PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

OS DISPARATES TRUMPISTAS

 “retórica militar trumpista de pretensa anexação do Estreito de Ormuz.”


Na disputa do Estreito de Ormuz, Donald Trump, que mistura o disparate inconsequente e a bravata, agora ameaçou bombardear um aliado, que faz a mediação diplomática do conflito do país norte-americano com o Irã, que é o sultanato de Omã. Tal ameaça vem no caso de Omã interferir nas ações dos Estados Unidos ou ainda faça um acordo com o Irã, em paralelo, envolvendo o controle do estreito marítimo.

Junto a esta bravata, o presidente norte-americano ainda incluiu um recado a Teerã, em que exigiu que o país iraniano “hasteie a bandeira branca e se renda”, e isso depois de uma outra declaração megalômana em que Trump disse que pretendia formalizar o Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos, com um bloqueio naval total na região. 

Especialistas internacionais apontaram logo que, além da Carta da ONU, ainda sob a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o país norte-americano não pode anexar o Estreito de Ormuz por decreto ou fala presidencial, e que a região é composta por águas territoriais compartilhadas legalmente entre o Irã e Omã.

Esta ameaça trumpista teve motivação no fato de Omã e Irã estarem negociando diretamente, de forma bilateral, para o estabelecimento de uma rota de navegação e comércio segura no Estreito de Ormuz, o que foi interpretado, tanto pelo governo norte-americano como aliados, em algo que pode resultar em cobranças de taxas ou pedágios de navios mercantes internacionais na região.

Esta nova escalada na situação do conflito veio após o colapso e o fim do prazo de 60 dias de um memorando de entendimento provisório entre os Estados Unidos e o Irã, na tentativa de manter a via internacional do estreito livre. E agora esta investida retórica contra Omã coloca este país, que é um dos aliados militares mais antigos dos Estados Unidos na região e que atua historicamente na mediação entre o país norte-americano e o Irã de forma neutra, na pauta trumpista de guerra.

O fim do cessar-fogo também inclui o atrito que houve entre Donald Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, depois dos bombardeios israelenses no Líbano, no avanço contra o Hezbollah, enquanto o presidente norte-americano estava focado em fechar um memorando de entendimento com o Irã. E após a ofensiva de Israel, os iranianos ameaçaram abandonar as negociações de paz, o que irritou Trump, e este enfatizou que é ele quem conduz as decisões estratégicas e que Netanyahu não teria outra opção a não ser aceitar os termos de qualquer acordo norte-americano fechado no Oriente Médio. 

No meio disso, o governo israelense compartilhou relatórios confidenciais com os Estados Unidos em que havia um plano iraniano de assassinato do presidente Donald Trump, como uma vingança pela morte do general Qasem Soleimani em 2020. E Netanyahu, incomodado com a aproximação do presidente norte-americano de Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, pediu aos Estados Unidos o cancelamento da venda planejada de caças F-35 aos turcos.

Após os ataques de Israel, o memorando ficou inviabilizado, colapsando o pacto semanas após a assinatura feita em 14 de junho deste ano, pois uma das salvaguardas do acordo incluía a rede de aliados do Irã, que também tinha o Hezbollah, que acabou sendo alvo do país israelense no sul do Líbano. A reabertura do Estreito de Ormuz  e a negociação em torno de seu programa nuclear com o governo Trump então ficou condicionada, por parte de Teerã, à cessação dos bombardeios de Israel sobre o Líbano. 

No entanto, com a recusa israelense, que não considerava o pacto vinculativo, pois Israel não tinha participado das negociações, a posição de Tel Aviv foi a de que as forças armadas libanesas não tinham capacidade de desarmar o Hezbollah por conta própria. O Irã, em seguida, diante da campanha militar contra seu principal braço armado, acusou os Estados Unidos de não cumprirem as garantias de segurança regional.

Houve, então, a retaliação do Irã contra navios no Golfo Pérsico e, então, Trump declarou o fim do cessar-fogo, afirmando que o “memorando está definitivamente enterrado”, ordenando ataques aéreos a radares e bases do Irã e restabelecendo o bloqueio marítimo total no Estreito de Ormuz. E ainda teve a declaração de Trump de que os Estados Unidos seriam o “Guardião do Estreito de Ormuz”, cobrando um pedágio de 20% sobre o valor de cargas de todas as embarcações estrangeiras que transitarem pela região, quebrando a trégua de 60 dias, e que serviria como reembolso aos Estados Unidos pelos custos de manutenção da segurança da hidrovia.

Com a promessa trumpista de fazer um bloqueio exclusivo aos navios iranianos e dar livre passagem a outros países, a Marinha da Guarda Revolucionária iraniana declarou o fechamento por tempo indeterminado do Estreito de Ormuz e bombardeou bases norte-americanas localizadas na Jordânia, Bahrein, Kuwait, Catar e Omã, classificando o pedágio como abusivo e afirmando que não aceitarão a intervenção norte-americana na administração da região.

Apesar da declaração de Trump, logo se seguiu o problema logístico do disparate ou bravata, pois não houve qualquer detalhamento operacional de como tudo seria feito, soando mais como improviso do que algo planejado e com alguma organização burocrática clara, e com a dificuldade de ter tentado estabelecer um conceito inaudito para o comércio marítimo internacional. Por exemplo, de como seria calculado, faturado e processado, de forma prática, na rotina logística, o tal pedágio de 20%. 

O argumento trumpista, bastante vago e presunçoso, era o de que o frete internacional deveria cobrir as despesas das forças armadas dos Estados Unidos, em que seria uma questão de justiça o financiamento da segurança da região pelo comércio global. Contudo, se tratava de uma excrescência, pois não havia diretrizes sobre onde os armadores deveriam declarar o valor das mercadorias ou efetuar o pagamento, sem um plano de fiscalização do governo norte-americano.

Outra questão era a de como a Marinha dos Estados Unidos iria interceptar, vistoriar ou impedir fisicamente a passagem de navios cargueiros que se recusassem a pagar o pedágio, além da falta de respaldo no direito internacional ou na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, pois o conceito universal é da passagem inocente por estreitos internacionais, pois só se cobra pedágio em canais artificiais como os do Panamá e o de Suez, por exemplo. Ou seja, foi uma ideia irreal e ilegal. 

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi reagiu ironicamente e afirmou que o Irã poderia oferecer uma taxa de segurança muito mais barata e justa para as empresas de navegação, e que, enquanto os Estados Unidos usavam a força militar para impor o seu pedágio, Teerã somente exigiria a qualquer navio comercial que fizesse uma solicitação de tráfego, obteria permissão prévia exclusiva através do site oficial da Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA), ameaçando destruir quem ignorar a soberania local.

