PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 15 de abril de 2021

O NFT, A CRIPTOARTE E SUAS NOVIDADES – PARTE I

“A base do NFT está no Blockchain”

O NFT aparece como o grande movimento dentro da internet, isto desde a transformação provocada pelo Blockchain e pela criptomoeda Bitcoin. E o NFT é um cripto-colecionável, isto é, uma tecnologia que envolve transações de ativos digitais.

Os NFTs podem ser vídeos, criptoarte, jogos e itens colecionáveis. Os casos de vendas de NFT que repercutiram, recentemente, foram o meme Nyan Cat, peças de arte da cantora Grimes e o primeiro tuíte do CEO do Twitter.

A grande transformação do NFT, contudo, é sim na arte digital ou criptoarte. A sigla significa non-fungible token (em tradução livre, token não fungível) e se trata de um tipo de chave eletrônica criptográfica usada de forma única.

A pessoa que compra um NFT se torna proprietário de uma espécie de certificado de propriedade intelectual, com autenticidade e unicidade garantidas por esta chave criptográfica, o que lhe garante o caráter de um bem original, e não uma cópia.

O conceito de não-fungível é dizer que algo não pode ser cambiável por outro semelhante, como uma nota de cem pode ser trocada por duas de cinquenta, por exemplo. O NFT, então, é diferente de bens digitais ou criptoativos fungíveis como Bitcoin, Ethereum e a maioria das criptomoedas. Um bem não-fungível tem o caráter de ser único e original.

O NFT, envolvendo um bem não-fungível e digital, portanto, quando falamos da criptoarte, este se refere a um mercado que se torna semelhante ao das obras de arte físicas, o ambiente virtual toma emprestado conceitos que vem deste mercado e aplica às transações de criptoarte.

O NFT surgiu em 2012 com a apresentação da Coloured Coins, também conhecida como Bitcoin 2.x, uma criptomoeda que não vingou. O NFT mais comum, hoje em dia, é o padrão ERC-721, que opera na rede Ethereum, tendo NFTs de outros padrões, também, como o ERC-1155, da Enjin, que tem foco em videogames.

O Ethereum é a segunda criptomoeda mais famosa do mundo, atrás somente do Bitcoin, e, no caso do NFT, o Ethereum é fundamental, pois a chave criptográfica é armazenada no Blockchain Ethereum (ETH), que suporta a gravação de informações extras que diferenciam uma ETH (moeda virtual) de um NFT (ativo único).

A base do NFT está no Blockchain, pois este pode rastrear a troca de certas informações pela internet, criando uma rede de blocos entre os envolvidos nessa troca. Todas as vendas de NFT, portanto, estão registradas em detalhes no Blockchain.

Um NFT é único, por sua vez, pois comporta um valor específico e, também, tem propriedades próprias de seu token, pois este possui um hash digital, um tipo de função que converte letras e números em criptografia, que é diferente em cada padrão adotado, garantindo a originalidade de um NFT, e impedindo a sua falsificação.

O NFT de uma obra de arte, por exemplo, pode ser comprado como um tipo de investimento para uma possível venda futura se esta peça se valorizar no mercado. No caso do meme do Nyan Cat, o GIF foi leiloado por Chris Torres e arrecadou 300 ETH, o que equivale a cerca de US$ 600 mil e, a não ser que esteja especificado em contrato, o novo dono pode até explorar comercialmente o meme, lucrando com este NFT que agora lhe pertence.

E a indústria fonográfica também começa a explorar o mercado de NFTs, a banda Kings of Leon, por exemplo, lançou um novo álbum que incluía versões em NFT com certos benefícios exclusivos para o comprador.

Pode se dizer que a tecnologia não vai acabar com a pirataria, mas pode recriar e recuperar um mercado que entrou em crise com o surgimento do MP3, e depois, com uma pequena melhora, mas ainda ínfima, com as reduzidas compensações do streaming.

Com o NFT, então, podemos ter o caso de verdadeiros fãs desembolsando dinheiro para angariar reconhecimento de seu artista escolhido ou favorito e dar um apoio às iniciativas deste artista.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-nft-a-criptoarte-e-suas-novidades-parte-i 

 

 

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN E SEU LIVRO DUAL

“a poeta Sophia coloca Pessoa como tema e como forma poética”

A poesia de Sophia se estende mais ainda, agora, em seu livro Dual, em que a poeta se lança numa imersão na poesia produzida por Fernando Pessoa, este cânone incontornável da poesia moderna portuguesa.

Com eixos formais já usados e aperfeiçoados por Sophia, aqui com linhas temáticas que persistem na obra de Sophia, a participação da poesia de Fernando Pessoa se dá por meio de um confronto de uma poeta que, em sua essência, ainda é uma poeta de dicção mais clássica.

Este belo desafio de encontrar um elo entre esta sua poesia e a de Pessoa produziu bons frutos neste livro Dual, sobretudo o poema de título “Em Hydra, evocando Fernando Pessoa”, sendo feito um livro em que a poeta Sophia coloca Pessoa como tema e como forma poética, e a amplidão de sua voz ganha o reforço de uma voz que não lhe pertencia, realizando uma experiência poética que lhe engrandeceu.

