PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O DIABO É O PAI DO ROCK

“um fenômeno que envolve satanismo no rock e na música é a prática de rodar os discos ao contrário”

Para falar da presença do Diabo no rock, precisamos recuar um pouco no tempo e relatar uma das primeiras histórias (ou estória?) que envolve pactos e afins, que é a lenda em torno de Robert Johnson, este que foi um dos músicos mais influentes do chamado delta blues.
Tendo vivido no Mississippi, Johnson é um dos músicos mais influentes tanto para o blues como para o rock. A lenda em questão, por sua vez, é um mito popular que afirma que o músico teria vendido a sua alma ao Diabo, isto na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, Mississippi, entidade que teria, então, afinado o violão do músico um tom abaixo, e com isto consagrando Robert Johnson como uma das figuras centrais do blues, mito que foi propagado por outro mestre blueseiro, Son House, e que tinha supostas evidências em letras de músicas de Robert Johnson como “Crossroads Blues", "Me And The Devil Blues" e "Hellhound On My Trail", lenda que ficou mais famosa ainda com o filme de 1986 Crossroads, o qual descreve tal história ou estória.
No rock, por sua vez, temos fenômenos como a música dos Rolling Stones, Sympathy for the Devil, faixa de abertura do sétimo álbum de estúdio da banda, Beggar’s Banquet, de 1968, música que teria sido inspirada no livro O Mestre e Margarida, do escritor soviético Mikhail Bulgakov, e também no poeta francês Charles Baudelaire, e que também pode ter sido em seu instrumental inspirada numa visita de Mick Jagger a um centro de candomblé na Bahia. Tal música que logo causou polêmica e foi motivo de várias acusações de satanismo contra a banda.
Uma das primeiras bandas a tematizar o ocultismo no rock, por sua vez, foi a Coven, banda formada no final dos anos 1960, cujo primeiro álbum “Witchcraft Destroys Minds And Reaps Souls", de 1969, apresenta a temática ocultista, muito por influência da vocalista da banda Jinx, que estudava o tema, e caindo por fim no satanismo.
Mas a banda de rock que ficou mais famosa tanto pelo som como pelos temas satânicos foram os fundadores do heavy metal, Black Sabbath, banda que começou como blues rock e logo após incorporou o nome Black Sabbath, inspirado num filme que o baixista Geezer Butler havia visto, colocando tanto o ocultismo como o terror como inspiração para as letras e músicas que fariam a banda uma das maiores e mais influentes da História do rock, passando a usar guitarras com baixa afinação.
No Brasil temos a letra de Rock do Diabo, composta por Raul Seixas e Paulo Coelho, música que foi lançada por Raul Seixas no álbum Novo Aeon, em 1975, como uma alusão bem humorada da presença do Diabo na História do rock, e outra banda que fez polêmica em torno do tinhoso foi a inglesa Iron Maiden, com a música e álbum “The Number of the Beast”, controvérsia que só serviu para alavancar as vendas do disco do Maiden.
Mas a face mais extrema do satanismo no cenário rock ainda estaria por vir, pois tivemos uma primeira geração do metal extremo ainda na década de 1980, com bandas precursoras do que viria a ser a vertente black metal, bandas influentes como Venom, Celtic Frost e Mercyful Fate, que dariam na segunda geração do black metal na década de 1990, a chamada cena norueguesa do Inner Circle, no que esta história inocente do flerte do rock com o Diabo começou a ficar um tanto séria, até demais.
No início da década de 1990 temos uma série de eventos na Noruega em torno deste grupo chamado Inner Circle, pois há uma sucessão de incêndios terroristas que tinham como alvo antigas igrejas históricas e ainda temos casos de homicídio envolvendo alguns músicos desta cena norueguesa do Black Metal Inner Circle. E um dos idealizadores do movimento, com a sua loja Helvete (inferno em norueguês) era o líder da banda Mayhem, Euronymous. Por conseguinte, o chamado Inner Circle era composto por membros das primeiras bandas de black metal norueguês como Mayhem, Burzum, Darkthrone, Immortal, Emperor e Enslaved.
A série de eventos do Inner Circle dá uma conta macabra de 52 igrejas incendiadas, com a cena atraindo atenção massiva da mídia quando descobriram que seus membros eram os responsáveis por dois assassinatos e vários incêndios de igrejas norueguesas. Com a atenção da mídia, logo se descobre que tal grupo se intitulava "The Black Circle" ou "Black Metal Inner Circle", com visões anticristãs, como satanistas que adotavam pseudônimos e que apareciam em fotografias usando corpse paint (pintura facial).
Por fim, em agosto de 1993 tivemos a prisão de vários dos integrantes do movimento Inner Circle, tendo a condenação em maio de 1994 por crimes como incêndio, assassinato, assalto e posse de explosivos. E como fatos que marcaram a trajetória do Inner Circle temos também que em 8 de Abril de 1991, o vocalista Dead da banda Mayhem comete suicídio, em 21 de agosto de 1992, Bård 'Faust' Eithun, da banda Emperor, esfaqueia até a morte um homem gay em uma floresta nos arredores de Lillehammer, e em 10 de agosto de 1993 o fato que mais marcou a cena norueguesa, que foi quando Varg Vikernes, único membro da banda Burzum, e Snorre Ruch viajaram de Bergen até o apartamento de Euronymous em Tøyengata, no que houve uma discussão que resultou na morte de Euronymous a facadas pelas mãos de Varg, que se autointitulava Count Grishnackh, no que Varg Vikernes foi preso em 19 de agosto de 1993 em Bergen, que foi quando o movimento enfraqueceu.  
Para citar outro músico cuja presença satânica também é garantida, temos Marilyn Manson, com seu álbum de 1996 intitulado Antichrist Superstar, por exemplo. E um fenômeno que envolve satanismo no rock e na música é a prática de rodar os discos ao contrário para ver mensagens diabólicas escondidas nas músicas originais, que rodadas ao contrário, as revelariam, no que temos Stairway to Heaven do Led Zeppelin, e músicas dos Menudos e da Xuxa figurando na tal lenda, o que é uma junção de sugestão psicológica com divertimento mórbido e mistificação.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35826/14/o-diabo-e-o-pai-do-rock


  

terça-feira, 19 de setembro de 2017

HAMILTON NOGUEIRA – DOSTOIÉVSKI – PARTE III

“quando falamos de conhecimento em Dostoiévski estamos nos referindo a uma realidade carnal, viva, pulsante”

