PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

terça-feira, 17 de março de 2026

FEITIÇO

Os breves cantos, na surdina, faceta despudorada do cão,

olha a bruma de sua mandrágora, afetada, e que dança 

a baila rútila e psicodélica, e este morfeu hipnagógico, 

de poção, unguento, na macabra abracadabra,

arranca o toco do corta jaca, na barafunda titânia,

da balalaica, com a pindorama desabrida em vaudeville,

e os poemas que brincam no piche com seus versos absurdos.


O soporífero vem neste tempo deserto western de tiro, 

no duelo da plêiade, em versos de metro cacete, basbaque,

com a coriza maníaca e o sangue que cai da mão na briga, 

com toda a porrada de bar, com este canil de matilha, 

e a luarada do lobo, da alcateia feroz, do trinado, da fuga, 

na brilhante noite da coruja, em que os ritos vampiros tecem 

seus hinos de morte, na lufada de litania, em que o fogo do teatro

enlouquece o corifeu com suas vestais de água e cristal. 


17/03/2026 Monster 

PENEDO

No esteio do sol, entre os veios das goivas

e os pincéis das cores saturadas e os ritos

das nereidas e naiades, o canto de rio e mar

se expande em uníssono como o tear sonoro.


Vertido em verve, os versos estelares das horas, 

o estandarte de pé, firme como a rocha,

ao risco da intempérie, dos haustos profundos 

da queda, em que o tear, com vinco no sentir,

decai ao espasmo do suicídio, 


e o estrondo do salto anguloso 

de cabeça do penedo ao choque

de um corpo contra os brutos karmas, 

espatifa-se de encontro ao pedregulho 

do abismo, diante dos recifes e ouriços,

cortada a cabeça e esfacelada a carne.


16/03/2026 Monster 


domingo, 15 de março de 2026

A GUERRA E O PETRÓLEO

“tensão no Estreito de Ormuz”


A resposta iraniana veio quando a Guarda Revolucionária do país anunciou a sua primeira onda de lançamento de mísseis balísticos e drones de longo alcance contra Israel e contra bases norte-americanas da região como um revide à agressão da coalizão Israel-Estados Unidos. Para além de Israel, os alvos também foram a Base Aérea de Al-Udeid, no Catar, que é a maior instalação militar norte-americana no Oriente Médio, e que foi alvo de ataque no ano passado, entrando em alerta máximo, com baterias de defesa aérea Patriot posicionadas, a Base Al-Salem, no Kuwait, a Base Al-Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos, e a 5ª Frota da Marinha norte-americana, sediada no Bahrein. 

Relatos de explosões se multiplicaram pelo Golfo Pérsico, em cidades como Dubai, Abu Dhabi, Doha e Riad, com fechamento imediato de seus espaços aéreos. Também houve a suspensão de voos de companhias aéreas internacionais com destino ao Oriente Médio. Israel decretou estado de emergência, com a sua força aérea informando que interceptou mísseis iranianos, e o país, além da interceptação, trabalha no ataque contra ameaças. As retaliações do Irã também atingiram a Jordânia e o norte do Iraque.

Apesar da declaração da supremacia aérea da coalizão Israel-Estados Unidos foram registradas tentativas de ataque de aviões iranianos Sukhoi contra países do Oriente Médio, o que desmente a tese citada e demonstra que a força aérea iraniana não foi destruída e que ainda tem alguma capacidade de operar. A Operação Fúria Épica marca uma escalada grave nas tensões no Oriente Médio, em que estas ações são descritas, primeiramente, como uma resposta ao programa nuclear iraniano. 

Embora haja resposta iraniana, a comparação entre fabricações em série de mísseis baratos com a força bélica de Israel e dos Estados Unidos continua sendo impossível, e o questionamento em torno dos ataques iranianos feitos de modo difuso por várias partes do Oriente Médio também suscita a falta de rumo desta resposta, ainda que a ideia de subjugar e eliminar a Guarda Revolucionária dentro do Irã, de outro lado, soe como algo pretensioso e se vislumbre mais um atoleiro da guerra contemporânea, ainda que Donald Trump misture negação com mitomania na sua vanglória e bazófia diária. 

Temos uma nova gestão de guerra com uso de inteligência artificial que inclui desastres como um ataque a uma escola de meninas iranianas, que causou a morte de 168 crianças, logo no primeiro dia de guerra, misturando-se à recorrente questão do urânio enriquecido no Irã, em que pressões de Israel levaram a uma ação de destruição de infraestrutura de segurança e de mísseis da região. Contudo, a ordem do ataque veio dos Estados Unidos, atribuída a Donald Trump, e que tinha o objetivo de atingir o centro do poder iraniano e que conseguiu matar o líder supremo aiatolá Khamenei.

Esta operação da Fúria Épica torna concreta para Israel uma doutrina de segurança que vem sendo construída há anos, em que o Irã é posicionado como uma ameaça nuclear iminente e, portanto, existe uma justificativa para uma ação coordenada entre os israelenses e norte-americanos, que são os seus principais aliados. Na geopolítica internacional temos como efeitos desta operação o abalo do regime teocrático iraniano, no entanto, com a suspensão das negociações diplomáticas que ainda estavam em curso até a consumação desses ataques militares, e ainda tendo uma crise energética global em torno do petróleo que inclui o Estreito de Ormuz.

No caso da tese de ameaça nuclear, esta tentativa de desmantelamento do programa iraniano ocorreu num momento em que, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), havia 440 kg de urânio enriquecido a 60%, num nível próximo ao necessário para a produção de armas nucleares. Entretanto, a tese da neutralização permanente do programa nuclear iraniano é questionável, o que se pode afirmar é que as ações militares com este intuito podem atrasar ou descontinuar o nível em que estava o programa iraniano, mas não extinguir, de todo, o mesmo.

