PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

ANDY WARHOL E A POP ART - PARTE II

O CAMINHO DA GLÓRIA – DO DESENHADOR PUBLICITÁRIO AO ARTISTA ADULADO DA “POP ART”

Andy Warhol atingia grande estima nos meios da publicidade e do luxo, no entanto, ele aspirava a ser reconhecido como artista, como “verdadeiro” artista. Portanto, Warhol escondia os seus trabalhos comerciais, quando esperava a visita de colecionadores de arte no seu estúdio, pois, mesmo na Nova Iorque dos anos 50, a arte comercial era ainda tomada como algo de mau gosto. O artista Warhol já conhecia tais visões dominantes, mas teve, mesmo depois de seu reconhecimento artístico, além do atelier para a arte propriamente dita, um outro para o trabalho publicitário comercial. E se este estúdio comercial se ocupava apenas da comercialização dos seus próprios produtos, isto é uma prova da inteligência superior de Warhol, o que demonstrava também a sua sensibilidade para os critérios de valor do meio artístico.
Warhol era um artista empírico e das coisas visíveis, o que seria fonte de sua batalha para ter êxito nos Estados Unidos dos anos 1950, que ainda eram marcados pelo domínio ainda inquestionável do Expressionismo Abstrato. Tal que era o culto da interioridade e do idealismo desenfreado, e que eram expressos nos quadros de pintores expressionistas abstratos como Jackson Pollock, Franz Kline, Clyfford Still, Mark Rothko e Barnett Newman, como uma refutação artística definitiva, até então,  de qualquer fonte empírica e material como expressão ade arte.
Portanto, a luta de Warhol era a de que as influências artísticas, transmitidas pelos seus professores no College de Pittsburgo, e as que ele teve durante seus anos em Nova Iorque, a da arte dos Rubens e Courbets até à arte popular americana, passando pela caricatura, não tinham ainda dado a Warhol a sua concepção de arte. Por outro lado, os seus projetos para anúncios nas revistas em papel glacé do luxo e da moda alcançavam cada vez mais atenção e aceitação. Pois qualquer que fosse o objeto a ilustrar, seja shampoo, joias, baton ou perfume, Warhol tinha uma originalidade decorativa nos seus trabalhos.
Para os seus desenhos publicitários, por exemplo, Warhol tinha adotado uma técnica de reprodução direta: desenhava os projetos a lápis em papel hidrófugo, retocava os contornos a tinta-da-china e imprimia o conjunto, ainda úmido, sobre folhas de papel absorvente. Este processo, em princípio, baseado no processo do papel mata-borrão, era de fato tecnicamente primitivo, mas surtia efeito. As linhas que na imagem impressa não apareciam como traço contínuo, sendo por vezes interrompidas de forma mais esbatida, ou mais acentuada, tinham qualquer coisa de esboçado, de ligeiro, de flutuante. Graças a uma preparação minuciosa do modelo, a imagem obtida condensava-se num conjunto – embora ligeiramente deformado – de linhas e formas familiares, como que ligadas por pontos.
A seguir à impressão, Warhol, ou um dos assistentes que, bem cedo, se aglomeraram à sua volta, coloriam as superfícies interiores nas cores pastel, rosa pálido ou vivo, azul-claro, verde como gelado de pistácio, ou laranja, como a cor de um “parfait” de laranja. Warhol utilizou igualmente a técnica da “blotted line”, a linha manchada, para a produção de trabalhos “independentes”, como ilustrações de livros. E são tais folhas que o colocariam dentro dos círculos artísticos. James Fitzsimmons então escrevia na revista “Art Digest” que as impressões frágeis de Warhol lhe faziam lembrar Aubrey Beardsley, Henri de Toulouse-Lautrec, Charles Demuth, Balthus e Jean Cocteau; pois  desprendia-se delas uma preciosidade e uma perversidade habilmente estudada que tinha uma espécie de expressão de arte que provocava sentimentos confusos e ambíguos.
A técnica da “blotted line” pode ser considerada como uma das fases essenciais da evolução artística de Andy Warhol. Pois, ao imprimir as linhas desenhadas a tinta-da-china, reproduzia o desenho original e desvalorizava a noção inconteste das vacas sagradas da História da Arte. Por outro lado, esta técnica invulgar e inusitada não está assim tão afastada dos processos de reprodução, geralmente aplicados na Arte, tais como temos na xilogravura, na gravura a talha-doce, e nas águas-fortes e litografia. No entanto, no contexto de arte no qual Andy Warhol ainda vivia, o postulado segundo o qual a unicidade é uma das condições necessárias (mas não a única) para que um trabalho seja considerado uma obra de arte, não foi abalado pelo processo do papel mata-borrão.
Warhol desferiu, por sua vez, um golpe mais subversivo no dogma do original, quando, apenas esporadicamente, interveio na elaboração das folhas referidas que, graças ao colorido e textos de acompanhamento, poderiam ser consideradas apenas quase-originais. Os desenhos, meio gravuras, meio originais, eram, afinal de contas, o produto de uma manufatura. E quando Andy Warhol tinha alguma reunião no “New York Times” ou em qualquer revista de moda, ele ia muitas vezes para casa carregado de sapatos, joias, frascos de perfume, roupas de malha e outras tralhas para fazer as respectivas ilustrações. Os desenhos eram depois decalcados noutro papel e, a seguir, passava-se à fase do “blotting”; obtinha-se então o desenho final de traço desigual, a característica linha interrompida (blotted line). Na Lexington Avenue, então, Warhol experimentou aquilo que mais tarde iria realizar, em grande estilo, na lendária “Factory”.
No entanto, nem o modo nem a técnica de trabalho eram extraordinários para um desenhador publicitário de sucesso. Os concorrentes que, como ele, lutavam por um lugar ao sol, procediam de igual modo. A transposição para a arte da divisão do trabalho da sociedade industrial e/ou pós-industrial, só poderia assustar mesmo os gurus de uma concepção idealista da Arte. O artista, promotor e adversário da indústria e da burocracia, que assume todas as fases da criação da sua obra, era produto de uma concepção esotérica originada do espírito idealista alemão que, por muito tempo, animou a arte americana, desde as paisagens monumentais do emigrante alemão Albert Bierstadt às erupções cósmicas de Jackson Pollock.
No Renascimento, para que um contrato fosse executado com originalidade, os mestres tinham apenas que criar pelas suas próprias mãos as partes essenciais, o mestre concebia os esboços, definia os pormenores da obra pretendida e, quanto ao resto, dedicava-se aos seus negócios, tais como obtenção de encomendas lucrativas, ou viajava em missões políticas. O gênio pensativo que, na mais profunda solidão, luta com a sua arte, só séculos mais tarde marcou a imagem do artista.  
Warhol era procurado pelos seus desenhos publicitários, mas não era ainda reconhecido como artista. O ano de 1956 iria ter uma importância decisiva para ele. Deu uma volta ao mundo que, entre outros países, o levou a Itália, a Florença, onde as obras de arte do Renascimento o impressionaram e lhe animaram as ambições artísticas. Neste mesmo ano, foi também distinguido com o “Thirty Fifth Annual Art Directors` Club Award” pela publicidade aos sapatos da elegante loja da conhecida firma Miller, tendo o Museum of Modern Art, centro de consagração da Arte Contemporânea, convidado Warhol a participar numa exposição dos “Desenhos mais recentes dos EUA”. Era-lhe, assim, facultado o acesso à arte “séria” e a “Life Magazine” publicou uma série das suas ilustrações. Foi também então que Warhol começou a interessar-se pelo cinema e suas estrelas.
Já nesta época pré-pop, Andy era uma espécie de celebridade, que conquistava prêmios, admirado por todos, e com um estilo próprio. E o texto de David Bourdon evoca um conceito: o de pop. Mas apenas na perspectiva dos contemporâneos que acreditavam no progresso e tinham tendência para considerar o passado como mero prelúdio do presente, é que os anos 1950 podiam ser considerados como o decênio da pré-pop. A realidade, na verdade, era muito diferente, pois a abstração dominava a Arte, com exceção de alguns “dissidentes” franceses e italianos. A cultura ocidental encontrava-se dominada por um valor de liberdade que se refletia numa abstração como para rivalizar com o realismo de inspiração socialista e comunista.
Com efeito, grupos de marginais da literatura, do teatro, do cinema e das artes plásticas declararam guerra a uma concepção tão unilateral de arte, e também Dada e a anti-arte de Marcel-Duchamp, mas ainda nãos e podia falar de pré-pop. A Pop Art, por sua vez, atingiria como um raio os meios artísticos estabelecidos, que reagiram assustados. No entanto, ainda alguns continuaram a depreciar o fenômeno indesejável, considerando-o simplesmente como um episódio da história das modas. Era preciso ser-se um espírito muito aberto, para se atribuir o mínimo valor artístico às pesadas “pinturas” de Robert Rauschenberg e aos quadros singulares de Jasper Johns. Ainda assim, eles não traíam inteiramente as convicções sagradas do Expressionismo Abstrato e, apesar da estranha integração de objetos cotidianos, de forma material ou pictórica, ainda se tratava de uma concepção subjetiva e individual de arte, a arte que continuava a prevalecer sobre a vulgar realidade. No entanto, a Pop Art propriamente dita surgiu como uma expressão nova e apenas uma pessoa, talvez inconscientemente, estava preparada para isso: Andy Warhol. Neste aspecto, ele é de fato o único representante da fase que antecede a Pop Art.
São muitos os que se vangloriam de ter inventado o termo “pop”. Ele aparece, pela primeira vez, numa colagem, que se perdeu, do artista britânico Richard Hamilton. Muitos consideraram-no abreviatura de “popular”, à semelhança da famosa palavra “Merz” inventada por Kurt Schwitters que, tendo fugido da Alemanha nazi, encontrou um refúgio na Inglaterra. O crítico inglês, Lawrence Alloway, introduziu o termo na literatura sobre arte. Ele tentava descrever experiências artísticas que se debruçavam, de forma crítica, sobre os artigos do consumo de massas, as marcas de fabrico e as imagens-símbolos da indústria dos bens de consumo, os apelos formalistas da publicidade, as histórias esquemáticas da banda desenhada, os ídolos estereotipados do cinema e da música, os anúncios luminosos dos grandes centros urbanos que representavam um vocabulário trivial feito de símbolos e de imagens, destinados, como os produtos e as ideologias que eles representam, a um consumo imediato.
Andy Warhol trabalhava, de fato, na arte da publicidade comercial; fazia para artigos de prestígio e criava anúncios para revistas de qualidade, mas, na verdade, isto não era, de modo algum, o seu mundo. No início dos anos 60, mudou abrupta e radicalmente a sua temática. De repente, eles aí estavam; primeiro, os desenhos e, logo a seguir, os quadros das notas de dólares, das estrelas de cinema, das latas de sopa, das garrafas de Coca-Cola e dos frascos de ketchup, das bandas desenhadas de Dick Tracy, Popeye e Superman.
A consagração artística de Warhol era fatal, quando descobriu que os seus temas não tinham sido bem escolhidos. Eram adequados aos desenhos chiques, mas demasiado elaborados para impressionar os esnobes da cena cultural nova-iorquina. Apenas os sapatos transformados em fetiches exalavam um mau gosto ligeiramente trivial. Os motivos comercializados da arte tinham degenerado em elementos decorativos baratos; faltava-lhes força e poder de provocação. A partir do início dos anos 60, Warhol deixou de enriquecer a concepção publicitária através de formas a fórmulas da arte superior, para, ao contrário, trazer à arte os símbolos oticamente gritantes da publicidade de massas. Deixou as lojas elegantes da Fifth Avenue voltando-se para os supermercados de Queens, Bronx e Brooklyn e de outros subúrbios americanos. Andy Warhol escolhia os motivos pura e simplesmente noutros domínios “mais baixos”. Deste modo, lançava-se formalmente na esfera artística com bandas desenhadas, rótulos de garrafas e de latas de conservas, fotografias da imprensa popular e, mais tarde, as fotografias instantâneas, que fez de si próprio, e que se tornariam a base da sua atividade artística.
Warhol modificou também a sua “assinatura”: substituiu as linhas finas do grafismo comercial por traços coloridos pesados e alargados e guarneceu os objetos com sombras muito projetadas, como se pode ver nas fotografias de amadores ambiciosos. “Warhol”, escreve Werner Spies, “procura temas vulgares e uma maneira de pintar que, nos primeiros quadros que ele ainda pinta à mão, renuncia a tudo que caracteriza o seu traço. Para realizar as latas de sopas e as garrafas de Coca-Cola, escolheu um estilo de pintura que lhe era estranho. Não podemos dizer que se verifica nele uma “continuação” de temas populares e de uma pintura eficaz de cartazes. Trata-se, antes, de uma ruptura radical”. Se, até ali, tinha rodeado os produtos de luxo com o brilho do privilégio, a partir de agora Warhol se dedicava aos artigos de massas do consumo americano que, sem dúvida, simbolizaram o “American Way of Life’ de uma maneira mais persuasiva e mais surpreendente do que os sapatos de personalidades ricas e célebres.
Datam de 1962 os desenhos que apresentam o inventário quase completo do “universo artístico” de Andy Warhol: latas de sopa Campbell, frascos de ketchup Heinz, notas e maços de dólares, cápsulas de garrafas de Coca-Cola, retratos de vedetas populares do cinema, como Joan Crawford, Ginger Rogers e Hedy Lamarr. O contorno dos objetos é formado por largos traços fluidos, o texto dos rótulos e dos letreiros cuidadosamente trabalhado, os fundos muitas vezes sombreados e os contrastes acentuados a preto e branco. Em relação aos trabalhos dos anos 50, é visível nestas folhas uma tendência nitidamente antiestética. Isto é ainda mais notório, quando o desenho feito a lápis grosso é parcialmente colorido a aquarela. A linha tênue e elegante dos desenhos em “blotted line” do período anterior desaparecem, Warhol não estava mais interessado em prosseguir a tradição da linha elegante e decorativa, para a qual o teriam predestinado as suas aptidões de desenhador, nem em seguir uma via uniforme estilística no sentido acadêmico convencional.
Mas Andy Warhol não era o único artista à procura de uma resposta na Nova Iorque do início dos anos 60, pois quase ao mesmo tempo, Roy Lichtenstein descobria o que havia de intacto na linguagem das imagens das bandas desenhadas populares. Abaixo do limiar para a cultura da elite social, tinha-se desenvolvido esta cultura das imagens, específica, direta e fácil de assimilar. Os leitores de jornais diários não devoravam as notícias e comentários políticos, mas sim as páginas das bandas desenhadas. As personagens mais populares transformaram-se em heróis dos numerosos filmes de Hollywood e as histórias contadas em imagens eram muitas vezes superiores aos filmes pela sua expressividade e maior vivacidade visual.
Quando criança, naqueles sombrios dias em que esteve doente, as bandas desenhadas foram um lenitivo para Warhol. Muito naturalmente, elas faziam parte da vida cotidiana de qualquer adolescente americano, como depois aconteceu com a televisão. Quaisquer que fossem as histórias que contavam, as bandas desenhadas nunca perdiam o contato com o mundo cotidiano e, como explica Jürgen Trabant, elas recorriam a certas técnicas de comunicação: “A ilusão do real é obtida no desenho pelos meios convencionais existentes desde o Renascimento, da representação em perspectiva, da exatidão anatômica, do movimento e da imitação realista. Na sua forma, a concepção retoma os processos de representação cinematográfica: plano geral, grande plano, corte das imagens. Isto acontece também no interesse da verossimilhança, porque o filme e a fotografia são sobretudo entendidos como sinônimos de fidelidade empírica e a representação, padrão das bandas desenhadas, e reforçam assim seu realismo”.
Ao transformar recortes de bandas desenhadas com grande divulgação em motivos dos quadros, Andy Warhol aproximava-se do seu tema artístico central, se é que ele teve algum. Mas, logo que soube que tinha um concorrente na utilização inovadora da iconografia trivial, terminou abruptamente com tais experiências, embora estas estivessem orientadas numa direção inteiramente diferente da pintura estetizante de Lichtenstein. Os mecanismos do mercado tinham-se estendido com mais intensidade ao campo da Arte e todo o artista que não se distinguisse por um estilo original estava sujeito a que o suspeitassem de falta de consequência artística. 

