PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 30 de março de 2020

ANA MARTINS MARQUES E A MARCA DA INVENÇÃO POÉTICA


“Ana, com sua poesia, cria o seu próprio mundo, mundo inventado de um mundo vivido”

No livro Arquitetura de Interiores, Ana Martins Marques dá vazão a uma prática poética de descrições circunstanciais, revezadas com poemas substantivos. Nos seus chamados poemas circunstanciais temos um modus operandi em que a fração temporal ganha corpo como realidade inventada, uma camada de poema reveste o tecido do tempo, o espaço temporal ganha do olhar poético de Ana uma camada de invenção. O espaço ocupado pelos sujeitos é o tema destes poemas circunstanciais, pois aqui não é tão importante criar uma identidade poética própria, a visão, neste caso, lida com o fragmento.
O poema “Pátio” é um bom exemplo deste poema de circunstância, que circunscreve um sujeito num espaço temporal, tal inserção coloca o sujeito numa perspectiva em que a imaginação poética opera no sentido de invenção por sobre este espaço já existente, a realidade verificável retratada pelo poema vira um revestimento feito pelo olhar poético, que é o olhar da invenção acima de tudo. E aqui, com esta operação poética, se revela o estado de alma.
Uma técnica de duplicação, ou melhor, de espelhamento, se dá no poema de Ana, recurso herdado de Manuel Bandeira, já no seu conhecido livro Belo Belo, em poemas como “A Realidade e a Imagem” e “O Bicho”, e um poema dele também chamado “Pátio”. (Me lembro de que uma de minhas primeiras impressões com poesia foi ler O Bicho quando tinha que estudar para a prova de literatura no antigo segundo grau, e ainda me encontrava num universo muito distante de me tornar poeta).
O espelhamento é criar imagens a partir de uma imagem inicial, a invenção se dá no uso da imaginação poética para criar imagens possíveis de uma realidade verificável ou pré-existente. E o poema “Pátio” de Ana, uma inversão do poema de Bandeira, tem este recurso metafórico como o que constrói o poema e sua lógica. O poema de Ana, ao fim, vira um reflexo invertido do poema original de Manuel Bandeira. Aqui, a metalinguagem de Ana é usar Manuel Bandeira como a sua escala para um poema próprio.
Umas das características da poesia de Ana será, portanto, o uso de uma lógica invertida, pois ela parte dos objetos para falar da vida, ou ainda, com seus poemas os objetos ganham vida, e a palavra invenção ganha, neste contexto, um poder imaginário que opera com a poesia uma visão ou olhar poético bem vivo sobre o cotidiano e seu desenho primordial e prosaico repleto de objetos. Os objetos ganham vida e não mais os sujeitos, o poema cotidiano de Ana é um sopro de vida sobre objetos inanimados, é o olhar da poeta que vê pulsar de sua invenção a vida que ela dá aos objetos.
Quando García Lorca analisava a poesia de Góngora, por exemplo, ele dizia que da poesia gongórica se poderia inferir que “a eternidade de um poema depende da qualidade e da coesão de suas imagens”. A invenção poética de Ana, por sua vez, tem como uma de suas formas esta herança distante, e com Bandeira, ela colhe o afeto, a solidão, a melancolia, num sentimento de acolhimento das criaturas em suas sensibilidades, e Ana ainda tem, agora com Drummond, uma ironia que sabe que não pode completar a sua reflexão e vivência amorosas em sua plenitude, que os meios de lapsos e lacunas fazem parte até para os bem amados, e Ana, com sua poesia, cria o seu próprio mundo, mundo inventado de um mundo vivido, a poesia fazendo a sua experiência do mundo como um mundo renovado pelo poder da invenção.

POEMAS :

MAR : O poema vem com o tema-valise de poetas entre poetas, o mar, mas aqui ganhando um contorno original, digamos, contemporâneo, sem as afetações náuticas de um poeta esteta de antanho, no que temos : “Ela disse/mar/disse/às vezes vêm coisas improváveis/não apenas sacolas plásticas papelão madeira/garrafas vazias camisinhas latas de cerveja/também sombrinhas sapatos ventiladores”. Do mar a poeta Ana nos apresenta o que ele contém, objetos descartáveis, que aparecem no poema, e que em outros tempos não evocariam uma poesia sobre o mar, e ela segue : “aqueles que nasceram longe/do mar/aqueles que nunca viram/o mar/que ideia farão/do ilimitado?”. Da colheita de objetos renegados, a poeta Ana parte para a indagação filosófica que o mar provoca, no que vem : “quando disserem/quero me matar/pensarão em lâminas/revólveres/veneno?/pois eu só penso/no mar”. A morte, questão que envolve poesia, filosofia e vida, aqui tem no mar uma imagem poética para o suicídio.

