PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 12 de julho de 2020

LIVE INSTAGRAM – PARTE IV

DATA : 12/07/2020 : DOMINGO 22:30 H

A LEI NATURAL NO ESTADO DE NATUREZA E NO ESTADO CIVIL

A Teoria do direito natural que precedeu a nova concepção que fez Rousseau desta ideia considerava que este direito natural já existia anteriormente ao surgimento das leis civis e também era anterior às convenções humanas, e a lei natural teria fundamento na natureza humana, tão imutável como as verdades eternas, e extrairia a sua autoridade do direito racional, impondo-se a todos os homens igualmente.
A diferença da concepção de Rousseau sobre a lei natural vem do fato de ele considerar que esta só é concebida após o homem sair do estado de natureza, pois neste estado ele viveria aquém da moral, sem poder fazer juízos, e se submeter ou não a normas e preceitos. Portanto, em Rousseau a moralidade não poderia ser anterior ao Estado civil.
Para Locke a lei natural é válida no estado de natureza e já se encontra inteligível a todas as criaturas racionais, donde não se exclui o uso do direito racional. Rousseau, diversamente, coloca o homem diferente dos animais por possuir razão, mas no estado de natureza esta razão se encontra potencialmente, só adquire o uso desta razão ao se tornar sociável. Lembramos que a descrição de Rousseau sobre o estado de natureza exclui o uso do direito racional, pois neste estado ele é guiado pelo instinto.
Quanto ao uso da razão, o homem só passa a exercer este seu espírito ao se relacionar com seus semelhantes e usar a palavra para se comunicar, saindo da enorme distância que separa a sensação da inteligência propriamente dita. Por fim, é com a instauração da sociedade civil que o homem cultivará a sua razão, pois, para Rousseau, o progresso da razão e da sociabilidade são estreitamente solidários.
O homem, quanto à lei natural, não a poderia compreender no estado de natureza, pois esta tem preceitos que se confundem com as máximas do direito racional, pois a lei natural, na sua forma racional, só aparece com a vida social e com o uso da razão que esta sociabilidade proporciona, as máximas da razão só são conhecidas com o uso da razão. A consciência da lei natural supõe o desenvolvimento da sociabilidade.
A primeira lei conhecida pelo homem é a lei civil, mas, ainda assim, a lei natural lhe é superior. O Estado não se configura como autoridade suprema na área da moral. Para Rousseau, por sua vez, coloca o respeito à lei natural como um dos limites para o poder soberano, portanto, temos que a lei civil não pode contrariar a lei natural.
Esta concepção de Rousseau é diferente em relação à tradição do entendimento sobre o que é a lei natural, mas esta concepção tradicional ainda não é de todo abandonada por Rousseau para explicar a comunidade política. O que Rousseau opera de diferente sobre a lei natural é situá-la no Estado civil e não no estado de natureza.
Por sua vez, em Rousseau, o direito natural se aplica tanto no estado de natureza como no Estado civil. No estado de natureza o direito natural é anterior à razão, com os princípios de amor de si e piedade, e as máximas da razão só surgem no Estado civil. No estado de natureza temos o direito natural propriamente dito e no Estado civil temos o direito natural racional.
Na concepção tradicional do direito natural este já aparece apoiado na razão como uma noção única, ao passo que Rousseau distingue um direito natural primitivo anterior à razão, e o direito natural racional, restabelecido pela razão.
No processo de estabelecimento da sociedade civil esta moral natural baseada na bondade e na piedade se tornam insuficientes, surge a necessidade de uma sanção, e é a lei civil que estabelece esta sanção às máximas do direito natural, garantindo uma reciprocidade suficiente para a prática da justiça.
O poder soberano assegura o gozo possível dos direitos individuais, que são um limite à soberania do Estado, aqui temos os direitos individuais e o direito privado como anteriores ao direito público, este último que serve para garantir a cada um o livre exercício de seus direitos e deveres. É por meio do contrato social que a lei natural tem uma sanção que não possuía no estado de natureza, e por meio do contrato social temos a garantia dos bens e das liberdades.
Rousseau se difere de Locke e Hobbes, pois em Locke o homem é por natureza apto à vida social, em Hobbes, por sua vez, temos um estado de guerra anterior à sociedade civil, nele o estado civil visa anular o estado natural, para dar fim a este estado de guerra, o homem renuncia aos seus direitos originais em favor de uma pessoa civil representada por um homem ou uma assembleia.
O soberano, em Hobbes, não é limitado pelo direito privado, pois é este soberano que fixa este direito, numa concepção da natureza humana oposta a de Locke, pois em Hobbes o homem está distante da imagem de animal político construída por Aristóteles, pois suas paixões e instintos originais não o tornam apto à vida social.
Para Rousseau, por sua vez, o homem sai de seu estado solitário para viver na sociedade civil, é a operação de desnaturar que coloca o indivíduo que se encontrava solitário, feito para viver só, agora dentro de um todo coletivo que altera a sua constituição para reforçá-la, e a partir daí ele se orienta pela justiça racional e não mais por uma bondade natural.
Desta alienação da individualidade solitária não se pode, contudo, anular a liberdade, e o contrato social que Rousseau propõe visa recuperar ao homem social os bens essenciais de que ele gozava no estado de natureza.
A alienação total, para Rousseau, visava o objetivo de que o homem vivesse sem dependência pessoal, um mal que Rousseau aponta na sociedade civil que ele visa extirpar com seu contrato social, um contrato que não anularia os direitos individuais e o direito natural, mas estes se encontrariam transformados e restabelecidos pela razão, segundo a proposta de contrato social de Rousseau.