(Baseado no livro Andy Warhol de Klaus Honnef, editora Taschen)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/32877/17/o-caminho-da-gloria




BOCAGE – O DELÍRIO AMOROSO E OUTROS POEMAS – PARTE III

“Bocage tem sua inteireza de caráter definida em sua criação poética.”

BOCAGE:

Bocage tinha a desmedida de seu temperamento romântico misturado com seu combate contra velhas tradições políticas e religiosas, este poeta que vai da explosão impulsiva ao mesmo petardo do ciúme, Bocage tem sua inteireza de caráter definida em sua criação poética. Bocage praticava sua poesia lírica e também a sua veia poética da sátira, e o seu percurso com versos envolvia os idílios, nos quais havia o retrato árcade da vida rústica, além das odes, epigramas, canções amorosas com forte conteúdo mitológico, e ainda as cantatas, cançonetas, epístolas, dentre outras modalidades poéticas. Mas é o soneto o clímax de sua inspiração poética, e o que define com mais justeza a sua estética e face humana, o que no poeta é um encontro de fronteiras que vai das regras árcades à liberação sentimental de um Romantismo que estava prestes a eclodir no processo histórico-literário.
Ao envolver os sonetos de Bocage, aqui temos seu percurso definido como poeta, é onde fica claro o seu início marcado pela escola árcade e que evoluirá para as confissões amorosas e amargas de um novo temperamento literário que será o do Romantismo. Mas, como Bocage era um poeta dentro de uma situação histórica de transição, isto refletirá em sua poesia como um romantismo (a poesia nova da época) ainda de veia alegórica e mitológica, com a contenção racional própria do arcadismo, no que temos impulsos românticos com a memória viva do estilo neoclássico, pois o poeta Bocage ainda possui sua fraseologia dominada pela expressão árcade, e principalmente sob a influência camoniana.
Com a temática opaca da Arcádia, Bocage vai com o Romantismo, de outro lado, atingir uma predominância de uma poesia de horror, soturna, noturna, com presságios pessimistas que vão dar expressão à cosmovisão de Bocage, e que são o prenúncio do clima psicológico da poesia romântica. Sua poesia emocional vai colocá-lo numa nova fronteira para além da racionalidade asséptica da poesia árcade, demonstrando um novo poeta com veia metafísica, esta que terá na angústia a fonte tormentosa para conflitos sentimentais, de um lado, e ideológicos, de outro.
Bocage, na história da Literatura Portuguesa, é dono de uma poesia que representa o encontro que assinala a decadência de um estilo – árcade – e o limiar de outro – romântico -, e a prática poética de Bocage o coloca, por sua vez, como o criador de anedotas sujas e de poemas obscenos, e também como um dos mestres do soneto, ao lado de Antero de Quental e, ao fim, também ao lado de Luís de Camões.

