PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

HAMILTON NOGUEIRA – DOSTOIÉVSKI – PARTE I

“há uma verdadeira participação autoral neste sofrimento universal que nos dá a dimensão do romance dostoievskiano”

INTRODUÇÃO

O romance dostoievskiano pode ser entendido como uma espécie de tragédia, o meio romanesco aqui também é utilizado como um instrumento de conhecimento da alma humana pelos personagens deste autor que atuou como um verdadeiro psicólogo ficcional. O caráter sui generis do romance pelas mãos de Dostoiévski é este em que as personagens passam por transformações, recomeços, na luta de contrariar o destino, de enfrentar com toda a alma as agruras do desespero e da loucura, aqui a tragédia dostoievskiana ganha sentido amplo e profundo, com todo o caráter de conhecimento intuitivo das relações e situações da alma humana que são possíveis para um romancista dar exemplo e fazer a sua construção, o que Dostoiévski consegue como poucos, e de um modo único, com a sua impressão e assinatura.
Dostoiévski tem suas personagens numa trama que nem sempre é bem-sucedida, pois a ideia de vitória na vida pode resultar no infernal malogro das intenções, aprofundando, no entanto, o caráter e a definição sólida de tais figuras do romance dostoievskiano, e que pela escrita do autor nos aparecem como personagens falhados tais como os humildes, fracassados, vencidos, numa pedagogia que revela o humano em situações-limite, e que também nos leva a esta alma ou análise psíquica dos dilemas e dores demasiado humanos da trama romanesca dostoievskiana.
A piedade do autor para com tais personagens na sua ficção também nos dá esta dimensão do caráter humano tanto do trabalho literário como de quem o realiza, que é o homem biográfico Dostoiévski, pois a riqueza de suas personagens também nos revela o caráter deste autor, um dos mais destacados da História da literatura russa e mundial, pois há uma verdadeira participação autoral neste sofrimento universal que nos dá a dimensão do romance dostoievskiano, a medida do destino humano está posta como exemplos em vários destes romances do autor.
Dostoiévski passa com seus personagens por experiências diversas como sentimentos de revolta e de ódio, anseios vingativos, toda uma teia de relações em que as paixões transbordam, um lado obscuro da alma eclode e, no entanto, tal situação negativa nos dá uma dimensão de fé inaudita pelo senso comum, pois está iluminada mesmo em tramas de caráter alucinante e de situações dolorosas. Portanto, há uma luz, o divino se manifesta nesta trama visível e caótica do destino humano, nas forças dispersivas do mal temos, como efeito reverso, a luz da fé ou ainda da própria razão natural.
Dostoiévski elabora suas personagens de um modo que o leitor, já nos seus primeiros contatos com tais figuras, fica sabendo bem em que terreno está pisando, pois instantaneamente no romance dostoievskiano as personagens já se nos apresentam inteiras, em todo o seu caráter e luta, tais espíritos puros e sólidos lutando contra o sofrimento universal, esta balança das situações em que a provação é a regra, na ideia ou imagem precípua da queda.
E como nos diz Hamilton Nogueira: “As suas resoluções, como as dos anjos, são por assim dizer irrevogáveis. Não há possibilidade de volta, nem mesmo de parada. Tudo obedece àquele ritmo trágico.” Temos uma estrutura psicológica firme e bem definida nas personagens dostoievskianas, nos revelando almas impassíveis face aos fatos mais extraordinários, como se a predestinação fosse a forma dominante da percepção exercida por tais figuras criadas pelo autor.
O fenômeno humano e comum do desespero aparece aqui como a intensidade máxima do sofrimento, mas que temos também que tal sofrimento não é definido por sua dimensão dorida, mas pela luta de forças antagônicas, a luta interna reveste a angústia de tais personagens, e não uma medida de intensidade de tais sofrimentos, uma vez que a personagem dostoievskiana tem a sua liberdade e sua alma inteira em conflito contra os limites impostos pelas formas visíveis da natureza humana, tal força oculta e angélica, que tende à vida contemplativa, é sucumbida no mundo cotidiano e físico dos sentidos terrenos e suas agruras.  
O mundo romanesco de Dostoiévski, por conseguinte, é revelador de um universo humano vertiginoso, pleno de contradições, de oscilações extremas e repletas de paradoxo, como se dá comumente em almas intensas e autênticas, com movimentos rápidos e intuições imediatas, não existindo nenhuma dimensão de indiferença em tais personagens, familiarizadas com a tragédia humana que são, e que são, portanto, personagens com convicções profundas e caráter constante, isto é, com condutas claras. E o resultado é que tais personagens, partícipes diretas do sofrimento universal, buscam a solução para o problema do destino e da tragédia, numa pesquisa sequiosa pela verdade, com posições extremas, e o mistério da vida então perpassa todo o dilema e vivência ativa de tais personagens dostoievskianas.
A eclosão de sentimentos antagônicos nas personagens dostoievskianas é bem comum, pois amor e ódio se revezam em tais corações com uma presteza nauseante, a amplitude psicológica de tais figuras desenhadas por Dostoiévski dá vazão para estas alternâncias bruscas de sensações num mesmo ambiente ou situação, e a alma pode ter como uma sua definição dostoievskiana como uma ideia de contradição, o paradoxo dos sentimentos reina como o sentido de sua própria riqueza e da amplidão da percepção de tais almas sofredoras.
Ou como nos diz Hamilton Nogueira sobre Dostoiévski: “Ele é o soberano criador dos estados angustiosos, é o mestre incomparável no jogo dificílimo da fixação desses imponderáveis que constituem a vida mesmo do espírito, vida ilógica, inatingível nas suas raízes, mas vagamente perceptível no mundo tumultuoso de ideias e de sensações que afloram à superfície da nossa consciência.”

