PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

MADAME HEROÍNA

O cenário era a São Paulo dos anos 1980, Zack tinha 20 anos em 1985, já fumava maconha todos os dias, e andava como maloqueiro pelas ruas da cidade, principalmente no centro, na Avenida Paulista, aonde arrumava uns trampos de vendedor em lojas de rock, e vendia camisas e discos. Zack era um bom vendedor, entendia tudo de rock, sobretudo punk e hardcore, tinha uma banda de garagem chamada Anti-Pop, e nela ele atuava como vocalista, numa performance visceral e intermitente que era como uma versão do Ian Curtis mais acelerada e canastrona de propósito. A banda tinha sido montada em 1984 e Zack era o front-man do Anti-Pop, o vocalista, e que ainda tinha seu amigo de infância, Frank, na guitarra, o baixista Limão, que respondeu a um anúncio de jornal da banda quando esta estava sendo montada em 1984, e o baterista Romeu, que era primo de Frank pela parte paterna.
Zack queria que a banda fosse uma antítese do novo rock brasil que surgia, tocava em espaços como Madame Satã ou no Napalm, e era uma banda que se juntava ao cenário punk de SP que ali naqueles inferninhos se expandia, e neste momento Frank apresenta a cocaína para Zack, e o que era uma brincadeira para Frank, vira coisa séria para Zack, e sua performance é virada em toda a potência, no que o vocalista do Anti-Pop é logo chamado de o Ian Curtis de SP. As noites no Napalm e no Madame Satã são épicas, geralmente o Anti-Pop aparecia no line-up como banda de abertura para bandas maiores, os shows tinham um ar teatral, e Zack, além da performance frenética durante as músicas, tinha um temperamento tagarela acentuado pela quantidade homérica de vinho que bebia durante os shows, fazendo discursos políticos longos em forma de protesto como se fosse um Jello Biafra brasileiro.
Um dos shows marcantes de 1985 foi no Napalm, em que uma menina de 15 anos sobe ao palco e dá um grito estridente e empurra Zack para fora do palco, e canta uma música do Ramones improvisada por Frank na guitarra, depois Zack volta para o palco tonto de vinho e a menina dá um selinho no vocalista, e então Zack agradecido passa a garrafa de vinho para esta menina que some no meio do público e então Zack continua a sua performance de Ian Curtis em músicas que tinham de dois a três minutos, num passo acelerado que já era um sinal do que Frank viria a fazer futuramente na banda, já sem a influência de Zack, que logo tomaria outro caminho também.
Outro dos shows que são destes primórdios do Anti-Pop é um no Madame Satã em que Zack é hostilizado por carecas, mas estes são expulsos pelos punks e Zack convida uma massa de gente para invadir o palco, e o show vira uma sessão de covers de The Clash e Sex Pistols, com tudo se encerrando em uma grande festa ao som de Anarchy in The U.K., e neste show Zack já exibia um moicano vermelho em que parecia um galo de rinha com correntes espalhadas por todos os membros do corpo, e um Frank de cabeça raspada e pintada de azul como uma bola de sinuca, e logo Zack pensa em raspar a cabeça de zero para provocar os carecas, mas Frank tira esta ideia de gerico da cabeça de Zack, que passa a usar o moicano pintado de verde e não mais de vermelho.  
Em 1986 eles finalmente gravam uma fita-demo com 25 músicas de curta duração, com letras de Zack que exploravam temas políticos, sexuais e culturais, para depois falar de satanismo num contexto em que o crossover tomava espaço nas composições de Frank na guitarra, mas a tendência punk e de protesto destas primeiras letras são ainda a tônica dominante do que viria a ser esta primeira versão da banda Anti-Pop. Zack neste ano também lança um pequeno livro de poesia com cem páginas e lança zines com pensamentos absurdos de sua filosofia punk mal ajambrada, que pregava a paz num tom guerreiro e brigão em verve de contradição que só os mais doidos levavam como algo minimamente coerente. Tais zines eram em preto e branco com desenhos e letras soltas e notas filosóficas sobre o conceito de Anti-Pop, e das razões civilizatórias de se combater a música pop no mundo para que a cultura libertária do punk virasse um novo sistema político nunca fundamentado, pois os textos ao meio para o fim viravam um festival de protestos em slogans que só Zack compreendia seu nexo de hospício, enquanto Frank cuidava do dinheiro da banda, que ainda não era muito.
Em 1987 eles lançam um disco independente só com o nome da banda, numa prensagem de cem discos, que eles vendem nos shows, e que tinha quinze músicas de curta duração em 31 minutos de petardos com influência de Stooges, Pistols e um pouco de Ramones. A banda começa a ficar mais conhecida no underground, e Frank começa a trazer mais influência de metal para a banda, que vai se distanciando do cenário punk original, e os conflitos começam a aparecer, pois Zack queria brilhar como o front-man e estrela ascendente da banda, mas Frank era o operário e compositor da banda, também tomando espaço nas letras, empurrando Zack apenas para suas performances ao vivo. Mas este disco independente ainda é das composições punks que eram mais as influências de Zack do que as de Frank. Mas o caminho de Frank para a banda seria mais forte, uma vez que Zack era um ótimo showman, mas não tinha disciplina para gerir ou ser o líder criativo da banda, uma vez que Zack estava cada vez mais louco com seus zines nonsense e poemas punk sem pé nem cabeça num voo neoconcreto que ia para um caminho de incoerência que logo se revelaria um projeto imaturo e desorientado, pois Zack era um sonhador sem pés no mundo real, o qual pertencia a Frank, este que tomaria então a frente da banda com mãos de ferro.
Então, em 1988 a banda se muda para Belo Horizonte em Minas Gerais depois de assinarem um contrato com a Cogumelo Records, no que sai o disco de thrash metal do Anti-Pop, de título “Bang Your Soul”, que já nada tinha mais a ver com o início punk e das letras de Zack que agora tinham saído para dar lugar para as letras filosóficas de Frank, o que vai minando a relação de Zack com os membros da banda, e seu vício em cocaína aumenta cada vez mais, seu alcoolismo fica descontrolado, até que depois de uma briga em que ele tenta furar Frank com um canivete é então expulso da banda, no que em 1989, já completamente perdido e revoltado, aparece em São Paulo com uma nova banda, esta de hardcore, com o nome de Savior, que só dura aquele ano, eles gravam um disco que é um fracasso e a banda logo se desintegra junto com a alma de Zack, que agora descobria uma brincadeira perigosa que tinha aparecido esporadicamente ali em São Paulo, a heroína, que ele usa quando consegue, mas que logo vira uma dependência química.
E o Anti-Pop se livra naquele momento de um problema para dar saltos no cenário metal nacional e internacional, já deixando suas origens punk para trás, junto com seu lendário front-man Zack, que agora daria um mergulho num sub-mundo não tão legal quanto só se se tratasse de música e atitude e não uma desculpa canhestra para uma fuga do mundo. “Bang Your Soul” ainda tinha Zack nos vocais, mas este já estava com um pé fora da banda, pois ficava entre São Paulo e Belo Horizonte, enquanto o resto da banda se radicava no terreno novo da Cogumelo Records. O disco é bem-sucedido e rende uma turnê da banda pela Europa, agora com Frank na guitarra e vocais, enquanto Zack cai da sua última aventura hardcore para um tombo visceral de sombras. E Zack só não tinha problemas maiores, pois seu pai era um empresário rico que já tinha herdado uma fortuna da família, e talvez este temperamento errante tenha advindo do fato de Zack nunca ter passado por preocupações de ordem financeira na vida, o que lhe tornara um adulto com vida de adolescente, sem ter mínimas noções de responsabilidade.
A banda Anti-Pop, em 1990, grava um segundo disco pela Cogumelo Records, “Heart Attack”, que vai bem e leva a banda a fazer uma outra turnê pela Europa, e que consagra a banda principalmente no cenário alemão, com Frank como guitarrista e vocalista, e agora mais um guitarrista de nome Bruno, como solista, que já participa das gravações deste novo disco com contribuições pontuais. Enquanto isso, Zack também pensa em ir para a Europa, na esperança de se libertar das drogas, o que seria desastroso, pois em 1991 ele se muda para Berlim, e ao invés de se tratar, se afunda de vez na heroína, fazendo viagens intermináveis de trem, e finalmente vai parar na praça de Zurique, aonde termina seu périplo e decide ficar por lá, pois sabia que ali sempre teria acesso ao seu vício sem grandes manobras atrás de um traficante. Lá conhece Elvira, uma brasileira junk, ex-punk, também de São Paulo, que estava ali no mesmo contexto de Zack, e os dois se enamoram. Elvira estava largada pela sua família paulista de elite, então este encontro eram de dois egressos da elite paulistana no mundo da heroína na praça de Zurique.