A situação atual do Estreito de Ormuz, com este problema provocado pela iniciativa trumpista, é a de que a circulação mercante está colapsada, ao passo que antes da guerra cerca de 140 navios cruzavam a rota diariamente, e tal tráfego despencou para cerca de 12 navios por dia, enquanto centenas de petroleiros estão parados aguardando liberação. Enquanto isso, o governo iraniano afirmou que o Estreito de Ormuz permanecerá fechado até que os Estados Unidos cumpram as exigências do protocolo de junho, que incluem o fim do bloqueio naval norte-americano, a suspensão de sanções econômicas e o pagamento de indenizações de guerra.

No que se refere a neutralidade histórica de Omã, este evita alinhar-se automaticamente a blocos rivais na região, como o eixo liderado pela Arábia Saudita ou pelo Irã, já sob o longo reinado do Sultão Qaboos bin Said (1970–2020) e a continuidade do atual Sultão Haitham bin Tariq, em que tal conduta diplomática foi consolidada. 

Dentro do país, a maioria da população segue o Ibadismo, uma vertente do Islã que é distinta tanto do Sunismo quanto do Xiismo, o que historicamente ajuda o país a se posicionar como um árbitro neutro em conflitos sectários, e que teve destaque nas negociações secretas entre os governos de Barack Obama, dos Estados Unidos, e Mahmoud Ahmadinejad/Hassan Rouhani, do Irã, em 2012 e 2013, que resultou no acordo nuclear assinado em 2015.

Historicamente, o primeiro acordo comercial assinado por Omã com os Estados Unidos foi em 1833, e desde 1980 mantém um tratado estratégico de acesso militar que permite às forças armadas norte-americanas utilizarem suas bases aéreas e portos. Além disso, Omã recebeu visitas oficiais de primeiros-ministros israelenses como Yitzhak Rabin, em 1994, e Benjamin Netanyahu, em 2018, para discutir a paz na região.

Com o acordo fechado entre Irã e Omã, agora em agosto, incluiu-se um plano em que  os navios mercantes entrariam no Golfo Pérsico contornando a costa iraniana e sairiam margeando as águas territoriais de Omã, em que Teerã e Mascate negociaram esse corredor de forma independente, ignorando as diretrizes norte-americanas, com o país iraniano declarando que a parceria visava a garantia da soberania mútua das duas nações costeiras sobre o canal, abrindo  margem para que os dois países fizessem a segurança e potencialmente pudessem cobrar taxas de trânsito das embarcações internacionais.

Diante das fortes ameaças de Donald Trump de bombardear Omã, Teerã defendeu as negociações, exigindo que os Estados Unidos cessem a interferência no diálogo soberano entre os dois países do Golfo, com o Irã utilizando o canal de comunicação com Omã como forma de impor condições de paz ao país norte-americano. Ou seja, este acordo técnico com Omã é mais uma estratégia de Teerã organizar a rota marítima sob os seus termos, o que foi reforçado em reuniões de alto escalão em Mascate, com as duas nações assinando memorandos reafirmando o respeito mútuo ao Direito Internacional Marítimo, indo de encontro à retórica militar trumpista de pretensa anexação do Estreito de Ormuz.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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sábado, 15 de agosto de 2026

DA FÚRIA ÉPICA AO IMPASSE TOTAL



“negociações do cessar-fogo azedaram”


O novo impasse entre Estados Unidos e Irã, depois de Trump e autoridades de Teerã trocarem declarações públicas duras, colocaram a possibilidade de um cessar-fogo novamente como algo distante. O presidente norte-americano declarou que seu país possui controle total do Estreito de Ormuz, chamando de “muro de aço” o cerco naval aos portos iranianos. Contudo, o Irã desmentiu Trump afirmando que a rota estratégica de petróleo permanece fechada.

As exigências para o cessar-fogo de ambos os países são desencontradas entre si e o impasse é total. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã exige o fim imediato das sanções econômicas, retirada das tropas ocidentais e o desbloqueio de ativos financeiros confiscados como condição para a reabertura do Estreito de Ormuz. 

Frente ao impasse, foram vazados relatórios de inteligência militar que irritaram o presidente Trump, pois revelou vulnerabilidades do propalado “poderio” das forças armadas dos Estados Unidos. Os vazamentos apontaram que a intensa campanha aérea do país norte-americano reduziu drasticamente seus estoques de mísseis Tomahawk, com uma queda de 33%, e ainda uma queda de 65% dos Patriot.

A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que o país produz mais mísseis do que consome e o prolongamento da guerra de atrito contra os Estados Unidos vai até o fim do mandato do presidente Trump, numa aposta de desgaste político e econômico de seu governo. E perante a reabertura do Estreito de Ormuz, o Irã impôs seis condições para que tal acordo avance na diplomacia com Donald Trump.

As exigências de Teerã incluem a interrupção imediata de todas as ações militares contra o território iraniano e contra seus aliados regionais no Líbano, na Palestina, no Iêmen e no Iraque. A suspensão total do bloqueio naval com a retirada imediata do cerco da Marinha norte-americana aos portos iranianos. Saída completa das forças navais e aéreas norte-americanas do entorno e das proximidades do Irã. 

A lista ainda inclui uma indenização financeira pelos prejuízos causados ao país iraniano, tanto no conflito recente quanto na breve guerra de 2025. Cessação das sanções econômicas que atingem a economia e a indústria petrolífera do Irã e, por fim,  a devolução incondicional de todos os fundos e bens financeiros iranianos congelados em bancos no exterior.

E as negociações do cessar-fogo azedaram de vez com a resposta de Trump sobre a exigência de indenizações feita por Teerã, em que o presidente norte-americano ironizou a condição iraniana afirmando que instruiu seus negociadores a incluir uma contraexigência firme de indenização dos Estados Unidos contra o Irã por todas as vidas norte-americanas perdidas em ataques vinculados ao regime islâmico nas últimas décadas, em que cita nominalmente o atentado ao navio USS Cole no ano 2000, e ainda cita as dezenas de milhares de mortes no conflito atual. 

O gargalo militar norte-americano, no entanto, tem como problema principal o esgotamento crítico dos estoques de mísseis em relação à capacidade de reposição pela indústria de defesa dos Estados Unidos. Uma campanha militar iniciada em fevereiro de 2026, que prometia ser algo rápido, batizada de “Epic Fury” (Fúria Épica), virou uma guerra de atrito que se prolonga e desafia os planos norte-americanos que enfrentam falhas de logística, numa distância abissal entre expectativa e realidade, em mais um atoleiro das guerras contemporâneas no contexto geopolítico mundial recente.

E o erro de cálculo agora também atinge a capacidade bélica em si do “poderio” dos Estados Unidos. O Exército norte-americano consumiu quase a totalidade de seus mísseis terra-terra de longo alcance, como o ATACMS (Sistemas de Mísseis Táticos do Exército) e os novos PrSM (Mísseis de Ataque de Precisão). Para a defesa aérea contra mísseis e drones iranianos, o  Pentágono gastou cerca de 80% dos interceptadores THAAD e reduziu o estoque global de mísseis Patriot de 2.200 para menos de 827 unidades. 