CENTAURO : O poema usa a imagem do centauro como a vida humana que adquire acessórios durante o seu trajeto e os deixa depois da morte, a vida humana como uma coleção que vai além do corpo que morre, no que temos : “Como um velho centauro/cuja parte humana/sobrevivesse à parte animal/temos próteses, extensões/enfeites, móveis/que nos sobrevivem”. E o poema é o centauro que nos diz que carregamos mais do que somos, como seres que vivem do supérfluo, numa passagem da qual não seremos nada, logo mais : “como um velho centauro/que levasse a passeio/seu rabo/morto/de cão/seus olhos/mortos/de pássaro”.

ÍCARO : O poema descreve uma das imagens poéticas mais queridas da mitologia grega, o famoso voo de Ícaro e sua queda, no que temos : “Quando Ícaro/caiu/no mar/a sereia que/primeiro/o encontrou/amou nele/o pássaro/ele amou nela/o peixe”. E o poema segue, aqui com o contato com a realidade mais palpável do lixo do mar, novamente a subversão de uma imagem mais clássica do mar feita pela poesia, aqui o mar aparece materialmente, em sua nudez, que traz em si, não a poesia, mas um amontoado de lixo : “Os restos de suas asas/desfeitas/foram dar na praia/entre embalagens/de plástico preservativos/garrafas vazias latas/de cerveja”.

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS : O poema longo e que dá título ao livro tem uma intensidade própria, um poema para um interlocutor amoroso, admirado, em um modo de ver este ser de um jeito simples, não afetado, no que temos : “O modo como o seu nome dito muito baixo pode/[ser confundido com a palavra xícara/e como ele esquenta de dentro para fora/o modo como a palma das suas mãos se parece com/                                                      [porcelana trincada”. No que segue : “o modo como dita por você  a palavra “sim” parece/[uma palavra/que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas/o modo como dita por você a palavra “não” parece/[uma palavra/que você acabou de inventar”. A observação da poeta sobre o seu amado ou interlocutor é um modo de curiosidade inteligente, em que não se debruça, observa como quem lê algo interessante e novo, o mundo da poeta aqui se enriquece e se renova, sempre com este olhar sobre o interlocutor, que aqui, neste poema, ganha um ar elegante, no que temos : “o modo como no seu apartamento as coisas sempre/[parecem estar em casa/e você sempre parece estar de visita/e como você pede licença à penteadeira para chorar/o modo como as nossas conversas me lembram/[bilhetes interceptados cardápios de/restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes/[documentos comidos nas bordas/por filhotes de cão”. E o poema segue : “o modo como os seus sonhos parecem os/[pensamentos de pessoas que sobreviveram/a um desastre de avião/parecem as lembranças de um ex-boxeador/[apaixonado/parecem os projetos de futuro de crianças muito/[pequenas/parecem os contos de fadas preferidos de ditadores/                                                                 [sanguinários” (...) “o modo como apesar de tudo isso você não se/                                                   [parece com ninguém/a não ser talvez com certas coisas/similaridades a nada”. Ao fim, a observação da poeta vai para o outro lado, a sombra de seu interlocutor, como um contraponto saudável à sua fascinação inocente que abre o poema e conduz, até que, ao fim, do poema a identidade ou reconhecimento deste interlocutor se liquefaz no nada, num estranhamento singular.