NASTÁSSIA FILIPOVNA

Nastássia Filipovna é uma dessas personagens dostoievskianas que são plenas de contradições, com sentimentos divergentes e desordenados convivendo na mesma alma, é também devido a esta amplitude de sensações que temos uma das chaves do enigma interior de Nastássia. E tal se dá, isto é, este enigma que envolve várias camadas de uma luta interior intensa, por conseguinte, em meio à incompreensão de um mundo medíocre, amiúde unidimensional ou preto no branco. Nastássia Filipovna, por sua vez, como nos diz Hamilton Nogueira : “é um dos mais extraordinários tipos de mulher criados pelos romancistas em geral, e sem dúvida a máxima criação feminina de Dostoiévski.”
E segue Hamilton Nogueira, quando nos diz: “o segredo do seu mundo interior, as suas lutas íntimas, a sua imensa amargura, a sua profunda desolação, o seu desespero ao ver-se arrastada por um turbilhão de lama, e sobretudo o fundo de pureza que ainda perdura na sua alma, permanecem inatingíveis ao olhar profano dos homens que a rodeiam. Somente uma outra criatura também ordenada no sentido da perfeição poderá compreender a tragédia de sua vida e contemplar maravilhado o lado luminoso da sua realidade existencial, o príncipe Muischine. Esse jovem de olhos claros e luminosos, de palavra suave, olhando-a com expressão de quem a conhecia, impressionou profundamente o espírito de Nastássia.”
É tanto a construção da personagem como a história de Nastássia Filipovna que faz de O Idiota uma obra-prima, pois é revelador de uma escrita com alma rebelde, o que não seria comum num espírito resignado de ideologia reacionária que estava no homem Dostoiévski. Neste romance temos um autor tanto trágico e lírico, como também satírico, e temos que Nastássia Filipovna está situada entre as personagens femininas de maior envergadura e complexidade da literatura russa e mundial.  
O romance O Idiota tem a participação assídua da personagem Nastássia, pois ela reina no centro dos acontecimentos, dando assim a sua dimensão de grande personagem da obra literária de Dostoiévski. E em meio a canalhas e beberrões temos uma Nastássia que atravessa altiva a ignomínia geral, com todo o rigor de um caráter firme e uma alma inteira e bem edificada, pois ela conhecia todos os celerados que a cercava, sem sucumbir a tais odores depravados, num plano de vingança bem urdido que deixava ao sabor das intenções de farsa de tais homens como um modo de fazê-los cavar as suas próprias ruínas devido aos impulsos podres que Nastássia manipulava com episódios desenhados por Dostoiévski como verdadeiras cenas de teatro, quando o autor é mais uma vez o plasmador perfeito tanto da psicologia individual como da coletiva.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35285/17/personagens-de-dostoievski-sao-instrumentos-de-conhecimento-da-alma-humana





CRUZ E SOUSA – BROQUÉIS E FARÓIS – PARTE II

“um esbanjamento aflito, cheio de dor, espiritual, transcendente”

