PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 21 de agosto de 2016

P. B. SHELLEY E SEUS POEMAS DA ERA DO ROMANTISMO INGLÊS – PARTE II

“Sonhei que como eu estivesse a caminhar/Súbito o inverno se mudou em primavera”

DADOS BIOGRÁFICOS – PARTE II

Shelley foi para Londres e foi com Harriet para Edimburgo, onde se casou com ela. Embora Harriet fosse bem educada e tivesse o hábito da leitura, Shelley diria dela mais tarde que ela não era sensível à poesia e não alcançava a filosofia. Em seguida ao casamento, Shelley estampou, privadamente, seu Queen Mab, agressivo em matéria de religião e de moral.
Neste meio tempo, Shelley começou a se corresponder com William Godwin, já no início de 1812, e veio a conhecê-lo pessoalmente no fim do ano. Godwin fora casado em primeiras núpcias com Mary Wollstonecraft, autora de The rights of Women, que faleceu pouco depois de ter dado à luz uma menina, Mary, em 30 de agosto de 1797. Godwin consorciou-se pela segunda vez com Mrs.Clairmont. Vivia com eles Fanny, filha de Mary Wollstonecraft e Mr.Imlay, e Claire, filha de Mrs.Clairmont. Fanny se suicidaria em outubro de 1816, segundo parece, levada a isso por seu amor sem futuro a Shelley, e Claire viria a ser amante de Byron.
Foi por volta de maio de 1814 que Shelley conheceu Mary Godwin, que estava para fazer 17 anos, e apaixonaram-se um pelo outro. Depois de meses de crise conjugal com Harriet, Shelley foge com Mary, acompanhada por Claire, em 28 de julho. Em janeiro de 1815, porém, Sir Bysshe Shelley morre, e Shelley herda a propriedade de seu pai, onde Shelley passara a infância, o que lhe dava uma renda de seis mil libras por ano.
Em meio disso, Shelley e Mary decidem residir em Bishopgate, perto da floresta de Windsor. Lá Shelley produz seu primeiro poema considerável “Alastor, or the spirit of solitude”, publicado em 1816 e que permanece destacado  e distinto na obra poética de  de Shelley, segundo o crítico Ed.Blunden, diferença que poderia ser notada nos quesitos paisagem e movimento.
Dado o isolamento social de Mary, Shelley resolve ir para a Suíça, levando junto com Mary, a irmã desta, Claire, e o filho William, que nascera em 24 de janeiro daquele ano de 1816. Vão para Sécheron, perto de Genebra, e se hospedam no Hotel de L`Angleterre, e uns dez dias depois, Byron chega ao hotel, momento no qual Shelley e Byron se tornam companheiros e passam a andar de bote no lago, com paradas nas margens entre viticultores. Uma noite uma tempestade os colheu, sobre a qual Byron fez os versos: “Como o lago aceso brilha, mar fosfórico,/E a grande chuva chega dançando à terra.”
Numa certa noite, todos estavam lendo uma coleção de histórias alemãs sobre fantasmas, e Byron recitou um trecho do Christabel de Coleridge, ainda não impresso. Shelley sugestionou-se e afinal decidiu-se que cada um escreveria uma história de mistério. O melhor resultado desta aventura foi o livro Frankenstein, de Mary, de um conto que a moça desenvolveu estimulada por Shelley. O autor favorito de Shelley, na ocasião, por sua vez, era Wordsworth, por ele recomendado a Byron.
Diz o crítico Blunden que Shelley decidiu educar Byron como ninguém havia feito e induzi-lo a conceber seus poemas como um profeta e adorador da natureza. Cuidou vantajosamente da publicação do novo manuscrito de Childe Harold, de O prisioneiro de Chilion e do Manfredo de Byron, e escreveu a este: “Sei apenas que seus poderes são assombrosamente grandes, e que devem ser exercitados até seu pleno alcance”.
Shelley se casa com Mary em 30 de dezembro e estabelece-se em Great Marlow, Buckinghamshire. Mr.Westbrook, baseado em que Shelley abandonara Harriet e iria criar os filhos em crenças ateísticas e antissociais, pleiteou a tutela de seus dois netos. Shelley então perdeu a guarda dos filhos, mas esta não foi deferida para Mr.Westbrook, mas a um médico irlandês, o dr.Hume, apontado por Shelley.
Seguindo com a sua obra de poesia, Shelley submete a Leigh Hunt, diretor do The Examiner, o “Hino à Beleza Intelectual”, sob pseudônimo. Hunt o publicou em outubro de 1816. Em dezembro, Hunt, esclarecido o pseudônimo e à vista de mais obras de Shelley, honrou-o ao lado de Keats e de J.H.Reynolds com o manifesto “Jovens poetas”, os quais, junto com Byron em seu novo estilo, reavivam a poesia inglesa.
Hazllitt veria Shelley, como escreveu após a morte do poeta, como “um homem notável”: “Sua pessoa era um símbolo e imagem de seu gênio. Sua pele parecia transparente, e o espírito dentro dele tão divinamente formado, que se poderia dizer que seu corpo pensava (...) ele se esmagava sob o peso do pensamento que aspirava a atestar, e murchava no clarão de relâmpago de uma filosofia implacável.” Joseph Severn, o amigo de Keats, por sua vez, descrevia Shelley assim: “Seu rosto dolorosamente intelectual, porque mostrava traços de sua luta com a humanidade e denunciava o dom transcendente de um espírito elevado em escassa relação com o mundo. Seus olhos azuis, inquietos, pareciam deter-se mais no aspecto interior do que no exterior da natureza.”
Em 1817, Shelley compôs “Laon and Cythna”, do qual se diz que Cythna é a primeira nova mulher da poesia inglesa. O poema foi depois rebatizado como “Time revolt of Islam”. Em maio, Mary completa então seu Frankenstein e prepara-o para publicação, o que acontece em 1° de janeiro de 1818. Shelley manifestava, por essa altura, contudo, “langor e doença que se agravava” e consultou em Londres um médico que lhe prescreveu repouso e mudança de clima. Resolveu então partir para a Itália, onde o “sol seria o melhor médico”, pensava ele.
Neste ínterim,  Shelley lê Ariosto e traduz O Banquete de Platão, escreve Rosalind and Helen, e em seguida o poeta compõe “Lines written among the euganean hills”, bem como “Julian and Madalo”, poema no qual transparecem suas impressões de si mesmo e de Byron (que como poeta ele tinha em alta conta, “cisne fiel à tempestade”). Estava Shelley convencido de que tudo o que pudesse exortar Byron a usar todos os seus dons seria um serviço ao mundo.

