PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 9 de julho de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE VI

“Conrad logo entra para a marinha mercante inglesa”

HENRY JAMES, “DAISY MILLER”

Daisy Miller saiu em revista em 1878 e, como livro, em 1879. E esta narrativa é uma das poucas ou a única de Henry James que conquistou logo um sucesso popular, uma vez que a obra deste escritor tem uma característica de ser evasiva, em que muito do que se diz guarda também uma parcela do não-dito, e que em Daisy Miller isso se quebra um pouco, pois este texto tem uma clareza em que se apresenta a personagem título como uma moça cheia de vida, representando os ideais da jovem América, e com uma estória que se passa na Europa, tal que é o velho continente como o lugar em que se confronta esta América nas personagens que nos aparecem como turistas na Suíça e em Roma.
Tais personagens americanos estão imersos numa Europa que pende entre sugestões de cultura e uma certa nobreza e ao mesmo tempo com uma sujeira imoral de um mundo promíscuo, e aqui tudo nos aparece com tais personagens que também estão numa distância das razões práticas que orientam o comportamento, e o resultado moral é nada mais que tais personagens se fundam num mundo de conveniências, num cuidado puritano fruto da insegurança da situação em que se encontram.
E como nos diz Calvino, já sobre a trama: “O rigorismo – americano ou europeu – é representado pela tia de Winterbourne que não por acaso decidiu morar na Genebra calvinista e por mrs. Walker, que é um pouco a contrapartida da tia, imersa na mais indolente atmosfera romana. Os emancipados são a família Miller, expeditamente à deriva numa peregrinação europeia imposta a eles como dever cultural inerente ao seu status: uma América provinciana, talvez de novos milionários de origem plebeia,” e temos, por fim, Daisy, como vai pontuar Calvino, “a única que consegue realizar-se como personalidade moral autônoma.”  
Por fim, o mundo do mal que é apontado em James aparece em Daisy como uma disputa de sua alma, primeiro pelo mordomo Eugenio, depois pelo romano Giovanelli, que aparece como um caçador de dotes, e temos enfim o fantasma da malária que estava arrebatando meio mundo, e em Roma era o miasma que cerca a estória de Henry James. E Calvino, ao fim, faz a sua análise sintética da trama de James, quando nos diz: “O pior veneno das intrigas com que os americanos da Europa castigam a família Miller é uma alusão contínua e obscura ao mordomo que viaja com eles e que – na ausência de mr. Miller – exerce uma autoridade não bem definida sobre mãe e filha.”
E segue Calvino : “Os leitores de A outra volta do parafuso sabem quanto o mundo dos empregados domésticos pode encarnar para James a presença informe do “mal”.” Temos que, ao fim da estória, a malária é a estranha entidade mediterrânea que vai ceifar a vida de Daisy Miller, num sacrifício de uma personagem que não havia se submetido nem ao puritanismo de seus compatriotas, e nem tampouco ao paganismo nativo. Há então o holocausto no Coliseu, e os miasmas são tão etéreos quanto o espírito narrativo que se esfumaça na escrita de Henry James que, como dito, guarda muito do não-dito como algo que está ainda assim quase à superfície, e isto numa narrativa em que temos mais clareza do que a narrativa habitual do autor.

OS CAPITÃES DE CONRAD

Joseph Conrad morreu em 3 de agosto de 1924 com 66 anos, vinte dos quais passou navegando e outros trinta escrevendo, e teve sucesso literário ainda em vida, mas a crítica europeia lhe deu um grau maior justamente após a sua morte, quando, por exemplo, saiu em dezembro de 1924 um número da Nouvelle Revue Française dedicado inteiramente a ele, com textos de Gide e Valéry.
E temos então a imagem de um homem que reunia um aspecto duplo e ao mesmo tempo de duas profissões que vão se revelar complementares, indissociáveis no quesito que lhe faz ter sentido, pois Joseph Conrad é um contraste no qual se tinha a experiência de vida prática e movimentada da marinha mercante, de um lado, e o talento inconteste de romancista popular, aqui juntando a herança de Flaubert, com a sofisticação da forma, e também ecos da dinastia decadentista da literatura mundial.
O caráter do escritor Joseph Conrad será o de um autor de aventuras, e que nos diz numa literatura renovada a trama que envolve lugares extraordinários, e que coloca Calvino, por exemplo, em relação à arrumação de sua biblioteca particular, num dilema que diz muito da situação da crítica literária diante do autor, e temos Calvino se digladiando na sua estante, quando nos diz: “Na minha estante ideal, Conrad tem lugar garantido junto com o aéreo Stevenson, que é quase o seu oposto, como vida e estilo. Contudo, mais de uma vez estive tentado a deslocá-lo para outra prateleira – com acesso mais difícil para mim -, a dos romancistas analíticos, psicológicos, dos James, dos Proust, dos recuperadores incansáveis de cada migalha de sensações vividas; ou até na dos estetas mais ou menos malditos, à maneira de Poe, tomados de amores transpostos; quando também as suas obscuras inquietudes de um universo absurdo não o remetam para a divisória – ainda não bem-ordenada e selecionada – dos “escritores da crise”.”
E Calvino, enfim, se decide: “Porém, conservei-o sempre lá, ao alcance da mão, com Stendhal que com ele se parece tão pouco, com Nievo que não tem nada a ver com ele. Porque, mesmo sem acreditar em muitas coisas dele, sempre acreditei que fosse um grande capitão e que inserisse em seus contos aquela coisa que é tão difícil de escrever: o sentido de uma integração com o mundo conquistada na vida prática, o senso do homem que se realiza nas coisas que faz, na moral implícita no trabalho, no ideal de saber estar à altura da situação, tanto na coberta dos veleiros quanto numa página.”
Temos no trabalho detalhado o espírito da narrativa de Conrad, pois O espelho do mar, por exemplo, é uma coletânea de prosas sobre temas de marinhagem, no qual se reúne a técnica dos desembarques e das partidas, as âncoras, os velames, o peso da carga, e mais coisas da navegação, num apuro técnico em que a narrativa ganha em correção e objetividade e evita o esteticismo ou a afetação retórica, que só aparece ao fim quando Conrad exalta a tão famosa superioridade naval inglesa, mas que ainda assim mantém o fundo no qual se faz a narrativa conradiana, que é o reflexo fiel de um mundo objetivo, prático, mundo que Conrad conheceu e trabalhou, que é o do mar e dos navios.  
Por sua vez, Conrad era inglês por escolha, e na história literária é um hóspede ilustre da literatura inglesa, pois nasceu polonês, mas Conrad logo entra para a marinha mercante inglesa, para depois despontar na literatura inglesa como escritor aventureiro, e na sociedade inglesa ele não se inseriu por crença religiosa e nem assimilou suas tradições familiares, mas sim fez sua entrada pelo mundo do trabalho feito no mar, como um capitão-gentleman.
Com Lord Jim, que de capitão passa a comerciante, temos a galeria das personagens conradianas em que figuram traficantes europeus imersos nos trópicos que vão povoar os romances de Conrad, mundo real no qual o autor travou conhecimento prático quando, por exemplo, fez a sua experiência naval no arquipélago malaio, e na narrativa que ele ergue temos esta tensão na qual temos, de um lado, a etiqueta aristocrática do oficial de marinha, e de outro, a degradação dos aventureiros falidos.
Conrad, por sua vez, tem revelada esta tensão, pois o escritor viveu num período de transição do capitalismo e do colonialismo britânico: a passagem da navegação a vela para a era do vapor. Portanto, seu mundo real e literário era o da civilização, como nos diz Calvino, “dos veleiros dos pequenos armadores, um mundo de clareza racional, de disciplina no trabalho, de coragem e dever contrapostos ao mesquinho espírito de lucro”. Então, para Conrad, o novo mundo dos navios a vapor das grandes companhias levava suas personagens aos dilemas entre se trair ou lutar contra o avanço do capital, sonhando quixotescamente ou sendo empurrado para um lugar despersonalizado de burocratas coloniais, tais como as sobras humanas da Europa, retratadas pela narrativa conradiana, que passaram a se reunir nas colônias, figuras decadentes às quais Conrad contrapõe os aventureiros românticos como Tom Lingard.
Temos na narrativa conradiana a confiança na força humana, e sem qualquer veia de rigor filosófico, pois o ambiente de cosmovisão era este em que se confrontavam a queda de um mundo de otimismo racional burguês diante de uma espécie de limbo no qual tínhamos terreno fértil para a eclosão do irracionalismo e do misticismo. E como nos diz Calvino, por fim: “Conrad via o universo como algo obscuro e inimigo, mas a ele contrapunha as forças do homem, sua ordem moral e coragem. Perante uma avalanche negra e caótica que lhe vinha em cima, uma concepção do mundo repleta de mistérios e desesperos, o humanismo ateu de Conrad resiste e finca os pés.”

