PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 21 de maio de 2017

EMILY DICKINSON – POEMAS ESCOLHIDOS – PARTE II

“Seus poemas são pequenas ‘iluminações’”

AS INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS

Emily Dickinson recebeu já na sua adolescência a influência literária de nomes como William Wordsworth, Ralph Waldo Emerson, Henry Wadsworth Longfellow, John Keats e também dos hinos de Isaac Watts, e na ala feminina da literatura aparecem nomes como Lydia Maria Child e suas Cartas de Nova Iorque, e as britânicas Elizabeth Barrett Browning e Charlotte Brontë, e dentre os clássicos universais se destaca Shakespeare.  

PUBLICAÇÕES

Os primeiros poemas que Emily Dickinson publicou saíram entre os anos de 1861 e 1862 na revista Republicano, e isso devido à sua amizade com o editor Samuel Bowles. Tais que foram os versos I taste a liquor never brewed e Safe in their Alabaster Chambers, mas estes versos foram, no entanto, mutilados na edição antes de serem publicados, o que era uma prática muito comum entre os jornais e revistas da época, pois muitas vezes a má qualidade ou a ousadia dos trabalhos que apareciam para publicação levava os editores a tais modificações com diversas correções e censuras que, ao fim, deturpavam completamente o sentido original de tais obras.  

A RECLUSÃO

Entre os anos de 1858 e 1866 temos o período mais produtivo da obra de Emily Dickinson, no qual temos aí cerca de mil e cem poemas vindo à luz, com temas que passavam pela morte, a imortalidade, sua relação com a natureza e com Deus, além de temas que iam da perda até, ao fim, o amor.
Contudo, em 1867 ela teve um colapso nervoso, e passou a viver reclusa, sendo raramente vista em público, e em casa recebia apenas poucos amigos e parentes, em especial as crianças, filhas de seus primos e tios, e seu único contato com o mundo exterior eram as cartas que recebia dos amigos.

FINAL

Por fim, nas últimas duas décadas em que viveu, entre 1860 e 1880, Emily Dickinson passou a produzir uma média de quase cinquenta poemas por ano, e pode ser que um problema seu na visão fez com que sua produção prolífica se reduzisse nestes últimos anos. E sua biografia foi então marcada por uma série de colapsos nervosos que fizeram com que ela se tornasse uma pessoa extremamente frágil, tendo em 1884 o mais grave de seus colapsos, sem nunca se recuperar, vindo a morrer em 15 de maio de 1886, vítima de nefrite.

A PUBLICAÇÃO PÓSTUMA DE SUA OBRA

Da obra de Emily Dickinson, temos um total de quase mil e oitocentos poemas catalogados, todos devidamente numerados. E o fato crucial foi quando Lavínia, a irmã de Emily, impressionada com a obra colossal da irmã, decidiu não obedecer ao desejo da irmã falecida de destruir tais escritos, procurando, ao contrário, a publicação daquele espólio literário, recorrendo então Lavínia a Mabel Loomis Todd, que era uma professora de astronomia, esposa de Austin Dickinson, que nunca conheceu Emily, mas que ajudou na reunião de um extrato significativo de sua obra, mas que teve seu material original bem alterado, pois foram feitas inúmeras correções de sintaxe, alterações de rimas, versos cortados e títulos foram dados a poemas que não os tinham.
E assim surgiu um primeiro volume de parte da obra de Emily Dickinson, que foi o volume Poems, lançado em 1890 com 115 de seus trabalhos, já figurando aí parte de seus poemas mais populares como I taste a liquor never brewed, Much Madness is divinest Sense e Because I could not stop for Death. E se seguiu a este trabalho de reunião, dois outros volumes que foram os Poems, Second Series e Poems, Third Series, publicados respectivamente em 1891 e 1896.
E mais de uma década mais tarde, foi uma sobrinha de Emily, Martha Dickinson Bianchi, que deu seguimento à publicação da obra da escritora, tendo em 1914 a publicação de uma coletânea de poesia que sua mãe, Sarah Dickinson, já havia organizado anos antes, e que resultou na edição de nome The Single Hound, no qual figuravam 146 poemas inéditos de Emily Dickinson. E nas três décadas seguintes tivemos mais quatro novos volumes de poemas, como o Bolts of Melody em 1945, que foi o mais importante destes. E temos nesta altura 660 obras inéditas de Emily Dickinson sendo publicadas.
O momento mais importante para a obra de Emily Dickinson, no entanto, foi quando em 1955 o estudioso Thomas H. Johnson resgatou tal obra ao preparar pela Harvard University Press, por sua vez, a primeira obra completa das poesias de Emily Dickinson, a qual foi dividida em três volumes e organizada em ordem cronológica, com Thomas realizando um importante trabalho de revisão dos escritos originais da escritora, suprimindo as alterações e correções da irmã de Emily, sendo o projeto mais sério realizado com o espólio de Emily Dickinson até então, com tal organização e edição sendo considerada agora como a versão definitiva da obra de Emily Dickinson.