O CONTRATO SOCIAL E O PODER SOBERANO

Como vimos, para Locke, o pacto que faz nascer a sociedade civil funda a propriedade, e para Hobbes resolve o problema da insegurança da vida, em Hobbes o homem sai de um estado de guerra e de agressividade dos instintos, e se submete a um soberano.
Em Locke, o homem naturalmente sociável do estado de natureza pode fundar a propriedade dentro da instauração da sociedade civil. Isto é, a fundação da sociedade civil, para Locke e Hobbes, têm em comum para ambos, portanto, a solução de um problema que vem do estado de natureza.
Em Rousseau, por sua vez, temos três momentos, o estado de natureza, em que o homem vive isolado, a fundação da sociedade civil, em que o homem passa a viver coletivamente com seus semelhantes, mas Rousseau vê a necessidade de uma repactuação, de um contrato social novo, pois a sociedade civil existente se fundaria numa desigualdade que era consequência de um pacto dos ricos baseado em astúcia e vantagens para poucos.
Enquanto em Locke e Hobbes a fundação da sociedade civil ser resolve por si mesma, isto é, se legitima, em Rousseau, este pacto deve ser refeito, pois ele denuncia a desigualdade e não a legitimidade desta sociedade civil existente.
Na obra Contrato Social, Rousseau busca este novo pacto social, ele estabelece os fundamentos do que viria a ser, para ele, a autêntica sociedade política, que possuía os princípios da liberdade e da igualdade, visando com isto o bem público, o Contrato Social, para Rousseau, representa o modelo de sociedade que deve ser construído e que Rousseau irá chamar de República.
Rousseau, na obra Contrato Social, diz o seguinte : “Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece contudo a si mesmo, permanecendo, assim tão livre quanto antes”.
O ato de associação que Rousseau coloca no Contrato Social é o que funda a “suprema direção da vontade geral”, que é um ato que coloca toda pessoa sob esta direção e no lugar de cada contratante surge um corpo moral e coletivo, e a pessoa pública que surge desta associação irá se chamar República, que é Estado quando passivo, Soberano quando ativo e Potência em relação a outros corpos políticos.
Os membros que coletivamente recebem o nome de povo, em particular chamam-se cidadão, enquanto participante da autoridade soberana e súditos enquanto subordinados às leis do Estado.
Deste modo, para que este pacto social não seja uma fórmula vã, este deve implicar que o membro que recusar a obedecer este compromisso mútuo, que emana da vontade geral, será “constrangido por todo o corpo”, o que significa que “será forçado a ser livre”, pois, somente cada cidadão entregando-se à pátria é que poderá estar livre de toda a dependência pessoal.
Pelo contrato social o homem abdica de sua liberdade natural, ilimitada, e ganha uma liberdade civil e a propriedade de todas as coisas que possui, a liberdade natural que se encontrava nas forças do indivíduo, agora se torna uma liberdade civil que inclui o direito de propriedade, que somente é limitada pela vontade geral.
Do mesmo modo, tudo aquilo que cada particular adquire deverá sempre estar subordinado ao direito que a comunidade tem sobre todos os membros, assim Rousseau concebe um caráter ético da concepção do Estado em que o público é considerado superior ao privado e é o valor máximo da comunidade.
Para Rousseau, portanto, a soberania de uma unidade política tem sua origem e fundamento no interesse comum e não é outra coisa senão o exercício da vontade geral, que se configura como um pacto social que proporciona ao corpo moral e político um poder absoluto sobre todos os seus membros.
Tal poder que Rousseau chama de soberania está sob a direção da vontade geral, esta que, por sua vez, parte de todos os membros e se aplica a todos igualmente, portanto, não envolve interesses ou assuntos particulares. O limite deste poder da soberania, por sua vez, não procede de fora, de um outro poder ou interesse superior, mas dos limites inerentes ao seu próprio projeto de existência e de ação.