DOSTOIÉVSKI EM FACE DO RACIONALISMO EUROPEU

Temos uma abordagem do romance de Dostoiévski na sua relação com o conhecimento, o que nos leva a dizer que tal forma de expressar questões que envolvem a compreensão humana e suas formas de conhecer a realidade aparece em Dostoiévski ainda com um caráter tão intenso como foi em suas tragédias passionais, pois quando falamos de conhecimento em Dostoiévski estamos nos referindo a uma realidade carnal, viva, pulsante, de um homem visto como ser integral, e não como um método frio em que se fundamenta uma abstração da inteligência pura. Como nos diz Hamilton Nogueira : “O problema desloca-se do plano puramente especulativo para o plano integral da vida. Ele está intimamente ligado ao destino dessas almas dilaceradas pela incerteza e pela angústia.”
Em Dostoiévski, quando nos voltamos a seus personagens, damos com uma realidade viva em que as questões ultrapassam o terreno conceitual e no qual o homem luta contra seus próprios limites, estas barreiras inseridas na sua natureza finita e débil. E tal luta fica numa sujeição a estes limites naturais, diante de aspirações e ambições maiores e ousadas, em que o desenvolvimento normal da vida passa por estes limites intoleráveis da consciência comum, e é neste momento que Dostoiévski nos apresenta tais personagens com este tal temperamento mais ambicioso e profundo, um mundo de intuição universal que lutará o tempo todo contra o mundo medíocre da natureza decaída da simplicidade sensorial de obviedades, do mundo real e prático, da sociabilidade preestabelecida, no que tais personagens de certo modo atormentados colocam a condição humana à prova, numa luta renhida contra o fracasso da natureza comumente partilhada num mundo oco e previsível.
Como nos diz Hamilton Nogueira : “O grande esforço metafísico de Dostoiévski consiste em ultrapassar os limites da razão secundária e transpor a esfera das harmonias eternas. Ele procura sobrepor-se ao tempo, viver fora e acima dele, como se o homem já tivesse sofrido aquela transformação física assinalada no Apocalipse.” E é aqui que é apresentada a ideia de razão principal, que significa este mundo intuitivo de uma essência universal e profunda, numa ausência de limites entre o mundo real e o fantástico, em que o normal e o anormal se tornam indistintos, produto de um tipo mais intenso de inteligência capaz de realizar uma síntese potente que conserva de forma integral as faculdades psíquicas que fazem este grupo específico de personagens que lutam no romance dostoievskiano.
Dostoiévski faz esta realização de tal ideia da “razão principal” no romance O Idiota, em que Muischine é um exemplar concreto e humano desta ideia, como um ser despojado dos limites que poderiam refrear a sua natureza, como um tipo raro da bondade natural do homem selvagem de Rousseau, um exemplar que não foi corrompido pelo pecado original. Mas temos também o fato de que não basta este privilégio de uma natureza específica da razão principal para safar tal personagem dos limites naturais que são o itinerário comum que impedem este exemplar raro como era Muischine de avançar, pois não lhe bastaria esta intuição que desvela os mistérios todos para absolvê-lo de um mundo geralmente decaído.
E como nos lembra Hamilton Nogueira : “Se ao Homem Ridículo ela trouxe uma solução definitiva para o seu caso, por isso que se tratava de uma natureza essencialmente contemplativa e que renunciara por completo a qualquer experiência terrena, para Muischine a razão principal foi ao mesmo tempo a causa da sua grandeza e da sua miséria. (...) É que ele, se bem que já tivesse a intuição do insucesso das suas aventuras, não renunciaria a viver entre os homens.”
E temos diante deste confronto das personagens dostoievskianas com a consciência comum a revelação do temperamento de Dostoiévski como um homem e escritor em conflito contra a utopia moderna do racionalismo técnico e científico de seu tempo, e que ganhava o status de único conhecimento possível da realidade do mundo, uma vez que Dostoiévski se verá logo adiante com questões de profundidades abissais em que tal forma oficial de abordagem do mundo não lhe trará nenhum lenitivo, e então temos um romance dostoievskiano de camadas psíquicas que se debatem em posições desconhecidas pelo racionalismo objetivo e científico, uma realidade psicológica que, no seu extremo, vai se deparar na crença da salvação do mundo pelo mandamento do amor, a questão da fé, e o amor como leitmotiv da obra dostoievskiana.
E como nos diz Hamilton Nogueira : “Quase todos esses pensamentos admiráveis, ditos de outra maneira, Dostoiévski coloca em O Sonho de Um Homem Ridículo. Ele quer demonstrar, por meio deles, o primado da vida contemplativa sobre o exercício da razão pura. A primeira, para atingir a plenitude, ajoelha-se humildemente diante da Verdade Suprema, a segunda, no seu esforço de conhecimento puramente natural, desgarra-se a cada instante do caminho da verdade, choca-se de encontro ao muro sensorial que impede a mobilidade do espírito, sendo tantas vezes a causa do desespero e do desencanto de viver. (...) Essa consciência da vida que o Homem Ridículo adquire durante o seu sonho é o desafio de Dostoiévski ao racionalismo cientificista que dominava o espírito europeu no século XIX, e que através das culturas francesa e alemã, se refletia sobre a intelectualidade russa do seu tempo.”
E Dostoiévski se depara com a realidade do sofrimento humano como algo que aponta para um sentido transcendente em que há a luta de uma natureza decaída, em que o sentido universal das coisas é revelado, pois não há como, nesta visão metafísica e transcendental, limitar tal fenômeno com o plano restrito da natureza comum, e quando esta realidade do sofrimento humano ganha camadas de absurdo e de dor alucinante, temos aí a necessidade de um sentido universal que possa dar conta destas contingências incompreensíveis a olho nu.
E como nos diz Hamilton Nogueira : “Os próprios progressos científicos que aprimoraram a técnica, tornando possível a multiplicidade e a repetição das experiências, não trouxeram, e mesmo não poderiam trazer, a menor claridade aos problemas de ordem moral. (...) O homem contemporâneo continua a sofrer as mesmas angústias dos seus antepassados. E em face dos problemas eternos, em face do mal e do sofrimento só a verdade revelada traz uma solução satisfatória.”
E com Ivan Karamazov, por sua vez, Dostoiévski mostra uma face trevosa de ruptura da ordem moral, pois esta personagem é o exemplo mais bem acabado no romance dostoievskiano da inserção do racionalismo europeu na cosmovisão russa, e que em Ivan revela um racionalismo, que no seu extremo, como diz Hamilton Nogueira : “negando o Espírito desencadeou as forças telúricas, demoníacas, que iriam preparar o terreno para o advento do comunismo.” Ivan Karamazov tem então uma postura de negação da ordem moral, e que se consolida com a sua máxima de que “nada é verdadeiro, tudo é permitido”. E Hamilton Nogueira arremata : “Aquele que não tem nenhuma crença não tem a menor razão para viver de acordo com a consciência comum. O sentido da culpa desaparece. O crime deixa de ser crime.”
Tal negação da ordem moral também aparece em forma bem acabada com Raskolnikov no romance Crime e Castigo, numa trama íntima desta personagem que atinge uma intensidade trágica, que é um marco quase nunca atingido pela literatura universal de todos os tempos, e que tem na inspiração de Dostoiévski uma trama de confronto com a ordem moral que é emblemática e que entra para a História da literatura mundial, e que sobre tal fenômeno, Hamilton Nogueira nos diz : “todas as forças imanentes, próprias à natureza humana, reagem com extraordinária violência contra uma concepção negativista dos valores morais, que conduz ao crime, como se esse fosse um ato normal, às vezes inevitável, e sem a menor repercussão na consciência daqueles que o cometem.”
Ivan Karamazov, por sua vez, não terá a sensação de culpa que acometerá Raskolnikov diante do crime, a tragédia em Ivan é que ele não responde favoravelmente às iluminações da consciência e não adere aos apelos da verdade, ele enfrenta uma dispersão e desagregação interior que não encontra mais sentido para a ordem moral, seu racionalismo é degenerado sob a forma violenta de uma inteligência apartada do ser, da essência das coisas, e será o caminho de Ivan na sua ruptura moral que o levará ao limiar da loucura, numa realidade alucinada. E como nos diz Hamilton Nogueira : “De Ivan, pode-se dizer que concretiza o racionalismo puro, isto é, a inteligência audaciosamente posta ao serviço de uma lógica estéril, que se não apoia sobre os primeiros princípios do conhecimento, mas que atuando sobre seres de razão, sem o menor fundamento na realidade, orientam o espírito humano para as diversas expressões do erro”.
Como disse Chestov, a verdadeira crítica da razão pura está em Dostoiévski e não no filósofo Kant, pois este, como nos diz Hamilton Nogueira : “ao invés de se apoiar no real, como fizeram Aristóteles e Santo Tomás, Kant desenvolveu toda a sua exaustiva dialética sobre fantasmas inexistentes – os julgamentos sintéticos a priori.” Por sua vez, temos Dostoiévski como crítico da razão pura, pois ele se apoiava no mundo real, e não há nele nenhuma teoria do conhecimento ou filosofia conceitual e formal.
Pois a realidade da vida, na sua face trágica e psíquica, realidade pulsante de contradições, era a matéria bruta do romance dostoievskiano, o que era também reflexo de sua negação dos sistemas de pensamento, não havendo nele uma inflexão conceitual que leve a um terreno de abstração, de um mundo racional, formal, calcado no espírito de sistema, comum à filosofia como conhecimento estruturado e lógico. Dostoiévski está voltado a uma humanidade que está inserida em fenômenos mais concretos como o sofrimento e o amor, a trágica realidade da vida é a matéria do romance dostoievskiano, o que o coloca em oposição à inflexão conceitual de esbanjamento lógico e abstrativo.
O romance dostoievskiano tem um alcance psicológico muito mais intenso do que o da psicologia experimental, da técnica do naturalismo científico, pois a vida humana autêntica em toda a sua força e intensidade é que é a matéria de que é feito o trabalho literário de Dostoiévski, e é o romancista um dos que mais contribuíram na literatura para o conhecimento do homem como ele é, e que é tanto o homem russo como o homem de todos os tempos, numa universalidade que vai, ao fim, nos revelar a inteligência divina que governa o todo da realidade humana e universal. E este alcance psicológico que desbancou qualquer inserção feita pela psicologia experimental está presente também no cânon do romance moderno, que tem figuras como Stendhal, Balzac, Tolstói e Proust, além do próprio Dostoiévski.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35807/17/conhecimento-em-dostoievski-remete-para-uma-realidade-carnal-viva-pulsante






segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LIRA DOS VINTE ANOS, ÁLVARES DE AZEVEDO – PARTE I

O BYRONISMO E A POESIA ROMÂNTICA DE ÁLVARES DE AZEVEDO

“O byronismo então era mais do que um estilo literário, mas uma filosofia de vida”

Temos o poeta Álvares de Azevedo inserido na segunda geração romântica da poesia brasileira junto com o popular Casimiro de Abreu, cujo lirismo mais simples e acessível teve maior entrada no público com a sua poesia intimista e que não tinha uma veia agressiva, sendo mais afeita aos saraus e salões, além de Junqueira Freire, mas foi Álvares de Azevedo quem exerceu a maior influência no que veio depois na poesia brasileira.
A face byroniana de Álvares de Azevedo foi o fator precípuo de sua grande influência na literatura nacional, sobretudo das gerações que surgiriam depois dele na Academia de Direito de São Paulo, nos levando a uma reflexão direta do que foi a presença ilustre de Lord Byron na poesia brasileira e mundial, poeta inglês que se tornou conhecido internacionalmente em 1812, com a publicação da primeira parte de seu longo poema narrativo intitulado Childe Harold's Pilgrimage, e que teve sua evolução com trabalhos como The Giaour de 1813, A noiva de Abydos, dentre outros.
A característica de Byron, seu estilo, era a de nos apresentar um tipo de herói angustiado, descrente, tentando ser uma exceção no mundo, com digressões sentimentais prolixas e enfadonhas que hoje nos parecem supérfluas e datadas. Tal face byroniana também pôde evoluir para um outro lado com sua obra Don Juan de 1819, em que o poeta e escritor revelava uma tendência irônica e mordente que também foi objeto de imitação por outros poetas e artistas.
Contudo, o byronismo não se limitava ao aspecto literário, ou no que se refere a sua obra escrita, pois tínhamos também a influência das histórias contadas sobre a vida de Lord Byron, em que se citavam as orgias que aconteciam em sua residência na Inglaterra e na Itália. O byronismo então era mais do que um estilo literário, mas uma filosofia de vida e uma moda febril em que vários poetas e escritores se tornaram seus imitadores, para o bem e para o mal. Sendo, por conseguinte, o poeta inglês a maior figura literária de sua época, o símbolo máximo do romantismo, era fundamentalmente o ideal romântico perseguido pelos demais escritores e pessoas que receberam a sua influência.
E temos então Álvares de Azevedo como um representante exemplar do romantismo brasileiro, e que tem sua face revelada em trabalhos como Noite na Taverna, e que tem aí também umas das manifestações do byronismo no Brasil, o que significava uma literatura repleta de cinismo, pessimismo, ironia, com descrições mórbidas e diabolismos de toda espécie com toques lúbricos.
Contudo, a vida de Álvares de Azevedo, embora perseguisse o ideal byroniano, enfrentava uma São Paulo ainda provinciana, com um tipo de sociedade acanhada em geral, com pouco horizonte intelectual e pouco apelo ao temperamento de escritores românticos como ele. Vários críticos, portanto, deploraram o contexto medíocre e insosso em que estava inserido o homem Álvares de Azevedo, cuja escrita e estro poderiam ser apenas, talvez, delírios de um poeta adolescente e que teve morte prematura, mas que teve, no entanto, tempo para dar belas contribuições à poesia e literatura brasileira em poemas como “Ideias íntimas”, “Namoro a cavalo”, “Spleen e charutos”, em que o prosaísmo e o coloquialismo também davam as caras no estilo romântico que povoava seus poemas em geral.