ESTUDOS CRÍTICOS

E os estudos críticos da obra de Emily Dickinson, assim como a inclusão de seu nome na História da Literatura norte-americana, datam da década de 1960, junto com a expansão do movimento feminista, que trouxe à baila o resgate de grandes escritoras da História dos Estados Unidos que foram até aquele momento negligenciadas. Com o nome de Emily Dickinson hoje em dia tendo dimensão de figurar entre os que fizeram a grande literatura mundial.
E o crítico Otto Maria Carpeaux afirma, por conseguinte, que Emily Dickinson “é considerada, hoje, como a maior poeta americana. Não inspirará nunca admiração perplexa, como Poe, nem será tão popular como Whitman. É poesia para os poucos poet’s poetry”. E ainda segundo Augusto de Campos, que é seu tradutor em língua portuguesa, a poesia de Emily Dickinson se aproxima, de certa forma, ao Hai-Kai, quando Augusto nos diz: “Emily é muito sintética, seus poemas são, em geral, muito breves, e ela é capaz de captar um momento insubstituível de observação ou de reflexão poética com um mínimo de palavras. Seus poemas são pequenas ‘iluminações’. Mas não são poemas circunstanciais. São muito elaborados e ao mesmo tempo surpreendentes”.

POEMAS:

(obs: a escritora não colocava títulos em seus poemas, no que aqui uso a convenção de apenas numerá-los)

POEMA I : O poema breve, bem ao estilo sucinto de iluminações de Emily Dickinson, nos diz: “Se o mar, uma vez rasgado,/Outro, mais além, revelar/E esse, ainda outro, e os três/Forem suposição apenas/De mares periódicos/Desapossados de praias,/À beira dos mares do vir-a-ser,/Eis aí a Eternidade.”. O poema se abre em suas camadas sutis, e sua imagem de sucessão com os mares que destes versos se abrem, terminam com o sonho da eternidade, e o poema finda em sede de infinito.

POEMA II : O poema de Emily aqui tem versos que nos levam ao inverno e tem a luz que percorre as catedrais e seus cânticos, no que temos: “Há uma certa obliquidade/Na luz das tardes hibernais,/Que oprime feito o peso/Dos cânticos, nas catedrais./Com celeste golpe nos fere/E não lhe achamos a cicatriz,”. E o poema segue, ainda com o enigma da luz: “Inalterável, essa luz/É signo de desesperança;” (...) “Quando chega, fica atenta a paisagem/E não mais respiram as sombras;/Quando parte, é como a distância/Que no olhar da morte se encontra.”. A luz se encontra com a sombra, o espírito que se ilumina também é o ser que se encontra no olhar inevitável da morte.

POEMA III : O poema é uma fantasmagoria, que nos dá esta visão: “Para as assombrações, desnecessária é a alcova,”. Mas existe o interior da própria alma, que tem instâncias mais sinistras que um simples espectro qualquer, no que o poema segue: “Mais seguro é encontrar à meia-noite/Um fantasma,/Que enfrentar, internamente,/Aquele hóspede mais pálido./Mais seguro é galopar cruzando um cemitério/Por pedras tumulares ameaçado,/Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo/Em desolado espaço./O “eu”, por trás de nós oculto,/É muito mais assustador,”. Este encontro da alma consigo mesma é sim a experiência assustadora aos olhos da poesia de Emily, e este espectro íntimo é bom tê-lo diante de uma arma, para assim o poema findar aqui com a prudência e os ferrolhos da porta, no que temos, enfim, a ameaça maior ainda por toda a parte, o interior de uma alma atormentada: “O homem prudente leva consigo uma arma/E cerra os ferrolhos da porta,/Sem perceber um outro espectro,/Mais íntimo e maior.”

POEMA IV : O poema na aurora é um sussurro de Emily e revela a sua relação com a natureza e a luz, no que temos: “Os condenados miram a aurora” (...) “Pois, quando ao longe tornar a luzir,/Duvidam que possam vê-la./O homem, que há de morrer amanhã,/Ao rouxinol do prado faz-se atento,/Pois seu trinar comove o machado/Sequioso de sua cabeça./Feliz daquele, que a enamorada/Aurora precede – o dia!/Feliz daquele para quem/O rouxinol canta, sem cantar elegias.”. A morte perde para a luz da aurora, e não temos aqui uma elegia, mas um poema que sustém a vida no canto de um rouxinol.