Link de vídeo : Rousseau e a Vontade Geral : https://www.youtube.com/watch?v=bGff94NqcSw

Link da live no igtv : LIVE INSTAGRAM : IGTV :
13/07/2020 : Rousseau
1 - A Lei Natural no Estado de Natureza e no Estado Civil
2 - O Contrato Social e o Poder Soberano

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





segunda-feira, 6 de julho de 2020

A PESTE – PARTE VII

“o governo dos Estados Unidos comprou praticamente todo o estoque mundial do remédio remdesivir para 
os próximos três meses”

O remdesivir foi criado originalmente para o combate do ebola, antiviral que se tornou uma aposta dos Estados Unidos contra a Covid-19. Contudo, estudo publicado na The Lancet não apontou resultados efetivos do remdesivir, apenas uma ligeira diminuição do tempo na recuperação de doentes pela Covid-19, redução também do índice de mortalidade, mas nada estatisticamente relevante.
A Gilead, farmacêutica norte-americana, acusada de abuso de monopólio e violação de patentes, tem planos de lucrar por anos com o remdesivir. “Hoje nós temos um remédio com potencial para acabar com a epidemia do HIV. O problema é que a Gilead é a única proprietária, e ela cobra preços astronômicos.”
A crítica feita pelo deputado Elijah Cummings se dirige a Gilead Sciences, fabricante de remédios contra HIV, hepatite C e, agora, a Covid-19. A empresa Gilead é conhecida por tirar o máximo proveito de suas patentes, mesmo quando isso impede o tratamento de milhões de pessoas. A patente da Gilead garante exclusividade de venda do remdesivir por 20 anos.  A farmacêutica, contudo, vem sendo pressionada a dividir a patente com o governo dos Estados Unidos.
A Gilead tem um histórico vasto de práticas de preços exorbitantes de suas medicações, que envolve, por exemplo, o remédio anti-HIV truvada, que levou o governo norte-americano a processar a Gilead, em novembro passado, por infração de patentes, envolvendo a propriedade do truvada como tratamento preventivo do HIV.
Também houve prática de preços abusivos, por parte da Gilead, na comercialização de uma droga revolucionária contra a hepatite C, lançada em 2014, o sofosbuvir, e foram dirigidas críticas ao que foi chamada de “pílula de mil dólares”, o que levou o Senado dos Estados Unidos a abrir uma investigação sobre a política de preços da empresa. E o relatório final concluiu que a Gilead buscava o máximo de lucro sem considerar a saúde dos pacientes.
Por sua vez, a prática bem conhecida de abrir mão da patente em mercados mais pobres e menos lucrativos se repete no caso do remdesivir, num acordo da Gilead com laboratórios da Índia e do Paquistão, distribuindo a droga em 127 países em que a empresa abriu mão das patentes, o que é mais uma jogada, pois a Gilead receberá royalties assim que a OMS anunciar o fim do estado de emergência.
Tal prática se repete, também, com o kaletra, por parte de Israel, medicação para HIV que também vem sendo testada contra a Covid-19, medicação esta que é de baixo retorno financeiro, patente da farmacêutica Abbvie, o que deixa feliz o marketing da empresa, mas não tem impacto econômico algum.
Recentemente, a agência reguladora de saúde europeia tem na remdesivir o primeiro tratamento, pois a agência recomendou a aprovação condicional do tratamento antiviral remdesivir da Gilead Sciences Inc para pacientes de Covid-19 na Europa, remédio que na região será batizado com o nome de Veklury, assim que a Comissão Europeia aprovar a droga.
Contudo, não há resultados definitivos sobre a eficácia da droga no tratamento da Covid-19, e a Gilead promete tais resultados para dezembro deste ano. Por sua vez, o remdesivir já foi aprovado para uso emergencial em pacientes gravemente doentes nos EUA, Índia e Coreia do Sul e recebeu aprovação total no Japão.
Nos últimos dias, contudo, recebemos a notícia polêmica de que o governo dos Estados Unidos comprou praticamente todo o estoque mundial do remédio remdesivir para os próximos três meses. Donald Trump fez um acordo com a Gilead, e tal acordo recebeu críticas, assim como o preço da droga.
A droga será distribuída a hospitais a partir da regulação das pastas de saúde estaduais e federal, e o preço não poderá passar dos quase US$ 3.200 estipulados pela Gilead. Por sua vez, haverá entregas a cada duas semanas em hospitais, lembrando que nos Estados Unidos não há um sistema de saúde universal gratuito e os custos estão sob responsabilidade de planos de saúde ou pelo próprio paciente.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