SOBRE O POETA E SUA POESIA

Cruz e Sousa teve um julgamento contemporâneo não muito à sua altura, sobretudo na Academia, mas angariou dimensão crítica positiva na geração seguinte, sinais de sua glória já aparecem neste período posterior, como nos diz, por exemplo, da poesia de Cruz e Sousa, em comparação com outras, Mário Pederneiras : “Tenho um devotado culto pelos sonetos magistrais de Luís Delfino, o das Naus e da Madalena aos pés da Cruz, e tanto admiro o verso quente e meridional de Olavo Bilac como a impressão catedralesca de Emílio de Meneses. E por que não dizer também que me delicio com a arte estranha de Cruz e Sousa, do Satã, do Acrobata da Dor e do Meu filho, e que nutro uma delicada afeição pela meiga simplicidade encantadora de Cesário Verde e Macedo Papança?”. Seguindo, Cruz e Sousa também pode ser bem situado entre os nomes de Alberto de Oliveira, Raimundo Corrêa, Olavo Bilac, Teófilo Dias, B. Lopes, Guimarães Passos, Artur Azevedo, Adolfo Caminha e outros. 
Lembrando de um tipo de poesia que tem pendor no inefável, no absoluto, e que tematiza o vago, o indefinido, podemos situar Cruz e Sousa como um grande poeta, mesmo com limites em seu estro, como por exemplo no dom de clareza clássica, que lhe faltava, tem de outro lado um esbanjamento aflito, cheio de dor, espiritual, transcendente, de sentido trágico, na poesia e na sua biografia, configurando a inspiração e atividade poética de um escritor singular.
A obra literária de Cruz e Sousa não tem nem a definição de um trabalho incompleto, falhado, nem tampouco chega ao outro extremo de ser a maior poesia lírica produzida na literatura brasileira. Por sua vez, podemos dizer que o satanismo de Baudelaire aparece em sua poesia combinado a uma melancolia repleta de ceticismo, e que se mesclava também com o misticismo mórbido de Antero do Quental, a poesia de Cruz e Sousa era de uma alma sofredora de imprecações alucinadas, com um grito contra a opressão, com toda a sua expressão falhada e insuficiente produzindo um clímax lírico do qual foi um precursor.  
Cruz e Sousa, diante da História subsequente da literatura brasileira, pode ser considerado um exemplar conspícuo de uma poesia ainda empolada, rebuscada, obscura, e da qual sobra uma fortuna crítica que sobra pouco na posteridade, no que podemos ter desde já dez ou quinze composições poéticas que podem garantir a sua imortalidade, como um poeta lírico por excelência, no que o nosso poeta negro se defendia contra os golpes que lhe desferiam com os Broquéis, e que projetava logo a seguir um clarão em meio ao caos que lhe tomava com seus Faróis. E o poeta, como um típico simbolista, maior representante desta corrente de poesia no Brasil, tinha o dom da sonoridade, pois a musicalidade dominava seu estro, se descolando com mestria do parnaso que lhe precedera, com uma poesia de formas novas e de busca da essência transcendente numa visão amiúde evanescente, configurando uma experiência simbólica sui generis, a do poeta que foi Cruz e Sousa, pois ele foi este poeta que renunciou ao parnasianismo para se lançar na musicalidade mais leve do verso simbolista.

POEMAS:

TUBERCULOSA : O poema, fina flor, nos abre o mundo da tísica em forma musical, sonora, planando cerúlea diante do fenômeno da doença: “Alta, a frescura da magnólia fresca,/Da cor nupcial da flor da laranjeira,/Doces tons d`ouro de mulher tudesca/Na veludosa a flava cabeleira./Raro perfil de mármores exatos,/Os olhos de astros vivos que flamejam,/Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactos” (...) “Radiava nela a incomparável messe/Da saúde brotando vigorosa,” (...) “Era assim luminosa e delicada,/Tão nobre sempre de beleza e graça/Que recordava pompas de alvorada,/Sonoridades de cristais de taça./Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza/Daquele corpo virginal e fino,/Sacrário da mais límpida beleza,/Perdeu a graça e o brilho diamantino./Tísica e branca, esbelta, frígida e alta/E fraca e magra e transparente e esguia,/Tem agora a feição de ave pernalta,/De um pássaro alto de aparência fria.”. Temos a abertura do poema com o estro descritivo de uma presença fêmea de angelitude, mas que logo também se nos apresenta com a face murmurante da tísica e toda esta interação doentia que a poesia tem com tal carma de poetas: “E faz lembrar uma esquisita planta/De profundos pomares fabulosos/Ou a angélica imagem de uma Santa/Dentre a auréola de nimbos religiosos./A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,/Ganhando corpo, como num terreno .../E com prelúdios místicos de salmo/Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno./Jamais há de ela ter a cor saudável/Para que a carne do seu corpo goze,/Que o que tinha esse corpo de inefável/Cristalizou-se na tuberculose.”. A tuberculose, neste contexto de poesia simbolista, é uma espécie de doença mística da poesia, a tísica é um modo ideal de enfermidade.