POEMA V : O poema canta a vitória, e tal imagem poética fortíssima irrompe nos versos, que não se contêm: “A vitória é o bem mais querido/Por aqueles que jamais vencem.”. O canto de vitória é bem desejado por quem perde a luta, no que temos: “Ninguém da purpúrea hoste,/Que hoje empunhou o estandarte,/Oferece da Vitória/Definição mais cabal/Do que o derrotado agonizante,/Em cujo ouvido interditado/O distante clangor do triunfo/Explode torturante e claro!”. O triunfo é bem sonhado pelos que sucumbem, e o poema dá a pura definição deste anelo pelos que soçobram em seus desvios agonizantes, a vitória é esta miragem de quem é derrotado.

POEMA VI : O poema define a diferença da tragédia do drama, e nos dá tais versos: “Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,/Que nasce e morre à nossa vista;/Diversamente, a Tragédia,/Ao ser recitada, se dissipa/E é melhor encenada/Quando o público se dispersa/E a bilheteria é fechada.”. A tragédia e sua força descomunal, que eleva o destino como ente seminal da vida humana, tem veia teatral, e arte afirma esta vida visceral, no que o poema conclui tal tradução da vida trágica como o ritual teatral por excelência, no que temos: “Seria perpetuamente encenado/No coração humano –/Único teatro que, sabidamente,/O proprietário não consegue fechar.”.

POEMAS:

POEMA I

Se o mar, uma vez rasgado,
Outro, mais além, revelar
E esse, ainda outro, e os três
Forem suposição apenas

De mares periódicos
Desapossados de praias,
À beira dos mares do vir-a-ser,
Eis aí a Eternidade.

POEMA II

Há uma certa obliquidade
Na luz das tardes hibernais,
Que oprime feito o peso
Dos cânticos, nas catedrais.

Com celeste golpe nos fere
E não lhe achamos a cicatriz,
Apenas uma diferença interna,
Lá, onde jazem os sentidos.

Inalterável, essa luz
É signo de desesperança;
É aflição majestosa
Dos altos ares baixando.

Quando chega, fica atenta a paisagem
E não mais respiram as sombras;
Quando parte, é como a distância
Que no olhar da morte se encontra.

POEMA III

Para as assombrações, desnecessária é a alcova,
Desnecessária, a casa –
O cérebro tem corredores que superam
Os espaços materiais.

Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.

Mais seguro é galopar cruzando um cemitério
Por pedras tumulares ameaçado,
Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo
Em desolado espaço.

O “eu”, por trás de nós oculto,
É muito mais assustador,
E um assassino escondido em nosso quarto,
Dentre os horrores, é o menor.

O homem prudente leva consigo uma arma
E cerra os ferrolhos da porta,
Sem perceber um outro espectro,
Mais íntimo e maior.

POEMA IV

Os condenados miram a aurora
Com diferenciado prazer –
Pois, quando ao longe tornar a luzir,
Duvidam que possam vê-la.

O homem, que há de morrer amanhã,
Ao rouxinol do prado faz-se atento,
Pois seu trinar comove o machado
Sequioso de sua cabeça.

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz daquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

POEMA V

A vitória é o bem mais querido
Por aqueles que jamais vencem.
Para se compreender um néctar,
Requer-se necessidade intensa.

Ninguém da purpúrea hoste,
Que hoje empunhou o estandarte,
Oferece da Vitória
Definição mais cabal

Do que o derrotado agonizante,
Em cujo ouvido interditado
O distante clangor do triunfo
Explode torturante e claro!

POEMA VI

Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,
Que nasce e morre à nossa vista;
Diversamente, a Tragédia,

Ao ser recitada, se dissipa
E é melhor encenada
Quando o público se dispersa
E a bilheteria é fechada.