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/34846/17/italo-calvino-por-que-ler-os-classicos-3



WILLIAM BLAKE, AMÉRICA E MILTON

“A poesia de William Blake tem este caráter duplo histórico e mítico”

A poesia de William Blake, sobretudo a que se inicia na década de 1790, nos apresenta sua ideia de revolução, e que consiste primeiramente numa descrição histórica e social que vai retratar uma insurreição política, tal como vemos no poema Revolução Francesa. E a partir do poema Uma canção de liberdade tal tendência se altera por se orientar agora por uma alegoria mítica, e então, quando Blake compõe poemas como América e Europa, o poeta já está numa configuração ambivalente de construção e elaboração de seu conteúdo poético que transita, portanto, entre uma noção positiva e negativa desta tendência revolucionária.  
De modo diverso de seu despótico personagem Urizen, William Blake se via diante de pensadores radicais, estes que viviam a reação à revolução francesa, e que mesmo Blake sendo bem conhecido (ou vulgarmente conhecido) como aquele poeta-pintor místico, retratado por alguns biógrafos como o poeta das visões de anjos, demônios e profetas do velho testamento, Blake era um poeta plenamente consciente dos confrontos pelos quais passava a sociedade europeia e inglesa, e das vicissitudes decorrentes da revolução industrial em curso.  
Um equívoco comum, portanto, decorrente desta visão de Willliam Blake como uma espécie de místico como foi um de seus mestres, Swedenborg, o objetivo do poeta-pintor não era uma renúncia do mundo, como sugeriram alguns de seus críticos mais desavisados, abordando temas clichês da poesia de Blake como a sua loucura, seu pendor visionário, ou seu misticismo, mas sim Blake tinha um verdadeiro programa de reforma do mundo, num plano tanto social como poético. E tal plano só foi modificado para um sentido mais mental do que social após a frustração do poeta com os caminhos da revolução pelas mãos de Danton e de Robespierre, fase nova em que aparecem poemas épicos como Milton e Jerusalém.  
Portanto, neste abandono da referência histórica direta, Blake ganha força poética, e se dedica a criar um grande sistema mítico de complexidade simbólica e artisticamente potente, e entre 1794 e 1795, por exemplo, Blake comporia dois ciclos de livros na forma de dramas ou pequenos épicos, estes que seriam veículos nos quais o poeta-pintor elabora suas figuras divinas que recriam antigos mitos cosmogônicos, assim como estados dicotômicos da mentalidade humana.  
William Blake passa, então, a erigir um sistema, com suas personagens míticas, num processo de revelação de estruturas de ascensão e queda dos meios de dominação política ou religiosa, num esforço de mapear a revolução numa complexa rede de mitologia com caráter simbólico e alegórico, colocando no mesmo esquema divindades obscuras e personagens históricos, estes últimos que, por sua vez, traçavam linhas constantes de ação, e que eram uma repetição histórica como espécies de arquétipos sociais específicos.  
A poesia de William Blake tem este caráter duplo histórico e mítico, e que exige de seu intérprete uma visão primeiro alegórica, e depois contextualizada historicamente, e no extremo deste exercício de exegese teríamos então o sentido simbólico da poesia de Blake, sobretudo quando se trata de suas obras posteriores como Vala ou Jerusalém, onde podemos ver temas como o binômio queda/ascensão ou a relação entre o homem e o cosmos que vai nortear o último Blake destes trabalhos finais.

POEMAS:

AMÉRICA (fragmentos) : O poema se abre no contexto das figuras históricas, e a imagem do fogo irrompe, sob a forma de flamas, no que temos: “Washington, Franklin, Paine & Warren, Allen,/Gates & Lee,/Envoltos pelas ardentes flamas vislumbraram as/terríveis hordas que dos céus surgiam./Escutaram o brado retroante do Anjo de Albion,/E a peste sob as suas ordens emergiu das nuvens,/Precipitando-se sobre a América como uma/tenebrosa tormenta.”. Albion e a América, e a tormenta que tudo envolve, eis: “Sombrio estava o céu & inóspita a terra;” (...) “A Fúria! A Ira! A Loucura, como um furacão/assolaram a América./E as rubras flamas de Orc rugiram feéricas entre/as praias, e a multidão tumultuada./Os cidadãos de Nova York fecharam seus livros/& trancaram seus cofres;/Os marinheiros de Boston ancoraram seus/barcos e os descarregaram./O escrivão da Pensilvânia arrojou sua pena ao/chão/E o pedreiro da Virgínia, apavorado, atirou ao/longe seu martelo.”. O povo das cidades se retrai diante do feérico Orc, com suas rubras flamas, e a América está sucumbida, e a imagem poética agora é clara: “A América já sem esperanças foi bruscamente/tragada pelo Atlântico,” (...) “Contra os Anjos de Albion: Logo a Pestilência/alastrou suas rubras estrias,/Nos membros dos Guardiões de Albion. A/praga atingiu o Espírito de Bristol/E a lepra o Espírito de Londres deixando caídas/suas legiões.” (...) “O Guardião de Albion contorcia-se nos céus”. Albion também sofre, e o poema não pede clemência, apenas descreve a sua visão infernal, no que temos, como um documento alegórico de um mundo real: “Jaziam sobre a neve o Guardião de Londres e o/venerável Mitrado de York,” (...) “A peste alastrava-se velozmente pelas ígneas/correntezas conduzidas pelas flamas de Orc/E pelas hordas de ferozes americanos que/corriam impetuosamente pela noite,/Até os Guardiões da Irlanda, Escócia & Gales.”. O Bardo diante do inferno total de Orc, se esconde na gruta, quando se vê: “Nos recônditos meandros de suas grutas, tomado/pela peste, escondia-se o Bardo de Albion.” (...) “Pelas cidades, vales e montes, ardiam as rubras/flamas:/Derretiam-se os céus de norte a sul; e Urizen,/sentado/Entre trovões, pairando sobre os céus, erguia/sua cabeça coberta/Pelas chagas da lepra,/De sua sagrada ermida. E suas lágrimas/precipitavam-se torrenciais,/Sobre os vórtices do sublime abismo,” (...) “Contra as hordas derrotadas, plenas de/lágrimas & trêmulas de frio.”. E Urizen, reinando soberano, sobre as hordas derrotadas.