Zack passa a sustentar seu vício e o de Elvira com uma mesada que o pai de Zack enviava para ele em Zurique, e seu pai sabia de sua situação, mas viu que não tinha saída e não queria que Zack virasse um mendigo ou fosse assassinado por dívida com o tráfico, então Zack também tinha um conjugado em Zurique no qual morava ele e Elvira, esta que já não tinha mais qualquer contato com a sua família e só tinha agora Zack e mais ninguém no mundo. Zack comprava quantidades industriais de heroína para o consumo dele e de Elvira e só não morre nesse período por milagre ou por que era um cavalo químico que não sucumbia mesmo no apocalipse zumbi, e era exatamente neste mundo surreal que Zack se perdia, a Platzspitz era o cenário em que seu sonho opiáceo ganhava voos que só com uma luz abscôndita ele poderia sair dali, ou talvez um choque de realidade, que são geralmente mais eficientes do que qualquer milagre religioso ou revelação mística, e que viria neste cenário como a cavalgada da morte numa carruagem chamada overdose.
Em 1992, então, acontece o tal choque de realidade, pois Elvira morre de overdose na sua frente em seu conjugado que vivia imundo àquela altura numa rotina de desleixo absoluto, e Zack cai em depressão, fica cada vez mais afundado no vício, e tem uma overdose quase fatal no fim daquele mesmo ano, véspera de Natal, e se interna por vontade própria ali mesmo em Zurique, num tratamento de redução de danos, no que consegue diminuir seu consumo, e ele fica até 1993 para se livrar da dependência, quase morre na abstinência, mas se segura com metadona, e decide em 1994, enfim, ir para Londres, e com o dinheiro do pai, já livre da heroína, monta um pub que também era uma loja de discos, e ali vira um festeiro, ainda bebia muito, mas já não usava nem heroína e nem cocaína, o speed para ele então naquele momento era tão proibido quanto blasfemar contra Deus, e sua diversão agora era beber e trabalhar bebendo.
Em 1995, no início do ano, Zack faz uma ligação telefônica para Frank, que estava ainda com o Anti-Pop, e por sinal, a todo vapor, agora como uma banda de thrash metal consolidada no underground com contrato longo com a Roadrunner, banda respeitadíssima e que tinha um público especial na Alemanha e no leste europeu. Zack liga para Frank com a intenção de fazer as pazes e zerar o passado, dá razão para Frank ter seguido em frente com o Anti-Pop, e que realmente a filosofia da banda tinha tomado um rumo diferente do que ele, Zack, esperava, e que na época ele estava muito chapado para perceber isso. Frank diz então que pensou várias vezes em também ligar e pedir desculpas, mas que tinha receio de que ele, Zack, o recebesse com cem pedradas, ou que Zack, seu velho amigo, ainda estivesse num transe onírico em Zurique, sem contato com a realidade, pois esta foi a última notícia que Frank recebeu sobre seu antigo front-man.
A banda Anti-Pop, em julho de 1995, passa então por Londres numa pequena turnê e os caras da banda se reencontram com Zack, é uma festa, e tudo de ruim então evapora num Zack que vinha de traumas em Zurique, mas que não tinha perdido o seu brilho de front-man que um dia fora, pois a sombra da heroína não parecia ser mais uma ameaça. Ele ainda pensava em voltar para a música, mas estava um tanto enferrujado, e guardava algumas fotos do período punk em que cantara no Napalm e no Madame Satã com o Anti-Pop.
No meio desta festa de amigos, Zack fica cerca de cinco horas conversando com Frank em particular, numa verdadeira catarse, e se trata de um acerto de contas bem leve, pois os dois sentiam saudades, e a briga era de dois jovens, e agora eles estavam mais velhos, e a banda Anti-Pop como uma força underground caminhando com independência criativa no cenário thrash metal, e Zack emancipado do pai e livre da heroína que quase o matara, se divertindo num pub londrino do qual era o proprietário e que ainda vendia discos e camisas de banda, no que a banda Anti-Pop decide fazer um show surpresa dentro do pub, e a mulher de Frank grava tudo e prepara um mini-documentário, com o brinde de duas músicas punk da banda tocadas também na ocasião com a performance frenética do Ian Curtis brasileiro, o velho e bom Zack, que não tinha esquecido sua origens de showman, mas agora sossegado numa bancada de bar, bebendo e trabalhando no mesmo lugar.
O reencontro de Zack e de Frank rende um tanto, e Zack canta uma música da época punk no show do Anti-Pop em Londres, e o público não sabia quem era aquele cara frenético no palco que canta uma música curta como um petardo em português e desaparece, no que Frank explica o passado glorioso da versão punk do Anti-Pop, no que o material antigo meses depois é lançado pela Roadrunner num pacote especial de natal junto com material novo e inédito numa salada geral promocional da banda para os fãs mais fervorosos, no que Zack passa a ser reconhecido como o ilustre integrante do Anti-Pop que tinha um pub e vendia discos de rock em Londres.
1996, por sua vez, é um ano consagrador para o Anti-Pop, pois Frank nos vocais e guitarra base, Bruno na guitarra solo, Limão no baixo e Romeu na bateria, com a liderança das composições por Frank, lançam seu melhor trabalho musicalmente falando e também de público, o álbum duplo em CD, “New Age of Metal”, tal trabalho é um divisor de águas para uma banda que já era bem conceituada, e os músicos da banda param de adiar a sua mudança de Belo Horizonte para Berlim na Alemanha, e se mudam de vez para a cidade, aonde agora eles figuravam ao lado das bandas locais como os meninos selvagens do Brasil, os renovadores do thrash metal com um álbum de amplitudes que não devia nada mais a ninguém, um trabalho original e poderoso e que coloca Frank como um dos grandes compositores e letristas do metal da década de 90. A banda sai em turnê pela Europa e depois pelos Estados Unidos, aonde ainda eram ilustres desconhecidos, mas a banda fica a maior parte do tempo na Alemanha e nos países do leste europeu, lugares em que o Anti-Pop era uma entidade, e passam por São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre nas últimas datas de 1996, que é o melhor ano da História da banda até ali.
Frank, mesmo diante dos vários compromissos com o Anti-Pop, ainda pensa em ter um novo projeto com seu velho amigo Zack, mas ele sabia que Zack estava bem com seu pub, mas ele sentia falta das performances de Zack nos tempos punk de São Paulo. Algo dizia que o sucesso do Anti-Pop também poderia ser repetido com um projeto paralelo para que Frank fizesse seu tributo ao ilustre desconhecido do pub londrino, conhecido no underground paulistano como o Ian Curtis brasileiro, um front-man lendário que estava registrado em fotos e vídeos da década de 1980. Frank liga então para Zack e diz que vai passar um mês em Londres, mas ainda não fala sobre a sua nova ideia. Zack tinha uma certa nostalgia de seu período punk no Anti-Pop, mas vivia seu período mais feliz no pub londrino, coisa que não sentiu nem em seus tempos de punk paulista e maloqueiro. Frank decide então comer pelas beiradas, mas alimentava este seu novo sonho, tocar novamente ao lado de Zack, coisa que experimentara brevemente no reencontro na mesma Londres que agora fascinava a alma bêbada de Zack, agora um punk de pub, que sabia mesmo ou gostava era de vender discos e camisas de rock, o pub era a parte divertida, sua cachaça eram os discos e camisas pretas. Zack fez isso antes de ser vocalista do Anti-Pop, e sua origem profissional era de vendedor, ao seu estilo rocker e punk.  
Em 1997, em janeiro, o Anti-Pop lança o mini-documentário do pub de Zack, que vende bem, e a ideia de Frank de ter uma nova banda com Zack passa a ser um projeto que também ganha o apoio dos outros caras do Anti-Pop, a Roadrunner compra a ideia e fica só faltando a decisão de Zack por voltar aos palcos, no que ele pede um mês para pensar, em como faria para alguém cuidar do pub se ele fosse cantar de novo. Em março sai a decisão: Zack entraria em estúdios com toda a banda Anti-Pop para compor, e Frank fica esfuziante, ele ali sentiu que tinha seu amigo de volta, mais vivo do que nunca. E o estilo certamente seria o punk original de influências de Stooges e Pistols que eles estancaram na década de 1980, agora com novas composições, mais maduras do que a fase juvenil dos meninos de SP. Pois agora Frank era um músico que podia transitar do erudito para o popular sem afetação nos dois modos de abordar a música e o rock em geral, pois estava no seu auge como instrumentista e compositor, e poderia conduzir Zack de volta ao seu posto de performer rocker frenético e visceral. E o próprio nome do Anti-Pop entra em cogitação, e nasce um dilema entre um nome para um projeto paralelo ou se aquilo também era o próprio Anti-Pop criando dois caminhos simultâneos, e a cabeça de Frank agora ferve para nomear a sua ideia maluca de ter Zack de volta.
Ao fim, em maio, depois dos ensaios e composições rápidas como demanda uma banda punk de garagem, já se tinha 15 novas músicas, todas de 2 e 3 minutos, e Frank então dá uma de doido e diz que o projeto era mesmo o próprio Anti-Pop voltando às origens, e claro que ele sabia que o outro caminho, o thrash metal profissionalíssimo que culminara na obra prima “New Age of Metal” continuaria dando novos frutos, mas era um intermezzo para uma grande festa punk com o filho ou irmão pródigo Zack para ele fazer seu número que sairia de vídeos antigos e caseiros de uma SP punk da década de 1980 para uma Europa que ainda não tinha visto os dotes de front-man de Zack, e que Frank sabia que valia a pena patrocinar aquela ideia maluca e arriscada que até a própria Roadrunner comprara sem grandes problemas.