POEMAS:

AO SENHOR ANDRÉ DA PONTE DO QUENTAL E CÂMARA: O poema abre o raio que cai sobre Sêneca: “O tirano de Roma empunha o raio;/Despede-o contra Sêneca inocente,” (...) “De Nero à dura voz se amorna o banho,” (...) “O filósofo expira.”. E segue seu périplo histórico, agora com a condenação de Sócrates a beber cicuta: “Sócrates imortal, que um Deus proclama,/O mestre de Platão, lá comparece/De acusadores vis enegrecido/No corrupto Areópago.” (...) “De altas meditações, de altas virtudes/Colhe ... (que fruto!) a gélida cicuta;”. O poema agora faz filosofia sobre a origem do mal, questão que o poeta tenta deslindar em versos: “Os homens não são maus por natureza;/Atrativo interesse os falsifica,” (...) “Perde o caráter, o equilíbrio perde/A Retidão sisuda.”. Uma tal filosofia moral ainda o poeta contempla, mas o infortúnio da virtude é patente: “Se em útil, em moral filosofia/Não damos aos mortais a lei, o exemplo;” (...) “Que muito que empeçonhe os nossos dias./O que os séculos todos envenena!”. E o tiro de misericórdia cai sobre a verdade: “Se a verdade entre sombras esmorece,” (...) “Para o são tribunal, que ao longe assoma,/Eia, amigo, apelemos.”. Última esperança, o tribunal, reserva moral da verdade, ou não, no que o poeta vê, enfim, a desdita dos virtuosos, perdidos num mundo torto, sem valores: “Os vindouros mortais irão piedosos/Ler-nos na triste campa a história triste,/Darão flores, ó Ponte, às liras nossas,/Pranto a nossos desastres.”. Pranto aos desastres, a lira canta ou lamenta, chora a história triste, o poema lamenta, pois.
À SANTÍSSIMA VIRGEM A SENHORA DA ENCARNAÇÃO: O poema dedicado à virgem santíssima que concebe o Filho de Deus, no que o poeta nos dá os versos: “Acatamento em si e audácia unindo,/Sobre o jus de imortal firmando os voos,/A impávida Razão, celeste eflúvio,/Se eleva, se arrebata.” (...) “Além do firmamento, além do espaço/Que, por lei suma, franqueara o seio/A mundos sem medida, a sóis sem conto,/Imóvel trono assoma:”. O poema narra a aparição da virgem, e eis que é fonte da Luz: “Luz, que existe de si, luz de que emanam/A natureza, a vida, o fado, a glória,/Dali reparte aos entes”. No que a homenagem clareia, em júbilo: “Eis o Espírito excelso,/Radiosa emanação do Pai, do Filho,/Mística pomba de pureza etérea,”. E a concepção do Verbo: “Tu, Verbo, sobrevéns; aérea flama” (...) “Eis fecunda uma virgem:/A redenção começa, o Deus é homem.”. O poema chama o Deus que é um homem, nascido da Virgem, e o poema prorrompe em felicidade, o canto ditoso da divindade: “Que as estrelas, que o Sol, que os céus adoram,/Virgem submissa, mereceu na terra/Circunscrever em si do empíreo a glória.” (...) “Ah! no teu grêmio puro anima os votos/Aos mortais de que és mãe:”. A glória vai do Deus concebido aos demais mortais, de que também a virgem é mãe.
O DELÍRIO AMOROSO: O poema romântico vem em versos da previsão fatal que lhe contém, a do poeta romântico lamentoso, que é choroso e nada estoico: “Inda não bastam, minha voz cansada,/Tantos ais, que tens dado;” (...) “Gritemos, pois, frenéticos ciúmes,/Gritemos outra vez; que dos aflitos/São triste refrigério os ais, e os gritos.”. O poeta então acusa a amante antes de se dar conta de tomar conta dos próprios sentimentos: “O venenoso fel, que em mim derramas;/Doces enganos de minh`alma arreda,/Deixa-lhe a dor intensa, a dor terrível”. A dor romântica, mal do novo século, e da nova poesia de então: “Farte-se Anarda, o variável peito,/Cujas graças me encantam,/Cujas traições no coração me ferem,/E por quem gemo, em lágrimas desfeito:”. E o poeta não vê mais ventura, e amolece sua lira, sucumbido:  “Os ternos lábios meus, antes proferem/Lamentos contra Amor, contra a Ventura,/Conheça a desleal, sabia a perjura./Sim, traidora, que o júbilo em torrentes/Viste alagar meu rosto,/Quando em teus braços possuí mil glórias,/Hoje morro de angústias, e o consentes,”. As mil glórias da nostalgia, no que se perde Bocage em lamúrias infinitas: “Já lugar na tu`alma a outro deste,/E o mais ardente amor, o amor mais puro/Não satisfaz teu coração perjuro.”. A acusação vai à amante, nunca ao seu próprio amor desmedido: “Porém quanto, infiel, quanto me agravam/Os sorrisos de amor, com que assevera/Teu gesto encantador, teu meigo rosto,/Que inda propende a saciar meu gosto!”. E a natureza aparece, aqui como conflito de uma alma tormentosa: “Primeiro o mar, e o céu me façam guerra,/E a meu corpo infeliz seu peso esmague:/Primeiro se confunda a Natureza,/Que eu cesse de adorar tua beleza.”. O adorador enfim acusa a beleza, infindo lamentoso que é cego e fundo drama: “A tudo está sujeito um cego amante,/Que não pode quebrar prisões tão duras;/A tudo estou submisso, estou disposto,/Quero tudo sofrer, porque é teu gosto.”. O sofrimento aqui é uma decisão do que ama demais, e não vê que é este que ama que é responsável pela catástrofe: “Sobre as asas dos ventos/Canção chorosa, e rouca,/Vai narrar pelo mundo os meus tormentos:/De almas estoicas a dureza louca/Rirá dos teus lamentos;”. E toda alma estoica, sim, na prudência da ação correta, não rirá dos lamentos, apenas aceitará o fado como vida e superação.

POEMAS:

AO SENHOR ANDRÉ DA PONTE DO QUENTAL E CÂMARA
O tirano de Roma empunha o raio;
Despede-o contra Sêneca inocente,
Ao sábio preceptor fulmina a morte
O discípulo ingrato.

De Nero à dura voz se amorna o banho,
As veias se retalham, corre o sangue,
Avermelham-se as águas, folga o monstro,
O filósofo expira.

Sócrates imortal, que um Deus proclama,
O mestre de Platão, lá comparece
De acusadores vis enegrecido
No corrupto Areópago.

De altas meditações, de altas virtudes
Colhe ... (que fruto!) a gélida cicuta;
Cai em silêncio eterno, eterno sono
O oráculo de Atenas.

No abismo do infortúnio, da indigência
Agonizam Camões, Pachecos morrem;
Mendigo, e cego, pela iníqua pátria
Erra o grão Belisário.

De atros vapores, de tartáreas sombras
Nomes augustos a calúnia abafa,
Té que rebente um sol da noite do Erro,
A Razão justiçosa.

Os homens não são maus por natureza;
Atrativo interesse os falsifica,
A utilidade ao mal, e ao bem o instinto
Guia estes frágeis entes.

Enquanto das paixões ativo enxame
Ferve no coração, revolve o peito,
Perde o caráter, o equilíbrio perde
A Retidão sisuda.

Eis surge imparcial Posteridade
Na dextra sopesando etéreo facho;
Tu, cândido, gentil Desinteresse,
Tu lhe espertas a flama.

O Critério sagaz, à frente de ambos,
Aparências descrê, razões combina,
Esmiúça, deslinda, observa, apura;
E depois sentencia.

Já sem nódoa a virtude então rutila,
Já sem máscara o vício então negreja,
Desce ao túmulo a Glória, heróis arranca
Aos domínios da morte.

Se não somos heróis, se em nós, ó Ponte,
Afoiteza não há, não há constância,
Para com férrea mão suster da pátria
A mutante ventura:

Se em útil, em moral filosofia
Não damos aos mortais a lei, o exemplo;
Se dos luzeiros sete à clara Grécia
O grau não disputamos;

Nossos nomes, amigo, alçados vemos
Acima dos comuns: ama-nos Febo,
As Musas nos enlouram; cultos nossos
Mansa Virtude acolhe.

Em tenebrosos cárceres jazemos;
Falaz acusação nos agrilhoa;
De opressões, de ameaços nos carrega
O rigor carrancudo;

Mas puro dom dos Céus, alva inocência,
Esta afronta, este horror nos atavia;
Íntima candidez compensa as manchas
Da superfície escura.

Males com a existência andam cosidos;
Desde o primário ponto do universo
Esta amarga semente sobre a terra
Caiu da mão dos fados.

Entanto que a raiz tenaz, fecunda
Infecta o coração da natureza,
Os tugúrios sufoca, assombra os tronos
A venenosa rama.

Que muito que empeçonhe os nossos dias.
O que os séculos todos envenena!
Não merecer-se o mal é jus, é parte
Para sentir-se menos.

Deixemos a perversos delatores
Os filhos do terror, fantasmas negros,
Que o medonho clarão da luz interna
Assopram sobre os crimes.

Se a verdade entre sombras esmorece,
Se das eras tardias pendo, e pendes,
Para o são tribunal, que ao longe assoma,
Eia, amigo, apelemos.

Também há para nós posteridade,
Quando lá no sepulcro em cinzas soltos
Não pudermos cevar faminta inveja,
Calúnia devorante:

Os vindouros mortais irão piedosos
Ler-nos na triste campa a história triste,
Darão flores, ó Ponte, às liras nossas,
Pranto a nossos desastres.

À SANTÍSSIMA VIRGEM A SENHORA DA ENCARNAÇÃO

Acatamento em si e audácia unindo,
Sobre o jus de imortal firmando os voos,
A impávida Razão, celeste eflúvio,
Se eleva, se arrebata.
Por entre imensa noite e dia imenso
(Mercê do condutor, da Fé, que a anima)
Sobe de céus em céus, alcança ao longe
O grão Princípio dos princípios todos.

Além do firmamento, além do espaço
Que, por lei suma, franqueara o seio
A mundos sem medida, a sóis sem conto,
Imóvel trono assoma:
De um lado e de outro lado é todo estrelas;
Vence ao diamante a consistência, o lume;
Absortos cortesãos o incensam curvos,
Tem por base, e dossel a eternidade.

Luz, de reflexos três, inextinguível,
Luz, que existe de si, luz de que emanam
A natureza, a vida, o fado, a glória,
Dali reparte aos entes

Altas virtudes, sentimento augusto;
Aos entes, que a Terra extraviados,
Das rebeldes paixões entre o tumulto
Ao grito do remorso param, tremem.