HERZOG E SUA CONQUISTA DO INÚTIL NO CORAÇÃO DA FLORESTA

“se tratava tão somente de atravessar um navio sobre uma montanha de uma margem de rio à outra”

Herzog continua seu relato, acontece o primeiro encontro entre Fitzcarraldo e os índios, o rio Camisea, em alguns lugares, só tinha um metro de profundidade, a água ficava clara, o navio Huallaga continuava preso e imóvel no banco de areia, houve explosões de dinamite numa tarde, das quais os índios fugiram, e Herzog diz : “Fora de cena, eles se divertiram muito com a dinamite e queriam que eu lhes desse um pouco – alguns deles pescavam com ela já há anos, pela facilidade”.
E Herzog continua, logo após, a descrever mais uma curiosidade : “Hoje se espalhou pela equipe a febre do ouro, provocada por Huerequeque, Paul e Laplace, que pensaram em, para depois do filme, lavar ouro mecanicamente com uma plataforma flutuante no alto do rio Santiago. Todos agora sonhavam com isso”.
Herzog, na sua ideia insana de atravessar um navio por uma montanha, nos dá o relato deste trabalho : “Quando filmamos hoje no Narinho, o navio foi se deslocando de ré na curva ao lado do banco de cascalho e de início não reagiu com toda a força. Tínhamos descarregado o lastro porque a intenção era começar logo a puxar o navio montanha acima, razão pela qual a hélice estava alta demais e fora da água, já não sendo possível alcançá-la.
Então, em um impulso repentino, enquanto três barcos o empurravam pelo lado, o navio se virou e quase esmagou os barcos, que não conseguiram se soltar com rapidez suficiente, passando por cima do banco de cascalho. Galhos voaram pelo deque, cipós foram arrancados, e nós fomos levados para um ponto muito raso onde o Narinho teria ficado preso, mas, com um impulso vindo de todos os barcos, conseguimos empurrar o navio de volta para a curva, de onde provavelmente conseguiremos puxá-lo com cabrestantes até a outra margem, e lá ele vai começar a travessia por cima da montanha”.
Herzog enuncia as dificuldades : “O Narinho está encalhado na curva, e seu gêmeo, o Huallaga, descansa no pongo em uma ilha de cascalho que fica cada vez maior. O bom e o ruim têm aqui um indicador : nível do rio alto é bom; baixo, ruim. O Caterpillar precisa de novos filtros de combustível e óleo para o sistema de transmissão. O diesel fornecido aqui vem sempre misturado com uma parte de água. E nossa provação não para aí. Estou em contato tão imediato com os fundamentos do mundo real, que hoje pensei ter intimidade até mesmo com a morte. Se eu morresse, não faria nada além de morrer”.
Herzog prossegue, com mais descrições de dificuldades e bizarrices : “O Narinho está preso ao fundo de maneira sólida e pesada; o Huallaga também, o trator não sai do lugar, não chove, o rio corre lenta e silenciosamente, atingindo níveis cada vez mais baixos. Mas ainda podemos continuar trabalhando : cabana do Fitz, Don Aquilino no pongo, o início do rebocamento do navio. Kinski caminhou vestido com o figurino em torno das bananeiras da minha cabana e mandou Beatus fotografá-lo centenas de vezes entre as folhas exuberantes; depois os dois andaram mais alguns metros até a margem da floresta.
Lá K. encostou o rosto carinhosamente em um tronco e começou a copular com a árvore. É algo que ele considera erótico – ele, o homem natural e a perigosa selva. Acontece que até agora ele não avançou nem dez metros floresta adentro, e isso faz parte da sua pose. O seu conjunto para selva, feio por Yves St.Laurent, é muito mais importante para ele do que a própria selva, e eu lhe disse, como quem não quer nada, no momento em que ele esperava de mim que de bom grado concordasse que a floresta seria erótica, que não via ali nenhum erotismo – apenas obscenidade”.