POEMAS :

NO MAR : O poema, de temperamento e estilo românticos, tem no poeta um canto de ser amante, amoroso, e que tem na dor de amor este poeta que se tornará o exemplar mais bem ou mal acabado do ultrarromantismo da segunda geração de poetas românticos brasileiros, no que temos este então se debatendo apaixonadamente com a sua musa: “Era de noite – dormias,/Do sonho nas melodias,/Ao fresco da viração;/Embalada na falua,/Ao frio clarão da lua,/Aos ais do meu coração!/Ah! Que véu de palidez/Da langue face na tez!/Como teus seios revoltos/Te palpitavam sonhando!/Como eu cismava beijando/Teus negros cabelos soltos!”. O poema revela a visão do sono e num canto de saudade o poeta lamenta: “Como eras saudosa então!/Como pálida sorrias/E no meu peito dormias/Aos ais do meu coração!” (...) “Suspiravas? que suspiro!/Ai que ainda me deliro/Sonhando a imagem tua/Ao fresco da viração,”. Temos aqui a imagética da projeção extrema da idealização romântica, de uma intensidade que esbarra geralmente num mundo inóspito e gélido de sentimentos, no que o poema segue, com a visão de areia e de mar, para um consolo espiritual de um poeta perdido: “Como virgem que desmaia,/Dormia a onda na praia!/Tua alma de sonhos cheia/Era tão pura, dormente,/Como a vaga transparente/Sobre seu leito de areia!”.

O POETA : O poeta aqui se confronta tanto com seu temperamento romântico e amoroso como com sua face mórbida, flertando com o amor e com a morte, no que temos : “Era uma noite – eu dormia/E nos meus sonhos revia/As ilusões que sonhei!/E no meu lado senti .../Meu Deus! por que não morri?/Por que do sono acordei?/No meu leito – adormecida,/Palpitante e abatida,/A amante de meu amor!” (...) “Senti-lhe o colo cheiroso/Arquejando sequioso;” (...) “Um sonho do coração/Que suspirando morria!/Não era um sonho mentindo;/Meu coração iludido/O sentiu e não sonhou:/E sentiu que se perdia/Numa dor que não sabia .../Nem ao menos a beijou!”. A dor da morte nos aparece como a dor de um amor que tanto foi perdido como nunca aconteceu, restando uma idealização que adoece com o coração sucumbido de um poeta que faz um derramamento extremo, no que temos, portanto: “Não sei ... Dorme no passado/Meu pobre sonho dourado .../Esperança que mentiu!/Sabem as noites do céu/E as luas brancas sem véu/As lágrimas que eu chorei!” (...) “que não esqueci/A noite que não dormi,/Que não foi uma ilusão!/Sou eu que sinto morrer/A esperança de viver ...” (...) “Riríeis das esperanças,/Das minhas loucas lembranças,/Que me desmaiam assim?/Ou então, de noite, a medo/Choraríeis em segredo/Uma lágrima por mim?”. O choro aparece aqui como o estro lutando entre ideal e mundo real, armadilha tipicamente romântica.

QUANDO FALO CONTIGO, NO MEU PEITO : O poeta se dirige a sua mulher, seja esta aqui do mundo ou apenas uma presença etérea e poética, não importa : “Quando falo contigo, no meu peito/Esquece-me esta dor que me consome:” (...) “Que existência, mulher! se tu souberas/A dor de coração do teu amante,”. O poeta está louco, no que temos : “Sou um doido talvez de assim amar-te,/De murchar minha vida no delírio ...” (...) “_ E não pude, febril e de joelhos,/Com a mente abrasada e consumida,/Contar-te as esperanças do meu peito/E as doces ilusões de minha vida!/Oh! quando eu te fitei, sedento e louco,/Teu olhar que meus sonhos alumia,/Eu não sei se era vida o que minh`alma/Enlevava de amor e adormecia!”. Ele deseja ardentemente este ideal e quer contar o que viveu e o que viu para esta amante que não está ali, mas que aqui no poema é um espanto que consome todo o poema e o estro romântico de Álvares de Azevedo, no que temos : “Tem pena, anjo de Deus! deixa que eu sinta/Num beijo esta minh`alma enlouquecer/E que eu viva de amor nos teus joelhos,/E morra no teu seio o meu viver!” (...) “Adeus, anjo de amor! tu não mentiste!/Foi minha essa ilusão, e o sonho ardente:/Sinto que morrerei ... tu dorme e sonha/No amor dos anjos, pálida inocente!/Mas um dia ... se a nódoa da existência/Murchar teu cálice orvalhoso e cheio,/Flor que não respirei, que amei sonhando,/Tem saudades de mim, que eu te pranteio!”. Aqui novamente a coda é o choro, sucumbir é a regra, e esta desilusão se ilude com poesia.