As temáticas de ausências e sombras ainda estão como eixos da poesia de Sophia, Dual possui, ainda, um certo luto do coração da vida, uma visão de unidade ou fusão natural, e a sua poética da perda, como seu cânon temático, quando não estamos falando do mar, o centro de tudo em sua poesia.

O título Dual, por sua vez, que dá a cara deste livro, é fruto deste confronto bicéfalo de Sophia, que tem um tipo de dicção, com a poesia canônica de Pessoa, um diálogo que se iniciara no Livro sexto, no poema “Fernando Pessoa”.

Tal confronto ganha uma força descomunal no poema que falei, que é o potente poema “Em Hydra, evocando Fernando Pessoa”, que sempre será citado como o grande confronto realizado por Sophia com este cânon inquebrantável da poesia de Pessoa.

O fato que persiste, ainda, diante deste confronto, é a presença anterior de uma poesia de Sophia que se fundia à natureza, meio que habitando filosoficamente a dita “casa do ser”, um tipo de mundo desconhecido e exterior à poesia de Pessoa.

O poeta dos heterônimos produziu para si um mundo solitário de uma falta de lar ou paradeiro, uma dispersão absoluta que se perdeu no caos dos heterônimos, o melhor sintoma de escritos que se destinaram a ficarem dispersos, colhidos por bibliófilos avidamente até os dias atuais.

DE DUAL :

POEMAS :

EURYDICE : Numa poesia órfica, o lamento é nostálgico, e cheira o sal do mar, num canto mais antigo que os navios, e a fusão tectônica como coda : “O teu rosto era mais antigo do que todos os navios/No gesto branco das tuas mãos de pedra/Ondas erguiam seu quebrar de pulso/Em ti eu celebrei minha união com a terra”.

EM NOME : A poética da perda aqui aparece em Sophia, e sua poesia faz este breve lamento choroso : “Em nome da tua ausência/Construí com loucura uma grande casa branca/E ao longo das paredes te chorei”.

DELPHICA : II : A narrativa fala da queda de Apolo diante de Python, e a justa medida que evoca o deus grego, em sua imagem da harmonia, tem do humano este caráter personificado que dá aos deuses estes embates comuns também ao ser humano, no que temos : “Esse que humano foi como um deus grego/Que harmonia dos cosmos manifesta” (...) “Àquele amor inteiro e nunca cego/Que emergia da praia e da floresta”. A queda de uma arquitetura, de uma ideia, de um projeto, e o poema segue : “Agora jaz sem fonte e sem projeto/Quebrou-se o templo actual antigo e puro/De que ele foi medida e arquitecto” (...) “Python venceu Apolo num frontão obscuro/Quebrada foi desde seu eixo recto/A construção possível do futuro”. Se encerra aqui o primeiro bloco do poema e logo temos o seguinte, no que vem : VI (Antinoos de Delphos) : “Tua face taurina tua testa baixa/Teus cabelos em anel que sacudias como crina”. A descrição enaltece as virtudes do deus, e segue : “Tua pesada beleza/Teu meio-dia nocturno/Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste/Tua unidade inteira em teu corpo/Num silêncio de sol obstinado/Agora são de pedra no museu de Delphos/Onde montanhas te rodeiam como incenso/Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada”. Sobra ao mito agora um destino de ruína e antiquário, objeto do museu, em que algo se quebrou, um mito que se tornou longínquo.

HOMENAGEM A RICARDO REIS : I : Novamente Sophia empreende um confronto formal com a poesia de Fernando Pessoa, e este diálogo se torna intenso neste seu livro Dual, no que temos : “Não creias Lídia, que nenhum estio/Por nós perdido possa regressar/Oferecendo a flor/Que adíamos colher.”. E o tema se concentra no tempo, e no seu caráter irrepetível, em que o dardo é lançado somente uma vez, no que temos uma visão de uma temporalidade impiedosa, impassível, no que vem : “Cada dia te é dado uma só vez/E no redondo círculo da noite/Não existe piedade/Para aquele que hesita.” O pecado mortal da hesitação é a maior fatalidade que existe neste tempo contínuo e sem piedade, a marcha que aqui se empreende é cega ao murmúrio do arrependimento ou do alvo que se foi, o não-vivido aqui aparece como a tragédia existencial do tempo perdido, no que temos : “Mais tarde será tarde e já é tarde./O tempo apaga tudo menos esse/Longo indelével rasto/Que o não-vivido deixa.” (...) “Não creias na demora em que te medes./Jamais se detém Kronos cujo passo/Vai sempre mais à frente/Do que o teu próprio passo.”. O tempo em Kronos aqui ultrapassa os passos humanos, que cambaleiam diante dos golpes do destino.