Filho do Nada! Um Deus te vê, te escuta!
Seus olhos imortais do empíreo cume
(Aos teus imensidade, aos d`Ele um ponto)
Atentaram teus dias,
Teus dias cor da morte, ou cor do inferno;
De alma em alma grassando a peste avita;
Hálito de serpente enorme, infesta,
Da primeva inocência a flor crestara:

Aos dois (como Ele) do Universo origem
Diz o Nume em si mesmo: - “O prazo é vindo;
Cumpra-se quanto em nós disposto havemos”.
Eis o Espírito excelso,
Radiosa emanação do Pai, do Filho,
Mística pomba de pureza etérea,
À donzela Idumeia inclina os voos,
Pousa, bafeja, e diviniza o puro.

Tu, Verbo, sobrevéns; aérea flama
Com tanta rapidez não sulca o polo!
Eis alteado o grau da humanidade;
Eis fecunda uma virgem:
A redenção começa, o Deus é homem.
Da graça, da inocência, oh paz, oh risos,
Do céu vos deslizais, volveis ao mundo!
Caí, torres de horror, troféus do Averno!

Que estrondo! ... Que tropel! ... Ao negro abismo
Que desesperação revolve o bojo! ...
Para aqui, para ali por entre Fúrias
O sacrílego monstro,
O rábido Satã em vão blasfema.
Lá quer de novo arremeter ao mundo;
Mas vê rapidamente aferrolhado
O tartáreo portão com chave eterna.

Enquanto brama, arqueja enquanto o fero
Morde, remorde as mãos, e a boca horrenda
(As espumas veneno, os olhos brasas)
Mulher divina exulta;
Celestial penhor, que os anjos cantam,
Que as estrelas, que o Sol, que os céus adoram,
Virgem submissa, mereceu na terra
Circunscrever em si do empíreo a glória.

Salve, oh! salve, imortal, serena diva,
Do Nume oculto incombustível sarça,
Rosa de Jericó por Deus disposta!
Flor, ante quem se humilham
Os cedros, de que o Líbano alardeia!
Ah! no teu grêmio puro anima os votos
Aos mortais de que és mãe: seu pranto enxugue,
Seus males abonance um teu sorriso.

O DELÍRIO AMOROSO

Inda não bastam, minha voz cansada,
Tantos ais, que tens dado;
É necessário renovar queixumes,
Queixumes, de que o fero Amor se agrada,
De que zombando está meu duro fado:
Gritemos, pois, frenéticos ciúmes,
Gritemos outra vez; que dos aflitos
São triste refrigério os ais, e os gritos.

Carrancuda Agonia, azeda, azeda
Inda mais, se é possível,
O venenoso fel, que em mim derramas;
Doces enganos de minh`alma arreda,
Deixa-lhe a dor intensa, a dor terrível
Dos ígneos zelos, das tartáreas chamas,
Deixa-lhe as ânsias, a peçonha, as iras,
E a desesperação, que tu respiras.

Farte-se Anarda, o variável peito,
Cujas graças me encantam,
Cujas traições no coração me ferem,
E por quem gemo, em lágrimas desfeito:
Que já mil bens dulcíssimos não cantam
Os ternos lábios meus, antes proferem
Lamentos contra Amor, contra a Ventura,
Conheça a desleal, sabia a perjura.

Sim, traidora, que o júbilo em torrentes
Viste alagar meu rosto,
Quando em teus braços possuí mil glórias,
Hoje morro de angústias, e o consentes,
Podendo-me, cruel, matar de gosto?
Oh êxtase! Oh delícias transitórias!
Oh vão prazer dos crédulos amantes,
Mais fugaz que os alígeros instantes!

Cansaste, Anarda: a sólida firmeza
Vezes mil protestada,
Votos de eterna fé, que me fizeste,
Manter não pôde feminil fraqueza,
A quem somente a novidade agrada:
Já lugar na tu`alma a outro deste,
E o mais ardente amor, o amor mais puro
Não satisfaz teu coração perjuro.

Se me fugisses, se de todo as chamas.
Que por mim te abrasavam,
A nova inclinação te amortecera,
Desculpara esse ardor, em que te inflamas;
Porém quanto, infiel, quanto me agravam
Os sorrisos de amor, com que assevera
Teu gesto encantador, teu meigo rosto,
Que inda propende a saciar meu gosto!

Presumes, que se paga uma alma nobre,
Um coração brioso
De um sórdido prazer, torpe, e corrupto
Qual esse, que me ofertas, se descobre?
Assim só pode o vil ser venturoso,
Essa fortuna por baldão reputo:
Em amor antes só ser desgraçado,
Que de outrem na ventura acompanhado.

Vai, fementida, que a paixão perfeita
Os seus dons não reparte;
Vai gemer noutro peito, e noutros braços:
Pérfidos mimos desse infame aceita,
Enquanto juro aos Céus de abominar-te,
Enquanto arranco meus indignos laços,
Enquanto ... ah! Que falei! Meu bem, detém-te,
Abafa a minha voz, dize que mente!

Eu deixar-te (ai de mim!) primeiro a Terra
Mostre as fundas entranhas
Por larga boca horrível, que me trague:
Primeiro o mar, e o céu me façam guerra,
E a meu corpo infeliz seu peso esmague:
Primeiro se confunda a Natureza,
Que eu cesse de adorar tua beleza.

Vejam meus olhos esses teus pasmados
De um rival no semblante;
Ouça-te os ais, que com seus ais misturas,
E os agrados, que opões aos seus agrados:
A tudo está sujeito um cego amante,
Que não pode quebrar prisões tão duras;
A tudo estou submisso, estou disposto,
Quero tudo sofrer, porque é teu gosto.

Terá por crime, suporá vileza
Tão cruel tolerância
Quem não sente o poder da formosura;
Porém minh`alma, nos teus olhos presa,
Inda chega a temer, que esta constância
Prova não seja de exemplar ternura:
E saibam, se com isto em crime faço,
Que o crime adoro, que a vileza abraço.

Sobre as asas dos ventos
Canção chorosa, e rouca,
Vai narrar pelo mundo os meus tormentos:
De almas estoicas a dureza louca
Rirá dos teus lamentos;
Mas nos servos de Amor terás abrigo:
Quando te ouvirem, chorarão contigo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/32876/17/bocage-ij-o-delirio-amoroso-e-outros-poemas-ij-parte-iii


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

POMBAJIRA

Eis o elmo e a cúspide,
blasonar que a brisa
é putanheira, rija,
leviana.

Dos áureos confortos delicados,
os viveiros sopram na dança,
o ventre exposto com caldos
de sexo e vento.

Ela, a dançarina, roda esbelta
sobre os destroços da paixão,
roda enferma de sidra
com os calcanhares no além.

Certa incorruta beleza,
levanta seus gritos estridentes
na rua soçobrada
do tremor de terra.

A pombajira, com sete facões
em transe mediúnico,
uma luta ao senhor dos caminhos
que sopra as ventanias
da saia vermelha
no colo de Oxalá.

15/02/2017 Gustavo Bastos

ÉDEN FLAMBADO (DRAMA VERNÁCULO)

Com um sonho flambado, ocre divisor
de césares, os astrólogos sorriem
com a flor de campanha,
dama da noite tu és.

Com um tilintar de córneos sobre
a divisa:
pé-direito encarquilhado,
dezenas de fábulas corroídas
com o desdém da ficção,

perdi as plumas e os paetês,
sofria como um maconheiro
nas horas calmas e furibundas,
eu pensava no solilóquio com os
relógios de corda na armada furiosa.

Telema: o sol é um dia eterno,
destes feiticeiros eram os raros sábios
supremos de sião, com Davi depois
e Salomão dos templos na megalomania
dos pastores de fábrica,
dos curandeiros de umbanda,
dos doutores da academia,
e dos panegíricos que gritam
os analectos com frontispícios
em áureo drama.

Toda a vida em mistério soberbo em Elêusis,
Deméter e as dançarinas do Éden.

15/02/2017 Gustavo Bastos

domingo, 12 de fevereiro de 2017

BOCAGE – O DELÍRIO AMOROSO E OUTROS POEMAS – PARTE II

“Bocage, que tinha domínio das regras da poesia árcade, também tinha um temperamento inquieto”

BOCAGE:
Em 1791, Bocage publica o primeiro tomo das Rimas, e é com este trabalho que o poeta consegue se firmar em sua reputação poética, enquanto suas composições satíricas e eróticas entram para demolir com golpes violentos a moral, a política e a religião de sua época. Com esta veia crítica Bocage acaba por ser expulso da Nova Arcádia e, três anos mais tarde, em 1797, é preso e processado por ter feito irreverências antimonárquicas e anticatólicas, também sendo acusado de conspiração contra a segurança do Estado e pela autoria de papéis ímpios, com conteúdo crítico e sedicioso. É então recolhido à cadeia do Limoeiro, e depois, por influência de amigos, e após muitas súplicas e movimentos de retratações, é transferido para o mosteiro de São Bento e deste para o mosteiro dos Oratorianos. Então é retirada a acusação contra o Estado, mantendo a que ele fez contra a religião, de teor menos grave como delito.
Em 1799 Bocage volta então à liberdade, e é neste momento que ele se entrega ao álcool, ao tabaco e ao trabalho, e é quando publica seu segundo tomo de Rimas. Porém, os excessos de uma vida dissipada cobram a fatura com um aneurisma que acomete o poeta, no que ele vai parar no leito. Em 1804, é publicado o terceiro volume de Rimas e, um ano mais tarde, em 21 de dezembro de 1805, aos 40 anos, Bocage morre em Lisboa.
A poesia de Bocage pode ser bem definida em três fases, que são a da mentira arcádica, a da confissão amorosa escrita sob as regras árcades e a dos poemas curtos, de sofrimento e morte, com tais fronteiras sendo porosas e não estanques. Bocage, quando se analisa a sua poesia, era um poeta que está à frente dos escritores do seu tempo, embora também seja um excelente representante do Arcadismo, com seu pleno domínio lírico e de temática amorosa de sua poesia e poética.
O belo, na poesia árcade, vem como uma metáfora depurada, sem excessos, uma linguagem convencional, harmoniosa, tudo atua como se o natural viesse com o filtro da razão, constituindo a base do ideário neoclássico do século XVIII. Pois aqui o trabalho do poeta é de estabelecer, em cânones harmoniosos, simples e diretos, a dinâmica da vida, no que a criação individual torna-se coletiva através das leis convencionais de criação artística. Então temos a poesia árcade como uma poesia racional que tem como temas a vida simples, bucólica, com um desprezo pelo luxo, e que tem poemas que podem ser modos de louvar as origens espontâneas de um mundo primitivo, tudo isso idealizado por uma natureza e um tempo imaginários.
Bocage, que tinha domínio das regras da poesia árcade, também tinha um temperamento inquieto e que era insatisfeito, no que Bocage conseguiu, com esta inadaptação, um possível afastamento dos cânones árcades quando quis, sendo um dos melhores exemplos deste período histórico de poeta que estava na fronteira entre um cânone e algo novo, ele era a figura representativa desta crise, que ia para além das simples questões estéticas do gosto e do estilo, tendo sim inserção no próprio teor do modelo de vida literária e dos preceitos aceitos na poesia árcade e no mundo iluminista.
Em sua poesia, Bocage, como homem e poeta entre fronteiras, está entre seus cenários bucólicos e camponeses, de pastores apaixonados, seres alienados da realidade e do tempo, imersos no mundo mitológico de uma imaginária Grécia pastoril, e tendo em paralelo uma atividade poética que ia contra o cânone árcade, que era, por sua vez, a expressão de uma nova poesia entranhada nas emoções, com reflexos pessoais e subjetivos de amor desventurado, de homem torturado pela vida e pelo medo da morte.

