PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

GARRAFA DE VINHO

As vidas estalam no vento, com os vícios

da atmosfera, a tosse, o vinho, a ira.

Pois a poesia rebate cáustica, e vem de 

prisma, de fio desencapado, com as gritas,

devaneios, e astúcias na luta lida cantoria.


Tem do vate o bardo no peito, do canto

à lua, ao sol e ao mar, dos versos sonoros

que o castelo vibra, e o vítreo púlpito

ressoa, tem este fogo e esta marca furiosa,

e o ritmo que encara toda senda brutal.


Eu escrevo os inícios do jovem poeta,

seu sangue simbólico, sua arte velhaca,

e o mármore antigo de leituras estupefatas,

e que somem nas espumas dos dias.


A livre borrasca, tempestade plangente,

dos ódios amores dores e os desvarios,

as porradas na porta e na janela um bebum.

Temos esta noite de boêmia, na astuta noite

dos poetas da festa nos langores e as danças

de vindimas nos dosséis das musas.


07/05/2026 Estrela Estrela  

quarta-feira, 6 de maio de 2026

RAIO VERTENTE

Sei dos lírios e seus risos, as nuvens

que brotam do dia, como o raio vindo

na longa estrada, dardo lançado,

a espuma do mar, vai e vindo,

como a estética aflorada em poesia.


Com os ditos e sentenças decorados,

Mnemosyne com esta astuta farra,

os delírios estetas do estuário,

os veios dos livros lancetados,

da ignara malta, a miséria não lida,

que estava dormindo.


Pois o mundo gritava, doía,

maltratava-se. O mundo bruto,

monolítico, absurdo.


Este poema é dito recôndito,

da chama ainda acesa,

diante dos lagares,

da luta e frêmito,

as asas abertas

dos amores 

leves, dos 

cantos de

aurora

e fim. 


06/05/2026 Sublime  

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O APOCALIPSE PARIU UM IDIOTA

“uma dinâmica de bravatas megalomaníacas e recuos patéticos”


“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá (…) Talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!” Assim disse Trump em sua bravata mais patética desta quadra da História.

Era uma coletiva de imprensa em que o presidente norte-americano ameaçava realizar um ataque sem precedentes sobre o Irã caso este país não reabrisse o Estreito de Ormuz até a noite de terça no dia 7 de abril. Contudo, Trump concordou em suspender ataques ao país do Oriente Médio por duas semanas. Tal anúncio ocorreu duas horas antes do fim do prazo estabelecido pelo ultimato trumpista, em que Trump afirmou que os Estados Unidos tinham alcançado uma “vitória total e completa”. Decisão tomada após conversas com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, que pediram a suspensão das ações militares imediatas.

Tal cessar-fogo, que estava condicionado pela reabertura do Estreito de Ormuz, era um plano de Trump de suspensão dos ataques contra o Irã por duas semanas. Seria um acordo bilateral. Uma das razões é que Trump havia declarado que os Estados Unidos já teriam alcançado os seus objetivos militares e que um acordo definitivo já estaria próximo, o que incluía uma proposta de dez pontos do Irã, que foi considerada pelo país norte-americano como uma base viável para um acordo mais amplo. 

Depois de anunciar que faria ataques contra infraestruturas como pontes e usinas de energia no Irã, Trump afirma em publicação na plataforma Truth Social que tinha decidido pelo adiamento dos ataques após conversas com autoridades paquistanesas, em uma manobra diplomática do Paquistão para que as negociações avançassem durante este cessar-fogo, além de reduzir as tensões na região. O premier paquistanês Sharif pediu que Trump ampliasse o prazo para o Irã e também pediu a Teerã a reabertura do Estreito de Ormuz. Tal diplomacia tinha resultado incerto, e foi o que se provou logo em seguida. 

Em meio a questionamentos sobre a campanha norte-americana contra o regime iraniano, em que esta alternância entre guerra e cessar-fogo, em que se dá uma dinâmica de bravatas megalomaníacas e recuos patéticos de Trump, consolida-se uma imagem de fraqueza na opinião pública em relação ao governo trumpista, sobretudo diante de China e Rússia, num contexto de retrocesso estratégico, em que a hegemonia do poderio militar dos Estados Unidos se vê minado em uma guerra assimétrica de drones caseiros e golpes na economia mundial representada pelo petróleo. 