Frank àquela altura tinha pleno domínio de todos os processos que envolviam o Anti-Pop, incluindo fazer o que quisesse como e quando bem entendesse, mas mesmo assim ele conversou com os donos da gravadora quando teve a ideia de trazer Zack de volta para uma aventura com o Anti-Pop, no que a Roadrunner não contestou, Frank era o líder criativo e dono da banda, mesmo que ele fizesse com que todos participassem com sugestões o tempo todo, mas que os próprios músicos tinham confiança nas ideias de Frank, assim como a Roadrunner, e neste caso inusitado de um disco punk com um velho integrante que não tinha banda há anos, o próprio Frank achou que estava maluco, mas todo mundo ficou maluco junto com ele, e de súbito Zack estava na banda e eles tinham um disco de punk à moda Stooges e Pistols.
Em setembro sai então o disco do Anti-Pop de punk rock, com o título de “Cidade Louca”, com músicas punk em português, como na época em que Zack cantava na banda na década de 1980 antes do ingresso da banda na Cogumelo Records e na guinada para o thrash metal que a banda teve naquele momento. Era um retorno às raízes mais originais da banda que surgira no cenário punk da SP da década de 1980 e foi fazer fama como banda de thrash metal na fria Alemanha e no leste europeu na década de 1990. E era uma apresentação destas origens da banda para o público europeu, que desconhecia completamente quem era aquele novo maluco cantando numa banda que havia feito em 1996 um disco de thrash metal histórico e agora cantava em português com um estilo punk e de garagem.
A aposta dá certo, Frank viu que não tinha ficado maluco, o estranhamento do público logo vira festa, e une as tribos do punk e do thrash, só os mais radicais é que não entendem que aquilo era um momento paralelo da banda mesmo que o nome fosse o do próprio Anti-Pop, ou seja, se tratava de um projeto paralelo sem nome novo, usando a marca Anti-Pop, pois, no fim das contas, se tratava mesmo da própria banda, mas na sua versão crua dos tempos paulistas do punk da década de 1980, portanto, era mais um revival do que uma maluquice sem sentido. E Frank usou este argumento para apresentar o disco “Cidade Louca” para os alemães e nativos do leste europeu, no que dá certo, tirando os radicais que nunca entendem nada ou só entendem o que querem entender.
Zack vira um personagem curioso no cenário metal, um punk numa banda de thrash metal que estava tocando punk em português, com Frank feliz da vida como um músico do Stooges ou dos Sex Pistols, como se não houvesse amanhã, e havia, e ele sabia que era o thrash metal que chegara aos píncaros da glória com o “New Age of Metal”, e que Zack era mesmo o projeto paralelo punk e que a encruzilhada era bem legal e um desafio, ao invés de um problema. Frank estava se divertindo e fazendo Zack se divertir, pois Frank sabia que Zack vivera nas sombras no seu período em Zurique, e Frank estava vivendo a alegria mútua entre ele, os músicos da banda, e um Zack sempre louco e frenético como um punk perdido numa banda de thrash metal.
No fundo todos estavam se divertindo, o caso todo era como isso seria resolvido depois, e logo Zack dá a deixa, pois diz que ele queria curtir a turnê daquele disco e depois voltar ao sossego de seu pub londrino, entre discos e camisas, depois de mais um sonho numa noite de verão, e que ele, Zack, seria grato ao Anti-Pop, tanto pela década de 1980, como com esta nova aventura ácida e doida do disco “Cidade Louca’”, mas que ele, Zack, sabia que Frank tinha uma puta banda de thrash metal que tinha realizado uma obra prima em 1996 com o “New Age of Metal” e que, sim, a diversão é importante, mas o processo histórico da banda era evidente e que isso seria o mais importante a fazer depois da festinha punk improvisada, e que sim isto foi importante para que o Anti-Pop fosse conhecido por inteiro pelo público europeu, que até então praticamente ignorava que um maluco frenético como Zack fizera parte da história daquela banda que era conhecida como uma banda de metal e não de punk, e Zack entendeu que este era o sentido de sua nova passagem pela banda, e Frank também, ao fim, entendeu a mesma coisa, fazia sentido, ou todo o sentido. E Frank também sabia que o mais importante daquilo tudo é que Zack tinha sobrevivido à Zurique, e era mais um motivo para a festa punk com o Anti-Pop antes do retorno ao sério trabalho de um thrash metal consolidado que Frank agora dominava sem afetação ou presepadas.
A turnê dura cinco meses, vai de outubro de 1997 até fevereiro de 1998, quando Zack anuncia que a banda seguiria sem ele, dando prosseguimento ao trabalho que foi realizado em “New Age of Metal”, e que ele, Zack, ficaria feliz observando o caminho de sucesso do Anti-Pop em seu pub londrino, e que já valera a pena aquele disco novo com o Anti-Pop, e que “Cidade Louca” era um ponto fora da curva da banda e que, ao mesmo tempo, revelava a linha da estrada do Anti-Pop, seu sentido total, a versão punk paulista, e o caminho pavimentado no thrash metal de domínio técnico e inspiração rocker plena. Zack sentia que tinha cumprido uma missão especial na banda, e as rusgas entre punk e metal agora estavam numa harmonia inaudita descoberta pelo tempo, senhor de todos os caminhos e percepções. Zack era um coringa que consolidou a banda na sua História, principalmente para o público europeu, mas o processo histórico era continuar o caminho do thrash metal e que agora era uma avenida aberta pelo trabalho em “New Age of Metal”.
Zack volta ao pub em março de 1998, o Anti-Pop entra em estúdio, agora com a formação de Frank nos vocais e guitarra base, Bruno na guitarra solo, Limão no baixo e Romeu na bateria, eles convidam Zack para assistir as gravações e mixagens, e os músicos não pretendiam realizar um trabalho ambicioso como fora o “New Age of Metal”, pois já tinham seu lugar no mercado, queriam um trabalho correto e bem realizado, o que resulta num álbum de cinquenta minutos com onze músicas, sem as ambições do New Age, mas com a pegada thrash suficientemente potente e até mais pesada que o New Age para fazer seus fãs delirarem com a porrada que ganha o título de “Broken Bones”, certamente o álbum mais pesado do Anti-Pop até ali, com um groove que ecoava até um pouco do Pantera do Vulgar Display of Power e do Far Beyond Driven.
Zack então, já em seu pub, bebendo vinho e cerveja, está bem, mas tem três visões que servem para resumir a sua vida até ali. Numa manhã, com o pub ainda fechado, ele vê uma silhueta, naquele tempo ele estava casado com uma carioca de nome Margô, e a silhueta fala o nome de Margô, e ele reconhece a voz de Elvira, uma coisa estranha, mas que ele entende ser uma mensagem, ela repete mais uma vez o nome Margô, e depois sussurra “Anti-Pop, missão cumprida”. Zack não tinha bebido nada e nem estava com sono, mas percebe que aquela silhueta era de Elvira, e depois desencana, entendendo que de fato o Anti-Pop tinha fechado um circuito inteiro na sua cabeça e que Elvira viera ali só para confirmar aquilo e que Margô ficaria ali com ele, depois de sua turnê “Cidade Louca”.
A segunda visão é em pleno expediente, já no início da noite, com o movimento do pub frenético, um homem com um chapéu do qual não se via o rosto, se aproxima do balcão em que Zack estava bebendo uma cerveja, e este homem dá uma respirada funda diante de Zack, se aproxima mais, se debruça sobre o balcão, e Zack percebe a forma do rosto do homem de chapéu, e não parecia ser um rosto humano, mas sim o de um felino da savana africana, e com um bigodinho também de felino diz que a silhueta era Elvira, que ela tinha sido tratada no umbral com várias injeções, e que Elvira agora vivia a buscar a verdade que perdera na noite de Zurique, e que tanto ele como Elvira estavam no pub para proteger Zack de uma recaída, e Zack se assusta, acha o felino estranho, mas mais uma vez relaxa e aquele homem de chapéu com cara de felino nunca mais aparece no pub.
A terceira e última visão é a que define a história de Zack até ali, e que dali para a frente ele viveria na paz do pub, sem razões para temer o que quer que fosse, pois aparece enfim uma mulher de preto, de noite, com o pub já fechando, esta mulher era o último cliente da noite, e Margô já dormia naquela hora, esta mulher de preto veste uma capa na qual esconde o rosto, em volta de sua cabeça Zack vê uma aura azulada e escura, como uma nuvem de cobalto, em volta do vestido preto desta mulher brilhos áuricos como pequenas luzes solares que emanavam daquela mulher que Zack percebera não ser humana, mas sim uma entidade, e que ele também percebe que era benfazeja, e ela então diz: “Sou a Madame Heroína, meu brilho de cobalto seduz e mata, mas quem passa pela minha porta e sai vivo é meu campeão, sou a senhora das vestes negras e do sonho de ópio, estive contigo nas noites frias de Zurique, faço bem a quem é mais forte do que eu, faço mal aos fracos que se afogam nas minhas vestes, no meu brilho áurico e na minha aura de cobalto, sou a Madame Heroína, me despeço, Zack, levei Elvira para o meu rio do esquecimento, Morfeu é meu chefe, sou a Madame Heroína a seu dispor, e sua aventura continua, para sempre, louco.”