“Hamlet” seria Hamlet,
Inda que Shakespeare não o criasse,
E “Romeu”, embora sem mais lembranças
De sua Julieta,

Seria perpetuamente encenado
No coração humano –
Único teatro que, sabidamente,
O proprietário não consegue fechar.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/34185/17/emily-dickinson-a-maior-poetisa-dos-estados-unidos-2



segunda-feira, 15 de maio de 2017

EMILY DICKINSON – POEMAS ESCOLHIDOS – PARTE I

“a maior poetisa dos Estados Unidos”

A ESCRITORA EMILY DICKINSON

Emily Dickinson é uma das maiores escritoras do século XIX, uma das raras mulheres a praticar literatura com propriedade ainda naquele século, o qual só tinha como tradições literárias femininas ainda somente a literatura inglesa ou francesa, e Emily era norte-americana. Aqui fica o registro que a literatura feita por mulheres terá mais vulto na entrada do século XX, e não ainda no século XIX em que viveu Emily Dickinson.
Emily Dickinson, um verdadeiro fenômeno literário póstumo, teve uma biografia monótona e sem grandes acontecimentos, vivendo reclusa em uma afastada comunidade no interior da Nova Inglaterra, o que era um contraste com a sua vasta produção em poesia, e com um brilho intenso de originalidade e profundidade.

ATIVIDADE LITERÁRIA DE EMILY DICKINSON

Emily Dickinson foi contemporânea de Walt Whitman e da Guerra Civil norte-americana, e publicou em vida apenas menos de uma dezena de poemas sem assinatura, e que ainda sofreram modificações e edições à revelia da autora. Em vida a escritora só era conhecida na sua atividade literária por um pequeno círculo de amigos íntimos, como se sua atividade literária tivesse sido algo bem secreto, mas que na posteridade revelou uma das maiores poetisas de todos os tempos, sendo considerada a maior poetisa dos Estados Unidos e uma das maiores de língua inglesa.
A poesia de Emily Dickinson é marcada por uma independência formal em relação às regras poéticas de sua época, com liberdade sintática e pontuações originais, o que provocava ojeriza em alguns dos editores que se propuseram a publicar sua obra, tendo como resultado publicações mutiladas em relação aos originais deixados pela escritora.
O conteúdo da poesia de Emily Dickinson, por sua vez, revelam um romantismo, o tema da morte como recorrente, e também problemas mais gerais e universais da humanidade, contendo também poemas sobre a natureza.

A POSTERIDADE

Uma das razões de Emily Dickinson não publicar sua poesia era um reflexo da estranheza do contexto no qual a escritora estava inserida, num ato de rejeição da sociedade de sua época. Era uma ruptura que também representou o efeito de sua reclusão, de seu isolamento, contra a mentalidade estreita da burguesia norte-americana de sua época. Emily Dickinson, por fim, encarregou a sua irmã de queimar todos os seus textos após sua morte, no que a irmã rejeitou o pedido, e a importante produção de Emily Dickinson sobreviveu tanto ao seu isolamento quanto aos seus impulsos destrutivos, e sua irmã atuou para salvar a obra toda do fogo, e nos demos bem, e a literatura sobretudo.

ASPECTOS BIOGRÁFICOS

Emily Dickinson nasceu em dezembro de 1830, no vilarejo de Amherst, em Massachusetts, na região da Nova Inglaterra, região Nordeste da costa norte-americana, e era a mais velha dos três filhos do advogado Edward Dickinson, este que trabalhou por cerca de 40 anos como tesoureiro do tradicional Amherst College, além de ter sido um destacado político local, tendo sido deputado estadual.
Amherst, localizada na região do vale do Rio Connecticut, era na época em que viveu Emily Dickinson uma vila isolada, local em que a poetisa morou por quase toda a sua vida, em reclusão. Por sua vez, o pai de Emily colocou seus três filhos para ter uma educação excepcional para os padrões norte-americanos de então, incluindo estudos que iam da literatura e filosofia clássicas, latim, como também botânica, geologia, história e aritmética, possibilitando a Emily uma sólida base intelectual, na qual ela foi capaz de criar na sua atividade literária uma obra com profundidade e extensão crítica.

POEMAS:

(obs: a escritora não colocava títulos em seus poemas, no que aqui uso a convenção de apenas numerá-los)

POEMA I : O poema é um dos de Emily sobre a natureza que a cerca, com base prosaica ela capta o extraordinário, no que temos: “Bem pouco a fazer tem o pasto:/Reino de irrestrito verde,/Só tem borboletas para criar,”. Os sentidos entram aqui no jogo: “E ondular o dia inteiro aos sons/Que a brisa consigo arrasta;”. E o clima ganha aromas, os nardos entram no ambiente aqui pacato e pacífico: “E acabar-se, ao fenecer,/Por entre aromas divinais/De especiarias dormidas/Ou de agonizantes nardos –“ (...). E volta o pasto, onde finda o poema num grande abraço preguiçoso, com o sonho escoando o tempo: “E, pelo sonho, levar a escoar-se o tempo;/Bem pouco a fazer tem o pasto,”.