Na área naval, somente no primeiro mês foram lançados mais de 850 mísseis de cruzeiro Tomahawk, o que provocou um racionamento e forçando comandantes a poupar munição no Golfo. Atualmente, o Pentágono recebe apenas cerca de 20 novos mísseis Patriot e 15 Tomahawk por mês, o que é uma fração do que é consumido. Mesmo com o pleito por um orçamento trilionário feito por Pete Hegseth, secretário de Defesa, analistas do CSIS apontam que os mísseis Patriot não atingirão o nível ideal de estoque antes de 2030.

O Pentágono emitiu um memorando de "escassez extrema", dando 21 dias para que fabricantes como a Lockheed Martin apresentem planos emergenciais para acelerar as linhas de montagem. Os Estados Unidos gastam milhões de dólares com interceptadores para abater drones e foguetes iranianos de baixo custo, e as instalações militares norte-americanas no Oriente Médio, como no Kuwait e Bahrein, são alvos vulneráveis do arsenal de mísseis do Irã. E esse problema na reposição das forças militares norte-americanas acabaram colocando um freio nas pretensões geopolíticas de Trump, forçando a Casa Branca a evitar novas ofensivas terrestres ou bombardeios de grande escala.

Esta arquitetura de defesa aérea coordenada pelos Estados Unidos e seus aliados no Golfo Pérsico funciona como um sistema projetado para rastreamento e destruição simultânea de mísseis balísticos, de cruzeiro e enxames de drones lançados pelo Irã, em que atuam radares integrados, navios de guerra e baterias terrestres sob o comando do Centcom (Comando Central dos EUA), incluindo o sistema antimísseis Patriot (PAC-3), que é a espinha dorsal da defesa de curto e médio alcance na região, em que os Estados Unidos e seus aliados  operam dezenas de baterias Patriot. 

O modelo PAC-3 utiliza tecnologia hit-to-kill (destruição por impacto direto), sendo ideal para interceptar mísseis balísticos na fase final de voo. O Sistema THAAD (Terminal High Altitude Area Defense) fica posicionado estrategicamente pelos Estados Unidos e opera também pelos Emirados Árabes, cuidando da camada de alta altitude, na interceptação de mísseis balísticos de médio e curto alcance ainda fora da atmosfera ou logo na reentrada, protegendo áreas metropolitanas e bases militares inteiras.

O Sistema de Combate Aegis é a camada naval que atua no controle do mar, com navios de guerra da Marinha norte-americana, incluindo destróieres da classe Arleigh Burke e cruzadores, em que este sistema naval patrulha o Golfo Pérsico e o Mar Arábico, usando mísseis SM-3 e SM-6, com navios que utilizam os interceptadores das famílias Standard Missile. O SM-3 é projetado para interceptação exoatmosférica (fora da atmosfera) contra mísseis balísticos de longo alcance, enquanto o SM-6 oferece defesa flexível de curto alcance contra mísseis de cruzeiro que voam rente ao mar e contra aeronaves.

Para atuar contra a defesa aérea montada pelos Estados Unidos e seus aliados no Golfo Pérsico, o Irã usa a estratégia militar da guerra assimétrica, com táticas que visam sobrecarregar os computadores e esgotar os estoques de munição dos sistemas Patriot e Aegis, que incluem ataques de saturação em massa através de enxames, em que é lançado deliberadamente dezenas ou centenas de vetores ao mesmo tempo contra o mesmo alvo. 

O país iraniano ainda utiliza drones baratos que inclui uma quantidade massiva de drones kamikaze, como os da família Shahed, que voam devagar, mas custam uma fração de um míssil interceptador ocidental, forçando os gastos norte-americanos com mísseis milionários contra alvos de baixo custo, esgotando a munição antes que os mísseis balísticos reais cheguem ao alvo.

As táticas iranianas são feitas em três frentes, em que mísseis balísticos sobem a altitudes extremas e descem em alta velocidade, ao mesmo tempo, os mísseis de cruzeiro e os drones viajam em baixa altitude, usando o relevo ou a curvatura da Terra para se esconder, e atingem o alvo exatamente no mesmo segundo e por direções diferentes, confundindo os sistemas de gerenciamento de batalha dos navios e das baterias terrestres.

Houve um investimento em mísseis de cruzeiro terrestres e antinavio, como as séries Quds e Abu Mahdi, projetados para voar a poucos metros do chão ou da superfície do mar, o chamado sea-skimming, em que esse mísseis permanecem abaixo da linha de visão dos radares de longo alcance por mais tempo, aparecendo nas telas de defesa somente quando estão a poucos quilômetros de distância, reduzindo drasticamente o tempo de reação dos operadores.

No caso dos mísseis balísticos iranianos mais modernos, como o Kheibar Shekan ou variantes reivindicadas como hipersônicas, estes são veículos de reentrada que conseguem realizar manobras aerodinâmicas na fase final do voo, em que a ogiva iraniana muda de direção repentinamente pouco antes do impacto, conseguindo fazer o míssil interceptador errar o alvo, pois os sistemas antimísseis como o Patriot PAC-3 calculam o ponto de interceptação prevendo uma trajetória parabólica fixa. E o Irã ainda utiliza ogivas que se separam do corpo do míssil, gerando múltiplos detritos no radar para camuflar a carga explosiva real.

Os sistemas de guerra eletrônica (EW) e de interferência (jamming) tornaram-se a ferramenta de primeira linha e de menor custo para os Estados Unidos e seus aliados neutralizarem os drones iranianos, evitando maiores prejuízos financeiros e de estoque do sistema Patriot. Do lado iraniano, os drones são guiados através de frequências de rádio e transmissões de dados em tempo real, ao passo que os sistemas de guerra eletrônica montados em navios da Marinha norte-americana e veículos terrestres inundam o espaço aéreo com ruído eletromagnético nas mesmas frequências usadas pelo Irã. 

Com sinais potentes que bloqueiam a recepção dos satélites no receptor do drone, este fica cego e incapaz de navegar com precisão. Ou seja, com a interrupção desse link, o drone perde o contato com a base, e sem comandos, a maioria dos modelos entra em pane, ativa protocolos automáticos de pouso forçado no mar ou simplesmente cai por falta de combustível, uma vez que os drones kamikaze iranianos de longo alcance dependem fortemente de sistemas de navegação por satélite, como o GPS, GLONASS ou BeiDou, para encontrar as coordenadas exatas das bases aliadas ou navios mercantes.

Outra tática de guerra é o chamado Spoofing (Falsificação) que, em vez de apenas bloquear, os sistemas eletrônicos avançados emitem sinais de satélite falsificados, e o computador do drone aceita esses dados falsos como verdadeiros, recalculando sua rota de forma errada, em que os operadores norte-americanos conseguem desviar os drones iranianos em pleno voo, forçando-os a cair em áreas desertas ou no oceano, longe dos alvos reais.