Como num Mito de Sísifo em que o condenado vê a pedra rolar de cima da montanha depois de um enorme esforço e tem que fazer tudo de novo ou mesmo o mito da Hydra de Lerna em que Hércules cortava as cabeças que nasciam da besta-fera, ao passo que nasciam outras cabeças, o programa nuclear iraniano não acaba, mas recomeça após ataques militares. 

Donald Trump chegou a declarar que o programa nuclear iraniano havia sido “obliterado” durante a Guerra dos Doze Dias, de 13 a 24 de junho de 2025, mas, para variar, se tratava de mais uma gabolice do presumido presidente dos Estados Unidos. Este que é uma versão contemporânea da diplomacia norte-americana de xerife do mundo e que se porta como um balão de ensaio de imperador romano surtado e megalômano. 

No caso, a chave de um fim definitivo para as pretensões nucleares iranianas está na queda do regime dos aiatolás e na ascensão de um regime fantoche do Ocidente como era o do Xá Reza Pahlavi antes de seu fim e da ascensão do aiatolá Khomeini, que instituiu o atual sistema teocrático baseado na velayat-e faqih (tutela do jurista islâmico), governando até sua morte em 1989.

A operação Fúria Épica, junto à instabilidade interna do regime teocrático do Irã, traz a imagem sintomática do príncipe herdeiro, de mesmo nome do antigo Xá, tentando capitalizar sobre a instabilidade do atual regime islâmico, convocando greves gerais e protestos, incentivando a população do Irã na ocupação de espaços públicos, e se colocando como pretenso líder de um governo de transição laico. O slogan "Pahlavi voltará!" tem aparecido nesses protestos e muitos que se opõe aos aiatolás querem o retorno desta monarquia que governou o Irã antes de sua islamização institucional.

A possibilidade de um conflito prolongado diminui as chances de uma solução diplomática pacífica e ameaça a economia global, sobretudo diante do risco de interrupção do fornecimento de petróleo. Esta tensão no Estreito de Ormuz, uma rota em que passa 20% do petróleo mundial, fez com que os preços dos barris disparassem, chegando a atingir aproximadamente US$119,00. A questão passa pela pressão que isso acarreta sobre a inflação global e tendo como consequência o risco de uma recessão econômica, incluindo o encarecimento dos custos dos combustíveis e dos fretes. Se houver uma crise, então, isso pode reverter a política monetária que vinha sendo implementada pelos bancos centrais ao redor do mundo.

O Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã, é uma região crucial na região do Golfo Pérsico, em que é escoada a produção de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) de países como Arábia Saudita, que utiliza o estreito para a maioria de suas vendas, que é o maior exportador de petróleo bruto do mundo, com cerca de 14,2% das exportações globais, sendo o principal produtor da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), seguido de Rússia, Estados Unidos e Iraque.

Mesmo que os Estados Unidos sejam o maior produtor mundial, por causa do xisto (shale gas) extraído por fracking, o país árabe mantém o posto de maior exportador líquido, ao passo que as maiores reservas mundiais de petróleo provadas no mundo estão na Venezuela, mas se encontram, no momento, subutilizadas, com a Arábia Saudita dominando a produção e a exportação mundiais. 

No Estreito de Ormuz ainda passam a produção do Iraque, que depende quase totalmente do estreito para suas exportações marítimas, tendo ainda os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Kuwait, que também é dependente do estreito para o escoamento de sua produção, e tem o Catar como o principal exportador de GNL que passa pelo estreito, e Omã que também escoa sua produção por esta via. E cerca de 84% a 89% do petróleo bruto que atravessa Ormuz tem como destino mercados asiáticos, com destaque para China, Índia, Japão e Coreia do Sul.

Arábia Saudita, Iraque, EAU, Irã e Kuwait representam mais de 93% das exportações de petróleo bruto e condensado na região, sendo que a Arábia Saudita e os EAU possuem oleodutos que podem contornar o estreito, permitindo o desvio de aproximadamente 2,6 milhões de barris por dia. Mesmo assim, com  o bloqueio do estreito, o impacto direto no preço dos combustíveis é de grandes proporções, e a crise pode afetar toda a cadeia logística global, com aumento no custo de fretes marítimos e aéreos.

Esta última escalada do preço do barril só foi revertida com os relatos de trânsito marítimo de alguns navios no Estreito de Ormuz, com um tombo de 11% no preço do barril, chegando a operar em US$ 76,00, pois cerca de 20 embarcações comerciais supostamente conseguiram transitar pelo estreito na última semana usando táticas de furtividade, e que há indícios de que muitos outros navios possam tentar a travessia à medida que a situação evolui, segundo afirmações do analista do Price Futures Group, Phil Flynn. 

Contudo, a postagem no X do secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, de que a Marinha norte-americana já tinha realizado uma escolta de um petroleiro pelo Estreito de Ormuz foi logo apagada e em seguida desmentida pela Casa Branca. E diante da limitação da produção de países do Golfo Pérsico, os países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) disponibilizarão 400 milhões de barris de petróleo ao mercado global para compensar a perda de oferta devido ao fechamento do Estreito de Ormuz. Trata-se de uma medida destinada a reforçar o fornecimento de petróleo bruto e conter a alta dos preços causada pela guerra no Oriente Médio. 

Neste novo contexto, de crise de escoamento pelo Estreito de Ormuz, com os países do Golfo Pérsico reduzindo sua produção em até 6,7 milhões de barris por dia, o que corresponde a 6% do fornecimento global, há relatos de uma eventual suspensão de algumas sanções do petróleo russo após uma ligação entre de Donald Trump e o presidente da Rússia, Vladimir Putin. 

Atualmente, tais alternativas são possíveis e factíveis, embora paliativas, ao contrário da crise do petróleo dos anos 1970, por exemplo, em que a OPEP conseguiu estrangular o mercado mundial de petróleo, com o Brasil, por exemplo, tendo que implementar a famigerada política do Proálcool (Programa Nacional do Álcool), criado em 1975, para reduzir a dependência brasileira de petróleo durante a crise energética, incentivando a produção de etanol da cana-de-açúcar.