Contos Psicodélicos/Gustavo Bastos
Pronto em 21/06/2017.





terça-feira, 6 de junho de 2017

EMILY DICKINSON – POEMAS ESCOLHIDOS – PARTE III

“surge um tipo de mitologia em torno da poesia e da figura da escritora”

Não reconhecida em vida, a posteridade foi generosa com a poesia de Emily Dickinson, com uma permanência de crítica e público na História, e que figura ao lado de Walt Whitman, como um clássico da poesia norte-americana. Emily, com poemas que, literalmente, eram costurados como um “patchwork”, era como uma alegórica colcha de retalhos,  e isso num estilo ricamente lírico na sua poesia, num conjunto de produção poética que possuía muitos poemas curtos, dentre os quais figuravam os chamados esboços rascunhados, como se a poesia de Emily Dickinson fizesse parte de uma produção artesanal, caseira, longe ainda da dimensão histórica que esta poesia viria a conquistar.
E aqui, neste aspecto artesanal da poesia de Emily Dickinson, é que surge um tipo de mitologia em torno da poesia e da figura da escritora, retratada, por sua vez, como a reclusa de Amherst. E do ponto de vista do estilo poético, tal escrita era capaz de realizar um máximo de potência com o mínimo de sons, com o uso corriqueiro de versos curtos, juntando no mesmo poema virtuosismo e a simplicidade de uma canção popular.
E temos ainda os travessões que ela criou como um tipo de sinal gráfico até então inexistente em língua inglesa: a disjunção, um traço curto (—). A disjunção, então, tem a função, como um dos principais recursos estilísticos de sua escrita, de destacar uma palavra ou de grifar uma expressão, marcar pausas de leitura ou dicção, alterar o ritmo de alguns versos, podendo separar fragmentos de frases, ou ainda expressar continuidade (ou descontinuidade) de uma ideia, o que também explica ou marca algo que veio primeiro no poema do que vem a seguir. Mas, mesmo com tais marcas de pontuação originalíssimas, e também devido a isto, mais de um quinto dos manuscritos da autora não subsistiram, e muitas das transcrições de terceiros tentaram inadvertidamente regularizar a pontuação e outros aspectos gráficos e prosódicos de sua escrita.
A comparação entre Emily Dickinson e Walt Whitman tende, às vezes, a fazer uma equivalência entre tais poetas, o que não diz muito da diferença abissal de estilo entre ambos, sendo Emily intitulada de modo capenga como o Whitman de saias. Mesmo que os dois escritores tenham vivido quase na mesma época, eram diversos em estilo, e Whitman teve êxito literário ainda vivo, ao contrário de Emily, que passou discretamente pelos seus contemporâneos. Emily, quanto ao estilo, era contida e hermética, e Whitman, por sua vez, tinha estro derramado, num caminho poético transbordante, com o som de Emily suave e o de Whitman exultante. Emily, por sua vez, teve o objetivo de enviar uma carta ao mundo, e sua poesia, além de artesanal, tinha a feição de uma trama epistolar, de dimensões comedidas no som e no estilo, ao passo que Whitman se dirigia aos jovens do futuro com um ímpeto messiânico, com sua trombeta de poeta-profeta que se dizia “Full of Life Now” (Pleno de vida agora).
Emily, às escondidas, pavimentou um novo caminho para a poesia, numa direção oposta em relação a Whitman, e que, assim como a poesia dele, teria poder de fazer surgir uma nova América, com uma literatura independente e de alcance universal. Com seu material caseiro, numa arca reunindo todo um trabalho de artesanato inédito, Emily ergue na sua poesia um modo de escrita de moldes métricos muito simples, num estilo de poesia mais puro e reto, sem derramamento, numa linguagem condensada com expressão despojada, e tão revolucionária quanto o pretenso messianismo de Whitman.

POEMAS :

SEM TÍTULO : O poema marítimo, que tem o mar do coração, é este que se abre em melopeia ou em tormenta, e o vento do verso de Emily nos dá isto: “O coração tem bordas estreitas/E, feito o mar, se mensura/Por um poderoso baixo contínuo/E monotonia azul/Até que um furacão o seccione”. A ruptura e a fragmentação de tal coração é este que : “Aprende em convulsões/Que a calmaria é tão-só muralha/De intocada gaze:/A pressão de um instante a destrói,/Um questionamento a esgarça.”. O vento que colide em tais muros de contenção rompem a fronteira de proteção de um coração que é agora pressionado pelas convulsões de dentro, e a de fora, a do mundo.

SEM TÍTULO : A morte é evocada em uma poesia que é contida, nas suas exéquias, e então o poema vem assim: “Senti exéquias em meu cérebro/E, agitando-se, carpideiras/A pisar o solo, a pisar/Até que o senso pareceu irromper.”. E a descrição ressoa como um tambor, a poesia tenta traduzir a própria agonia da qual sente a pressão, no que Emily em sua alma sente como chumbo a ranger, no que temos: “o tambor/Passou a ressoar e pensei/Que a minha mente entrava em torpor./Ouvi então erguerem um esquife/E cruzarem a minha alma/Com as mesmas botas de chumbo a ranger;”. E então a queda, sem mais: “E logo uma tábua na razão quebrou-se/E fui caindo, caindo,”.