MILTON : O poema é um esquema complexo de lógica mitológica, ao livre sabor poético de William Blake, que neste poema cria um sistema do mundo, com todos os seus vórtices, é uma espécie engenhosa de cosmologia embebida na mitologia que, por sua vez, vira poesia nas visões puras do poeta-pintor, no que temos: “Esta é a Natureza do infinito:/Todas as coisas possuem seus próprios Vórtices,/e quando um navegante da Eternidade/Passa este Vórtice, percebe que ele turbilhonante/gira para trás/E torna-se uma esfera que se engloba a si mesma/como o sol, a lua, ou como um firmamento de/constelada magnitude”. Temos quase uma gênese das esferas, mito de criação, cosmogonia, pois, e o poema com grandes proporções, uma enormidade megalomaníaca nas ideias que contém, no que segue: “A terra é uma planura infindável, e não como/aparece/Ao ignóbil transeunte confinado às sombras da/lua./O céu é um Vórtice já há muito transpassado;/A terra, um Vórtice ainda intocado pelos/navegantes da Eternidade.”. E o Homem, com suas dimensões, também nos aparece neste poema que sonha abarcar a totalidade do mundo: “E os quatro estados da tranquila Humanidade/em seu Repouso/Foram-lhe então mostrados. Primeiro o de/Beulah, o gostoso Sono” (...) “O Segundo Estado é Alla & o terceiro Al-Ulro./Mas o quarto, o fantástico, é denominado Or-/Ulro./O Primeiro localiza-se na Cabeça, o Segundo/no Coração/O Terceiro nos vasos seminais e o Quarto,/No Estômago e Intestinos, terrível, letal e/indescritível./E aquele, cujos Portais se abrem nessas regiões/do Corpo,/Pode nestes Portais vislumbrar estas/deslumbrantes Imaginações.”. O corpo, num mapeamento místico, meio parecido com um mapa de chacras, tem aqui a imagem do Homem, que em seu próprio corpo tem chaves cósmicas e portais para este infinito que abre o poema como chave mestra, no que o poema segue: “Outros Filhos de Los engendram Momentos &/Minutos & Horas/E Dias & Meses & Anos & Eras,” (...) “E cada Momento possui um Leito de ouro/destinado ao suave repouso,” (...) “Cada minuto detém uma tenda de sedosos Véus/azuis:/E em cada Hora estende-se um Portal de ouro” (...) “Cada Dia & Noite possui brônzeas Muralhas &/Umbrais de diamante” (...) “Em cada Mês ergue-se um alto Terraço de pisos/de prata.” (...) “Em cada Ano, imponentes Muralhas de gigantescas/Torres/Cada Era rodeia um profundo Poço com pontes/de prata & ouro;/E cada período de Sete Eras é circundado por/Iridescentes Flamas./Sete Eras equivalem a Duzentos anos./Tudo tem seu Guardião, cada Momento, Minuto,/Hora, Dia, Mês & Ano;/São criações das Mágicas mãos dos quatro/elementos;/Os Guardiões são Anjos da Providência em/perpétuo dever./Toda fração de Tempo menor que um pulsar de/artéria/Equivale a Seis Mil Anos./Pois neste Ciclo é criada a obra do Poeta, e nele/os Grandes/Eventos do Tempo se iniciam e são concebidos/No fulcro de um instante, Pulsação arterial./O céu é uma Tenda Eterna erguida pelos Filhos/de Los;”. Por fim, William Blake retrata as divindades do tempo, e os ciclos e eras entram no jogo, mais simbólico que isso, impossível, pois o reino das alegorias adora a imagem das eras, no que o tempo se torna largo e bem estruturado, suas divisões são dadas pelas divindades, o reino da terra aqui é dos deuses, e o infinito é o portal da percepção aberto, este desiderato da poesia de William Blake.

POEMAS:

AMÉRICA

(1793)

Fragmentos

O Poema “América”, que retrata a Guerra de Independência americana, cuja descrição apocalíptica poderá hoje parecer-nos a antevisão profética de uma explosão nuclear, pertence ao ciclo de poemas revolucionários escritos por Blake. Deste ciclo fazem parte outros poemas como “Europa” e “A Revolução Francesa”.
O Espírito visionário e rebelde de Blake o identificará sempre às forças libertárias, esta energia poderosa & solene que, como um turbilhão de fogo, assolará eternamente a opressão. Esta força transmutadora é no poema “América” representada por Orc, o Guardião do Eterno Fluxo, cujos fogos alastrar-se-ão através da América e Inglaterra.

AMÉRICA

(fragmentos)

Washington, Franklin, Paine & Warren, Allen,
Gates & Lee,
Envoltos pelas ardentes flamas vislumbraram as
terríveis hordas que dos céus surgiam.
Escutaram o brado retroante do Anjo de Albion,
E a peste sob as suas ordens emergiu das nuvens,
Precipitando-se sobre a América como uma
tenebrosa tormenta.
Como a peste que ceifa os milharais recém-
surgidos.
Sombrio estava o céu & inóspita a terra;
Assim como os gafanhotos que devastam os
campos,
Assim como as vagas do maremoto que varrem
as costas.
A Fúria! A Ira! A Loucura, como um furacão
assolaram a América.
E as rubras flamas de Orc rugiram feéricas entre
as praias, e a multidão tumultuada.
Os cidadãos de Nova York fecharam seus livros
& trancaram seus cofres;
Os marinheiros de Boston ancoraram seus
barcos e os descarregaram.
O escrivão da Pensilvânia arrojou sua pena ao
chão
E o pedreiro da Virgínia, apavorado, atirou ao
longe seu martelo.
*
A América já sem esperanças foi bruscamente
tragada pelo Atlântico,
E a terra perdeu mais uma porção de Infinito;
Coléricas, as hordas precipitaram-se em meio à
noite.
Enfureciam as purpúreas flamas! A peste
retrocedia para irada investir-se
Contra os Anjos de Albion: Logo a Pestilência
alastrou suas rubras estrias,
Nos membros dos Guardiões de Albion. A
praga atingiu o Espírito de Bristol
E a lepra o Espírito de Londres deixando caídas
suas legiões.
As multidões em delírio gritavam desesperadamente,
despojando-se de suas armaduras forjadas,
Desnudas, ao chão arremessavam suas espadas
& lanças.
O Guardião de Albion contorcia-se nos céus do
este,
Pálido, volvendo para cima seus luminosos
olhos, rangendo os dentes,
Trêmulo & uivante agitava as pernas fremendo
cada músculo e tendão.
Jaziam sobre a neve o Guardião de Londres e o
venerável Mitrado de York,
Suas frontes sobre os montes nevados e suas
insígnias desfaleciam aos ventos.
A peste alastrava-se velozmente pelas ígneas
correntezas conduzidas pelas flamas de Orc
E pelas hordas de ferozes americanos que
corriam impetuosamente pela noite,
Até os Guardiões da Irlanda, Escócia & Gales.
Atormentados pela Peste, abandonaram suas
fronteiras e estandartes calcinados
Pelos fogos infernais, detratavam os céus ancestrais
com vergonha & dor.
Nos recônditos meandros de suas grutas, tomado
pela peste, escondia-se o Bardo de Albion.
Um capuz carnoso cobriu-lhe o rosto & terríveis
escamas alastraram-se por suas costas;
Encobertos pelas negras escamas, seus Anjos
assolaram os céus ancestrais.
Abriram-se então os portais do casamento, e os
sacerdotes protegidos com suas crepitantes escamas,
Correm às tocas, escaparam rapidamente das
chamas de Orc,
Que em redemoinho giravam ao redor das
abóbadas douradas qual turbilhantes anéis de fogo de
desejo,
Desnudando as fêmeas, e abrasando-se com os
ardores juvenis.
*
Pois os espíritos femininos dos mortos,
languidescendo nos laços da religião,
Reanimaram-se & libertaram-se dos pesados
grilhões & suspensas em imensos arcos,
Sentiam ressurgir os ardores juvenis e os
ardores dos tempos antigos,
Nos seus lívidos membros qual videiras ao
surgir das tenras uvas.
*
Pelas cidades, vales e montes, ardiam as rubras
flamas:
Derretiam-se os céus de norte a sul; e Urizen,
sentado
Entre trovões, pairando sobre os céus, erguia
sua cabeça coberta
Pelas chagas da lepra,
De sua sagrada ermida. E suas lágrimas
precipitavam-se torrenciais,
Sobre os vórtices do sublime abismo, cobertas
por neves cinzentas
E faces trovejantes; Suas asas debatiam-se sobre
o abismo;
Uivante em prantos, arrojou-se uivante e
sombrio,
Contra as hordas derrotadas, plenas de
lágrimas & trêmulas de frio.