O primeiro choque ocorreu em 1973 contra o apoio dos Estados Unidos a Israel durante a Guerra do Yom Kippur, em que os países árabes organizados na OPEP aumentaram o preço do petróleo em mais de 400%. Ao passo o segundo choque ocorreu em 1979 durante a crise política no Irã que provocou a queda do Xá Reza Pahlevi, com a desorganização do setor de produção no Irã, encarecendo esta, sendo que o preço nominal do barril entre 1979 e 1981 aumentou de 13 para 34 dólares (de 50 para 120 dólares a preços atuais). E na sequência da Revolução iraniana travou-se a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), com o preço disparado diante da súbita diminuição da produção de dois dos principais produtores mundiais. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-guerra-e-o-petroleo/


sexta-feira, 6 de março de 2026

ATAQUES CONTRA O IRÃ

“ação batizada de Operação Fúria Épica”


O governo norte-americano começou seus ataques militares contra o Irã. Junto à Israel, com uma ação batizada de Operação Fúria Épica, foi realizada uma ofensiva aérea e cibernética para atingir áreas militares e a própria cúpula do regime teocrático. O ataque executado pelo Comando Central dos Estados Unidos foi autorizado por Trump, num plano detalhado pelo chefe do Estado Maior, general Dan Caine, com informações combinadas com dados das Forças de Defesa israelense.  

As primeiras providências foram a prontidão das baterias antiaéreas em bases terrestres e embarcações norte-americanas. E caças foram carregados com mísseis e aviões de reabastecimento foram preparados para a decolagem. Os porta-aviões Abraham Lincoln e Gerald Ford navegaram para os seus pontos de lançamento para realizar as decolagens das aeronaves. O general Caine disse que o objetivo era realizar um ataque com “velocidade, surpresa e violência”.

Trump confirmou a participação dos Estados Unidos em “grandes operações de combate”, na defesa do povo norte-americano ao eliminar ameaças iminentes do regime teocrático do Irã, incluindo a recorrente questão deste país de não obter armas nucleares. Além de Teerã, foram bombardeadas também as cidades de Qom, sede de instalações subterrâneas do programa nuclear iraniano, Karaj, em que se concentra os centros de pesquisa de tecnologia de mísseis, Kermanshah, local estratégico para a Guarda Revolucionária, perto da fronteira com o Iraque, e Isfahan, com um dos principais complexos de enriquecimento de urânio do Irã. 

O planejamento prévio da operação feita pelos Estados Unidos e por Israel, junto à prontidão da resposta iraniana, com Teerã antecipando a possibilidade de um ataque e já com planos de retaliação, estão ligadas à velocidade e a amplitude da sucessão de eventos. Da ofensiva bilateral a uma crise regional bastou um intervalo de menos de quatro horas. O ataque ocorreu à luz do dia pelo fato das agências de inteligência norte-americanas estarem sabendo que o então líder supremo do Irã, agora morto, o aiatolá Ali Khamenei, se encontraria com membros da cúpula do Conselho de Segurança Nacional às 09h40 do horário local em um complexo residencial. 

Este era o “evento deflagrador” a que se referia o general Caine, que era a possibilidade de eliminar Khamenei logo no início da Operação. Com a morte do aiatolá, a ação foi bem sucedida. Enquanto Israel priorizava a eliminação da elite política e militar do regime iraniano, ao passo que os Estados Unidos bombardearam prédios e estruturas usadas pelas forças do Irã, incluindo bases navais, marinha de guerra, estruturas para lançamento de mísseis e locais usados pela inteligência iraniana. E antes dos ataques militares aéreos, ocorreram investidas virtuais em que o Comando Cibernético e Espacial dos Estados Unidos lançaram ações não cinéticas de guerra eletrônica e ataques hackers para prejudicar as comunicações e os radares do Irã. 

Isso tinha como objetivo fazer com que os postos avançados da região só reportassem avistamentos de aeronaves e o respectivo comando só conseguisse perceber a invasão após a destruição de alvos iniciais, não dando chance de defesa neste primeiro momento. Esta primeira onda de ataques atingiu mais de 1.000 alvos nas primeiras 24 horas, o que incluiu ataques por parte de caças invisíveis de 5ª geração, salvas de mísseis Tomahawk, bombardeios invisíveis B-2, aviões de detecção avançada de mísseis e guerra eletrônica. Por exemplo, 100 aviões norte-americanos e salvas de mísseis Tomahawk, lançados de navios de guerra dos Estados Unidos, formaram uma onda sincronizada de ataques.

Caças de 4ª e 5ª geração foram utilizados nos ataques, os mais avançados, de quinta geração, incluem os das forças norte-americanas que são os F-35 e F-22 Raptor, que são o que há de mais moderno em aviação, invisíveis aos radares inimigos através da utilização da tecnologia stealth, com sensores que compartilham dados em tempo real, e que estão sendo usados no Irã para destruir os sistemas de defesa aérea iranianos e os navios de guerra dos Estados Unidos já podem se aproximar sem serem detectados e abater mísseis com precisão, além destes caças escoltarem bombardeiros. 

Os caças de quarta geração são os F-15 e os F-14, que deram lugar a caças utilizados nas guerras da Coreia e do Vietnã, que tinham capacidades de velocidade e de combate de longa distância. Estes F-15 e F-14 são os que, atualmente, os Estados Unidos têm em maior quantidade, e que servem para bombardear instalações militares, como estruturas de lançamento de mísseis balísticos, depósitos de munição, fábricas de armamentos e casamatas. Tais caças atuam após os de quinta geração e os mísseis Tomahawk já terem destruído as defesas antiaéreas. 