Uma tática agressiva é a dos sistemas de energia direcionada, com micro-ondas e lasers, com uso do HPM (Micro-ondas de Alta Potência), em que equipamentos como o sistema terrestre Leonidas disparam pulsos massivos de energia eletromagnética, e esses pulsos penetram nas carcaças de plástico ou metal dos drones e queimam instantaneamente os circuitos eletrônicos, placas-mãe e chips de navegação, sendo sistemas utilizados contra enxames, pois o feixe de micro-ondas pode derrubar dezenas de drones simultaneamente em um amplo setor do céu.

Outra tática é a das armas de laser, que é o HEL (High Energy Laser), que são sistemas embarcados em navios norte-americanos no Golfo, como o ODIN ou o HELIOS, que rastreiam os drones opticamente e disparam um feixe de laser invisível de alta energia, que é um laser que concentra calor extremo em partes críticas do drone, queimando os sensores de câmera, derretendo as superfícies de controle das asas ou detonando o combustível e a ogiva explosiva no próprio ar.

Por fim, fuzileiros navais e forças especiais norte-americanas utilizam armas portáteis antidrones, com o estilo jammers em formato de rifle, como o DroneDefender, em que os soldados apontam diretamente para o drone iraniano visível e disparam um feixe direcionado de interferência, derrubando o invasor nos arredores imediatos de postos de controle e bases avançadas. No entanto, neste momento da guerra assimétrica, como citado, o problema principal do chamado “poderio” militar dos Estados Unidos reside na sua capacidade de reposição das peças de sua indústria bélica e não de seus feitos tecnológicos aqui descritos. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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sábado, 8 de agosto de 2026

As reações de China e União Europeia contra o tarifaço de Trump

 “Trump enfrenta queda de popularidade”


O tarifaço de Trump causou respostas estratégicas da China e da União Europeia. Em que os europeus realizaram um contra-ataque cirúrgico, como parte da doutrina geoeconômica da “Autonomia Estratégica”. A União Europeia já tinha calculado previamente este movimento, com uma retaliação simétrica e não-ideológica pré-aprovada pela Comissão Europeia.

Bruxelas mirou produtos de estados norte-americanos com bases eleitorais importantes do Partido Republicano para aplicar tarifas, o que implicou numa resposta que atingiu mercadorias como motocicletas, bourbon e produtos agrícolas do Midwest, como modo de pressão sobre Trump, para que sua base exigisse seu recuo. No pacote, a UE acelerou impostos sobre as Big Techs, endurecendo regras ambientais de importação, contando com um mercado consumidor interno robusto como tática de dissuasão.  

Na guerra comercial, a China atacou de modo assimétrico, aplicando tarifas sobre a soja norte-americana, e praticando seu usual dumping, com uma desvalorização controlada de sua moeda, o Yuan, mantendo a competitividade internacional de seus produtos, conseguindo neutralizar parte do tarifaço trumpista. Além disso, os chineses se utilizaram do monopólio que possuem sobre o refino de terras raras e minerais críticos essenciais na transição energética e para as indústrias de alta tecnologia, impondo severas restrições de exportações desses materiais para as empresas norte-americanas.

A China teve um senso de oportunidade e avançou com a sua iniciativa Belt and Road (Nova Rota da Seda), traduzida por Iniciativa Cinturão e Rota, enquanto os Estados Unidos, sob o governo trumpista e seu tarifaço, fechava o seu mercado. Os chineses assinaram novos acordos comerciais com a América Latina, África e Sudeste Asiático, o que também isolou produtores norte-americanos. 

Tal nomenclatura, que é histórica, se refere à Rota da Seda de antigas rotas comerciais históricas entre o Oriente e o Ocidente, e que, atualizada, busca a criação de corredores econômicos ligando a China à Ásia Central, Rússia e Europa, além de rotas marítimas através de conexões pelo Oceano Índico e Pacífico, unindo portos estratégicos na Ásia, Oriente Médio e África.

A China lançou a Nova Rota da Seda (ou Iniciativa Cinturão e Rota) em 2013, como um megaprojeto global de infraestrutura e comércio, com objetivos de ligar a Ásia à Europa, África e América Latina através de redes terrestres e marítimas, o que visa a expansão da influência geopolítica e econômica chinesa, com investimentos de mais de US$ 1 trilhão em portos, ferrovias, rodovias e energia em mais de cem países. 

Tal expansão se dará através do rearranjo das cadeias globais de suprimentos, exportando o excedente de capacidade industrial da China e que levará à consolidação do país como a principal potência da Eurásia. Esta investida chinesa que abala a hegemonia global norte-americana e o sistema de alianças que o país tem na geopolítica mundial. 

A integração econômica entre Ásia e Europa busca reduzir a influência transatlântica dos Estados Unidos. A criação de rotas terrestres através de ferrovias e gasodutos tem objetivos de segurança energética e evita o uso do Estreito de Malaca, que é indiretamente controlado pelo país norte-americano. A moeda chinesa, com a internacionalização do Yuan, entra cada vez mais em contratos comerciais globais, enfraquecendo o domínio mundial do dólar. 

A China atua diplomaticamente na atração de países em desenvolvimento para o seu bloco de votação em fóruns como, por exemplo, em questões que envolvam a ONU. Na concorrência com os Estados Unidos, os chineses atuam no Sul Global com financiamento estratégico em infraestrutura. 

Pela chamada “Rota da Seda Digital” ocorre a competição pela instalação de redes 5G/6G e cabos submarinos de fibra óptica.  E a China ainda atua na compra de dívidas, com empréstimos impagáveis, assumindo ativos soberanos, como o Porto de Hambantota, com acusações dos Estados Unidos sobre estas ações chinesas.

O país norte-americano, na sua contraofensiva, atua com iniciativas lideradas pelo G7, oferecendo alternativas de financiamento sustentável e transparente. Para concorrer com a Nova Rota da Seda chinesa, existe uma parceria chamada corredor IMEC, que envolve os Estados Unidos, Índia, Oriente Médio e Europa, rivalizando contra a China com uma política de financiamentos alternativos de infraestrutura, uma política protecionista agressiva de mercado, sanções e segurança tecnológica. 

Nesta guerra comercial contra a China, a principal dos Estados Unidos, o tarifaço trumpista adota tarifas recíprocas, com base nos superávits de parceiros comerciais, com taxas sobre produtos estrangeiros, forçando as cadeias de suprimento na saída da dependência dos chineses, para a contenção da capacidade industrial da China, e umas das vantagens utilizadas é o fato de os Estados Unidos possuírem um gigante mercado consumidor como moeda de troca na geopolítica comercial para que países recusem investimentos chineses.

Outra concorrência contra a Nova Rota da Seda, também, é o Corredor de Lobito, que liga Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia, no escoamento de minerais críticos. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC) possui projetos em logística e energia. E os Estados Unidos ainda tem o PGII (Parceria para Infraestrutura e Investimento Global), um consórcio do G7 liderado pelo país norte-americano, que mobiliza capital privado e público em projetos no Sul Global.  