DESALENTO : O poema é um tipo de aviso, um roteiro do sentimento, do que se deve observar no coração que mora na poesia e no mundo real, e o poema segue como um tipo de caminho indicado pelo poeta, do que ele sabe e quer contar, como se fosse um ensinamento, no que temos : “Feliz daquele que no livro d`alma/Não tem folhas escritas,/E nem saudade amarga, arrependida,/Nem lágrimas malditas!/Feliz daquele que de um anjo as tranças/Não respirou sequer,/E nem bebeu eflúvios descorado/Numa voz de mulher!”. E a idealização romântica aqui já tem consciência de suas sensações surdas, já consegue fazer uma mínima ausculta do próprio coração, cujo derramamento flui com visões floridas de uma amante pautada a todo o tempo neste poema romântico, no que temos : “Quem nunca te beijou, flor dos amores,/Flor do meu coração,/E não pediu frescor, febril e insano,/Da noite à viração!” (...) “Mas, nesse doloroso sofrimento/Do pobre peito meu,/Sentir no coração que à dor da vida/A esperança morreu! .../Que me resta, meu Deus?! aos meus suspiros/Nem geme a viração,/E dentro – no deserto do meu peito/Não dorme o coração!”. Ah, no meu peito, o coração! Imagética obcecada do sentimento romântico em poesia!

SONETO : Este soneto nos dá um estro romântico enxuto, a virgem do mar, que dorme, portanto, é a imagem da musa que dorme, algo a se estudar na psiquê da poesia romântica de Álvares de Azevedo, e que aqui mais uma vez se revela, no que temos : “Pálida à luz da lâmpada sombria,/Sobre o leito de flores reclinada,/Como a lua por noite embalsamada,/Entre as nuvens do amor ela dormia!/Era a virgem do mar, na escuma fria/Pela maré das águas embalada!/Era um anjo entre nuvens d`alvorada/Que em sonhos se banhava e se esquecia!/Era mais bela! o seio palpitando ...” (...) “Não te rias de mim, meu anjo lindo!/Por ti – as noites eu velei chorando,/Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!”. E a coda aqui mais uma vez vem com choro, mas garante um sorriso no fim.

POEMAS :

NO MAR

Era de noite – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

Ah! Que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!

Sonhavas? – eu não dormia;
A minh`alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!

E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!

Minha rola, ó minha flor!
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!

Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!

Era de noite – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

O POETA

Era uma noite – eu dormia
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti ...
Meu Deus! por que não morri?
Por que do sono acordei?

No meu leito – adormecida,
Palpitante e abatida,
A amante de meu amor!
Os cabelos recendendo
Nas minhas faces correndo
Como o luar numa flor!

Senti-lhe o colo cheiroso
Arquejando sequioso;
E nos lábios, que entr`abria
Lânguida respiração,
Um sonho do coração
Que suspirando morria!

Não era um sonho mentindo;
Meu coração iludido
O sentiu e não sonhou:
E sentiu que se perdia
Numa dor que não sabia ...
Nem ao menos a beijou!

Soluçou o peito ardente,
Sentiu que a alma demente
Lhe desmaiava a tremer:
Embriagou-se de enleio,
No sono daquele seio
Pensou que ele ia morrer!

Que divino pensamento,
Que vida num só momento
Dentro do peito sentiu ...
Não sei ... Dorme no passado
Meu pobre sonho dourado ...
Esperança que mentiu!

Sabem as noites do céu
E as luas brancas sem véu
As lágrimas que eu chorei!
Contem do vale as florinhas
Esse amor das noites minhas!
Elas sim ... eu não direi!

E se eu tremendo, senhora,
Viesse pálido agora
Lembrar-vos o sonho meu,
Com a fronte descorada
E com a voz sufocada
Dizer-vos baixo – Sou eu!

Sou eu! que não esqueci
A noite que não dormi,
Que não foi uma ilusão!
Sou eu que sinto morrer
A esperança de viver ...
Que o sinto no coração! –

Riríeis das esperanças,
Das minhas loucas lembranças,
Que me desmaiam assim?
Ou então, de noite, a medo
Choraríeis em segredo
Uma lágrima por mim?

QUANDO FALO CONTIGO, NO MEU PEITO

Quando falo contigo, no meu peito
Esquece-me esta dor que me consome:
Talvez corre o prazer nas fibras d `alma:
E eu ouso ainda murmurar teu nome!

Que existência, mulher! se tu souberas
A dor de coração do teu amante,
E os ais que pela noite, no silêncio,
Arquejam no seu peito delirante!

E quanto sofre e padeceu, e a febre
Como seus lábios desbotou na vida,
E sua alma cansou na dor convulsa
E adormeceu na cinza consumida!

Talvez terias dó da mágoa insana
Que minh`alma votou ao desalento,
E consentira a virgem dos amores
Descansar-me no seio um só momento!

Sou um doido talvez de assim amar-te,
De murchar minha vida no delírio ...
Se nos sonhos de amor nunca tremeste,
Sonhando meu amor e meu martírio!

_ E não pude, febril e de joelhos,
Com a mente abrasada e consumida,
Contar-te as esperanças do meu peito
E as doces ilusões de minha vida!

Oh! quando eu te fitei, sedento e louco,
Teu olhar que meus sonhos alumia,
Eu não sei se era vida o que minh`alma
Enlevava de amor e adormecia!

Oh! nunca em fogo teu ardente seio
A meu peito juntei que amor definha;
A furto apenas eu senti medrosa
Tua gélida mão tremer na minha! ...

Tem pena, anjo de Deus! deixa que eu sinta
Num beijo esta minh`alma enlouquecer
E que eu viva de amor nos teus joelhos,
E morra no teu seio o meu viver!

Sou um doido, meu Deus! mas no meu peito
Tu sabes se uma dor, se uma lembrança
Não queria calar-se a um beijo dela,
Nos seios dessa pálida criança!

Se num lânguido olhar no véu de gozo
Os olhos de Espanhola a furto abrindo
Eu não tremia – o coração ardente
No peito exausto remoçar sentindo!

Se no momento efêmero e divino
Em que a virgem pranteia desmaiando
E a c`roa virginal a noiva esfolha,
Eu queria a seus pés morrer chorando!

Adeus! rasgou-se a página saudosa
Que teu porvir de amor no meu fundia,
Gelou-se no meu sangue moribundo
Essa gota final de que eu vivia!

Adeus, anjo de amor! tu não mentiste!
Foi minha essa ilusão, e o sonho ardente:
Sinto que morrerei ... tu dorme e sonha
No amor dos anjos, pálida inocente!