MILTON

(1804-1808)

Fragmentos

Se as portas da percepção se purificassem, cada coisa
apareceria ao homem tal como é, infinita.”

                                                                 William Blake
Em “Milton”, o Espírito deste grande poeta regressa à terra para cumprir sua verdadeira missão poética, e então aproxima-se de Blake, a fim de inspirá-lo.
Neste poema, o Cosmos configura-se como um Éden central, ao redor do qual encontra-se Beulah, plano onde as almas repousam. Em seguida precipita-se o Abismo, e mais além Ulro, o tenebroso Caos.

MILTON

Esta é a Natureza do infinito:
Todas as coisas possuem seus próprios Vórtices,
e quando um navegante da Eternidade
Passa este Vórtice, percebe que ele turbilhonante
gira para trás
E torna-se uma esfera que se engloba a si mesma
como o sol, a lua, ou como um firmamento de
constelada magnitude
Entretanto prossegue em sua maravilhosa
trajetória pela terra,
Ou como forma humana, um amigo com o qual
conviveu-se benevolentemente.
O olho humano, seu Vórtice abarcando,
vislumbra o leste & o oeste
O Norte & o sul, com suas vastas legiões de estrelas
O sol surgente e a lua no fulcro do horizonte
Os seus milharais e vales de quinhentos alqueires
A terra é uma planura infindável, e não como
aparece
Ao ignóbil transeunte confinado às sombras da
lua.
O céu é um Vórtice já há muito transpassado;
A terra, um Vórtice ainda intocado pelos
navegantes da Eternidade.
...........................................................................
E os quatro estados da tranquila Humanidade
em seu Repouso
Foram-lhe então mostrados. Primeiro o de
Beulah, o gostoso Sono
Sobre os sedosos leitos ao suave modular das
melodias e das Flores de Beulah
Doces formas Femininas aladas ou flutuantes no
cristal do ar.
O Segundo Estado é Alla & o terceiro Al-Ulro.
Mas o quarto, o fantástico, é denominado Or-
Ulro.
O Primeiro localiza-se na Cabeça, o Segundo
no Coração
O Terceiro nos vasos seminais e o Quarto,
No Estômago e Intestinos, terrível, letal e
indescritível.
E aquele, cujos Portais se abrem nessas regiões
do Corpo,
Pode nestes Portais vislumbrar estas
deslumbrantes Imaginações.
*
Outros Filhos de Los engendram Momentos &
Minutos & Horas
E Dias & Meses & Anos & Eras, deslumbrantes
palácios;
E cada Momento possui um Leito de ouro
destinado ao suave repouso,
(Um Momento equivale à pulsação de uma
artéria)
Entre dois Momentos encontra-se uma filha de
Beulah.
Que nutre os que Dormem com cuidados
maternais.
Cada minuto detém uma tenda de sedosos Véus
azuis:
E em cada Hora estende-se um Portal de ouro
magistralmente esculpido.
Cada Dia & Noite possui brônzeas Muralhas &
Umbrais de diamante
Que cintilam qual pedras preciosas com signos
ornados.
Em cada Mês ergue-se um alto Terraço de pisos
de prata.
Em cada Ano, imponentes Muralhas de gigantescas
Torres.
Cada Era rodeia um profundo Poço com pontes
de prata & ouro;
E cada período de Sete Eras é circundado por
Iridescentes Flamas.
Sete Eras equivalem a Duzentos anos.
Tudo tem seu Guardião, cada Momento, Minuto,
Hora, Dia, Mês & Ano;
São criações das Mágicas mãos dos quatro
elementos;
Os Guardiões são Anjos da Providência em
perpétuo dever.
Toda fração de Tempo menor que um pulsar de
artéria
Equivale a Seis Mil Anos.
Pois neste Ciclo é criada a obra do Poeta, e nele
os Grandes
Eventos do Tempo se iniciam e são concebidos
No fulcro de um instante, Pulsação arterial.
O céu é uma Tenda Eterna erguida pelos Filhos
de Los;
E o vasto Espaço que o Homem contempla em
sua morada
Na cobertura ou jardim no cimo de uma colina
De vinte e cinco pés de altura, é seu Universo;
Em cujos horizontes o Sol se põe, e as Nuvens
inclinam-se
Tentando alcançar a Terra & o Mar no
clariperfeito Espaço.
Os Firmamentos não se expandem, mas se
curvam e se assentam por todos os lados.
Os Pólos abrem suas válvulas douradas;
E se ele abandona sua morada seus céus o
acompanharão
Até onde for, e sua perda, a vizinhança deplora.
Tal é o espaço denominado Terra & tal sua
dimensão
Enquanto essa falsa aparência que se apresenta
ao racionalista
Como um Globo rolando através da Vacuidade,
é uma decepção de Ulro.
E disto nem desconfiam o Telescópio ou o
Microscópio;
Alteram os parâmetros dos Órgãos do Espectador,
deixando intocados os objetos;
Pois cada Espaço maior que um Glóbulo vermelho
de sangue Humano
É visionário e foi pelo martelo de Los criado.
E cada espaço menor que um Glóbulo de
sangue estende-se
Às larguras da Eternidade, da qual esta terra
Vegetal não é senão a mera imagem.
O Glóbulo vermelho é o insondável Sol por Los
criado,
Para mensurar o Tempo & o Espaço aos Mortais
a cada manhã.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/34847/17/william-blake-america-e-milton



domingo, 2 de julho de 2017

WILLIAM BLAKE, O LIVRO DE URIZEN (1794)