SEM TÍTULO : O poema mistura Charlotte Brönte e a inspiração da migração das aves, no que o estro é formidável, ao verso revolucionário de uma poesia nova: “Toda coberta de insidioso musgo,/De espinheiros, toda inçada,/A pequena gaiola de Currer Bell*/Na tranquila Hawort** jaz./Essa ave ao ver que as outras,/Quando a geada se fez cortante,/Migravam para novas latitudes,/Imitou-as simplesmente,/Mas diverso foi seu retorno;/Em Yorkshire, embora verdes as colinas,/A cotovia não se acha/Em todos os ninhos./Pois que em seu vaguear o soube,”. O movimento de ir e retornar, e a angústia que atinge a flor mortal, eis que o poema é a migração da escrita no voo de ave que tudo vê com as asas que lhe elevam: “A imensa extasiada angústia/Com que ela atingiu a flor mortal.”.

SEM TÍTULO : A Beleza e a Verdade se juntam e se separam no mesmo poema, e Emily está plenamente consciente de ambas quando nos dá estes versos: “Morri pela beleza, mas estava apenas/No sepulcro acomodada/Quando alguém que pela verdade morrera/Foi posto na tumba ao lado./Perguntou-me, baixinho, o que me matara:/“A Beleza”, respondi./“A mim, a Verdade – são ambas a mesma coisa,/Somos irmãos.”. Por ambas a poesia vê a morte, a Verdade e a Beleza, como irmãs de um mesmo caminho, e de que a poesia se nutre como vida da qual se morre.

SEM TÍTULO : O poema é um grilo, ao fim, e as claves somem, a melodia se ausenta, e a beleza se une à natureza, e o grilo termina o poema em sua elegia, no que temos: “Tem muitas claves a terra./Lá, onde a melodia se ausenta,/Fica a desconhecida península./A beleza é fruto da Natureza./Mas, testemunha de seu solo/E testemunha de seu mar,/O grilo é a maior elegia/Que a Natureza me faz.”. A Natureza, enfim, é o poema em seu estado original.

POEMAS :

SEM TÍTULO

O coração tem bordas estreitas
E, feito o mar, se mensura
Por um poderoso baixo contínuo
E monotonia azul

Até que um furacão o seccione
E, enquanto descobre
Seu insuficiente espaço,
Aprende em convulsões

Que a calmaria é tão-só muralha
De intocada gaze:
A pressão de um instante a destrói,
Um questionamento a esgarça.

SEM TÍTULO

Senti exéquias em meu cérebro
E, agitando-se, carpideiras
A pisar o solo, a pisar
Até que o senso pareceu irromper.

E, quando todas se aquietaram,
De um rito, o tambor
Passou a ressoar e pensei
Que a minha mente entrava em torpor.

Ouvi então erguerem um esquife
E cruzarem a minha alma
Com as mesmas botas de chumbo a ranger;
O espaço agora começou a soar

Como se os céus um sino fossem
E o ser nada mais que um ouvido,
E eu e o silêncio, uma estranha raça
Aniquilada e solitária, aqui;

E logo uma tábua na razão quebrou-se
E fui caindo, caindo,
E, na queda, atingia mundos
E acabei por saber – então –

SEM TÍTULO

Toda coberta de insidioso musgo,
De espinheiros, toda inçada,
A pequena gaiola de Currer Bell*
Na tranquila Hawort** jaz.

Essa ave ao ver que as outras,
Quando a geada se fez cortante,
Migravam para novas latitudes,
Imitou-as simplesmente,

Mas diverso foi seu retorno;
Em Yorkshire, embora verdes as colinas,
A cotovia não se acha
Em todos os ninhos.

Pois que em seu vaguear o soube,
Getsêmani pode contar
A imensa extasiada angústia
Com que ela atingiu a flor mortal.

Suaves caem os sons do Éden
Em seu ouvido absorto –
Ó que entardecer no céu,
Quando Brontë lá chegou!
*Pseudônimo de Charlotte Brontë
** Vilarejo inglês, onde as irmãs Brontë produziram a sua obra.

SEM TÍTULO

Morri pela beleza, mas estava apenas
No sepulcro acomodada
Quando alguém que pela verdade morrera
Foi posto na tumba ao lado.

Perguntou-me, baixinho, o que me matara:
“A Beleza”, respondi.
“A mim, a Verdade – são ambas a mesma coisa,
Somos irmãos.”

E assim, como parentes que certa noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

SEM TÍTULO

Tem muitas claves a terra.
Lá, onde a melodia se ausenta,
Fica a desconhecida península.
A beleza é fruto da Natureza.

Mas, testemunha de seu solo
E testemunha de seu mar,
O grilo é a maior elegia
Que a Natureza me faz.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





domingo, 4 de junho de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE IV

“a voz da razão no Candide também é ela toda utópica”

“ROBINSON CRUSOE” O DIÁRIO DAS VIRTUDES MERCANTIS

Daniel Defoe (1660-1731) aparece aqui como um improvisado romancista de quase sessenta anos, pois era reconhecido por suas crônicas políticas, e também autor de uma profusão de textos que envolvia diversos gêneros, e como nos diz Calvino: “Suas bibliografias mais completas reúnem quase quatrocentos títulos, entre libelos de controvérsias religiosas e políticas, poemetos satíricos, livros de ocultismo, tratados históricos, geográficos, econômicos, e romances”.
E o romance, quando chega pelas mãos de Defoe, tem aqui caráter original de projeto prático, de negócio, e que não abala, por conseguinte, o que virá a ser um tipo de, como nos diz Calvino: “autêntica bíblia das virtudes mercantis e industriais, a epopeia da iniciativa individual”. Numa ética ligada à ideia econômica da livre iniciativa, tem aqui ligação, também, biográfica com o homem que era Defoe, que era uma mistura riquíssima de pregador e aventureiro, que passa pelo comércio, homem de fábrica, que passa por bancarrotas, e é ainda fundador e conselheiro do partido whig que apoiava Guilherme de Orange, também fundando o jornal The Review, no qual configurava como seu único redator, e que lhe granjeou o título de inventor do jornalismo moderno, até que este homem multifacetado que era Defoe foi desembocar no romance.
Defoe faz o romance de Robinson não apenas como a narrativa que parte das aventuras do naufrágio e da ilha deserta, mas que avança até a velhice do protagonista, e que ganha aqui o caráter de uma pretensão moralista, de um gancho que envolve uma pedagogia rudimentar que se resume na obediência ao pai, a superioridade da condição média, da vida modesta sem saltos para grandes fortunas, e que é transgredida por Robinson, fazendo com que este entre em várias confusões.
Defoe escreve o romance com uma economia de recursos e um despojamento que supera o inchaço setecentista e o tal colorido patético que dominará a narrativa inglesa do Setecentos, com um Defoe sóbrio, e que na contenção dos recursos estilísticos age ao lado do estilo “de código civil” de Stendhal, podendo Defoe se encaixar aqui, portanto, em seu romance, no que Calvino vai chamar de “relatório comercial”.
E é em tal relatório comercial que teremos como que um catálogo de mercadorias e utensílios. O despojamento da narrativa de Defoe vem, ao mesmo tempo, ricamente detalhista nos pormenores, pois tal minúcia é um recurso de veracidade que visa convencer o leitor de tal, e que ganha por fim uma descrição ao paroxismo da importância de cada objeto, de cada movimento, e de todo o contexto que envolve a situação objetiva e a condição de náufrago. E nestas ricas descrições Defoe acaba por retratar a luta do homem com a matéria e a natureza, quando se fala do romance de Robinson Crusoe.  
Robinson Crusoe possui uma renúncia à tentação da autocompaixão ou também ao júbilo excessivo, e pula para questões práticas e bem manuais, e que no romance aparece como um grande contraste com a homilia que perpassa o trajeto do romance em que Robinson passa por uma doença que o leva ao caminho de volta ao pensamento religioso, mas que não deixa o caráter de retorno ao aspecto prático da vida do trabalho, esta que é a fonte objetiva da minúcia descritiva que domina a escrita de Defoe no romance e em outros escritos de sua autoria.  E aqui ainda temos as fontes que o narrador de aventuras Defoe vai buscar, quando das descrições de cenas de canibalismo, nas quais se pode evocar Montaigne, ou ainda A Tempestade de Shakespeare.