POEMAS:

CONFORMANDO-SE COM OS REVESES DA SORTE: O poema levanta a ideia mestra de destino, este ser completo, inexorável, e que tem na palavra cruel um adjetivo ao abuso de suas faculdades, no que o poeta, atormentado, nos dá os versos, que é o seu sopro: “Se o Destino cruel me não consente/Que o ferro nu brandindo irado, e forte,/Lá nos horrendos campos de Mavorte/De louros imortais guarneça a frente:”. A batalha está posta, brande o ferro, o fio da espada: “Que o meu nome apesar da negra morte/Fique em padrões e estátuas permanente:/Se as suas ímpias leis inexoráveis/Não querem que os mortais em alto verso/Contem de mim façanhas memoráveis:/Submisso à má ventura, ao fado adverso,/Ao menos por desgraças lamentáveis/Terei perpétua fama no universo.”. A luta clássica entre o infortúnio e a glória, num mesmo homem, ou melhor, poeta, e que na certeza dos píncaros da fama universal, enfrenta o leão cruel do destino, laços de aço da dor e esperança sublime de sua poesia em alta paragem na montanha do futuro, que todo poeta o faça em vida, façanhas vivas são melhores que gemidos de um ser da penumbra.  
VENDO-SE ACOMETIDO DE GRAVE ENFERMIDADE: A doença aparece como tema poético, e temos aqui o instinto de decadência bem desenvolvido por quem levou parte de sua vida como um dissipado: “Pouco a pouco a letífera Doença/Dirige para mim trêmulos passos;” (..) “Virá pronunciar final sentença,/Em meu rosto cravando os olhos baços,/Virá romper-me à vida os tênues laços/A foice, contra a qual não há defensa.” (...) “Espero que primeiro que o teu corte/Me acabe viva dor dos meus delitos.”. Fala ou declamação de um preso, e que na liberdade se espalhou em boêmia, e a face ou foice da morte lhe acaba as dores de seu delito.
CONTRA O DESPOTISMO: Despotismo, o inexorável, o poema contra tal força se debate, contra o ateísmo do poder: “Sanhudo, inexorável Despotismo,/Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,/Que em mil quadros horríficos te enlevas,/Obra da Iniquidade, e do Ateísmo:/Assanhas o danado Fanatismo/Porque te escore o trono onde te enlevas;/Porque o sol da Verdade envolva em trevas,/E sepulte a Razão num denso abismo:”. A luta da razão sepultada, e o fanatismo que evolve a verdade nas trevas, iniquidade que o poeta enfrenta, davi e golias, e que se salva na independência de seu coração poético: “Mas, apesar da bárbara insolência,/Reinas só no ext`rior, não tiranizas/Do livre coração a independência.”. O governo despótico é externo, a liberdade ainda está preservada nos recantos do coração e seus versos. 
À NOVA ARCÁDIA: O poema anuncia o novo, e de como este enfrenta os cânones vigentes, a sátira é uma destas armas novas, no que o poeta nos dá o seu relato: “Oh triste malfadada Academia!/O vate Elmano em sátiras se espraia;”. No que o poema segue: “Apolo exulta, o povo te assobia;/A glória tua em convulsões desmaia;”. E a reação da velha arcádia contra a nova não demora, o satírico e o declamador aparecem aqui na luta do progresso, sempre alvíssaras a quem luta, pois o cânone aqui é flagelado pelos novos poetas: “Ao satírico audaz põe duro freio,/Pune o declamador, que te flagela;”.  

POEMAS:

CONFORMANDO-SE COM OS REVESES DA SORTE
Se o Destino cruel me não consente
Que o ferro nu brandindo irado, e forte,
Lá nos horrendos campos de Mavorte
De louros imortais guarneça a frente:

Se proíbe que em sólio refulgente
Faça os povos felices, de tal sorte
Que o meu nome apesar da negra morte
Fique em padrões e estátuas permanente:

Se as suas ímpias leis inexoráveis
Não querem que os mortais em alto verso
Contem de mim façanhas memoráveis:

Submisso à má ventura, ao fado adverso,
Ao menos por desgraças lamentáveis
Terei perpétua fama no universo.

VENDO-SE ACOMETIDO DE GRAVE ENFERMIDADE

Pouco a pouco a letífera Doença
Dirige para mim trêmulos passos;
Eis seus caídos, macilentos braços,
Eis a sua terrífica presença:

Virá pronunciar final sentença,
Em meu rosto cravando os olhos baços,
Virá romper-me à vida os tênues laços
A foice, contra a qual não há defensa.

Oh! Vem, deidade horrenda, irmã da Morte,
Vem, que esta alma avezada a mil conflitos,
Não se assombra do teu, bem que mais forte:

Mas ah! Mandando ao céu meus ais contritos,
Espero que primeiro que o teu corte
Me acabe viva dor dos meus delitos.

CONTRA O DESPOTISMO

Sanhudo, inexorável Despotismo,
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
Obra da Iniquidade, e do Ateísmo:

Assanhas o danado Fanatismo
Porque te escore o trono onde te enlevas;
Porque o sol da Verdade envolva em trevas,
E sepulte a Razão num denso abismo:

Da sagrada Virtude o colo pisas,
E aos satélites vis da prepotência
De crimes infernais o plano gizas:

Mas, apesar da bárbara insolência,
Reinas só no ext`rior, não tiranizas
Do livre coração a independência.

À NOVA ARCÁDIA

Oh triste malfadada Academia!
O vate Elmano em sátiras se espraia;
Fervem correios ao loquaz Talaia,
Que a todos teu descrédito anuncia:

Apolo exulta, o povo te assobia;
A glória tua em convulsões desmaia;
Ah! primeiro que a pobre em terra caia,
Corte-se o voo da fatal porfia:

Ao satírico audaz põe duro freio,
Pune o declamador, que te flagela;
Dá-lhe assento outra vez no magro seio:

Bem como a quem profana uma donzela,
Que em pena do afrontoso estupro feio
Fazem próvidas leis casar com ela.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/32778/18/bocage-ij-o-delirio-amoroso-e-outros-poemas-ij-parte-ii