POEMA NÃO DE AMOR : O poema coloca como anti-tema o amor, um poema paradoxal que evoca o amor em estado negativo, um anti-poema de amor, e que a poeta, aqui, enumera os infinitos modos de fazer poesia sem falar de amor, num poema em que o amor tem uma presença invertida, como mote para as metáforas de todo o poema, imagens que, pretensamente, e o tempo todo, tentam se descolar da palavra e do fenômeno do amor, no que temos : “Não vou falar de amor, vou falar do tempo que faz/dos animais do zoológico/de como eles não parecem tristes em suas jaulas/para onde os enviamos sem julgamento” (...) “você me pede para não falar de amor/eis que tenho agora uma ocupação/não te ver, não te telefonar/não pensar em você”. O interlocutor desaparece, o poema não vai falar de seu anti-tema, mas fala para reforçar a negação do tema, um poema que opera pela ambiguidade, um poema complexo, que afirma e nega, que do amor fala lateralmente para novas metáforas inauditas, um poema que se desfaz de seu anti-tema, e se reforça nesta negação, no que temos : “não vou falar de amor/vou falar do vento, das inundações,/do vinco das calças/dos meus amigos exilados/que viajam com malas cheias de livros” (...) “vou falar sobre dançar/num transatlântico/sobre esse livro que se escreve/à roda do seu nome/todas essas coisas que não são o amor/não vou escrever cartas de amor/vou escrever cartas sobre cartas” (...) “uma história de exílio/uma parábola antiga/porque eu sei como é feito Dom Quixote/mas não sei escrever uma carta de amor”. O poema, em sua operação de paradoxo, faz de seu anti-tema a fonte de sua enumeração, de sua elucubração sem fim, em que o mundo de imagens se abre a partir de seu mote, que é não falar de seu tema, e fala para falar de outra coisa, seu paradoxo como poema que inverte para se renovar : “porque no amor não deve valer a lei do mais forte/nem mesmo a do mais forte amor” (...) “os animais do zoológico fazem isso melhor do que eu/eles não falam de amor, eles amam com suas plumas/e suas garras/também te amo com minhas garras e minhas plumas/é o que eu diria se este fosse um poema de amor/este é um poema não de amor”. A indagação, o pensamento do poema aqui se encerra com a coda que afirma o que o poema em todo o seu trajeto reforça, a poeta aqui avisa, a coda é a saturação de seu anti-tema.

UMA CAMINHADA NOTURNA : O poema coloca a imagem dos animais e indaga pelo seus modos de existência, que o poema tenta capturar com um olhar poético próprio, no que segue : “Os animais existem durante a noite/ou durante o dia/eles têm modos próprios de existir/há um modo cão de existir no dia/um modo águia ou cavalo ou búfalo/e um pássaro está tão à vontade/na noite quanto na floresta/mas nós podemos trocar/a noite pelo dia/e andar sem destino sob as luzes da rua” (...) “há insônias planejadas e noites que se estendem/como uma luva longa/penso em tudo o que existe/e no pouco que sabemos sobre tudo”. O poema segue e se encontra, enfim, ao interlocutor-amante, no que temos : “desperto tarde demais e afogada na cama/como entre lençóis de água/e quando estou com você é como se estivesse/em uma escada alta/penso que o seu corpo imita a praia luminosa/da sua infância/e penso que nunca poderei conhecer você/quando criança/e queria beber em seus lábios/a sua sede de então”. E o poema vai ao mar, e segue em metáforas de intensidade e gênio, Ana fecha o poema com imagens potentes de um poema que se encerra com um desejo bonito e uma poesia que nem todo poeta tem capacidade de produzir e condensar : “penso que o mar não escolhe/entre a nau e o naufrágio/como para a primavera é indiferente/o mel ou as abelhas/como as mulheres que foram amadas/em duas línguas/os pássaros enlouquecem em pleno voo/o desejo é imenso e no entanto/penso/também não durará”.

POEMA DE TRÁS PARA FRENTE : O poema se inverte, lê ao contrário, e abre um moto-contínuo, no que temos : “A memória lê o dia/de trás para frente/acendo um poema em outro poema/como quem acende um cigarro no outro/que vestígio deixamos/do que não fizemos?”. O poema é breve, e se encerra com a visão melancólica do tempo, de uma juventude que se reforça na fotografia, a passagem do tempo : “somos cada vez mais jovens/nas fotografias/de trás para frente/a memória lê o dia”.

POEMAS :

MAR

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para trás?
pensarão em rodovias
aeroportos
postos de fronteira?
quando disserem
quero me matar
pensarão em lâminas
revólveres
veneno?
pois eu só penso
no mar

CENTAURO

[...] E morreu relativamente jovem – porque a parte animal mostrou-se menos capaz de durar que a sua humanidade

Joseph Brodsky, “Epitáfio para um centauro”

Como um velho centauro
cuja parte humana
sobrevivesse à parte animal
temos próteses, extensões
enfeites, móveis
que nos sobrevivem
levamos conosco
palavras que já não usamos
planos que já não temos
mulheres que não amamos
pai morto
cachorro morto
amigos mortos

como um velho centauro
que levasse a passeio
seu rabo
morto
de cão
seus olhos
mortos
de pássaro