O F-18 Growler, também de quarta geração, tem função de guerra eletrônica e é lançado de porta-aviões, emitindo ondas de rádio de alta frequência para causar interferências nos radares inimigos. Neste caso do Irã, seus operadores passaram a receber ruído e falsas informações de alvos em seus radares, facilitando a entrada dos aviões de ataque contra o país. O general Caine revelou também o uso de bombardeiros estratégicos invisíveis ao radar, os B-2 Spirit,  nesses ataques contra o Irã. 

Tal uso desses bombardeiros já havia ocorrido na Guerra dos 12 dias em junho do ano passado, em que houve lançamento de bombas GBU-57 MOP por parte desse bombardeiros, estas que eram capazes de penetrar dezenas de metros no subsolo com o objetivo de atingir bases subterrâneas e destruí-las. Naquela ocasião o alvo era a base de Fordow, em que o país iraniano realizava enriquecimento de combustível nuclear. Somente os Estados Unidos possuem o bombardeiro B-2 Spirit e a bomba GBU-57, que foi desenvolvida especificamente para conseguir perfurar dezenas de metros de concreto e rocha antes de ser detonada. 

Com essas aeronaves que partem dos próprios Estados Unidos, com voos de mais de 37 horas de duração, ainda se somam aos B-2 Spirit, por conseguinte, os chamados bombardeiros supersônicos B1-B Lancer, para destruir bases iranianas de lançamento de mísseis de longa distância contra Israel. O think-tank de Estudos da Guerra afirmou que esses B1-B Lancer podem transportar 34 mil quilos de bombas e estão sendo utilizados para atacar sistemas de lançamento de mísseis balísticos iranianos. Junto a isso também estão sendo usados aviões para a detecção de lançamento de mísseis em solo iraniano.

Os Estados Unidos afirmaram ainda estarem utilizando drones kamikaze do tipo LUCAS, similares aos iranianos Shahed, e que são de produção rápida e barata, atacando alvos usando tática de enxame, em que centenas de drones são lançados ao mesmo tempo para atingir as defesas aéreas inimigas. Por sua vez, as Forças de Israel afirmaram o envio de cerca de 200 aeronaves que saíram de suas bases aéreas até começarem seus ataques ao Irã pelo oeste deste país, destruindo defesas antiaéreas e bases aéreas do Irã.  O objetivo israelense era eliminar a elite política iraniana, principalmente em Teerã.

O general Caine classificou o resultado dos primeiros ataques da coalizão Estados Unidos-Israel como o alcance da chamada superioridade aérea local, e isso já no primeiro dia de combate. Os voos sobre o Irã e os ataques acabaram degradando cada vez mais as defesas aéreas iranianas. E esta superioridade aérea ocorreu sobretudo pelo fato de que um lado possui uma vantagem em que pode realizar missões sem perdas, e quando a defesa não representa mais um risco efetivo, passa a ser uma supremacia aérea, e que foi declarada por Israel e pelos Estados Unidos já no domingo do dia 1 de março. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com  


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CHEIRADORES DOS ESTADOS UNIDOS

"o país que mais consome cocaína em números absolutos no mundo”

Em relação ao ataque ilegal dos Estados Unidos sobre a Venezuela, alguns governos latino-americanos deram apoio à iniciativa, com países como a Argentina, sob o governo de Javier Milei, em ruptura a uma orientação que norteava a política externa deste país, ou seja, o antigo apoio à autodeterminação dos povos e da não intervenção em assuntos internos de outros Estados. É bom lembrar que Milei recebeu apoio financeiro do governo Trump nas eleições legislativas argentinas. Com efeito, Milei afirma que a fonte de renda de Maduro é o narcotráfico do Cartel dos Sóis.

A Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), teve alguns países, junto à Argentina de Milei, no papel de bloquear uma declaração conjunta que visava a condenação do ataque norte-americano na Venezuela, esta que seria promovida pela Colômbia, que preside atualmente a organização. Contudo, países como o Paraguai, Bolívia, Equador, El Salvador e Panamá, que possuem governos de direita no poder, deram também o seu apoio à intervenção ilegal dos Estados Unidos.

O governo da Argentina prepara uma cúpula de líderes de direita para o primeiro semestre deste ano em Buenos Aires, com inspiração no Grupo de Lima. Esta iniciativa representa um avanço na formação de um bloco de países de extrema-direita, em combate ao socialismo e a afirmação da liberdade, tal como o Chile, por exemplo, que teve a eleição do ultracatólico José Antonio Kast, que assumirá a presidência do país em 11 de março, deixando para trás o governo de esquerda de Gabriel Boric. No Peru, o presidente José María Jerónimo fechou as fronteiras do país para venezuelanos ligados ao governo Maduro, com ações semelhantes às perpetradas por Milei.

Na relação “desigual”, quer dizer, da hipocrisia norte-americana, uma tradição diplomática inabalável, tivemos o indulto concedido por Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos por tráfico de drogas, ao passo que encarcera Maduro pelo mesmo motivo. Nesta nova Doutrina Monroe, a Donroe, estamos, mais uma vez, diante de disputas ideológicas e que se alimentam, também, de interesses econômicos, como a questão do petróleo na Venezuela.

Os Estados Unidos atuam, historicamente, pelo uso da força, pela intervenção, coerção, ameaças, embargos, chantagem, o que for, para a garantia de controle e submissão de países ideologicamente contrários à sua cartilha política e econômica. No bojo do ataque à Venezuela, por exemplo, Trump voltou a acusar a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, de ter medo de confrontar os cartéis de drogas de seu país.

Mesmo com a insinuação de Trump afirmando que estas organizações é que governam ali. Sheinbaum, no entanto, tem demonstrado firmeza e independência diante dos ataques verbais do presidente norte-americano, rejeitando interferências estrangeiras, e reforçou que o combate ao crime organizado é  responsabilidade do Estado mexicano, sem aceitar imposições de fora. Ela afirmou : “O México não é um protetorado nem o quintal de ninguém.”

