PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

FERINO MAR DE AZUL

Se uma vaga estoura d`além,
eu sigo a poesia e o canto
com fundos d`alma
encanto.

Se tenho registros da flora,
cantos em demanda todo
ao canto aflora.

Vinho incansável, e o reto odor
das linhas traçadas, os calmos rios
em dores castanhas, os azuis pelo ar,
e o céu como um sonho também livre,
por entre a terra que vigia o lírio.

Se uma onda arrebenta na pedra,
o in loco das práticas de arte
fazem castelos de rocha púrpura,
como uma nave que afunda
na boca e no ventre do mar.

26/09/2016 Gustavo Bastos

O ESPASMO DA COR

Quebranta, e o lume estala frio,
um âmbar qualifica a moldura,
em cada costa um pincel,
e de través a cor que a tela conquista.

Qual rasgo, um canto de dor, fere alma
e o recanto do artista, em um pincel
cabe o lustro de quasares,
como uma galáxia particular,
toda empapada de tinta.

Se o frio e o gelo, e os escuros tons
suscita, e o lume recobre a dança,
testa a cor ao olho clínico em toda face,
e plana as medidas tal esquadro.

Com um tilintar de roxo, e uma rubra azul
de amarelo ácido, quantifica a sombra
por sobre a instalação, e os ferros retorcidos
da paisagem, e um bom cantor atrás da cena,
o fauno, eis, com harpa e adoração,
como num Hieronymus Bosch,
a visão infernal, iconoclasta e lúbrica.

Queda sob luz mortiça, e o quadro maneirista
ou austero, de qual cor a cor se emula,
e os sons quasares pintam a galáxia de dentro,
e os labirintos de minotauro
cercam a cena em fundo espiralado.

Vago qual vaga, e a cor biruta
penteia o ambiente verde vivo,
e se uma flor se espanta,
o pintor a cobre de violáceo.

Voltas de um adorador, esquenta
o vermelho ocre tal marrom barro
de brio, cor do coração em fel,
cor do coração em paixão,
tal o susto e a pensata.

Vigor, no rés-do-chão, pinta o
branco lume vagar de bruma,
eis o estoico pintor,
na boca do pincel.

26/09/2016 Gustavo Bastos

domingo, 25 de setembro de 2016

DIA DE VERÃO

Minutos de silêncio e uma resposta no abajur,
perto dos romances de dostoiévski
passam os meus planos geométricos,
as astúcias e burrices, os quadros sonoros
de massas coloridas, os risos de bêbado
no peitoril das noites ardentes,

vejo o recreio da minha janela,
claras nuvens também vejo,

viajo de maconha com uma ideia de câmara escura,
fotograma, direção de arte nos ombros
de um motor infalível,
eis, a ideia martelando à mil,
e uma coisa de duzentas quilometragens
no ar de veneno da motocicleta,
uma harley bem doidona de pó.

Acendo as pálpebras, as cores mudam
diante do sol, caem em negro no sabor da lua,
és estrela maldita com vinhas de sarça
em sol e lua, ah, se meus horrores
de flor à pele maldosa, se meus orgasmos
fossem ... à pele mordida e lambida
sem poemas, sem teorias literárias,
sem estética e sem vícios,

vejo o tumulto da minha janela,
tempestades de fim de verão vejo,

por entre as frestas uma transa,
e todos os continentes da visão,
por entre as dores os cortes de faca,
e todos os mares da sensação,

eu ligo para um monte de coisas,
listas de afazeres todos,
e montes de coisas ínfimas
com minudências de microgramas,

sal e açúcar, sangue e suor,
quero ir para a floresta,
quero virar primata,
um animal ou totem,

por entre as nuvens as tempestades,
e flores azuis na velha ordem
do universo,

como gritam estes corpos de praia,
como dormem estes bêbados
da noite,

ah, se eu fosse tão poeta
a ponto de voar!
ah, se eu não fosse demasiado humano
e tão poeta a me suicidar,
ah, tudo tão rápido,
como um dia de verão.

25/09/2016 Gustavo Bastos

RUA DEMOCRACIA

Passo lento rumo ao ócio da rua,
o mercado está fumegando,
os homens da feira gritam e giram
com suas bugigangas,

um senhor calvo acende um charuto,
duas meninas pulam amarelinha,
o porteiro segura uma senhorinha
na entrada do prédio à direita
de um mendigo que dorme,

adolescentes, no meio das motos,
fumam cigarros mentolados,
uma moça gostosa de saia
passa ao largo, dá boas-vindas
ao moço que está no carro,
sabe-se marido ou namorado?
um irmão? não sei.