Trump lida com o desastre de um problema econômico inventado, os tarifaços, e uma guerra também inventada pelo seu narcisismo, num caos geopolítico em que a invencionice, que é ir além dos problemas naturais e culturais normais, da vida em sua dinâmica, tomando este rumo produzido por um ego mimado, narcisista, que extrapola a realidade, sem as vicissitudes da psicose delirante ou alucinada, mas fora da realidade, com postagens que viram memes como numa autoparódia messiânica de uma ego trip mundial. O narcisismo é fronteiriço com a realidade das coisas, tal qual o psicótico que delira e alucina, contudo, neste caso, a bomba cai na cabeça dos outros. 

O cessar-fogo trumpista, depois de uma bravata patética de uma épica anacrônica, culmina também em algo frágil, que desmorona num estalar de dedos, com os ataques de Israel contra o Hezbollah no Líbano, que ganham escala com mais de duas mil mortes e bombardeios intensos em Beirute e no sul, incluindo também ataques contínuos na Faixa de Gaza. E Israel também atacou o Irã, em um conflito que envolve o controle militar israelense em partes da zona costeira, através de campanhas aéreas intensivas contra instalações militares e nucleares iranianas.

Israel julgou o momento propício devido à vulnerabilidade em que se encontra o regime dos aiatolás, no intuito de impedir que a teocracia chegue à construção de uma bomba atômica, o que se sabe, pelas próprias análises feitas por autoridades, que está bem longe da realidade. Tais ataques ocorreram horas após o anúncio do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, em que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu afirmou que o conflito no Líbano não se aplicava ao acordo, e Donald Trump endossou a posição israelense, embora o mediador paquistanês, logo a seguir, tenha afirmado que o Líbano estava incluso na trégua. 

Neste ínterim, o Irã acusou Israel de violar o cessar-fogo e voltou a fechar o Estreito de Ormuz. E o Irã está tanto frágil internamente como tem seus principais aliados em vulnerabilidade também, pois sofreram derrotas sucessivas em confrontos com Israel, com apoio das principais potências militares do Ocidente. O Hezbollah perdeu sua liderança, milhares de combatentes e parte de seu arsenal devido aos ataques no sul do Líbano. A Síria teve a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. Em Gaza e na Cisjordânia, o Hamas e a Jihad Islâmica continuam sendo atingidos por Israel. 

Além disso, foram assassinadas importantes lideranças militares iranianas, além de comandantes regionais ligados à Força Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã. O regime dos aiatolás também enfrenta desafios internos em que a economia sofre inflação alta e sanções internacionais, lida com protestos contra o governo, iniciadas em 2022 após a morte da jovem Mahsa Amini por não estar usando “corretamente” um véu islâmico para cobrir os cabelos, e que continuam acontecendo, diante de grande repressão. 

Israel tentou se antecipar a um novo entendimento entre Irã, Estados Unidos e países europeus, pois após isso as ações militares israelenses contra a infraestrutura iraniana seriam consideradas como uma violação do consenso internacional. Benjamin Netanyahu também visa a sua manutenção no poder, uma vez que enfrenta uma crise de credibilidade política, que se ampliou com a crise de Gaza, e o estado de guerra de Israel interessa, portanto, ao primeiro-ministro. 

Israel intensificou os bombardeios contra o Líbano com o início da guerra no Irã, após ataques do Hezbollah contra o país israelense, enquanto o grupo xiita alega agir em retaliação aos ataques de Israel contra o país libanês e como resposta ao assassinato de Ali Khamenei, líder supremo do Irã. E o conflito também está ligado à destruição da Faixa de Gaza a partir de 2023, em que o Hezbollah lança foguetes contra o norte de Israel em solidariedade aos palestinos e para atingir a defesa israelense.  

O cessar-fogo feito em novembro de 2024 entre o grupo xiita e o governo de Israel, após este ter matado lideranças do Hezbollah, não impediu violações sistemáticas do acordo, com ataques periódicos contra o Líbano, por parte de Israel, para atingir a infraestrutura do Hezbollah. Tal acordo tem sido frágil e ganhou uma prorrogação agora através do anúncio norte-americano, com mais três semanas de trégua, após reunião na Casa Branca, com Trump, J D Vance, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e os embaixadores de Israel e do Líbano. Tais negociações que ocorrem um dia depois da morte da jornalista libanesa Amal Khalil em um ataque aéreo israelense no sul do Líbano. 

