PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 8 de agosto de 2026

As reações de China e União Europeia contra o tarifaço de Trump

 “Trump enfrenta queda de popularidade”


O tarifaço de Trump causou respostas estratégicas da China e da União Europeia. Em que os europeus realizaram um contra-ataque cirúrgico, como parte da doutrina geoeconômica da “Autonomia Estratégica”. A União Europeia já tinha calculado previamente este movimento, com uma retaliação simétrica e não-ideológica pré-aprovada pela Comissão Europeia.

Bruxelas mirou produtos de estados norte-americanos com bases eleitorais importantes do Partido Republicano para aplicar tarifas, o que implicou numa resposta que atingiu mercadorias como motocicletas, bourbon e produtos agrícolas do Midwest, como modo de pressão sobre Trump, para que sua base exigisse seu recuo. No pacote, a UE acelerou impostos sobre as Big Techs, endurecendo regras ambientais de importação, contando com um mercado consumidor interno robusto como tática de dissuasão.  

Na guerra comercial, a China atacou de modo assimétrico, aplicando tarifas sobre a soja norte-americana, e praticando seu usual dumping, com uma desvalorização controlada de sua moeda, o Yuan, mantendo a competitividade internacional de seus produtos, conseguindo neutralizar parte do tarifaço trumpista. Além disso, os chineses se utilizaram do monopólio que possuem sobre o refino de terras raras e minerais críticos essenciais na transição energética e para as indústrias de alta tecnologia, impondo severas restrições de exportações desses materiais para as empresas norte-americanas.

A China teve um senso de oportunidade e avançou com a sua iniciativa Belt and Road (Nova Rota da Seda), traduzida por Iniciativa Cinturão e Rota, enquanto os Estados Unidos, sob o governo trumpista e seu tarifaço, fechava o seu mercado. Os chineses assinaram novos acordos comerciais com a América Latina, África e Sudeste Asiático, o que também isolou produtores norte-americanos. 

Tal nomenclatura, que é histórica, se refere à Rota da Seda de antigas rotas comerciais históricas entre o Oriente e o Ocidente, e que, atualizada, busca a criação de corredores econômicos ligando a China à Ásia Central, Rússia e Europa, além de rotas marítimas através de conexões pelo Oceano Índico e Pacífico, unindo portos estratégicos na Ásia, Oriente Médio e África.

A China lançou a Nova Rota da Seda (ou Iniciativa Cinturão e Rota) em 2013, como um megaprojeto global de infraestrutura e comércio, com objetivos de ligar a Ásia à Europa, África e América Latina através de redes terrestres e marítimas, o que visa a expansão da influência geopolítica e econômica chinesa, com investimentos de mais de US$ 1 trilhão em portos, ferrovias, rodovias e energia em mais de cem países. 

Tal expansão se dará através do rearranjo das cadeias globais de suprimentos, exportando o excedente de capacidade industrial da China e que levará à consolidação do país como a principal potência da Eurásia. Esta investida chinesa que abala a hegemonia global norte-americana e o sistema de alianças que o país tem na geopolítica mundial. 

A integração econômica entre Ásia e Europa busca reduzir a influência transatlântica dos Estados Unidos. A criação de rotas terrestres através de ferrovias e gasodutos tem objetivos de segurança energética e evita o uso do Estreito de Malaca, que é indiretamente controlado pelo país norte-americano. A moeda chinesa, com a internacionalização do Yuan, entra cada vez mais em contratos comerciais globais, enfraquecendo o domínio mundial do dólar. 

A China atua diplomaticamente na atração de países em desenvolvimento para o seu bloco de votação em fóruns como, por exemplo, em questões que envolvam a ONU. Na concorrência com os Estados Unidos, os chineses atuam no Sul Global com financiamento estratégico em infraestrutura. 

Pela chamada “Rota da Seda Digital” ocorre a competição pela instalação de redes 5G/6G e cabos submarinos de fibra óptica.  E a China ainda atua na compra de dívidas, com empréstimos impagáveis, assumindo ativos soberanos, como o Porto de Hambantota, com acusações dos Estados Unidos sobre estas ações chinesas.

O país norte-americano, na sua contraofensiva, atua com iniciativas lideradas pelo G7, oferecendo alternativas de financiamento sustentável e transparente. Para concorrer com a Nova Rota da Seda chinesa, existe uma parceria chamada corredor IMEC, que envolve os Estados Unidos, Índia, Oriente Médio e Europa, rivalizando contra a China com uma política de financiamentos alternativos de infraestrutura, uma política protecionista agressiva de mercado, sanções e segurança tecnológica. 

Nesta guerra comercial contra a China, a principal dos Estados Unidos, o tarifaço trumpista adota tarifas recíprocas, com base nos superávits de parceiros comerciais, com taxas sobre produtos estrangeiros, forçando as cadeias de suprimento na saída da dependência dos chineses, para a contenção da capacidade industrial da China, e umas das vantagens utilizadas é o fato de os Estados Unidos possuírem um gigante mercado consumidor como moeda de troca na geopolítica comercial para que países recusem investimentos chineses.

Outra concorrência contra a Nova Rota da Seda, também, é o Corredor de Lobito, que liga Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia, no escoamento de minerais críticos. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC) possui projetos em logística e energia. E os Estados Unidos ainda tem o PGII (Parceria para Infraestrutura e Investimento Global), um consórcio do G7 liderado pelo país norte-americano, que mobiliza capital privado e público em projetos no Sul Global.  

O Departamento de Estado norte-americano financia ainda a substituição de cabos de fibra óptica obsoletos e a instalação de novas redes na América Central e no Caribe, como forma de  impedir que empresas estatais chinesas tenham controle da infraestrutura de telecomunicações próxima ao território dos Estados Unidos. Além disso, o governo trumpista atua através do bloqueio global contra tecnologias chinesas 5G/6G, semicondutores e IA em redes estratégicas de países parceiros sob alegações de riscos à segurança nacional.

