PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DOUTRINA DONROE

"Estados Unidos volta a tratar a América Latina como seu quintal”


O presidente dos Estados Unidos, depois de investir numa política comercial de tarifaços, com avanços e recuos, rompendo com o multilateralismo de uma economia integrada e globalizada, com cadeias de produção interdependentes, agora coloca o mundo geopolítico, no seu aspecto de esferas de poder, também sob um retrocesso em que a ordem mundial regride a divisões de influências de poder que remetem ao século XIX. Tal retrocesso já tinha começado por parte de Putin, com a invasão russa na Ucrânia, numa guerra territorial que também tem ecos em outros tempos, e que colocou a Europa novamente no mapa da guerra clássica, o que não ocorria desde o combate contra o nazismo alemão e o fascismo italiano na Segunda Guerra Mundial. 

O ano de 2026 começa com uma invasão norte-americana na Venezuela, de caráter tópico, pois não houve continuidade e aprofundamento de um plano de ocupação territorial ou até de mudança de regime político. O que aconteceu como fato principal foi o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa e o transporte dos mesmos, por navio, até Nova York, para um julgamento. Tal medida de Trump rompe com o sistema jurídico internacional, em que o Conselho de Segurança da ONU tem que autorizar o ataque de um país a outro, ou quando se trata de casos de legítima defesa.

Ocorre um retorno à Era dos Impérios, em que parece ter tido um acordo de zonas de influência, abrindo caminho para que os Estados Unidos retomem, ipsis litteris, sem esconder nada, a política que Trump passou a chamar de Doutrina Donroe, remetendo à antiga Doutrina Monroe, mas que está mais próxima do que foi o Big Stick de Theodore Roosevelt no início do século XX, em que os Estados Unidos tornaram o chamado Destino Manifesto em geopolítica de domínio regional. 

Houve, então, uma troca, em que os Estados Unidos volta a tratar a América Latina como seu quintal, como uma zona de influência de caráter colonial, com a Rússia, que passa a ficar mais à vontade em relação à Ucrânia, partindo para o acordo que sempre desejou, com um terço do país vizinho anexado, isto é, além da Crimeia, já ocupada há alguns anos, tendo agora  a possibilidade de anexar de vez o Donbass, consolidando as forças separatistas pró-russas, apoiadas pela Rússia, que tomaram partes das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, declarando as Repúblicas Populares de Donetsk (DNR) e Luhansk (LNR), criando um corredor terrestre até a Crimeia, e com a China já visando Taiwan, que poderá ser invadida a médio prazo ou em algum momento incógnito, com a tensão que já havia no Mar da China ganhando novos contornos. 

A Era dos Impérios é a retomada da lei do mais forte, em que o sistema político global, que na globalização se estruturava através do comércio e da economia, tem agora no poder militar o fator determinante da divisão de influências no desenho geopolítico, isso incluindo a China, de posição mais voltada à diplomacia e a inserção comercial, no nível mundial, mas sendo uma constante ameaça contra Taiwan e com um histórico de anexações sangrentas como a invasão do Tibete, e os massacres contra muçulmanos no sudoeste do país.

A China agora também enfrenta uma renovada tensão com o Japão, que agora tem uma primeira-ministra de extrema direita que parece estar despertando novamente os instintos militares nipônicos, que estavam adormecidos desde a queda do imperialismo expansionista da época do Eixo e da Segunda Guerra Mundial, em que o Japão já ocupava a Manchúria, parte do território chinês, naqueles anos. 

E agora os Estados Unidos saem do discurso e partem para as vias de fato na invasão à Venezuela e com ameaças à Groenlândia e o Irã, entrando numa seara que tinha sido detonada na História contemporânea com a invasão russa, de Putin, na Ucrânia, que já gerava tensões com a Otan, agora se vendo com a questão norte-americana em relação à Groenlândia, que pertence à Dinamarca, que faz parte da organização, e que inclui o próprio Estados Unidos, o seu principal financiador, criando um circuito de tensões que leva de roldão todos os países europeus que fazem parte da Otan. 

No caso da lei do mais forte, fica restabelecida a lógica de que dentro da divisão de zonas de influências, as respectivas potências mundiais estão liberadas para qualquer ataque em suas zonas, ou seja, a Era dos Impérios rediviva é a implosão do aparato geopolítico erguido pelo direito internacional do pós-guerra, em que surgiram a ONU e outros organismos internacionais que visavam a multilateralidade e a manutenção de uma paz diplomática e sempre negociada em todas as questões. 

Este retorno da Era dos Impérios é a derrubada do conceito mais contemporâneo de soberanias nacionais, de inspiração iluminista, com a consequência do esvaziamento do direito internacional e do fim da globalização que atravessou os anos 1990 e ainda regia o comércio mundial até as intervenções tarifárias norte-americanas e agora o fim do multilateralismo, da soberania, e de tudo que foi acordado desde a segunda metade do século XX. 

