIAKÓVSKI  

 

Vladimir Maiakóvski produziu uma poesia que tinha riqueza metafórica e rítmica, com humor e hipérboles produzia uma obra crítica e politizada, muitas vezes panfletária, e que teve um caminho bastante acidentado. Aqui se pode destacar, em relação a escritos de Maiakóvski, no Brasil, edições como “Poemas”, que tem traduções de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos, “Poesia Russa Moderna”, com traduções também dos três, e “Antologia Poética”, com tradução de E. Carrera Guerra. 

Vladimir Maiakóvski se suicidou em 1930, aos 36 anos, vitimado pela perseguição e por desventuras amorosas, um suicídio feito num contexto político, diferente dos casos que cito aqui nesta lista de poetas suicidas. Maiakóvski vivia o período em que Joseph Stálin estava no poder na União Soviética, em que houve um intenso expurgo de adversários políticos, o que incluiu a morte de Liev Trotsky no México. Tudo o que destoava da ortodoxia do Partido Comunista Soviético estava condenado no regime de Stálin. 

Maiakóvski havia colaborado na Revolução Russa, mas a posterior tentativa do poeta de se enquadrar no novo regime soviético de uma literatura proletária, engajada e panfletária, produzindo também cartazes revolucionários, não deu certo, ele avaliou errado o efeito de sua obra neste contexto, e o poeta foi incompreendido, chegando a ter a sua peça “Os Banhos” como objeto de boicote. 

O biógrafo Mikhailov diz: “As circunstâncias de sua vida pessoal eram-lhe incontornáveis. Vivia em profundo estado de depressão e passava por uma crise de criação em face de confronto com o poder soviético, mesmo sem ainda ter a consciência do que seria no futuro, mas sentindo uma enorme pressão que privava a literatura do ar de liberdade”.  

Mikhailov ainda cita “a campanha para isolar Maiakóvski da literatura, ou seja, também da vida, assumia um caráter cada vez mais cruel. Na imprensa, tentavam convencê-lo de que não tinha mais o que escrever e nas apresentações alguns engraçadinhos, com intenções de ofender, perguntavam ao poeta quando, finalmente, ele daria um tiro na testa…”. 

Maiakóvski deu um tiro no peito. “A bala — a única colocada no tambor (ah, essa “roleta-russa”!) — encontrou o caminho direto até o coração”, relata Aleksandr Mikhailov. Os jornais do dia 15 de abril de 1930 publicaram: “Ontem, 14 de abril, às 10 horas e 15 minutos, em seu escritório (Lubianski Proezd, nº 3), suicidou-se o poeta Vladímir Maiakóvski”. 

Vladímir Maiakóvski matou-se no dia 14 de abril de 1930 e deixou um bilhete. 

“A todos 

De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso. 

Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída. 

Lília, ame-me. 

Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia. 

Caso torne a vida delas suportável, obrigado. 

Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer. 

Como dizem: 

caso encerrado, 

o barco do amor 

espatifou-se na rotina. 

Acertei as contas com a vida 

inútil a lista 

de dores, 

desgraças 

e mágoas mútuas. 

Felicidade para quem fica.” 

 

HEINRICH VON KLEIST 

 

Heinrich von Kleist foi um poeta nascido em 1777, na antiga Prússia, hoje parte do território da Alemanha. Ele entra para a carreira militar, seguindo a tradição familiar, mas pede baixa em 1799, causando desgosto a sua família. Sem uma meta clara, Kleist estuda Direito, mas vai para a cadeira de Literatura, e passa a ler ferozmente autores como Friedrich Schiller, Christoph Martin Wieland e os filósofos mais populares em sua época. Kleist estava decidido a ser escritor, e junto da sua irmã Ulrike, realiza extensas viagens. 

Entra numa crise existencial com a leitura dos escritos de Immanuel Kant, e se isola em uma vida rural na Suíça, em que relata : "Não vejo ninguém, não leio livros, jornais, enfim, não preciso de ninguém além de mim mesmo", é quando o poeta completa seu primeiro drama “Família Schroffenstein”, e em 1802 ele começa a escrever A bilha quebrada, que será uma de suas obras teatrais mais populares. Inquieto, viajando por diversos países nos anos seguintes, Kleist tem acessos de loucura e entra em grave colapso, quando queima parte de seus manuscritos. 

A estreia de sua peça “A bilha quebrada” em Weimar, recebe vaia do público e é criticada por Johann Wolfgang Goethe, e Kleist desaparece, voltando para Berlim em 1810, fundando um jornal, quando entra em choque com a censura, e o poeta fica arruinado com o fechamento do jornal, tendo uma ruptura dramática com a própria família. As ideações suicidas começam, e juntamente com uma amiga, Henriette Vogel, vítima de moléstia fatal, Heinrich von Kleist dirige-se de coche até o lago Wannsee, onde primeiro mata sua acompanhante voluntária com um tiro de pistola, para logo em seguida se matar. 

As últimas palavras, para Ulrike. 

“Para Ulrike von Kleist, 21 de Novembro de 1811. 

Para a Senhorita Ulrike von Kleist Hochwohlgeb. Para Frankfurt a. Oder*. 

Eu não posso morrer sem ter me reconciliado, contente e jubilosamente como estou, com todo o mundo, e, assim, também, antes de todos os outros, minha caríssima Ulrike, com você. Se ela me deixar, a austera nota que está incluída na carta aos Kleist, ela me permite a tomar de volta; realmente, você mexeu comigo, eu não digo que com as forças de uma irmã, mas com as forças de uma pessoa, para me salvar: a verdade é que não era para eu na Terra ser salvo. E agora provavelmente vivo; se o céu te der uma morte, que a aceite imediatamente com um pouco de satisfação e com inexpressível alegria: este é o mais afável e carinhoso desejo que acalento por você. 

Perto de Potsdam. 

d. – na manhã da minha morte, 

Seu Heinrich.” 

 

CVV – CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA 

 

O CVV — Centro de Valorização da Vida, fundado em São Paulo, em 1962, é uma associação civil sem fins lucrativos, filantrópica, reconhecida como de Utilidade Pública Federal, desde 1973. Presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato. 

A instituição é associada ao Befrienders Worldwide, que congrega entidades congêneres de todo o mundo, e participou da força tarefa que elaborou a Política Nacional de Prevenção do Suicídio, do Ministério da Saúde, com quem mantém, desde 2015, um termo de cooperação para a implantação de uma linha gratuita nacional de prevenção do suicídio. 

Os contatos com o CVV são feitos pelos telefones 188 (24 horas e sem custo de ligação),  pessoalmente (nos mais de 120 postos de atendimento) ou pelo site www.cvv.org.br, por chat e  e-mail. (Fonte : https://www.cvv.org.br/o-cvv/) 

 

SETEMBRO AMARELO 

 

Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, em parceria com o Conselho Federal de Medicina – CFM, organiza nacionalmente o Setembro Amarelo. O dia 10 deste mês é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a campanha acontece durante todo o ano. 

São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 01 milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias. 

​Com o objetivo de prevenir e reduzir estes números a campanha Setembro Amarelo cresceu e hoje conquistamos o Brasil inteiro. Para isso, o apoio das nossas federadas, núcleos, associados e de toda a sociedade é fundamental. (Fonte : https://www.setembroamarelo.com/) 

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. 

 

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/os-poetas-suicidas-parte-ii