FLOR DO MAR : O poema marítimo navega leve no estro simbolista de Cruz e Sousa, que nos brinda com tais versos que seguem aqui: “És da origem do mar, vens do secreto,/Do estranho mar espumaroso e frio/Que põe rede de sonhos ao navio” (...) “Possuis do mar o deslumbrante afeto/As dormências nervosas e o sombrio/E torvo aspecto aterrador, bravio” (...) “Num fundo ideal de púrpuras e rosas/Surges das águas mucilaginosas” (...) “Trazes na carne o eflorescer das vinhas,/Auroras, virgens músicas marinhas,/Acres aromas de algas e sargaços ...”. A riqueza imagética do poema se mescla com uma sonoridade que nos dá poesia como música, o poema é de um estro que joga com o som e as ondulações da expressão com pleno domínio formal do poeta Cruz e Sousa.

MÚSICA MISTERIOSA : O poema aqui como música misteriosa é o flerte comum da poesia simbolista com a transcendência e o mundo das essências etéreas, no que temos: “Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,/Que abris a doce luz de alampadários,” (...) “Pelos raios fluídicos, diluentes/Dos Astros, pelos trêmulos velários,/Cantam Sonhos de místicos templários,/De ermitões e de ascetas reverentes .../Cânticos vagos, infinitos, aéreos/Fluir parecem dos Azuis etéreos,” (...) “E vai, de Estrela a Estrela, à luz da Lua,/Na láctea claridade que flutua,/A surdina das lágrimas subindo ...”. O poema é sidéreo, cerúleo, tem um fluido que lhe dá a forma espectral e ao mesmo tempo com a solidez sonora de um poeta possuído pelas suas imagens como sons de um fundo poético que reverbera o tempo todo na superfície em que se tece o poema, mistério em azuis etéreos, poema que entende estrelas.

POST MORTEM : O poema nos dá as chaves das formas inefáveis, esta busca do poeta simbolista do indefinido e que do amor tem este como enigma e música suprema, e aqui no estro de um poema post mortem: “Quando do amor das Formas inefáveis/No teu sangue apagar-se a imensa chama,/Quando os brilhos estranhos e variáveis/Esmorecerem nos troféus da Fama,/Quando as níveas Estrelas invioláveis,/Doce velário que um luar derrama,/Nas clareiras azuis ilimitáveis;/Clamarem tudo o que o teu Verso clama,/Já terás para os báratros descido,/Nos cilícios; da Morte revestido,” (...) “Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas/Pelo alto ficarão de eras supremas/Nos relevos do Sol eternizados!”. O poema tem uma coda magistral, um relevo solar que culmina como um clarão infinito na poesia e na mística imagem da inspiração.

ACROBATA DA DOR : O poema exemplar do estro de Cruz e Sousa é este do acrobata da dor, um poema belo não só pela forma, mas, fato raro no simbolismo, também pelo conteúdo: “Gargalha, ri, num riso de tormenta,/Como um palhaço, que desengonçado,/Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado/De uma ironia e de uma dor violenta./Da gargalhada atroz, sanguinolenta,/Agita os guizos, e convulsionado/Salta, “gavroche”, salta, “clown”, varado/Pelo estertor dessa agonia lenta ...” (...) “E embora caias sobre o chão, fremente,/Afogado em teu sangue estuoso e quente,/Ri! Coração, tristíssimo palhaço.”. A descrição clownesca é de um humor de riso bem talhado, e a queda é a imagem clássica do palhaço triste.

ÂNGELUS ... : O poema tem este estro de religiosidade em forma poética e simbólica, portanto, caindo em mística, forma comum do inefável em poesia simbolista como a de Cruz e Sousa, no que temos: “Ah! lilases de Ângelus harmoniosos,/Neblinas vesperais, crepusculares,/Guslas gementes, bandolins saudosos,/Plangências magoadíssimas dos ares .../Serenidades eterais de incensos,/De salmos evangélicos, sagrados,/Saltérios, harpas dos Azuis imensos,/Névoas de céus espiritualizados./Ângelus fluidos, de luar dormente,/Diafaneidades e melancolias .../Silêncio vago, bíblico, pungente/De todas as profundas liturgias./É nas horas dos Ângelus, nas horas/Do claro-escuro emocional aéreo,/Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras/Ondulações e brumas do Mistério./Surges, talvez, do fundo de umas eras/De doloroso e turvo labirinto,/Quando se esgota o vinho das Quimeras/E os venenos românticos do absinto.”. O poema tem estes eflúvios infindos que povoam o ar ou ambiente em que se tece este poema de ângelus, pura luz de poesia diamantada, que nos seduz com mais versos, tais quais: “Num enlevo supremo eu sinto, absorto,/Os teus maravilhosos e esquisitos/Tons siderais de um astro rubro e morto,/Apagado nos brilhos infinitos./O teu perfil todo o meu ser esmalta/Numa auréola imortal de formosuras/E parece que rútilo ressalta/De góticos missais de iluminuras.” (...) “Nos êxtases dos místicos os braços/Abro, tentado da carnal beleza .../E cuido ver, na bruma dos espaços,/De mãos postas, a orar, Santa Teresa! ...”. O poema se conclui com Santa Teresa e sua direta relação com os êxtases dos místicos.