TEMPO:

O poema segue a imagem do mar, mas nele evoca sim a vida, como um grande oceano, lugar em que podemos navegar, e se vê com os olhos de Shelley tais coisas: “Mar insondável, cujas ondas são os anos,/Oceano do tempo, cujas águas de aflição/Receberam o sal do pranto dos humanos!” (...) ”Tu, mar sem praias, que na cheia e na vazão/Abraças os limites da mortalidade,”, Shelley compara as ondas do mar insondável (a vida) aos anos, a hora e o tempo e o mar revolto, oceano do tempo, aqui tempo e vida com o poema sobre o mar, vida enigma, insondável em seu sentido completo, ao menos num conceito de razão filosófica, mas intuído pela poesia com metáfora, uma forma de condensar o que uma expressão demasiado explicada jamais esgotaria, aqui a poesia funciona como mapa, roteiro, atalho, ao que o coração humano quer traduzir, e a vida com o tempo, matéria precípua deste caminho, é também a aflição da mortalidade, a qual o ateu Shelley acolhia sem anseios de além.

HINO DE PÃ:

Poema repleto da lira grega, com sua matriz mítica, invoca Pã, e ele toca a sua flauta nestes versos, como a clamar e chamar e dizer o que ele é: “Eu cantei das estrelas que dançavam,/Eu cantei da dedálea Terra,/E do Céu – e dos gigantes em guerra,/E do Amor, e da Morte, e Nascimento,” (...) “Deuses e homens, assim somos iludidos!/Isso perturba nosso peito e então sangramos:/Tudo chorou; vós ambos choraríeis, penso,/Se a inveja – ou a idade – vosso sangue não o pôs gelado,/Com a tristeza de minha doce frauta.” Amor, morte, nascimento, eis um dos elementos que podem resumir toda a ópera da vida, palavras simples, como as outras, mas que possuem uma densidade que todo o resto do léxico é inútil diante disso, o poema, com a flauta de Pã, fala destas coisas fundamentais, e que participam do jogo do poeta, também ele um fauno que incorpora Pã para traduzir esta sensação que tudo anela, possuir que nada possui, nem deuses e nem homens, todos iludidos!

A PERGUNTA:

O poema segue assim: “Sonhei que como eu estivesse a caminhar/Súbito o inverno se mudou em primavera:” (...) “Lá crescia a violeta; a anêmona, ademais;/Arcturo ou pérola da terra, a margarida,/A constelada flor que não se põe jamais;/A primavera, a campainha, que nascida/Mal ergue o seu torrão; e a flor que molha a face” (...) “Cresciam íris, branco e púrpura adornados,/Próximo da margem trêmula do rio;” (...) “Fico a pensar que dessas flores ideais/Faço um buquê, de tal maneira combinado/Que as cores que nos seus abrigos naturais/Se mesclam ou se opõem – arranjo assemelhado” (...) “Contente e ufano, com essas flores eu enfim/Para o próprio lugar me apresso donde eu vim,/E quero dá-las de presente! – Oh, para quem?”. Shelley adorna seu poema todo floral com toda cor de seu estro, enuncia o buquê que faz com versos, mas sem a quem empenhar, súbito o inverno se mudou em primavera, mas para onde vai o poeta não sabe, e a pergunta do poema termina como tal, aberta, dando título propriamente ao poema que Shelley conclui.

HINO DE APOLO:

O poema, mais um da senda grega, mítica, em que lira e estro representam a imagem da vida, agora em sonho que acorda: “As Horas vígeis que me guardam, se deitado,” (...) “Fazendo voar dos olhos meus a sonharada,/Acordam-me quando a Mãe delas, a cinzenta Aurora,/Lhes diz que lua e sonhos foram já embora” (...) “Os arco-íris e as nuvens nutro, e as flores belas/Com suas etéreas cores; o globo lunar/E, em seus pousos eternos, as estrelas,/Meu poder, como um manto, os vem cercar;/As lâmpadas que acendem Terra ou Céu/São porção de um poder, que é o meu.” (...) “Sou eu o olho com o qual o Universo/Contempla-se a si mesmo e sabe-se divino;/Toda harmonia de instrumento ou verso/E minha, e a medicina, e a fala do destino,/E toda a luz da arte ou natureza: é jus portanto,/A vitória e o louvor pertencem ao meu canto.”. Aqui a mortalidade que havia em Pã, se converte em força e poder com Apolo, este possuidor das chaves da arte, da natureza, o que contempla sua criação, a harmonia do instrumento, o poeta Shelley consegue um pouco deste viço, e por momentos se torna imortal, acorda, desperta, o olho que vê como um deus do olimpo, este que aqui é Apolo, encarnado em poeta e verso, ao calor da aurora, em que não há mais sonho, mas plenitude de sentidos, que são o poder, que Shelley/Apolo diz: que é o meu.

TEMPO

Mar insondável, cujas ondas são os anos,
Oceano do tempo, cujas águas de aflição
Receberam o sal do pranto dos humanos!
Tu, mar sem praias, que na cheia e na vazão
Abraças os limites da mortalidade,
E uivando por mais vítimas, em tua saciedade,
Vomitas teus despojos em sua costa inóspita;
Traiçoeiro em calma, horror na tempestade,
Velejar em ti quem há de,
Insondável mar!

HINO DE PÃ

I
Das florestas e montanhas
Nós chegamos, nós chegamos; e das ilhas
Que o rio cinta,
Onde emudece a onda de voz alta,
Ouvindo a minha doce frauta.

II
E estava o líquido Peneu correndo
E Tempe inteiro escuro se estendia
Sombra do Pélion, vencendo
A luz do dia que morria,
Os Faunos e os Silvanos e os Silenos
E as Ninfas das florestas e das ondas
Na relva úmida dos rios, bem na orla,
E à beira das cavernas orvalhadas
E os que os serviam e os acompanhavam
Silenciavam de amor como tu, Apolo, agora,
De ciúme de minha doce frauta.

III
Eu cantei das estrelas que dançavam,
Eu cantei da dedálea Terra,
E do Céu – e dos gigantes em guerra,
E do Amor, e da Morte, e Nascimento,
- E então mudei o som de minha frauta
Cantando como ao pé do Mênalo correndo
Persegui uma moça e agarrei só um caniço.
Deuses e homens, assim somos iludidos!
Isso perturba nosso peito e então sangramos:
Tudo chorou; vós ambos choraríeis, penso,
Se a inveja – ou a idade – vosso sangue não o pôs gelado,
Com a tristeza de minha doce frauta.

A PERGUNTA

I
Sonhei que como eu estivesse a caminhar
Súbito o inverno se mudou em primavera:
E o suave odor pôde meus passos extraviar,
Unido ao som da água a murmurar austera,
Por relvado declive a custo ia lançar, risonho,
Seus braços verdes ao peito do manancial:
Mas beijou-o e fugiu, como se pode em sonho.

II
Lá crescia a violeta; a anêmona, ademais;
Arcturo ou pérola da terra, a margarida,
A constelada flor que não se põe jamais;
A primavera, a campainha, que nascida
Mal ergue o seu torrão; e a flor que molha a face
- Como criança, com alegria e com meiguice –
Da mãe com as lágrimas que bem do céu juntasse
Sempre que a voz do vento companheiro ouvisse.