Gaza foi uma espécie de laboratório de guerra genocida em que ficou provado que Israel poderia exterminar o povo palestino sem consequências na geopolítica internacional, o que proporcionou aos Estados Unidos e outras potências de que as invasões, expropriações etc, já não precisavam mais observar o sistema jurídico internacional, que vive agora mais que um esvaziamento, mas uma verdadeira implosão, numa nova era de retrocesso, ou seja, um museu de grandes novidades, citando Cazuza. 

Esta nova dinâmica de poder, opressão e controle, é nada mais que o antigo modelo imperialista que encontra ecos com o século XIX, num aprofundamento do Estado de Exceção com os plenos poderes concedidos ao ICE, a polícia de imigração, em um processo que já tinha começado, nos Estados Unidos, desde os ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, incluindo um ataque, que falhou, visando atingir a Casa Branca, na maior façanha terrorista da História Mundial, feita pela Al-Qaeda de Osama Bin Laden, no 11 de setembro de 2001, em que foram promulgadas leis, como o Patriot Act, que expandiu os poderes de vigilância das agências de segurança sobre a população norte-americana.

O Estado de Exceção norte-americano avançou com os ataques ao Afeganistão e ao Iraque na chamada Guerra ao Terror, na presidência de George W.Bush, em que a ONU começou a ser esvaziada em sua autoridade, além da Base de Guantánamo, em que prisioneiros de guerra se encontravam num limbo jurídico, sem quaisquer garantias constitucionais, remontando zonas de exclusão em que a lei foi suspensa como os campos de concentração nazistas e os de refugiados em Gaza.

Nesta nova Era dos Impérios temos uma escala de países que podem ser divididos em três categorias, em que as novas potências são os impérios militares e econômicos, com armas nucleares, que determinam as regras do estado de exceção nas relações internacionais, que são os Estados Unidos, a China e a Rússia, seguidas das potências médias, que possuem armas nucleares e poder econômico, como o Reino Unido, a França, a Índia e Israel, e na base estão os outros países, que estão vulneráveis em relação às grandes potências, podendo manter a independência, virar países satélites ou protetorados destas potências militares e econômicas.

A Nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, anunciada pela Casa Branca em dezembro de 2025, colocou a América Latina na prioridade como zona de influência norte-americana, em que este documento atualiza a Doutrina Monroe, que foi feita pelo presidente James Monroe, em 1823, que defendia a “América para os americanos” e que fundamentou e justificou ações diplomáticas, militares e econômicas, de consolidação da influência dos Estados Unidos no continente americano. 

Trump começou exercendo esta nova doutrina no Panamá, fazendo com que o país rompesse a cooperação em infraestrutura com os chineses, apoiando o candidato conservador a presidente de Honduras, Nasry Asfura, do Partido Nacional, com ameaças de suspensão de ajuda financeira ao país caso ele não se elegesse, sendo estes dois movimentos sendo feitos ainda antes do ataque à Venezuela. E a nova doutrina ainda incluiu um socorro financeiro de U$20 bilhões ao governo argentino, do aliado de Trump, o ultraliberal, anarcocapitalista, Javier Milei, dias antes das eleições legislativas na Argentina, o que garantiu a vitória do partido governista e a sobrevivência do governo. 

Domesticamente, Trump está sob crítica intensa pela sua utilização autoritária do ICE contra a imigração, ainda tendo as denúncias de pedofilia do caso Epstein (cujos arquivos que estão sendo vazados e revelados e que vou detalhar em outra coluna), com as eleições de meio de mandato se aproximando, além de uma resistência interna contra novas incursões militares norte-americanas, pois são caras e ineficientes, com um passivo histórico recente de fracassos, cujo exemplo mais emblemático é o do Afeganistão, reocupado pelo Talibã, e todo atoleiro que foi a ocupação do Iraque após a queda de Saddam Hussein, com tentativas frustradas de mudança de regime, algo que ainda orientava a geopolítica da Guerra ao Terror de George W. Bush.

No caso das incursões militares, tal intenção de mudança de regime de outros países parece passar longe das preocupações de Trump que, no caso da Venezuela, já deixou à luz do dia suas intenções corporativas em relação ao petróleo venezuelano. Ainda temos um regime bolivariano em vigor, mas em uma condição ambígua, de uma Delcy Rodríguez, que colabora com o plano norte-americano, ao passo que a oposicionista Maria Corina Machado, que ao entregar o seu Prêmio Nobel a Trump, numa cena patética de rastejamento político e de atuação servil, numa vassalagem de sabuja, mesureira, lacaia, bajouja, chaleira e sevandija, diante de seu vicário, superou até mesmo a própria família Bolsonaro, notórios baba-ovos de Donald Trump de primeira hora, em termos de vassalagem explícita, rebaixada e sem vergonha, ou seja, uma façanha.

(continua)


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/doutrina-donroe/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

POEMA LISÉRGICO

Nota dos registros desta esfera, orbe, continente,

a barca sonha e viaja, semeia os caminhos,

e estes que estão no aluvião, na ressaca,

com a infernal batida de pedras, a febre

mais cáustica, tomando o veneno dos ares,

não, estes não verão o advento, a aurora.