MAJESTADE CAÍDA : O poema tem na imagem da queda a sua inspiração: “Esse cornoide deus funambulesco/Em torno ao qual as Potestades rugem/Lembra os trovões, que tétricos estrugem,/No riso alvar de truão carnavalesco./De ironias o momo picaresco/Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,/Verdes gengivas de ácida salsugem/Mostra e parece um Sátiro dantesco./Mas ninguém nota as cóleras horríveis,/Os chascos, os sarcasmos impassíveis/Dessa estranha e tremenda Majestade./Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,/Senil, que embora rindo, está chorando/Os Noivados em flor da Mocidade!”. Como um fauno aqui descrito, o poema descreve este deus funambulesco, sátiro que dança na flor da treva, descrição também de cóleras e sarcasmos impassíveis, o tétrico rindo na flor da mocidade, sem mais.

POEMAS:

TUBERCULOSA

Alta, a frescura da magnólia fresca,
Da cor nupcial da flor da laranjeira,
Doces tons d`ouro de mulher tudesca
Na veludosa a flava cabeleira.

Raro perfil de mármores exatos,
Os olhos de astros vivos que flamejam,
Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactos
E esse alado das pombas, quando adejam ...

Radiava nela a incomparável messe
Da saúde brotando vigorosa,
Como o sol que entre névoas resplandece,
Por entre a fina pele cor-de-rosa.

Era assim luminosa e delicada,
Tão nobre sempre de beleza e graça
Que recordava pompas de alvorada,
Sonoridades de cristais de taça.

Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza
Daquele corpo virginal e fino,
Sacrário da mais límpida beleza,
Perdeu a graça e o brilho diamantino.

Tísica e branca, esbelta, frígida e alta
E fraca e magra e transparente e esguia,
Tem agora a feição de ave pernalta,
De um pássaro alto de aparência fria.

Mãos liriais e diáfanas, de neve,
Rosto onde um sonho aéreo e polar flutua,
Ela apresenta a fluidez, a leve
Ondulação da vaporosa lua.

Entre vidraças, como numa estufa,
No inverno glacial de vento e chuva
Que sobre as telhas tamborila e rufa,
Vejo-a, talhada em nitidez de luva ...

E faz lembrar uma esquisita planta
De profundos pomares fabulosos
Ou a angélica imagem de uma Santa
Dentre a auréola de nimbos religiosos.

A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,
Ganhando corpo, como num terreno ...
E com prelúdios místicos de salmo
Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno.

Jamais há de ela ter a cor saudável
Para que a carne do seu corpo goze,
Que o que tinha esse corpo de inefável
Cristalizou-se na tuberculose.

Foge ao mundo fatal, arbusto débil,
Monja magoada dos estranhos ritos,
Ó trêmula harpa soluçante, flébil,
Ó soluçante, flébil eucaliptos ...

FLOR DO MAR

És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto
As dormências nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços ...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços ...

MÚSICA MISTERIOSA

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivárius
Erram da Lua nos clarões dormentes ...

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes ...

Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo ...

E vai, de Estrela a Estrela, à luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo ...

POST MORTEM

Quando do amor das Formas inefáveis
No teu sangue apagar-se a imensa chama,
Quando os brilhos estranhos e variáveis
Esmorecerem nos troféus da Fama,

Quando as níveas Estrelas invioláveis,
Doce velário que um luar derrama,
Nas clareiras azuis ilimitáveis;
Clamarem tudo o que o teu Verso clama,

Já terás para os báratros descido,
Nos cilícios; da Morte revestido,
Pés e faces e mãos e olhos gelados ...

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas
Pelo alto ficarão de eras supremas
Nos relevos do Sol eternizados!

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, “gavroche”, salta, “clown”, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d´aço ...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

ÂNGELUS ...

Ah! lilases de Ângelus harmoniosos,
Neblinas vesperais, crepusculares,
Guslas gementes, bandolins saudosos,
Plangências magoadíssimas dos ares ...