III
A eglantina crescia pelas sebes quentes,
A verde briônia e o pilriteiro cor de luar,
E a flor da cerejeira e os cálices albentes
Cujo vinho era o orvalho, até o sol o secar;
E a rosa brava e a errar heras espiraladas,
Sem norte com as folhagens e botões sombrios;
Flores pretas e a zuis e de ouro filetadas,
Mais belas que as que vejam olhos prestadios.

IV
Cresciam íris, branco e púrpura adornados,
Próximo da margem trêmula do rio;
E entre lanços, uns botões estrelejados;
E flutuava o nenúfar, longo e luzidio,
A alumiar o carvalho, sobre a sebe penso,
Com os raios de luar de seu áqueo fulgor;
E juncos e caniços de um verdor intenso
Deslumbravam o olhar com sóbrio resplendor.

V
Fico a pensar que dessas flores ideais
Faço um buquê, de tal maneira combinado
Que as cores que nos seus abrigos naturais
Se mesclam ou se opõem – arranjo assemelhado
Essas filhas das Horas nestas mãos retém:
Contente e ufano, com essas flores eu enfim
Para o próprio lugar me apresso donde eu vim,
E quero dá-las de presente! – Oh, para quem?

HINO DE APOLO

I
As Horas vígeis que me guardam, se deitado,
Veladas com a tapeçaria constelada           
Do vasto luar copado;
Fazendo voar dos olhos meus a sonharada,
Acordam-me quando a Mãe delas, a cinzenta Aurora,
Lhes diz que lua e sonhos foram já embora.

II
O domo azul do céu, galgo-o ao me levantar;
Caminho sobre os montes, sobre as ondas,
E deixo o manto meu sobre a espuma do mar;
Minha presença aclara as cavernas redondas,
Calçam com fogo as nuvens os meus passos
E o ar deixa a verde Terra nua para os meus abraços.

III
Meus dardos, os raios de sol, com os quais mortal
Sou para o engano, que ama a noite e teme o dia;
O homem que faz ou que imagina o mal
Voa de mim, e de meu raio que gloria;
Ganham as boas mentes e ações francas nova força,
Até que a noite para débil a distorça.

IV
Os arco-íris e as nuvens nutro, e as flores belas
Com suas etéreas cores; o globo lunar
E, em seus pousos eternos, as estrelas,
Meu poder, como um manto, os vem cercar;
As lâmpadas que acendem Terra ou Céu
São porção de um poder, que é o meu.

V
No píncaro do céu ao meio-dia eu estadeio,
Depois, com passos relutantes, lento eu me despenho
Nas nuvens do cair do sol atlântico; em seu seio;
Elas choram a mágoa de eu partir, franzem o cenho.
Que olhar dá mais prazer do que o sorriso ideal
Com que as acalmo da ilha ocidental?

VI
Sou eu o olho com o qual o Universo
Contempla-se a si mesmo e sabe-se divino;
Toda harmonia de instrumento ou verso
E minha, e a medicina, e a fala do destino,
E toda a luz da arte ou natureza: é jus portanto,
A vitória e o louvor pertencem ao meu canto.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/30196/17/pb-shelley-e-seus-poemas-da-era-do-romantismo-ingles-parte-ii





domingo, 14 de agosto de 2016

O MESTRE E MARGARIDA DE MIKHAIL BULGÁKOV, UM CLÁSSICO DO ROMANCE RUSSO

“No romance, a Moscou de 1929 é visitada pelo diabo, com o nome de Woland.”

