PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 20 de maio de 2018

A VIDA É DURA, PORÉM DOCE

“a vida pode ser maravilhosa, como diz o poeta”

A vida não é para principiantes, definitivamente. E quem acha que pode passar incólume se enganou feio. Os perigos estão aí, e que sejam bem vindos todos os perigos, pois eles nos fazem fortes, nos jogam no circuito vivo de que nem tudo se controla, planejamos coisas, mas nem sempre elas dão certo, ou ainda não deram certo.
O erro é o instrumento da sabedoria da vida para nos ensinar a sermos mais tolerantes, mais moderados, mas isso, meu caro, vem com a experiência. Vejo muita gente madura de pouca idade e muita gente infantil de muita idade. O tempo de vida biológico não credencia ninguém à adaptação ao mundo, não que tenhamos que nos adaptar para agradar aos outros ou que seja o caso de adaptar-se.
A questão é mais profunda, que queiramos crescer e tomar as rédeas da própria vida, o que não é tarefa fácil, adaptar-se ou não é questão de escolha, e aceitar o mundo e enfrentar os “perrengues”, aprender com as porradas que, vira e mexe, a vida nos dá, é um bom exercício de fortalecimento do tônus vivencial. O conhecimento, a vivência e a experiência, é esta tríade que diferencia os fortes e corajosos das crianças que sonham sem sair do lugar, “deitadas eternamente em berço esplêndido”.
Se alguém lhe nega algo porque não pode lhe dar este algo, até por que este alguém não tem o que você quer, a criança sonhadora, que vive na lua, demora a acordar, mas o despertar é necessário. Não estamos no mundo para passear no jardim das delícias, não estamos, nesta vida, num jardim de lazer. É preciso estar atento e forte, não temos tempo para este culto da mediocridade, da vida superficial, da zona de conforto que nos torna uns bundões e que, à primeira desdita, culpa o céu e a terra e, pior, os outros.
Pois esta pessoa não reconhece o próprio fracasso, os próprios erros, e acha que o outro, que não lhe deu a felicidade plena, quanta audácia, é culpada de todo infortúnio de que ela é vítima. Não temos tempo para príncipes encantados ou princesas encantadas, não temos tempo para dar a troco de nada, não somos a tábua de salvação de gente que não quer crescer.
Muitas vezes a criança sonhadora demora a entender, culpa os outros, acha que está certa em seu desatino, mas um dia, depois de muita porrada, a criança passa a entender que é ela e não os outros é que tem que tomar conta de si. Não é fácil, mas temos que tentar, e saber que a vida não é vivida na zona de conforto, de que querer no outro o seu sentido, do querer viver a vida do outro, numa obsessão que não tem fim, não é o caminho do que chamam de sábio.
Então é hora de mudar, mudar a conduta, mudar o pensamento, e mudar, sobretudo, as atitudes. Ninguém quer uma pessoa que não quer nada com a hora do Brasil por perto, a virtude da vida é ter com o que compartilhar, e não sugar a energia dos outros de forma desleal. É, então, a hora da grande mudança, da grande revolução, de sorrir sim, mas de ter postura séria quando o assunto é a própria vida, a construção de seu próprio destino.  Aí é a hora do primeiro passo rumo à maturidade, bem vindo à vida adulta.
A sabedoria é um exercício diário, o entender o espaço do outro, o respeito pela vida do outro, o não confundir um gesto educado e gentil com disponibilidade a qualquer hora. A vida é um caminho árduo, a vida é dura sim, muito dura, mas também é doce, e sua doçura maior vem quando sabemos que estamos tentando, de que estamos no caminho certo, caminho de crescimento, caminho de luz, libertação das velhas ilusões e um bem viver que não é do bon vivant, mas do que luta.
E é na luta pela própria vida, de seu lugar no mundo para ser no mundo, no incremento de seu ser, no leque cada vez maior das percepções, em ser agradável às pessoas sem querer agradá-las, mas em ser agradável por estar crescendo, se incrementando, buscando o entendimento da vida, é então que a conquista da sabedoria de saber que a senda universal do ser humano é dura, nos leva a crer e ter certeza de que a vida pode ser maravilhosa, como diz o poeta.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38730/14/a-vida-e-dura-porem-doce

  

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A LÍRICA BARROCA DE GÓNGORA

“um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho da sutileza de estilo”

Mestre de si mesmo, Góngora, escritor de estro próprio, o gongorismo, vai ao auge do lirismo barroco, com uma produção literária que irá se dividir em duas faces.
Uma face será a da lírica popular, que tem um caráter e origem autóctone, sendo uma produção composta por poemas pequenos, com metros curtos, como eram as letrillas e romances, nos quais o poeta se utiliza da ironia para tematizar a vida cotidiana.
E a outra face da poesia de Góngora sendo a de uma arte aristocrática, com influência da poesia italiana, e que tem um ar bem culto, muitas vezes hermético, com poemas longos em versos decassílabos, que irá tratar das profundezas do sentimento humano, numa busca ideal de uma beleza absoluta e inalcançável, portanto, ilusória, poesia de elite que vai aparecer então em obras de Góngora como a fábula de Polifemo e Galateia, Soledades e em Sonetos.
Objeto de debates e polêmicas, a poesia de Góngora terá uma riqueza vocabular que produzirá neologismos de origem greco-latina, e um conteúdo de referências do mito antigo, principalmente grego, e também de memórias bíblicas, com uma complexidade de sintaxe impregnada de anacolutos e inversões, que serão, portanto, recursos de uma poesia de leitura atenta e culta, que exige um olhar treinado e estudado para quem nela se debruça.
A poesia de Góngora também ganha em volume e complexidade por sua abundância metafórica, uma poesia hiperbólica que não prima pela economia gestual, muito pelo contrário, pois é uma poesia que ostenta e se enfeita com sutilezas que exige uma percepção estética bem definida, pois com o gongorismo temos uma herança renascentista, mas já com novos valores estéticos, numa poesia que em sua época será revolucionária.
Uma das inovações desta poesia gongórica será o uso da metáfora com um caráter original que irá provocar um estranhamento, pois o poeta irá realizar com sua metáfora associações ou parentescos entre diversos objetos com uma elasticidade engenhosa, ampliando as possibilidades da metáfora poética em sua época.
Góngora é um dos maiores representantes da lírica barroca, e que irá herdar as referências clássicas e renascentistas da mitologia greco-romana, mas já com um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho da sutileza de estilo, produzindo uma nova poesia já distante do paradigma clássico de simplicidade formal.
Góngora é autor de uma poesia barroca que em seu caráter aristocrático já não tem uma concepção de beleza no sentido da clareza formal, harmônica, racional, mas sim rompendo com estes cânones estéticos renascentistas, se utilizando neste novo caminho estético barroco da sutileza rica em oximoros, uma poesia que buscará, na sua forma, a transcendência e o gosto pelo enigma.