A verdade é que Sheinbaum está cooperando com o governo Trump no combate ao narcotráfico, pois existem razões humanitárias envolvidas, e que a violência que ocorre no país tem como causa as armas de grosso calibre dos Estados Unidos que entram ilegalmente no México, somando-se a isso o intenso uso de drogas no país norte-americano. Com elogios vindos, por exemplo, do The New York Times, a diplomacia de Sheinbaum é marcada pelo respeito à soberania das nações e a resolução de conflitos pelo diálogo, sem uso da força. 

Existem as duas questões que envolvem o México, na segurança, com o tráfico de drogas, e na questão humanitária, com a migração aos Estados Unidos, servindo de corredor para pessoas da América Central e do Sul em busca do “sonho americano”. A pressão migratória é a principal moeda de troca nas políticas bilaterais que envolvem esta questão, e o conflito entre Sheinbaum e Trump reside na tríade comércio, tráfico de drogas e imigração.

Tais questões do México provocam táticas norte-americanas que variam do uso de força militar, tarifas, além de sanções unilaterais à imigração. Sheinbaum evita embates retóricos, embora tenha feito concessões na política de segurança e de imigração, cooperando com os Estados Unidos nas extradições, no combate ao narcotráfico e no controle da fronteira do sul mexicano.

Os Estados Unidos são o país que mais consome cocaína em números absolutos no mundo. O consumo de drogas em geral aumentou ligeiramente no país nos últimos anos sob o influxo da epidemia de fentanil, opioide que dominou cidades como Los Angeles e matou mais de 70 mil pessoas por overdose em 2023. As substâncias químicas vêm da China, mas a fabricação é feita em laboratórios mexicanos. A cocaína, por outro lado, é consumida por cerca de 2% da população total norte-americana, droga que vem de países como a Colômbia, Bolívia e Peru. Ou seja, grande parte da cocaína consumida nos Estados Unidos não vem da Venezuela.

O consumo de cocaína nos Estados Unidos vem reduzindo ligeiramente desde 2021, no entanto, as mortes por overdose viraram uma preocupação devido ao fato da crescente contaminação da droga com fentanil lícito. Por exemplo, em 2025, aproximadamente, uma em cada quatro amostras de cocaína testadas em laboratório continha fentanil, aumentando o risco de overdose para usuários que não consomem opioides. 

Em 2025 a produção global de cocaína atingiu um recorde histórico, com queda dos preços nos Estados Unidos, sendo o mercado de drogas ilícitas que mais cresce no mundo. As apreensões globais da droga atingiram um recorde recente de 2.275 toneladas, um aumento de 68% em relação ao período 2019-2023, com seu uso crescendo de 17 milhões de usuários em 2013 para 25 milhões em 2023. 

O tráfico de cocaína se espalha por novos mercados na Ásia e na África, com a violência notória que ocorria na América Latina se repetindo para a Europa Ocidental, com o aumento da influência de grupos criminosos organizados dos Bálcãs Ocidentais. O mercado predominante ainda é a América do Sul, com Colômbia, Bolívia e Peru, que produzem quase 100% da cocaína do mundo, apesar de novos campos de cultivo estarem surgindo. Só de cocaína pura foram produzidas cerca de 2.757 toneladas em 2022, aumento de 20% em relação a 2021.

Este novo cenário se deve às inovações no cultivo nos últimos anos, com mais investimentos em fertilizantes e conhecimento genético para a obtenção de novas variedades de coca. Na Colômbia uma mudança adotada pelo governo no combate às culturas ilícitas ampliou o cultivo, que foi o fim da fumigação aérea com glifosato para acabar com as plantações de coca em 2015, alinhada com as recomendações dos Estados Unidos, pelas dúvidas referentes ao herbicida em relação à saúde. 

Com a suspensão da pulverização aérea, o arbusto de coca passou a alcançar seus níveis máximos de produtividade. No caso, a mesma planta de coca produz mais cloridrato de cocaína e podem ser feitas seis colheitas por ano ao invés de três. Este aumento na produção de cocaína e o cultivo de plantas mais potentes explica a expansão do mercado desta droga no mundo, com uma substância de alta pureza e com preços estáveis. Ou seja, a cocaína mundial está mais barata e bem mais pura. 

A expansão da oferta e demanda de cocaína se relaciona com o aumento de violência em países que são corredores deste comércio, ao longo da cadeia de suprimentos, como Equador e países do Caribe, somando-se aos danos à saúde em países da Europa Central e Ocidental, que consome cada vez mais esta substância. Os Estados Unidos, por fim, continuam como os grandes consumidores de cocaína em números absolutos no mundo, como dito, e são, ainda, o maior mercado consumidor de drogas ilícitas do mundo.

Os Estados Unidos têm altas taxas de consumo, também, de maconha, metanfetaminas, incluindo os opioides sintéticos como o fentanil, com cerca de 16% da população norte-americana entre 15 e 64 anos tendo consumido alguma substância ilícita no último ano, com um uso problemático de opioides que produz uma crise de saúde pública no país, e que impacta sobre o sistema de saúde, segurança pública e nas políticas envolvendo a justiça criminal. 

A falta de estratégias eficazes para a redução do consumo de drogas no mundo, e ainda a prevenção e tratamento, privilegiando apenas a repressão da oferta, são de efeito limitado para o panorama geral do problema, pois seria melhor o reconhecimento de todos esses elos da cadeia, fazendo com que se formulem políticas mais articuladas e multilaterais.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/cheiradores-dos-eua/ 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O PETRÓLEO VENEZUELANO

“intervenção norte-americana reflete uma nova era”

  

A escalada trumpista foi um constante teste das reações venezuelanas e da comunidade internacional, que começou com a mudança de legislação doméstica para grupos terroristas, deslocamento de enorme destacamento aeronaval para o Caribe, exercícios militares na região com o auxílio da República Dominicana e Trinidad e Tobago, apoio da Holanda, com presença no Caribe, com Aruba e Curaçao, países autônomos dentro do Reino dos Países Baixos (Holanda), que têm governos próprios e autonomia interna, com o Reino cuidando da defesa e das relações exteriores, tratando-se de uma monarquia constitucional com status de autogoverno.