A ESCRITA DO ROMANCE
Mikhail Bulgákov (15 de maio de 1891, Kiev – 10 de março de 1940, Moscou) foi um escritor russo da primeira metade do século XX. Ele é considerado um dos maiores escritores russos modernos, e também atuou como dramaturgo. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o romance fantástico O mestre e Margarida, que se trata de uma narrativa revolucionária, na qual se conta a vinda de uma visita estranha na Moscou comunista dos anos 1930, e que era nada mais que a figura do diabo. O mestre e Margarida foi publicado postumamente em 1966 e 1967, e outra obra que podemos destacar de Bulgákov é a novela satírica Coração de Cão, que foi feita em 1925, mas só  foi publicada na Rússia em 1987, obra na qual Bulgákov critica o sistema social comunista.
Sua obra mais famosa, O mestre e Margarida, é um trabalho de grandes proporções, um romance monumental, que demorou mais de doze anos, entre 1928 e 1940, para ser concluído. Em 1939, já cego, Bulgákov teve que contar com a ajuda de sua mulher Yelena, na tarefa de conclusão do romance, a quem ditou os capítulos finais. O mestre e Margarida foi publicado pela primeira vez em 1966.
O apartamento do escritor, em Moscou, e no qual se passa parte da trama de O mestre e Margarida virou local de culto. No final da década de 2000 foi transformado no Museu Bulgákov. Tal lugar que ganhou um dos aspectos fantásticos principais do romance, que na trama era uma espécie de lugar maldito, lugar no qual todos que iam morar lá, logo depois desapareciam misteriosamente.
O mestre e Margarida é um romance que tem muitas tramas, que são centradas numa visita do diabo a Moscou no início da década de 1920, em plena era stalinista. Bulgákov começou a escrever o romance em 1928. No entanto, em vista da censura, este primeiro manuscrito foi destruído em março de 1930 pelo autor, que o queimou em um forno, quando soube que outro livro seu, de conteúdo cabalístico, havia sido banido. O trabalho foi retomado em 1931, e em 1935 Bulgákov passou num Festival de Primavera, o que pode ter contribuído para a sua ideia do baile que tem no romance, que era uma festa de satanás para seus convidados.
A segunda versão, por conseguinte, foi terminada em 1936, e nesta altura, todas as tramas do romance já estavam bem resolvidas, o romance já estava então, de fato, pronto. Embora ainda tenha tido um terceiro rascunho que Bulgákov concluiu em 1937. Por fim, o escritor só parou de trabalhar no romance, já na sua quarta versão, a qual concluiu em 1940, quatro semanas antes de sua morte. Sendo o romance completado por sua esposa em 1940-1941.
PUBLICAÇÃO
No histórico de publicações de O mestre e Margarida temos um caminho difícil e bastante acidentado, uma vez que o contexto político soviético era bem complicado em matéria de liberdade de expressão e pensamento, tendo o romance uma versão censurada (12% do texto fora eliminado e muitas outras partes foram modificadas) que foi publicada na revista Moscou (n 11, 1966, e n1, 1967). A versão integral, por sua vez, teve de ser distribuída em cópias clandestinas, publicada em samizdat. A primeira versão integral, por fim, foi publicada em Frankfurt, em 1973, pela editora Posev.
A primeira versão integral que foi publicada na Rússia, por sua vez, foi realizada pela revista Khudojestvyennaya Lityeratura em 1973. E esta era uma versão baseada no texto pronto em 1940. Em 1989, por conseguinte, a especialista Lidiya Yanovskaya compôs uma nova versão oficial, com base em manuscritos do autor. E esta pode ser, seguramente, uma das versões finais e agora oficiais do romance de Bulgákov.
Algumas das tramas do livro já haviam aparecido em contos de Bulgákov. O Museu Bulgákov, que tem muito deste romance como inspiração, inclusive sendo o apartamento maldito que aparece no romance, e que foi moradia do escritor na vida real, na rua Sadôvaia, em Moscou, teve um fato desagradável, pois foi vandalizado em 22 de dezembro de 2006, por fanáticos religiosos que alegavam ser O mestre e Margarida um romance satanista.
A NARRATIVA DO ROMANCE
No romance, a Moscou de 1929 é visitada pelo diabo, com o nome de Woland. Em seu séquito estão Korôviev ou Fagote, o enorme gato negro Bieguemot ou Behemot (em russo, significa tanto a criatura bíblica quanto hipopótamo), Azazello, Abadon e a bruxa Hella, que vivia nua.
A epígrafe do romance é tirada do Fausto de Goethe, e que certamente inspirou a criação do personagem feminino de nome Margarida, a qual em Fausto encanta o próprio com a sua pureza, e Fausto, também com esta epígrafe, é uma das inspirações explícitas do romance, epígrafe que diz: "-...mas, quem é você, afinal? - Sou a parte da força que quer sempre o mal, mas sempre faz o bem" (Fausto, Goethe).
O romance, em plena Moscou stalinista, tem como um dos personagens principais, o “camarada” apelidado Mestre, o qual escreveu um romance sobre Pôncio Pilatos, narrando com detalhes de um romancista realista russo o calvário de Yeshua ha-Notzri (Jesus de Nazaré, em hebraico), até sua condenação de ser pendurado na cruz e morto, com a tentativa do promotor de Yerushalaim (Jerusalém), o próprio Pilatos, de convencer Roma que aquele homem messiânico mereceria um salvo-conduto de Páscoa. E com tal Yeshua sendo tomado muitas vezes como um pobre diabo ou apenas um louco inofensivo. Quando a história é levada para a aprovação oficial, ela é massacrada pela crítica adepta do regime. “O que o camarada está pensando? Deu para escrever sobre crendices agora?”, provavelmente comentam os membros da Massolit, espécie de secretaria responsável pela publicação de livros no regime soviético. Com a negativa, o Mestre decide queimar seu romance na lareira de casa. Mas temos a fala do diabo, que é uma das citações famosas do romance O mestre e Margarida: “manuscritos não ardem”.
CONTEXTO POLÍTICO
O mestre e Margarida, iniciado em 1928, que foi finalizado doze anos depois, semanas antes da morte do escritor, tem na sua escrita também a narrativa de uma verdadeira epopeia, pois, para terminar o livro, Bulgákov apareceria como um opositor do regime, apesar de até ser apreciado por Stálin como escritor, pois Bulgákov, durante a revolução de 1917, lutara pelo exército branco, contrarrevolucionário, o que representava uma condenação à categoria de escritor maldito depois que os vermelhos revolucionários tomaram o poder. Portanto, o caso de Bulgákov era o extremo oposto de Gorki, o romancista dos bolcheviques. Pois Bulgákov, por seu turno, não se furtava de apontar as contradições que enxergava na sociedade russa, e satirizar tal contexto político e social, mas isto revestido de uma tendência para a literatura fantástica – pois assim como fizera Gógol durante o século XIX, tendo o regime tzarista como alvo –, mesmo tendo pela frente um elenco de problemas para conseguir publicar as suas obras, o que refletiu diretamente na verdadeira peripécia que foi ver O mestre e Margarida publicado, o que só se deu já depois da morte de Bulgákov.
OS PERSONAGENS
Com essa literatura fantástica, potencializada pelo sarcasmo, Bulgákov tornou viável uma visita do diabo e sua comitiva à ortodoxa Moscou do final da década de 20, onde deixou marcas que jamais seriam apagadas, nem mesmo pela censura oficial. O séquito satânico é composto por Behemoth, um gato preto que anda sobre duas patas, adora vodca e espetáculos exagerados; Korôviev, o ardiloso relações públicas do grupo; Azazello, um ruivo atarracado de ombros largos, caninos à mostra e feiúra indescritível; e Hella, "uma jovem totalmente nua, ruiva e com ardentes olhos fosforescentes". O enredo traz Woland, que é ninguém menos que o Diabo, visitando Moscou. Com ele, andavam Korôviev (ou Faggot), Behemot, que é um gato gigante que fala e tem uma personalidade um tanto forte, Azazell, Abadon e Hella, uma bruxa. Essa trupe visita vários personagens e lugares na Rússia, deixando um rastro de bagunça e mistério.