POEMAS :
XXIII : O poema continua sua fábula, este périplo de amor e de enamorados, no que temos : “A fugitiva ninfa, entanto, onde/Furta um louro seu tronco ao sol ardente,”. A fugitiva, Galateia, vai em meio ao cenário de natureza, e o poema acende o rouxinol, e o sono de Galateia não poderá queimar seus olhos ao sol, no que temos : “De seus membros, dá à fonte ali fluente./Doce se queixa, doce então responde/Um rouxinol a outro, e docemente/Ao sono dá seus olhos a harmonia,/Porque não queime com três sóis o dia.”. A fábula vai nesta dinâmica de perseguição e fuga, como uma boa trama da ilusão amorosa, em todas as suas faces.
XXIV : O cão do céu late, e está no calor do dia, como salamandra do sol, no que segue : “Salamandra do sol, vestido estrelas,/Latindo o cão do céu estava, quando”. E agora a trama amorosa se repete indefinida, Ácis se volta para ver Galateia, sua branca tez, que era o cristal mudo, no que temos : “Chegou Ácis;” (...) “A boca deu, e os olhos deu, em tudo,/Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.”. O olhar aqui nos aparece como obsessão, pois o ato da contemplação amorosa nos parece um tipo especial de hipnose.
XXV : O poema retrata Ácis, este que fere os corações, venábulo de Cupido, no que temos : “Venábulo era Ácis de Cupido,/Por um fauno, meio homem, meio fera,/Em Simétis, formosa ninfa, havido;”. Ácis, filho de um fauno, pois, e da ninfa Simétis, no que segue : “O belo ímã, o ídolo dormido,/Que aço acompanha, idólatra venera,/Rico de quanto o horto oferta pobre,/Rendem as vacas e destila o robre.” E Galateia venera aqui o ídolo dormido.
XXVIII : A ninfa aqui sente o agitar da água feita por Ácis, o regato no qual se move a água prateada, no que temos : “A ninfa, pois, a sonorosa prata/Bulir sentiu daquele arroio apenas,/Quando, com as margens vírides ingrata,/Machado fez-se de suas açucenas./Fugira; mas tão frio se desata/O medo ocioso em veias não serenas,/Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,/Plumas de gelo foi, grilhões de neve.”. A ninfa Galateia pensa mais uma vez em fugir, mas o temor lhe congela o voo, estas plumas de gelo nos grilhões de neve.
XXX : Galateia, neste poema, não toma a oferenda como do ciclope, nem de sátiro e nem de silvano, e temos : “Por do ciclope a oferta não é tida;/Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,/De outro feio silvano, cuja brida/O sono aflija, que afrouxou o desejo./Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,”. E Cupido vem com Vênus, nesta visão de Galateia cujo desdém por seus pretendentes faz desta fábula de fuga e amor uma boa trama : “Quer que na árvore seja da mãe deia/O desdém até ali de Galateia.”.
XXXI : Cupido mira o peito de Galateia, no que temos : “Entre ramagens do que mais se lava” (...) “Carcaz fez de cristal, se não aljava,/Seu peito branco, de um arpão dourado./O monstro de rigor, a fera brava,/Olha a oferenda já com mais cuidado;/Que seja de seu dono, ela até sente,/Confuso alcaide, o souto viridente.”. Fera de rigor, impiedosa, ela agora já olha a oferenda com mais cuidado e atenção, deste golpe de amor ela está diante deste autor que se oculta.
XXXII : Galateia já se perguntando da autoria da oferenda, terá seu coração tomado por este que então dorme, no que temos : “Chamara-o, muda embora, sem o entrave/De o nome não saber que mais queria.” (...) “Confia o intento; e tímida, em sombria/Cama de campo e campo de batalha,/Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.”. A fábula então vai da fuga para o fascínio da curiosidade, a ninfa, pois, não é tão inatingível.
XXXIV : Galateia está agora com o efeito de Cupido que lhe cravou o peito, e o enigma ganha vulto na fábula, no que temos : “Não, como a ninfa bela, a emparelhar/Com o moço adormecido em cortesia,/Não para apenas, mas o doce atroar/Do lento arroio emudecer queria./Não obstante logo as ramas, ao notar/Colorido o bosquejo que já havia/Em sua imaginação Cupido feito/Só com o pincel que lhe cravou no peito.”. A imaginação aqui arde, e a fábula tem uma virada, Galateia deixa a fuga e agora tem o peito cativado.
XXXVI : O veneno do amor inunda o poema, no que temos :“Na grenha rústica se aquieta oculto/O áspide,” (...) “Pois no viril desata de seu vulto/O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:/Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso/Para esgotar toda a peçonha ao vaso.”. E a ninfa Galateia bebe este veneno, a fábula ganha a desenvoltura da contemplação, nesta caso a ninfa se volta para ver Ácis melhor.
XXXVII : Galateia está entre o amor e o temor, suspensa, isto é, com dúvida, no que temos : “Ácis – e ainda mais do que dispensa/A mira de seu sono vigilante -,/Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,/É sempre Argos atento ao seu semblante,/Lince penetrador do que ela pensa,” (...) “Porque nos seus paládios cego Amor,/Sem romper muros, introduz o ardor.”. Ácis tem olhos de lince, decifra o pensamento de Galateia, e tem esta percepção em meio a um sono fingido.
XXXVIII : O poema se abre num agito como a perturbar o sono, no que temos : “O sono de seus membros sacudido,/Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,” (...) “Menos ofende o raio, prevenido,/Ao marinheiro, menos a tormenta/Prevista o perturbou, ou prenunciada:/Galateia que o diga, salteada.”. E o sono agora virando agitação em Ácis deixa a ninfa Galateia surpreendida. A fábula de amor e fuga também é de fascínio e surpresa.