Serenidades eterais de incensos,
De salmos evangélicos, sagrados,
Saltérios, harpas dos Azuis imensos,
Névoas de céus espiritualizados.

Ângelus fluidos, de luar dormente,
Diafaneidades e melancolias ...
Silêncio vago, bíblico, pungente
De todas as profundas liturgias.

É nas horas dos Ângelus, nas horas
Do claro-escuro emocional aéreo,
Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras
Ondulações e brumas do Mistério.

Surges, talvez, do fundo de umas eras
De doloroso e turvo labirinto,
Quando se esgota o vinho das Quimeras
E os venenos românticos do absinto.

Apareces por sonhos neblinantes
Com requintes de graça e nervosismos,
Fulgores flavos de festins flamantes,
Como a Estrela Polar dos Simbolismos.

Num enlevo supremo eu sinto, absorto,
Os teus maravilhosos e esquisitos
Tons siderais de um astro rubro e morto,
Apagado nos brilhos infinitos.

O teu perfil todo o meu ser esmalta
Numa auréola imortal de formosuras
E parece que rútilo ressalta
De góticos missais de iluminuras.

Ressalta com a dolência das Imagens,
Sem a forma vital, a forma viva,
Com os segredos da Lua nas paisagens
E a mesma palidez meditativa.

Nos êxtases dos místicos os braços
Abro, tentado da carnal beleza ...
E cuido ver, na bruma dos espaços,
De mãos postas, a orar, Santa Teresa! ...

MAJESTADE CAÍDA

Esse cornoide deus funambulesco
Em torno ao qual as Potestades rugem
Lembra os trovões, que tétricos estrugem,
No riso alvar de truão carnavalesco.

De ironias o momo picaresco
Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,
Verdes gengivas de ácida salsugem
Mostra e parece um Sátiro dantesco.

Mas ninguém nota as cóleras horríveis,
Os chascos, os sarcasmos impassíveis
Dessa estranha e tremenda Majestade.

Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,
Senil, que embora rindo, está chorando
Os Noivados em flor da Mocidade!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35284/17/cruz-e-sousa-pode-ser-considerado-um-exemplar-conspicuo-de-uma-poesia-ainda-rebuscada







terça-feira, 1 de agosto de 2017

JURAMENTOS SOB O SOL

E tudo que juro, sob o mal do mundo,
é a escrita temporal
como uma tempestade,
o sonho de poesia nas asas
de prata do peito marmóreo,

sei de todos os finos aromas
que sobem às narinas do tempo,
poema-fantasia se nutre
destes estalos na noite fria.

E tudo que juro, no sal das enseadas,
é o tempo vivido das coisas
infinitesimais, vejo com lupa
os esgares das galáxias,
sinto como um monge
o segredo do lótus.

Penso e contemplo as imagens
da pureza como um coração
de carne que se espanta
em delírio etéreo,

e juro por toda a vida
cintilar como astro
na miragem que desenha
a festa.

01/08/2017 Gustavo Bastos

POEMA DA LIBERDADE

A liberdade é uma estrela
que rutila no coração do mundo,
a liberdade sobrevive
sob os pés dos cavalos,
a liberdade semeia
cada gesto universal,
a liberdade persiste
contra os campos minados,
a liberdade sonha
apesar das desditas,
a liberdade é um corpo
que dança na guerra,
a liberdade é um sorriso
que encara a morte,
a liberdade é o mar
na espuma de vênus,
a liberdade é a poesia
que tanto ama,
a liberdade é o conhecimento
na sua trama,
a liberdade tira da prisão
os que se perdiam,
a liberdade é uma cidade
iluminada de neón,
a liberdade é um grito de
socorro na luta corporal,
a liberdade caminha
sobre os escombros da explosão,
a liberdade gira o mundo
como um carrossel,
a liberdade é o canto da terra
na paz da chuva e do sol.
E o poema é livre!

01/08/2017 Gustavo Bastos

domingo, 30 de julho de 2017

VÉU D`AREIA

Pelo vão da porta, como um cais
que peixe vira óleo,
tantra em concha
sete raios descem.

E tal concha, musicada,
delimita o véu d`areia,
como um anzol
e uma sereia.

30/07/2017 Gustavo Bastos

CLARA DE ÁCIDO

É impossível não perceber Clara de ácido,
brilha azul gritando,
em toda a poesia.

Claro-escuro que sucumbe à pintura.
Eu peço ao resto do mundo
que ali retrate o tempo,
como um líquido
que aclara.

Mesmo sem saber,
mesmeriza-me,
como o meu ser
que é poético.