Outra política norte-americana é a de estabelecer um contraste com a promoção de critérios rígidos de governança, sustentabilidade ambiental e direitos trabalhistas no financiamento de obras, em oposição ao flexível modelo chinês. Com os Estados Unidos se utilizando de canais diplomáticos no alerta de países em desenvolvimento sobre os riscos de calote e perda de soberania de ativos, tais como portos e aeroportos vinculados a empréstimos chineses.

No caso da reação da União Europeia e da China contra o tarifaço trumpista, foi feito um mapeamento das vulnerabilidades econômicas e políticas dos Estados Unidos. Ou seja, ao invés de uma reação genérica, os dois blocos escolheram alvos de alto impacto como a melhor forma de pressão sobre o governo Trump, forçando uma negociação. Por exemplo, os alvos específicos da União Europeia visaram atingir os interesses do mercado consumidor norte-americano que consiste em eleitores e financiadores de campanha do Partido Republicano, mirando os estados-chave (swing states) e redutos de aliados de Trump, com taxações sobre bebidas e alimentos de luxo.

A União Europeia aplicou tarifas sobre o Bourbon (uísque americano), produzido majoritariamente no Kentucky, estado do líder republicano no Senado. Também foram atingidas as motocicletas, com sobretaxas severas contra a Harley-Davidson, sediada no Wisconsin, um estado eleitoral decisivo e altamente disputado. Tivemos a tarifação do milho e do tabaco norte-americanos, com prejuízos no agronegócio do Meio-Oeste, que envolve prejuízos diretos aos fazendeiros que formam a base eleitoral mais fiel de Trump. Por fim, houve uma aceleração de multas bilionárias e impostos sobre as Big Techs, tais como Google, Apple, Meta e Amazon.

Os chineses miraram nas terras raras e minerais críticos, com a restrição sobre a exportação de gálio, germânio e grafite, minerais dos quais detém o controle global de fornecimento, e que são fundamentais na fabricação de semicondutores, chips de Inteligência Artificial, baterias de carros elétricos e equipamentos de defesa do Pentágono. Tendo ainda a suspensão imediata de compras estatais de soja e carne de porco vindas dos Estados Unidos, o cancelamento e suspensão de contratos de compra de aeronaves da Boeing, negociando com a rival europeia Airbus ou fomentando a estatal chinesa COMAC.

A retaliação contra o tarifaço trumpista atinge os consumidores norte-americano. Os Estados Unidos elevaram a sua inflação anual, produtores rurais enfrentam perdas multibilionárias e operam no prejuízo em grãos como soja devido ao redirecionamento de compras da China para outros países; e a manufatura norte-americana registrou perda de dezenas de milhares de postos de trabalho, com recuo do índice de confiança das grandes empresas norte-americanas, com risco de recessão e adiamento de investimentos de longo prazo. 

Trump enfrenta um processo administrativo no Tribunal de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Nova York, processo realizado por um grupo de 25 estados norte-americanos, alegando abuso de autoridade presidencial ao usar o pretexto de combate ao trabalho forçado para reinstaurar taxas derrubadas pela Suprema Corte. 

Trump enfrenta queda de popularidade provocado pelo tarifaço, ameaçando diretamente a maioria do Partido Republicano no Congresso às vésperas das eleições de meio de mandato (midterms). O setor rural, tradicional base aliada de Trump, foi duramente atingido por tarifas de retaliação e pela inflação, e o apoio ao presidente nas zonas rurais despencou 10%, atingindo mínimos históricos, com eleitores sentindo diretamente o encarecimento de alimentos e combustíveis. E a inflação virou o principal combustível da oposição. Com os Democratas já abriram vantagem nas pesquisas de intenção de voto genéricas para o Legislativo.

Projeções apontam uma alta probabilidade de que os republicanos percam a maioria no Senado e com fortes chances de derrota também na Câmara dos Representantes, paralisando os dois anos finais do mandato de Trump. Enquanto este tenta novamente a estratégia de contestação da confiabilidade do sistema eleitoral e acusações de interferência estrangeira para desviar o foco da inflação do país, do desgaste econômico que virou seu tarifaço. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-reacoes-de-china-e-uniao-europeia-contra-o-tarifaco-de-trump/

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A PEÇA MACACOS

“sucesso de público e de crítica”


Macacos é um monólogo em 9 episódios e 1 ato. A peça é visceral, numa perspectiva histórica ainda há pouco camuflada na historiografia escolar. O trauma colonial, de um pacto mercantil, que provocou um deslocamento geográfico de pessoas tratadas como corpos-mercadoria, e que, como consequência, foi um descentramento cultural, em um mistifório recriado a partir dos navios negreiros.

Tal herança se misturou a uma nova realidade, recomposta, e que teve um auge de tortura e morte durante a escravização, um genocídio, o maior da História no Brasil e no mundo, mais do que os dos gulags soviéticos, vindos do período czarista, da fome maoísta e do nazi-fascismo. 

Falamos aqui de uma paisagem constrangedora, em que nosso país foi o último a assinar a abolição do sistema escravista, advindo do extrativismo da cana-de-açúcar, do chamado pacto colonial mercantilista, em um período pré-capitalista, fundado no comércio internacional marítimo. Com a pressão do novo modelo da revolução industrial inglesa, no entanto, os senhores das terras se viram sem saída.

Foi quando findou o sistema vindo do colonialismo português, o que decretou, junto à proclamada Lei Áurea, da Princesa Isabel, tanto o fim da monarquia, que perdeu seu apoio do poder agrário, como acabou selando o caminho imediato e histórico de uma cisão social pós-escravista, de um mal ajambrado e hipócrita processo de transição para pretos livres etc. 

O problema veio de políticas urbanas higienistas e que foi uma tentativa mal sucedida de segregação que consistiu em “livrar-se” de um problema fingindo que ele não existe. Ou seja, o higienismo buscava separar áreas demarcadas entre a cidade funcional, e uma periferia forçada por rearranjo da derrubada de cortiços, com o exemplo maior na política de Pereira Passos no Rio de Janeiro, inspirada na reforma urbana parisiense do Barão Haussmann. 

O fingimento foi “bom” até o momento em que a ressaca veio na forma de pobreza mal resolvida e crescimento exponencial da violência urbana, cada vez mais sofisticada e organizada, retroalimentando um racismo estrutural em que existe o tal “perfil de bandido” etc. Quer dizer, o segregacionismo higienista do início do século XX revirou-se em um racismo estrutural advindo de um desenho sociodemográfico terrível e excludente.