POEMAS :

XXIII

A fugitiva ninfa, entanto, onde
Furta um louro seu tronco ao sol ardente,
Tantos jasmins, quanta erva a neve esconde
De seus membros, dá à fonte ali fluente.
Doce se queixa, doce então responde
Um rouxinol a outro, e docemente
Ao sono dá seus olhos a harmonia,
Porque não queime com três sóis o dia.

XXIV

Salamandra do sol, vestido estrelas,
Latindo o cão do céu estava, quando
(Pó o cabelo, úmidas chispas aquelas,
Se não ardentes pérolas suando)
Chegou Ácis; das duas luzes belas
Doce Ocidente vendo o sono brando,
A boca deu, e os olhos deu, em tudo,
Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.

XXV

Venábulo era Ácis de Cupido,
Por um fauno, meio homem, meio fera,
Em Simétis, formosa ninfa, havido;
Glória do mar e honra das praias era.
O belo ímã, o ídolo dormido,
Que aço acompanha, idólatra venera,
Rico de quanto o horto oferta pobre,
Rendem as vacas e destila o robre.

XXVIII

A ninfa, pois, a sonorosa prata
Bulir sentiu daquele arroio apenas,
Quando, com as margens vírides ingrata,
Machado fez-se de suas açucenas.
Fugira; mas tão frio se desata
O medo ocioso em veias não serenas,
Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,
Plumas de gelo foi, grilhões de neve.

XXX

Por do ciclope a oferta não é tida;
Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,
De outro feio silvano, cuja brida
O sono aflija, que afrouxou o desejo.
Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,
Gloriosa ostentação, troféu sobejo
Quer que na árvore seja da mãe deia
O desdém até ali de Galateia.

XXXI

Entre ramagens do que mais se lava
Naquele arroio, mirto levantado,
Carcaz fez de cristal, se não aljava,
Seu peito branco, de um arpão dourado.
O monstro de rigor, a fera brava,
Olha a oferenda já com mais cuidado;
Que seja de seu dono, ela até sente,
Confuso alcaide, o souto viridente.

XXXII

Chamara-o, muda embora, sem o entrave
De o nome não saber que mais queria.
Nem o enxergou, porém um pincel suave
Já o bosquejou em sua fantasia.
Ao pé – não tanto, já, do temor grave –
Confia o intento; e tímida, em sombria
Cama de campo e campo de batalha,
Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.

XXXIV

Não, como a ninfa bela, a emparelhar
Com o moço adormecido em cortesia,
Não para apenas, mas o doce atroar
Do lento arroio emudecer queria.
Não obstante logo as ramas, ao notar
Colorido o bosquejo que já havia
Em sua imaginação Cupido feito
Só com o pincel que lhe cravou no peito.

XXXVI

Na grenha rústica se aquieta oculto
O áspide, do intonso prado ameno,
Antes que do penteado jardim culto
No seio regalado e de ordem pleno:
Pois no viril desata de seu vulto
O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:
Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso
Para esgotar toda a peçonha ao vaso.

XXXVII

Ácis – e ainda mais do que dispensa
A mira de seu sono vigilante -,
Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,
É sempre Argos atento ao seu semblante,
Lince penetrador do que ela pensa,
Ou bronze o cinja ou mure-o então diamante:
Porque nos seus paládios cego Amor,
Sem romper muros, introduz o ardor.

XXXVIII

O sono de seus membros sacudido,
Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,
E ao marfim logo de seus pés rendido,
O coturno beijar dourado intenta.
Menos ofende o raio, prevenido,
Ao marinheiro, menos a tormenta
Prevista o perturbou, ou prenunciada:
Galateia que o diga, salteada.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38693/17/a-lirica-barroca-de-gongora


quarta-feira, 9 de maio de 2018

CARTA DO POETA INSATISFEITO

"sejamos os novos musicistas do que se anuncia como o futuro da arte"