O Departamento de Estado norte-americano financia ainda a substituição de cabos de fibra óptica obsoletos e a instalação de novas redes na América Central e no Caribe, como forma de  impedir que empresas estatais chinesas tenham controle da infraestrutura de telecomunicações próxima ao território dos Estados Unidos. Além disso, o governo trumpista atua através do bloqueio global contra tecnologias chinesas 5G/6G, semicondutores e IA em redes estratégicas de países parceiros sob alegações de riscos à segurança nacional.

Outra política norte-americana é a de estabelecer um contraste com a promoção de critérios rígidos de governança, sustentabilidade ambiental e direitos trabalhistas no financiamento de obras, em oposição ao flexível modelo chinês. Com os Estados Unidos se utilizando de canais diplomáticos no alerta de países em desenvolvimento sobre os riscos de calote e perda de soberania de ativos, tais como portos e aeroportos vinculados a empréstimos chineses.

No caso da reação da União Europeia e da China contra o tarifaço trumpista, foi feito um mapeamento das vulnerabilidades econômicas e políticas dos Estados Unidos. Ou seja, ao invés de uma reação genérica, os dois blocos escolheram alvos de alto impacto como a melhor forma de pressão sobre o governo Trump, forçando uma negociação. Por exemplo, os alvos específicos da União Europeia visaram atingir os interesses do mercado consumidor norte-americano que consiste em eleitores e financiadores de campanha do Partido Republicano, mirando os estados-chave (swing states) e redutos de aliados de Trump, com taxações sobre bebidas e alimentos de luxo.

A União Europeia aplicou tarifas sobre o Bourbon (uísque americano), produzido majoritariamente no Kentucky, estado do líder republicano no Senado. Também foram atingidas as motocicletas, com sobretaxas severas contra a Harley-Davidson, sediada no Wisconsin, um estado eleitoral decisivo e altamente disputado. Tivemos a tarifação do milho e do tabaco norte-americanos, com prejuízos no agronegócio do Meio-Oeste, que envolve prejuízos diretos aos fazendeiros que formam a base eleitoral mais fiel de Trump. Por fim, houve uma aceleração de multas bilionárias e impostos sobre as Big Techs, tais como Google, Apple, Meta e Amazon.

Os chineses miraram nas terras raras e minerais críticos, com a restrição sobre a exportação de gálio, germânio e grafite, minerais dos quais detém o controle global de fornecimento, e que são fundamentais na fabricação de semicondutores, chips de Inteligência Artificial, baterias de carros elétricos e equipamentos de defesa do Pentágono. Tendo ainda a suspensão imediata de compras estatais de soja e carne de porco vindas dos Estados Unidos, o cancelamento e suspensão de contratos de compra de aeronaves da Boeing, negociando com a rival europeia Airbus ou fomentando a estatal chinesa COMAC.

A retaliação contra o tarifaço trumpista atinge os consumidores norte-americano. Os Estados Unidos elevaram a sua inflação anual, produtores rurais enfrentam perdas multibilionárias e operam no prejuízo em grãos como soja devido ao redirecionamento de compras da China para outros países; e a manufatura norte-americana registrou perda de dezenas de milhares de postos de trabalho, com recuo do índice de confiança das grandes empresas norte-americanas, com risco de recessão e adiamento de investimentos de longo prazo. 

Trump enfrenta um processo administrativo no Tribunal de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Nova York, processo realizado por um grupo de 25 estados norte-americanos, alegando abuso de autoridade presidencial ao usar o pretexto de combate ao trabalho forçado para reinstaurar taxas derrubadas pela Suprema Corte. 

Trump enfrenta queda de popularidade provocado pelo tarifaço, ameaçando diretamente a maioria do Partido Republicano no Congresso às vésperas das eleições de meio de mandato (midterms). O setor rural, tradicional base aliada de Trump, foi duramente atingido por tarifas de retaliação e pela inflação, e o apoio ao presidente nas zonas rurais despencou 10%, atingindo mínimos históricos, com eleitores sentindo diretamente o encarecimento de alimentos e combustíveis. E a inflação virou o principal combustível da oposição. Com os Democratas já abriram vantagem nas pesquisas de intenção de voto genéricas para o Legislativo.

Projeções apontam uma alta probabilidade de que os republicanos percam a maioria no Senado e com fortes chances de derrota também na Câmara dos Representantes, paralisando os dois anos finais do mandato de Trump. Enquanto este tenta novamente a estratégia de contestação da confiabilidade do sistema eleitoral e acusações de interferência estrangeira para desviar o foco da inflação do país, do desgaste econômico que virou seu tarifaço. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-reacoes-de-china-e-uniao-europeia-contra-o-tarifaco-de-trump/

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A PEÇA MACACOS

“sucesso de público e de crítica”


Macacos é um monólogo em 9 episódios e 1 ato. A peça é visceral, numa perspectiva histórica ainda há pouco camuflada na historiografia escolar. O trauma colonial, de um pacto mercantil, que provocou um deslocamento geográfico de pessoas tratadas como corpos-mercadoria, e que, como consequência, foi um descentramento cultural, em um mistifório recriado a partir dos navios negreiros.

Tal herança se misturou a uma nova realidade, recomposta, e que teve um auge de tortura e morte durante a escravização, um genocídio, o maior da História no Brasil e no mundo, mais do que os dos gulags soviéticos, vindos do período czarista, da fome maoísta e do nazi-fascismo. 

Falamos aqui de uma paisagem constrangedora, em que nosso país foi o último a assinar a abolição do sistema escravista, advindo do extrativismo da cana-de-açúcar, do chamado pacto colonial mercantilista, em um período pré-capitalista, fundado no comércio internacional marítimo. Com a pressão do novo modelo da revolução industrial inglesa, no entanto, os senhores das terras se viram sem saída.

Foi quando findou o sistema vindo do colonialismo português, o que decretou, junto à proclamada Lei Áurea, da Princesa Isabel, tanto o fim da monarquia, que perdeu seu apoio do poder agrário, como acabou selando o caminho imediato e histórico de uma cisão social pós-escravista, de um mal ajambrado e hipócrita processo de transição para pretos livres etc. 

O problema veio de políticas urbanas higienistas e que foi uma tentativa mal sucedida de segregação que consistiu em “livrar-se” de um problema fingindo que ele não existe. Ou seja, o higienismo buscava separar áreas demarcadas entre a cidade funcional, e uma periferia forçada por rearranjo da derrubada de cortiços, com o exemplo maior na política de Pereira Passos no Rio de Janeiro, inspirada na reforma urbana parisiense do Barão Haussmann. 

O fingimento foi “bom” até o momento em que a ressaca veio na forma de pobreza mal resolvida e crescimento exponencial da violência urbana, cada vez mais sofisticada e organizada, retroalimentando um racismo estrutural em que existe o tal “perfil de bandido” etc. Quer dizer, o segregacionismo higienista do início do século XX revirou-se em um racismo estrutural advindo de um desenho sociodemográfico terrível e excludente.