A presença de Woland (o diabo) no romance está ligada a acontecimentos inexplicáveis e tramas que levam alguns dos personagens, como o poeta Bezdômni, à loucura, e a atuação de Woland e sua trupe no Teatro de Variedades aparece, ao longo da trama, como um número de hipnotismo, o qual atinge uma parcela da população de Moscou, portanto, temos os temas da loucura e do hipnotismo, e isto relacionados a um Woland que surge no romance tanto como o diabo como um mago negro. Há uma ideia de misticismo que ronda o romance, o que se pode ver na transformação de Margarida em bruxa na segunda parte do romance, que é uma de suas passagens mais fantásticas, a qual julgo até exagerada, mas que fazem parte da ambientação surreal do romance, que naturalmente tem trechos hiperbólicos de pura ruptura com o realismo comum, pois as descrições de Bulgákov, quando se trata do aspecto fantástico do romance, não poupa o leitor de solavancos, como no voo de Margarida com sua figura mágica pelos céus da Rússia.
A CRÍTICA DE BULGÁKOV E A TRAMA DO ROMANCE
A obra traz, na sua trama, de forma alegórica, também críticas acerbas ao governo stalinista. Já que Bulgákov chegou a queimar o primeiro manuscrito, com medo da censura, mas não retirou as críticas - subjetivas ou não. Durante toda a história, existe no romance um humor negro e reflexões que, mesmo sendo debitadas simbolicamente no contexto da Rússia soviética de Stálin, ganham caráter atemporais, são críticas universais de um romance que entrou para a História da literatura russa e mundial, pois tais críticas atravessam a contemporaneidade ainda relevantes.
Além de Woland, o Diabo, e sua trupe causando transtornos em Moscou e pela Rússia afora, o romance apresenta uma trama paralela, que é a de Jesus Cristo, que na história é chamado de Jesua (ou Yeshua) Ha-Nozri e Pôncio Pilatos. Esse núcleo surge do romance citado no livro, que é o escrito pelo principal personagem, que é o Mestre. O Mestre se torna o outro núcleo, que conta a sua história (dentro de um hospício) a Bezdômni (que aparece no início do livro, sendo vítima de Woland e sua gangue). Margarida (ou Margarita), sua amante, também faz parte desse núcleo, se tornando parte principal na trama, já na segunda parte do livro, junto com o romance sobre Jesus e Pilatos.
OS ESTILOS DO ROMANCE
As duas partes da narrativa são revezadas por capítulos do romance escrito pelo Mestre, o que tem como efeito um contraste de estilo no romance, o que é uma técnica de Bulgákov de alcance muito amplo, pois aqui o escritor comprova a sua plena consciência quando faz literatura fantástica e quando faz relato realista, pois enquanto a prosa de Bulgákov é mais solta e interativa, sempre convocando o leitor, o romance do mestre apresenta o formato mais tradicional, com uma descrição fiel da Jerusalém bíblica – o que era reflexo de um trabalho de pesquisa extenso de Bulgákov –, com diálogos austeros e profundos, completamente diversos da trama fantástica que apresenta um estilo mais trivial e livre, o qual domina o resto do romance.
Com uma trama que apresenta muitas vezes um caráter que pode ser interpretado como autobiográfico, O mestre e Margarida também pode ser entendido como um romance que apresenta reflexões filosóficas e humanas, mesmo com seu conteúdo predominantemente fantástico, o que passa por questões que envolvem temas como a perseverança e a bondade, o que vemos nos diálogos mais austeros entre Jesus e Pilatos, por exemplo. E em momentos distintos da obra, Jesus e o diabo expressam, ironicamente, uma mesma verdade do romance: não existe Bem ou Mal absolutos; e uma ideia que é apresentada por Woland no romance, que é a de que a covardia é a pior das fraquezas humanas.
A segunda parte do romance apresenta caráter bem mais denso que a primeira parte, pois esta ainda era uma narrativa divertida, sendo marcada pelas críticas, humor e histórias insanas e macabras das peripécias da comitiva de Woland, o diabo. A segunda, então, retrata o livro do Mestre sobre Jesus e Pilatos, que tem diálogos mais estruturados na  forma tradicional do romance clássico e realista.
AS INTERPRETAÇÕES DO ROMANCE
Por sua vez, há diversas maneiras de interpretação do romance, pois por possuir temática em que domina o fantástico, a linguagem muitas vezes alegórica revela ao bom leitor tanto uma comédia de humor negro, como uma profunda alegoria místico-religiosa, e que é também uma sátira contundente da Rússia soviética e stalinista, mas que, a ver o episódio do número de Woland e sua trupe no Teatro de Variedades, por exemplo, é também uma denúncia da superficialidade da sociedade russa da época, e que tem ecos até hoje, se falarmos, por exemplo, da ganância, da mediocridade, da hipocrisia e da ignorância que ainda persistem em nosso tempo, sendo O mestre e Margarida, ainda um romance atualíssimo e relevante.
E mesmo com crítica à Rússia soviética, não temos no romance a ideia de nostalgia pelos tempos da velha Rússia tzarista, que por sinal só é mencionada uma única vez, pelo próprio diabo, ou Woland, o mago negro. E outra interpretação possível é ver o romance como de formação, envolvendo Ivan Bezdômni que se torna, de poeta medíocre, a discípulo do Mestre. E Woland não é visto em aberta oposição a Deus, mas como o ser que pune a mesquinhez e a covardia (é frequentemente dito no livro que a covardia é a pior das fraquezas).
E a mais famosa citação do livro é "os manuscritos não queimam", é uma referência à censura da União Soviética dos anos trinta, e tem cunho autobiográfico para Bulgákov, pois os diários do escritor foram apreendidos e depois devolvidos, ocasião em que o romancista os queimou. Anos depois, soube-se que, enquanto apreendidos, eles haviam sido copiados. Além disso, os primeiros manuscritos de O mestre e Margarida foram queimados por medo dessa censura. Ou seja, parece bem difícil apagar a História, ainda bem.
AS DUAS TRAMAS DO ROMANCE E SUAS INFLUÊNCIAS
Bulgákov usa estilos diferentes em cada trecho do livro. Os capítulos que se passam em Moscou têm um caráter de vivacidade, humor negro, e diversão em tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém, que é o romance citado do Mestre na trama, são de estilo hiper-realista e tradicional. Podemos ver que o tom do romance muda do jargão dos burocratas soviéticos, rapidamente para o sarcasmo, o inexpressivo, o lírico, conforme a cena, quando falamos sobretudo dos solavancos apresentados pela comitiva de Woland. Às vezes o narrador pode ser onisciente, e outras vezes aparece colocando o leitor como parte da cena. Diversos personagens são colocados, durante o romance, no centro da cena, o que pode ser interpretado como uma influência direta do grande romancista russo Tolstói. E o romance pode ser caracterizado sobretudo como uma narrativa de horror macabro e farsa de humor negro.
Por fim, o romance é fortemente influenciado pelo Fausto, tanto o de Goethe como pela ópera de Charles Gounod. E Gógol e Tolstói influenciaram muito o estilo. E Woland ou Voland é uma variante alemã para diabo, utilizada nos originais do Fausto de Goethe. Abaddon é um demônio cujo nome significa destruição. Azazello vem de Azazel, nome hebraico que significa "a força de Deus". Vários mitos o colocam como senhor das cabras. Azazel foi traduzido como "bode expiatório" na Bíblia do Rei James. E Bieguemot é um mostro bíblico que muitos identificam com o hipopótamo.
INFLUÊNCIA DO ROMANCE NA CULTURA POP
Apesar de sua história acidentada, envolvendo dificuldade de publicação e censura, o romance O mestre e Margarida foi tão importante, que até influenciou a cultura pop, pois tem um poder que não tem apenas como fato o de ser considerado por críticos literários um dos melhores romances do século XX, mas que transpôs fronteiras como fonte de inspiração para a música Sympathy for the Devil, da banda inglesa Rolling Stones, a qual foi inspirada no romance e no personagem de Woland, assim como para a confecção de os Versos Satânicos, que levaram o Aiatolá Khomeini a proferir uma ordem de execução contra o escritor Salman Rushdie; Pilates, canção do grupo americano Pearl Jam, também tendo como inspiração o romance, como também Love and Destroy, da banda Franz Ferdinand, música que teria como base o baile de despedida do diabo em Moscou.  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/30006/17/o-mestre-e-a-margarida-de-mikhail-bulgakov-um-classico-do-romance-russo