“CANDIDE” OU A VELOCIDADE

Candide não se nos apresenta, quando se fala de seu fascínio, como apenas um conto filosófico, em que se confrontam teses, ou ainda não se trata, também, ou apenas, de uma sátira com roupagem filosófica, mas sim uma estória que tem um ritmo, em que os acontecimentos ganham uma velocidade vertiginosa no tempo (eventos) e no espaço (geografia). A sucessão de eventos envolve uma série da vertigem que tem tudo de desgraças, suplícios e massacres, e vem Calvino nos lembrar que “bastam as três páginas do capítulo VIII para que Cunegundes se dê conta de como, tendo tido pai, mãe, irmão esquartejados pelo invasores, tenha sido violentada, destripada, curada, reduzida a lavadeira, transformada em objeto de negociação na Holanda e em Portugal, dividida em dias alternados entre dois protetores com profissões de fés diferentes, e assim tenha acabado por assistir ao auto-de-fé que tem como vítimas Pangloss e Cândido e por reunir-se a este último”.
Tal efeito de vertigem na sucessão dos acontecimentos em Candide de Voltaire ganha muitas vezes uma aceleração de ritmo que chegam ao absurdo, tal como quando diz Calvino “a série das desventuras já velozmente narradas em sua exposição por extenso é repetida num resumo de provocar tonturas”. E em Candide temos um grande cinematógrafo mundial, pois quando se fala em espaço aqui falamos também de uma geografia que dá voltas no mundo, e que, como nos diz Calvino “leva Cândido da Vestefália natal até a Holanda, Portugal, América do Sul, França, Inglaterra, Veneza, Turquia e se espalha nas voltas ao mundo supletivas das personagens coadjuvantes, homens e sobretudo mulheres, fáceis presas de piratas e de mercadores de escravos entre o Gibraltar e o Bósforo”.
Também aqui em Candide temos um cinematógrafo dos eventos históricos, e que Calvino enumera o que são: “aldeias dizimadas na Guerra dos Sete Anos entre prussianos e franceses (os “búlgaros” e os “ávaros”), o terremoto de Lisboa de 1755, os autos-de-fé da Inquisição, os jesuítas do Paraguai que recusam o domínio espanhol e português, as míticas riquezas dos incas, e alguns flashes mais rápidos sobre o protestantismo na Holanda, a expansão da sífilis, a pirataria mediterrânea e atlântica, as guerras intestinas do Marrocos, a exploração de escravos negros na Guiana, deixando uma certa margem para as crônicas literárias e mundanas parisienses e para as entrevistas com os muitos reis destronados do momento, reunidos no Carnaval de Veneza”.
E diante de tal espaço geográfico vertiginoso, em que um mundo inteiro cabe em oitenta páginas, temos um destino que é mais caro a toda utopia, pois até aqui tudo era ruína e desgraça, o mundo que conhecemos da dor e do sofrimento, e que tem esta imagem de um mundo sábio e feliz que é Eldorado. E aqui a ligação entre a felicidade e a riqueza ou opulência pode ser ignorada, pois como diz Calvino “os incas ignoram que a poeira de ouro de suas estradas e as pedras de diamantes tenham tanto valor para os homens do Velho Mundo”, mas é neste mundo rico sem saber que Cândido encontra a tal sociedade sábia e feliz, lugar em que o otimista leibniziano Pangloss poderia enfim ter sua razão filosófica para o mundo como um todo confirmada, mas Calvino logo nos adverte: “acontece que Eldorado está escondido entre as mais inacessíveis cordilheiras dos Andes, talvez num farrapo de mapa : trata-se de um não-lugar, de uma utopia”.
E temos entre os personagens de Candide alguns que como diz Calvino “parecem feitas de borracha”, pois temos como exemplo Pangloss que definha com a sífilis, é enforcado, amarrado aos remos de um navio, e logo mais está ele vivo e livre. E temos então um encontro com o fundo filosófico ou visão de mundo de Voltaire, o autor. E aqui temos que ela não pode ser, como muitos pensam erroneamente, associada somente com a conhecida polêmica que visa criticar numa sátira o otimismo providencialista de Pangloss, pois o mentor que acompanha Cândido por mais tempo não é o infeliz pedagogo leibniziano, mas o “maniqueísta” Martin, que só vê o êxito do diabo nas coisas do mundo, como o oposto do inocente Pangloss.
Mas tal oposição entre Pangloss e Martin não tem um vencedor, pois Voltaire, o autor, deixa claro que não há uma explicação metafísica do mal, como fazem ambos os personagens citados, apontando uma outra origem, subjetiva, indefinível, e na qual não podemos medir nada, tendo então o credo revelado de Voltaire como anti-finalista, pois ele não é nunca Pangloss, nem tampouco, no entanto, Martin, pois aqui Voltaire se encontra com o fundo teológico de Pascal, pois se Deus tem um fim, tal é insondável, vendo-se, por conseguinte, Voltaire como um voluntarista no seu racionalismo ético. 
E se estamos diante de uma sucessão de desastres intermináveis e insuportáveis pelo trajeto da narrativa de Voltaire, sempre há lugares piores para conhecer, o mal é infinito, e seu jugo é o sofrimento, mas aqui temos então um riso ou uma pequena alegria, diante dos cenários de tortura, a vida rápida e extremamente limitada do homem sempre tem alento no que é menos pior, há alguém que pode estar mais infeliz que nós, contudo, como nos diz Calvino, em Candide, por exemplo, “quem por acaso não tivesse nada de que se lamentar, dispusesse de tudo o que a vida pode oferecer de bom, terminaria como o senhor Pococurante, senador veneziano, que está sempre olhando para os outros com soberba, encontrando defeitos onde deveria achar apenas motivos de satisfação e de admiração. A verdadeira personagem negativa do livro é ele, o aborrecido Pococurante; no fundo, Pangloss e Martin, mesmo dando respostas insensatas às perguntas, se debatem nos tormentos e riscos que constituem a substância da vida”.
E Calvino prossegue: “A submissa veia da sabedoria que aflora no livro por meio de porta-vozes marginais como o anabatista Jacques, o velho inca, e aquele savant parisiense que se parece muito com o autor, se declara por fim pela boca do dervixe na famosa moral do: cultivar nosso jardim”. Aqui isso também nos diz de uma utopia, e que a voz da razão no Candide também é ela toda utópica. Uma frase do Candide que obteve, por fim, êxito e muito sucesso, virando praticamente um provérbio. Por fim, o julgamento do homem não se dará mais por um bem ou mal transcendentes ou metafísicos, há uma virada tanto epistemológica como ética, com as escolhas humanas sendo geradas agora por um mundo prático da ação cotidiana, num novo mundo de trabalho e produção material.