POEMA II : Um dos poemas clássicos de Emily Dickinson, a messe se faz presença, o trigo e sua estação faz o poema nutrir-se, os versos surgem: “Há certo mês de junho em que se corta o trigo/E as rosas na semente –/É um verão mais breve que o primeiro,/Porém mais suave, certamente,”. O verão dos justos dá ao poema abertura, mas a geada também vem, e o poema contrasta para findar: “Há duas estações, dizem –/O verão dos justos/E este nosso, diferenciado,/De esperanças feito, e de geadas.”.

POEMA III : Este poema brevíssimo é de uma beleza estonteante, a púrpura vai ao poente de um sol que convida ao verso, âmbar e berilo dançam nestes sons, o poema é uma pintura natural, e Emily Dickinson é uma observadora privilegiada em seu refúgio pacato em que ela cria tais pérolas como este poema: “Púrpura –/A cor das rainhas é esta –/A cor de um sol, no poente;/Ainda, além dessa, o âmbar;/E o berilo – se o dia vai a meio./Mas quando à noite amplidões de aurora/Atingem de súbito os homens –/Essa cor, e o feitiço. A Natureza, porém,/Reserva ainda um lugar para os cristais de iodo.”.

POEMA IV : O poema vai do outono em poesia para uma visão prosaica de que também se faz a poesia, no que temos: “Além do outono, os poetas cantam/Uns poucos dias prosaicos,”. A rarefação das coisas do poema o tornam esguio e quieto, o rumor do regato também aqui silencia, sossega, no que temos: “Poucas manhãs incisivas –/Noites ascéticas, poucas” (...) “Aquietou-se o rumor no regato,”. E os dedos tateiam hipnóticos, com visões mitológicas, e o poema clama por uma mente forte e solar, na qual todo o tormento divino seja objeto de uma poesia que resiste firme em seu lugar de expressão: “Dedos mesméricos tocam suaves/Os olhos de muitos elfos.” (...) “Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente/Para suportar Teu desejo tormentoso!”.

POEMA V : Outro poema breve de Emily Dickinson, que vai dos diamantes e percorre seu pequeno trecho de diademas, e o cultivo para venda, em que o poema se abre em dia estival, numa obra que já teve mecenas, numa poesia que foi rainha e depois borboleta: “Quando os diamantes são mito/E os diademas, uma lenda,/Broches e brincos semeio/E cultivo para venda./E embora meu parco renome,/Minha obra – um dia estival – já teve mecenas:/Primeiro, foi uma rainha;/Depois, uma borboleta.”.

POEMA VI : O poema de Emily Dickinson aqui ganha o retrato do que é uma mente poética, tabernáculo de pássaros, uma entidade incorpórea, de lares etéreos, no que temos um poema que finda com clarins para visões de reinos insondáveis, numa intuição solar e livre de amarras: “Não me fales de árvores estivais/A folhagem da mente/É tabernáculo de pássaros/De espécie incorpórea/E ventos à tarde nesse rumo sopram/Em busca de seus lares etéreos/Onde clarins convocam o mais humilde ser/Para indescritíveis reinos.”.

POEMAS:

POEMA I

Bem pouco a fazer tem o pasto:
Reino de irrestrito verde,
Só tem borboletas para criar,
E abelhas para entreter –

E ondular o dia inteiro aos sons
Que a brisa consigo arrasta;
Cumprimentar a todas as coisas
E embalar, ao colo, a luz solar –

Fazer com rocio, à noite, colares de pérola,
Compostos com tal requinte,
Que uma fidalga não saberia
Perceber a diferença –

E acabar-se, ao fenecer,
Por entre aromas divinais
De especiarias dormidas
Ou de agonizantes nardos –

Quedar-se, por fim, em nobres celeiros
E, pelo sonho, levar a escoar-se o tempo;
Bem pouco a fazer tem o pasto,
Feno eu quisera ser –

POEMA II

Há certo mês de junho em que se corta o trigo
E as rosas na semente –
É um verão mais breve que o primeiro,
Porém mais suave, certamente,

Como se um rosto, dado por sepulto,
Na erma tarde emergisse
E em refulgências envolto
Nos afetasse e partisse.

Há duas estações, dizem –
O verão dos justos
E este nosso, diferenciado,
De esperanças feito, e de geadas.

Não podíamos o nosso ao primeiro
De tal modo justapor
Que um deles relembrássemos
Tão-só para escolher o outro?