Link recomendado: música "Sympathy for the Devil (Rolling Stones): https://www.youtube.com/watch?v=e5AIisWNvM4

domingo, 7 de agosto de 2016

P. B. SHELLEY E SEUS POEMAS DA ERA DO ROMANTISMO INGLÊS – PARTE I

“Percy Shelley inovou na poesia ao conceber uma escrita de sucessão de imagens rápidas”

INTRODUÇÃO
Percy Bysshe Shelley (Field Place, Horsham, 1792 – golfo de La Spezia, 1822), foi um dos grandes poetas de língua inglesa do início do século XIX, e teve a sua obra poética marcada pelo romantismo, sua família descendia da velha nobreza, podendo-se fazer uma interessante genealogia de sua ascendência familiar. Percy Shelley, embora tenha sido agraciado por uma vida confortável, teve uma vida breve e conturbada, repleta de idealismo, o que o fez por vezes um filantropo, e também teve a sua vida marcada por ações intempestivas.
Percy Shelley inovou na poesia ao conceber uma escrita de sucessão de imagens rápidas, e que tinham também um caráter vago e de meios evanescentes e que lhe davam a visão de coisas ilusórias, própria do romantismo, mas que no seu caso anteciparam muitas imagens que iriam aparecer com mais rigor já no simbolismo. Percy Shelley suscitava em sua poesia imagens gerais ou genéricas como a névoa, o rio ou o tempo, e como possuía um conhecimento científico, sobretudo de química, sua poesia marcava até com certa exatidão também fenômenos naturais, com a clareza de um cientista, só que na forma poética que lhe era própria.
Tal riqueza científica se pode ver no poema “Ode ao Vento Oeste” (1819), um de seus maiores momentos em sua obra de poesia. Seus poemas evocam e traduzem, na forma estética, a tensão mais que conhecida do espírito entre a paixão e a razão, e a marca física e existencial entre a permanência da natureza e a fluidez da vida, definindo nestes contrários aparentes a dinâmica da poesia, seu ritmo, que era espírito estético, de um lado, e conhecimento da natureza, de outro.
E Percy Shelley também foi marcado na sua busca de um símile da ideia, com base em Platão, de que existia uma ordem eterna na Beleza, no Amor e na Justiça, e isto conduzido por um poeta que era ateu, mas que tinha intuído sua chispa de eternidade na própria poesia, e tal essência era a que os homens sentem, mas são incapazes de descrever, como se dá no poema platônico por excelência “Hino à Beleza Intelectual”, de 1816.
Shelley ficou conhecido também por manter total repulsa a qualquer forma de despotismo, e assim como William Blake, interpretava a universalidade da religião, dos sistemas políticos e dos códigos morais como potências tirânicas e medíocres. Percy Shelley tinha uma consciência universal e muitas vezes social, mesmo que tenha tido uma origem abastada, e uma infância maravilhosa repleta de conforto e cercado pela natureza.  
DADOS BIOGRÁFICOS – PARTE I
Field Place, onde Percy passou a infância, era um lugar encantador, ficando a casa em parque com grandes árvores, um ribeiro e um lago, finos jardins e pomares. No “jardim americano” havia rododendros, pinheiros de vários tipos, cedros, faias, bétulas. O que refletia na infância de Shelley como uma existência repleta de aventuras e profundo conhecimento e relação com a natureza. Belos ou selvagens, secretos ou cheios de sol, essas clareiras e arvoredos e córregos tinham muito a oferecer a uma criança sensível, fornecendo-lhe imagens para suas concepções posteriores. Havia muitos pássaros, borboletas e mariposas, e até uma águia dourada apareceu na infância de Percy, em Horsham, onde foi abatida e tornou-se notícia de jornal.
Percy Shelley recebeu do pai uma educação rigorosa e erudita. Já aos seis anos o menino ia aprender latim, e em seus dias de folga o pai lia com ele os clássicos e outros livros, com a expectativa de fazê-lo um bom e bem educado erudito. Timothy estava preparando o filho não apenas para traduzir Platão ou ser um autor consumado, mas para brilhar na vida pública e social, onde a oratória bem ornada, a elegância de expressão pronta para todas as ocasiões, e uma referência ao exemplo e sabedoria antigos nos assuntos de reinos e estados eram um requisito contemporâneo. Percy também estava sendo preparado para ser um fazendeiro capaz (nos papéis de casamento, aliás, ele se diria “fazendeiro”). A esse tempo, girando pelas cercanias, auxiliava os necessitados, com dinheiro seu ou tomado de empréstimo.
Percy era popular entre os irmãos principalmente por lhes contar histórias do reino das maravilhas e por povoar de criaturas fantásticas os arredores de Field Place e o próprio local. Sua primeira composição em inglês, sobre “um gato em apuros” data dessa época. Consta mesmo que imprimiu alguma coisa em Horsham a expensas do avô mas a obra desapareceu, assim como uma peça que fez com Hellen.
Percy foi enviado a uma escola particular, a Sion House Academy, em Brentford, e nela se ensinava latim, grego, francês, composição, aritmética, geografia, além de elementos de astronomia. Recebido como calouro, Percy reagiu com escárnio e solidão. Percy Shelley, por seu turno, vivia lendo novelas de terror, e nessa ocasião, também, foi que intuiu a awful Loveliness, a “terrível Beleza”, e começou a batalhar contra o despotismo, dentro e fora dele. Queria ser, como escreveu, “sábio, justo, livre e indulgente”, batalhando contra a tirania dos egoístas e dos fortes.
Em julho de 1804, Percy vai para Eton, que era uma escola secular, situada na vizinhança do castelo de Windsor e do Tâmisa, onde se tornou fag, uma espécie de calouro factótum, de um futuro juiz no Ceilão, atual Sri Lanka. O reitor era o Dr.Goodall, que foi substituído em 1809 por John Keate. Com ele Shelley teve um professor de clássicos, que distinguiu nele a faculdade de metrificar em latim, aplicando-lhe o verso de Ovídio. Et quod tentabam dicere versus erat (E o que eu tentava dizer saía em verso).
Shelley, por outro lado, não concordava com o sistema imposto aos fags e a ele resistiu. Conheciam-no na escola, onde estudou de Horácio e Virgílio a Homero, como “Shelley, o louco”, ou “Shelley, o ateu”. O primeiro romance de Percy, Zastrozzi (1810), influenciado pela “escola do terror”, foi publicado pouco antes de deixar Eton, seguindo-se Original Poetry by Victor and Cazire, também de 1810, que escreveu de parceria com sua irmã Elizabeth, e em 1811 publicou outro romance da mesma tendência, St.Irvyne or the Rosecrucian, tudo isso obra de sua fase imatura e incipiente.
Em seguida, Shelley registrou-se em abril de 1810 no University College, Oxford, regressou a Eton, e começou a residência em Oxford no mês de outubro. Lá se fez amigo de outro estudante, Thomas Jefferson Hogg, tendo essa amizade subsistido por longos anos. Tinha Shelley queda por experiências de química, poesia, filosofia e estudos clássicos, e publicou logo em Oxford os versos de Posthumous Fragments of Margaret Nicholson (1810). Hogg e Shelley eram céticos em matéria de religião, derivando para o ateísmo. Em 1811 Shelley publicou anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, que enviou aos bispos e outras personalidades com um convite para discussão. Intimado pelas autoridades escolares a dizer se o folheto era ou não dele, Shelley calou-se, razão por que foi expulso de Oxford, junto com Hogg.
Shelley e Hogg ganharam Londres, onde o poeta logo ficou sozinho, pois Hogg foi preparar-se para o notariado em York. Como não chegou a acordo com o pai, Shelley por certo tempo teve de socorrer-se de pequenas quantias fornecidas pelas irmãs, sendo às vezes portadora uma formosa colega delas, Harriet Westbrook, filha de um taverneiro aposentado e mais ou menos rico. Cismou o poeta de converter a moça, que era metodista, às suas próprias convicções. Shelley poucos meses antes, em Field Place, cortejara sua prima Harriet Grove, mas esta se alarmou com as posições anticonservadoras do poeta e veio a casar-se logo com outrem.