DENIS DIDEROT “JACQUES LE FATALISTE”

Diderot consegue com seu romance Jacques, o Fatalista, figurar como um dos pais da literatura contemporânea, pois em Jacques o autor Diderot inverte valorações do romance tradicional, já que ao invés de se harmonizar com o leitor, fazendo com que este esqueça que está lendo e viva a estória que é contada, Diderot impõe uma tensão e um conflito entre o autor que está contando sua história e o leitor que se debruça sobre esta, e tal que é em Diderot a passagem da leitura de aceitação passiva para o questionamento contínuo que desperta o espírito crítico, no que Diderot faz algo em Jacques que antecipa um pouco o que Brecht viria a fazer no teatro, mas no caso de Brecht seria com intenção didática, ao passo que Diderot quer alcançar um despojamento crítico do leitor para livrá-lo de preconceitos.
E num jogo de possibilidades abertas pelo romance de Diderot temos aqui um caminho narrativo que engana o leitor para depois demonstrar que tal caminho que a narrativa toma seria o único possível. E podemos ainda caracterizar Jacques como quase indefinível pela teoria literária, podendo ser encaixado talvez com o que Bakhtin chamará de “conto polifônico” ou “menipeu” ou “rabelaisiano” : ou seja, um mundo que não é linear, mas que ainda assim possui uma lógica, num tipo de narrativa livre e errante, antípoda do gosto setecentista francês. E que, como nos esclarece Calvino: “A anglofilia literária foi sempre um estímulo vital para as literaturas do continente; Diderot fez dela sua bandeira na cruzada pela “verdade” expressiva”.
Diderot faz a descrição de um mundo calcado em relações humanas que são como implicações recíprocas de qualidades individuais, mas que ainda possuem os tipos sociais que os definem, mas tais papéis sociais não esmagam as relações tais quais elas se dão na narrativa, e quanto ao fatalismo do qual Jacques se faz porta-voz (tudo aquilo que acontece estava escrito no céu), não o coloca numa zona de passividade, pelo contrário, o joga para uma ação de iniciativa e uma prática volitiva vigorosa. Os diálogos filosóficos de Jacques com o patrão, no entanto, são rudimentares, e que remetem de modo esparso às famosas concepções da necessidade tanto em Spinoza como em Leibniz.
Aqui Diderot vai contra Voltaire, este que polemiza com Leibniz em Cândido ou Do otimismo, ao passo que Diderot em Jacques, o Fatalista, vai pelo caminho de afirmar a visão filosófica de Leibniz e também de Spinoza. Diderot descobre que é num mundo determinista que as forças volitivas podem se afirmar com mais vigor, a necessidade tornaria a liberdade individual mais eficaz ao vencer esta barreira de um mundo duro e rígido. Tal determinismo que antecipa os passos do conhecimento novo na biologia, na economia, no estudo da sociedade, e por fim no estudo da psique. Mas, como diz Calvino: “Contudo, não se pode absolutamente dizer que Jacques, o Fatalista “ensine’ ou “demonstre” isso ou aquilo. Não existe axioma teórico que coincida com as variações e arrancos dos heróis diderotianos (...) reconhecemos a concisão setecentista que se choca com o pathos romântico do imprevisto e do destino como acontecerá em Kleist”.
E, por fim, mais uma vez Calvino, por aqui finaliza: “Se Jacques é o anti-Candide, é porque pretende ser o anti-conte philosophique (...) A escritura livre de Diderot se opõe tanto à “filosofia” quanto à “literatura”, mas hoje aquela que nós reconhecemos como a verdadeira estrutura literária é justamente a sua. Não é uma casualidade que Jacques e seu amo tenha sido recentemente “refeito” sob forma teatral e moderna por um escritor inteligente como Milan Kundera. E que o romance de Kundera, A insustentável leveza do ser, o revele como o mais diderotiano dos escritores contemporâneos por sua arte ao mesclar romance de sentimentos, romance existencial, filosofia, ironia”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/34378/17/italo-calvino-por-que-ler-os-classicosij-1


domingo, 21 de maio de 2017

EMILY DICKINSON – POEMAS ESCOLHIDOS – PARTE II

“Seus poemas são pequenas ‘iluminações’”

AS INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS

Emily Dickinson recebeu já na sua adolescência a influência literária de nomes como William Wordsworth, Ralph Waldo Emerson, Henry Wadsworth Longfellow, John Keats e também dos hinos de Isaac Watts, e na ala feminina da literatura aparecem nomes como Lydia Maria Child e suas Cartas de Nova Iorque, e as britânicas Elizabeth Barrett Browning e Charlotte Brontë, e dentre os clássicos universais se destaca Shakespeare.  

PUBLICAÇÕES

Os primeiros poemas que Emily Dickinson publicou saíram entre os anos de 1861 e 1862 na revista Republicano, e isso devido à sua amizade com o editor Samuel Bowles. Tais que foram os versos I taste a liquor never brewed e Safe in their Alabaster Chambers, mas estes versos foram, no entanto, mutilados na edição antes de serem publicados, o que era uma prática muito comum entre os jornais e revistas da época, pois muitas vezes a má qualidade ou a ousadia dos trabalhos que apareciam para publicação levava os editores a tais modificações com diversas correções e censuras que, ao fim, deturpavam completamente o sentido original de tais obras.  

A RECLUSÃO

Entre os anos de 1858 e 1866 temos o período mais produtivo da obra de Emily Dickinson, no qual temos aí cerca de mil e cem poemas vindo à luz, com temas que passavam pela morte, a imortalidade, sua relação com a natureza e com Deus, além de temas que iam da perda até, ao fim, o amor.
Contudo, em 1867 ela teve um colapso nervoso, e passou a viver reclusa, sendo raramente vista em público, e em casa recebia apenas poucos amigos e parentes, em especial as crianças, filhas de seus primos e tios, e seu único contato com o mundo exterior eram as cartas que recebia dos amigos.

FINAL

Por fim, nas últimas duas décadas em que viveu, entre 1860 e 1880, Emily Dickinson passou a produzir uma média de quase cinquenta poemas por ano, e pode ser que um problema seu na visão fez com que sua produção prolífica se reduzisse nestes últimos anos. E sua biografia foi então marcada por uma série de colapsos nervosos que fizeram com que ela se tornasse uma pessoa extremamente frágil, tendo em 1884 o mais grave de seus colapsos, sem nunca se recuperar, vindo a morrer em 15 de maio de 1886, vítima de nefrite.

A PUBLICAÇÃO PÓSTUMA DE SUA OBRA

Da obra de Emily Dickinson, temos um total de quase mil e oitocentos poemas catalogados, todos devidamente numerados. E o fato crucial foi quando Lavínia, a irmã de Emily, impressionada com a obra colossal da irmã, decidiu não obedecer ao desejo da irmã falecida de destruir tais escritos, procurando, ao contrário, a publicação daquele espólio literário, recorrendo então Lavínia a Mabel Loomis Todd, que era uma professora de astronomia, esposa de Austin Dickinson, que nunca conheceu Emily, mas que ajudou na reunião de um extrato significativo de sua obra, mas que teve seu material original bem alterado, pois foram feitas inúmeras correções de sintaxe, alterações de rimas, versos cortados e títulos foram dados a poemas que não os tinham.
E assim surgiu um primeiro volume de parte da obra de Emily Dickinson, que foi o volume Poems, lançado em 1890 com 115 de seus trabalhos, já figurando aí parte de seus poemas mais populares como I taste a liquor never brewed, Much Madness is divinest Sense e Because I could not stop for Death. E se seguiu a este trabalho de reunião, dois outros volumes que foram os Poems, Second Series e Poems, Third Series, publicados respectivamente em 1891 e 1896.
E mais de uma década mais tarde, foi uma sobrinha de Emily, Martha Dickinson Bianchi, que deu seguimento à publicação da obra da escritora, tendo em 1914 a publicação de uma coletânea de poesia que sua mãe, Sarah Dickinson, já havia organizado anos antes, e que resultou na edição de nome The Single Hound, no qual figuravam 146 poemas inéditos de Emily Dickinson. E nas três décadas seguintes tivemos mais quatro novos volumes de poemas, como o Bolts of Melody em 1945, que foi o mais importante destes. E temos nesta altura 660 obras inéditas de Emily Dickinson sendo publicadas.
O momento mais importante para a obra de Emily Dickinson, no entanto, foi quando em 1955 o estudioso Thomas H. Johnson resgatou tal obra ao preparar pela Harvard University Press, por sua vez, a primeira obra completa das poesias de Emily Dickinson, a qual foi dividida em três volumes e organizada em ordem cronológica, com Thomas realizando um importante trabalho de revisão dos escritos originais da escritora, suprimindo as alterações e correções da irmã de Emily, sendo o projeto mais sério realizado com o espólio de Emily Dickinson até então, com tal organização e edição sendo considerada agora como a versão definitiva da obra de Emily Dickinson.