Passo lento rumo ao ócio da rua,
tem uma janela no fim desta rua,
lá está o brilho do televisor,
um aposentado que mora no térreo,

passa um cachorro com uma jovem alternativa,
passa um punk e um funkeiro,
esta rua ... esta rua ...
é a rua democracia.

25/09/2016 Gustavo Bastos

LORD BYRON, UM DOS MAIORES POETAS INGLESES – PARTE II

“Sua morte colaborou para aumentar-lhe ainda mais o mito”

No inverno e verão de 1814 Lord Byron publicou suas sombrias narrativas orientais, como O corsário, que vendeu, segundo o próprio Byron, 14 mil exemplares no dia de sua publicação. Lara é também dessa época. Propôs casamento, pela segunda vez, a Annabella Milbanke, moça aristocrática, intelectualizada, moralista, e dessa vez foi aceito. Casou-se em 2 de janeiro de 1815,  e um ano depois, a esposa foi visitar os pais e abandonou-o, sem nunca mais vê-lo nem querer se reconciliar. Assinados os papéis de separação, achando-se sem ambiente na Inglaterra, encetou uma segunda viagem ao estrangeiro, da qual não voltaria vivo. Visitou Waterloo, o Reno, a Suíça, onde se encontrou com Shelley e passou a residir na Villa Diodati, perto de Genebra e às margens do lago Leman. Na Villa terminou o terceiro canto do Childe Harold, vindo a lume em 18 de novembro de 1816 e que fez sua reputação literária aproximar-se do mais alto nível, na sua terra. E com as impressões de uma viagem aos Alpes iniciou a fantasia dramática Manfred, que concluiria em Veneza (1817).
Depois da Suíça Byron foi para a Itália, primeiramente a Veneza. Enquanto na Itália, vendeu Newstead Abbey por 94.500 libras, o que terminou com as agruras financeiras e a vida de débitos que até então conhecera. Pagas as dívidas, ficou com uma renda de 3.300 libras. Por morte de sua sogra, Lady Noel de nascimento, adquiriu uma renda adicional de três mil libras, e tomou o nome de Noel Byron. Na Itália Byron se tornou uma das grandes figuras continentais, com uma fama mais ampla, e um crescentemente cálido renome, e uma pouco merecida reputação como o profeta do liberalismo europeu que deram-lhe uma importância que ele próprio nunca esperara. Seu apoio perfuntório e amadorístico aos carbonários num período subsequente, e aos gregos no último ano de sua vida, confirmaram e estabeleceram essa reputação. Por um singular processo de alargamento romântico, o dandy em suas viagens tornou-se um dos imperecíveis heróis da liberdade e da independência das nações, mas isso ainda não era previsível em 1817. Em setembro de 1817 compôs o poema “Beppo”, que antecipa o Don Juan e é hoje considerado obra de importância em sua carreira, e isso pela força, hilaridade e facilidade do poema, mesmo na oitava rima. Byron, a essa altura, vivia com ostentação. Tinha cavalos, gôndola e gondoleiro; morava em palácio, com catorze criados. O 4° canto do Childe era bem recebido na Inglaterra, dizendo o próprio Scott Magazine que a poesia de Byron era de uma espécie nova e sem precedentes – coisa que até hoje há quem repita do Childe Harold. Em 1818 Byron começou, em meio às suas extravagâncias, a redação do poema hoje considerado na Inglaterra sua obra-prima, o Don Juan satírico, faceto, divagador, mas sempre vário e vivo.
Byron frequentava encontros secretos dos carbonários, Byron recebeu Shelley, que julgava estar ele a caminho da virtude. Publicou Caim (com “Sardanapalus” e “The Two Foscari”), o qual levantou um tumulto, especialmente no clero. De 21 também foi “Heaven and Earth” e, de 22, “Werner”, dedicado a Goethe. Com “The Vision of Judgement”, hoje antológico, arrasou seu inimigo de toda a vida, Southey.
Shelley deseja um barco e Byron um iate, que são construídos em Gênova – o Ariel (de início Don Juan, ao menos para Byron) para Shelley, o Bolívar para Byron. Este acolhe Leigh Hunt, para editar um jornal em inglês, The Liberal, cujo primeiro número saiu em outubro de 1822. O Ariel foi levado para Lerici no golfo de Spezia, e logo depois chegou o Bolívar. Shelley conduziu seu barco para Livorno. De volta para Lerici, Shelley tomou o Ariel, em companhia de Williams e de Charles Vivian, em 8 de julho de 1822. O barco entrou num nevoeiro e desapareceu. Naufragou e só muitos dias depois o corpo de Shelley foi encontrado na praia, perto de Viareggio.
Byron compôs os cantos extremos a que chegou, do Don Juan. Byron já estava resolvido a ir para a Grécia, embora tivesse o pressentimento de que de lá não voltaria. Aceitara o convite do Comitê Grego de Londres, com a perspectiva de tomar uma força militar sob o seu comando na luta pela libertação da Grécia. Embarcou no brigue Hércules em 13 de julho de 1823. O navio ancorou na enseada de Argostoli, na ilha de Cefalônia, então protetorado britânico. Byron embarcou para Missolonghi, envergando um uniforme vermelho. Recebido ao som de canhões, música e canto, o lorde hospedou-se no andar superior da casa do coronel Stanhope, perto da laguna. O chefe geral era o príncipe Mavrocordato. Em 22 de janeiro de 1824, o poeta completou trinta e seis anos, escrevendo um poema a respeito, tido como o último que redigiu. No fim do mês recebeu plenos poderes civis e militares. Mas em Missolonghi, afora a confusão de suliotas e gregos, só havia dois canhões em bom estado. Em 15 de fevereiro teve um ataque convulsivo. Em 9 de abril foi colhido por uma tempestade e, completamente encharcado, tomou uma canoa para voltar para a cidade. Ao chegar, queixou-se de dores e febre, e dois dias depois já estava bastante mal. Teve delírios. Médicos o trataram, mas em vão: morreu em 19 de abril de 1824. Sua morte colaborou para aumentar-lhe ainda mais o mito, dando-se, como se deu, pela libertação de uma terra oprimida.