Trump contou também com a colaboração de Porto Rico, um território dos Estados Unidos, não sendo um país independente, pois se trata de um Estado Livre Associado com cidadãos americanos, sem voto nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, tendo constituição própria, governo e moeda (dólar), embora esteja  sob soberania de Washington. Em seguida, Trump bombardeou 36 lanchas no Caribe, com 115 mortos, oferecendo recompensa pela entrega de Maduro e o nomeou líder narcoterrorista, fechou o espaço aéreo do país, praticou pirataria com um petroleiro, bloqueou o comércio de petróleo e bombardeou a fronteira com a Colômbia.

A agressão militar norte-americana também serviu para demonstrar e vender a sua força militar, neste caso, a força Delta, com sistema de inteligência, comunicação, interferência cibernética e eletrônica, além de mais de 150 aeronaves, numa exibição da indústria bélica dos Estados Unidos em seu poderio. Tais forças foram mobilizadas através de uma retórica sofismática sobre democracia, direitos humanos, combate às drogas etc, criando um Estado de Exceção, com execuções de pessoas em alto mar, sem julgamento, sem submeter suas decisões militares ao Congresso norte-americano.

A falácia parte da questão imigratória, guerra às drogas, a exploração de recursos estratégicos, colocando a Venezuela no centro da pauta intervencionista, em uma geopolítica instável, tresloucada, de um líder mimado, narcisista, repetindo a série histórica de figuras carismáticas cujas tendências são, invariavelmente, escalafobéticas, de egos inflados, culto da personalidade, tudo de um gosto duvidoso, com discursos mão dura, atos de agressão e de guerra, com alguns que terminaram mal, suicidando-se ou sendo pendurados como peças de açougue em praça pública, ou ainda sendo linchados até a morte por populares. 

Trump, que já tomou uma triscada de bala na orelha, e cuja saúde é questionável, não aliviará o mundo de seus delírios de grandeza e, não há muita esperança diante de um vice como D. Vance, com um obscurantismo e psicopatia mais nazistas ainda. Quanto aos Estados Unidos, o fator que ainda retoma uma esperança, no entanto, reside na própria população norte-americana, uma parte dela, considerável, que é ou está crítica e insatisfeita com os rumos autocráticos dentro de seu país, e os movimentos do mercado, da economia, outro fator de pressão contra Trump e suas barbeiragens tarifárias.

O regime bolivariano da Venezuela possui um modelo descentralizado, em que os comandos e operações culminam nas comunas, integrado ao povo organizado, de modo que o sequestro de Maduro não deixou o sistema do país acéfalo. E o ataque, além desta captura, incluiu bombardeios simultâneos em áreas civis de quatro estados do país. Sendo que Maduro foi mantido vivo para não virar um mártir do bolivarianismo chavista. Com os Estados Unidos afirmando se tratar de uma questão de segurança pública e não de defesa militar, isso num país com uma oposição nula, enfraquecida, sem ninguém com legitimidade para ocupar o poder no lugar do sistema estabelecido por Chaves e sucedido por Maduro. 

A operação completa durou uma hora e meia, empregou 150 aeronaves, inteligência e recursos cibernéticos. Os ataques a instalações militares se concentraram no Tiuna e na base aérea de La Carlota (onde se concentram as baterias antiaéreas). E, ao fim, Maduro e sua esposa Cília foram levados para Nova York, em que a Venezuela manteve o governo com a vice-presidenta, Delcy Rodríguez, que agora responde pelo mesmo.

E no contexto latino-americano, a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) não obteve consenso em sua reunião, faltando uma estrutura como o Conselho de Defesa Sul Americano, como mediação e dissuasão em conflitos regionais, sem falar no esvaziamento da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), entrando em colapso em 2018, depois de divergências ideológicas e saída da maioria dos países membros para a fundação do Prosul.

Trump opera mudanças no deep state, com intervenções que ativam esta nova dinâmica, com o presidente norte-americano sendo a figura que vocaliza este “Estado profundo dos Estados Unidos”, o que se configura em sua nova doutrina, com a primeira intervenção direta de caráter militar dentro da América do Sul, por parte das forças norte-americanas. Ao passo que o Brasil não se posicionou de modo suficiente como liderança regional. 

E, dentro dos Estados Unidos, a justificativa foi a captura de dois acusados de narcoterrorismo, refletindo a visão atual interna, em que a população norte-americana, ao mesmo tempo que não quer mais saber de intervenções militares pelo mundo, defende o combate ao tráfico internacional de drogas, o que coloca o direito internacional em uma situação ambígua, e também usando o argumento de que o Departamento de Guerra foi utilizado como linha auxiliar em tal operação na Venezuela, mais uma vez misturando as coisas para beneficiar os seus interesses, que envolve, ao fim, as empresas de petróleo, tendo como missão a reconstrução da infraestrutura petroleira, através de um financiamento que depois será reembolsado. 

Quanto às declarações de Trump sobre investimentos na Venezuela nesta reconstrução, a Chevron, que é a única companhia de petróleo dos Estados Unidos que ainda opera no país sul-americano, apenas afirmou que a sua atuação cumpre leis e regulamentos pertinentes. A ExxonMobil e a ConocoPhillips não se manifestaram sobre o plano anunciado pelo presidente norte-americano. Esta indústria petrolífera, que há meio século passava por um processo de nacionalização, teve o seu aprofundamento em 2007, com o controle das operações que ainda eram geridas sob acordos privados, o que provocou a saída das duas empresas citadas, enquanto a Chevron aceitou se adaptar às novas condições impostas pelo governo chavista. 