Não sei mais como ao peito
calar ao ver Clara de ácido
na tela plasmada
da visão.

É incontrolável perceber Clara de ácido,
uma loba viajante
no fundo do universo,
como luz
e todo
o clarão.

30/07/2017 Gustavo Bastos

segunda-feira, 24 de julho de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE VII

“Hemingway tem um estilo seco, sem exageros ou paramentos”

HEMINGWAY E NÓS

Temos em Hemingway uma crueza que tem a direção literária realista de uma narrativa que se estende como um tipo de atitude de escritor que revela um empenho prático, que tem sentido tanto técnico como moral, e que, nas palavras de Calvino, eram também uma “limpidez de olhar, de recusa a contemplar-se e lamentar-se, de presteza em captar um ensinamento de vida”.
Hemingway tem um estilo seco, sem exageros ou paramentos, não faz enxertos no texto, diz direto, ligado junto às coisas mesmas que se nos apresenta, e que, para Calvino “O herói de Hemingway quer identificar-se com as ações que executa, ser ele mesmo na soma de seus gestos, na adesão a uma técnica manual ou pelo menos prática, trata de não ter outro problema, outro empenho além de saber fazer bem uma coisa”.  
Tal empenho prático dos heróis hemingwaianos também acusa algo lateral, que é o fato de que o derredor que inclui o existencial e questões como a morte, por exemplo, são objetos de fuga da reflexão de tal personagem tão ligado direto às coisas, no seu labor, como um mundo mecânico que gira na obrigação de ser a força, e a fuga é também desta inutilidade de tudo, e das imagens estáticas do desespero e da derrota.
Logo, tal herói se lança à prática da vida e do trabalho, ao movimento, sem criar o limo que é a lástima e a lamúria dos que se fincam no desvio da contemplação. O que para Calvino é nada mais que o fato do herói em Hemingway ser este que “Concentra-se na estrita observância de seu código, daquelas regras desportivas que em todos os lugares ele sente necessidade de impor a si com o empenho de regras morais”. E que, por fim, Calvino acusa, “Aferra-se àquilo, pois fora daquilo existe o vácuo, a morte”.
Hemingway não tem o temperamento filosófico, ele não faz filosofia, se muito, se mete com a filosofia pragmática norte-americana, ligada à concepção de estrutura, que lida com o ambiente humano comum das atividades e do mundo prático, e que assim como o neopositivismo apresenta um sistema fechado de regras para cumprir, tais que refletem a orientação do pensamento, e temos, igualmente, do lado de Hemingway,  seus heróis e a obediência destes a um código bem definido de ética desportiva, que é o lugar seguro para um mundo que é, na verdade, misterioso, tal mistério que é evitado por tais sistemas fechados de vida e de pensamento.  
Contudo, em Hemingway temos uma espécie de vacuidade do diálogo, e que nele é um caráter pausado e divagante da fala, que lembra os desvios dos diálogos que estavam presentes em Tchekhov, por exemplo, e temos assim a insensatez do mundo convulsionado presentes em tais autores, o desespero da vida contemporânea de Hemingway já nos aparece em seu Fiesta de 1926, que é o desfile de turistas, erotômanos e beberrões.
Por sua vez, enquanto os pequeno-burgueses de Tchekhov sucumbem na prática, mas conseguem manter uma ideia de dignidade, ainda almejando um mundo reformado e ideal, cheio de esperança, os americanos sem raízes de Hemingway, por sua vez, se lançam sem proteção num mundo cruel e feito de massacres, mas tais personagens têm o interesse em dominar uma habilidade qualquer, em fazer bem uma coisa, em ser eficientes, virtudes que dão satisfação pessoal, mas que estão diante de um mundo em que reina a desolação, a morte e a guerra.  Mas este é o fato crucial, Hemingway marca território numa moral antifascista, e para Calvino “porém aceita o massacre como cenário natural do homem contemporâneo”.
Para Calvino, portanto, o ponto nevrálgico da obra deste escritor é condensada na seguinte afirmação: “Ter sentido a guerra como a imagem mais verdadeira, como a realidade normal do mundo burguês na idade imperialista, foi a intuição fundamental de Hemingway”. E Calvino nos descreve a origem de tudo em Hemingway: “Aos dezoito anos, antes ainda da intervenção americana, só pelo gosto de ver como era a guerra, conseguiu atingir o front italiano, de início como motorista de ambulância, depois como diretor de uma cantina, fazendo a ligação de bicicleta entre as trincheiras do Piave (E quanto da Itália ele entendeu, e como já na Itália de 1917 soube ver o rosto “fascista” e o rosto popular contrapostos e os representou, em 1929, no mais belo de seus romances, A farewell to arms)”.
Muito se especula se tal atração pelo cenário de guerra tenha sido influência de Tolstoi, mas a descrição que Hemingway faz da guerra já não tem nada mais a ver com a de Tolstoi, pois, para Calvino, “Hemingway antecipa aquilo que será o espírito do soldado americano na Europa”. Por fim, Calvino conclui que “Hemingway compreendeu alguma coisa sobre como se está no mundo de olhos abertos e enxutos, sem ilusões nem misticismos, elaborou um estilo que exprime de forma completa a sua concepção da vida”.