POEMA III

Púrpura –
A cor das rainhas é esta –
A cor de um sol, no poente;
Ainda, além dessa, o âmbar;
E o berilo – se o dia vai a meio.

Mas quando à noite amplidões de aurora
Atingem de súbito os homens –
Essa cor, e o feitiço. A Natureza, porém,
Reserva ainda um lugar para os cristais de iodo.

POEMA IV

Além do outono, os poetas cantam
Uns poucos dias prosaicos,
Um tanto este lado da neve
E, da neblina, o outro lado –

Poucas manhãs incisivas –
Noites ascéticas, poucas –
Terminaram-se as dálias de Mr.Bryant –
E as medas de Mr.Thomson.

Aquietou-se o rumor no regato,
Fechadas estão as vagens-de-cheiro;
Dedos mesméricos tocam suaves
Os olhos de muitos elfos.

Talvez permaneça um esquilo,
Com quem partilhe minhas aflições –
Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente
Para suportar Teu desejo tormentoso!

POEMA V

Quando os diamantes são mito
E os diademas, uma lenda,
Broches e brincos semeio
E cultivo para venda.

E embora meu parco renome,
Minha obra – um dia estival – já teve mecenas:
Primeiro, foi uma rainha;
Depois, uma borboleta.

POEMA VI

Não me fales de árvores estivais
A folhagem da mente
É tabernáculo de pássaros
De espécie incorpórea
E ventos à tarde nesse rumo sopram
Em busca de seus lares etéreos
Onde clarins convocam o mais humilde ser
Para indescritíveis reinos.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/34070/17/emily-dickinson-a-maior-poetisa-dos-estados-unidos-1



domingo, 14 de maio de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE III

“o livro da Natureza é escrito em linguagem matemática”

O LIVRO DA NATUREZA EM GALILEU

Galileu tem como a metáfora mais famosa de sua obra a de que o livro da Natureza é escrito em linguagem matemática, e é usando tal metáfora, que é o próprio método da nova filosofia, que é aqui realizada nada mais do que a inauguração da ciência moderna. Nas palavras de Galileu, temos: “A filosofia está escrita nesse imenso livro que continuamente se acha aberto diante de nossos olhos (falo do universo), mas não se pode entender se antes não se aprende a compreender a língua, e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele vem escrito em linguagem matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível para os homens entender suas palavras; sem eles é rodar em vão por um labirinto escuro.” (Saggiatore, 6).
Tal forma de ver o livro da Natureza tem antecedentes em filósofos da Idade Média, e também envolve figuras como Nicolas de Cues, Montaigne, e também era usada por contemporâneos de Galileu como Francis Bacon e Tommaso Campanella. Já na Istoria e dimostrazioni intorno alle macchie solari (1613), ou seja, dez anos antes do Saggiatore, Galileu opunha a leitura direta (livro do mundo) à indireta (livros de Aristóteles). E a inovação de Galileu foi a de que ele tinha atenção à metáfora livro-mundo como um alfabeto especial, ou seja, Galileu tinha sua observação voltada à natureza no sentido de determinar os caracteres nos quais esta está escrita. 
Para Galileu, portanto, a matemática e sobretudo a geometria são este alfabeto que decifram os elementos naturais e do universo, e Galileu então não fala ainda das elipses de Kepler, mas sim, fazendo a sua análise combinatória, parte das formas mais simples. E aqui temos o combate de Galileu contra o cânone do modelo ptolomaico, mas ainda numa ideia clássica de proporção e perfeição, numa relação do alfabeto novo da ciência moderna ao estudar o livro da natureza com uma ideia de nobreza das formas, como melhores que as formas naturais empíricas, acidentadas etc.
Segundo Calvino: “É sobretudo a propósito das irregularidades da Lua que a questão é discutida: Enquanto partidário da geometria, Galileu deveria apoiar a causa da superioridade das formas geométricas, mas enquanto observador da natureza ele recusa a ideia de uma perfeição abstrata e opõe a imagem da Lua “montanhosa, áspera e desigual”, à pureza dos céus da cosmologia aristotélico-ptolomaica.”
A verdadeira oposição se situa, entretanto, entre imobilidade e mobilidade, e é contra uma imagem de imobilidade da natureza que Galileu luta para derrubá-la. E é no alfabeto geométrico ou no modelo matemático da natureza que Galileu demonstrará, decompondo seus elementos até aos mínimos possíveis, a prova e a representação de todas as formas do movimento e da mudança, derrubando o modelo dividido da física aristotélica, de uma oposição entre céus imutáveis e elementos terrestres, dos mundos supralunar e sublunar.
Seguindo tal ruptura, temos o texto de Calvino, que cita o diálogo de Galileu, por fim: “A dimensão filosófica desta operação está bem ilustrada por esta fala do Dialogo entre o ptolomaico Simplicio e Salvati, porta-voz do autor, em que retorna o tema da “nobreza”: “Simp.: Este modo de filosofar tende à subversão de toda a filosofia natural e a desordenar e arruinar o céu, a Terra e todo o universo. Mas acredito que os fundamentos dos peripatéticos sejam tais que não há perigo de que com a ruína eles possam construir novas ciências. Salv.: Não se preocupe com o céu nem com a Terra, nem tema sua subversão, como tampouco da filosofia; porque, quanto ao céu, é vão que temam aquilo que vocês mesmos consideram inalterável e impassível; quanto à Terra, tratamos de nobilitá-la e aperfeiçoá-la, enquanto procuramos fazê-la semelhante aos corpos celestes e de certo modo colocá-la quase no céu, de onde os seus filósofos a expulsaram.”