Vivemos num tempo medíocre, todos falam do cotidiano, tudo é cotidiano, essa verve da stand-up comedy me dá náuseas. Poesia que fala da eternidade e que abusa de metáfora e simbolismo é logo tachada de anacrônica, eles não querem mais poetas que escrevem com o próprio sangue, tal como diria Nietzsche dos poetas trágicos da Grécia arcaica.
No entanto, os poetas hoje devem ser humildes, sim, humildes! Eles dizem: “Quem sou eu para dizer que sou poeta! Seria muita pretensão da minha parte!”. Esta condenação do grandioso pela palavra pretensão é como um interdito moral da escrita que tem náusea do épico, vivemos um tempo anti-épico, apoucado, simulando seu mundinho e se distanciando do spleen que possuía a alma poética.
Eles, os novos poetas do mundo de objetos, querem o modelo cotidiano da hipocrisia da auto-pequenez, os grandiosos morrem de fome, as editoras estão atrás de um futuro inexistente, a influência das coisas comezinhas é o auge do que se faz de poesia hoje em dia, e tem um tanto que só sabem usar das rimas chatas e previsíveis.
Estamos entre o modelo dogmático cotidiano que se tornou standard e a alienação de alguns outros que confundem a lírica com pieguice e fazem na verdade poesia aguada para gostos não estudados.
Vão pela via de uma lírica piegas e brega que ousam chamar de poesia, e sonham em publicar seus versos apoucados na pretensão da humildade do “quem sou eu para qualquer coisa!”. Ó sonhadores, com suas naus furadas num mar revolto de paixão, ó sonhadores das máquinas de Gutemberg!
O que é aplaudido hoje é o chamado reino da mediocridade, o puro discurso se sobrepõe à metáfora, os símbolos são renegados como História e não como plenitude, ó medíocres, sonham tão pouco, sonham errado! Os sonhadores verdadeiros têm mania de grandeza, a grandeza que está bem retratada no Ecce Homo, todas as naus furadas afundarão no mar do esquecimento, todas estas navegações sobre o pouco que resta de original.
Tem muitos que escrevem igual, são escravos do igual, são apologistas do igual, e o diferente que se anuncia na tormenta vem de milênios de História, sim, pois queremos a História, escrevemos por ela e por causa dela, mesmo que muitos obtusos confundam as coisas e entendam que tudo isto que nos cabe é Metafísica!
Ora, onde estão os novos Rimbauds? Ora, veja só, um novo Rimbaud hoje passaria despercebido, como o próprio passou despercebido, precisamos de novos bibliófilos? Sim, precisamos!
Tal poesia do futuro eu antevejo como o contrário de hoje, poesia bem cantada, não poesia comezinha, da falsa virtude do comezinho, da falsa humildade do cotidiano, se queres falar de coisas cotidianas, sejam cronistas, não poetas! A sedução harmônica que muitos dizem anacrônica é o salto necessário para sairmos desta contemporaneidade fajuta do reino da mediocridade!
Ó sonhadores, sonhem do jeito certo uma vez na vida! Sejam detentores do prazer, hedonistas musicais, façam de suas saturnais a fonte de que emana a vida, e não apenas façam um pastiche ou coletâneas de esquetes imitando o humor idiota de americanos!
Podemos ser livres no que fazemos, e que as editoras acordem para a poesia do futuro, a verdadeira poesia do futuro, que não é nada mais que uma reflexão da tradição reaproveitada em novos sentidos, voltemos à poesia sensorial, não esqueçamos de que ela não é Metafísica, no sentido estrito, venhamos dar boas vindas ao sentido lato da vida, que a eternidade não seja trocada por uma simples natureza morta que ousam chamar poesia.
Sejamos vivos como viva é a inspiração, sejamos espertos e não sejamos mesquinhos, poetas devem viver o que dizem. Poesia é vida antes de ser palavra ou verso, poesia é o fundamento de tudo. E façamos música e não rimas sem gosto, sejamos os novos musicistas do que se anuncia como o futuro da arte, nada de sobriedade que fala do armário ou de objetos irrelevantes, voltemos à vida, pois ela é mais do que isto!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38641/14/carta-do-poeta-insatisfeito





quarta-feira, 2 de maio de 2018

MY FATHER`S EYES

“o luto vira luta”

Aprendi contigo muitas coisas, olho em seus olhos agora e minha esperança na vida vem da palavra desafio e não da palavra tragédia. Como eu te conheci? Que jornada meu velho, que honra. A gente não precisava fazer transbordamentos para saber que um gostava do outro, do nosso jeito tínhamos um pouco de palavra e um pouco de telepatia, o peito e o beijo, um tanto de dar calor, às vezes com a música íamos longe, e íamos juntos, e estamos juntos, sempre, eternamente.
Eu meio que ficava zangado com algo, muitas vezes, e era engraçado, nisto tudo você mantinha a calma. Lembro de muitas coisas, priorizo as boas, vou viver com o polo positivo de uma relação forte, muito forte, talvez por isso mesmo teve conflito e choro e riso e tudo o que tem direito.
Lembro de algo ainda recente, fomos ao cinema ver Django Livre do Quentin Tarantino, ficamos quase um mês nos chamando não pelo nome ou por pai e filho, pois um ficava chamando o outro de Django até que tudo voltou ao normal depois deste nosso delírio cinematográfico.
Na música, você ia direto ao assunto, isto é, The Beatles e Pink Floyd, suas invenções eram muitas, mas a linha mestra era o rock clássico, não tinha muita firula, ou seja, esta minha mania de pesquisa infinita. Papai ficava com o filé do que conhecemos por música e o problema dele já estava resolvido, ultimamente eu ouvi muito Pink Floyd e Beatles saindo de seu quarto.
Esta semana, já com você no CTI, me perguntei : “Where’s my father?”, me deu um pequeno aperto, não sabia o que estaria por vir. Nos preparamos várias vezes para esta morte, desde sua doença em 1999, a recidiva em 2003, enfrentamos a crueldade inominável que foi a morte do Alex em 2015, mas sempre te vi positivo, talvez filosoficamente, pois na carne eu sentia um abatimento, um cansaço.
No entanto, no hospital, tive um último momento contigo, parecia tudo tranquilo, bom demais para ser verdade, ficamos vendo o canal Bis, ouvindo Rolling Stones por uma hora, parecia que alguém tinha colocado um cronômetro, pois dez minutos depois do programa do canal Bis terminar, chegou o médico e disse que você só precisava evacuar para ir para casa.
Pensei, está tudo bem, qualquer coisa volto na próxima semana. Dei um beijo em sua testa, você beijou a minha mão, sorrimos, parecia tudo tão normal, uma coisa passageira, mas passageiros somos nós, a viagem, a jornada estava por vir, e foi, recebi a notícia acordando de manhã, e foi suave, sutil, minha irmã me disse isto com leveza, e eu flutuava entre o sono e o choque, com a reação emocional ainda contida e guardada.
Agora lembro dos pontões da barra, meus bonecos, meu castelo de Grayskull que ficava no Rio, no seu apartamento, minha irmã com a barbie, Yakult e Todinho na geladeira, muito Beatles, Sade, Dire Straits e Supertramp, o que na época só conhecia pelo nome e pelo som mesmo os Beatles.
Ah, e a sessão ininterrupta de Indiana Jones e o Templo da Perdição, eu que esperava sempre a cena do kalimá que tirava o coração de um escravo vivo, eu e minha irmã que sabíamos o filme de cor e salteado. E tinha também meus almoços no Frajola no bairro da Saúde aonde ficava a ASB, que foi a sua editora nos anos 1980 e início dos 1990. Muita coisa boa, muita coisa interessante. Os banhos na fonte da casa da vovó no Recreio dos Bandeirantes.
E lembro de suas lutas coletivas, a luta pelos direitos dos deficientes, o livro assimétricos, sua luta interna depois da ida de nosso irmão, sua luta física depois da amputação da perna esquerda, tudo foi luta, e eu aqui, com o peito apertado, também estou nessa, na luta, o luto vira luta, mais uma vez, com uma imensa saudade e um rasgo no peito, e como você gostava de dizer : Vamos nessa!