Clayton Nascimento realiza uma performance física, intensa, no tablado, que é liberado de objetos, plano aberto, tal qual seu papel corporal, de bermuda, sem camisa, correndo para lá e para cá, por todo o tablado, podendo-se ouvir o barulho de seus pés descalços sobre a madeira, numa experiência acústica nua, a qual pude ver-ouvir no Teatro Riachuelo, “sold out”, no Centro do Rio de Janeiro. 

Isso, para mim, sem citar todo o processo histórico que ele iria deslindar ali, me marcou bastante, esta parte sensorial, de corpo-som-tablado, do teatro físico. E a linguagem vem como um soco, na sua repetição da palavra “macacos”, já como um cartão de visitas do que estaria por vir. O que seria o impacto de um texto que está em consonância com a performance corporal do ator, num suadouro intenso tal qual o que é narrado, com a força do texto aliada a um teatro físico incansável.

Clayton Nascimento também narra a sua experiência direta com o racismo estrutural, ele mesmo confundido com bandido, sendo acusado de ser assaltante quando era roubado, na verdade, por um casal que era de fato quem assaltava Clayton, numa inversão em que testemunhas da cena na rua acharam que ele que era o ladrão, tendo seus bens saqueados enquanto era espancado pelo casal. 

Tal episódio é bem sintomático de uma máquina social de ilações produzidas a partir do racismo estrutural que, se não fosse trágico, estaria beirando a caricatura, como neste caso real narrado por Clayton, do qual ele mesmo foi vítima. Esse foi o violento episódio real de 2018 que provocou um ponto de virada biográfico para a criação do monólogo e a pesquisa do racismo estrutural que costura todos os episódios da peça Macacos, em que Clayton Nascimento coloca um foco autobiográfico e histórico.

A peça funciona como uma autoficção que se mistura a uma narração histórica que atravessa de modo diacrônico o racismo, e que revela, na frente, de modo sincrônico, a parte estrutural que vem deste processo histórico longo e complexo. Além destes aspectos de autoficção, teatro físico e de teatro histórico, temos as referências pessoais de Clayton com seus ídolos negros. Por exemplo, nas figuras de Elza Soares, Bessie Smith e Machado de Assis. 

Diante de personagens negros (as) destacados (as) na História, Clayton tem também a esperança e a utopia como guias de seu caminho, e não somente memórias pessoais e históricas dolorosas. O que também revela uma cultura que se desenvolveu na música, na literatura, no próprio teatro, se lembrarmos de Abdias Nascimento, com seu teatro experimental do negro, em que a dramaturgia de Clayton contrabalança a denúncia fundante e fundamental que já vem do nome da própria peça, com esta luz que salva tudo, no livramento destas constantes ameaças de morte e desaparecimento que ele narra.

Clayton também fala de sua mãe, dona Maria do Carmo. De seu pai, durante o périplo até sua entrada na universidade, em que seu pai sempre repetia no fim o verbo “persevera”. Lembra do caso de Claudia Silva, que foi baleada ao sair de casa para comprar pão, e que teve seu corpo arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro ao cair do camburão do carro de polícia que a tinha pego. 

Em uma de suas falas, Clayton nos lembra : “Se fizermos uma rápida divisão entre 388 anos de escravidão divididos por 521 anos de Brasil, teremos cerca de 69% da nossa história toda pautada em escravidão. Se dividirmos cerca de 40 anos de democracia por 521 anos de Brasil, teremos apenas 7% da nossa história pautada em democracia.”

A palavra macaco, que vem no singular na abertura da peça, como título do episódio 1, “um macaco”, entra no texto no plural, como um xingamento de torcida, como gritos de uma massa popular, e é este plural que encerra a peça, em que Clayton anuncia uma união deste bando de “macacos”, como a imagem final da peça.

Este bando traduz-se em pessoas que aparecem no cenário social e de corte racial como estes “outros”, num processo de luta contra a exclusão e desumanização, em que esta alteridade se afirma transculturalmente não por via pacífica, de uma mestiçagem cordial, mas num movimento contra as violências, em choque, em colisão, em que tanto no Brasil como em outras realidades mundiais, a complexidade cultural é mais produto de conflito do que através de diálogos pacíficos. 

Falar de transculturação, hibridismo etc, portanto, não pode ser capturado por um discurso ingênuo e alienado da História real, e que a dramaturgia de Clayton Nascimento faz questão em destacar. Nada vem de graça, começando pela Lei Áurea, cuja visão romantizada já caiu por terra, e hoje a data comemorativa não é mais a da abolição e sim da Consciência Negra, com inspiração na luta quilombola de libertação do escravismo e do colonialismo, com a imagem destacada de Zumbi dos Palmares, dentre outras figuras de proa na História de luta negra brasileira.

A denúncia contra silenciamentos, apagamentos, contra mortes tanto físicas como simbólicas, é uma luta pela vida e pela liberdade, e que Clayton Nascimento, na sua peça Macacos, vocaliza e também organiza, pois seu texto traz muita informação, muito importante, o que é até mais central que todo o cenário físico e de sua performance intensa de ator. A peça é sucesso de público e de crítica e o ator, performer e dramaturgo é devidamente reconhecido no cenário cultural brasileiro contemporâneo. 

Clayton Nascimento é dramaturgo, ator, professor de artes dramáticas e diretor de teatro. Nascido no Piauí e criado em São Paulo, graduou-se pela Universidade de São Paulo (USP), além de ter cursado a escola Célia Helena Centro de Artes e Educação, São Paulo. Começou a escrever Macacos quando ainda era estudante e morava no centro universitário, o Crusp. 

A peça Macacos recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio de Melhor Ator no XX Festival de Teatro do Rio de Janeiro e Melhor Dramaturgia no Narrativas Urgentes no Festival Breves Cenas de Teatro no Amazonas. A peça Macacos estreou no Teatro Popular Oscar Niemeyer, em 25 de setembro de 2016, integrando o festival de teatro de Niterói em Cena, em Niterói, RJ. Uma dramaturgia-denúncia escrita entre 2015 e 2021, montada como uma peça sem cenários e dividida em episódios apenas por uma questão dramatúrgica. Coisa nossa, do Brasil-sil-sil.