ESTUDOS CRÍTICOS

E os estudos críticos da obra de Emily Dickinson, assim como a inclusão de seu nome na História da Literatura norte-americana, datam da década de 1960, junto com a expansão do movimento feminista, que trouxe à baila o resgate de grandes escritoras da História dos Estados Unidos que foram até aquele momento negligenciadas. Com o nome de Emily Dickinson hoje em dia tendo dimensão de figurar entre os que fizeram a grande literatura mundial.
E o crítico Otto Maria Carpeaux afirma, por conseguinte, que Emily Dickinson “é considerada, hoje, como a maior poeta americana. Não inspirará nunca admiração perplexa, como Poe, nem será tão popular como Whitman. É poesia para os poucos poet’s poetry”. E ainda segundo Augusto de Campos, que é seu tradutor em língua portuguesa, a poesia de Emily Dickinson se aproxima, de certa forma, ao Hai-Kai, quando Augusto nos diz: “Emily é muito sintética, seus poemas são, em geral, muito breves, e ela é capaz de captar um momento insubstituível de observação ou de reflexão poética com um mínimo de palavras. Seus poemas são pequenas ‘iluminações’. Mas não são poemas circunstanciais. São muito elaborados e ao mesmo tempo surpreendentes”.

POEMAS:

(obs: a escritora não colocava títulos em seus poemas, no que aqui uso a convenção de apenas numerá-los)

POEMA I : O poema breve, bem ao estilo sucinto de iluminações de Emily Dickinson, nos diz: “Se o mar, uma vez rasgado,/Outro, mais além, revelar/E esse, ainda outro, e os três/Forem suposição apenas/De mares periódicos/Desapossados de praias,/À beira dos mares do vir-a-ser,/Eis aí a Eternidade.”. O poema se abre em suas camadas sutis, e sua imagem de sucessão com os mares que destes versos se abrem, terminam com o sonho da eternidade, e o poema finda em sede de infinito.

POEMA II : O poema de Emily aqui tem versos que nos levam ao inverno e tem a luz que percorre as catedrais e seus cânticos, no que temos: “Há uma certa obliquidade/Na luz das tardes hibernais,/Que oprime feito o peso/Dos cânticos, nas catedrais./Com celeste golpe nos fere/E não lhe achamos a cicatriz,”. E o poema segue, ainda com o enigma da luz: “Inalterável, essa luz/É signo de desesperança;” (...) “Quando chega, fica atenta a paisagem/E não mais respiram as sombras;/Quando parte, é como a distância/Que no olhar da morte se encontra.”. A luz se encontra com a sombra, o espírito que se ilumina também é o ser que se encontra no olhar inevitável da morte.

POEMA III : O poema é uma fantasmagoria, que nos dá esta visão: “Para as assombrações, desnecessária é a alcova,”. Mas existe o interior da própria alma, que tem instâncias mais sinistras que um simples espectro qualquer, no que o poema segue: “Mais seguro é encontrar à meia-noite/Um fantasma,/Que enfrentar, internamente,/Aquele hóspede mais pálido./Mais seguro é galopar cruzando um cemitério/Por pedras tumulares ameaçado,/Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo/Em desolado espaço./O “eu”, por trás de nós oculto,/É muito mais assustador,”. Este encontro da alma consigo mesma é sim a experiência assustadora aos olhos da poesia de Emily, e este espectro íntimo é bom tê-lo diante de uma arma, para assim o poema findar aqui com a prudência e os ferrolhos da porta, no que temos, enfim, a ameaça maior ainda por toda a parte, o interior de uma alma atormentada: “O homem prudente leva consigo uma arma/E cerra os ferrolhos da porta,/Sem perceber um outro espectro,/Mais íntimo e maior.”

POEMA IV : O poema na aurora é um sussurro de Emily e revela a sua relação com a natureza e a luz, no que temos: “Os condenados miram a aurora” (...) “Pois, quando ao longe tornar a luzir,/Duvidam que possam vê-la./O homem, que há de morrer amanhã,/Ao rouxinol do prado faz-se atento,/Pois seu trinar comove o machado/Sequioso de sua cabeça./Feliz daquele, que a enamorada/Aurora precede – o dia!/Feliz daquele para quem/O rouxinol canta, sem cantar elegias.”. A morte perde para a luz da aurora, e não temos aqui uma elegia, mas um poema que sustém a vida no canto de um rouxinol.

POEMA V : O poema canta a vitória, e tal imagem poética fortíssima irrompe nos versos, que não se contêm: “A vitória é o bem mais querido/Por aqueles que jamais vencem.”. O canto de vitória é bem desejado por quem perde a luta, no que temos: “Ninguém da purpúrea hoste,/Que hoje empunhou o estandarte,/Oferece da Vitória/Definição mais cabal/Do que o derrotado agonizante,/Em cujo ouvido interditado/O distante clangor do triunfo/Explode torturante e claro!”. O triunfo é bem sonhado pelos que sucumbem, e o poema dá a pura definição deste anelo pelos que soçobram em seus desvios agonizantes, a vitória é esta miragem de quem é derrotado.

POEMA VI : O poema define a diferença da tragédia do drama, e nos dá tais versos: “Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,/Que nasce e morre à nossa vista;/Diversamente, a Tragédia,/Ao ser recitada, se dissipa/E é melhor encenada/Quando o público se dispersa/E a bilheteria é fechada.”. A tragédia e sua força descomunal, que eleva o destino como ente seminal da vida humana, tem veia teatral, e arte afirma esta vida visceral, no que o poema conclui tal tradução da vida trágica como o ritual teatral por excelência, no que temos: “Seria perpetuamente encenado/No coração humano –/Único teatro que, sabidamente,/O proprietário não consegue fechar.”.

POEMAS:

POEMA I

Se o mar, uma vez rasgado,
Outro, mais além, revelar
E esse, ainda outro, e os três
Forem suposição apenas

De mares periódicos
Desapossados de praias,
À beira dos mares do vir-a-ser,
Eis aí a Eternidade.

POEMA II

Há uma certa obliquidade
Na luz das tardes hibernais,
Que oprime feito o peso
Dos cânticos, nas catedrais.

Com celeste golpe nos fere
E não lhe achamos a cicatriz,
Apenas uma diferença interna,
Lá, onde jazem os sentidos.

Inalterável, essa luz
É signo de desesperança;
É aflição majestosa
Dos altos ares baixando.

Quando chega, fica atenta a paisagem
E não mais respiram as sombras;
Quando parte, é como a distância
Que no olhar da morte se encontra.

POEMA III

Para as assombrações, desnecessária é a alcova,
Desnecessária, a casa –
O cérebro tem corredores que superam
Os espaços materiais.

Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.

Mais seguro é galopar cruzando um cemitério
Por pedras tumulares ameaçado,
Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo
Em desolado espaço.

O “eu”, por trás de nós oculto,
É muito mais assustador,
E um assassino escondido em nosso quarto,
Dentre os horrores, é o menor.

O homem prudente leva consigo uma arma
E cerra os ferrolhos da porta,
Sem perceber um outro espectro,
Mais íntimo e maior.

POEMA IV

Os condenados miram a aurora
Com diferenciado prazer –
Pois, quando ao longe tornar a luzir,
Duvidam que possam vê-la.

O homem, que há de morrer amanhã,
Ao rouxinol do prado faz-se atento,
Pois seu trinar comove o machado
Sequioso de sua cabeça.

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz daquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

POEMA V

A vitória é o bem mais querido
Por aqueles que jamais vencem.
Para se compreender um néctar,
Requer-se necessidade intensa.

Ninguém da purpúrea hoste,
Que hoje empunhou o estandarte,
Oferece da Vitória
Definição mais cabal

Do que o derrotado agonizante,
Em cujo ouvido interditado
O distante clangor do triunfo
Explode torturante e claro!

POEMA VI

Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,
Que nasce e morre à nossa vista;
Diversamente, a Tragédia,

Ao ser recitada, se dissipa
E é melhor encenada
Quando o público se dispersa
E a bilheteria é fechada.

“Hamlet” seria Hamlet,
Inda que Shakespeare não o criasse,
E “Romeu”, embora sem mais lembranças
De sua Julieta,

Seria perpetuamente encenado
No coração humano –
Único teatro que, sabidamente,
O proprietário não consegue fechar.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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