O Líbano defende o cessar-fogo como condição para a retirada de Israel do país e definição das fronteiras terrestres, ao passo que Israel quer o desmantelamento do Hezbollah como garantia para a segurança na fronteira. Irã mantém o cessar-fogo no Líbano como parte das negociações com os Estados Unidos. E tanto o Hezbollah como o Irã relacionam o cessar-fogo no Líbano à força conjunta do Eixo da Resistência, que é uma aliança anti-Israel e anti-Ocidente liderada por Teerã, que inclui grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, uma rede de apoio predominantemente xiita e que inclui grupos sunitas.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-apocalipse-pariu-um-idiota/

segunda-feira, 30 de março de 2026

ESTREITO DE ORMUZ E BEIRUTE

“postura instável de Trump”


Com o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, em retaliação aos Estados Unidos, cerca de 15 milhões de barris de petróleo diários deixaram de passar na região, com impactos no mercado mundial de petróleo e de abastecimento de diesel.  A disparada nos preços dos barris fez com que a AIE (Agência Internacional de Energia) fizesse a maior liberação de reservas estratégicas de petróleo da História, num total de 400 milhões de barris agora em março. Tal ação envolveu países da Europa, junto a países das Américas, da Ásia e da Oceania. Os 32 países-membros da AIE realizaram esta ação coordenada para reduzir a pressão no mercado de petróleo causada pelo bloqueio iraniano, visando garantir a estabilidade do mesmo. 

A agência já afirmou que em caso de necessidade poderá fazer novas liberações. Na AIE os países-membros devem manter estoques que equivalem a pelo menos 90 dias de suas importações líquidas de petróleo do ano anterior. Este mecanismo de reservas estratégicas serve exatamente no controle de volatilidade de preços e para garantia do abastecimento do mercado durante crises ou guerras, nos casos em que rotas comerciais importantes possam ser afetadas. Estas decisões pela liberação de barris de petróleo das reservas estratégicas sempre são coletivas, feitas pelos países-membros da AIE em conjunto. 

Não se sabe se esta medida agora será suficiente frente à dependência tanto da duração desta guerra como dos impactos provenientes do bloqueio do Estreito de Ormuz. Mesmo com a liberação de 400 milhões de barris de petróleo, essa é uma fração ínfima em comparação com os cerca de 15 milhões de barris diários que atravessam o estreito fechado pelo Irã. Tal liberação da AIE, mesmo sendo a maior da História, pode acabar em 26 dias, sem compensar a perda de oferta e com poucas opções de contenção de preços, tampouco no varejo. 

Esta liberação de petróleo feita pela AIE é uma medida temporária, pois a solução para o problema somente depende de uma desescalada militar, embora as perspectivas de reabertura do Estreito de Ormuz ainda sejam incertas, com o Irã realizando minagem na região, com cerca de 6.000 minas navais, provocando mais um desdobramento para a crise, em que o controle do estreito pelo Irã reforça o caráter paliativo desta medida da AIE. 

Mesmo com declarações intempestivas de Trump de que a guerra terminaria em breve, pois não havia mais alvos significativos no Irã,  e o anúncio da Saudi Aramco, a maior produtora de petróleo do mundo, de que aumentaria o fluxo de petróleo bruto através do oleoduto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, retomando 70% de seus embarques de petróleo, com o preço do barril de petróleo caindo a US$ 90 e as bolsas reagindo positivamente, houve logo o contraditório com as declarações de membros da administração trumpista, como o secretário de Defesa, que indicavam que a guerra continuaria, deixando clara que a declaração do presidente norte-americano era apenas uma tentativa de acalmar os mercados financeiros, diante do receio de uma escalada militar duradoura no Oriente Médio. 