DUAL : A condução aqui é dual, os cavalos se guiam e a poeta entra em fissura, seu espírito, ao fim, se desagrega : “Dois cavalos a par eu conduzia/Não me guiava a mim mas meus cavalos” (...) “E no país de espanto e de tumulto/Em mim se desuniu o que eu unia”.

INICIAL : O poema canta o regresso da poeta à sua senda original, possível destino de sua poesia, e sua alma é lavada, um rito que lhe restitui a praia inicial de sua vida : “O mar azul e branco e as luzidias/Pedras – O arfado espaço/Onde o que está lavado se relava/Para o rito do espanto e do começo/Onde sou a mim mesma devolvida/Em sal espuma e concha regressada/À praia inicial da minha vida”.

EM HYDRA, EVOCANDO FERNANDO PESSOA : A poeta se vê no porto de Hydra, e se debruça diante desta sua visão, um mundo se abre, no que temos : “Quando na manhã de Junho o navio ancorou em Hydra” (...) “Saí da cabine e debrucei-me ávida/Sobre o rosto do real – mais preciso e mais novo do que o imaginado” (...) “Ante a meticulosa limpidez dessa manhã num porto”. E, então, ela invoca o espírito da Odisseia, neste porto ela desperta para Odysseu, no que vem : “Murmurei o teu nome/O teu ambíguo nome” (...) “Porque a tua alma foi visual até aos ossos/Impessoal até aos ossos/Segundo a lei de máscara do teu nome”. Uma persona pode ser um heterônimo, e Odysseu, como o poema e a máscara, empreende uma longa viagem, desafiado até pelo canto das sereias, como em sua cena amarrado ao mastro, no que vem : “Odysseus – Persona/Pois de ilha em ilha todo te percorreste/Desde a praia onde se erguia uma palmeira chamada Nausikaa/Até às rochas negras onde reina o cantar estridente das sereias”. E o cenário de Hydra é descrito no poema, no que temos : “O casario de Hydra vê-se nas águas/A tua ausência emerge de repente a meu lado no deck deste barco” (...) “Imagino que viajasses neste barco/Alheio ao rumor secundário dos turistas/Atento à rápida alegria dos golfinhos”. E o culto da navegação, e todo o seu sentido marítimo, aqui emerge diante de nossa vista, no que vem : “Por entre o desdobrado azul dos arquipélagos/Estendido à popa sob o voo incrível/Das gaivotas de que o sol espalha impetuosas pétalas”. A poesia épica e mitológica de origem grega aqui é sintetizada por versos que homenageiam Fernando Pessoa, no que segue : “Nas ruínas de Epheso na avenida que desce até onde/esteve o mar/Ele estava à esquerda entre colunas imperiais quebradas/Disse-me que tinha conhecido todos os deuses”. A poeta sabe do grande conhecimento sobrenatural destas paragens, mas se reconforta ao seu retorno a um lar humano, sem o dom da imortalidade, no que temos : “Odysseus/Mesmo que me prometas a imortalidade voltarei para casa/Onde estão as coisas que plantei e fiz crescer/Onde estão as paredes que pintei de branco”. Ela deixa a Odysseu esta clarividência espiritual que é cara a este, e que atravessa a essência que torna tudo intensamente presente, este deus que sempre olha aquilo que é, no que temos : “Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua/Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua/Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é/olhado por um deus/Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente” (...) “O teu destino deveria ter passado neste porto/Onde tudo se torna impessoal e livre/Onde tudo é divino como convém ao real”. O porto de Hydra, ao fim, retoma à poeta a vida humana, mas o caráter divino aqui se enuncia como o dom da própria realidade.

O MINOTAURO : Aqui a poeta evoca o mito fundante da cultura minoica ou cretense, no que temos : “Em Creta/Onde o Minotauro reina/Banhei-me no mar” (...) “Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro/Na antiquíssima juventude do dia”. A poeta aqui dança como numa festa cretense, enfeitada de flores, no que segue : “De Creta/Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas/Para inteiramente acordada comungar a terra/De Creta/Beijei o chão como Ulisses/Caminhei na luz nua”. Esta poeta que, diante da ruína de uma civilização perdida, ainda mantém intacta a sua fúria, e segue : “Devastada era eu própria como a cidade em ruína/Que ninguém reconstruiu/Mas no sol dos meus pátios vazios/A fúria reina intacta”. Ela, então, se volta ao mar azul de Creta, e o celebra : “E o mar de Creta por dentro é todo azul/Oferenda incrível de primordial alegria/Onde o sombrio Minotauro navega”. Ali navega o Minotauro, este que habitará o labirinto de Dédalo, no que vem : “Em Creta/Inteiramente acordada atravessei o dia/E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos” (...) “Caminhei no palácio dual de combate e confronto/Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais”. Aqui se descreve tanto a vida como os objetos e muradas do cotidiano minoico, no que temos : “Em Creta/Os muros de tijolo da cidade minoica/São feitos de barro amassado com algas”. Qual um Teseu, segurando o seu fio de Ariadne, a poeta Sophia consegue atravessar o seu próprio labirinto do Minotauro, e se vê diante de uma saída proporcionada pelo fio de seus versos, no que temos : “Em Creta onde o Minotauro reina atravessei a vaga/De olhos abertos inteiramente acordada/Sem drogas e sem filtro/Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas -/Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto/Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”.