Clayton Nascimento realiza uma performance física, intensa, no tablado, que é liberado de objetos, plano aberto, tal qual seu papel corporal, de bermuda, sem camisa, correndo para lá e para cá, por todo o tablado, podendo-se ouvir o barulho de seus pés descalços sobre a madeira, numa experiência acústica nua, a qual pude ver-ouvir no Teatro Riachuelo, “sold out”, no Centro do Rio de Janeiro. 

Isso, para mim, sem citar todo o processo histórico que ele iria deslindar ali, me marcou bastante, esta parte sensorial, de corpo-som-tablado, do teatro físico. E a linguagem vem como um soco, na sua repetição da palavra “macacos”, já como um cartão de visitas do que estaria por vir. O que seria o impacto de um texto que está em consonância com a performance corporal do ator, num suadouro intenso tal qual o que é narrado, com a força do texto aliada a um teatro físico incansável.

Clayton Nascimento também narra a sua experiência direta com o racismo estrutural, ele mesmo confundido com bandido, sendo acusado de ser assaltante quando era roubado, na verdade, por um casal que era de fato quem assaltava Clayton, numa inversão em que testemunhas da cena na rua acharam que ele que era o ladrão, tendo seus bens saqueados enquanto era espancado pelo casal. 

Tal episódio é bem sintomático de uma máquina social de ilações produzidas a partir do racismo estrutural que, se não fosse trágico, estaria beirando a caricatura, como neste caso real narrado por Clayton, do qual ele mesmo foi vítima. Esse foi o violento episódio real de 2018 que provocou um ponto de virada biográfico para a criação do monólogo e a pesquisa do racismo estrutural que costura todos os episódios da peça Macacos, em que Clayton Nascimento coloca um foco autobiográfico e histórico.

A peça funciona como uma autoficção que se mistura a uma narração histórica que atravessa de modo diacrônico o racismo, e que revela, na frente, de modo sincrônico, a parte estrutural que vem deste processo histórico longo e complexo. Além destes aspectos de autoficção, teatro físico e de teatro histórico, temos as referências pessoais de Clayton com seus ídolos negros. Por exemplo, nas figuras de Elza Soares, Bessie Smith e Machado de Assis. 

Diante de personagens negros (as) destacados (as) na História, Clayton tem também a esperança e a utopia como guias de seu caminho, e não somente memórias pessoais e históricas dolorosas. O que também revela uma cultura que se desenvolveu na música, na literatura, no próprio teatro, se lembrarmos de Abdias Nascimento, com seu teatro experimental do negro, em que a dramaturgia de Clayton contrabalança a denúncia fundante e fundamental que já vem do nome da própria peça, com esta luz que salva tudo, no livramento destas constantes ameaças de morte e desaparecimento que ele narra.

Clayton também fala de sua mãe, dona Maria do Carmo. De seu pai, durante o périplo até sua entrada na universidade, em que seu pai sempre repetia no fim o verbo “persevera”. Lembra do caso de Claudia Silva, que foi baleada ao sair de casa para comprar pão, e que teve seu corpo arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro ao cair do camburão do carro de polícia que a tinha pego. 

Em uma de suas falas, Clayton nos lembra : “Se fizermos uma rápida divisão entre 388 anos de escravidão divididos por 521 anos de Brasil, teremos cerca de 69% da nossa história toda pautada em escravidão. Se dividirmos cerca de 40 anos de democracia por 521 anos de Brasil, teremos apenas 7% da nossa história pautada em democracia.”

A palavra macaco, que vem no singular na abertura da peça, como título do episódio 1, “um macaco”, entra no texto no plural, como um xingamento de torcida, como gritos de uma massa popular, e é este plural que encerra a peça, em que Clayton anuncia uma união deste bando de “macacos”, como a imagem final da peça.

Este bando traduz-se em pessoas que aparecem no cenário social e de corte racial como estes “outros”, num processo de luta contra a exclusão e desumanização, em que esta alteridade se afirma transculturalmente não por via pacífica, de uma mestiçagem cordial, mas num movimento contra as violências, em choque, em colisão, em que tanto no Brasil como em outras realidades mundiais, a complexidade cultural é mais produto de conflito do que através de diálogos pacíficos. 

Falar de transculturação, hibridismo etc, portanto, não pode ser capturado por um discurso ingênuo e alienado da História real, e que a dramaturgia de Clayton Nascimento faz questão em destacar. Nada vem de graça, começando pela Lei Áurea, cuja visão romantizada já caiu por terra, e hoje a data comemorativa não é mais a da abolição e sim da Consciência Negra, com inspiração na luta quilombola de libertação do escravismo e do colonialismo, com a imagem destacada de Zumbi dos Palmares, dentre outras figuras de proa na História de luta negra brasileira.

A denúncia contra silenciamentos, apagamentos, contra mortes tanto físicas como simbólicas, é uma luta pela vida e pela liberdade, e que Clayton Nascimento, na sua peça Macacos, vocaliza e também organiza, pois seu texto traz muita informação, muito importante, o que é até mais central que todo o cenário físico e de sua performance intensa de ator. A peça é sucesso de público e de crítica e o ator, performer e dramaturgo é devidamente reconhecido no cenário cultural brasileiro contemporâneo. 

Clayton Nascimento é dramaturgo, ator, professor de artes dramáticas e diretor de teatro. Nascido no Piauí e criado em São Paulo, graduou-se pela Universidade de São Paulo (USP), além de ter cursado a escola Célia Helena Centro de Artes e Educação, São Paulo. Começou a escrever Macacos quando ainda era estudante e morava no centro universitário, o Crusp. 

A peça Macacos recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio de Melhor Ator no XX Festival de Teatro do Rio de Janeiro e Melhor Dramaturgia no Narrativas Urgentes no Festival Breves Cenas de Teatro no Amazonas. A peça Macacos estreou no Teatro Popular Oscar Niemeyer, em 25 de setembro de 2016, integrando o festival de teatro de Niterói em Cena, em Niterói, RJ. Uma dramaturgia-denúncia escrita entre 2015 e 2021, montada como uma peça sem cenários e dividida em episódios apenas por uma questão dramatúrgica. Coisa nossa, do Brasil-sil-sil.

E cabe aqui lembrar o Episódio 4, uma notícia pra qualquer um, em que Clayton Nascimento destaca : “... e a Terezinha virou notícia num jornal para qualquer um. [em tom jornalístico] Terezinha Maria de Jesus, mãe do menino Eduardo de Jesus, assassinado aos 6 anos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em 2015, precisou se mudar de estado após a morte do filho. O seu casamento acabou. No final de 2016, a Justiça brasileira julgou o caso Eduardo de Jesus e decidiu que todos os policiais envolvidos no caso estavam absolvidos. Por legítima defesa. O caso foi arquivado. No dia 5 de dezembro de 2019, o delegado do caso menino Eduardo de Jesus se tornou réu. Foi acusado de corrupção. Fim do jornal.