Herzog segue seu relato, desta vez sobre os custos da filmagem e mais uma alusão aos ataques de fúria de Kinski : “Eu me assustei ao ver quanto dinheiro já gastamos, e W. simplesmente não queria acreditar nos números que Lucki apresentou, pois perdeu a noção de contexto.
Gritaria durante a filmagem hoje entre ele e K., depois da qual Miguel, o cacique, fez algumas leves insinuações sobre K., que todos os campas odeiam. Miguel me disse que eu devia ter percebido que seu pessoal se juntava em grupos e mantinha-se calado durante os ataques de fúria de K., mas eu não devia pensar que eles tinham medo dele – na verdade tinham medo era de mim, porque eu sempre ficava completamente calmo diante do colérico”.
Em Iquitos, Herzog continua seu relato, com mais curiosidades e mais uma descrição da personalidade colérica e vaidosa de Kinski : “Chegada de Lewgoy, Grande Otelo, Rui Polanah. Confusões noturnas com Lewgoy, que provavelmente pegou isangos na grama do campo de pouso em Camisea, como já ocorreu com Lucki, W. e Sluizer.
Os ácaros o fazem se coçar como um demente, e ele reclama que a coceira é por causa dos lençóis da casa de Paul, onde provisoriamente o hospedamos, já que o Holiday Inn está lotado. Quando a água acabou na cidade inteira e depois ainda ficamos sem luz, ele foi a pé para o Holiday Inn no meio da noite, aparentemente supondo haver ali as duas coisas.
Passamos a tarde nos figurinos, onde Kinski também estava e acabara de provar um alinhado terno azul-escuro, do qual gostou muito. Toda lógica, e o roteiro também, falava em favor do terno, mas quando o vi achei difícil reconhecê-lo como Fitzcarraldo; na imagem que internalizo, ele já se fixou como um arquétipo, com seu terno de linho claro e o grande chapéu de palha.
Eu lhe disse isso sem titubear, e percebi que ele estava a ponto de iniciar um ataque de fúria; então lhe expliquei que, quando eu visualizava Fitzcarraldo, muito tempo depois de o público ter assistido ao filme, ele precisava ser um conceito fenotipicamente firme, e o princípio férreo de um único terno branco só poderia ser quebrado no final, com um fraque – meu instinto sentenciava isso.
Hesitante entre a fúria e uma centelha de compreensão que se acendeu em K., de repente ele se mostrou bastante atento, e eu soube que ele me compreendera. Qualquer um que agora quisesse convencê-lo a usar o terno azul e lhe mostrasse a falta de lógica, ele expulsaria imediatamente com fúria intempestiva”.
Herzog faz um relato que é descritivo, na maioria das vezes, com eventuais divagações, faz um inventário do que é uma filmagem, contudo, em caráter sui generis, pois não é uma experiência de estúdio, mas uma aventura para dentro do coração da floresta, uma experiência única que reúne toda uma gama de características naturais e culturais, na obsessão somente possível de um diretor que não se sabe se é corajoso ou temerário, mas que, ao fim, nos entrega um resultado único de filmagem.
Não era a primeira ideia louca de Herzog ao filmar, já tínhamos tido isto com a filmagem de Aguirre, A Cólera dos Deuses, de 1972, e agora, em 1981, na filmagem de Fitzcarraldo, contudo, havia uma ideia mais extrema, que se tratava tão somente de atravessar um navio sobre uma montanha de uma margem de rio à outra.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