PROMETEU LIBERTADO: ATO II – CENA I:
O poema abre com versos como: “Das rajadas do céu, de todas, tu desceste,/Como um espírito, ou um pensamento, faz/Indesejado o pranto afluir aos córneos olhos/E palpitar o desolado coração,/Que deverá aprender a repousar: desceste/No berço das tormentas: Primavera, acordas!” E segue: “Virias ao raiar do sol, doce irmã minha,/Há muito desejada e tão morosa, vem!” O poeta na sua peça poética de Prometeu (o titã que roubou o fogo dos deuses e deu aos homens, sendo punido por isso) tem aqui na primavera seu chamado, esta desce à terra, Shelley sabe que dos cumes pode surgir a grande resposta, e ele a evoca, e o poema vem com versos finais, que são: “Como desmaia a vaga, e como os fios ardentes/Da entretecida nuvem se desfazem no ar;/Perdeu-se; e em picos de uma neve como nuvem/Tremula a rósea luz do sol; não ouço a música/Eólia de suas plumas, verdes como o mar,/Abanando a aurora carmesim?”. Shelley ouve a música, que se desfaz no ar, a primavera de seu sonho é um vento, que ele pergunta, ao fim, se balança a aurora, o poeta não tem seu socorro, ele diz vem, mas a poesia e suas imagens são evanescentes, assim como os sonhos que lhe carregam. Por isso o poema se encerra aberto, com uma pergunta fundamental.
HELLAS: CORO FINAL:
O poema inicia com bastante esperança, é um poema de tom visionário, de um novo renascimento da Hélade, que vem com os versos: “No mundo a grande idade se inicia novamente,/Voltam as quadras redouradas,/Renova a terra, como uma serpente,/Suas ervas de inverno fatigadas:” E aqui o sonho e a esperança têm nome: “Uma Hélade mais fúlgida levanta os montes/Da onda mais serena e mais louçã;/Faz, um novo Peneu, rolarem suas fontes/Ante a estrela da manhã.”. E segue: “Um outro Orfeu modula novamente,/E ama, e chora, e morre cruelmente./Um novo Ulisses deixa uma vez mais/Calipso pela terra de seus pais.” Novo poeta surge? Um outro Orfeu e um novo Ulisses, afirma Shelley, que diz o nome da luz universal da cultura ocidental: “Uma outra Atenas se erguerá”. Este é o sopro de vida, a vida grega e ateniense refeitas, para que o poeta rogue em seu fio de esperança e visão do futuro: “Oh cessa! devem o ódio e a morte inda volver?/Cessa! tem o homem de matar e de morrer?”. Funda utopia esta de cessar a morte.
OZIMÂNDIAS:
O soneto tem imagens clássicas, e é o retrato da prepotência arrogante, de um Ozimândias que se arvora Rei dos Reis, a queda se dá em seus pés na areia: “Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:/Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,/Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,/Afundando na areia, um rosto já quebrado,/De lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:” A posição da fera está aqui: “No pedestal estas palavras notareis:/“Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:/Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”/Nada subsiste ali. Em torno à derrocada/Da ruína colossal, a areia ilimitada/Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.” O colosso de sua febre, e seu sonho que afunda na areia, duas pernas de pedra, a dizer tenho grandes minhas obras, assim elevado em meu pedestal, desesperai.
ODE AO VENTO OESTE:
Momento áureo da poesia de Percy Shelley: “Selvagem Vento Oeste, ó tu, sopro do outono,/Invisível presença de que as folhas mortas/Fogem como fantasmas diante de algum bruxo,”. Que segue os versos naturais, de um fundo poético e científico, de uma visão do poeta conhecedor do vento e de seu destino, o vento oeste: “O clarim sobre a terra sonhadora e encha/De cores e perfumes a planície e os montes,” Este vento ele chama: “Espírito selvagem que por toda a parte/Te moves; destruidor e salvador, oh escuta!”. A natureza aparece aqui em esplendor: “Tu em cuja corrente, em meio à agitação/Do íngreme céu, as nuvens caem como folhas/Desses confusos ramos – Firmamento e Mar -,”. E segue o vento oeste e a visão de Shelley: “De teus vapores: atmosfera espessa de onde/Chuva, fogo e granizo saltarão: oh, escuta!” O vento em seu sentido acorda: “Tu que acordaste de seus sonhos de verão/O azul Mediterrâneo, onde este era embalado/Pelo rumor de suas correntes de cristal,”. E o poeta deseja a fusão com o vento oeste, para se livrar de sua sina mortal: “Se eu fosse alguma folha morta, que levasses;/Se eu fosse a nuvem célere a voar contigo;” (...) “eu não teria/Lutado assim contigo, a suplicar aflito./Como se eu fosse onda, nuvem, folha, oh ergue-me!” (...) “Alguém igual a ti: rápido, altivo, indômito.” O poeta dá sentido a seu desejo, ele bem queria ser o vento oeste, este que tem em si todas as potências que falta ao poeta sonhando em seu espírito este ser completo que ele vê no vento, quando diz, em versos: “Tua lira é a floresta, e que eu também o seja;” (...) “Faze-te, bravio espírito,/O meu espírito! Ó impetuoso, sê eu próprio!” (...) “Leva meus pensamentos mortos pelo mundo,/Quais folhas murchas, e haverá um renascimento!/E, pela força encantatória destes versos,/Espalha a minha voz por entre a humanidade,”. O vento aqui se encerra como o mensageiro da obra de Percy Shelley para a humanidade. É a poesia que lhe dá potência, e é na poesia que Shelley pode ser o próprio vento oeste.