ÍCARO

Quando Ícaro
caiu
no mar
a sereia que
primeiro
o encontrou
amou nele
o pássaro
ele amou nela
o peixe

Os restos de suas asas
desfeitas
foram dar na praia
entre embalagens
de plástico preservativos
garrafas vazias latas
de cerveja

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS

O modo como o seu nome dito muito baixo pode
                         [ser confundido com a palavra xícara
e como ele esquenta de dentro para fora
o modo como a palma das suas mãos se parece com
                                                      [porcelana trincada
o modo como ao levantar-se você lembra um
                                                              [grande felino
mas ao caminhar já não se parece com um animal
                                   [mas com uma máquina rápida
e de costas sempre me lembra um navio partindo
embora de frente nunca pareça um navio chegando
o modo como dita por você  a palavra “sim” parece
                                                                 [uma palavra
que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas
o modo como dita por você a palavra “não” parece
                                                                [uma palavra
que você acabou de inventar
o parentesco entre as fotografias rasgadas os
                     [brinquedos esquecidos na chuva cartas
que deixamos de enviar produtos em liquidação
                                [frases escritas entre parênteses
papel de presente as toalhas que acabamos de usar
                                                             [e massa de pão
e, mais importante, o parentesco de tudo isso
com o modo como você chama o táxi por telefone
a camisa branca que você acabou de despir sempre
                             [me lembra um livro aberto ao sol
seus sapatos deixados na sala sempre me parecem
                          [ensaiar os primeiros passos de dança
numa versão musical para o cinema do seu livro
                                                                    [preferido
o modo como no seu apartamento as coisas sempre
                                                [parecem estar em casa
e você sempre parece estar de visita
e como você pede licença à penteadeira para chorar
o modo como as nossas conversas me lembram
                            [bilhetes interceptados cardápios de
restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes
                                [documentos comidos nas bordas
por filhotes de cão
o modo como os seus cabelos parecem as linhas de
                                     [um livro lido por uma criança
que ainda não sabe ler
ou apenas desenhos que alguém por equívoco
                                                     [tomasse por escrita
o modo como os seus sonhos parecem os
              [pensamentos de pessoas que sobreviveram
a um desastre de avião
parecem as lembranças de um ex-boxeador
                                                                [apaixonado
parecem os projetos de futuro de crianças muito
                                                                      [pequenas
parecem os contos de fadas preferidos de ditadores
                                                                 [sanguinários
os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de
                                  [armar as primeiras viagens sem
os pais os países coloridos de vermelho no mapa-
                     [-múndi pessoas que sempre esquecem
as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a
                                  [disposição para usar a violência
o modo como apesar de tudo isso você não se
                                                   [parece com ninguém
a não ser talvez com certas coisas
similaridades a nada

POEMA NÃO DE AMOR

A partir de Zoo ou cartas não de amor,
                                De Vitor Chklóvski

Não vou falar de amor, vou falar do tempo que faz
dos animais do zoológico
de como eles não parecem tristes em suas jaulas
para onde os enviamos sem julgamento
vou falar do urso, da girafa, da morsa, do falcão
você me pede para não falar de amor
eis que tenho agora uma ocupação
não te ver, não te telefonar
não pensar em você
tudo isso dá algum trabalho
não vou falar de amor
vou falar do vento, das inundações,
do vinco das calças
dos meus amigos exilados
que viajam com malas cheias de livros
e manuscritos
de modo que mal se distinguem
seus ensaios e suas cuecas
vou falar sobre dançar
num transatlântico
sobre esse livro que se escreve
à roda do seu nome
todas essas coisas que não são o amor
não vou escrever cartas de amor
vou escrever cartas sobre cartas
cartas sobre cartas
cartas sobre cartas nas quais irrompe às vezes
uma história de exílio
uma parábola antiga
porque eu sei como é feito Dom Quixote
mas não sei escrever uma carta de amor
você me pede para não falar de amor
eu atendo porque devo te amar
em lugar de amar o meu amor
porque no amor não deve valer a lei do mais forte
nem mesmo a do mais forte amor
porque é solitário estar sozinho num dueto
não falar de amor me mantém ocupado
os animais do zoológico fazem isso melhor do que eu
eles não falam de amor, eles amam com suas plumas
e suas garras
também te amo com minhas garras e minhas plumas
é o que eu diria se este fosse um poema de amor
este é um poema não de amor