Poemas:
WATERLOO: O poema napoleônico, abre com seu ímpeto metafórico, emulando a guerra e a imagem da tirania: “Detém na poeira de um Império essas passadas!” (...) “Fizeste que contigo o mundo isto obtivesse,/Primeiro campo de batalha e terminal!” (...) “No sepulcro da França, Waterloo mortal!” Eis a queda final em Waterloo, que conduz e dá título ao poema, e segue: “Aqui a águia em seu último auge foi notada/E feriu, garra em sangue, a terra lacerada,/Pela flecha da união dos povos traspassada;” Do auge à queda, o serviço da guerra tem por si uma união de povos que sempre reage, e como é bom saber disso, e o poema segue em seu ritmo, e o embate se dá entre a liberdade do mundo e os anseios da Gália, ou melhor, da França então sob Napoleão: “Pode a Gália morder – é justo – o freio a fundo/E em ferros escumar: está mais livre o mundo?” (...) “Senão, que um déspota caiu não clameis tanto!” E o poema termina como contra o clamor por um tirano, embora politicamente o poeta fosse admirador de Napoleão, mas em poesia e neste Waterloo, talvez por descrever a queda de um líder na guerra, a perspectiva negativa tenha lhe atraído a pena neste caso. A liberdade do mundo dependeria deste fim em Waterloo, que é começo para este poema e título que lhe dá, pois.
A INÊS: Este poema representa o auge do Romantismo inglês, e a pena de Lord Byron, neste caso, atinge seu clímax, em que o poema começa, sem mais: “Não me sorrias à sombria fronte,/Ai! sorrir eu não posso novamente:” (...) “E perguntas que dor trago secreta,/A roer minha alegria e juventude?/E em vão procuras conhecer-me a angústia” Ele indaga nas interrogações de Inês, uma contra-imagem que o poeta se dá de modo evanescente e disfarçado, num momento, e na qual a angústia própria, tanto Inês em vão a perscruta, como o próprio poeta tenta definir, como faz a seguir: “É esse tédio que deriva, e quanto!/Não, a Beleza não me dá prazer,” Eis que a angústia é o tédio, e beleza não há neste estado de espírito, embora o poema se desenvolva, e que prossegue assim: “Que exilado – de si pode fugir?/Mesmo nas zonas mais e mais distantes,/Sempre me caça a praga da existência,/O Pensamento, que é um demônio, antes.” Eis que o poeta quer se exilar, mas (aqui ecoa Descartes na minha cabeça), ele não pode escapar do próprio pensamento, evadir-se do mundo não lhe dará escapatória de seu pensamento, de seu ser enquanto sujeito, e aqui como um emissor poético, que persiste e existe, e a pena que ainda quase morta, dá grandeza ao romantismo como corrente de poesia e de filosofia, como pendor estético inexorável, segue assim: “Sorri! não sofras risco em desvendar/O coração de um homem: dentro é o Inferno.” Lord Byron revela um coração infernal, este seu pensamento, que no exílio, na evasão e na dispersão, torna-se poesia.
O OCEANO: O poema que homenageia o oceano, e que lhe dá o título, começa com grandeza: “Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!/Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;/de ruínas o homem marca a terra, mas se evola/na praia o seu domínio. Na úmida extensão/só tu causas naufrágios,” (...) “Do passo do homem não há traço em teus caminhos,” (...) “Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:/Grécia, Roma, Cartago, Assíria, onde é que estão?/Quando outrora eram livres tu as devastavas,”. No oceano, os homens, pequenos seres frágeis, não resistem, e nele há o lugar dos naufrágios, e nem as nações, por mais vastas, não lhe resistem a força e a imponência, Lord Byron neste poema já tinha a consciência da vastidão e do poder da natureza sobre os homens e as nações, e aqui a natureza ganha seu representante no oceano, este grande e imenso oceano que percorre e cobre a maior parte da Terra, no que o poema segue: “em tua fronte azul o tempo não põe traço;/como és agora, viu-te a aurora da criação.” O oceano aparece como testemunha da criação, de sua aurora, pois deste oceano também é a origem da vida, e o poema segue: “Tu, espelho glorioso, onde no temporal/reflete sua imagem Deus onipotente;/calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,/quer a gelar o polo, quer em clima ardente/a ondear sombrio, - tu és sublime e sem final,/cópia da eternidade, trono do Invisível;” No poema há, por fim, o oceano como reflexo da imagem e da vontade divina, a onipotência divina tem seu exemplo maior no oceano que de calmo ou convulso domina a Terra e os homens que lhe navegam, este oceano que é cópia da eternidade e que contém em si o portal para o mundo invisível, já que, uma vez tendo assistido a aurora da criação, guardou-lhe os mistérios, o oceano cria a vida e sabe do segredo da vida. Ele é espelho de Deus na Terra. E Lord Byron, neste poema, lhe dá o contorno perfeito.
WATERLOO
XVII
Detém na poeira de um Império essas passadas!
Ruínas de um terremoto aqui estão sepultadas!
Não orna este lugar um busto colossal?
Nem troféus nem colunas em visão triunfal?
Não, contudo moral mais simples aqui aflora:
Como o solo era antes, seja assim agora!
Como com a chuva rubra vicejou a messe!
Fizeste que contigo o mundo isto obtivesse,
Primeiro campo de batalha e terminal!