Desde que a peça Macacos estreou, por volta de 2016, eu fui me aproximando cada vez mais de Terezinha. Eu ainda me lembro de que na apresentação da peça no Teatro Baden Powell, em Copacabana, a poucas horas da apresentação, chega uma jovem senhora, muito bonita, vívida, de sorriso largo, de braços dados com uma amiga e rodeada de algumas crianças: — Boa tarde. Eu sou Maria Terezinha. Mãe de Eduardo. Vim falar com o ator. Soube que ele tá falando de mim na peça. A Terezinha me contou sua história. E notei que ela tinha detalhes bastante diferentes de tudo o que eu já havia lido para preparar essa peça. [como se numa lembrança repentina] Nessa semana, essa última que passou, eu falei para a Terezinha que eu estaria aqui, fazendo a peça pra vocês…”

Ainda neste Episódio 4, Clayton cita outro caso : “Joselita de Souza, mãe de Roberto de Souza, o Betinho! Assassinado aos 16 anos em Costa Barros com 111 tiros da polícia, enquanto saía com os amigos para gastar seu primeiro salário de Jovem Aprendiz. Cento e onze tiros. Após a morte do filho, a mãe, Joselita, não aguentou a dor e foi internada. O salão de cabeleireiro, que ela tanto sonhou abrir, fechou. Nessa última semana, essa mesma que passou, o seu filho mais velho, Vinicius, foi visitar a mãe no hospital.” 

O Episódio então se encerra : “MACACO: Aquela foi a última conversa entre mãe e filho. Joselita de Souza, quarenta dias no hospital, sem alegria e comendo apenas sopa, morreu. Não aguentou a morte do caçula. Quando a gente fala sobre o “genocídio negro” no Brasil, a gente sempre imagina que será uma figura negra, na maioria das vezes homens entre 20 e 30 anos, mortos pelas mãos do Estado brasileiro. Mas e as mães? E as mães do genocídio negro? E essas mães? E as mães do genocídio negro? Quem fala delas, dessas mães?” A peça Macacos também foi publicada em livro pela editora Cobogó, pela Coleção Dramaturgia, em 2022, com 72 páginas. E sobre o Episódio 4, destaquei o texto de Clayton que fala por si. 


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-peca-macacos/ 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

DE QUEM É A CULPA DO TARIFAÇO

 “Estados Unidos justificou a taxação alegando falhas do Brasil”


Com a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre grande parte dos produtos exportados pelo Brasil pelo governo Trump, a disputa de versões no debate político do país retomou a pauta e a crise comercial vira um dos focos principais de impacto sobre as próximas eleições presidenciais brasileiras. O embate se dá, sobretudo, entre as candidaturas do atual presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), até agora, e cada um coloca a culpa em seu adversário político. 

Da parte da militância da campanha governista o termo “TariFlávio” foi adotado para direcionar a culpa do tarifaço trumpista na conta da família Bolsonaro, como traidores da pátria e sendo acusados de terem pedido sanções contra o Brasil. Flávio Bolsonaro, de seu lado, atacou Lula chamado-o de “Biden brasileiro”, como metáfora para a inação do governo. E na tentativa de se desvencilhar da versão lulista, Flávio disse que sua viagem aos Estados Unidos foi para convencer pelo adiamento das sobretaxas trumpistas para depois de outubro, o que seria após o primeiro turno das eleições. 

A estimativa é de que haja um impacto entre 18% e 25% sobre as exportações brasileiras para o mercado norte-americano, com um impacto de até U$ 9,51 bilhões. Os Estados Unidos também publicaram uma lista de exceções, mais de 2.000, que são insumos isentos da sobretaxa para evitar o desabastecimento doméstico, com itens que incluem café, suco de laranja, carne bovina, minerais e petróleo. 

O Congresso Nacional buscava uma aceleração na tramitação de medidas de socorro à indústria nacional, e tanto setores governistas como da oposição intensificaram cobranças sobre o Itamaraty, exigindo uma postura mais agressiva na OMC (Organização Mundial do Comércio), com um consenso político em torno da Lei da Reciprocidade para blindar o mercado interno. E agora o governo brasileiro formalizou um pedido de consultas contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), com a medida tomada pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) para contestar o "tarifaço" imposto pela gestão de Donald Trump.

O recurso do governo federal foca em duas barreiras alfandegárias principais, que são a tarifa de 25%, aplicada sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana, e a tarifa de 12,5%, justificada pela alegação de que o Brasil falhou em fiscalizar e impedir produtos associados ao trabalho forçado. O que agrava mais a situação é que para uma parte das mercadorias exportadas, as taxas são cumulativas e chegam a 37,5%, o que implica num prejuízo para os produtores brasileiros de US$ 6,6 bilhões, impactando setores de máquinas, calçados, móveis, confecções, óleos e madeira.

Ao mesmo tempo, Brasil e EUA abrem um período de negociações diretas em Genebra para buscar um acordo. Caso não haja consenso, o Brasil pode solicitar um tribunal de julgamento. No caso do Órgão de Apelação da OMC, diplomatas brasileiros admitem que o recurso funciona mais para marcar posição internacional, pois devido ao travamento do órgão, a OMC está paralisada desde 2019, após seguidos bloqueios dos próprios Estados Unidos, em que o tribunal não consegue julgar recursos por falta de quórum de juízes. 

Paralelamente à ação jurídica internacional, o governo federal avalia acionar instrumentos da Lei de Reciprocidade comercial interna como forma de resposta. Contudo, após a reunião do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, com lideranças industriais e empresários brasileiros afetados pelo novo tarifaço de 25% confirmado pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos, o setor privado se opôs à aplicação da Lei da Reciprocidade, esta que imporia taxas de retaliação a produtos americanos, defendendo uma postura mais moderada e pragmática.

Também com o objetivo de  impedir uma possível escalada de prejuízos econômicos, consolidou-se o consenso pragmático e a rejeição à revanche comercial, pois a avaliação da indústria brasileira é a de que diante da imprevisibilidade de Trump, tal confronto poderia gerar mais instabilidade ainda e novas restrições tarifárias. Alckmin frisou que a estratégia oficial será a negociação contínua e ampliação da busca por mercados alternativos em outros continentes, embora tenha classificado as sanções baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA como "injustas e descabidas", uma vez que os Estados Unidos já acumulam superávit comercial histórico na relação bilateral com o Brasil. 

No lugar de retaliações comerciais, os empresários defenderam medidas pragmáticas internas para amortecer o impacto financeiro do tarifaço norte-americano nas exportações brasileiras, com pedidos de redução de tributos acumulados na cadeia produtiva e a ampliação dos prazos e facilidades do mecanismo de drawback, que é a isenção de impostos para insumos usados nos produtos exportados, isto é, mirando a redução do chamado Custo Brasil. 

Outro objetivo traçado foi o do aperfeiçoamento do Programa Brasil Soberano, em que o setor de máquinas pleiteou maior flexibilidade nas regras de elegibilidade das linhas de financiamento criadas pelo governo federal, como um meio de socorro às empresas que enfrentam perdas imediatas no mercado norte-americano. E com o apoio da ApexBrasil haverá esforços do governo no redirecionamento do escoamento de mercadorias para novos blocos econômicos.