PROMETEU LIBERTADO: ATO II – CENA I

Das rajadas do céu, de todas, tu desceste,
Como um espírito, ou um pensamento, faz
Indesejado o pranto afluir aos córneos olhos
E palpitar o desolado coração,
Que deverá aprender a repousar: desceste
No berço das tormentas: Primavera, acordas!
Filha de muitos ventos! Tão subitamente
Tu chegas, tal como a recordação de um sonho
Que é triste agora porque foi encantador,
Tal como o gênio ou alegria que se eleva
Como da terra e veste de umas nuvens áureas
O deserto da nossa vida.
A quadra é esta, é este o dia, a hora é esta;
Virias ao raiar do sol, doce irmã minha,
Há muito desejada e tão morosa, vem!
Como vermes de morte arrastam-se os momentos!
O ponto de uma estrela branca ainda tirita
Fundo na luz laranja de manhã crescente,
Além dos montes púrpura: através da fenda
Feita na bruma pelo vento, o lago escuro
Reflete-a; esvai-se agora; brilha novamente,
Como desmaia a vaga, e como os fios ardentes
Da entretecida nuvem se desfazem no ar;
Perdeu-se; e em picos de uma neve como nuvem
Tremula a rósea luz do sol; não ouço a música
Eólia de suas plumas, verdes como o mar,
Abanando a aurora carmesim?

HELLAS: CORO FINAL

No mundo a grande idade se inicia novamente,
Voltam as quadras redouradas,
Renova a terra, como uma serpente,
Suas ervas de inverno fatigadas:
O céu sorri, e fés e impérios raiam,
Como restos de sonhos que se esvaiam.

Uma Hélade mais fúlgida levanta os montes
Da onda mais serena e mais louçã;
Faz, um novo Peneu, rolarem suas fontes
Ante a estrela da manhã.
Onde mais belo Tempe enflora aí estão a cochilar
As jovens Cíclades em mais ensolarado mar.

Fende o mar alto uma Argo mais magnificente,
Carregada com espólio mais recente;
Um outro Orfeu modula novamente,
E ama, e chora, e morre cruelmente.
Um novo Ulisses deixa uma vez mais
Calipso pela terra de seus pais.

Oh não descrevas mais Troia em porfia,
Se o livro da ruína a terra deve ser!
Nem com a raiva laiana mescles a alegria
Que sobre os livres eis a alvorecer.
Ainda que renove, Esfinge mais sutil,
Fatais enigmas: Tebas nunca os soube, hostil.

Uma outra Atenas se erguerá
E para mais remota idade
Tal como o ocaso ao firmamento, legará
O resplendor de sua mocidade;
E deixará, se nada tão brilhante há de viver,
O que o céu pode dar e a terra receber.

Saturno seu repouso longo e Amor o seu
Hão de romper, melhores, mais luzidos,
Que todos os caídos, Um que a si se ergueu,
Muitos não vencidos:
Pranto votivo e flores-símbolos no altar,
Nem o ouro nem o sangue aí hão de mostrar.

Oh cessa! devem o ódio e a morte inda volver?
Cessa! tem o homem de matar e de morrer?
Oh cessa! não esgotes a urna, até a lia,
Da amarga profecia.
O mundo se cansou de seu passado, sim,
Que possa ele morrer ou descansar por fim!

OZIMÂNDIAS

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:
Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,
Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,
Afundando na areia, um rosto já quebrado,
De lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:
Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia
Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,
A mão que as imitava e ao peito que as nutria.
No pedestal estas palavras notareis:
“Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:
Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”
Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
Da ruína colossal, a areia ilimitada
Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.

ODE AO VENTO OESTE

I
Selvagem Vento Oeste, ó tu, sopro do outono,
Invisível presença de que as folhas mortas
Fogem como fantasmas diante de algum bruxo,

Pálidas, amarelas, pretas ou vermelhas
De febre, pestilentas multidões; ó tu
Que as sementes aladas levas ao seu leito

De inverno, onde repousam frias e prostradas,
Como cadáveres nos túmulos, até
Que a tua irmã azul da primavera toque

O clarim sobre a terra sonhadora e encha
De cores e perfumes a planície e os montes,
Levando aos pastos do ar rebanhos de botões;

Espírito selvagem que por toda a parte
Te moves; destruidor e salvador, oh escuta!

II
Tu em cuja corrente, em meio à agitação
Do íngreme céu, as nuvens caem como folhas
Desses confusos ramos – Firmamento e Mar -,

Anjos da chuva e do relâmpago, as madeixas
Da tempestade que está vindo se derramam
Na superfície azul de tua vaga aérea,

Desde a fímbria sombria do horizonte ao zênite,
Como o cabelo erguido, a rebrilhar, da fronte
Da Mênade bravia, Tu, cântico fúnebre

Do ano que está morrendo, para o qual esta última
Noite será o domo de um sepulcro enorme,
Abobadado com a força congregada

De teus vapores: atmosfera espessa de onde
Chuva, fogo e granizo saltarão: oh, escuta!

III
Tu que acordaste de seus sonhos de verão
O azul Mediterrâneo, onde este era embalado
Pelo rumor de suas correntes de cristal,

Na angra de Baía, ao pé de ilhas de pedra-pomes,
E via em sonho velhas torres e palácios
No dia mais intenso da onda estremecerem,

Recobertos de musgo azul e de tão doces
Flores, que desmaiamos ao pensarmos nelas!
Tu, a cuja passagem se abrem em abismos

As planícies atlânticas, enquanto embaixo
As flores submarinas e os limosos caules
De folhagem sem seiva a voz te reconhecem

E de repente empalidecem de pavor
E tremem e despojam-se de todo: oh escuta!

IV
Se eu fosse alguma folha morta, que levasses;
Se eu fosse a nuvem célere a voar contigo;
Uma onda ofegando sob o teu poder

E partilhando o impulso dessa tua força,
Só menos livre do que tu, ó indomável!
Se eu fosse igual ao que já fui na meninice,

O companheiro dessas fugas pelo céu,
Quando vencer tua celeste rapidez
Em nada parecia um sonho; eu não teria

Lutado assim contigo, a suplicar aflito.
Como se eu fosse onda, nuvem, folha, oh ergue-me!
Nos espinhos da vida eu caio! Estou sangrando!

Um grave fardo de horas encadeou e verga
Alguém igual a ti: rápido, altivo, indômito.

V
Tua lira é a floresta, e que eu também o seja;
Ser como as dela as minhas folhas caem, que importa!
O tumulto de tuas fortes harmonias

Tirará de nós dois profundo som de outono,
Doce mas triste. Faze-te, bravio espírito,
O meu espírito! Ó impetuoso, sê eu próprio!

Leva meus pensamentos mortos pelo mundo,
Quais folhas murchas, e haverá um renascimento!
E, pela força encantatória destes versos,

Espalha a minha voz por entre a humanidade,
Como cinzas e chispas de lareira acesa!
Para a terra que dorme, sê, com estes lábios,

Oh! a trombeta de uma profecia! Vento,
Se chega o inverno, estará longe a primavera?

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/30001/17/pb-shelley-e-seus-poemas-da-era-dos-romantismo-ingles-parte-i