UMA CAMINHADA NOTURNA

Os animais existem durante a noite
ou durante o dia
eles têm modos próprios de existir
há um modo cão de existir no dia
um modo águia ou cavalo ou búfalo
e um pássaro está tão à vontade
na noite quanto na floresta
mas nós podemos trocar
a noite pelo dia
e andar sem destino sob as luzes da rua
e a lua alta
e todos os soníferos todos os venenos
todos os banhos quentes e as massagens
e os cremes e os chás não nos darão
uma noite de arminho ou de serpente
há insônias planejadas e noites que se estendem
como uma luva longa
penso em tudo o que existe
e no pouco que sabemos sobre tudo
mas penso sobretudo
em seu sexo
e seu sexo resplandece
sobre o pensamento de tudo
amo em você principalmente o gesto útil
as mãos cheias de sal
seu jeito de dirigir um automóvel austero
sua casa que não é um amontoado de tijolos
sua casa em que as coisas encontram
incandescentes
seus lugares
a mesa e as cadeiras e as cortinas
enquanto os espelhos pensam
a si mesmos
mas eu
desperto tarde demais e afogada na cama
como entre lençóis de água
e quando estou com você é como se estivesse
em uma escada alta
penso que o seu corpo imita a praia luminosa
da sua infância
e penso que nunca poderei conhecer você
quando criança
e queria beber em seus lábios
a sua sede de então
penso
com os prédios à direita
e o mar à esquerda
que um dia o amor terminará
e penso que isso não é triste
para o mar
penso que o mar não escolhe
entre a nau e o naufrágio
como para a primavera é indiferente
o mel ou as abelhas
como as mulheres que foram amadas
em duas línguas
os pássaros enlouquecem em pleno voo
o desejo é imenso e no entanto
penso
também não durará

POEMA DE TRÁS PARA FRENTE

A memória lê o dia
de trás para frente

acendo um poema em outro poema
como quem acende um cigarro no outro

que vestígio deixamos
do que não fizemos?
como os buracos funcionam?

somos cada vez mais jovens
nas fotografias

de trás para frente
a memória lê o dia

(Caros leitores, aqui se encerra a série sobre Ana Martins Marques, o espaço de poesia do caderno de cultura trará mais um poeta para o próximo texto e série, surpresa, sem spoiler).

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




   

quinta-feira, 26 de março de 2020

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XXII


“O fanatismo do Sebastianismo, em sua versão brasileira, era insuflado pela crença na ressurreição de Dom Sebastião”