OS GREGOS : A poeta aqui descreve a cosmovisão dos gregos, no que temos : “Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante/Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz” (...) “O meandro do rio o fogo solene da montanha/E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre/Emergiam em consciência que se vê/Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia -/Esta existência desejávamos para nós próprios homens/Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem/O estar-ser-inteiro inicial das coisas -/Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece/E também à treva interior por que somos habitados/E dentro da qual navega indicível o brilho”. Esta casa do ser habitada por filósofos, antes cintilava numa clarividência sobrenatural habitada por deuses, e o grego sempre diante deste seu olhar que busca a origem, uma arqué.

CATARINA EUFÉMIA : A reflexão grega aqui é reconstituída pela poeta Sophia em seu eixo temático sobre a justiça, no que temos : “O primeiro tema da reflexão grega é a justiça/E eu penso nesse instante em que ficaste exposta” (...) “Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres/Nem usaste de manobra ou de calúnia/E não serviste apenas para chorar os mortos”. Esta entidade da justa medida não recua e estabelece o seu reino, no que temos : “Tinha chegado o tempo/Em que era preciso que alguém não recuasse/E a terra bebeu um sangue duas vezes puro” (...) “Porque eras a mulher e não somente a fêmea/Eras a inocência frontal que não recua/Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante/em que morreste/E a busca da justiça continua”. Esta busca da justiça continua, qual a luta de Antígona ou qualquer confronto que ameace este dom grego e de vida humana, a justiça e seu reino.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/sophia-de-mello-breyner-e-seu-livro-dual 

 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE VI

“Você não ouviria nada tão extremo quanto o Mayhem naquela época”

No final dos anos 1980, no cenário de rock, temos a ascensão do thrash metal, em que figuravam bandas como Metallica e Anthrax, estas dos Estados Unidos, e temos na Europa bandas como Sodom e Kreator, bandas alemãs, e uma banda suíça de nome Celtic Frost, que começara seu som com o nome de Hellhammer.

Tivemos a investida das gravadoras sobre o cenário thrash metal, e o mainstream tornou este som mais autoindulgente e uma exibição de habilidades técnicas esvaziadas, ao passo que temos o surgimento, em paralelo, das bandas de death metal, que tem como um dos possíveis marcos iniciais do gênero o álbum “Seven Churches” da banda Possessed, este que foi lançado em 1985.

O death metal inovava num cenário em que dominava os vocais agudos e os falsetes do metal mainstream da época, com vocais guturais e guitarras em afinações graves, o death metal rompia isto, e vinha com temáticas de letras gore e slasher (gênero de filmes sangrentos dos anos 1970 e 1980), que resultaram em canções de assassinatos, desmembramentos, estupros e torturas.

Temos como um gênero vizinho do death metal, por sua vez, o grindcore, este, segundo o livro Lords Of Chaos : “descendente mais direto da política dos pioneiros do anarquismo inglês e do “peace punk” como Crass e Rudimentary Peni, produziu seus próprios grupos extremamente populares, como Extreme Noise Terror, Napalm Death e Carcass.”

E segue o relato do livro Lords Of Chaos : “As duas inesperadas capitais mundiais do death metal foram a cidade de Tampa, na Flórida, e Estocolmo, na Suécia. Desses extremos de fogo e gelo, o gênero produziu seus artistas mais influentes : Entombed, Hypocrisy, Dismember e Unleashed, da Suécia; Morbid Angel, Death, Obituary e Deicide, do submundo pantanoso da Flórida.

Outras áreas dos EUA também produziram bandas notórias – os misóginos fãs de gore do Cannibal Corpse do norte do estado de Nova Iorque, o igualmente rude e hostil Autopsy da Califórnia.”

No cenário thrash metal, por sua vez, uma banda que ainda impunha respeito era o Slayer, que ainda tinha uma massa sônica insubmissa, antes de seu flerte com o metal mais moderno a partir de meados dos anos 1990.

O death metal, por sua vez, ganhou o mainstream entre 1989 e 1993, o que se subentende é que, neste bojo, surgiram bandas ruins, aproveitando o influxo das bandas pioneiras. Aqui temos o fenômeno clássico do underground sendo subsumido pelo mainstream para fins comerciais.

Na Noruega, que seria o centro da segunda e mais importante geração do black metal, ainda tínhamos, inicialmente, o som death metal sendo praticado por bandas como Mayhem, Old Funeral e Darkthrone. Logo estas bandas iriam um passo além, recebendo inspiração do Venom e do Bathory, criando um cenário de extremismos sem precedentes na música e no noticiário, seria algo impiedoso e inaudito.