XVIII
Haroldo está de pé – que de ossos no local! –
No sepulcro da França, Waterloo mortal!
Como teus dons anulas, tu, poder que dás,
Como transferes uma fama tão fugaz!
Aqui a águia em seu último auge foi notada
E feriu, garra em sangue, a terra lacerada,
Pela flecha da união dos povos traspassada;
Todo o trabalho da ambição foi infecundo:
Leva os anéis partidos dos grilhões do mundo.

XIX
Pode a Gália morder – é justo – o freio a fundo
E em ferros escumar: está mais livre o mundo?
Lutaram as nações para vergar só um?
Ou ensinar os reis a preexceler na ação?
Quê! a Escravidão ressuscitada será algum
Ídolo tosco de dias de ilustração?
Devemos render preito ao Lobo, nós que o Leão
Derrubamos? Perante o trono olhos baixar,
Dobrar os joelhos? Não, provai para exaltar!

XX
Senão, que um déspota caiu não clameis tanto!
Em vão em belos rostos derramou-se pranto
Por tanta flor da Europa, que viu arrancada
O que pisava as vinhas; épocas em vão
De fim, despovoamento, servidão e horror
Foram sofridas, mas quebrou-se a união
De milhões que se ergueram; o que faz amada
A glória, é quando o mirto vem coroar a espada,
Como a que Harmódio opôs – de Atenas ao senhor.