Depois deste controle estatal chavista se impondo, as duas empresas entraram numa batalha judicial contra o governo venezuelano, que teve o seu encerramento favorável às petrolíferas, através do CIADI (Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas Relativas a Investimentos), do Banco Mundial, em que a Venezuela foi obrigada a indenizá-las com milhares de milhões de dólares. O país sul-americano ainda não quitou integralmente as indenizações, com um embargo norte-americano ao petróleo venezuelano ainda em vigor, com Trump acusando a Venezuela de roubar as companhias petrolíferas dos Estados Unidos através do controle estatal chavista.

A Venezuela passa pelo contraste de possuir cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo, com uma produção que chegou a 3,5 milhões de barris diários na década de 1970, com uma queda vertiginosa desta produção provocada pela falta de investimentos e problemas de gestão, o que refletiu numa produção, em 2025, de 1% da produção mundial, cerca de 1 milhão de barris diários. Diante disso, para retomar os níveis de produção anteriores, um investimento de cerca de 110 bilhões de dólares serão necessários. E isso para alcançar, em 2030, dois milhões de barris diários. 

Mesmo diante de um mercado petrolífero mundial de excesso de oferta, com preços caindo, exigindo uma maior seletividade das empresas petrolíferas nas suas decisões de investimentos, as grandes petrolíferas norte-americanas irão disputar este espólio venezuelano, numa competição intensa que, mesmo com os investimentos necessários, concentra um potencial de retorno bilionário. 

As características desta intervenção norte-americana reflete uma nova era em que se mesclam ações contemporâneas como as sanções econômicas, retórica antidrogas no combate ao crime organizado, juntando táticas do século XIX, com bloqueios navais e pirataria, de meados do século XX, na intervenção militar direta, em que havia contra-insurgência e golpes de Estado. E o clima trumpista tenta transmitir uma confiança e ofensividade alimentadas pelo Maga (Faça a América Grande Novamente, na sigla em inglês). 

Esta ação feita na Venezuela inclui um desdobramento que é a estratégia de estrangulamento do regime cubano, com o corte do fornecimento de petróleo bruto da Venezuela, que entrava praticamente de graça, em que o sufocamento econômico é visto como suficiente para derrubar o governo cubano, sem a necessidade de uma ação militar, pois também detona uma crise energética no país caribenho. 

Para Trump, estas ações intensificam a crise cubana e o fim do regime socialista no país. O que é mais um golpe na ilha, que já perdera a ajuda do regime socialista da União Soviética, com a dissolução daquele país, na fragmentação da CEI (Comunidade dos Estados Independentes) e a volta da Rússia como país único e a ascensão de Boris Yeltsin e queda de Mikhail Gorbachev, junto com os desastres da Perestroika e da Glasnost. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-petroleo-venezuelano/


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUANDO DEIXAMOS DE ENTENDER O MUNDO, DE BENJAMIN LABATUT

“narrativa documental”


Benjamin Labatut é um escritor chileno que ficou conhecido por obras literárias que misturam ficção e temas reais, num tipo de escrita que mescla elementos de realidade histórica, referências científicas, e a partir disso ergue um texto que levanta temas complexos, muitas vezes, em uma forma de literatura que se pode acessar mesmo sem conhecimento prévio dos temas e informações (ou fabulações) que ficam inseridos em contos e romances que parecem um documento de eventos do mundo real, o que pode ser verdade ou não, ou ainda um híbrido que resulta numa literatura nova e original. 

O escritor nasceu em Roterdã, na Holanda, e mora desde os quatorze anos em Santiago, no Chile. Publicou La Antártica Empieza Aquí, ganhando o Prêmio Caza de Letras, depois lançou Después de la Luz, sendo a sua terceira obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, que teve indicação para o International Booker Prize em 2021. Esta última obra, publicada originalmente em 2020, não se limita a ser uma narrativa histórica, mas flerta com o ensaio, a ficção científica e o romance de ideias.

Nesta obra Labatut tem influência de autores como W.G. Sebald, de onde recebe o caráter documental como um recurso literário inovador, misturando fatos reais, história e ficção. Com Thomas Pynchon ele recebe uma espécie de narrativa científica e filosófica, com questões como a fronteira entre a genialidade e a loucura, que lembram o que Thomas Pynchon realizou em O Arco-íris da Gravidade. Nesta obra temos a abertura que se dá com uma epígrafe de Wernher von Braun. 

Este construiu uma das armas mais letais que seria utilizada pelo regime nazista, ao passo que tentava descobrir a existência da vida após a morte e da imortalidade da alma. Este se muda para os Estados Unidos e trabalha pela Disney e ainda a Nasa. Este personagem terá um caráter multifacetado semelhante aos cientistas retratados nesta obra de Labatut, em que o conhecimento avançado se mescla com a mística e a ambivalência política. 

Outras influências de Labatut também incluem o beatnik William Burroughs, além de Roberto Bolaño, Eliot Weinberger e Pascal Quignard. E esta obra possui quatro narrativas que parecem ser a leitura de verbetes de enciclopédia ligados a cientistas de destaque dos últimos séculos, com vidas complexas e incompreendidas, com uma base narrativa associada também ao autor Éric Vuillard, de A Ordem do Dia, concentrada em fatos, mas com um revestimento literário. 

A principal influência para Labatut, no entanto, foi o poeta chileno Samir Nazal, que coloca as tradições chilenas em narrativas complexas que se ligavam ao insólito, com criaçôes de mundos falsos, além da crise ontológica, existencial, diante de um mundo dominado e movido pela técnica, com uma desconstrução da realidade através da ficção que aparece de modo semelhante nesta obra de Labatut, Quando Deixamos de Entender o Mundo, que interpretado pela crítica literária como romance de não-ficção, um oxímoro, também sendo chamado de literatura pós-autônoma e de hibridismo, em que Labatut coloca a biografia de diversos nomes da ciência em perspectiva ficcional. 