Setores da indústria de transformação, bens de capital e manufaturados de alto valor agregado lideram o movimento pragmático para evitar o agravamento da crise comercial caso haja retaliações precipitadas, pois a Lei de Reciprocidade ainda está na pauta e pode ser acionada, podendo escalar o conflito diplomático e comercial com os Estados Unidos. 

Estes setores são representados por entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e empresas ligadas à Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) lideram a cautela diante do tarifaço trumpista. No caso destes setores ocorre exportação de maquinários agrícolas, ferramentas industriais e equipamentos de mineração customizados sob encomenda, e uma retaliação intempestiva do governo brasileiro poderia travar de vez os contratos de longo prazo com compradores norte-americanos.  

A cautela ainda envolve o setor automotivo e componentes (autopeças), em que fabricantes são altamente dependentes das cadeias globais de suprimentos que abastecem as montadoras norte-americanas. No caso do setor de calçados e vestuário, representado por entidades como a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), os Estados Unidos são o principal mercado internacional dos produtos brasileiros, com margens de lucro historicamente limitadas, e caso a crise escale, a cumulatividade de taxas poderá paralisar linhas de produção com demissões em massa.

Temos também os setores de madeira, móveis, papel e celulose, que envolvem produtos manufaturados com forte concorrência internacional,  em que há uma defesa de uma via diplomática e investimentos em lobby em Washington para negociar a inclusão de produtos em listas de exceções tarifárias. O setor sucroenergético, com produtores de biocombustíveis e derivados da cana, tiveram o etanol e o açúcar sobretaxados diretamente na Seção 301, ao contrário de commodities tradicionais como o café, a soja e a carne bovina, poupados pelo tarifaço trumpista. 

Esses diversos setores possuem uma estratégia de lobby internacional que funciona através da intervenção direta nos centros decisórios de Washington, usando advocacia jurídica, diplomacia empresarial corporativa, pressão política indireta, frente aos canais políticos limitados do governo federal brasileiro com a gestão de Donald Trump. Empresas e associações brasileiras contratam lobistas e escritórios de advocacia. 

O CNI e a Abimaq contratam firmas especializadas em Washington de perfil republicano e próximas ao governo trumpista. Ainda há a atuação de profissionais sob o FARA (Foreign Agents Registration Act), com o intuito de abrir diálogo direto com o DOC (Departamento de Comércio) e no USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos). 

Tais iniciativas ocorrem, por exemplo, com o lobby, que pode encontrar brechas técnicas nas regras da Seção 301 e Seção 232, através dos advogados que podem protocolar petições provando que determinados insumos brasileiros são insubstituíveis, na tentativa de garantir cotas de isenção e retirada de produtos específicos do tarifaço. 

E a indústria brasileira mobiliza as próprias empresas norte-americanas que compram produtos desta, fazendo com que companhias dos Estados Unidos vão ao Congresso de seu país para reclamar que a sobretaxa sobre peças, motores ou madeira brasileiros aumenta os custos de produção e gera inflação para o consumidor norte-americano. Por fim, as empresas industriais brasileiras ainda podem se unir a coalizões de outros países afetados pelas mesmas tarifas, junto a indústrias da União Europeia, Japão ou México, por exemplo.

Por seu turno, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos justificou a taxação alegando falhas do Brasil no comércio digital, acesso ao mercado de etanol e no controle ao desmatamento, como já havia feito na primeira onda do tarifaço, depois em parte revogada por Trump, na historinha da química com o Lula, mais um sonho numa noite de verão para incautos e impressionáveis, além de uma balela midiática.

Agora temos o governo Lula que acusa Trump, o da química, de estar retaliando ideologicamente a autonomia econômica brasileira, principalmente por causa do Pix, e devido à independência diplomática do Brasil. Enquanto isso, o argumento da oposição foca no discurso beligerante de Lula contra os Estados Unidos e na incapacidade de negociação do Ministério das Relações Exteriores para a costura de acordos comerciais bilaterais sólidos como causas do novo tarifaço trumpista. 

Mesmo depois da opinião pública tender a aderir mais pela versão governista que culpa Flávio Bolsonaro pelas sobretaxas recentes do governo norte-americano, com base nos dados Quaest, na primeira rodada de pesquisas institucionais, que também revelou que 49% da população acha que os Estados Unidos agiram para frear o avanço de tecnologias brasileiras como o Pix. 

Os desdobramentos políticos no Brasil, a partir deste último tarifaço trumpista, foram o racha no Centrão, com partidos de centro que estudavam alianças com a oposição tendo que recalcular a rota. Tudo para não se associar à imagem produzida pelos governistas do “TariFlávio”, com mais adesão na opinião pública do que a do “Biden brasileiro” para Lula, por exemplo. 

Frente aos dados institucionais, restou à oposição uma mudança tática, direcionando a sua crítica ao governo no tema da inflação, com a militância bolsonarista inundando as redes sociais com projeções de aumento de preços de produtos importados e demissões na indústria, na tentativa de transformar o tarifaço em um "imposto do Lula".

O sucesso do Pix perante a opinião pública, entrando como fator principal no debate em torno da soberania nacional na questão das disputas comerciais com os Estados Unidos, dificultou críticas da oposição neste caso específico, como a defesa técnica das tarifas feita por setores liberais, e reforçou a percepção do motivo real da USTR ter citado o Pix como uma barreira comercial. Na verdade, o Pix reduziu o mercado das gigantes norte-americanas de cartões, tais como Visa e Mastercard, e de serviços de pagamento. 

O governo norte-americano alega que o sistema é subsidiado pelo Banco Central e, portanto, tem custo quase zero, constituindo concorrência desleal contra empresas privadas dos Estados Unidos que precisam cobrar taxas por transação. Enquanto Lula e seus aliados difundiram a ideia de que o Brasil está sendo punido por sua competência tecnológica, com o discurso de que: "Eles querem taxar nosso café e aço porque criamos um sistema melhor e mais barato que o deles". 

Associar o tarifaço ao sucesso do Pix é uma tentativa de blindagem do governo brasileiro de críticas sobre falhas diplomáticas. E para a oposição se configura uma armadilha em que Flávio Bolsonaro tenta se equilibrar entre a defesa do Pix e a relação com Trump, ou seja, isso incluiu uma tentativa pífia de convencer o eleitor de que o Pix foi lançado no governo Bolsonaro, com o lançamento de jingles como "O Pix é do Bolsonaro". 

Por fim, Flávio precisa manter a aliança com Trump, numa posição complexa em que tenta manter este apoio sem que isso passe a mensagem de defesa dos Estados Unidos e ataque ao Pix, algo que demandará uma hipocrisia política e uma cara-de-pau que, convenhamos, nunca faltou ao bolsonarismo. 



Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/de-quem-e-a-culpa-do-tarifaco/