Mas um dia ... se a nódoa da existência
Murchar teu cálice orvalhoso e cheio,
Flor que não respirei, que amei sonhando,
Tem saudades de mim, que eu te pranteio!

DESALENTO

Feliz daquele que no livro d`alma
Não tem folhas escritas,
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!

Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer,
E nem bebeu eflúvios descorado
Numa voz de mulher!

E não sentiu e mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos!

Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano,
Da noite à viração!

Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores,

E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!

Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu! ...

Que me resta, meu Deus?! aos meus suspiros
Nem geme a viração,
E dentro – no deserto do meu peito
Não dorme o coração!

SONETO

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d`alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando ...
Negros olhos as pálpebras abrindo ...
Formas nuas no leito resvalado ...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://www.seculodiario.com.br/35788/17/o-byronismo-e-a-poesia-romantica-e-alvares-de-azevedo







sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Cultura pop e filosofia

A partir da próxima quarta-feira (20) o colaborador Gustavo Bastos, que escreve semanalmente sobre poesia e literatura, passa a assinar também uma nova coluna em Século Diário. De proposta eclética, as crônicas vão abordar cultura pop, música e temas abertos com pitadas filosóficas, passando também por questões do cotidiano e assuntos livres, que pretendem misturar realidade com ficção. 

domingo, 10 de setembro de 2017

CRUZ E SOUSA – BROQUÉIS E FARÓIS – PARTE V

“uma alma insatisfeita e com sofrimento biográfico e não só abstrato”

O SIMBOLISMO NO MUNDO E NO BRASIL

Em 1893, no cenário da literatura e poesia feita no Brasil, a produção escrita do dito mármore neo-helênico do Parnasianismo teve uma fissura, pois surgia o Simbolismo quebrando a barreira fria e gélida do movimento literário parnasiano. Pois, além de o Simbolismo retornar com alguns temas caros ao Romantismo, como a alma trágica, trazia também um ar novo em que a dor comum na poesia ganhava contornos de um existencialismo mais filosófico, místico e abstrato, do que as dores cantadas de amor da veia original romântica.
Na França, o habitat de origem do movimento poético intitulado Simbolismo, este surgiu num cenário de reação ao domínio literário tanto do Realismo como do Naturalismo, e se chocando frontalmente com o Parnasianismo. Tal Simbolismo tem como ponto inaugural a obra Flores do Mal de Charles Baudelaire, em torno de 1857, encontrando naturalmente forte resistência do status literário da época, como é comum em toda transição, geralmente com fissuras e pequenos traumas para abrir um novo espaço de inspiração, que no caso do Simbolismo trazia como renovação a contribuição do inconsciente na criação literária, com fontes no misticismo e no esoterismo, num movimento que ia de encontro ao cientificismo e ao materialismo, com uma carga de poesia subjetivista e sensorial, por muitas vezes sinestésica.
No Brasil, o Simbolismo produziu poetas como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, mas foi um movimento que no Brasil se encontrou emparedado entre um prolongamento artificial do domínio literário parnasiano e um neoparnasianismo que surgiu posteriormente absorvendo rapidamente a incipiente poesia simbolista nacional. E o Simbolismo tem recebido só ultimamente o devido reconhecimento como movimento independente, pois na época em que tais fenômenos se deram, quem recebeu os louros e a pompa foi o forte status neoparnasiano, sucesso de crítica e de público, e a chance que o Simbolismo supostamente encontraria com o declínio deste domínio neoparnasiano foi barrado novamente com a ascensão modernista e sua rejeição automática do Simbolismo por estes poetas modernos.
O Simbolismo, por sua vez, só teve sorte melhor na Europa e em alguns países da América Latina.  Por fim, dentro da perspectiva já histórica do movimento simbolista brasileiro temos como grande representante desta escola literária o poeta Cruz e Sousa mais do que outros, este que surgiu como um poeta infenso à sintaxe tradicional portuguesa, e que fez, então, uso em suas obras das conquistas estilísticas da escola francesa.

CRUZ E SOUSA, INFLUÊNCIAS E QUESTÕES

Na poesia de Cruz e Sousa temos uma mistura de um satanismo herdado de Baudelaire com o ceticismo melancólico de Antero de Quental, e que então se ergueu como uma poesia de dor, de uma alma insatisfeita e com sofrimento biográfico e não só abstrato, que explodia como uma forma de imprecação e sacudidelas alucinantes, seja na condição de negro como mesmo de poeta, juntando a sua questão da vida em si com a da cor que lhe fechava muitos caminhos. Cruz e Sousa que era então um poeta negro em época hoje remota para nós contemporâneos que ainda, infelizmente, presenciamos os caminhos tortuosos que enfrenta a questão da cor, isto é, da condição do negro na sociedade brasileira. Como nos diz Sílvio Romero: "a poesia de Cruz e Sousa é a de um triste, mas um triste rebelado; é o pessimismo, última flor da civilização humana".
Em relação à aventada obsessão do poeta Cruz e Sousa com a cor branca, e que seria analisada forçosamente como um movimento psicológico do poeta de recusar sua origem africana, há muitas controvérsias, pois muitas vezes se tomou como exemplo desta tese, em certa proporção, estapafúrdia, o poema Antífona como prova desta citação obsessiva do poeta da cor branca, e que nunca representou todo o conjunto de sua obra. Mesmo que outros poemas ainda citassem a cor branca, é levantada a questão de que tal fenômeno não seja reduzido à questão da pele, mas a uma concepção mais geral do branco como cor universal do espectro físico luminoso.
Pois, para refutar a negação da cor negra em favor da cor branca na poesia de Cruz e Sousa, não faltam exemplos, e o primeiro que podemos levantar é o poema Meu Filho, que descreve a alegria do poeta com seu filho, de um lado, e o pavor do futuro da criança, de outro, num mundo terrível para os negros. O tema do negro, portanto, se citarmos mais exemplos deste tema na poesia de Cruz e Sousa, nos aparece também em poemas como Acrobata da Dor, Canção Negra, Crianças Negras, Rir, Escravocratas e vários outros.  