O black metal norueguês envolve, além da sonoridade, a questão da crença e do visual dos músicos. Por sua vez, o papel que teve o Venom como banda fundadora do black metal mundial, temos o Mayhem com este papel pioneiro dentro da Noruega.

Álbuns que escuto desde adolescente, como Deathcrush, para mim, ainda é um som de splatter, com temas gore, evoluindo para o black metal, por fim, no álbum De Mysteriis Dom Sathanas, este de 1994.

No relato de Lords Of Chaos, temos : “Embora o Venom tivesse seguidores fiéis na Europa, o black metal ainda estava para desenvolver seu próprio estilo. Nesse período, Metalion (crítico musical, grifo meu) descobriu a existência do Mayhem, na época uma banda extremamente crua e primitiva de death metal, quando ele os conheceu do lado de fora de um show do Motörhead.”

Metalion, por sua vez, descreve o fato : “Eu conheci eles no show e eles me contaram tudo sobre a banda. Eu estava vendendo minha revista, então eu pude conhecer eles. Depois de alguns meses a gente teve um contato mais próximo.

Na época eles não tinham nem fita demo. Eles gravaram a primeira no verão de 86 – a demo Pure Fucking Armageddon. Era muito mais extremo que todo o resto; o som era muito, muito primitivo e muito mais brutal. Você não ouviria nada tão extremo quanto o Mayhem naquela época.”

O Mayhem lançou uma segunda demo e depois um miniálbum Deathcrush de 1987, a banda fez poucos shows neste período, mas foram shows antológicos, e a lentidão de Aarseth (Euronymous) em lançar material novo vinha de seu controle extremo sobre a banda e por problemas financeiros. Em seguida Aarseth adotou para  o Mayhem o visual que marcaria as bandas de black metal daquela geração noventista, o “corpse paint”.

O corpse paint tem origens difusas, não propriamente um marco inicial, mas pinturas faciais estilizadas já vinham de bandas como Kiss, King Diamond, Alice Cooper, Glen Danzig nos Misfits e a banda Celtic Frost. E Metalion, o crítico musical, coloca a origem na banda brasileira Sarcófago. Uma banda que veio ao conhecimento de Aarseth, que adorou o som e o visual da banda.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-vi 

 

 

 

O SOLID DE TIM BERNERS-LEE

“a plataforma visa se tornar um projeto de código aberto com amplitude mundial”

Tim Berners-Lee, o pioneiro criador do protocolo http e, em resumo, da internet, luta agora, através do projeto Solid (Social Linked Data), para recuperar a liberdade que houve um dia na internet, antes do domínio massivo das big techs, com uso indiscriminado de dados pessoais dos seus usuários, indo de encontro a este abuso, com o Solid, que consiste em criar uma web descentralizada, na qual os usuários terão, novamente, o controle sobre os próprios dados.

Tim Berners-Lee havia entrado em conflito com a sua criação, pois quando viabilizou a internet, em 1989, imaginou um ambiente livre e acessível para todos os seus usuários,  ele lança o Solid, então, que ainda é algo incipiente, e a apresentação oficial desta sua plataforma, veio acompanhada de sua empresa Inrupt Inc., esta ficando encarregada de cuidar da Solid.

A insatisfação de Berners-Lee com o que a sua criação, a World Wide Web, se havia tornado, levou ele a tentar retomar protagonismo nos rumos futuros deste mundo virtual, pois este domínio das big techs incomoda tanto os pioneiros da liberdade na internet, como governos e demais instituições, que já reagem fortemente com medidas anti-truste.

Seu trabalho conjunto com pessoas do MIT e de outros lugares o ajudou a desenvolver o Solid, que consiste num projeto open-source que visa restaurar a autonomia e posse de dados pessoais dos usuários da web. O projeto já tem alguns anos, veio de um paper publicado em abril de 2016, quando a plataforma foi apresentada pela primeira vez.

Berners-Lee explica : “O Solid é como vamos evoluir a web para poder restaurar o equilíbrio ao dar para cada um de nós um controle total sobre dados, pessoais ou não, de forma revolucionária. O Solid é uma plataforma, criada usando a web atual. Ela dá a cada usuário uma escolha sobre onde seus dados estão armazenados, que pessoas e grupos específicos podem acessar certos elementos, e que aplicativos você usa.”

Os objetivos da Solid são ambiciosos, pois a plataforma visa se tornar um projeto de código aberto com amplitude mundial, e o concurso da empresa Inrupt Inc. para viabilizar o alcance da plataforma é fundamental, uma empresa fundada por Berners-Lee em sociedade com John Bruce, e aqui se vê o trabalho de transformar a Solid em algo comercial, e a empresa ainda é responsável por manter a Solid no ar, como uma plataforma independente.

A Inrupt Inc., mesmo diante de não atingir a meta de criar um ecossistema que dê lucro com a comercialização de aplicativos certificados e que tenham hospedagem pelo Solid, a empresa já tem financiadores, tal como a Glasswing Ventures, que é uma empresa que aposta em tecnologias que visam desenvolver a IA (Inteligência Artificial).