(Andrei de Sampaio Bastos, nascido em 1951 e falecido em 2018, meu pai é jornalista e escritor, lutou contra a ditadura militar e militou na causa dos deficientes).


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38559/14/my-fathers-eyes







quinta-feira, 26 de abril de 2018

ODESSEY AND ORACLE

“uma pérola do psicodelismo e do pop barroco britânico”

O disco do The Zombies tem uma história sui generis no mundo do rock, pois foi o canto do cisne de uma banda que não se firmou no fértil cenário da música dos anos 1960. “Odessey and Oracle”, por sua vez, foi o segundo e último disco da banda britânica The Zombies.
A banda começou como uma algo típico do início dos anos 1960, com uma mistura de rhythm’n’blues e blues, da mesma cepa dos The Rolling Stones e dos The Animals, por exemplo. No entanto, o grupo tinha uma herança musical mais clássica, sem a pegada rascante de um The Rolling Stones, de um The Kinks ou de um The Who, por exemplo, o que lhes dificultou o caminho para o sucesso.
A banda, na verdade, durante a sua atividade, não teve singles muito comerciais, e nem, como se diz, “radio friendly”, operando sempre num campo paralelo às bandas citadas, estas que tinham um som mais robusto.
Porém, em meio de tanta novidade musical, mesmo com o relativo sucesso do single “She´s Not There”, a banda passou despercebida a maior parte do tempo, e mesmo sendo uma banda de talento, com bons singles, e um primeiro LP irrepreensível, a banda, digamos, “não aconteceu”.
No meio do ano de 1967 a banda resolve se separar, mas, por exigência da CBS, eles teriam que gravar um segundo álbum, para cumprimento de contrato. E a situação era totalmente inusitada, assim como a história posterior que envolve este álbum.
Agora tínhamos os músicos Argent e White já ensaiando com sua outra banda, Argent, com um registro mais Hard Rock, e o vocalista Blunstone já planejando sua carreira solo. E, em meio destes outros projetos, Odessey and Oracle viria à lume como um trabalho absolutamente livre de pressões mercadológicas, uma vez que o interesse nele era zero, isto é, um álbum de uma banda que já tinha acabado.
Então temos, logo mais, um exemplar bem acabado do que viria a ser chamado de barroque pop, um trabalho musical em que a banda, sem a supervisão da CBS, que já havia entregado os pontos, apenas exigindo o cumprimento do contrato, faz virar um produto em que os músicos da banda puderam ser honestos e sinceros, sem podas de quem quer que fosse, com parte fundamental do álbum sendo feita no mítico estúdio do Abbey Road.
Este cenário anárquico só teve uma exceção, que foi a faixa “A Rose For Emily”, que deveria ter sido acompanhada por um quarteto de cordas, mas que não teve êxito por corte de orçamento da CBS, e então a banda gravou a demo original, só com o piano, que manteve o charme da faixa e uma certa simplicidade acessível.
Gravado em 1967, em pleno “Verão do Amor”, o disco foi finalmente editado em 1968. O fato era que, ninguém ainda sabia, nem sequer tinha notado, mas a banda The Zombies havia realizado uma verdadeira obra-prima para as gerações vindouras.
“Odessey and Oracle” foi um disco feito na sombra, num contexto obscuro. No entanto, já com a banda acabada de fato, aconteceu como que uma luz inesperada, como vindo do nada, que foi a edição da última faixa do disco, “Time of the Season”, em 1969, que vira um hit single que a banda nunca alcançou quando estava em atividade, e o disco ressurge das trevas como uma pérola do psicodelismo e do pop barroco britânico, evocando o melhor da música daquela época como era Pet Sounds, Magical Mystery Tour ou a psicodelia do primeiro Pink Floyd, de Syd Barrett.
O álbum “Odessey and Oracle” tem 12 faixas, abrindo com “Care of Cell 44", com um piano pra cima e com trechos vocais que lembravam um tanto os Beach Boys. Tal piano que continua como destaque em “A Rose for Emily”, seguida de “Maybe After He's Gone", a hipnótica “Beechwood Park", temos ainda "Brief Candles", também a "Hung Up on a Dream", com instrumental mais variado, a estranha “Changes”, a mais pop “I Want Her, She Wants Me", o belo piano em “This Will Be Our Year", mais uma faixa estranha com “Butcher's Tale (Western Front 1914)", seguida de "Friends of Mine", mais curta e também de pegada mais pop.
Por fim, temos a última faixa, que será o hit single tardio "Time of the Season", que é mais um episódio inusitado da feitura e repercussão de “Odessey and Oracle”, que hoje figura como um dos clássicos dos anos 1960 na música.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38500/14/odessey-and-oracle