O Rei Dom Sebastião (1554-1578), de Portugal, foi o monarca mais popular da História deste país, e teve reflexos diretos no Brasil, que culminou no movimento religioso-místico e messiânico chamado Sebastianismo, que também foi denominado de Mito Sebástico ou Mito do Encoberto, a partir do desaparecimento deste rei no século XVI.
O misticismo de caráter messiânico, em torno da figura de Dom Sebastião, operou um descolamento da realidade e também da própria figura real deste monarca, e um dos mitos defendidos pelo movimento sebastianista era o de que Dom Sebastião não havia morrido na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África, em 1578, na qual ele desaparecera.
O fato de não haver herdeiro para o trono português, após o desaparecimento de Dom Sebastião, pois seu tio, Dom Henrique, havia morrido, despertou o mito de que Dom Sebastião estava vivo e que esperava o momento propício para derrotar os espanhóis, pois eles haviam tomado o trono português com a União Ibérica, pelo Rei Filipe II, da Espanha.
A chamada batalha de Alcácer-Quibir foi uma disputa entre os portugueses, liderados por Dom Sebastião, aliados com o exército do sultão Mulay Mohammed, contra os marroquinos, estes liderados pelo sultão Mulei Moluco. Tal batalha resultou na derrota dos portugueses.
Com a ocupação do trono português pela Espanha, e o começo do Sebastianismo, surgiram vários impostores se dizendo ser o rei desaparecido, aproveitando o ímpeto nacionalista português, pela perda de sua independência, e com o fortalecimento da ideia de salvação e da vinda de um salvador. Neste caso, o mote era a expectativa depositada no retorno triunfal de Dom Sebastião, este que seria a encarnação da ideia messiânica de “salvador da pátria”. Contudo, em 1640, este mito sebastianista arrefeceu, pois houve um golpe de Estado, que restaurou a independência de Portugal.
Por sua vez, o Sebastianismo chegaria e seria revivido no Brasil, já no século XIX, sobretudo no nordeste do país, se misturando ao imaginário popular da região, e sendo uma nova versão do fenômeno português. Em Pernambuco, nesta nova versão messiânica sebastianista, o movimento adquire caráter violento e de intenso fanatismo, com líderes religiosos explorando a fé da população, em sua maioria humildes e flagelados pela seca, isolados geograficamente, e sem informação alguma.
O fanatismo do Sebastianismo, em sua versão brasileira, era insuflado pela crença na ressurreição de Dom Sebastião, como um salvador da população flagelada, com promessas mirabolantes como juventude eterna e uma vida abundante e plena. E foi em Pernambuco que se deu dois movimentos trágicos do fanatismo sebastianista : o da Serra do Rodeador, no município de Bonito, em 1819-1820, e o da Serra Formosa, em São José do Belmonte, no período de 1836 a 1838.
O primeiro movimento ficou conhecido como “A Tragédia do Rodeador”, e teve como líder religioso Silvestre José dos Santos, “Mestre Quiou”, e que tal tragédia também foi denominada de “massacre de Bonito”, matança que ocorreu no arraial fundado pelo líder religioso, denominado Sítio da Pedra, e que resultou em muitas mortes, comandadas pelo governador de Pernambuco, Luiz do Rego, em 1820.
O segundo movimento, A Tragédia da Pedra Bonita, ocorreu na Serra Formosa, no município de São José Belmonte, no sertão de Pernambuco, num lugar chamado Pedra Bonita, e que também ficou conhecida como Pedra do Reino. Nesta tragédia, o movimento foi inicialmente liderado por João Antônio dos Santos, que fundou um reino com regras próprias, um mundo paralelo, alheio ao resto do país, e tal líder pregava o retorno de Dom Sebastião, e dizia mistificações como ter tido contato com o próprio, e que ele retornaria para a salvação do povo.
Pessoas de pouca instrução estavam sendo exploradas em sua boa fé naquela região, com a manipulação de uma bebida feita à base de ópio e jurema, e seu número aumentava, o que chamou a atenção das autoridades do governo brasileiro, da Igreja Católica e de fazendeiros locais.
Um padre da Igreja convenceu João Antônio a parar com suas pregações, mas este deixou um novo líder em seu lugar, João Ferreira, que radicalizou o fanatismo do movimento, em que o retorno de Dom Sebastião dependeria de um banho de sangue em Pedra Bonita, e tal líder comandou um massacre em maio de 1838. No dia 18 de maio daquele ano, o arraial de Pedra Bonita foi destruído por forças comandadas pelo major Manoel Pereira da Silva, na tentativa de conter a chacina fanática de Pedra Bonita, que Ariano Suassuna, em seu romance, chamaria de Pedra do Reino.
Também foi mais um fenômeno do movimento sebastianista a chamada Guerra de Canudos, outra tragédia, esta que teve como líder religioso Antônio Conselheiro, massacre este que foi localizado na Bahia, entre os anos de 1893 e 1897. Mais um movimento que pregava o retorno triunfal e salvador de Dom Sebastião, neste caso, para restabelecer a monarquia e derrubar a República.
Em 1897, o arraial de Canudos foi destruído pelo Exército. Euclides da Cunha produziu o melhor documento histórico deste episódio com seu livro Os Sertões, um dos mais importantes da literatura brasileira, jornalista que passou três semanas no local da guerra como correspondente de O Estado de São Paulo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.















quarta-feira, 18 de março de 2020

CONQUISTA DO INÚTIL : A SAGA NATURALISTA DE HERZOG


“Herzog e sua equipe foram com dois guias com machetes explorar a cumeada do istmo entre os rios Camisea e Urubamba”