terça-feira, 30 de junho de 2020

PLANET CARAVAN

Nas voltas da vida, a dar o galope com meu cavalo negro, entre as estradas que se abrem em meu sonho e minha canção visionária. A caravana avança sobre os castelos de mármore, sobre as pedras jogadas na beira do rio castanho, na flor ametista eu tenho meu recanto e meu refúgio, as letras se formam no caudal das vinhas e de todo este ópio que delira calmamente sobre as finesses da papoula. O poema, este ser estelar que gira com fúria, no entanto, sempre pousa delicadamente depois que se esgota em sua coda, como na saciedade depois do orgasmo, uma calma búdica de quem está completo.
O poema tem um certo rigor nas astúcias, uma manha honesta que nada sabe e tudo faz, como aconselha toda boa sabedoria prática de ação direta, e todo ser que realiza todas as suas possibilidades, sem regatear seu destino e sua vontade que deve ser soberana de sua vida. O poeta é este tradutor de enigmas, este faz-tudo que em poema escrito condensa um mundo inteiro de noções, sua cavalgada vai a seu termo, em seu fim glorioso de vitória, sua caravana luminosa de sol, nas voltas da vida, no poema que circula seu espaço de ação vitoriosa, um lema e seu ás na manga, sua filosofia de vida, vencer com o seu dom de máquina e de tear firme e resoluto, com a certeza do amor vigoroso que não enfraquece.
A força de sua vontade soberana, seu tear de máquina que não cede ao holocausto da loucura, que não morre exangue na batalha, o poema em seu poeta, o poeta em seu poema, a vida em uma dose de sonho que avança implacável sobre as horas dos dias de luta, a cavalgada que este poema dá sem hesitar diante de um grande caminho que se abre em sua fortuna, sua Terra e sua cidade, seu campo e sua tarde, sua manhã e o descanso em sua noite estrelada, não se esqueça, o poeta tem todo este poder de fogo como um grande épico das batalhas campais pela vitória, a caravana avança contra os dentes da morte, o poema não cede, não regateia, vence, e sua filosofia é a glória de seu caminho livre, a liberdade em seu poema, a poesia em sua liberdade.
O poema se abre em flor com um dom mesmerizante que decifra sete céus na nota de febre de versos que se derramam na música que corre como vinho, na praia de seu flagelo ele vive e entende o sorriso na arma derrotada, ele, o poeta, entende de enigmas, de linguagens cifradas, de brumas subliminares, de hieróglifos infensos à razão, entende da linguagem dos loucos, dos bêbados, das putas, dos insensatos, dos mendigos, dos frenéticos, dos furiosos, entende dos fracassados, entende sua vitória ao ver a desdita dos românticos exaltados, ele lê todos os códigos, já experimentou todos estes venenos, ele retira as quintessências depois de muitas doses de veneno e de antídotos, ele estuda os meandros da loucura e da sabedoria, por conhecer os venenos, lhe depreende os descaminhos, por agora conhecer as quintessências, sabe do bem viver e abraça o universo com toda a sapiência de quem mergulhou nos bas-fonds e saiu vivo, o poema avança, em sua cavalgada ao destino de sua vitória.
A caravana avança, rumo ao seu ato de artista, na hora deste dia imenso, que o poema tem por estar livre em sua vontade soberana, o poeta monta em seu cavalo negro, avança pela estrada sem fim, anda e corre pelo vasto campo florido, realiza seu graal e decifra seu próprio enigma, estuda a sua própria alma, desce ao inferno, sobe ao céu, e anda sobre a Terra com seus pés firmes e uma fortaleza de quem plantou a sua sorte na seta certeira de um coração nobre, seu poema é seu escudo, seu poema é sua sabedoria, a caravana avança, o destino do poeta é escrever.