Para além da ideia base do projeto, a privacidade e posse de dados pessoais pelos usuários da web, Berners-Lee acredita na Solid como um passo além na evolução da própria web, com uma internet realmente democrática e acessível para seus usuários.

E esta evolução da web será marcada por esta passar de simples biblioteca para consulta de documentos, indo para um ambiente participativo, em que os usuários poderão dar as suas próprias contribuições, para além da atual postagem ou comentários em redes sociais ou sites.

Esta ideia avançada de evolução da web antevê esta como um grande computador universal, com dados disponíveis para serem explorados globalmente, pois, segundo Berners-Lee, com a Solid, os usuários poderão “interagir e inovar, colaborar e compartilhar”.

Esta será a transição entre uma web de documentos, onde simplesmente se consulta conteúdos, para uma web de dados, onde existe uma participação ativa de seus usuários.

Berners-Lee ainda acredita na viabilidade comercial da Solid, pois a demanda para serviços confiáveis pode ser vista na experiência bem-sucedida do Dropbox, nuvem que muitos usuários pagam para acessar, pois não há controle de informações pessoais como no Google Drive. A qualidade e a segurança do Dropbox são características que a Solid deve ter, mas com ambições evolutivas para a web, como dito.

Uma crítica pode ser que algo descentralizado, como é a ideia para o Solid, implique em lentidão de processamento, pois um modelo P2P ou misto, envolvendo servidores Solid, poderia envidar um esforço de energia enorme, e tem ainda a dúvida se haverá uma massa de computadores ligados 24/7 (24 horas nos sete dias da semana) para sustentar a rede Solid.

Por sua vez, tendo, então, uma solução com servidores dedicados, haveria uma implicação das grandes corporações novamente, podendo inviabilizar o Solid. Talvez este alto consumo e o problema de processamento possam ser resolvidos por novas fontes de energia renováveis como a eólica e a solar, e ainda pelo próprio avanço tecnológico imponderável.

A ideia de um arquivo DATA que é protegido por uma chave privada, com esta gerando uma chave pública, que a conecta a um banco de dados específico, implica em que as ações do usuário ainda serão detectadas, só sendo preservados seus dados pessoais, a Solid, então, funcionará como um servidor proxy.

E esta ideia de ser uma plataforma disruptiva, pode ser questionada pelo fato da Solid ainda ter um sistema que depende de uma infraestrutura preexistente, é hospedado na AWS. O visual da plataforma ainda é incipiente, baseado em padrão bootstrap, e nem o código publicado no github parece ainda bem resolvido ou estruturado, ainda há um caminho longo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/o-solid-de-tim-berners-lee 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

AS LEIS EUROPEIAS ANTITRUSTE

“a Lei de Mercados Digitais (Digital Markets Act) incide sobre os chamados gatekeepers”

No combate contra o domínio econômico das big techs, temos a iniciativa da Comissão Europeia, que apresentou duas propostas que tratam de serviços e mercados digitais, que envolvem punições pecuniárias que pode ir até bilhões, e ainda, num caso extremo, o desmembramento dos negócios.

A Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act) terá o papel de criar regras que terão que ser cumpridas pelas plataformas de modo que haja uma conexão entre consumidores e os bens, serviços e conteúdos.

Tais regras estão, também, relacionadas com a obrigação de remoção de conteúdos considerados ilegais, e também de bens e serviços com esta mesma ilegalidade. Ainda haverá uma salvaguarda para a supressão de conteúdos de usuários, uma transparência em relação ao funcionamento dos algoritmos, e a facilitação para a ação de investigadores para estes terem acesso à rastreabilidade de ofertas de bens e serviços ilegais, e aos dados em geral.

A supervisão direta da Comissão Europeia incidirá sobre as plataformas chamadas de sistêmicas, ou seja, aquelas que cobrem mais de 10% da população da União Europeia (UE), estas plataformas poderão sofrer sanções, multas, podendo estas atingir até 6% do faturamento global em casos mais extremos de infrações.

Por sua vez, a Lei de Mercados Digitais (Digital Markets Act) incide sobre os chamados gatekeepers, estas que são plataformas digitais que realizam uma ponte entre os consumidores e as empresas.

Por exemplo, neste escopo se inclui lojas de aplicativos da Apple e do Google, aonde se encontram produtos feitos por desenvolvedores que são oferecidos aos donos de smartphones iOS e Android. Também temos neste meio a lei enquadrando redes sociais, serviços de buscas e apps de mensagens e marketplaces.

Outras normas envolvem a proibição de impedimento de remoção de softwares pré-instalados e de criar barreiras a produtos de concorrentes, e as sanções desta Lei de Mercados Digitais são mais graves, pois neste caso as multas podem chegar a 10% do faturamento global das empresas.

Nos casos de infrações sistemáticas, podem ocorrer soluções estruturais que obrigam um gatekeeper a vender uma empresa ou uma parte desta. Os debates em torno das duas propostas são intensos e geram atritos entre as empresas, ainda se terá a necessidade de aprovação pelo Parlamento Europeu e pelos Estados-membros.