POEMAS :

MEU FILHO : O poema começa como um doce acalanto do poeta com seu filho, aqui temos a mistura da ternura com o medo, eis: “Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento!/Sob a guarda piedosa e muda das Esferas/Dorme, calmo, embalado pela voz do vento,“ (...) “Ao mesmo tempo suave e ao mesmo tempo estranho/O aspecto do meu filho assim meigo dormindo ...”. Os sintomas da angústia existencial e de um contexto social hostil logo aparecem, no que temos: “Minh`alma fica presa e se debate ansiosa,/Em vão soluça e clama, eternamente presa/No segredo fatal dessa flor caprichosa,/Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.” (...) “Dar-lhe eu beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos,/Carinho dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos./O que vale tudo isso para outros desejos,/O que vale tudo isso para outros mistérios?!”. A face cruel do mundo perturba a imagem da paz celeste de uma criança no berço, pois temos o poeta diante de um futuro nebuloso para si e para os seus, no que o poema segue, com viva reflexão e dor: “O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!” (...) “Quando as garras cruéis e horríveis da Desgraça,/De sadio que ele é, fazem-no fraco e enfermo?!” (...) “Por que tantas prisões, por que tantas cadeias/Quando a alma quer voar nos páramos liberta?/Ah! Céus! Quem me revela essas Origens cheias/De tanto desespero e tanta luz incerta!” (...) “Quem descobre, afinal, as causas do que eu penso,/As causas do que eu sofro, as causas do que eu gemo!” (...) “Ah! Vida! Vida! Incendiada tragédia,/Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,/Macabras contorções de lúgubre comédia/Que um cérebro de louco houvesse imaginado!”. O poema clama e lamenta, um grito lancinante ecoa em todos estes versos de fundo estético e frente de batalha de um poeta dorido: “Vendo-o no berço assim, sinto muda agonia,/Um misto de ansiedade, um misto de tortura” (...) “E sinto sede intensa e intensa febre, tanto,/Tanto Azul, tanto abismo atroz que me deslumbra.” (...) “Tu não sabes, jamais, tu nada sabes, filho,/Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada .../O teu caminho é claro, é matinal de brilho,/Não conheces a sombra e os golpes da emboscada./Nesse ambiente de amor onde dormes teu sono/Não sentes nem sequer o mais ligeiro espetro .../Mas, ah! eu vejo bem, sinistra, sobre o trono,/A Dor, a eterna Dor, agitando o seu cetro!”. A paz do sono e da inocência não sabe do próprio destino, e o pai e poeta bem o sabe, e lamenta a  vida de sonhos vãos e de humilhado como ele foi e como seu filho também seria.

CANÇÃO NEGRA : O poema começa com a fúria da boca de um mendigo, em alegorias que se metamorfoseiam em cada estrofe, temos: “Ó boca em tromba retorcida/Cuspindo injúrias para o Céu,/Aberta e pútrida ferida/Em tudo pondo igual labéu./Ó boca em chamas, boca em chamas,/Da mais sinistra e negra voz,/Que clamas, clamas, clamas, clamas/Num cataclismo estranho, atroz.” (...) “Ó boca de uivos e pedradas,/Visão histérica do Mal,/Cortando com mil facadas/Dum golpe só, transcendental./Sublime boca sem pecado,/Cuspindo embora a lama e o pus,/Tudo a deixar transfigurado,/O lodo a transformar em luz./Boca de ventos inclementes/De universais revoluções,/Alevantando as hostes quentes,/Os sanguinários batalhões.”. A boca em chamas e a boca fazendo universais revoluções, e o poeta descrevendo numa espécie de febre delirante de poeta estas cenas em que a luz do amor luta como fonte de combate e que se retorce em dores: “Boca fatal de torvos trenos!/Da onipotência do bom Deus/Louvados sejam tais venenos,/Purificantes como os teus!” (...) “Ó boca ideal de rudes trovas,/Do mais sangrento resplendor,/Vai reflorir todas as covas,/O facho a erguer da luz do Amor.” (...) “Mendigo estranho! Em toda a parte/Vai com teus gritos, com teus ais,” (...) “A terra é mãe! – mas ébria e louca/Tem germens bons e germens vis .../Bendita seja a negra boca/Que tão malditas cousas diz!”. A negra boca da canção negra, que diz coisas malditas, que é gérmen na terra mãe, e que tem todo o poder da onipotência do bom Deus, e que o poema descreve em versos como uma luta louca de fera.

TRISTEZA DO INFINITO : O poema está em vida melancólica, os versos são tristes, soturnos, frios, gélidos, o poema sofre e tenta definir o indefinível, esta dor de enigma que é a angústia sem fonte, como uma abstração que rompe a carne e a alma, no entanto: “Anda em mim, soturnamente,/Uma tristeza ociosa,/Sem objetivo, latente,/Vaga, indecisa, medrosa.” (...) “Uma tristeza que eu, mudo,/Fico nela meditando/E meditando, por tudo/E em toda a parte sonhando./Tristeza de não sei de onde,/De não sei quando nem como ...”. Tristeza indefinível, que não se sabe de quê sofre, mas sabe que sofre, e o poeta medita tal origem e tal enigma, não fecha equação, sente e não sabe nomear, o poeta então só pode fazer versos disto que não sabe, mas que está em seu coração de modo mais forte até das outras coisas que ele sabe, a dor da ignorância não deixa de ver a verdade da dor em seu sangue e em sua alma, um paradoxo que diz tudo ao coração mas que se apaga para a razão, esta angústia que o poeta luta em vão para decifrar, e eis que o poema segue: “Dessas tristezas incertas,/Esparsas, indefinidas .../Como almas vagas, desertas/No rumo eterno das vidas.” (...) “Dessas tristezas que vagam/Com volúpias tão sombrias/Que as nossas almas alagam/De estranhas melancolias.” (...) “Ah! tristeza imponderável,/Abismo, mistério aflito,/Torturante, formidável .../Ah! Tristeza do Infinito!”. De modo que a coda tenta, ainda diante da terrível dúvida, dar uma definição aberta como o infinito, eis que é a tristeza do infinito.

POEMAS :

MEU FILHO

Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento!
Sob a guarda piedosa e muda das Esferas
Dorme, calmo, embalado pela voz do vento,
Frágil e pequenino e tenro como as heras.

Ao mesmo tempo suave e ao mesmo tempo estranho
O aspecto do meu filho assim meigo dormindo ...
Vem dele tal frescura e tal sonho tamanho
Que eu nem mesmo já sei tudo que vou sentindo.

Minh`alma fica presa e se debate ansiosa,
Em vão soluça e clama, eternamente presa
No segredo fatal dessa flor caprichosa,
Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.

