“somente através das suscetibilidades sexuais da hipocrisia social teológica e familiar Vorcaro pode ter enredado meia República”
No caso Vorcaro, dentre os casos de violência que envolveram o Sicário e os crimes financeiros que estão enredando meia República, temos ainda a parte erótica e sexual, ou seja, é um prato cheio, e não se resume ao vazamento da abordagem de gosto duvidoso do dito cujo com sua ex-namorada. Temos agora a chamada Festa das Suíças, na famigerada boate dark oitentista da noite paulistana, o Madame Satã, centro nervoso do auge da era gótica e do pós-punk.
Foi uma festa de luxo, de Halloween, uma comemoração secreta organizada por Vorcaro no dia 31 de outubro de 2023, no lugar que hoje se chama Madame Underground Club. Tal evento veio a conhecimento do público neste mês de setembro, depois que o sigilo de relatórios da PF (Polícia Federal) foi derrubado. Tal episódio é uma amostra do método de Vorcaro de aproximação de altas autoridades do Judiciário e do Legislativo, ou seja, a compra de intimidade através de festas de alto padrão. Neste caso somente, mensagens revelam que a organização da festa garantiria a proporção de 120 mulheres para 20 homens.
O termo “suíças” se referia a um apelido e código interno da organização da festa para modelos jovens e acompanhantes estrangeiras contratadas para o evento. Vorcaro patrocinou a festa com a contratação de figuras da música eletrônica comercial como os DJs Solomun, Vintage Culture e o trio sueco Swedish House Mafia, bem distante das tendências góticas e pós-punk que fixaram a imagem do Madame Satã no imaginário underground paulistano. Contudo, na tal festa, Vorcaro recebeu seus convidados fantasiado de Conde Drácula, vestindo capa preta e maquiagem, o que talvez tenha sido o único resquício “dark” do evento, não sem a afetação caricata da figura em questão e de quem ali estava.
As mensagens interceptadas pela PF indicam que Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, era o elo central da distribuição de convites da noite no Madame Satã, em que amigos influentes do Congresso e do Judiciário foram chamados. O ecossistema de festas de Vorcaro foi chamado de festas na Bahia, o que inclui a Festa das Suíças e outras festas VIP, na atração de figuras do Centrão, do Judiciário e do Executivo em gestões anteriores. Por exemplo, Faria escreveu a Vorcaro por WhatsApp, sobre a Festa das Suíças : “Davi e Pacheco confirmados para terça. Também convidei o Toffoli.” E ainda : “Davi está enlouquecendo perguntando se as suíças vêm. Se der, nós vamos levar".
E ainda teve o que a PF apelidou de “Cine Trancoso”, que se refere a uma série de festas privadas de luxo que Vorcaro promoveu em uma mansão cinematográfica de cerca de R$ 80 milhões em Trancoso, no litoral da Bahia. Tal codinome veio pelo fato de que tal mansão tinha um sistema interno de câmeras que registrava tudo o que acontecia, e a investigação suspeita que tal banco de imagens de figuras públicas em situações comprometedoras funcionava como uma blindagem e ativo para Vorcaro.
A propósito, recente descoberta da Polícia Federal (PF) se refere agora a cerca de 5 mil arquivos classificados na categoria “Score nudez” nos celulares de Vorcaro, que inclui fotos íntimas e cenas de sexo explícito. Além dos arquivos íntimos, o dispositivo contém dezenas de milhares de registros, que incluem conversas de WhatsApp com políticos, áudios e registros de ligações.
Especula-se, no momento, se o material de cunho erótico e sexual é algo do próprio Vorcaro ou se está relacionado às festas patrocinadas pelo ex-banqueiro, mais especificamente, os registros feitos do chamado “Cine Trancoso” que, a princípio, não contendo crimes sexuais, de qualquer modo, configuraria um vexame público às possíveis figuras do cenário político e jurídico, caso se comprovem as coisas nesta direção. Quer dizer, somente através das suscetibilidades sexuais da hipocrisia social teológica e familiar Vorcaro pode ter enredado meia República. Estratégia pura.