“há um diálogo entre a linguagem textual e a pictórica”

A POESIA DE WILLIAM BLAKE

Temos que identificar, dentre outros aspectos da poesia de William Blake, o fato desta ser a poesia de um poeta-pintor, e que, portanto, reuniu numa combinação rara o diálogo entre poemas e lâminas com gravuras e pinturas. Blake, por conseguinte, do ponto de vista do conteúdo de sua poesia, além de estabelecer um diálogo intertextual com a cultura judaica e a cristã, também tem uma constante na influência literária de John Milton, este que será um de seus guias na jornada longa da arte e da visão religiosa, e que funciona tanto como referência literária como cultural.  Tal orientação místico-religiosa e de cunho revolucionário aparecerá em seus chamados livros impressos iluminados, em que há um diálogo entre a linguagem textual e a pictórica, pois os poemas sempre vêm acompanhados de lâminas pintadas e fazem referência a estas. 
Se formos analisar as lâminas de seus poemas iluminados, temos aqui um universo amplo e múltiplo que podemos denominar de texto-imagem, e isso no contexto de um verso que vai se apresentar em seu caráter de ritmo variável e prosaico, e que é a característica própria do verso livre de William Blake. E temos um Blake dos primeiros poemas, que é o de Esboços Poéticos e Canções de inocência e de experiência, trabalhos poéticos nos quais o poeta-pintor revela uma métrica rigorosa e uma musicalidade calcadas ainda na lírica tradicional. E isto muda muito quando nos deparamos, logo a seguir, com os livros impressos iluminados dos anos 1790, numa simplificação do verso que não havia, entre versos de catorze ou quinze sílabas e o verso livre, algo ainda não praticado até então no universo tradicional da lírica inglesa.
E temos, nesta nova prática lírica de Blake, também a superação de certa ambiguidade poética que normalmente se associa à lírica, com Blake inaugurando um verso profético com uma falsa clareza de termos, pois vai se apresentar de modo narrativo e também descritivo, com uma profusão de imagens que orbitam tanto a realidade concreta como o terreno da abstração. E tal verso simples, em sua forma geral, revela no conteúdo uma complexidade de tema, uma vez que envolve o mito, e mais ainda, um mito apropriado e praticamente criado pelo poeta-pintor William Blake, donde podemos com uma certa exegese retirar vários paralelos com a realidade política e até bíblica, mas que revelam um estro criador que é a invenção de um mito próprio numa poesia que também era nova. E a linguagem mítica é complexa como conteúdo poético, pois esta é um terreno rico de interações e contrastes, com áreas antitéticas, combativas, opositivas, e que se torna um desafio exegético para quem tem fôlego para interpretar tantos jogos como esses que se dão em tais poemas de Blake.  
Foram os anos de 1794 e 1795 nos quais William Blake desenvolveu grande parte das ideias que comporiam o universo ficcional de sua obra Matrimônio do céu e do inferno (1793), ao lado de ideias também para seu conhecido livro Canções de inocência e de experiência. Quanto aos livros que viriam a seguir, tais como os das Profecias Continentais, que são América uma profecia, Europa uma profecia e A canção de Los, e também o ciclo Os Livros de Urizen, que são O livro de Urizen, O livro de Los e O livro de Ahania, estes nos aparecem como épicos compactos que surgem como verdadeiros dramas de caráter cósmico, com figuras divinas recompondo mitos cosmogônicos bem antigos, e isto misturado às ambivalências do espírito e da própria sociedade organizada humana, em que Urizen nos aparece como um deus da razão e da lógica, em combate eterno com Orc, que é o deus das revoluções e da energia, ampliando a dicotomia que vai dominar tal paisagem poética.  
Portanto, se formos analisar a obra poética de William Blake, temos que há um contraste que divide tal poesia em duas fases ou frentes distintas, e que tem o livro do Matrimônio como esta primeira fase, em contraste com a segunda fase dos dois conjuntos posteriores. Uma vez que Matrimônio tem a pretensão de realizar na poesia uma promessa ou ainda um legado que podemos entender como uma espécie de Bíblia Profana ou Infernal, que pode estar associada diretamente com os dois ciclos de poemas proféticos, e talvez o ponto de intersecção entre estas duas fases distintas do trabalho poético de William Blake esteja no poema que encerra o livro Matrimônio, que é o Uma canção de liberdade.
Ao passo que o livro Matrimônio revela uma visão em que o próprio Blake participa como testemunha dos eventos narrados, e que é, portanto, uma visão pessoal e individual do poeta-pintor de tudo o que é descrito e narrado, no poema da Canção já existe uma amplitude que envolve outros fatores mais impessoais como processos revolucionários, que vão do campo mental para o mais concreto dos conflitos de caráter político e social. Então temos, por sua vez, que toda a jornada bem pessoal de Blake por todo o livro do Matrimônio é dada sob a influência de Virgílio, Dante e Milton, e que são apropriados numa releitura criativa, na qual aparece o próprio Blake fazendo a sua jornada pelo inferno, como um novo Dante, e que estende uma narrativa em que aparecerão anjos, demônios e até os profetas judaicos. Tal fenômeno pessoal, por sua vez, não terá espaço no poema final Uma canção de liberdade.  
Matrimônio nos fornece num primeiro momento as questões teológicas e literárias que cercam a reflexão e a poesia de William Blake, como a sua relação com o místico Swedenborg, e com o emblemático poeta John Milton, e isso num esforço para erigir a concepção de uma religião organizada, inspiração e temática que não aparecerá nos livros posteriores, e que voltará somente nos épicos Milton (1805) e Jerusalém (1820), que são, por sua vez, relatos de experiências espirituais e não mais narrativas político-visionárias, estas que serão o espírito que dominará os ciclos continentais e os Livros de Urizen, tal relação que temos, portanto, em América, Europa e A canção de Los. Então, o poeta-pintor parte da influência de Swedenborg e Milton, numa lírica individual, para alcançar a seguir um caráter mais épico e coletivo, num dom visionário, e que representa, ao fim, a emancipação espiritual de William Blake em relação às ideias de Swedenborg, que impregnavam tematicamente toda a feitura poética do Matrimônio do céu e do inferno.  

O LIVRO DE URIZEN

Urizen simboliza o profundo engano que, segundo Blake, está contido na concepção dualista, e que é a completa incompreensão da eterna unidade dos contrários, tal que separa o homem do cosmos, e O Livro de Urizen descreve este antagonismo fundamental, e que é a oposição entre Urizen e os Eternos, que representam o fluxo universal e as forças cósmicas da natureza. Como a ideia de limite, pois Urizen é uma palavra que deriva de “Nossa Razão”, Urizen simboliza o pensamento racionalista, e que pela lógica confina e atrofia os sentidos humanos.
William Blake então nos guia nestes firmamentos erráticos da poesia e da vidência, tentando retirar o homem de tal confinamento e lhe devolver as portas da percepção, O Livro de Urizen que, por fim, vai influenciar Arthur Rimbaud em sua “Vênus Anadiómena”, este que também era um poeta-vidente.