No início de novembro de 2020, a Comissão Europeia anunciou as conclusões preliminares de seu relatório sobre a ação antitruste contra a Amazon, acusada de violar leis de concorrência.

O comunicado de Margrethe Vestager, a comissária de concorrência do bloco, afirmou que há suspeitas de que a Amazon favoreceu a venda de seus próprios produtos com dados de fornecedores externos que usam a sua plataforma. A multa da investigação, que começou em julho de 2020, pode chegar a US$ 19 bilhões, caso a Amazon seja condenada.

Na Austrália, por sua vez, em fevereiro de 2021 temos uma medida nova antitruste que obriga Google e Facebook a pagarem por notícias exibidas em suas páginas. As gigantes de tecnologia e os produtores de conteúdo deverão acordar entre si a remuneração pela veiculação de notícias. O Facebook reagiu mal, retirou notícias de sua plataforma por uma semana, para recuar logo em seguida, e o Google ameaçou deixar o país.

O movimento de acordos com veículos de comunicação, por parte do Google e do Facebook, não foi espontâneo, mas fruto da pressão que se inicia com a lei australiana, e que pode se estender a outros países, pois estes podem se espelhar na ação legiferante australiana.

O Google, por exemplo, criou o programa Google News Showcase, como um meio para fazer seus acordos com os veículos de mídia, numa pretensa boa vizinhança para justificar o uso de notícias no seu buscador.

Este programa do Google foi anunciado em 2020, primeiro com foco na Austrália, Alemanha e Brasil. Aqui no nosso país tivemos a Lei das Fake News e também um inquérito aberto pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que envolve o não pagamento aos produtores de conteúdos por parte do Google na exibição destes conteúdos em seu buscador.

Em relação ao alcance do News Showcase da Google, temos a adesão da NewsCorp, que inclui o jornal “The Wall Street Journal” e o inglês “The Times”, propriedades do empresário australiano Rudolph Murdoch.

Os planos de expansão deste programa do Google agora prevê investimento de US$ 1 bilhão nos próximos três anos e o Google afirma que já aderiram mais de 450 publicações em uma dúzia de países, que inclui tanto o Brasil e a Alemanha, como Reino Unido, Canadá, Japão e Argentina.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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segunda-feira, 29 de março de 2021

SOPHIA DE MELO BREYNER ANDRESEN E SEU LIVRO GEOGRAFIA

“neste seu livro Geografia temos uma abordagem sobre o Brasil em alguns poemas”

Sophia de Mello Breyner Andresen tem uma espécie de relação suspensa com o espaço e o tempo, pois estas categorias se fundem na entidade do nada, um tipo de vacuidade abarcando a existência que atinge diretamente a reflexão poética.

A poeta Sophia se irmana e entra numa fusão com o cosmos, temos um tipo de pensamento que simula um movimento da alma que se mistura ao cosmos, enfim, uma paixão cosmológica domina um dos anelos da poesia de Sophia.

O olhar de Sophia possui uma dupla dimensão que pode pender às pequenas coisas e, num dado momento, à uma paisagem que se une ao todo, e tal relação define uma vivacidade dos instantes.

Sophia usa palavras como instante, solidão e silêncio como um meio em que sua poesia se instala na relação com os espaços e a realidade, seja esta material ou espiritual, transitando entre História e Mito, e colocando o eu-lírico nesta inflexão que flui entre pequenos espaços e uma paisagem totalizante.

Por sua vez, Sophia de Mello Breyner Andresen dá continuidade ao seu trabalho poético no livro Geografia, de 1967, que funciona como um prolongamento de Livro Sexto, sobretudo, as características formais, que envolvem concisão, poemas que se encerram, em geral, com brevidade, sintéticos e diretos, uma riqueza melódica que se alia a contraposições rítmicas.

Na vivência biográfica da poeta, esta inscrição nos aparece em sua poesia, neste livro, com a sugestão do título, uma geografia, a experiência da viagem e os dados históricos e sobre a mitologia.

Temos aqui as luzes das praias do Algarve e as das ilhas gregas, revezando com temas anteriores abordados, como a política e a cultura. No panorama político, temos um tipo de cartografia que revela o cenário de Portugal nos estertores do Salazarismo, seguida da segunda parte do livro, que já é a realidade portuguesa dos anos 1960.

Depois de um trabalho de proximidade com João Cabral de Melo Neto, em O Cristo cigano, neste seu livro Geografia temos uma abordagem sobre o Brasil em alguns poemas, que são escritos bem interessantes, tais como “Manuel Bandeira” e “Brasília”, este último que nos dá versos impressionantes sobre a capital projetada do Brasil.

DE GEOGRAFIA

INGRINA : A poeta reflete e vê o grito da cigarra e vislumbra a felicidade, no que temos : “O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia – e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.”. A onipotência do sol, e toda a riqueza da poesia de Sophia, aqui, em forma de poema em prosa, em toda a sua intensidade : “É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol.” (...) “O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo : nesta manhã eu recomeço o mundo.”. As imagens naturais, e a força metafórica com um estro clássico que desenha bem toda a potência poética.