Referindo-se novamente às festas do “Cine Trancoso”, a frota de jatinhos particulares da empresa Prime You, ligada ao ex-banqueiro, era utilizada para realizar o transporte exclusivo de autoridades e de modelos e prostitutas de luxo vindas do exterior, no caso, suíças, norueguesas e holandesas, pois a contratação de acompanhantes estrangeiras era porque elas não falavam português e não conhecerem quem eram as autoridades brasileiras ali presentes, garantindo o sigilo da situação. A antiga proprietária do imóvel revela quebra de contrato devido ao excesso de hóspedes, que eram mais de 36 por noite, além do volume de gastos, que incluíam caviar e vinhos raros com garrafas cotadas a R$ 50 mil.
Há ainda mensagens de uma mulher identificada como Rayanna, que teria cobrado R$ 10 mil de Vorcaro pela garota que teria “ficado com Kassio”. A chamada “Turma do KN” firmou um contrato de R$ 427 milhões entre o escritório da esposa do ministro do STF Kassio Nunes e o Banco Master, negócio que foi intermediado pelo desembargador Newton Ramos, com o objetivo de que ações no STF liberassem R$ 8,5 bilhões em precatórios de interesse do Vorcaro, este que chegou a financiar uma série de vantagens luxuosas ao ministro e familiares, tal como o aluguel de uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, por R$ 1,45 milhão, por uma semana no Carnaval de 2025 para hospedagem do ministro, mansão esta que pertenceria ao ator Márcio Garcia.
Ainda temos uma mensagem de um assessor jurídico do Banco Master que perguntou a Vorcaro sobre se deveria manter um pagamento mensal de R$ 500 mil a Kevin Marques, filho do ministro. Portanto, diante das revelações, tivemos a declaração de impedimento por parte de Kassio Nunes Marques de participar dos julgamentos no STF que envolvem as investigações do caso Vorcaro e do Banco Master. Claro que a alegação do ministro foi outra, ao afirmar que como atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sua permanência poderia impactar os trabalhos da corte eleitoral.
As listas que estão sendo analisadas pela PF no caso Vorcaro incluem o clã Bolsonaro, no caso o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro aparecem nas apurações sobre o fluxo financeiro do documentário Dark Horse. Temos Cezinha de Madureira, deputado federal do PSD-SP, suspeito de atuar em interlocuções em processos de interesse do grupo no STF. Aparecem também as figuras de Ciro Nogueira (PP) e Jaques Wagner (PT), com seus nomes constando em procedimentos fiscais e planilhas de contatos do Banco Master. Além do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, também mapeado nos repasses e conexões institucionais do banco.
No caso Dark Horse temos a publicação recente da Revista Piauí e a deflagração da Operação Make Up. A investigação da Polícia Federal sobre a produção do filme divide-se em duas grandes frentes que tramitam de forma sigilosa no Supremo Tribunal Federal (STF). Aí também se inclui a Frente do Financiamento Privado e Conexões Bancárias, cujo relator é André Mendonça. A reportagem da revista revela um relatório inédito do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que identificou um repasse adicional de US$ 1,6 milhão feito pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento de Dark Horse.
Tal relatório contradiz as declarações de Flávio, que tinha afirmado que o último repasse de Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025. O documento do Coaf é de 16 de setembro de 2025, com um dinheiro enviado ao Havengate Development Fund, um fundo sediado no Texas (EUA), que administrava os recursos do projeto antes de repassá-los à produtora Go Up Entertainment, em que a investigação ainda aponta que o dinheiro passava por uma empresa vinculada a um doleiro no Brasil, conhecido como Mineiro, antes do envio ao fundo norte-americano. Além disso, existem indícios de mais parcelas, pois mensagens interceptadas sugerem outro pagamento em outubro de 2025.