segunda-feira, 23 de abril de 2018

GÓNGORA, A PAIXÃO DA METÁFORA

“tal estro poético logo ganhou o nome de gongorismo”

Luís de Góngora y Argote, nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, foi um poeta espanhol do chamado Siglo de Oro das letras espanholas. Góngora será o poeta mais importante da que seria a chamada poesia aguda, e líder da corrente literária autodenominada de cultismo.
Góngora então segue tal estilo rebuscado, de uso acentuado da hipérbole, de metáforas complexas, complicadas e obscuras, também uma poesia que praticava a dubiedade, tal estro poético logo ganhou o nome de gongorismo. A denominação desta poesia de aguda, por sua vez, vinha da paixão da poesia gongórica pela metáfora, e isto se dando ao paroxismo e como uma obsessão por uma linguagem rebuscada e de alta abstração.
O que se denomina o Siglo de Oro era o contexto extraordinário em que se deu a produção artística do século XVII espanhol, pois foi o meio em que nasceu um fenômeno literário único nas letras espanholas, com obras de autores importantes como Quevedo, Lope de Vega, Cervantes e do próprio Góngora.
Góngora tinha então a escrita produzida no castelhano imperial, língua que tinha, por sua vez, ocorrências de helenismo, latinismo, uma língua bem retórica e que também trazia alusões mitológicas. E em 1581, já na corte de Filipe III, Luís de Góngora cria algumas inimizades literárias, sobretudo com Francisco de Quevedo y Villegas, um escritor que pertencia ao conceptismo, que cultuava a sutileza dos conceitos, ao contrário do gongorismo que se voltava para a complexidade da forma poética. Já famoso como poeta em 1585, Góngora é citado por Miguel de Cervantes em La Galatea.
Poesia de profunda abstração intelectual, tal estilo cultista de Góngora passa a ser considerado uma poesia fria e de mau gosto a partir do século XVIII. Como exercício ocioso de uma vida cortesã, passa a ser vista como uma poesia frívola, tendo a poesia aguda sido somente readmitida ao plano crítico somente no século XX, já no contexto do Modernismo. A poesia de Góngora, de um rebuscamento extremo, repelia a presença de leitores vulgares, destinada somente àqueles que tivessem a erudição exigida para a decifração de tais labirintos metafóricos que produziram obras como a Fábula de Polifemo e Galateia e as Soledades.
Por sua vez, na Fábula de Polifemo e Galateia, de 1612, temos a narração de um episódio mitológico descrito no livro XIII das Metamorfoses de Ovídio : os amores do ciclope Polifemo pela ninfa Galateia. A versão gongórica de tal mito nos vem, por sua vez, com uma complexidade de recursos estilísticos, com latinismos, figuras de linguagem de alta elaboração, e uma grande ocorrência de referências da mitologia grega e clássica.

POEMAS :