(Poema Waterloo: Childe Harold, canto III: A popularidade das obras de Byron na era vitoriana entre operários intelectualizados foi testemunhada por Friedrich Engels em 1845, e no termo do período leitores não sofisticados de todas as classes sociais ainda se lembravam de morceaux de bravoure tais como o que descreve Waterloo em Childe Harold, III. Apesar de seus versos contra Napoleão, sabe-se que Byron o prezava, sendo essa até uma das razões que o antipatizaram nos seus círculos ingleses. O poeta era contrário ao estado de coisas que sucedeu a queda do corso.)
(Verso 14: “Aqui a águia em seu último auge foi notada”: Pride of place é um termo de falcoaria e significa o mais alto alcance do voo. Ver Macbeth: “An eagle towering in his pride of place”. Verso 18: “Como a que Harmódio opôs – de Atenas ao senhor”: Harmódio e Aristogito comspiraram contra os Pisistrátidas – Hípias e Hiparco. Só Hípias foi morto, sendo Harmódio abatido pela guarda de Hiparco e Aristogito preso e executado (514 a.C.). Foram posteriormente reverenciados em Atenas como campeões da liberdade. Byron cita o verso a que alude, “With myrth my sword will I wreathe”, do canto grego traduzido por Denman.)

A INÊS

I
Não me sorrias à sombria fronte,
Ai! sorrir eu não posso novamente:
Que o céu afaste o que tu chorarias
E em vão talvez chorasses, tão-somente.

II
E perguntas que dor trago secreta,
A roer minha alegria e juventude?
E em vão procuras conhecer-me a angústia
Que nem tu tornarias menos rude?

III
Não é o amor, não é nem mesmo o ódio,
Nem de baixa ambição honras perdidas,
Que me fazem opor-me ao meu estado
E evadir-me das coisas mais queridas.

IV
De tudo o que eu encontro, escuto, ou vejo,
É esse tédio que deriva, e quanto!
Não, a Beleza não me dá prazer,
Teus olhos para mim mal têm encanto.

V
Esta tristeza imóvel e sem fim
É a do judeu errante e fabuloso
Que não verá além da sepultura
E em vida não terá nenhum repouso.

VI
Que exilado – de si pode fugir?
Mesmo nas zonas mais e mais distantes,
Sempre me caça a praga da existência,
O Pensamento, que é um demônio, antes.

VII
Mas os outros parecem transportar-se
De prazer e, o que eu deixo, apreciar;
Possam sempre sonhar com esses arroubos
E como acordo nunca despertar!

VIII
Por muitos climas o meu fado é ir-me,
Ir-me com um recordar amaldiçoado;
Meu consolo é saber que ocorra embora
O que ocorrer, o pior já me foi dado.

IX
Qual foi esse pior? Não me perguntes,
Não pesquises por que é que me consterno!
Sorri! não sofras risco em desvendar
O coração de um homem: dentro é o Inferno.

(Este poema, que consta do Childe Harold, I, entre LXXXIV e LXXXV, foi um dos mais cultuados em nosso Romantismo.)

O OCEANO

CLXXIX
Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!
Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;
de ruínas o homem marca a terra, mas se evola
na praia o seu domínio. Na úmida extensão
só tu causas naufrágios, não, da destruição
feita pelo homem sombra alguma se mantém,
exceto se, gota de chuva, ele também
se afunda a borbulhar com seu gemido,
sem féretro, sem túmulo, desconhecido.

CLXXX
Do passo do homem não há traço em teus caminhos,
nem são presa teus campos. Ergues-te e o sacodes
de ti; desprezas os poderes tão mesquinhos
que usa para assolar a terra, já que podes
de teu seio atirá-lo aos céus; assim o lanças
tremendo e uivando em teus borrifos escarninhos
rumo a seus deuses – nos quais firma as esperanças
de achar um porto ou angra próxima, talvez –
e o devolves à terra: - jaza aí, de vez.

CLXXXI
Os armamentos que fulminam as muralhas
das cidades de pedra – e tremem as nações
ante eles, como os reis em suas capitais -,
os leviatãs de roble, cujas proporções
levam o seu criador de barro a se apontar
como Senhor do Oceano e árbitro das batalhas,
fundem-se todos nessas ondas tão fatais
para a orgulhosa Armada ou para Trafalgar.

CLXXXII
Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:
Grécia, Roma, Cartago, Assíria, onde é que estão?
Quando outrora eram livres tu as devastavas,
e tiranos copiaram-te, a partir de então;
manda o estrangeiro em praias rudes ou escravas;
reinos secaram-se em desertos, nesse espaço,
mas tu não mudas, salvo no florear da vaga;
em tua fronte azul o tempo não põe traço;
como és agora, viu-te a aurora da criação.