O caso Dark Horse é atualmente um dos focos de investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público (MP), em que se investiga se houve vantagens indevidas ou crime de lavagem de dinheiro envolvendo Vorcaro e agentes públicos, ao passo que o Supremo Tribunal Federal (STF) investiga se emendas parlamentares federais e contratos públicos municipais também foram desviados para a produtora do filme. Pois, o dinheiro ia das empresas ligadas a Vorcaro, passava por contas do tal Mineiro, doleiro no Brasil, e então ia para o Fundo Havengate, que fica no Texas, Estados Unidos.
Investigações confirmaram que o Havengate é um fundo gerido por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, este que se mudou para o Texas no início de 2025 alegando "perseguição política". Então os valores eram repassados para a produtora do filme, a Go Up Entertainment. A revista Piauí ainda revelou que uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) identificou sérias irregularidades em convênios de ONGs que pertencem a Karina, dona da produtora, o que envolve também o recebimento de emendas parlamentares do deputado Mario Frias, em que cerca de US$ 2,68 milhões, 20% do orçamento total de US$ 13,39 milhões, foram gastos apenas na "soft produção", fase estritamente conceitual de um filme, quando numa previsão normal essa etapa consome no máximo entre 3% e 5% do orçamento.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou um acordo de delação premiada do empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como "Mineiro", o doleiro dono da Entre Investimentos e Participações, empresa suspeita de mediar repasses financeiros de Vorcaro para o filme Dark Horse. Após a homologação da delação e manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ministro André Mendonça derrubou o sigilo de dezenas de processos e documentos ligados a essa investigação.
O doleiro detalhou à Procuradoria-Geral da República (PGR) o funcionamento do fluxo financeiro que abastecia o Fundo Havengate, com um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, o Bananinha, em sua gestão, fundo este que administrava as cifras destinadas à produção do filme Dark Horse. Essa delação foi fechada diretamente com a PGR, sem a participação da Polícia Federal, e pretende rastrear se os valores estimados em dezenas de milhões foram de fato aplicados no filme Dark Horse ou se serviram para custear a subsistência e despesas de aliados políticos nos Estados Unidos.
Portanto, a Polícia Federal e a PGR apuram se o montante estimado em dezenas de milhões de reais e negociado com o envolvimento do senador Flávio Bolsonaro foi integralmente direcionado ao filme ou se custeou despesas pessoais de aliados políticos no exterior. A investigação aponta que as negociações para os aportes de Vorcaro foram conduzidas pelo senador Flávio Bolsonaro. O Havengate, por sua vez, é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
E ainda tivemos a deflagração da Operação Make Up, em que a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) investigam o desvio de verbas públicas oriundas de emendas parlamentares de Mário Frias (PL), em que o deputado teria destinado R$ 2 milhões para ONGs parceiras, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), em que o dinheiro destas ONGs teria sido repassado à produtora do filme Dark Horse, numa triangulação.
A produtora responsável pelo filme, é bom lembrar, é a Go Up Entertainment, que pertence a Karina Ferreira da Gama. Foram cumpridos, então, 49 mandados de busca e apreensão, em que o celular de Mário Frias foi apreendido, e o deputado foi proibido de deixar o Brasil ou contactar os outros investigados. Documentos apreendidos em São Paulo revelaram até um organograma onde o nome de Mário aparecia ao lado da palavra "sócio" da Go Up.
Enquanto isso, a PF apura a origem de recursos privados de grande escala que bancaram o longa, em que mensagens interceptadas mostraram o senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrando e negociando valores que chegam a US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 61 a R$ 64 milhões à época, com Vorcaro, em que o pedido inicial do clã Bolsonaro girava em torno de R$ 131 milhões. E como dito, a suspeita é a de que parte desses repasses bilionários foi enviada para o fundo Havengate para custear despesas pessoais e a permanência do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o Bananinha, nos Estados Unidos.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
.jpg)