Tem este poema aqui sua volição,

entrementes, os ases, os tenazes,

sacrificam seus corpos, no giro da roda,

ganhando o seu poder de brio, 

e a força que não faz barganha,

que não alucina e que não

entrega a sua honra.


Foi vivendo deste canto fatal

que eu vi a sabedoria extática

da dança, como o dervixe

ao estar nos paraísos artificiais

de maya, sob a guerra de shambala.


Pois, dos uivos lancinantes da dor,

dos sofrimentos dos fantasmas do frio,

esteve em Lhasa o monge rinpoche,

sorvendo o incenso de mirra e os ventos

em profunda meditação glacial,

como um rio absurdo do vazio,

ali, na quietude liquefeita. 


Eu vi a sua poesia ditada

nos meus delírios, e os vinhos

que corriam como espanto

destas estrelas de firmamento,

nestes adornos do estro,

a reta final para a sua apoteose,

o jardim psicodélico e as virtudes

de sunshine e sua lisérgica trupe.


09/02/2026 Sublime

domingo, 8 de fevereiro de 2026

TERRA INCOGNITA

Os caminhos da noite, qual a virada da vitória,

pela manhã embriagada, ao canto bêbado,

pela praia dos mares das ventanias dos sonhos.

Os colares das conchas na fina flor do sol,

que a estrela matutina brilhava como ilha,

e este arquipélago, dos pássaros albatrozes,

que a nuvem siderada transcendia,

era o poema e sua brisa.


Os cantos antigos, das frutas fluidas,

os magos que do espanto tinham o sumo,

e a doida chama, a nunca apagada paixão,

que os delírios aprontavam na luada

prazenteira, com a vinha de sol solstício,

luneta mágica, dos ouros pratas platinas,

dos ocres cevadas e borrascas,

em que os odores ali voavam,

e a sinestesia era a literária litania.


Brotam os brotos nas jardas dos jardins,

com o olhar perdido em horizontes,

o grande e vasto oceano, 

o fundo verde da floresta,

com o orvalho do bosque 

que do fauno cantava loas,

funda estrela que atordoa,

deste seresteta, relva suave,

dos ares os voos,

da terra a origem.


08/02/2026 Estrela Estrela 

sábado, 24 de janeiro de 2026

ILHA DE SANTA HELENA

Do século do terror, guilhotinas de Brumário,

mortes de Termidor, Robespierre, Danton,

a escumalha violenta de Marat, um Sade

enlouquecido a fazer mofa do Ancien Régime,

com os rococós fedorentos das perucas de Watteau,

de uns brioches mofados de Antonieta,

a fazer de Waterloo a farsa da Restauração

dos Órleans, de uma baguete Bourbon,

na bombonière, na boulangerie,

com os ditos de Jean Valjean,

os pedaços de Justine, numa noite

de vileza em Sodoma e a morte

do louco imperador da Ilha 

de Santa Helena, numa casa

infestada de ratos e aranhas,

espumando pela boca o 

arsênico verde-esmeralda

com o brasão de Flor

da dama suicida, poetisa má,

que escreveu seu epitáfio

fumando um haxixe nas 

montanhas dos Pirineus.


24/01/2026 Monster 

  

AZUL DA PRÚSSIA

A cápsula explode no seu aroma doce e amargo de amêndoa,

escorre o azul nos tijolos e os corpos estão só ossos.

O vinco da goma, o cheiro inerte de pneumonia,

nas catacumbas dos suicidas, nos mártires que

ecoavam seus fantasmas nos pântanos e nos vales.


Os poemas que ali cessaram, o julgamento capital

sobre as cabeças das bestas-feras chapadas

de anfetamínicos e de codeína injetável.

Os ritos romanos dos asseclas da morte,

que na árdua ária trinava o caos.


Eis os escritos das chusmas das cinzas,

o pigmento venenoso que mata a presa,

arde na boca dos assassinos, rompendo

o véu das astúcias e dos ardis,

queimando na noite das facadas.


24/01/2026 Monster 

domingo, 18 de janeiro de 2026

RELVA BRUMA

Vicários da armada solar,

os seixos da floresta densa,

em que os capitulados gemem,

na noite da chuva o terrível

cosmos engole o desespero,

correnteza das nuances, 

os poetas das ilhas brotadas,

dos elfos ritos das fadas loucas,

em relvas brumas montesas. 


Surge, vai vindo o silente estrondo,

nas águas das páginas marítimas,

dos dosséis florifloridos,

latifoliada canção arvoreda, 

plenipotente, o poema brio. 


18/01/2026 Sublime 

O POEMA DE TORPEDO

Alucina a tormenta, o torpedo que tonteia a febre.

Vários executados, corpos mergulhados no mar,

o apito do sino, o farol que brilha na noite.


Eis que de poesia morre o velho, o vate vive.

Pois, dando de si ao torrente da alma,

tonitruante o estro mapeia a alma,

localiza a magia, faz o milagre.


O poeta, com os ases e o comando,

dá os nós do vento, à sorrelfa,

na queda do navio astuto,

na praia dos lírios cantantes,

diante da lufada do sol.


18/01/2026 Monster