CLXXXIII
Tu, espelho glorioso, onde no temporal
reflete sua imagem Deus onipotente;
calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,
quer a gelar o polo, quer em clima ardente
a ondear sombrio, - tu és sublime e sem final,
cópia da eternidade, trono do Invisível;
os monstros dos abismos nascem do teu lodo;
todas as zonas te obedecem: porque és todo
insondável, sozinho avanças, és terrível.

CLXXXIV
Amei-te, Oceano! Em meus folguedos juvenis
ir levando em teu peito, como tua espuma,
era um prazer; desde meus tempos infantis
divertir-me com as ondas dava-me alegria;
quando, porém, ao refrescar-se o mar, alguma
de tuas vagas de causar pavor se erguia,
sendo eu teu filho esse pavor me seduzia
e era agradável: nessas ondas eu confiava
e, como agora, a tua juba eu alisava.

(O poema é de Childe Harold`s Pilgrimage, Canto IV)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/30736/17/lord-byron-um-dos-maiores-poetas-ingleses-parte-2   

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

ANIMA POÉTICA

A alma, uma peça de teatro, o fantasma
que serve ao último sinal, não se socorre
de seu próprio fogo, não desvia o pecado
que lhe clama a pecar, ferve em sua pena
esta água brava dos poemas no susto.

Risos espoucam sobre os faunos,
uma cor rubra fervilha nas rondas do poeta,
e os sorrisos lhe enervam as lágrimas.

Pois está dado seu campo e seu caminho,
tal a estrada de toda a vida porvir,
pois de lume vigor e fado,
pois está de destino e atração
a luta tresloucada,
com um poema brotando
de súbito.

A alma, esta estrangeira dos tempos modernos,
não se socorre desta alegria e nem do êxtase,
não desvia o pecado que lhe chama,
e qual fogo derrete o coração ao tiro da morte,

A alma não se evade deste termo capital:
seu luto e sua luz não são deste mundo.

21/09/2016 Gustavo Bastos

DOS MARES PARADISÍACOS

De uma expressão inteligente e bem-nascida,
o ópio culmina em aspergir seu lume.
E o broto que descortina, de uma ponta à outra,
seu caule dócil sob as estrelas recônditas,
traz deste lume o lápis-lazúli dos olhos.

Em que toda a constelação das naus foge,
qual bússola e o astrolábio que enlouquecem
na queda abrupta da rotação terrestre,
como um espasmo ou terremoto de latitude
forjada em brutos solilóquios do viajor.

Dantes o vinho clamava por estes mares,
e ia e ia, e voltava e voltava,
aos cantos d`além e d`aquém,
ia e ia, voltava e voltava,
como um pássaro roto na fuga destes mares.

De todo o corpo bronzeado sobre a enseada,
um aedo inventava, um rapsodo repetia,
e o veneno destes bruxos de mansardas
eclodia o coração marítimo dos odres cheios,
e os atletas sugestionados se afogavam.

Como tal, as ondinas chamavam este luto de Ulisses,
qual a morte terrífica que absorve a luz,
luzidio este campo de meu lume de ópio,
como um bravo guerreiro de poema,
como um gládio que me sustenta.

Este poema, que dá o hausto e o sopro ao viajor,
dá-se de todo ao coração mais amplo do caminho,
e julga o próprio cintilar com ombros sob o mundo,
um Atlas sorvendo os dias de pecado,
um Sísifo ou Prometeu da dor fundada.

Pois, do brilho inteligente do universo,
este tens o começo como um homem imortal,
e que de sua queda se perde na correnteza,
e fala ao coração dos dias este terror de se perder,
e anuncia qual farol o lume que lhe chama.

Do prazer mudo deste ópio do sol,
mesmo as sombras ficam esparsas,
e o lume, luzidio, como um farol,
grita por sobre Vênus na hora dos argonautas,
com o velho do mar e seu cajado na fronte da espuma.

Já está o mar indócil em sua tempestade,
e suas espumas beijando a praia,
e o viajor, a vítima de seu sopro,
num último ato ao sabor deste vento intempestivo,
com as lacerações de seu peito inconteste.

Este poema, com o livro registrado sob bruma,
cruza os oceanos sob a luz convertida em fogo,
cruza o infinito com o brilho subindo a fúria,
e o rico emblema de poesia como o ópio dos sonhos
de paraíso que se perdeu no tempo da vida.

21/09/2016 Gustavo Bastos