Gustavo Bastos, 30/06/2020

MAGMA

Em países distantes estava o lume lisérgico e sua taenia saginata que esculpia o verme na pintura. Eu revisei meus tédios na pátria amada que ardia. Logo, entre os ventos da vinha, num terror azul escuro da noite, sofri sob a espada que cortava meu sabre e minha adaga, um partido peito nas braçadas do mar. Nadei por várias paragens, entre as nereidas fui rei, depois de uma embriaguez em que acendi meu cigarro na véspera do caos, olhei em volta, imaginei Londres sob um pub de uísque escocês, fumaça de charuto, brotos de salada, carne no fogo, eu vi o Vesúvio, na semana seguinte, regurgitando poetas de Pompeia, alucinações de Creta, guerra dos hilotas, dos espartanos, uma derrota em Maratona, um assassinato no Senado romano, duas facadas no presidente que foi deposto com notas frias de holocausto.
Rimei minhas pedrarias, diamante e ametista, o rubi cantava suas notas doces como harpa angelical, eu prendia minhas dores numa teia de resistência, a fortaleza urdia seu calor pétreo e decidido, um azougue me tomava o peito, eu corria rumo à minha própria vitória, independente, vigoroso, com a certeza de ser um bom e belo poeta, com todas as histórias e fraturas de um bom e belo poeta, com todas as misérias dos vícios e as glórias da virtude em meu dorso biográfico, um ser moldado, feito na fervura e ganhando seu soldo depois da guerra total contra os abismos da hipocrisia, eu era o guerreiro, e tinha em meu escudo a primeira ponte para o ataque de minha adaga contra o coração da derrota.
O Vesúvio, este Deus caudaloso de lava, regurgitava os poetas de Pompeia, poetas de fogo banhados em lava, fruto do magma, o mistério do fogo em sua fervura, do manto da Terra para a camada atmosférica em fumaça negra petrificando sonhos no mármore, invocando os espíritos infernais que despertavam sob a febre do oráculo e das danças ditirâmbicas antes do primeiro ato de Téspis. Eu fundei, estudando Aristófanes, as nuvens, Eurípides, Ésquilo e Sófocles, a unidade de tempo de um dia para consumar o ato, as parcas cegas do destino, tecendo contra os muros a Moira, e na loucura do suicídio as Eumênides que atacavam os ouvidos do guerreiro em seu delírio de queda.
O magma descia entre as ruas e as casas de Pompeia, os poetas dançavam seus últimos dias na Terra, iriam ao rio sombrio, navegar com Caronte, guiando seu barco rumo a Cérbero, os poetas na lava seriam devorados pelo fogo, o magma em Pompeia daria o destino final a estes ditirambos que nasciam da lira de uma pantomima, de um gesto vulcânico mesmerizado, de um tear fulvo que semeava em seu fogo a grande vida deste magma que preenche o manto da Terra, a doce Terra Gaia, que junto com Cronos regurgitava, e seu magma era o poema final desta astúcia de poeta, deste mimo de artista que nos dá seus amuletos e talismãs, seus poemas feitos do fogo da paixão e da firmeza da vontade, os poetas de Pompeia morriam tocando a lira, se afogando na lava do magma do Vesúvio que entrava em erupção.
Marca desta terra em seu vulcão, o magma deste poema todo que é fogo e que é a loucura da Terra em sua essência, eu me vesti com meu manto diante da grandiosidade do Vesúvio, meu sonho de Pompeia em que ouvia Echoes de Pink Floyd na viagem de meu ácido poético, o magma tocando música, e os poetas de Pompeia, que agora eram estátuas de cinzas paralisadas por uma Medusa de lava, o magma e seu poder sobre o tempo destes corpos, um instante, o momento em que o Vesúvio tomou Pompeia e seus poetas e deu ao fogo seu poder e sua razão.

Gustavo Bastos – 30/06/2020

VIOLÃO DA VIDA

Plangente o violão
das noites estreladas,
na abóbada que
regia em vinho
seu canto rústico,

sete notas do cálice,
e a visão em céu
no êxtase final
do brilho,

o canto, entre os eflúvios
silvestres, o doce campo
que vinha de um ar suave
sobre as nuvens da cor
de meu estro,

longe na lívida canção,
o violão ponteia
na flor da idade.

30/06/2020 Gustavo Bastos

CANTO MUSICAL

Se eu toco C/E/F/G
e repito em minha
escala maior
os meus dons
maiores,
trago em meu bojo
um F# para depois
tentar uma diminuta
em dissonância
com os meus talentos,

repito no refrão
C/E/F/G
e caio numa
escala cromática
sem acidentes,

e o canto que ecoa
repete o refrão
e fecha numa coda
em B que
faz de mim
um anjo
depois do trítono.

30/06/2020 Gustavo Bastos