sábado, 11 de fevereiro de 2017

O NAVIO FANTASMA

Um trabalho profundo de antropologia estava sendo feito pelo pesquisador Matheus, ele tinha a ajuda de outro antropólogo Paulo, os dois já tinham passado pelo Acre, numa história de estudar a religião da barquinha, no entanto, o Amazonas mais isolado era uma nova frente em que tais pesquisadores queriam se embrenhar. A decisão foi pelo rio Içana, numa nova inserção sobre os Baniwa, índios que habitavam na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, perto dos Curipacos da Colômbia e do Alto Içana, em aldeias localizadas tanto às margens do Rio Içana e como em seus afluentes, os rios Cuiari, Aiairi e Cubate.
Matheus já tinha trabalhado uma vez com os Baniwa, um pouco em relação à história deles com as missões salesianas, e o fato de no final de 1940, Sophia Muller, uma missionária evangélica norte-americana, ter feito a Missão Novas Tribos, iniciando a evangelização dos curipacos na Colômbia, e tendo estendido tal missão aos Baniwas do Brasil, no que Matheus, mesmo com a resistência de alguns índios da tribo, conseguiu ganhar a confiança do pajé de nome Axíwa, e que tinha no xamanismo, também, toda a fonte mítica da tribo, tendo Matheus feito um trabalho antropológico de duas frentes, uma sobre os brancos e suas inserções na tribo, como na evangelização, como outra na parte em que ele colocou uma interpretação cultural segundo seu método de alteridade na questão mitológica nas entrevistas com Axíwa, e que agora, junto com Paulo, recém-formado, ele teria um possível aprofundamento, desta vez numa tentativa de levantar, pelos mitos e lendas, um possível conteúdo espiritual da tribo, e de como isto foi preservado junto com o movimento de evangelização, se houve algo de hibridação entre a religião dos brancos com a tradição autóctone dos Baniwas.
O primeiro trabalho de Matheus tinha resultado num livro acadêmico de título “Evangelho e Mitos nos Baniwas” que, nesta nova viagem, ele queria entender mais do conteúdo das lendas, até sobre símbolos comuns entre a mitologia universal, tais como o boitatá, a Iara e lendas sobre o navio fantasma, no que Matheus ficou sabendo que também havia um ufólogo entrevistando os índios sobre bolas de luz ou prateadas, as quais apareciam nas margens do rio Içana, segundo relatos dos próprios índios, e que não tinham explicações lógicas para tais aparições. No que ufólogos interpretavam como Ufos, e Matheus, que tinha ainda um certo ceticismo sobre as várias lendas, viu que teria de mudar de postura neste segundo trabalho, e talvez até levar literalmente os relatos dos índios, como a verdade dos fatos, e não mais lendas mitológicas. Embora seu ceticismo fosse mais forte que seu trabalho antropológico, no que seria um modo usual seu de tratar todas as questões, inclusive as metafísicas.
Ele e Paulo tinham, além do trabalho antropológico, a intenção de experimentar as substâncias psicoativas usadas pelos índios no xamanismo, que eram o paricá e o caapi, para enxergar o “invisível” e os relatos de criação do cosmos da tradição xamânica, no que teriam, portanto, material farto como uma via principal de entrada “concreta” na mitologia local, além do aspecto psíquico em perspectiva antropológica da experiência mística com o paricá e o caapi, que era exatamente a fonte preservada dos Baniwas em relação aos processos de evangelização, que tinham convertido uma grande parte dos índios, seja no catolicismo dos salesianos como no evangelismo da missionária Sophia, mas que não fizeram cessar, em absoluto, os rituais da tradição xamânica, pois era justamente com o pajé e o xamã que tais rituais eram conservados, assim como nas danças pudali dos ciclos sazonais e frutíferos.
Matheus e Paulo então ligam para o ufólogo que já estava hospedado na tribo, e recebem informações sintéticas sobre o que iriam ver na viagem até o rio Içana, de que havia, segundo o ufólogo, vários relatos lendários que iriam deixar os dois antropólogos de cabelo em pé, e que tudo era a mais pura verdade, no que Matheus, ainda com certo ceticismo, encarou aquilo tudo como credulidade de um especialista de uma pseudociência bem crédula para ele como era a ufologia. Matheus logo pensou que teria que apenas “suportar” as mistificações do ufólogo, sem bem saber em que realidade ele logo entraria sem muito bem estar consciente disso.
Matheus e Paulo fazem o check-in em Congonhas, voam com escalas até Manaus no estado do Amazonas, durante a viagem os dois conversam sobre o livro de Matheus sobre os Baniwas, e sobre a curiosidade em relação ao xamanismo, que eles sabiam que, desta vez, por conseguinte, eles teriam que entrar de cabeça nos rituais tomando as substâncias psicoativas para fundamentar todo o trabalho planejado. E a expectativa de Paulo sobre isso era enorme, pois já tinha tomado ayahuasca. O avião vai, com escalas, até Manaus, de lá os dois tomam um ônibus que os leva próximo ao rio Içana, de lá eles combinam e pegam uma carona no carro alugado pelo tal ufólogo, que se chamava Fábio, e que durante a viagem por estradas de chão derrama suas estórias de Ufo, no que Matheus sorri com canto de boca, o ufólogo fala dos chupa-chupa da Operação Prato, e mais quinquilharias da ufologia mística, enquanto Matheus e Paulo seguram o riso, mas então, perto do Içana, começa uma discussão acalorada, uma interpelação sistemática de Matheus, que encarava cada sílaba de Fábio como pura mistificação de uma imaginação febril, quase dá briga, mas Matheus depois de tanto interpelar Fábio, percebe que ele era necessário, terrivelmente necessário para o seu novo estudo nos Baniwa.
Fábio, quando chega às margens do Içana, já perto das ocas aonde ficava a tribo Baniwa, tira do bolso um baseado apertado e acende, no que Matheus tira a conclusão de que Fábio era mesmo um pirado que queria ver tudo o que quisesse, sem critério nenhum, Matheus pensou estar entrando numa cilada, Paulo deu uns tragos no baseado, Matheus não fumava, mas tinha trazido consigo umas garrafas de bebida destilada, entre estas uma caninha da roça no que deu três shots para ouvir com mais condescendência e interesse as estórias loucas do ufólogo maconheiro. Parecia mais aquela cena do Jack Nicholson em Easy Rider, estórias de Ufo alimentadas pela fumaça de um baseado.
Matheus decide ligar um gravador com autorização de Fábio, no que o antropólogo faria em seu novo trabalho acadêmico como uma citação de lendas e mitos contadas por brancos e índios, uma miscelânea que consistiria em um híbrido de folclore com teses ufológicas, sob o viés cético-científico, tal crendice da antropologia, esta de ser uma ciência, de ter um método, de ser fundamentada, sem bem saber o que um antropólogo faz com o seu paradoxo incontornável da alteridade, no que vemos que Matheus era um crente de seu método, relativizando loucamente com alteridade e ao fim com o puro ceticismo seu relato que era uma salada étnica e de perspectivas sonhadoras que ele logo confrontaria com o xamanismo.
Matheus bebe a sua caninha da roça sozinho, Paulo curte uma onda leve de cinco tragos de baseado, Fábio acende mais um baseado e diz que os três teriam que acampar ali na beira do rio antes de chegar à tribo, pois já anoitecia, no que Fábio passa a noite até uma da manhã fumando maconha, e Matheus com a logorreia típica de um alcoolista entusiasmado com a própria inteligência, fazendo pouco caso do que Fábio dizia com o tom melódico de língua amortecida de um fumador de maconha inveterado. E Paulo mudo por não mais controlar os próprios pensamentos.
Aquela ideia do entretenimento do pensamento pode ganhar roupagem patética quando o indivíduo está num transe inútil em que nada se diz, se balbucia, contrastando com a viagem alcoólica de seu colega Matheus, com o ego de um bebedor que sabe tudo o que diz. A noite é de contrastes, o ceticismo e alcoolismo de Matheus, a credulidade e fumaça de Fábio, e o terceiro, Paulo, alheio à tudo que cai num sono profundo com roncos estridentes. A discussão entre Matheus e Fábio é infrutífera, um fla-flu de convicções fanáticas para extremos opostos, mas nada que comprometesse o trabalho de ambos, pois estavam no mesmo lugar geográfico e de trabalho, não tinham tempo a perder, e sabiam que as discussões seriam apenas verbais, sem mais digressões de uma violência maior.
De manhã Matheus acorda primeiro, seis horas, com a ressaca de caninha, pesando como um elefante, sete horas levanta Fábio, os dois esperam até dez da manhã para então acordarem Paulo, que parecia que estava hibernando, no que Matheus joga um balde água gelada de rio na cabeça e no corpo de Paulo, o qual acorda e demora meia hora para se orientar. Os três seguem de carro até a aldeia, são recebidos pelo cacique que ostentava seu nome índio Buraki e seu pseudônimo branco de Augusto, meio como o imperador romano, numa versão tropical ou equatorial. Augusto tinha português fluente, ia muito ao meio urbano negociar com políticos medidas que favorecessem os Baniwa, e apresentou-lhes o xamã, sucessor de Axíwa, que havia morrido há seis meses, de nome Patchuía, no que são surpreendidos por um hippie que passava por ali, aprendendo artesanato com os índios, colares com geometrias espetaculares, e que diz aos três brancos que de noite o xamã ministraria ayahuasca para um ritual xamânico, e que eles teriam que participar para ficar hospedados numa oca central com fogueira que aqueceria a madrugada gelada do ar úmido da floresta equatorial, sempre com chuva ao anoitecer, o que mantinha a temperatura amena.
O hippie se chamava Otávio, vivia como um nômade, com pouco dinheiro, andando pelo Brasil já há vinte anos, depois de ter sido expulso de casa por estar em más companhias, o que ele disse que era o “pessoal do ácido”, há muito tempo atrás. Agora ele só tomava ayahuasca e tomou ojeriza de bebida alcoólica e tabaco, e comia muito pouco, sempre frutas e legumes, não comia mais carne e frango, só peixe que ele aprendeu a pescar em suas peregrinações sem destino, no que levava sempre consigo suas peças de artesanato e seu violão, para o qual comprava cordas sempre que ia à cidade, e tocava de tudo, compunha algumas músicas, mas não queria ter banda e nem gravar nada, tinha escolhido o desprendimento absoluto numa mistura de ayahuasca com rudimentos de filosofia budista e taoísta, tinha apenas dois livros, o Tao Te King e uma biografia de Buda, no mais estudava seu violão por conta própria e disse aos três brancos que ali era o doutorado do artesanato, principalmente na cestaria de arumã, e dali ele ganharia mais um pouco de grana em seguida.