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, já tinha declarado que não havia nenhum plano da aliança militar de se envolver na guerra com o Irã, e também elogiado a ação norte-americana e israelense como importante para degradar a capacidade iraniana de expansão nuclear e de produção de mísseis balísticos. Mesmo com a recusa de entrar na guerra, países como Reino Unido, França e Alemanha afirmaram que auxiliarão os Estados Unidos no intuito de deter os ataques iranianos. Com o Reino Unido autorizando o uso de suas bases militares pelas forças norte-americanas no ataque a mísseis e locais de lançamento no Irã. 

Mesmo com o apoio de grande parte da Europa, a guerra com o Irã ganhou uma oposição da Espanha que, através do primeiro-ministro Pedro Sánchez, se posicionou de modo a condenar o regime teocrático sem, no entanto, aprovar a intervenção militar, que foi considerada pelo governo espanhol como injustificável e contrária ao direito internacional. E com o aumento das ameaças a navios pelo Irã no Estreito de Ormuz, com alguns que já foram atacados recentemente na região, os apelos pela proteção dos navios mercantes pela União Europeia se intensificaram.

A Operação Aspides, que foi criada há dois anos para defesa do tráfego marítimo contra ataques do grupo Houthi do Iêmen, como uma missão naval de segurança da União Europeia, envolvendo a navegação comercial do Mar Vermelho, Mar Arábico, Golfo de Áden e áreas adjacentes, teve a sua prorrogação até fevereiro de 2027. Tal crise com o grupo Houthi atingiu o tráfego no Canal de Suez, um dos mais importantes do mundo no comércio internacional marítimo. E neste contexto da guerra no Irã, temos a França no envio de dois navios de guerra para o reforço desta Operação, para o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, que são as portas de entrada para o Canal de Suez, elo de ligação do Mar Vermelho com o Mar Mediterrâneo. 

Depois dessa posição da Otan, em que foi considerada a intervenção no Irã como crucial para a segurança da Europa, sem envolvimento da aliança militar diretamente, mas com apoio logístico e acesso para as operações em curso, o chefe da diplomacia da UE (União Europeia), Kaja Kallas, fez a convocação de uma reunião com os países do Conselho de Cooperação do Golfo, com os ministros das Relações Exteriores, ao passo que o bloco comercial e econômico visa a estabilização dos países vizinhos do Irã e de outros países vulneráveis da região, em que Kallas afirma que a UE tem o objetivo de conduzir esforços diplomáticos para a redução das tensões e para impedir que o Irã adquira armas nucleares.

As negociações para a reabertura do Estreito de Ormuz envolvem duas frentes, uma entre os Estados Unidos e o Irã, e outra em que uma coalizão de 22 países, com o anúncio do chefe da Otan, estão se organizando na tentativa de reabertura do estreito, com o objetivo de conter a alta dos preços dos combustíveis. O Irã afirma ter controle total da região, em meio a um ultimato de Trump para a liberação do estreito em 48 horas sob ameaça de represália e depois recuo do presidente norte-americano.

Tal postura instável de Trump agravou a postura iraniana, com o anúncio do fechamento total da área e ataques a empresas norte-americanas caso haja bombardeio de suas usinas de energia. Diante do relato de tentativa de diálogo entre os Estados Unidos e o Irã para uma reabertura do Estreito de Ormuz para que em seguida seja possível um cessar-fogo, este foi desmentido pela imprensa iraniana como “fake news”. E Mark Rutte, secretário-geral da Otan, por outro lado, também não esclareceu como será feita essa reabertura do estreito na prática, pois há uma presença militar de outros países além dos Estados Unidos e do Irã que pode representar um risco de escalada do conflito. 

Diante dos problemas para a reabertura do Estreito de Ormuz, pelo lado de Israel temos os ataques realizados sobre Beirute, no Líbano, em que se tem relatos de bombardeios recentes nos subúrbios do sul, com foco das Forças de Defesa israelenses em infraestruturas do Hezbollah, em que o país judeu expande seus ataques sobre a capital libanesa, no centro da cidade, levando pavor à população local e causando deslocamentos, com ações que fazem parte de uma intensificação das ofensivas militares de Israel na região, visando infraestruturas e centros de comando vinculados ao grupo terrorista xiita Hezbollah. 