E cabe aqui lembrar o Episódio 4, uma notícia pra qualquer um, em que Clayton Nascimento destaca : “... e a Terezinha virou notícia num jornal para qualquer um. [em tom jornalístico] Terezinha Maria de Jesus, mãe do menino Eduardo de Jesus, assassinado aos 6 anos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em 2015, precisou se mudar de estado após a morte do filho. O seu casamento acabou. No final de 2016, a Justiça brasileira julgou o caso Eduardo de Jesus e decidiu que todos os policiais envolvidos no caso estavam absolvidos. Por legítima defesa. O caso foi arquivado. No dia 5 de dezembro de 2019, o delegado do caso menino Eduardo de Jesus se tornou réu. Foi acusado de corrupção. Fim do jornal.

Desde que a peça Macacos estreou, por volta de 2016, eu fui me aproximando cada vez mais de Terezinha. Eu ainda me lembro de que na apresentação da peça no Teatro Baden Powell, em Copacabana, a poucas horas da apresentação, chega uma jovem senhora, muito bonita, vívida, de sorriso largo, de braços dados com uma amiga e rodeada de algumas crianças: — Boa tarde. Eu sou Maria Terezinha. Mãe de Eduardo. Vim falar com o ator. Soube que ele tá falando de mim na peça. A Terezinha me contou sua história. E notei que ela tinha detalhes bastante diferentes de tudo o que eu já havia lido para preparar essa peça. [como se numa lembrança repentina] Nessa semana, essa última que passou, eu falei para a Terezinha que eu estaria aqui, fazendo a peça pra vocês…”

Ainda neste Episódio 4, Clayton cita outro caso : “Joselita de Souza, mãe de Roberto de Souza, o Betinho! Assassinado aos 16 anos em Costa Barros com 111 tiros da polícia, enquanto saía com os amigos para gastar seu primeiro salário de Jovem Aprendiz. Cento e onze tiros. Após a morte do filho, a mãe, Joselita, não aguentou a dor e foi internada. O salão de cabeleireiro, que ela tanto sonhou abrir, fechou. Nessa última semana, essa mesma que passou, o seu filho mais velho, Vinicius, foi visitar a mãe no hospital.” 

O Episódio então se encerra : “MACACO: Aquela foi a última conversa entre mãe e filho. Joselita de Souza, quarenta dias no hospital, sem alegria e comendo apenas sopa, morreu. Não aguentou a morte do caçula. Quando a gente fala sobre o “genocídio negro” no Brasil, a gente sempre imagina que será uma figura negra, na maioria das vezes homens entre 20 e 30 anos, mortos pelas mãos do Estado brasileiro. Mas e as mães? E as mães do genocídio negro? E essas mães? E as mães do genocídio negro? Quem fala delas, dessas mães?” A peça Macacos também foi publicada em livro pela editora Cobogó, pela Coleção Dramaturgia, em 2022, com 72 páginas. E sobre o Episódio 4, destaquei o texto de Clayton que fala por si. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-peca-macacos/ 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

DE QUEM É A CULPA DO TARIFAÇO

 “Estados Unidos justificou a taxação alegando falhas do Brasil”


Com a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre grande parte dos produtos exportados pelo Brasil pelo governo Trump, a disputa de versões no debate político do país retomou a pauta e a crise comercial vira um dos focos principais de impacto sobre as próximas eleições presidenciais brasileiras. O embate se dá, sobretudo, entre as candidaturas do atual presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), até agora, e cada um coloca a culpa em seu adversário político. 

Da parte da militância da campanha governista o termo “TariFlávio” foi adotado para direcionar a culpa do tarifaço trumpista na conta da família Bolsonaro, como traidores da pátria e sendo acusados de terem pedido sanções contra o Brasil. Flávio Bolsonaro, de seu lado, atacou Lula chamado-o de “Biden brasileiro”, como metáfora para a inação do governo. E na tentativa de se desvencilhar da versão lulista, Flávio disse que sua viagem aos Estados Unidos foi para convencer pelo adiamento das sobretaxas trumpistas para depois de outubro, o que seria após o primeiro turno das eleições. 

A estimativa é de que haja um impacto entre 18% e 25% sobre as exportações brasileiras para o mercado norte-americano, com um impacto de até U$ 9,51 bilhões. Os Estados Unidos também publicaram uma lista de exceções, mais de 2.000, que são insumos isentos da sobretaxa para evitar o desabastecimento doméstico, com itens que incluem café, suco de laranja, carne bovina, minerais e petróleo. 

O Congresso Nacional buscava uma aceleração na tramitação de medidas de socorro à indústria nacional, e tanto setores governistas como da oposição intensificaram cobranças sobre o Itamaraty, exigindo uma postura mais agressiva na OMC (Organização Mundial do Comércio), com um consenso político em torno da Lei da Reciprocidade para blindar o mercado interno. E agora o governo brasileiro formalizou um pedido de consultas contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), com a medida tomada pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) para contestar o "tarifaço" imposto pela gestão de Donald Trump.

O recurso do governo federal foca em duas barreiras alfandegárias principais, que são a tarifa de 25%, aplicada sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana, e a tarifa de 12,5%, justificada pela alegação de que o Brasil falhou em fiscalizar e impedir produtos associados ao trabalho forçado. O que agrava mais a situação é que para uma parte das mercadorias exportadas, as taxas são cumulativas e chegam a 37,5%, o que implica num prejuízo para os produtores brasileiros de US$ 6,6 bilhões, impactando setores de máquinas, calçados, móveis, confecções, óleos e madeira.

Ao mesmo tempo, Brasil e EUA abrem um período de negociações diretas em Genebra para buscar um acordo. Caso não haja consenso, o Brasil pode solicitar um tribunal de julgamento. No caso do Órgão de Apelação da OMC, diplomatas brasileiros admitem que o recurso funciona mais para marcar posição internacional, pois devido ao travamento do órgão, a OMC está paralisada desde 2019, após seguidos bloqueios dos próprios Estados Unidos, em que o tribunal não consegue julgar recursos por falta de quórum de juízes. 