Werner Herzog teve que ir a Lima desmentir boatos sobre o que acontecia na sua filmagem, pois, por exemplo, corria a notícia, segundo o Lima Times, de que a equipe de Herzog havia mandado quatro índios para a prisão, e de que os índios estavam sendo maltratados, e de que suas plantações foram arrasadas. Herzog enfrentou acusações que ele considerou sem lógica e que chamou de “teatro do absurdo”.
Herzog continuava enfrentando problemas de organização e financiamento, chegou a refletir sobre si mesmo, de modo objetivo, como alguém que tinha uma visão que levaria a aniquilação de si mesmo, Herzog tenta entender como tinha chegado ao ponto em que estava, e ele achou de si, contudo, “tranquilizador o fato de eu ainda respirar”.
Herzog então fica sabendo de novas notícias que agora associavam a sua equipe a negócios com armas e drogas. Herzog então chegou a Napuruka, e foi confirmar se era verdade a história que corria de que iam matar ele quando ele chegasse lá. Enfrentou o Consejo de Aguarunas, e logo a discussão virou algo cartorial, com leituras de resoluções e comunicados.
Na verdade, esta capa burocrática tinha a intenção de retirar Herzog e sua equipe de Wawaim, este conselho tinha a pretensão de controlar grande parte daquela região, e Herzog questionou o tal conselho dizendo que os habitantes de Wawaim nunca tinham ouvido falar neles, e que eles não tinham controle sobre a região, e os que sabiam da existência do conselho, o rejeitavam.
A situação de Herzog era cada vez mais complexa e periclitante, aqui está seu resumo até o ponto em que estava : “Oito meses apagados, como se eu não quisesse que tivessem existido. Um ano de catástrofes, do ponto de vista pessoal e do trabalho. O acampamento no rio Marañón, depois de abandonado, exceção feita ao posto médico, foi incendiado por aguarunas do conselho indígena. Fotógrafos da imprensa de Lima foram convidados a cobrir o acontecido. Criminalização da minha pessoa pela mídia – um tribunal grotesco contra mim na Alemanha.
Mesmo assim, continuei o trabalho, sabendo, talvez apenas esperando, que o tempo consertaria as coisas, que os fatos, com o tempo, sobreviveriam a tudo isso. Preocupações financeiras. Eu estava tão por baixo que não tinha mais o que comer. Vendi dois vidros de xampu dos Estados Unidos na feira em Iquitos para comprar quatro quilos de arroz; com eles, pude me alimentar durante três semanas. Minha filha nasceu; algo belo vai permanecer.”
Herzog segue o seu périplo, recebe fotos e notícias de César de Ucayali, e são ruins, Herzog não conseguia encontrar a sua locação para a filmagem da cena do barco, e as opções na região estavam se escasseando. Herzog continuava procurando um cenário possível, recebe fotos aéreas de todo o Ucayali, do Tambo e da Pachitea.
Herzog se decepciona com o rio Pachitea, segundo ele, “durante todo o caminho até Puerto Inca há uma chakra e um pasto atrás de outro. Os poucos pontos mais íngremes entre as curvas do rio são quase verticais com elevações que parecem planaltos”. A esta altura, os rios Pachitea e Huallaga já haviam sido descartados, o que restava como últimas tentativas de encontrar um cenário do filme eram os rios Picha, Camisea e talvez o Mishagua, tudo sendo analisado ao sobrevoar o rio Ucayali/Urubamba até as corredeiras, o pongo de Mainique.
Herzog e sua equipe foram com dois guias com machetes explorar a cumeada do istmo entre os rios Camisea e Urubamba, no ponto mais alto a floresta se encontrava muito fechada, a vista da reunião dos rios só seria possível numa plataforma no alto de uma das árvores daquele cume, e Herzog, já exausto, dá um mergulho no Urubamba, mas todos chegam tarde demais para pegar o avião para Picha. Só depois das oito da manhã é que Herzog vai para Picha, mas toda a busca no Picha e no Urubamba não dá em nada, o cenário que Herzog buscava não tinha sido encontrado, de novo.
No bar, em um desolado aeroporto de Pucallpa, uma cena naturalista é descrita mais uma vez pela narrativa de Herzog : “lá há um macaco lindo, preto com braços e pernas infinitos. Ele parece bastante esperto e teria de acompanhar o Fitz. Um bêbado cuspiu no macaco e quase o acertou por trás. O macaco olhou e cheirou demoradamente a meleca vinda das profundezas de um pulmão doente; a meleca estava no chão, verde-amarelada, ainda fumegante. Parecia que o macaco queria comer o cuspe ou no mínimo prová-lo. Eu lhe disse em pensamento, ‘não faz isso, não faz isso’, e ele não fez.”
Chegando em Iquitos, Herzog enviou telegramas para Munique e Los Angeles, para saber de Mick Jagger. Herzog decide então que filmaria em Camisea. E Herzog prossegue a sua narrativa naturalista : “Em Belén, que continua me atraindo sem motivo, uma mulher vendia sopa em um grande casco de tartaruga. Um chinês idoso estava sentado perto, em uma soleira, e fazia movimentos repetitivos, como se puxasse um fio de dentro de seus olhos.
Ele era louco e, portanto, a milhas de distância de qualquer ato humano comum, estava tão radicalmente submerso em um estado à parte, que atraiu não apenas a minha atenção, mas a de todos aqueles que tomavam sopa. Todos olhávamos furtivamente para ele, como se fosse inevitável, e estávamos constrangidos caso alguém nos pegasse em nossa observação.
Eu nunca vira nada semelhante à intensidade com que ele puxava os fios imaginários dos olhos. Quando, mais tarde, passei por ele com minha moto, ele levantou a cabeça lentamente e me olhou de forma tão penetrante e com o rosto tão vidrado de loucura, que tive medo. No caminho, perdi o recipiente trançado que prendera atrás da moto e nem percebi, sempre perseguido por aquele olhar.”