CYRANO NA LUA

Na época em que Galileu entrava em conflito contra o Santo Ofício, havia um de seus partidários parisienses que se levantava para propor um novo e sugestivo modelo de sistema heliocêntrico: o universo é feito como uma cebola, e seu centro contém um pequeno Sol “deste pequeno mundo, que aquece e nutre o sal vegetativo de toda a massa”.
E aqui podemos passar aos infinitos mundos de Giordano Bruno; e se vê que todos esses corpos celestes “que se veem ou não se veem, suspensos no azul do universo, não passam da espuma dos sóis que se depuram. Como poderiam subsistir esses grandes fogos, se não fossem alimentados por alguma matéria que os nutre?”. E aqui temos a descrição na qual podemos já fazer um paralelo com a explicação atual da condensação dos planetas da nebulosa primordial e das massas estelares que se contraem e se expandem.
E tal imaginoso cosmógrafo é Savinien de Cyrano (1619-55), mais conhecido como Cyrano de Bergerac, como um verdadeiro precursor da ficção científica, numa cosmografia em que a personagem mistura os conhecimentos científicos surgidos na época com elementos das tradições mágicas renascentistas, e que nele revelam uma imaginação poética de um sentimento cósmico que vai evocar em suas elucubrações o atomismo lucreciano, numa ideia de unidade de todas as coisas, e que aqui reúne os quatro elementos de Empédocles como uma única realidade de átomos que estão ou rarefeitos numa hora ou densos num outro momento, numa espécie de ciência epicuriana. 
A inventividade de Cyrano é exemplificada nos sistemas para ir à Lua, e Calvino nos diz: “o patriarca Enoch amarra sob as axilas dois vasos cheios de fumaça de um sacrifício que deve subir ao céu; o profeta Elias realizou a mesma viagem instalando-se numa pequena embarcação de ferro e lançando para o ar uma bola imantada; quanto a ele, Cyrano, tendo untado com unguento à base de miolo de boi as amassaduras resultantes das tentativas precedentes, sentiu-se erguido na direção do satélite, porque a Lua costuma sugar o miolo dos animais.”
E neste contexto de Cyrano a Lua abrigava o Paraíso, com a personagem principal Cyrano caindo exatamente sobre a Árvore da Vida, e a serpente aqui, depois do pecado original, sendo agora o intestino humano, e que é a explicação dada pelo profeta Elias a Cyrano, e que também nos narra o fato da serpente ser também “aquela que sai do ventre do homem e se lança para a mulher a fim de espirrar seu veneno nela, provocando um inchaço que dura nove meses.” Mas Elias fica bravo com as brincadeiras de Cyrano e o expulsa do Éden, o que aqui é mais um reflexo desta obra ambígua por seu caráter jocoso em que verdade e mentira se tornam relativas ou impossíveis de serem distinguidas.
Cyrano, depois de ser expulso do Éden, vai visitar as cidades da Lua, tendo como guia o “demônio de Sócrates”, e que, segundo Calvino, demônio do qual “Plutarco falou num pequeno livro seu.” E ainda seguindo Calvino, temos que: “Qualidade intelectual e qualidade poética convergem em Cyrano e fazem dele um escritor extraordinário, no Seiscentos francês e em termos absolutos. Intelectualmente é um “libertino”, um polemista envolvido na confusão que está mandando para os ares a velha concepção do mundo: é partidário do sensualismo de Gassendi e da astronomia de Copérnico, mas é nutrido sobretudo pela “filosofia natural” do Quinhentos italiano: Cardano, Bruno, Campanella.”
Aqui Cyrano se revela como um escritor barroco, sinuoso, virtuose, lugar no qual não é mais o da correção das ideias que são colocadas à frente, mas sim de um divertimento e liberdades em que a troça revela a riqueza das ideias diversas sem uma unidade conceitual ou de realidade, tudo num jogo em que a personagem conhece bem seus elementos e por isso mesmo pode brincar com tudo, tendo propriedade intelectual sobre seus objetos.
E ainda segundo Calvino: “Poderíamos dizer que a viagem à Lua de Cyrano antecipa em algumas situações as viagens de Gulliver: na Lua como em Brobdignag o visitante se encontra no meio de seres humanos muito maiores que ele e que o exibem como um animalzinho. Assim como a sequência de desventuras e de encontros com personagens de sabedoria paradoxal antecipa as peripécias do Candide voltairiano.”
Contudo, o sucesso literário de Cyrano ocorreu mais tardiamente, com o livro sendo póstumo, e também mutilado pela censura, vindo a lume em seu conteúdo original já no século XX. No entanto, temos uma redescoberta de Cyrano na era romântica, como nos diz Calvino: “Charles Nodier primeiro e depois sobretudo Théophile Gautier haviam, baseando-se numa tradição anedótica dispersa, desenhado a personagem do poeta-espadachim e zombeteiro que depois o habilíssimo Rostand transformou no herói do bem-sucedido drama em versos.”  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/34072/17/italo-calvino-por-que-ler-os-classicosij