Minh`alma se debate e vai gemendo aflita
No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas:
Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,
Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!

Dar-lhe eu beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos,
Carinho dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos.
O que vale tudo isso para outros desejos,
O que vale tudo isso para outros mistérios?!

De sua doce mãe que em prantos o abençoa
Com o mais profundo amor, arcangelicamente,
De sua doce mãe, tão límpida, tão boa,
O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!

O longo sacrifício extremo que ela faça,
As vigílias sem nome, as orações sem termo,
Quando as garras cruéis e horríveis da Desgraça,
De sadio que ele é, fazem-no fraco e enfermo?!

Tudo isso, ah! tudo isso, ah! quanto vale tudo isso
Se outras preocupações mais fundas me laceram,
Se a graça de seu riso e a graça do seu viço
São as flores mortais que meu tormento geram?!

Por que tantas prisões, por que tantas cadeias
Quando a alma quer voar nos páramos liberta?
Ah! Céus! Quem me revela essas Origens cheias
De tanto desespero e tanta luz incerta!

Quem me revela, pois, todo o tesouro imenso
Desse imenso Aspirar tão entranhado, extremo!
Quem descobre, afinal, as causas do que eu penso,
As causas do que eu sofro, as causas do que eu gemo!

Pois então hei de ter um afeto profundo,
Um grande sentimento, um sentimento insano
E hei de vê-lo rolar, nos turbilhões do mundo,
Para a vala comum do eterno Desengano?!

Pois esse filho meu que ali no berço dorme,
Ele mesmo tão casto e tão sereno e doce
Vem para ser na Vida o vão fantasma enorme
Das Dilacerações que eu na minh`alma trouxe?!

Ah! Vida! Vida! Incendiada tragédia,
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado!

Meu filho que eu adoro e cubro de carinhos,
Que do mundo vilão ternamente defendo
Há de mais tarde errar por tremedais e espinhos
Sem que o possa acudir no suplício tremendo.

Que eu vagarei por fim nos mundos invisíveis,
Nas diluentes visões dos largos Infinitos,
Sem nunca mais ouvir os clamores horríveis,
A mágoa dos seus ais e os ecos dos seus gritos.

Vendo-o no berço assim, sinto muda agonia,
Um misto de ansiedade, um misto de tortura
Subo e pairo dos céus na estrelada harmonia
E desço e entro do Inferno a fuma hórrida, escura.

E sinto sede intensa e intensa febre, tanto,
Tanto Azul, tanto abismo atroz que me deslumbra.
Velha saudade ideal, monja de amargo Encanto,
Desce por sobre mim sua estranha penumbra.

Tu não sabes, jamais, tu nada sabes, filho,
Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada ...
O teu caminho é claro, é matinal de brilho,
Não conheces a sombra e os golpes da emboscada.

Nesse ambiente de amor onde dormes teu sono
Não sentes nem sequer o mais ligeiro espetro ...
Mas, ah! eu vejo bem, sinistra, sobre o trono,
A Dor, a eterna Dor, agitando o seu cetro!

CANÇÃO NEGRA

                          (A Nestor Victor)
Ó boca em tromba retorcida
Cuspindo injúrias para o Céu,
Aberta e pútrida ferida
Em tudo pondo igual labéu.

Ó boca em chamas, boca em chamas,
Da mais sinistra e negra voz,
Que clamas, clamas, clamas, clamas
Num cataclismo estranho, atroz.

Ó boca em chagas, boca em chagas,
Somente anátemas a rir,
De tantas pragas, tantas pragas
Em catadupas a rugir.

Ó boca de uivos e pedradas,
Visão histérica do Mal,
Cortando com mil facadas
Dum golpe só, transcendental.

Sublime boca sem pecado,
Cuspindo embora a lama e o pus,
Tudo a deixar transfigurado,
O lodo a transformar em luz.

Boca de ventos inclementes
De universais revoluções,
Alevantando as hostes quentes,
Os sanguinários batalhões.

Abençoada a canção velha
Que os lábios teus cantam assim
Na tua face que se engelha,
Da cor de lívido marfim.

Parece a furna do Castigo
Jorrando pragas na canção,
A tua boca de mendigo
Tão tosco como o teu bordão.

Boca fatal de torvos trenos!
Da onipotência do bom Deus
Louvados sejam tais venenos,
Purificantes como os teus!

Tudo precisa um ferro em brasa
Para este mundo transformar ...
Nos teus Anátemas põe asa
E vai no mundo praguejar!

Ó boca ideal de rudes trovas,
Do mais sangrento resplendor,
Vai reflorir todas as covas,
O facho a erguer da luz do Amor.

Nas vãs misérias deste mundo
Dos exorcismos cospe o fel ...
Que as tuas pragas rasguem fundo
O coração desta Babel.

Mendigo estranho! Em toda a parte
Vai com teus gritos, com teus ais,
Como o simbólico estandarte
Das tredas convulsões mortais!

Resume todos esses travos
Que a terra fazem languescer.
Das mãos e pés arranca os cravos
Das cruzes mil de cada Ser.

A terra é mãe! – mas ébria e louca
Tem germens bons e germens vis ...
Bendita seja a negra boca
Que tão malditas cousas diz!

TRISTEZA DO INFINITO

Anda em mim, soturnamente,
Uma tristeza ociosa,
Sem objetivo, latente,
Vaga, indecisa, medrosa.

Como ave torva e sem rumo,
Ondula, vagueia, oscila
E sobe em nuvens de fumo
E na minh`alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
Fico nela meditando
E meditando, por tudo
E em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei de onde,
De não sei quando nem como ...
Flor mortal, que dentro esconde
Sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
Esparsas, indefinidas ...
Como almas vagas, desertas
No rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
Diversa de outras tristezas,
Nem da vida nem da morte
Gerada nas correntezas ...

Tristezas de outros espaços,
De outros céus, de outras esferas,
De outros límpidos abraços,
De outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
Com volúpias tão sombrias
Que as nossas almas alagam
De estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
Sem origens prolongadas,
Sem saudades deste mundo,
Sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
E acabam na Realidade,
Através do mar tristonho
Desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
Abstrata, como si fosse
A grande alma do Sensível
Magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
Abismo, mistério aflito,
Torturante, formidável ...
Ah! Tristeza do Infinito!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35688/17/silvio-romero-a-poesia-de-cruz-e-sousa-e-a-de-um-triste-mas-um-triste-rebelado