Paralelamente à ação jurídica internacional, o governo federal avalia acionar instrumentos da Lei de Reciprocidade comercial interna como forma de resposta. Contudo, após a reunião do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, com lideranças industriais e empresários brasileiros afetados pelo novo tarifaço de 25% confirmado pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos, o setor privado se opôs à aplicação da Lei da Reciprocidade, esta que imporia taxas de retaliação a produtos americanos, defendendo uma postura mais moderada e pragmática.

Também com o objetivo de  impedir uma possível escalada de prejuízos econômicos, consolidou-se o consenso pragmático e a rejeição à revanche comercial, pois a avaliação da indústria brasileira é a de que diante da imprevisibilidade de Trump, tal confronto poderia gerar mais instabilidade ainda e novas restrições tarifárias. Alckmin frisou que a estratégia oficial será a negociação contínua e ampliação da busca por mercados alternativos em outros continentes, embora tenha classificado as sanções baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA como "injustas e descabidas", uma vez que os Estados Unidos já acumulam superávit comercial histórico na relação bilateral com o Brasil. 

No lugar de retaliações comerciais, os empresários defenderam medidas pragmáticas internas para amortecer o impacto financeiro do tarifaço norte-americano nas exportações brasileiras, com pedidos de redução de tributos acumulados na cadeia produtiva e a ampliação dos prazos e facilidades do mecanismo de drawback, que é a isenção de impostos para insumos usados nos produtos exportados, isto é, mirando a redução do chamado Custo Brasil. 

Outro objetivo traçado foi o do aperfeiçoamento do Programa Brasil Soberano, em que o setor de máquinas pleiteou maior flexibilidade nas regras de elegibilidade das linhas de financiamento criadas pelo governo federal, como um meio de socorro às empresas que enfrentam perdas imediatas no mercado norte-americano. E com o apoio da ApexBrasil haverá esforços do governo no redirecionamento do escoamento de mercadorias para novos blocos econômicos.

Setores da indústria de transformação, bens de capital e manufaturados de alto valor agregado lideram o movimento pragmático para evitar o agravamento da crise comercial caso haja retaliações precipitadas, pois a Lei de Reciprocidade ainda está na pauta e pode ser acionada, podendo escalar o conflito diplomático e comercial com os Estados Unidos. 

Estes setores são representados por entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e empresas ligadas à Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) lideram a cautela diante do tarifaço trumpista. No caso destes setores ocorre exportação de maquinários agrícolas, ferramentas industriais e equipamentos de mineração customizados sob encomenda, e uma retaliação intempestiva do governo brasileiro poderia travar de vez os contratos de longo prazo com compradores norte-americanos.  

A cautela ainda envolve o setor automotivo e componentes (autopeças), em que fabricantes são altamente dependentes das cadeias globais de suprimentos que abastecem as montadoras norte-americanas. No caso do setor de calçados e vestuário, representado por entidades como a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), os Estados Unidos são o principal mercado internacional dos produtos brasileiros, com margens de lucro historicamente limitadas, e caso a crise escale, a cumulatividade de taxas poderá paralisar linhas de produção com demissões em massa.

Temos também os setores de madeira, móveis, papel e celulose, que envolvem produtos manufaturados com forte concorrência internacional,  em que há uma defesa de uma via diplomática e investimentos em lobby em Washington para negociar a inclusão de produtos em listas de exceções tarifárias. O setor sucroenergético, com produtores de biocombustíveis e derivados da cana, tiveram o etanol e o açúcar sobretaxados diretamente na Seção 301, ao contrário de commodities tradicionais como o café, a soja e a carne bovina, poupados pelo tarifaço trumpista. 

Esses diversos setores possuem uma estratégia de lobby internacional que funciona através da intervenção direta nos centros decisórios de Washington, usando advocacia jurídica, diplomacia empresarial corporativa, pressão política indireta, frente aos canais políticos limitados do governo federal brasileiro com a gestão de Donald Trump. Empresas e associações brasileiras contratam lobistas e escritórios de advocacia. 

O CNI e a Abimaq contratam firmas especializadas em Washington de perfil republicano e próximas ao governo trumpista. Ainda há a atuação de profissionais sob o FARA (Foreign Agents Registration Act), com o intuito de abrir diálogo direto com o DOC (Departamento de Comércio) e no USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos). 

Tais iniciativas ocorrem, por exemplo, com o lobby, que pode encontrar brechas técnicas nas regras da Seção 301 e Seção 232, através dos advogados que podem protocolar petições provando que determinados insumos brasileiros são insubstituíveis, na tentativa de garantir cotas de isenção e retirada de produtos específicos do tarifaço. 

E a indústria brasileira mobiliza as próprias empresas norte-americanas que compram produtos desta, fazendo com que companhias dos Estados Unidos vão ao Congresso de seu país para reclamar que a sobretaxa sobre peças, motores ou madeira brasileiros aumenta os custos de produção e gera inflação para o consumidor norte-americano. Por fim, as empresas industriais brasileiras ainda podem se unir a coalizões de outros países afetados pelas mesmas tarifas, junto a indústrias da União Europeia, Japão ou México, por exemplo.

Por seu turno, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos justificou a taxação alegando falhas do Brasil no comércio digital, acesso ao mercado de etanol e no controle ao desmatamento, como já havia feito na primeira onda do tarifaço, depois em parte revogada por Trump, na historinha da química com o Lula, mais um sonho numa noite de verão para incautos e impressionáveis, além de uma balela midiática.

Agora temos o governo Lula que acusa Trump, o da química, de estar retaliando ideologicamente a autonomia econômica brasileira, principalmente por causa do Pix, e devido à independência diplomática do Brasil. Enquanto isso, o argumento da oposição foca no discurso beligerante de Lula contra os Estados Unidos e na incapacidade de negociação do Ministério das Relações Exteriores para a costura de acordos comerciais bilaterais sólidos como causas do novo tarifaço trumpista. 