JORGE LUIS BORGES

Temos em Borges o resgate de um mundo governado pelo intelecto, e este atua como a ideia literária da obra borgiana, contra o domínio da exploração do inconsciente na massa caótica do mundo da literatura mundial do século XX, num acúmulo progressivo de uma linguagem que já nos aparecia em saturação psicológica. Borges que acompanha neste privilégio do intelecto uma minoria que incluía Paul Valéry, num movimento que Calvino vai chamar de “revanche da ordem mental sobre o caos do mundo”.
Em Borges se descobre, em toda a sua obra, a potência que nos leva ao esforço deste escritor em criar e dar forma a um mundo igual ao que é o intelecto, com um conjunto de signos em que reine uma geometria rigorosa de temas, ações e direções, numa narrativa que tenha uma métrica concatenada que leve a este mundo estável que é o espaço de elaboração que faz todo intelecto.
E chegando ao ato de escrita em si, em Borges temos toda uma economia de expressão, pois Borges ficará bem conhecido como um dos mestres da escrita breve, sobretudo como contista sui generis que foi. Em seus textos breves ele condensa um manancial de sugestões, caminhos, com fatos narrados e outros aventados, portas de entrada e de saída para vários lados que se entrecruzam numa geometria e com a perícia deste escritor que se comporta como um poliedro, e que nos leva, nas palavras de Calvino, para “aberturas vertiginosas para o infinito”.  
Borges realiza tal texto de uma densidade que não implode, não sucumbe, não sofre congestão, com o domínio de clareza necessário, embora em um espaço narrativo exíguo, com texto sóbrio e com espaços de movimento, e que demonstram, para Calvino “como o narrar sinteticamente e enviesado conduz a uma linguagem toda precisão e concretude, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, dos adjetivos sempre inesperados e surpreendentes, isso é um milagre estilístico, sem igual na língua espanhola, de que só Borges tem o segredo”.
E Calvino nos descreve como e quando se deu o insight mais importante da obra borgiana, no que temos: “Para escrever breve, a invenção fundamental de Borges, que foi também a invenção de si mesmo como narrador, o ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que o impedia, até cerca de quarenta anos, de passar da prosa ensaística para prosa narrativa, fingiu que o livro que desejava escrever já estivesse escrito, escrito por um outro, por um hipotético autor desconhecido, um autor de uma outra língua, de uma outra cultura, e descreveu, resumiu, resenhou esse livro hipotético”.
Borges tem a faculdade de duplicar e multiplicar cada texto seu, e isso na imagem de uma biblioteca imaginária e real ao mesmo tempo, em que figuram obras clássicas, eruditas e outras simplesmente inventadas, Borges eleva a sua literatura ao quadrado, literatura potencial, em que muito se guarda em crisálida, uma literatura de conteúdo sugestivo, que abre um mundo e um abismo, que se multiplica com gestos que colocam a narrativa como um sinal de sinais, como um conto que é uma resenha, como um texto que abre outros conteúdos imaginários ou eruditos, mas sem fazer distinção de ambos, jogando-os no mesmo caldeirão em que a plena geometria borgiana ganha vida literária. E que Calvino nos diz que “cujos prenúncios podem ser encontrados em Ficciones, nos estímulos e formas daquelas que poderiam ter sido as obras de um hipotético Herbert Quain”.
E Calvino encerra aqui o périplo borgiano, quando nos diz: “Esses núcleos míticos ou arquetípicos, que provavelmente podem ser reduzidos a um número finito, se destacam contra o fundo desmesurado dos temas metafísicos mais caros a Borges. Em cada texto, por todos os meios, Borges fala do infinito, do inumerável, do tempo, da eternidade ou da presença simultânea ou da dimensão cíclica dos tempos. E aqui retomo o que dizia antes sobre a máxima concentração dos significados na brevidade dos seus textos. Concepção do tempo múltiplo é cara a Borges porque é aquela que reina na literatura, ou melhor, é a condição que torna a literatura possível”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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