FÁBULA DE POLIFEMO E GALATEIA

I : Este poema abre já no culto de Talia, musa da poesia ligeira, no que temos : “Estas que me ditou rimas sonoras,/culta embora bucólica Talia,”. O ditado é de rimas sonoras, o poema é fluido, como Talia, no que se vê, então :  “Em que a alva é rosas, rosicler o dia,” (...) “Ouve-as, que minha avena principia,/Se já os muros não te veem de Huelva/Pentear o vento, fatigar a relva.”. A visão bucólica reina neste começo de fábula.
II : O pássaro emerge, e o poema se abre tal qual :“Pronto alise do amestrador na mão/O generoso pássaro sua pluma,” (...) “Tascando o freio de ouro alveje-o então/Do cavalo andaluz a ociosa espuma;/Gema o lebrel em seu cordão de seda/E à trompa enfim a cítara suceda.”. Neste poema, que dá seguimento à fábula, mais uma vez temos uma descrição rápida e curta, em que o falcão está pronto para caçar, embora se queira que a cítara (poesia) possa suceder a trompa (caça), o que o poema esperançoso nos aponta, ao fim.
III : O poema segue contando a fábula, e logo nos apresentará o personagem central, no que temos : “Dá trégua ao exercício teu robusto,/Ócio atento, silêncio doce, enquanto/Debaixo escutas de dossel augusto/Do músico alto e forte o fero canto.” (...) “Teu nome escutarão os fins do mundo.”. Portanto, Polifemo aqui já nos aparece, este que é o músico alto e forte, cuja fama ecoa não inferior ao som do clarim da poesia.
VI : Na gruta está Polifemo, este que conduz seu rebanho, nos ásperos cumes dos montes, Polifemo é o pastor desta sua grei de cabras, no que segue : “Daquele formidável pois da terra/Bocejo, o melancólico vazio/A Polifemo, horror daquela serra,/Bárbara choça é, pouso sombrio” (...) “Grei de cabras esconde : cópia bela,/Que um silvo junta e que um penhasco sela.”. A fábula nos dá agora o mundo em que está inserido o músico e pastor Polifemo.
VII : Aqui temos o ciclope, Polifemo, e que era obedecido até pelo mais valente pinheiro, no que temos : “Um monte era de membros eminente” (...) “Ciclope, a quem pinheiro o mais valente,/Bastão lhe obedecia tão ligeiro,/E ao grave peso junco tão delgado,/Que um dia era bastão e outro cajado.”. Por fim, o ser filho feroz de Netuno, de um olho, tem seu poder de gigante.
VIII : Aqui temos a descrição física do gigante, do ciclope, de Polifemo, no que segue : “Negro o cabelo, imitador undoso/Das tão obscuras águas do Leteu,” (...) “Voa sem ordem, pende sem asseio;/Caudal é a sua barba impetuoso,/Que (adusto filho deste Pireneu)/Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão/Sulcada só dos dedos de sua mão.”. Temos aqui imagens como o do Lete, rio dos mortos, ciclope que aqui é impetuoso, a descrição é então grandiosa.
XII : Aqui temos então a descrição da música poderosa de Polifemo, que altera o mar e rompe o caracol de Tritão, no que segue : “Cera e cânhamo uniu (que não devera)/Cem canas, cujo bárbaro ruído,/De mais ecos que uniu cânhamo e cera” (...) “A selva se confunde, o mar se altera,/Rompe Tritão seu caracol torcido,/Surdo foge o baixel a vela e remo :/Assim é a música de Polifemo!”. Eis, mais uma vez, a descrição desproporcional deste gigante de um olho, do ciclope que altera o mar com a sua música.
XIII : Agora a fábula nos apresenta Galateia, esta que reúne em si as três Graças, filha de Dóris, ninfa, também pavão de Vênus e cisne de Juno, no que segue : “Ninfa, de Dóris filha, e entre as mais bela,/Adora, que já viu o reino da espuma./Galateia é seu nome, e doces nela/Vênus as Graças três junta em só uma.” (...) “Pavão de Vênus é, cisne de Juno.”. A descrição é sublime, e coloca a ninfa no cume da graciosidade.
XVI : Palemo é o jovem do mar, mas Galateia não lhe concede o seu favor, embora nos desdéns o atinja menos do que a Polifemo, no que segue : “Jovem do mar, fontes cerúleas tens,/E as cinges de coral tenro, ó Palemo,” (...) “se nos desdéns/Perdoado algo mais que Polifemo,/Pela que, mal te ouviu, calçada plumas,/Tantas flores pisou como tu espumas.”. A fábula segue seu tom de encantamento, na descrição precisa deste mito.
XVII : Aqui temos a descrição da fuga da ninfa, na sua carreira longe do enamorado, e segue ligeira, no que temos : “Foge a bela; e bem quer ser o marino/Amante nadador, deixando a esteira,” (...) “Mas que dente mortal, que metal fino/Poderá a fuga suspender ligeira/Que o desdém solicita? Ó, quanto erra/Delfim que segue n`água corça em terra!”. A fábula aqui se mantém como uma descrição do mito em detalhes, e que Góngora nos proporciona com sua mestria metafórica.

POEMAS :

FÁBULA DE POLIFEMO E GALATEIA

I
Estas que me ditou rimas sonoras,
culta embora bucólica Talia,
Ó excelso Conde, nas purpúreas horas
Em que a alva é rosas, rosicler o dia,
E quando com áurea luz Niebla decoras,
Ouve-as, que minha avena principia,
Se já os muros não te veem de Huelva
Pentear o vento, fatigar a relva.

II
Pronto alise do amestrador na mão
O generoso pássaro sua pluma,
Ou tão mudo na alcandora, que em vão
Até o guiso desmentir presuma;
Tascando o freio de ouro alveje-o então
Do cavalo andaluz a ociosa espuma;
Gema o lebrel em seu cordão de seda
E à trompa enfim a cítara suceda.

III
Dá trégua ao exercício teu robusto,
Ócio atento, silêncio doce, enquanto
Debaixo escutas de dossel augusto
Do músico alto e forte o fero canto.
Com as Musas hoje alterna o gosto justo,
Que caso a minha possa ofertar tanto
Clarim – e à própria fama não segundo –
Teu nome escutarão os fins do mundo.

VI
Daquele formidável pois da terra
Bocejo, o melancólico vazio
A Polifemo, horror daquela serra,
Bárbara choça é, pouso sombrio
E espaçoso redil no qual encerra
Quanta dos montes o áspero feitio
Grei de cabras esconde : cópia bela,
Que um silvo junta e que um penhasco sela.

VII
Um monte era de membros eminente
Este (que, de Netuno fero herdeiro
Com um olho ilustra a testa, esse orbe ingente,
Êmulo quase do maior luzeiro)
Ciclope, a quem pinheiro o mais valente,
Bastão lhe obedecia tão ligeiro,
E ao grave peso junco tão delgado,
Que um dia era bastão e outro cajado.

VIII
Negro o cabelo, imitador undoso
Das tão obscuras águas do Leteu,
Ao vento que o penteia proceloso,
Voa sem ordem, pende sem asseio;
Caudal é a sua barba impetuoso,
Que (adusto filho deste Pireneu)
Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão
Sulcada só dos dedos de sua mão.

XII
Cera e cânhamo uniu (que não devera)
Cem canas, cujo bárbaro ruído,
De mais ecos que uniu cânhamo e cera
Alboques, duramente é repetido.
A selva se confunde, o mar se altera,
Rompe Tritão seu caracol torcido,
Surdo foge o baixel a vela e remo :
Assim é a música de Polifemo!

XIII
Ninfa, de Dóris filha, e entre as mais bela,
Adora, que já viu o reino da espuma.
Galateia é seu nome, e doces nela
Vênus as Graças três junta em só uma.
São uma e outra luminosa estrela
Luzentes olhos de sua branca pluma :
Se rocha de cristal não é de Netuno,
Pavão de Vênus é, cisne de Juno.