Mesmo depois da opinião pública tender a aderir mais pela versão governista que culpa Flávio Bolsonaro pelas sobretaxas recentes do governo norte-americano, com base nos dados Quaest, na primeira rodada de pesquisas institucionais, que também revelou que 49% da população acha que os Estados Unidos agiram para frear o avanço de tecnologias brasileiras como o Pix. 

Os desdobramentos políticos no Brasil, a partir deste último tarifaço trumpista, foram o racha no Centrão, com partidos de centro que estudavam alianças com a oposição tendo que recalcular a rota. Tudo para não se associar à imagem produzida pelos governistas do “TariFlávio”, com mais adesão na opinião pública do que a do “Biden brasileiro” para Lula, por exemplo. 

Frente aos dados institucionais, restou à oposição uma mudança tática, direcionando a sua crítica ao governo no tema da inflação, com a militância bolsonarista inundando as redes sociais com projeções de aumento de preços de produtos importados e demissões na indústria, na tentativa de transformar o tarifaço em um "imposto do Lula".

O sucesso do Pix perante a opinião pública, entrando como fator principal no debate em torno da soberania nacional na questão das disputas comerciais com os Estados Unidos, dificultou críticas da oposição neste caso específico, como a defesa técnica das tarifas feita por setores liberais, e reforçou a percepção do motivo real da USTR ter citado o Pix como uma barreira comercial. Na verdade, o Pix reduziu o mercado das gigantes norte-americanas de cartões, tais como Visa e Mastercard, e de serviços de pagamento. 

O governo norte-americano alega que o sistema é subsidiado pelo Banco Central e, portanto, tem custo quase zero, constituindo concorrência desleal contra empresas privadas dos Estados Unidos que precisam cobrar taxas por transação. Enquanto Lula e seus aliados difundiram a ideia de que o Brasil está sendo punido por sua competência tecnológica, com o discurso de que: "Eles querem taxar nosso café e aço porque criamos um sistema melhor e mais barato que o deles". 

Associar o tarifaço ao sucesso do Pix é uma tentativa de blindagem do governo brasileiro de críticas sobre falhas diplomáticas. E para a oposição se configura uma armadilha em que Flávio Bolsonaro tenta se equilibrar entre a defesa do Pix e a relação com Trump, ou seja, isso incluiu uma tentativa pífia de convencer o eleitor de que o Pix foi lançado no governo Bolsonaro, com o lançamento de jingles como "O Pix é do Bolsonaro". 

Por fim, Flávio precisa manter a aliança com Trump, numa posição complexa em que tenta manter este apoio sem que isso passe a mensagem de defesa dos Estados Unidos e ataque ao Pix, algo que demandará uma hipocrisia política e uma cara-de-pau que, convenhamos, nunca faltou ao bolsonarismo. 



Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/de-quem-e-a-culpa-do-tarifaco/

quarta-feira, 15 de julho de 2026

MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA NO CASO VORCARO

 “as ações eram orquestradas”


O alvo principal da 10 ª fase da Operação Compliance Zero foi o publicitário Thiago Miranda, envolvendo os desdobramentos da investigação da fraude bilionária do Banco Master, em que este atuava sob as ordens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Seu papel principal era o de atacar o Banco Central.

Miranda atuava coordenando e pagando influenciadores digitais e perfis de fofoca para deslegitimar a imagem e a atuação de autoridade monetária nacional. Além disso, havia a criação de dossiês e monitoramento de profissionais da imprensa para intimidar e chantagear jornalistas na tentativa de atingir a reputação dos mesmos, como no citado caso da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que citei na coluna anterior.

Thiago Miranda movimentou até R$ 2 milhões em contratos blindados por rígidas cláusulas de confidencialidade, através de sua agência de propaganda. Ele é suspeito de ter acessado dados sigilosos como na obtenção e vazamento de dados privados de autoridades e executivos, tal como o do CEO do banco Itaú. 

Com a apreensão de seu passaporte e proibido de sair do Brasil, por determinação do ministro do STF, André Mendonça, pelo risco iminente de sua fuga para Miami, na Flórida, e logo após as buscas em seus endereços, o publicitário anunciou o fim das atividades de sua agência, a MiThi, alegando que partirá para um “ano sabático”.

De acordo com os relatórios do inquérito da Polícia Federal, junto a decisão do ministro André Mendonça (STF), a agência de Miranda operava para espionar e coagir opositores de Daniel Vorcaro, em que o publicitário utilizava plataformas clandestinas para a venda não autorizada de dados pessoais e financeiros. Os advogados de Miranda, através de nota oficial emitida, negam a prática de crime contra o Banco Central por parte de seu cliente, ao passo que o encerramento da agência já era algo planejado. 

A atuação descrita em trechos da PF e destacada pelo STF evidenciam a cooptação e corrupção de policiais, incluindo federais, na extração de dados sigilosos, além da citada criação de dossiês que eram feitos com a compilação de relatórios pela agência de Miranda, através de informações obtidas ilegalmente. 

Os ataques eram voltados a pessoas que representavam obstáculos ou riscos reputacionais aos negócios do Banco Master, incluindo o CEO do Itaú, Milton Maluhy, uma vez que a PF localizou um arquivo compartilhado com dados de identificação civil, CPF, patrimônio e informações pessoais do executivo e de sua esposa. Como dito, outro destaque foi a investida contra a jornalista Malu Gaspar, descrita na coluna anterior e reiterada aqui.

Em vista do monitoramento ilícito operado pelo publicitário, a Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou e o STF autorizou a preservação de dados digitais vinculados a este, em que a PF obteve autorização forense para o acesso a contas em nuvem, históricos de sincronização, metadados e registros de IP para evitar o apagamento de provas. A defesa de Miranda afirma a legalidade de seus contratos de gestão de crise, no entanto, e que o publicitário nunca participou de ações de intimidação ou violação de dados pessoais de terceiros. 

A agência MiThi usava contratos de assessoria com multas astronômicas e cláusulas rígidas de confidencialidade, em que os influenciadores eram impedidos de revelar quem era o verdadeiro contratante e a origem do dinheiro, que era distribuído através de notas fiscais fictícias de prestação de serviços de publicidade, ocultando o vínculo direto com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master. 