quarta-feira, 10 de maio de 2017

POEMA SANGUE

Flor branca em sua lua cristalina
sorve os pendores do cálice
aos brumosos atavios
que me sobram no arrulho.

Cora a face o esgar
dos teares,

e vem com lucilante
primor o poema
em estela mais
polar que a galáxia
que eu sonhei
nos templos de carnac.

Vem, botânica bruxa
com seu riso espantalho
que cobre os versos
com sangue e cal.

Vem negror e face acre
que sucumbe como um patife
em seu teatro sociopata
que inaugura no paço
dos idólatras como uma
nova praça de suplício
na idade moderna.

Verte teu sangue, doce carrasco
que vira o mundo furibundo
com sua foice seminal.

10/05/2017 Gustavo Bastos

LÍNGUA FERINA

Masco um tabaco na minha boca
úmida de chuva,
os vates me acariciam
a face ambígua,
os olhos de poeta
logo lacrimejam
na fumaça irritada
dos carrões,
os pólos frios
me apetecem
ao sossego.

Firmes estes poemas de estrela
na cor âmbar do sândalo fluido,
negra a mirra e seu estupor,
cândida a luzidia poetisa
nos encantos mais longínquos
das fadas brotadas
da seiva selvagem.

Ó mortos, rogai às planícies
e delirai nas esplanadas!
Fere este teu valente
com elmos perfurados
pelos alfanjes mais
que o coração insano
deste poema
que me cai
da língua.

10/05/2017 Gustavo Bastos

ESTÓRIA PUERIL

José estava feliz com seu novo emprego,
tem agora a carteira assinada,
terá um patrão paranoide
rasgando seus sonhos
desde agora também.

José, que antes
se debulhava em lágrimas
com seu frio clamor por
trabalho e comida,
por sua filha que ainda
balbuciava sílabas soltas,
por sua mulher tão miserável
e perdida quanto ele.
O pobre e indizível
José!

Agora ele fazia planos,
e logo teria sua vitalidade
roubada pela enorme engrenagem
que é o sistema glutão,
uma cadeia alimentar
em que o capital é dos
predadores financistas
que lhe batem na face,
oh pobre José,
este zé das lutas ínfimas
por um naco de pão,
por um pouco do mel
de que se lambuzam
os palácios.

10/05/2017 Gustavo Bastos

DIVISÃO DO MUNDO

No telhado das casas estão os gatos
da noite burilada no caos.
Senhores das sutilezas
marcam seus próprios passos,
vestem seus trajes de gala
com sorrisos bem demarcados,
com frases de efeito
como filósofos de para-choque.

Do outro lado os pobres
mastigam os fungos
das roupas rotas,
o espanto que lhe sulca
as faces são a fome mais
alimentada do desamparo.

Esfarrapados eles cantam,
e o fraque dos ídolos
ali passam impassíveis,
os mundos enormes
dos abismos,
a glória fatal e o ostracismo
mais mortal.

Entre todos estes seres
a morte ronda com sua foice
gratuita entre os fartos
de tudo e os famintos
do nada.

10/05/2017 Gustavo Bastos