Então, logo o xamã novo disse que o caapi só funcionava com o paricá, e que para começar o ritual ele era o único autorizado a inalar o paricá puro pelo nariz com o uso de um tubo, no que o faz e entra em transe. O caapi também poderia ser associado com o São Pedro, no que o hippie Otávio tinha ganhado recentemente um cacto desta espécie de um grupo de hippies seus amigos que estavam acampados fora da aldeia, e disse aos três brancos que depois o visitassem lá para ter uma experiência mais impactante de tais propriedades espirituais do xamanismo hippie itself.
O xamã Pacthuía logo começa a relatar em arauaque suas visões para seus assistentes, “conversa com espíritos da floresta”, dizia o tradutor, que era o próprio Otávio, que tinha aprendido um pouco do dialeto, pois estava lá pela quinta vez em três anos. O relato é freneticamente anotado pela assistência, e Matheus é autorizado pelo xamã a fazer a sua tradução para os brancos em seu trabalho acadêmico, no que o antropólogo pensava se seria uma reedição atualizada de seu livro anterior ou um livro novo, mas que decidiria tudo depois de tomar a ayahuasca, pois até então nunca tinha experimentado chás alucinógenos, sintéticos em pílulas e muito menos enteógenos, teve uma rápida passagem pela maconha, mas era um alcoolista padrão, embora controlado, pois trabalhava muito e sem parar, ainda mais no meio acadêmico que lhe exigia cada vez mais.
O xamã com seu rapé faz um relato, Otávio pega um caderno e faz a tradução para Matheus, dá um relato de vinte páginas, e que Matheus encarou como pura mitologia, embora sua intenção fosse, de algum modo, se abrir e relatar aqueles mitos sem juízo de valor, apesar de ser um resistente mórbido de ideias metafísicas. Mas ainda havia a cerimônia de introdução dos brancos visitantes ao mundo invisível, e que a porta se abriria independentemente das crenças subjetivas e pretensamente objetivas dos participantes, no que o xamã advertiu Matheus de uma maneira que parecia que o xamã lhe houvesse surpreendido seus pensamentos e convicções, no que finalmente o antropólogo baixou a guarda para procurar uma experiência autêntica e não mitológica com a ayahuasca, ele sabia que teria que fazer uma suspensão de seu juízo depois do pito sutil do xamã.
E começa a mistura e cocção do caapi com o paricá, o hippie dizia em segredo que o São Pedro ficaria escondido para depois, uma vez que respeitava religiosamente tudo o que o xamã lhe dizia, dominando cada vez mais o arauaque. Os três, Matheus, Paulo e Fábio, fazem então a ingestão da cocção, o tempo logo ficaria relativo, mas em horas seriam duas horas de profundo transe, nada passaria pela tela mental sem a percepção onisciente do xamã que daria o tempo todo as instruções. Otávio já tinha lido a tradução do rapé, e ali era mais uma vez as descrições psicodélicas de um espírito felino despertados por um nariz dilatado pelo rapé, a mitologia espiritual era concreta em visões, e misturava tradição oral com experiência mística direta e empírica.
Matheus começa a ter suas visões, que são de teor leve, Paulo começa a vomitar depois de duas horas, Fábio parece estar entretido com uma paisagem de bem-aventurança, Otávio consegue controlar aquelas visões que já lhe eram familiares e fundamentadas pelo seu estudo do arauaque e mitos baniwa. Matheus logo começa a pedir orientações ao xamã, que lhe diz que os espíritos da montanha e da floresta eram seus antepassados, parentes do século anterior, seu tronco familiar era vasto como a terra, e o passamento de alguns foi tortuoso em função de uma futura bem-aventurança que aguardava no meio do caminho de aprendizado.
Matheus recebe algumas censuras do xamã que lhe dizia que “tal irreverência” afastaria sua parentela de bem-aventurados trocados por entidades ctônicas que ele tinha prejudicado em tempos anteriores dos quais ele não tinha sequer ideia. O xamã orienta então a Matheus mais uma vez se desarmar, não achar nada daquilo engraçado e se concentrar no que as plantas de poder estavam lhe dizendo e que ele só via como um grande teatro, um passatempo qualquer. Paulo, a esta altura, estava mais uma vez desorientado, vomitando o mundo inteiro e seus rancores mórbidos que ele nutria desde tempos, Otávio sorria como um bebê, pois “já sabia de tudo”, e Fábio era um ser místico repleto de felicidade sobrenatural.
As horas passam, e as ondas senoidais se acalmam, a paisagem é convidativa, o xamã dizia então que era para se deitarem e verem tudo de uma forma harmoniosa como é o mundo invisível daquela cerimônia, nada de questões, tudo se havia lhes respondido, o universo não era mais um mistério, a porta estava aberta e a chave era seleta para cada um. Matheus então dá uma vomitada e dorme. Otávio deixa tudo como está, explicadinho como gato escaldado de tudo, Fábio dá tchauzinho feliz à sua sessão de bem-aventurança e também dorme, Paulo não passa bem, mas consegue dormir. O xamã encerra os trabalhos satisfeito, apenas com um certo receio de Matheus, mas nada grave. Todos ali agora eram bem-vindos, a paisagem e o segredo da alma não eram mistérios para o xamã, o racional e o mito eram híbridos de uma mesma existência, e o destino universal estava nos olhos, o mundo feliz do futuro espiritual, o mundo do bem depois das tonitruantes armadilhas terrenas.
Amanhece, Fábio está em uma rede, Paulo dorme em cima de palhas, Matheus acordou antes de o sol aparecer, suava frio, mas logo passou ao tomar papa de milho de um índio que também estava na oca. O plano de Matheus era fazer uma entrevista do cacique que tinha português fluente, envolvendo a vida de sua aldeia e a relação com os brancos, e também o seu diálogo constante com os políticos em derredor, no que Matheus, munido de seu gravador, chamou Paulo, que havia acordado de sonhos intranquilos, e Fábio só queria saber de uma tal viagem de balsa pelo Içana para ver bolas de prata, no que Matheus o escarnecia com soma de arrogância ao seu ceticismo padrão.
O dia seria então de entrevista pela manhã com o cacique, e depois um passeio de balsa, pois havia uma num posto policial ali perto, que era usada para rondas, mas poderia ser usada pela tribo e por pessoas autorizadas de acordo com as necessidades. O fato é que Fábio vivia às voltas com uma ideia estapafúrdia de fotografar e gravar em vídeo tais supostas sondas extraterrestres que, para Matheus, viviam era sim dentro da cabeça oca de Fábio, um mistificador profissional, mais um desses ufólogos alienados que têm como utopia e única razão de vida a prova cabal de vida inteligente alienígena, a mesma esperança vã, segundo o mesmo Matheus, que têm os espíritas por esta mesma prova experimental da vida após a morte.
No que Matheus pensou consigo que poderia fazer troça de Fábio durante a viagem de balsa, e com Paulo com um certo receio de que tudo o que Fábio dizia fosse real, e também se perturbando com as lendas do local, cobra-d`água, iara, boitatá e fontes inumeráveis da rica mitologia do local. Teria que ter um líder na balsa, e Matheus se autointitulou, o eldorado estaria na cabeça de Fábio, e para Matheus só seria uma sessão de comédia com Fábio de ator cômico involuntário. E Otávio com a ideia de dar São Pedro com caapi para os visitantes entre seus amigos hippies acampados e com uma cartela de ácido que somente Otávio não tomava por razões budistas e religiosas.
A entrevista com o cacique e mais dois representantes da tribo local dos baniwa rende bons frutos, três horas de gravação ininterruptas sobre o cotidiano local mais as precisas informações do passado mítico que, segundo Matheus, eram mais úteis do que o relato alucinado do xamã. E do que Matheus recolheu quase tudo seria aproveitado, ao contrário de suas reticências quanto ao assunto contato com o mundo invisível potencializado com alucinógenos, que mesmo com o próprio fazendo a experiência, esta não passava de luzinhas coloridas flutuando, borboletas azuis rarefeitas e vômito para o cético de plantão. Paulo, por outro lado, desde que havia tomado a cocção não se via mais em um corpo, tinha ideias paranoides até então discretas para os outros, mas que viriam à tona depois do São Pedro. Enfim, Matheus decide aproveitar o material do cacique e descartar a narrativa xamânica para o seu novo trabalho acadêmico. Fábio, bem-aventurado, logo teria a sua fortuna ufológica posta à prova, nada mais do que o sonho do contato intergaláctico, e sempre depois de um baseado em cone, como lhe apraz.
Otávio volta com a sua horda de hippies sem avisar aos outros, agora a balsa seria uma festa de hippies, dois antropólogos, um ufólogo e um índio como guia do Içana. Otávio fala com Fábio que logo após a balsa partir todos tomariam o São Pedro com o caapi, pois dali “levantariam voo”, ou seja, o que era algo normal e corriqueiro seria um desafio espiritual para o ceticismo de Matheus e uma implosão mental para Paulo, que se degradava sem ainda ninguém se dar conta. Fábio, por sua vez, entraria no transe de suas bolas de prata ou sondas drones ou seja lá o que for que ele dizia ser coisa dos nórdicos, no que Matheus responde com troça que não sabia que os alienígenas eram da “Noruega”.
A balsa sai pelo rio Içana, águas agitadas, correnteza forte, tempo aberto, ensolarado, a água batendo nas faces que povoavam a balsa, o índio que falava português orientando a navegação que ficara por conta de Matheus, Fábio ansioso por ver bolas sondas drones, Paulo suando frio sem sentir o próprio corpo, o grupo dos hippies confraternizando baseados enquanto bebem o São Pedro com caapi, e ali logo todos entram no transe da bebida potente, Otávio passa a comandar a balsa, já que Matheus passou a dizer que levitava, os hippies que viam telas ordenadas com números como numa máquina de calcular cósmica, Fábio vendo as suas sondas de estimação, o índio nem aí para nada, tomou como se fosse água, e Paulo, que já perdia o próprio corpo, entrou num redemoinho que o deixou tonto, ele dizia que havia um túnel de luz que o chamava, e depois uma voz de um ser do Içana que dizia que ele era agora um espírito livre e que nunca mais teria o seu corpo de volta, no que a paranoia de Paulo virou um tormento para os hippies que até então confraternizavam em um Woodstock particular no meio do rio.