POEMAS:

PRELÚDIO : O poema de abertura é bem curto, mas já evoca o poder restaurador dos Eternos, e o poema vem: “Do poder assumido pelo primordial Sacerdote/Quando os Eternos denegriram sua religião/Relegando-lhe um lugar ao norte,/Obscuro, sombrio, ermo e solitário./Eternos! Alegre escuto vosso chamado/Dizei palavras de velozes asas & não temeis/Revelar vossas sombrias visões de tormento.”. Aqui temos uma revelação que aponta para um retorno do homem ao cosmos, como uma unidade e não mais como uma dualidade cindida pelo pensamento racional e lógico.

CAPÍTULO I : E a treva nos aparece, e se chama Urizen: “1 . Olhe! Voraz a treva irrompe/Terrível sobre a Eternidade!” (...) “Que Demônio teria engendrado este ermo,/Este vácuo que arrepia as almas?/Alguns responderam:/“É Urizen”, arredio e retirado,/Secretamente tramando o tenebroso poder.”. E segue: “2 . Os tempos dividiu & mensurou/Espaço por espaço em suas sombrias trevas,/Oculto e invisível; surgiram as mutações”. Sua ação divisora reparte toda a realidade, divide tudo segundo a razão e separa o homem de sua fonte primeva, e seu labor tenebroso prossegue, no que Blake nos descreve a sua ação, assim: “4 . Sombrio, rodopiava em silente labor :/Oculto nos tormentos das paixões;/Uma ação desconhecida e assustadora,/Uma sombra que se autocontempla/Empenhada num feérico esforço.”. Sim, um esforço descomunal, trevoso, e os Eternos então aparecem, no que segue: “5 . Os Eternos vislumbraram suas vastas florestas;/Era após era permaneceu só e desconhecido,/Meditando cativo do abismo;” (...) “6 . E o Sinistro Urizen, em silêncio/Seus pérfidos horrores engendrou.”. Urizen engendra tal divisão, e o pomo da discórdia se instala para um pensamento místico que busca a união que um dia existiu, unidade que Blake busca nos Eternos e na sua ação restauradora.

CAPÍTULO II : O poema aparece como uma nova descrição, em versão poética, do Gênesis: “1 . A terra não existia nem as esferas de atração./A vontade do criador expandiu/Ou contraiu seus elásticos sentidos./Não havia morte; emanava a vida eterna.”. E começa a ação tenebrosa, mais uma vez, e tocam as trombetas, eis: “2 . O troar da trombeta despertou os céus/E as vastas nuvens de sangue rondaram/Os sombrios penhascos de Urizen.” (...) “3 . Estride o som da trombeta; & miríades da Eternidade/Engendraram-se ao redor dos desolados desertos/Repletos de nuvens, trevas & torrentes” (...) “4 . Das profundezas da sombria solidão,/Eterna morada de minha beatitude,/Retirado em austeras meditações,/reservadas para os dias vindouros,/Procurei o júbilo indolor,/O sólido não flutuante./Por que pereceis, Ó Eternos!/Por que viveis entre as inextinguíveis flamas?”. As meditações de Blake buscam mais uma vez esta união mística, a restauração dos sentidos na eternidade, na sua faculdade infinita original, as portas da percepção, no que então contra Urizen, mais uma vez Blake clama aos Eternos, e o poema segue: “5 . Primeiro lutei com o fogo. Consumia/Minhas entranhas num mundo insondável/Imenso vazio, escuro, extenso & profundo/Onde nada se encontrava: Útero da Natureza;” (...) “Impiedoso rechacei/As grandes ondas e erigi sobre as águas/A pétrea obstrução de um vasto Universo.” (...) “6 . Solitário, aqui registro em livros de metal/Os segredos da sabedoria,/Os segredos da velada contemplação./E os combates em terríveis conflitos/Contra os monstros gerados pelo pecado,/Que residem no peito de todos,/Os sete pecados capitais mortais da alma.”. Os livros de metal de Blake são então o registro, ou melhor, o testemunho de uma luta originária contra o dualismo, contra o embuste da separação dos contrários, a união mística, um dia contemplada, como num sonho platônico, aqui vira uma descrição de proporção épica, com um drama de caráter cósmico e visionário, no que o poema segue: “7 . Olhe! Desvelo minha treva e sobre/Esta pedra deposito firmemente o Livro/De eterno bronze escrito em minha solidão:” (...) “8 . “Leis de paz, afeto e unidade,/Piedade, compaixão e perdão./Deixai que cada qual escolha sua morada,/Seu palácio infinito e ancestral,/Só uma ordem, um júbilo, um desejo/Uma maldição, um peso, uma medida,/Um Rei, um Deus e uma Lei.””. O tom místico aqui ganha caráter profético, doutrinário, como tábua de leis, e uma unidade restaurada tem este dom visionário confirmado, visão do eterno, origem e fim de tudo, o mundo remido e restaurado. Religião organizada na sua origem espiritual, com a visão espiritual direta de Blake que nos proporciona estas delícias da poesia e da vidência.

CAPÍTULO IV. a : O poema é uma descrição de todas as eras, e estas funcionam em todo o poema como um estribilho mágico que reforça a mensagem, no que temos: “1 . Eras e eras e eras se passaram/Sobre seu pétreo sono,/Como um caos obscuro e mutável,” (...) “Eras e eras se passaram entre terríveis/Tormentos; a seu redor em redemoinhos/De trevas, uivava o Eterno Profeta,”. E nos aparece o divisor terrível, Urizen: “2 . E Urizen (Este é o seu eterno nome)/Mais e mais velou o seu prolífico deleite,/Num escuro segredo, Ocultando suas fantasias/Nos sulfurosos vapores./O Eterno Profeta então inflou seus negros foles/E trabalhando com tenazes e martelos/Forjou novas & novas cadeias,/Numerando com elos as Horas, Dias & Anos.”. Tal divisão do tempo, e que prossegue em duro labor: “3 . Cativo, o espírito Eterno engendrou/Redemoinhos incessantes de ira,” (...) “4 . Esquecimento. Necessidade, Silêncio!/Encarcerados nas masmorras do espírito,/Contraindo-se como correntes de ferro,/Caóticos e desgarrados da Eternidade./Los tentou romper os grilhões/E aquecendo suas forjas escorreu/Suores de ferro & latão.”. Los luta contra este domínio dos sentidos, este fechamento da percepção, no que segue: “5 . Incansável, fremia o imortal prisioneiro,/Esvaindo-se em dores lancinantes,/Quando uma cúpula selvagem e áspera/Conteve a fonte de seu pensamento.” (...) “6 . Num sono insondável, repleto de pesadelos,/Qual cadeia infernal,/Retorcia-se uma gigantesca Coluna Dorsal,” (...) “E assim se passou a primeira Era,/E o sombrio estado de infortúnio.” (...) “7 . Das grutas de sua Coluna/Precipitou-se apavorado, caindo ao fundo/De um globo purpúreo e incandescente,/No vertiginoso Abismo;/Esférico, Trêmulo & Palpitante,/Expelindo dez milhares de fibras/Ao redor de sua compacta ossatura./E assim se passou a segunda Era,”. E a tortura de Los se aprofunda, o universo dividido faz com que sua ossatura se retorça, e agora lhe domina as fibras, seu cérebro, e os olhos contemplam tal abismo aberto por Urizen, no que temos: “8 . Tomado pelo pavor, atormentado,/Seu cérebro irritado arrojou fibras/Que envolveram as fibras de seu coração,/E no interior das minúsculas cavidades;/Ocultos cuidadosamente dos ventos,/Seus Olhos contemplaram os abismos./E assim se passou a terceira Era,” (...) “9 . Começaram os tormentos da esperança./Lutavam arduamente contra as dores,/Duas Orelhas de cerradas volutas,/E sob as suas órbitas da visão,/Em espiral abriam-se, petrificando-se/ao crescer. E assim se passou a quarta Era,” (...) “10 . Abatidas pelos terríveis males;/Duas narinas inclinaram-se às profundezas/Suspensas na brisa/E assim se passou a quinta Era,”. Todo seu corpo é retorcido pelos limites deste Urizen lógico e racional, divisor do mundo e do tempo: “11 . Padecendo a terrível moléstia,/Escavava-se no fulcro de suas costelas,/Uma Gruta esférica & Ávida/De onde erguia-se o canal de sua Garganta,/E qual purpúrea flama, uma língua/Sedenta e faminta projetava-se./E assim se passou a sexta Era,” (...) “12 . Colérico & sufocado entre tormentos,/Arrojou ao norte seu Braço direito,/E ao sul o esquerdo,/Imerso em intensa angústia,/Seus Pés sulcaram os Vértices Abissais,/Uivantes, Trepidantes & Aterradores./E assim se passou a sétima Era,/E o sombrio estado de infortúnio.”. O estribilho das eras é a descrição da aflição de Los e sua luta que o oprime contra Urizen, este que, todo poderoso, limita o espaço e o tempo e atinge o corpo inteiro de Los como numa trituração, e que é também a angústia dos sentidos embaçados da finitude, a neblina que cerca a percepção humana neste universo degenerado por Urizen.