(continua)

(obs : Caros leitores, esta é a segunda parte de textos sobre o livro do diretor de cinema Werner Herzog – Conquista do Inútil, sobre as filmagens de Fitzcarraldo, a primeira parte já foi publicada aqui no caderno de cultura da Século Diário e terá ainda algumas continuações, acompanhem).

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





   


sábado, 14 de março de 2020

ORFEU

Orfeu e seu canto, sua lira,
que aplacava as cizânias
dos argonautas, silenciava
as sereias, partiu ao Hades
para buscar Eurídice,
foi vendo seu fantasma
desaparecer para sempre,
um Orfeu triste
se mortificou,
o poeta dos poetas,
mito da poesia e da música,
em sua lira fundou
o orfismo, foi perseguido
pelas mênades  e despedaçado,
seu mito ecoa pelos tempos,
da poesia de sua lira
é um canto mitológico,
ele morre e se junta
novamente à Eurídice,
este poeta que descera
ao Hades ainda vivo,
como um poeta que
desafiou a morte,
adormeceu Cérbero
e foi conduzido por Caronte,
Orfeu, o poeta mitológico,
que em seu canto
fez da poesia seu
mito fundante,
a lira e seu destino.

14/03/2020 Gustavo Bastos

MAIAKÓVSKI

No verão da datcha,
segue o caminho aberto
por Khlébnikov,
para brilhar como poeta,
no caminho do sol,
rompendo com o imagismo
de Iessiênin, a cantar
a plenos pulmões
o seu canto do cisne,
ao passo de seu suicídio
diante das hordas stalinistas.

Maiakóvski, o poeta
panfletário, distante
das versões aguadas de rondós
e das expressões engessadas
no dogma de Pushkin,
este pai da literatura russa.

Maiakóvski passa ao coloquial
se mantendo sonoro,
seu som estridente
de militante e poeta
que desafia com seu
verso estourado
os cães da ordem,
o poeta soviético
que é da luta política
e que tem na veia
sua forma revolucionária.

14/03/2020 Gustavo Bastos

SAFO DE LESBOS

Em seu Hino a Afrodite
e dos inúmeros fragmentos
que lhe restaram, Safo
de Lesbos, vivendo
em Mitilene, caiu no
anedotário e na lenda
de seu lesbianismo,
sua lira era a da maior
poetisa da Hélade,
seu fulgor e sua poesia
foram notáveis
no mundo antigo,
assim como Alceu,
colocou a ilha de Lesbos
como lugar de uma lira
que encantava.

Safo, que da tradição
virou História, foi
peça biográfica e
pornográfica,
a poetisa e suas lendas
que foram idealizadas
por românticos e
imaginadas por artistas
inúmeros, de sua lenda
de poetisa que se suicidou
ao se jogar de um penhasco.

14/03/2020 Gustavo Bastos

BRECHT

Brecht, em seus tambores da
noite, em seus poemas políticos
de um ideólogo de teatro épico,
seu poema contra o fascismo,
sua militância de artista marxista,
seu humor rascante e a ironia
de sua pena em verso
que descrevia a sua vida
e suas ideias.

Bertolt, este que imprecava
contra Hitler e seus asseclas,
o que viveu na Alemanha
do holocausto toda a sua
bílis negra de porretes
nas noites do caos,

poeta e dramaturgo,
fazia da música e de
um distanciamento a
épica do século vinte,
poeta próprio
do século das guerras,
ideólogo de sua utopia
e de sua arte,
Brecht tem a coragem
das mães da miséria
e dos matadouros,
seus poemas politizam
a poesia que vai à luta.

14/03/2020 Gustavo Bastos