Todos têm que segurar Paulo, pois o mesmo queria sair nadando pelo rio, no que todos sabiam que aquilo era nada que tentar morrer afogado, e a balsa vai passeando pelo Içana, a tarde avança, Otávio lidera a balsa, Matheus pensa que é um guerreiro em busca do eldorado, voa para todos os lados, tem asas, é um anjo total, seu ceticismo virara geleia, ele era agora o presidente da balsa em direção ao eldorado, seu viés antropológico agora virara uma viagem politizada em busca do que havia no fim do Içana, mas as horas passam, e no fim da tarde a balsa volta à aldeia, Paulo é encaminhado para se tratar com o xamã/pajé e melhora, Matheus teve apenas um surto momentâneo e percebe que o eldorado era o próprio efeito do São Pedro combinado com o caapi. Os hippies voltam ao acampamento com seus afazeres musicais e artesanais, Otávio também deixa a aldeia para ir com os hippies confraternizar, uma vez que percebe que tinha muita coisa errada com esses antropólogos e ufólogos e que não era mais problema dele cuidar daqueles negócios, só voltaria à aldeia depois que os brancos fossem embora, e sabia que logo os evangélicos iriam na semana seguinte para a aldeia e ele não suportava fanáticos bíblicos.
Anoitece, e as sondas que povoavam a cabeça de Fábio fazem visitas na beira do rio, o mesmo presencia o fenômeno e chama Matheus, que também vê tais bolas ou luzes de prata, e Fábio convence que tudo era real naquelas bandas, mesmo que não o fosse por outros meios usuais. Matheus hesita várias vezes, esfrega os olhos dezenas de vezes e corre para chamar Paulo, o cacique e o xamã, Paulo acha tudo muito normal, pois depois do São Pedro para ele era tudo normal, desde que não ficasse mais louco. Matheus vê tudo ali, eram sete bolas de prata dando voltas na beira do rio, na noite profunda e cheia de sons de bichos do Içana, uma das sondas se aproxima e depois se divide em duas menores que voam sobre a cabeça de Matheus, Fábio exulta, pega a sua câmera de vídeo e tenta gravar, mas as sondas se afastam com este gesto, e sete sondas sobem e viram quatorze que somem no ar numa fração de segundos.
Matheus se convence de que Fábio não era um místico, Paulo que agora achava tudo normal tenta acalmar Matheus que chorava, enquanto Fábio dizia impropérios por não ter conseguido registrar o evento. O xamã e o cacique estão normais e falam que aquilo era rotina ali, Matheus agora sorri e decide fazer uma nova entrevista com o xamã, desta vez sem alucinógenos, uma vez que ele sabia que seu trabalho havia ganhado um contorno que desafiava a sua própria formação, e que poderia ser algo bombástico no seu mundinho acadêmico, ele decide arriscar, com a prudência de não ser objeto da mesma troça que fez o tempo todo com Fábio até aparecer as tais sondas.
Matheus então, depois de seu estado de choque, decide ligar seu gravador e fazer uma longa entrevista com o xamã, e também decide dar prioridade ao aspecto mitológico das origens da tribo, da aldeia, de toda a trama psicológica que envolve o xamanismo, subvertendo todos os seus cânones de um antropólogo ateu, uma vez que se via numa bifurcação entre ceticismo e visões de sondas desconhecidas, Matheus caíra num limbo em que não via nem seus dogmas e nem seus escárnios, tudo se misturara num caldo indígena e ufológico em que a antropologia virara apenas um detalhe, a alteridade ia para o espaço, ele agora lidava com sonhos xamânicos e sondas interestelares de que Fábio lhe advertira diversas vezes e depois de colocá-lo como ator cômico, agora vivia seu melodrama de não saber mais de nada.
Canastrão posto à prova, agora ele teria que se retirar de sua sobriedade e virar uma persona que via ufos na beira do rio e ouvia relatos de xamã com o mesmo interesse de suas aulas de Clifford Gertz pensando que tudo era ciência acadêmica e não vida viva e direta na convivência com a diferença brutal de não ter mais método para o que via. A entrevista é longa e proveitosa, mas seu interesse se volta na última hora sobre as estórias do xamã sobre o navio fantasma, o que desta vez ele não recebe com escárnio mas com vivo interesse, uma vez que Matheus sabia que naquele universo ele teria que suspender seu juízo para não ser tomado por louco ou achar que estava louco. A loucura ali era a ordem do dia, nada era estranho ou tão estranho como as próprias coisas da vida, se vistas com atenção. O navio fantasma era o relato de um navio que sempre aparecia em noites de névoa no fundo do rio, com piratas gritando e assobiando alto, com uma bandeira preta, com luzes mortiças na proa, e uma vela vermelha, tudo que era relatado pelo xamã recebia a vivíssima atenção de Matheus neste momento, ele gravava tudo, e já pensava numa incursão com Fábio, Paulo e um índio para caçar o tal navio no meio da noite no fundo do rio, já que estava ficando louco, embarcaria de vez em aventuras sobrenaturais, sabia que era arriscado navegar de noite de balsa pelo Içana, mas tinha a esperança de que tudo correria bem com a orientação de um índio que conhecesse tanto o rio como as artimanhas comuns de tal navio fantasma.
Agora o cético escarnecedor virara o mais curioso de todos, desafiando crédulos até mesmo como o ufólogo Fábio, que agora não ouvia mais a sua gargalhada quando lhe falava de sondas nórdicas. Ao fim da entrevista o xamã dá alguns exemplos da cosmogonia da região, o mito começava com deidades ctônicas e terminava com seres alados e naves semelhantes aos vímanas hindus, e Matheus, bom estudioso de vários mitos, ouve tudo: “A cobra da verdade da terra era o deus primordial, brota a água e ela nada e vomita um rio, o infinito flui neste rio de que nasce Iara e seu séquito, todas as nereidas sobem e descem no ar, são as luzes vizinhas que alimentam o rio, a Iara faz seu canto, o boto aparece para levar as virgens, a cobra aparece na criação do mundo e depois se enrola no infinito, a energia vital da cobra está na coluna do espírito, felinos governam as plantas, entidades benéficas e maléficas povoam as florestas e as cachoeiras, o rio nunca seca, os anjos fazem o rio fluir novamente, a cobra da criação dorme em sono eterno, ao tomar as poções entro em contato com o espírito felino, que ruge e arranha símbolos, estes viram nossos objetos de trabalho, a vida da aldeia é regida por cantos sazonais, nos rituais de dança aparecem todos e incorporam nos médiuns, algo acontece com as faces dos incorporados, a dança é frenética e celebra a vida eterna, nossos espíritos felizes descem e sobem ao bel-prazer, o clima é de alegria, aqui na aldeia somos felizes, e conhecemos os segredos do mundo invisível que nos criou, tais como as luzes que descem e sobem nos céus”.
Matheus, depois do relato do xamã, fica obcecado com a ideia de flagrar o tal navio fantasma. Depois de muita insistência convence Fábio e Paulo a irem com ele e mais um índio como guia para sair de balsa pela noite adentro ao rio Içana para ver os tais espíritos. Fábio, que era crédulo até a medula, fica assustado com a súbita iluminação daquele cético de carteirinha, mas também munido de uma curiosidade mórbida por coisas sem explicação, decide que seria mais uma vez surpreendido pelas bolas de prata, e tendo ainda dúvidas sobre a realidade do navio fantasma, Paulo, cada vez mais alheio à tudo, segue a sua estratégia mental de achar tudo normal para não ficar louco. O índio, que já tinha visto o tal navio, tenta demover Matheus daquela ideia insana, em vão, eles embarcam no cair da noite, as visões seriam inumeráveis, o desfecho multifacetado de um cético que toma uma injeção de adrenalina e vai para o paraíso ou o inferno.
Em uma hora de viagem, Matheus veste novamente a persona de um navegante em busca do eldorado, desta vez com a cabeça nua, sem os hippies e o São Pedro com caapi. Duas horas de viagem, aparecem as bolas de prata, Fábio grita por ter esquecido sua câmera fotográfica e de filmar, fica pasmo por ter sido tão distraído, mas vê as sondas e consegue ver um homenzinho dentro de uma delas. O navio fantasma aparece em seguida, sob névoa, mas o índio decide navegar de volta à aldeia, Matheus tenta ver de novo o navio, mas ele já havia sumido na névoa, ele pensa que teria que sair na noite seguinte para fazer o mesmo trajeto, desta vez sem o índio, pois queria ir até o fim naquela história.
Na tarde seguinte o xamã convida Matheus, Paulo e Fábio para participar dos rituais de dança da tribo aonde o xamã dizia que seriam incorporados os espíritos do rio e da floresta, tudo acontece num festival dionisíaco, uma festa de Baco na floresta equatorial, Matheus conversa com uma dessas entidades que lhe diz: “Cuidado com os gênios do rio, estão todos de olho em você, não vá longe demais”. Mas Matheus encarnara a alma do aventureiro temerário e botara na cabeça que entraria no tal navio fantasma.
Logo depois, no anoitecer, a balsa sai pela segunda vez, desta vez com Matheus como líder da navegação, Paulo achando tudo normal só para não pirar, e Fábio desta vez com sua câmera fotográfica e de filmar em punho para as visões do rio. Na noite densa, repleta de névoa, chuva caindo, eles se deparam novamente com as bolas de prata, Fábio vê novamente um homenzinho dentro de uma das sondas, pega a sua câmera, mas ela estava inexplicavelmente travada, talvez pela tecnologia alienígena, um desses homenzinhos sai da nave e levita em direção da balsa, Fábio, o ufólogo, se apavora, Paulo acha tudo normal para não pirar, e Matheus, o líder da balsa, faz o movimento em direção da entidade e recebe uma comunicação telepática de que o antropólogo deveria voltar à aldeia antes que fosse tarde. Mas Matheus manda às favas o tal homenzinho, o mesmo que volta para a nave levitando e some, e o antropólogo cético agora se via embriagado como um aventureiro intrépido, o louco do eldorado que era um celerado que buscava o ouro que o navio fantasma escondia e lhe deixaria rico.
Era certo que Matheus já não se encontrava mais da posse de seu juízo, e Fábio, o crédulo, começava a ficar com medo de seu líder temerário, a balsa avança na madrugada e no rio, agora uma entidade negra com terno branco flutua sobre o rio, os três se apavoram com a visão e tentam voltar finalmente à aldeia, em vão, o navio fantasma cruza o caminho da balsa, os espectros dos piratas gargalham e gritam, Fábio se apavora mais ainda e grita que Matheus tinha que tirá-los dali, a balsa vara a correnteza violenta do rio, começa a chover forte, trovoadas sem parar, raios iluminam a cena toda, Fábio pula da balsa e sai nadando em direção da aldeia, mas se afoga e seu corpo nunca será encontrado, a balsa então vira e Paulo é levado por um redemoinho, com o seu cadáver aparecendo na beira do rio em frente à aldeia na manhã seguinte, Matheus sai nadando sem direção até encontrar uma praia, está acabado, exausto, a praia de rio está deserta, amanhece, ele deita e dorme, ainda vivo.

Contos 11/02/2017 (feito em dois dias diferentes)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.