CAPÍTULO VIII : A viagem de Urizen continua, e o poema nos descreve seu périplo: “1 . Urizen sondou suas grutas,/Montes, pântanos & desertos,/Alumiando com um globo de fogo./A viagem terrível e atormentado/Por cruéis atrocidades & formas/De vida em suas desoladas cordilheiras.” (...) “2 . Seu mundo gerava contínuas aberrações;/Bizarras, incrédulas e aduladoras/Fragmentos de vida, miragens/De pés, mãos ou cabeças,/De corações ou olhos. Pérfidos terrores,/Rondavam deliciando-se no sangue.” (...) “3 . E Urizen, enojado, viu eclodir/Nas montanhas, suas eternas criações,/Filhos & filhas do pesar/Em prantos! Primeiro Thirel apareceu,/Surpreso com sua própria existência,/Qual ser surgido da nuvem & Utha,/Das águas arfante emergiu./Godna rasgou a face da terra gritando” (...) “Então Fuzon/Irrompeu rápido como a flama”. E Urizen tem seus filhos, engendra então Blake uma mitologia sui generis, uma visão cósmica com pretensões visionárias, no que o poema segue: “Da mesma forma que seus filhos eternos,/Suas filhas nasceram das verdejantes ervas,/Do gado, monstros & vermes abissais.” (...) “4 . Prisioneiro das trevas, sua raça observou,/E sua alma adoeceu; Amaldiçoou/Seus filhos & filhas pois constatou/Que nem a Carne ou o Espírito seguiam,/Por um instante sequer, suas férreas leis.” (...) “5 . Pois notou que a vida nutria-se de morte:” (...) “E o céu qual cárcere dividindo,/Por onde os passos de Urizen/Caminharam sobre as tristes cidades;”. A presença da morte mora na finitude, e o mundo degenera nesses elementos de carne, o pecado reina soberano, e a teia surge do pranto de Urizen: “7 . Até que a Teia fria & escura alastrou-se/Enredando os tormentados elementos,/Surgidos do pranto de Urizen;” (...) “Bem amarrados estavam os fios,/Bem entrelaçadas as tramas,/Tecidas como se fossem feitas/Para o cérebro dos homens.” (...) “9 . E todos a chamaram:/“Rede da Religião”.”. A trama de Urizen parece tão perfeita que ergue a rede religiosa, a teia de sua lógica é convincente, e domina o mundo, e tal domínio agora se chama a Rede da Religião.

POEMAS:

PRELÚDIO

Do poder assumido pelo primordial Sacerdote
Quando os Eternos denegriram sua religião
Relegando-lhe um lugar ao norte,
Obscuro, sombrio, ermo e solitário.

Eternos! Alegre escuto vosso chamado
Dizei palavras de velozes asas & não temeis
Revelar vossas sombrias visões de tormento.

CAPÍTULO I

1 . Olhe! Voraz a treva irrompe
Terrível sobre a Eternidade!
Estranha, estéril, escura & execrável;
Que Demônio teria engendrado este ermo,
Este vácuo que arrepia as almas?
Alguns responderam:
“É Urizen”, arredio e retirado,
Secretamente tramando o tenebroso poder.

2 . Os tempos dividiu & mensurou
Espaço por espaço em suas sombrias trevas,
Oculto e invisível; surgiram as mutações
Qual montanhas furiosamente fustigadas
Pelas negras rajadas da perturbação.

3 . Pois lutara em sangrentas batalhas,
Sinistros conflitos com formas
Surgidas de seu desolado deserto
De animal, ave, peixe, serpente & elemento,
Combustão, explosão, vapor e nuvem.

4 . Sombrio, rodopiava em silente labor :
Oculto nos tormentos das paixões;
Uma ação desconhecida e assustadora,
Uma sombra que se autocontempla
Empenhada num feérico esforço.

5 . Os Eternos vislumbraram suas vastas florestas;
Era após era permaneceu só e desconhecido,
Meditando cativo do abismo; Todos evitam
O caos pétreo e infindável.

6 . E o Sinistro Urizen, em silêncio
Seus pérfidos horrores engendrou.
Seus dez milhões de trovões
Disseminam-se em assustadoras formações
Através do tenebroso mundo & o ruído das rodas
Como furiosos mares ressoa nas nuvens,
Nas alvas colinas e nas montanhas
De granizo & gelo: Vozes de terror
reverberam tal trovões de outono.
Enquanto as nuvens se inflamaram sobre a ceifa.

CAPÍTULO II

1 . A terra não existia nem as esferas de atração.
A vontade do criador expandiu
Ou contraiu seus elásticos sentidos.
Não havia morte; emanava a vida eterna.

2 . O troar da trombeta despertou os céus
E as vastas nuvens de sangue rondaram
Os sombrios penhascos de Urizen. O assim chamado
Aquele eremita na Imensidão.

3 . Estride o som da trombeta; & miríades da Eternidade
Engendraram-se ao redor dos desolados desertos
Repletos de nuvens, trevas & torrentes
Que turvas turbulentas escorrem & declamam
Palavras que como trovões retroam
Sobre os cimos das altas cordilheiras.

4 . Das profundezas da sombria solidão,
Eterna morada de minha beatitude,
Retirado em austeras meditações,
reservadas para os dias vindouros,
Procurei o júbilo indolor,
O sólido não flutuante.
Por que pereceis, Ó Eternos!
Por que viveis entre as inextinguíveis flamas?