As publicações pagas tinham a missão de descredibilizar a atuação do Banco Central, com narrativas sobre a parcialidade de autoridade monetária e a perseguição a instituições financeiras. Estes influenciadores recebiam roteiros prontos, com orientações diretas da agência de Miranda para publicar estes conteúdos com datas e horários combinados. As ações eram orquestradas, pois eram acionados dezenas de perfis simultaneamente, num esquema que conseguia inflar o alcance das fake news no meio digital, levando os ataques aos “trending topics” (assuntos do momento). 

A Polícia Federal mapeou essa rede por quebras de sigilo bancário e interceptações telemáticas na Operação Compliance Zero, com identificação de CPFs e CNPJs que receberam repasses da agência MiThi, e o STF, por determinação do relator do caso do Banco Master na Corte, o ministro André Mendonça, autorizou a PF a intimar e colher depoimentos de 50 influenciadores digitais e donos de perfis de fofoca mapeados no esquema.

As medidas incluem também o rastreamento financeiro completo das contas dos envolvidos, com o objetivo de cruzar dados para identificar o destino dos repasses que saíram da agência de Miranda, além do acesso a metadados de publicações antigas para comprovar a coordenação e a simultaneidade dos ataques ao Banco Central. 

O STF realça o entendimento jurídico de que tais influenciadores contratados não estão protegidos pela liberdade de expressão, uma vez que aceitaram dinheiro oriundo de fraudes financeiras na orquestração de campanhas difamatórias, de modo inflacionado e simultâneo, em que estes respondem por organização criminosa, lavagem de dinheiro e embaraço a investigações. 

Por fim, a PF descobriu que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro assinou uma minuta de contrato com o publicitário Thiago Miranda de dentro da prisão que previa a produção de um documentário audiovisual sobre o “Caso Banco Master” e este documento acabou apreendido durante as buscas da 10ª fase da Operação Compliance Zero na residência de Miranda. 

A obra conteria dados exclusivos, entrevistas gravadas e documentos internos cedidos por Vorcaro. Embora pessoas presas preservem a capacidade civil, legalmente falando, de assinar negócios e contratos, o  ministro do STF André Mendonça afirmou os contornos penais do documento dentro de um contexto que torna a produção suspeita como meio de manipulação midiática contínua contra as autoridades do caso. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/manipulacao-midiatica-no-caso-vorcaro/

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A VIA RÉGIA

Perfeito dia dos lidos livros, dos dons das viagens.

Este vil estertor dos cleptocratas, este quinhão doído

em que o chicote canta a litania a ladainha o lamento,

vem o veio e este choro de rachar o cântico.


Eis a força, esta rocha e o vulcão, pois

leia e viaje, tenha isto depois de tomar porrada,

de suicidar-se do penhasco, tenha o que olhar,

seu sol que nasce, seu doce sonho de luz.


Ah, quem estaria ali, no deserto, sem flores?

Um delirante na chuva? Um ermo na noite profunda?


Mais que mármore estava lá o parnaso,

e de outro lado, o bebum e o cigarro de rasgo,

sua tosse e seu espirro, o poeta da overdose.


Ali no castelo, o dândi, riso 

de canto de boca, poetaço,

uma rima rica, um estro pobre,

uma vida idílica, e sua afetação

de esteta da plêiade. 


Como se faz agora, besta-fera?

A verve é cáustica, e os ditos

caem à sorrelfa, vem deste modo

bruto, na bruta carne, escaldando

o fervente guizo, batendo na cara

da insciência, com o coro dos apitos.

09/07/2026 Monster 


VORCARO E A IMPRENSA

 “esquema de controle da narrativa digital”


A Polícia Federal (PF) apreendeu mensagens de dados de celulares recolhidos na Operação Compliance Zero em que Daniel Vorcaro realizou um monitoramento ilegal e uma devassa nos dados pessoais da jornalista de O Globo e da Globo News, Malu Gaspar. Ainda houve uma tentativa malsucedida de suborno da jornalista. Pois o avanço das apurações jornalísticas fez com que Vorcaro tentasse conter e interromper as reportagens que Malu Gaspar estava publicando, nas quais se evidenciava as fraudes e a situação financeira no Banco Master. 

Essa falha miserável de Vorcaro foi feita em parceria com o publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi. O ex-banqueiro enviou recados em que afirmava que precisava “frear” e “calar essa mulher”. Miranda disse, então, que iria levantar tudo sobre a vida da jornalista para achar algum podre. Dentre os dados, foram compartilhados o endereço residencial de Malu, além de dados sobre seus familiares e de contas bancárias.

Além disso, ainda houve um deboche sintomático sobre o modelo de carro da jornalista, em que fica evidente o caráter jeca de grande parte de uma elite brasileira, sobretudo essa nova onda de influencer/bandido que ostenta riqueza nas redes sociais, num exibicionismo de gosto duvidoso, deslumbramento superficial, e que inclui, por conseguinte, essas mesmas figuras da corrupção sistêmica, tudo de uma afetação rasa e vazia.

Depois do deboche parvo da dupla, o resultado é tal qual, pois não havia nada para atingir a jornalista, e o desastre foi ainda maior depois de uma oferta milionária para que ela trabalhasse nos canais de comunicação geridos por Miranda, que incluía o pagamento de R$1,5 milhão em luvas e um salário fixo de R$120 mil mensais. Contudo, a proposta foi implicitamente rejeitada pela jornalista, pois ela voltou à carga contra Vorcaro. A investida e sua falha foram patéticas e o ex-banqueiro ficou descontrolado.

Tanto Malu Gaspar intensificou as publicações sobre as fraudes do Banco Master em O Globo. como assinava matéria também em conjunto com o colunista Lauro Jardim. As ações da dupla Vorcaro e Miranda foram repudiadas publicamente tanto por O Globo como por entidades como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), em que os métodos dos meliantes foram classificados como de “mafiosos” e uma tentativa criminosa de calar a imprensa, além de cobrarem investigações sobre o abuso e assédio sofridos pela jornalista. 