Em seus contos Labatut produz um material inventado, porém, de difícil distinção de fatos reais, pois a narrativa documental, pode reunir figuras como o físico Erwin Schrödinger, além do matemático Alexander Grothendieck, este que foi o mais importante do século XX, um ilustre desconhecido fora de seu meio, com trabalhos incompreensíveis para leigos, e que se isola para descobrir a origem dos sonhos, em ele teorizava que tinham todos a mesma fonte, pois vinham de um deus conhecido como Le Rêveur, “o sonhador”. 

Diante das revoluções científicas e as mudanças de cosmovisão advindas destas transformações no conhecimento, sobretudo no século XX, Labatut toma isso como eixo de sua obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, em que o título já designa esta mudança de paradigma, sendo que a matemática, por exemplo, nesta obra literária, rompe suas próprias fronteiras, em que os personagens, a princípio históricos, nesta narrativa de Labatut acabam descambando para um caminho delirante de cunho místico e filosófico.

Ruptura que pode ser associada com uma das insígnias apocalípticas do século XX, que foi quando o cientista Robert Oppenheimer, citou Bhagavad Gita, ao descrever a criação da bomba atômica : “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos”. Labatut reforça que o uso da ciência e da tecnologia produz desdobramentos políticos e de poder. Nos deparamos, por exemplo, com uma matemática alienígena, que rege o funcionamento das partículas elementares, em um texto, o quarto do livro, em que figuram os físicos Schrödinger e Heisenberg, num flerte com a loucura, desafiando a compreensão humana, culminando em perspectivas metafísicas e religiosas. 

Labatut também aponta a ruína da busca de um conhecimento totalizante, levando a uma verborragia enciclopédica, delirante, levando cientistas a um ponto de não retorno, em que a descoberta impacta a vida e a relação com o mundo desses personagens, que entram em parafuso, como o matemático japonês Shinichi Mochizuki e Alexander Grothendieck, que abandonou a carreira depois que descobriu o perigo de sua nova descoberta, escolhendo o silêncio, tentando evitar a má utilização daquele conhecimento que ele havia conquistado. 

Grothendieck foi um matemático alemão que alcançou avanços significativos na álgebra e na geometria, em que foi oferecida a ele a Medalha Fields, considerada o Nobel da área, mas Grothendieck recusou-a e foi viver afastado, sem compartilhar as suas pesquisas individuais, construindo uma história de vida que pode ser comparada com a do japonês Shinichi Mochizuki, que em 2012 publicou artigos demonstrando uma das mais importantes conjecturas da teoria dos números, considerada impossível de resolver até então, mas foi incompreendido.

O título de Quando Deixamos de Entender o Mundo também nomeia o conto que fala do embate entre entre Schrödinger e Heisenberg, da física quântica, em que a matemática descreve um mundo contra-intuitivo, distante do senso comum, onde Werner Heisenberg irá fundar o Princípio da Incerteza, em que a própria observação científica passa a modificar a realidade. Heisenberg revolucionou a física com este princípio, ao mesmo tempo que se defrontou com os limites do conhecimento da realidade, em que Labatut questiona como tais descobertas podem, por vezes, afetar a sanidade desses cientistas. 

No conto Azul da Prússia, o astrônomo Karl Schwarzschild, que foi pioneiro na idealização dos buracos negros, ficou com horror da própria descoberta, pois ali a física deixava de fazer sentido, e a natureza volta a mergulhar no mistério e na loucura. Ao passo que o químico judeu Fritz Haber contribuiu na criação da tecnologia que produziu o Zyklon B, gás letal que depois seria usado contra a sua própria família nos campos de extermínio. Ele conseguiu extrair nitrogênio da atmosfera, o que permitiu uma revolução na agricultura e o crescimento populacional, levando também à criação do gás sarin, que foi usado como arma química de guerra.

Esta narrativa conta como a descoberta acidental do pigmento azul da Prússia, enquanto se tentava criar o carmim, usado para pintar mantos da Virgem Maria, acabou levando à criação do cianureto e do gás usado nas câmaras de extermínio nazistas. Aqui se remonta um tema de Thomas Pynchon, em que o conhecimento acaba colaborando com métodos de genocídio, onde conglomerados como a IG Farben podem se apropriar de novas descobertas para a sua utilização no extermínio de pessoas. 

O desvio da busca científica de desvendar enigmas da natureza e do universo para um uso político e militar é a contradição trabalhada por Labatut nesta obra. O progresso científico perde a sua neutralidade em seu uso, pois move interesses de poder, em que o saber como este meio para o exercício de poder é uma virada moderna, em que o domínio técnico, que vinha das artes servis, antes subestimadas, ganham protagonismo no status da ciência como eixo da cognição moderna e contemporânea, repleta de contradições. 

No Epílogo "O Jardineiro Noturno" é feita uma síntese de todos os contos anteriores, podendo citar Alexander Grothendieck, o matemático que se isolou da sociedade ao perceber o potencial destruidor de suas descobertas. Temos ainda o "Gato de Schrödinger", em que é feita a interpretação do experimento do gato. A obra perpassa em seus quatro contos esta fronteira entre uma busca racional e produtiva, científica, e pendores de destruição política e militar, além do isolamento e loucura de cientistas atormentados.

Por fim, na obra ainda temos o próprio Labatut descrevendo estes contos : “Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais. A quantidade de ficção aumenta ao longo do livro; enquanto em “Azul da Prússia” só há um parágrafo ficcional, nos textos seguintes tomei liberdades maiores, tentando permanecer fiel às ideias científicas expostas em cada um deles. O caso de Shinichi Mochizuki, um dos protagonistas de “O coração do coração”, é particular: inspirei-me em alguns aspectos do seu trabalho para adentrar a mente de Alexander Grothendieck, mas a maior parte do que é dito sobre ele, sua biografia e suas pesquisas é ficção. A maioria das referências históricas e biográficas utilizadas nesta obra podem ser encontradas nos seguintes livros e artigos, a cujos autores também gostaria de agradecer”.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/benjamin-labatut-quando-deixamos-de-entender-o-mundo/