Esses bombardeios ocorrem em meio a uma escalada em que se tem relatos de lançamentos de foguetes do Hezbollah contra o norte de Israel, e com os israelenses também enfrentando ataques iranianos, em que o país judeu sofreu ataques sobre Tel Aviv e a região histórica de Jerusalém, ao passo que Beirute teve seu centro e subúrbios densamente povoados sendo atingidos. Em que Beirute e todo o Líbano enfrentam agora uma crise humanitária, com deslocamento massivo dentro do país em torno de 1 milhão de pessoas, e com mais 130 mil que já fugiram para a Síria. 

O sistema de saúde também enfrenta pressão com a morte de ao menos 34 profissionais da área por causa dos ataques militares. Ainda se calcula a morte de 1.350 civis, incluindo centenas de crianças, e ataques de Israel contra a infraestrutura libanesa com a destruição de alvos militares, além de pontes, vilas e estradas estratégicas, impondo dificuldades na ajuda humanitária e no deslocamento dos civis. Por fim, o Secretário-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) alertou contra crimes de guerra que incluem ataques contra forças de manutenção da paz no sul libanês, depois da invasão de tanques israelenses a bases da organização. O governo de Israel justificou a ofensiva como necessária, no entanto, para o controle de posições estratégicas e como impedimento dos ataques do Hezbollah em sua fronteira norte.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :

https://www.seculodiario.com.br/colunas/estreito-de-ormuz-e-beirute/

segunda-feira, 23 de março de 2026

POEMA DA CATEDRAL

A loira vai ao mar, volta na areia

e dá uma tacada de bola na fogueira.

A catedral está cheia de rosas,

dos girassóis da nova manhã.


Os versos estão ao mar e ao rio,

na lagoa e nos riachos,

que só arrisca ao amor

o que ele dá e recebe,

os olhos e a boca,

o sexo e o peito,

as sensações e as ideias.


Sim, tem muito disso

nos risos da alvorada,

nos loas da vivência,

em que os luares

e sóis cantam loucos

o espanto da vida,

os gemidos e os suores,

as cartas e as searas.


Como na catedral tem altar,

se reza o ato de promessas

e da fé, das almas corpos

e dos votos abertos 

em que o coração manda

e não hesita, faz e vive.


23/03/2026 Sublime 

CONTO DO GRIOT

O griot de Cabinda contava uma história

de Exú que carregava uma cabaça, 

Olorum recitava a sua psiconáutica,

com o gorro vermelho, a cachaça

na cabaça, Exú derrama pelo círculo

e taca fogo com pólvora e palha seca

o rito de sarça dos cruzos de velas rubras.


Eis que o griot toca o tambor, recita a lenda

de Luanda, onde mora Zambi e com as 

veredas do Vedas, no sânscrito, e os peles

vermelhas de Tupã, a vela de caravela,

de febre terçã cruzmaltina, matou-se

o degredo e a infâmia da carne 

das moscas, da difteria, da cólera

e da malária delirante.


Trevas dos navios negros de escorbuto,

dos ratos e dos cheiros podres de 

carne morta, queimada, esquálida

e esquartejada, o sangue como numa 

cabidela de tragédia, o gorro vermelho

de Exú no chão de giz, e a lenda

contada do griot espatifada

depois que Castro Alves

morre de tísica no amor

dos mares sem sonhos.


23/03/2026 Monster  

terça-feira, 17 de março de 2026

FEITIÇO

Os breves cantos, na surdina, faceta despudorada do cão,

olha a bruma de sua mandrágora, afetada, e que dança 

a baila rútila e psicodélica, e este morfeu hipnagógico, 

de poção, unguento, na macabra abracadabra,

arranca o toco do corta jaca, na barafunda titânia,

da balalaica, com a pindorama desabrida em vaudeville,

e os poemas que brincam no piche com seus versos absurdos.


O soporífero vem neste tempo deserto western de tiro, 

no duelo da plêiade, em versos de metro cacete, basbaque,

com a coriza maníaca e o sangue que cai da mão na briga, 

com toda a porrada de bar, com este canil de matilha, 

e a luarada do lobo, da alcateia feroz, do trinado, da fuga, 

na brilhante noite da coruja, em que os ritos vampiros tecem 

seus hinos de morte, na lufada de litania, em que o fogo do teatro

enlouquece o corifeu com suas vestais de água e cristal. 


17/03/2026 Monster