O vazamento dessas mensagens agravou a situação jurídica de Daniel Vorcaro, pois diante disso a Procuradoria-Geral da República (PGR) recuou na negociação de uma proposta de delação premiada com o ex-banqueiro. Este que também planejou violência física contra o jornalista Lauro Jardim, em que a Polícia Federal (PF) descobriu mensagens no celular de Vorcaro em que ele orienta Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, a armar uma emboscada física simulando um crime comum, em que Vorcaro declarou : “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”. 

Este caso revelou uma estrutura paralela chamada “A Turma”, que era um braço operacional criminoso do grupo financeiro de Vorcaro, uma milícia privada que levantava dados sigilosos e intimidava testemunhas, monitorando e pressionando qualquer pessoa que pudesse ameaçar os negócios e a reputação do ex-banqueiro. E este andava furioso contra Lauro Jardim, pois o jornalista estava revelando bastidores comprometedores do Banco Master. 

Lauro Jardim revelou casos como o da viagem de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) em companhia de advogados ligados ao Banco Master, além de enriquecimento e contratos suspeitos envolvendo familiares de magistrados com o conglomerado financeiro. Consequentemente, diante do risco à integridade física do jornalista, o ministro André Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de seus principais executivos operacionais dentro do escopo da Operação Compliance Zero. 

Diante da revelação desses planos, entidades de classe, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abranji) emitiram notas públicas em repúdio às ações e classificando o caso como um ataque à liberdade de imprensa, à democracia e ao Estado de Direito. O jornal O Globo também manifestou solidariedade ao jornalista afirmando que seus jornalistas não se intimidariam com as ameaças. 

Na guerra de narrativas que também cercou o caso Vorcaro tivemos a atuação de blogueiros e sites alinhados à esquerda contra a jornalista Malu Gaspar, em que seu nome foi contraposto ao do ex-banqueiro e de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Investigações da Polícia Federal, dentro da Operação Compliance Zero, apontam que Daniel Vorcaro teria comprado o silêncio e a linha editorial de veículos de esquerda que até então o criticavam. 

Aqui temos o Caso DCM, em que mensagens apreendidas indicam que o ex-banqueiro teria pago o site Diário do Centro do Mundo (DCM) para que parasse de publicar notícias negativas sobre o Banco Master, e que atacasse quem investigasse ou prejudicasse os interesses dele, Daniel Vorcaro. Pois inicialmente o ex-banqueiro ameaçou processar o DCM por "fake news", mas a relação teria mudado para uma "parceria" financeira com o objetivo de blindar a imagem do Banco Master e desviar o foco das denúncias.

Além da questão financeira envolvendo Vorcaro, a reação ideológica veio de influenciadores e blogs de esquerda, como a Revista Fórum e Brasil 247, contra Malu Gaspar, devido às reportagens que expunham a família do ministro Alexandre de Moraes, em que foram reveladas que o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, tinha um contrato milionário com o Banco Master, com valores que variavam entre R$ 50 milhões e R$ 131 milhões em minutas e propostas, coincidindo com um período em que o banco buscava ter influência nos tribunais superiores. 

Foi quando blogueiros passaram a desqualificar a atuação da jornalista, com sites como a Revista Fórum que publicou textos acusando Malu Gaspar de criar uma narrativa artificial contra o ministro do STF, alegando, ainda, que o próprio Vorcaro era uma fonte da jornalista, numa tentativa de inverter a lógica da denúncia.  Com o Brasil 247 questionando, através de artigos de opinião, por que Moraes não processava quem o acusava, pois as reportagens de Malu Gaspar faziam parte de um ataque coordenado da mídia liberal contra o STF (Supremo Tribunal Federal). 

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) emitiram notas de repúdio contra os ataques sofridos por Malu Gaspar, com a Abraji destacando os ataques misóginos sofridos pela jornalista nas redes sociais, logo após a publicação das reportagens que atingiam figuras poderosas, com citação específica da cobertura sobre as conversas entre Alexandre de Moraes e Gabriel Galípolo (presidente do Banco Central). 

No esquema de compra de parte da opinião pública orquestrado por Vorcaro tínhamos então a proteção da imagem do Banco Master e a tentativa de destruição da reputação de opositores, com blogs de esquerda e redes de influenciadores digitais. Depois do Banco Central aplicar sanções e liquidar o Banco Master, mais de 40 perfis nas redes sociais, incluindo páginas de celebridades, entretenimento e culinária, sem nenhuma relação com economia e política, publicaram simultaneamente textos idênticos, com material que vinha pronto da agência, tendo a intenção de atingir diretores do BC no caso, enquanto defendiam Vorcaro.

E no esquema de controle da narrativa digital, estava Henrique Vorcaro, pai de Daniel, no pagamento de salários fixos de até R$ 35 mil mensais para hackers, que tinham como tarefa o rastreamento do andamento de investigações sigilosas no sistema da polícia, invasão de contas de cidadãos que faziam publicações contra o Banco Master nas redes e a derrubada de perfis como forma de censura aos comentários negativos sobre Vorcaro e o banco na internet.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/vorcaro-e-a-imprensa/


quarta-feira, 1 de julho de 2026

ABISMAL

Querer os giros as glórias as estradas os fios da vida

pluriplural, a vida vivida, quente abisma, frias estadias.

Os fulvos, os fogos, os mergulhos nos golfos,

dos folguedos, da febre terçã, folgazã, o festivo festival,

de fastio o festim, o fastígio da flâmula, dos filhos das pátrias,

dos pútridos hipócritas, das preces dos próceres, em que os

arquidiabos se refestelam e os spin-doctors são basbaques,

dos escrutínios das abúlicas afasias, estafetas, doença vítrea,

dos vícios, das astúcias, em que entrementes estão os beócios,

aos asseclas, néscia cantilena, dos sabujos, e a birra do rei,

encastelado, babando, com as vísceras da fartura, nababo,

besta-fera, matando os ócios no matadouro dos aziagos,

num canto ardido, azucrinando a zica dos azinhavres,

com seu estábulo que foi para o vinagre, enquanto

os anódinos apedeutas zurram como uma patota.


01/07/2026 Monster