XVI
Jovem do mar, fontes cerúleas tens,
E as cinges de coral tenro, ó Palemo,
Rico de quantos a água engendra bens
Do Faro odioso ao promontório extremo;
Porém na graça igual, se nos desdéns
Perdoado algo mais que Polifemo,
Pela que, mal te ouviu, calçada plumas,
Tantas flores pisou como tu espumas.

XVII
Foge a bela; e bem quer ser o marino
Amante nadador, deixando a esteira,
Já que não áspide ao seu pé divino,
Dourado pomo a sua veloz carreira;
Mas que dente mortal, que metal fino
Poderá a fuga suspender ligeira
Que o desdém solicita? Ó, quanto erra
Delfim que segue n`água corça em terra!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38448/17/gongora-a-paixao-da-metafora






             

sexta-feira, 20 de abril de 2018

PARA QUE FILOSOFIA?

“é melhor existir do que o nada”

Quando penso em porque alguém escolhe filosofar e, pior que isso, escolhe a filosofia como meio de vida, tal como eu, tem claro o futuro que lhe aguarda, uma vez que sabe que vai ter que pensar sem cessar e, no dito meio de vida, ensinar o que não se ensina, ou seja, filosofar e não filosofia.
Devaneio? Aí é um paradoxo, já que a filosofia, no entendimento do senso comum, trabalha com a razão, mas o devaneio é a escolha por tal labuta, o filosofar exige de nós uma disposição para a reflexão e a construção de um pensamento que nem todos tem, não é para qualquer um!
Uma consciência torturada? Diria outro alguém que desdenha das questões da vida. Bem, talvez ... vai saber, né?! No meu caso eu fui um jovem de certo modo torturado pelas questões da vida e com o tempo isso ganha em disciplina e complexidade, mas deixa de ser tortura e vira indagação seletiva, nem tudo se pergunta, é o que descobrimos com o passar do tempo e com as leituras, como também nem tudo se responde, é a outra obviedade como efeito colateral do questionar.
E me vem à cabeça de porque fiz esta escolha que eu diria ser, sem falsa modéstia, de corajosa. Talvez, na juventude, façamos escolhas inconscientes totalmente conscientes. Ora, novo paradoxo? Sim, é claro! Trabalhamos com paradoxos a vida inteira, e não adianta o filósofo vir com o princípio de não-contradição, uma das estruturas da chamada razão ou raciocínio, é que é uma loucura alguém filosofar em tempos tão bicudos e medíocres, é um fato.
Certa vez eu me indaguei se fiz o certo, ou se deveria ter virado homem de negócios e deixar essas questões existenciais de lado, mas havia uma força maior e inexorável que sempre me conduzia para a filosofia e para a busca de alguma verdade ou sentido na vida. Por quê? Para quê?
Tenho que responder, mas sabendo que é em vão, tudo na vida quando se quer arriscar pode ser em vão, pois a filosofia é em vão em razão de suas respostas mas não em razão de suas perguntas, eis, eureka! Pois então a pergunta é mais importante para o filósofo do que a resposta, pois toda resposta denota certo sinal de arrogância intelectual ou pretensão descabida e irrefletida, já que uma vez sabendo da resposta a questão cessa e torna-se necessária nova ocupação, fato.
Mas a verdadeira ocupação do filósofo é a pergunta e, mais do que isso, a qualidade da pergunta, ou seja, temos que aprender a perguntar para filosofar de fato, senão seremos presas fáceis da falácia e do sofisma, seremos manipulados pela ilusão ardilosa de um raciocínio intempestivo, é preciso então refletir calmamente, a pressa não é própria do filosofar, é preciso ruminar antes de falar, só se fala do que se tem a devida medida, e do que não se pode falar simplesmente calamos, essa é a medida que diferencia os que estudaram dos cabeças de bagre.
Mas, volta a pergunta fundamental, para quê isso tudo? Para quê uma história tão vasta e milenar se até hoje não temos nenhuma conclusão de nada! Ora, às favas com a filosofia! (Diria agora um incauto ... ) Ora, porque perder meu tempo com perguntas fundamentais se não há resposta fundamental. Qual a razão disso? Qual é o mérito da filosofia e do filosofar? Ora, não temos que sobreviver, trabalhar? O tempo acabou! O tempo acabou! Não temos tempo para pensar, quanto mais filosofar! (Mais uma vez, aqui temos o argumento cético do incauto insistente, é a ignorância presa da falácia e do sofisma da qual eu avisei logo acima, todo cuidado é pouco ...) Mas, e então filósofo? Me responda, para quê filosofia? ....
Tal pergunta é da mesma natureza de outra pergunta fundamental que é a seguinte:
Para quê a vida?
Então temos aí o cerne do problema, pois perguntando pela filosofia estamos também e ao mesmo tempo perguntando pela vida, já que, num entendimento que eu chamaria de filosofia honesta e não formal, a pergunta pela filosofia desemboca na pergunta pela vida, aí reunimos duas perguntas da mesma natureza que podem se fundir e recriar a questão numa indagação pelo sentido das coisas, coisas? Objetos? Não, é sentido lato e não o estrito, a filosofia, ao contrário de saber acadêmico estrito, sempre pergunta em sentido lato, já que a pergunta pela vida também está e se dá em sentido lato, para “responder”.
Enfim, precisamos viver bastante e nada de resposta peremptória sobre o porquê ou o para quê, mas uma resposta numa pergunta, uma resposta que pergunta e se instaura no que é importante, por que o mundo? Para quê o mundo? E respondemos: para ensinar o homem a viver, pois é melhor existir do que o nada, que é o impensável.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38408/14/para-que-filosofiaij