5 . Primeiro lutei com o fogo. Consumia
Minhas entranhas num mundo insondável
Imenso vazio, escuro, extenso & profundo
Onde nada se encontrava: Útero da Natureza;
No prumo, estendia-me ereto sobre o ermo
Solitário e impiedoso imobilizava os ventos;
Inclementes; Os condensando em torrentes,
Eles se precipitavam. Impiedoso rechacei
As grandes ondas e erigi sobre as águas
A pétrea obstrução de um vasto Universo.

6 . Solitário, aqui registro em livros de metal
Os segredos da sabedoria,
Os segredos da velada contemplação.
E os combates em terríveis conflitos
Contra os monstros gerados pelo pecado,
Que residem no peito de todos,
Os sete pecados capitais mortais da alma.

7 . Olhe! Desvelo minha treva e sobre
Esta pedra deposito firmemente o Livro
De eterno bronze escrito em minha solidão:

8 . “Leis de paz, afeto e unidade,
Piedade, compaixão e perdão.
Deixai que cada qual escolha sua morada,
Seu palácio infinito e ancestral,
Só uma ordem, um júbilo, um desejo
Uma maldição, um peso, uma medida,
Um Rei, um Deus e uma Lei.”

CAPÍTULO IV. a

1 . Eras e eras e eras se passaram
Sobre seu pétreo sono,
Como um caos obscuro e mutável,
Estraçalhado por terremotos, vomitando
                                             [ardentes flamas:
Eras e eras se passaram entre terríveis
Tormentos; a seu redor em redemoinhos
De trevas, uivava o Eterno Profeta,
Martelando tenazmente seus férreos crivos,
Derramando suores de ferro; repartia
A noite horrível em vigílias.

2 . E Urizen (Este é o seu eterno nome)
Mais e mais velou o seu prolífico deleite,
Num escuro segredo, Ocultando suas fantasias
Nos sulfurosos vapores.
O Eterno Profeta então inflou seus negros foles
E trabalhando com tenazes e martelos
Forjou novas & novas cadeias,
Numerando com elos as Horas, Dias & Anos.

3 . Cativo, o espírito Eterno engendrou
Redemoinhos incessantes de ira,
E a espuma sulfurosa, espessa e escura
Condensou-se num lago claro & cristalino,
Alvo como as neves dos gélidos cimos.

4 . Esquecimento. Necessidade, Silêncio!
Encarcerados nas masmorras do espírito,
Contraindo-se como correntes de ferro,
Caóticos e desgarrados da Eternidade.
Los tentou romper os grilhões
E aquecendo suas forjas escorreu
Suores de ferro & latão.

5 . Incansável, fremia o imortal prisioneiro,
Esvaindo-se em dores lancinantes,
Quando uma cúpula selvagem e áspera
Conteve a fonte de seu pensamento.

6 . Num sono insondável, repleto de pesadelos,
Qual cadeia infernal,
Retorcia-se uma gigantesca Coluna Dorsal,
Arrojando aos ventos as costelas
Dolorosas como côncavas cavernas;
Seus ossos então gélidos enrijeceram-se
Encobrindo os nervos do prazer.
E assim se passou a primeira Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

7 . Das grutas de sua Coluna
Precipitou-se apavorado, caindo ao fundo
De um globo purpúreo e incandescente,
No vertiginoso Abismo;
Esférico, Trêmulo & Palpitante,
Expelindo dez milhares de fibras
Ao redor de sua compacta ossatura.
E assim se passou a segunda Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

8 . Tomado pelo pavor, atormentado,
Seu cérebro irritado arrojou fibras
Que envolveram as fibras de seu coração,
E no interior das minúsculas cavidades;
Ocultos cuidadosamente dos ventos,
Seus Olhos contemplaram os abismos.
E assim se passou a terceira Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

9 . Começaram os tormentos da esperança.
Lutavam arduamente contra as dores,
Duas Orelhas de cerradas volutas,
E sob as suas órbitas da visão,
Em espiral abriam-se, petrificando-se
ao crescer. E assim se passou a quarta Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

10 . Abatidas pelos terríveis males;
Duas narinas inclinaram-se às profundezas
Suspensas na brisa
E assim se passou a quinta Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

11 . Padecendo a terrível moléstia,
Escavava-se no fulcro de suas costelas,
Uma Gruta esférica & Ávida
De onde erguia-se o canal de sua Garganta,
E qual purpúrea flama, uma língua
Sedenta e faminta projetava-se.
E assim se passou a sexta Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

12 . Colérico & sufocado entre tormentos,
Arrojou ao norte seu Braço direito,
E ao sul o esquerdo,
Imerso em intensa angústia,
Seus Pés sulcaram os Vértices Abissais,
Uivantes, Trepidantes & Aterradores.
E assim se passou a sétima Era,
E o sombrio estado de infortúnio.

CAPÍTULO VIII

1 . Urizen sondou suas grutas,
Montes, pântanos & desertos,
Alumiando com um globo de fogo.
A viagem terrível e atormentado
Por cruéis atrocidades & formas
De vida em suas desoladas cordilheiras.

2 . Seu mundo gerava contínuas aberrações;
Bizarras, incrédulas e aduladoras
Fragmentos de vida, miragens
De pés, mãos ou cabeças,
De corações ou olhos. Pérfidos terrores,
Rondavam deliciando-se no sangue.

3 . E Urizen, enojado, viu eclodir
Nas montanhas, suas eternas criações,
Filhos & filhas do pesar
Em prantos! Primeiro Thirel apareceu,
Surpreso com sua própria existência,
Qual ser surgido da nuvem & Utha,
Das águas arfante emergiu.
Godna rasgou a face da terra gritando
E seus imensos céus estilhaçaram-se
Como os solos sob o sol; Então Fuzon
Irrompeu rápido como a flama
Primeiro concebido e último a nascer.
Da mesma forma que seus filhos eternos,
Suas filhas nasceram das verdejantes ervas,
Do gado, monstros & vermes abissais.

4 . Prisioneiro das trevas, sua raça observou,
E sua alma adoeceu; Amaldiçoou
Seus filhos & filhas pois constatou
Que nem a Carne ou o Espírito seguiam,
Por um instante sequer, suas férreas leis.

5 . Pois notou que a vida nutria-se de morte:
O Boi geme no matadouro,
O Cão no frio umbral.
Em prantos chorou & isto denominou Piedade,
E suas lágrimas aos ventos espargiram-se.

6 . Gélido, errou pelos cimos de suas aldeias,
Entre prantos, dores & desilusões;
E por onde quer que vagasse,
Pelos estratos feéricos dos céus,
Uma sombra o perseguia,
Qual teia de aranha úmida e fria,
Saindo de sua alma cheia de mágoa,
E o céu qual cárcere dividindo,
Por onde os passos de Urizen
Caminharam sobre as tristes cidades;

7 . Até que a Teia fria & escura alastrou-se
Enredando os tormentados elementos,
Surgidos do pranto de Urizen;
Esta Rede era um Embrião de Mulher
E ninguém conseguia desatar a Teia,
Nem mesmo as flamejantes asas.

8 . Bem amarrados estavam os fios,
Bem entrelaçadas as tramas,
Tecidas como se fossem feitas
Para o cérebro dos homens.

9 . E todos a chamaram:
“Rede da Religião”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/34743/17/william-blake-o-livro-de-urizen-1974