MUNDO NOMEADO OU DESCOBERTA DAS ILHAS : A paisagem se abre em toda a sua riqueza natural e metafórica, aqui a inflexão de Sophia é tanto poesia como descrição de um cenário, no que vem : “Iam de cabo em cabo nomeando/Baías promontórios enseadas :” (...) “E as coisas mergulhadas no sem-nome/Da sua própria ausência regressadas/Uma por uma ao seu nome respondiam/Como sendo criadas”. A relação dos nomes e das coisas e sua essência inominável fundam a anfibologia deste poema, que é, mais uma vez, uma paisagem que Sophia nos oferece. A nomeação, aqui, é criada, o regresso ao fundo oco retoma o jogo, em seguida, e seu estatuto existencial, com um novo nome, criatividade e criação.

TÚMULO DE LORCA : O poema homenageia o poeta Lorca, este que foi executado, e todo o poema canta, celebra e retoma o tema da execução e da figura do próprio poeta, no que vem : “Em ti choramos os outros mortos todos/Os que foram fuzilados em vigílias sem data/Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias” (...) “Choramos sem consolação aqueles que sucumbem/Entre os cornos da raiva sob o peso da força”. A inconformidade comum e demasiado humana diante da morte e, mais ainda, diante da tragédia, vai de encontro ao instinto comum da felicidade que, quando se depara com a dureza da dor, ou se desampara, ou a enfrenta, no que temos : “Não podemos aceitar. O teu sangue não seca/Não repousamos em paz na tua morte/A hora da tua morte continua próxima e veemente/E a terra onde abriram a tua sepultura/É semelhante à ferida que não fecha”. E o poema, com o cheiro ainda do sangue, celebra Lorca : “O teu sangue não encontrou nem foz nem saída/De Norte a Sul de Leste a Oeste/Estamos vivendo afogados no teu sangue/A lisa cal de cada muro branco/Escreve que tu foste assassinado”. No fim, com todo o esforço de Sophia, o tema ainda é a inconformidade, no que vem : “Não podemos aceitar. O processo não cessa/Pois nem tu foste poupado à patada da besta/A noite não pode beber nossa tristeza/E por mais que te escondam não ficas sepultado”.

NO DESERTO : O poema abre cenários antigos e a imagem do cavalo, e seu tema sobre o deserto lhe toma o norte, no que temos : “Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino/Eu te debelo com espora e rédea” (...) “Para que não te percas nas cidades mortas/Para que não te percas/Nem nos comércios de Babilónia/Nem nos ritos sangrentos de Nínive” (...) “Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo/Para o perfume limpo do deserto/Para a sua solidão de extremo a extremo”. O combate da poeta é pelo domínio, esta energia que impulsiona o estro que aqui se abre : “Por isso te debelo te combato te domino/E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém” (...) “Para poder soltar-te livre no deserto/Onde não somos nós dois mas só um mesmo/No deserto limpo com seu perfume de astros/Na grande claridade limpa do deserto/No espaço interior de cada poema/Luz e fogo perdidos mas tão perto/Onde  não somos nós dois mas só um mesmo”. O espírito de fusão, por fim, mais uma vez, revela um dos ideais do trabalho poético de Sophia.

OS ESPELHOS : O espelho reflete a sua relação concreta e abstrata com a pupila, e aqui com a participação da poesia, no que temos : “Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia/Nunca são baços/E mesmo sob a pálpebra da treva/Sua lisa pupila cintila e fita/Como a pupila do gato/Eles nos reflectem. Nunca nos decoram”. Neste reflexo não está mais a visão, mas a vida interior, uma alma habita este espelho que reflete quem lhe olha com seu fogo frio e vítreo, a coda : “Porém é só na penumbra da hora tardia/Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio/Que à tona dos espelhos aflora/A luz que os habita e nos apaga :/Luz arrancada/Ao interior de um fogo frio e vítreo”.

NO GOLFO DE CORINTO : A paisagem habita a poesia de Sophia sempre de uma forma bela e clássica, no que temos : “No Golfo de Corinto/A respiração dos deuses é visível :/É um arco um halo uma nuvem/Em redor das montanhas e das ilhas/Como um céu mais intenso e deslumbrado”. Tal geografia aqui se carrega de  mitologia, e o poema se enriquece, tem uma simbologia que incrementa uma paisagem real : “E uma luz cor de amora no poente se espalha/É o sangue dos deuses imortal e secreto/Que se une ao nosso sangue e com ele batalha”.

EPIDAURO : A descrição do cenário cretense e sua mitologia do Minotauro, aqui, mais uma vez, a proximidade da poesia de Sophia com temas antigos e sua recriação poética, no que temos : “O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é :/trazida à luz/trazida à liberdade da luz/trazida ao espanto da luz” (...) “Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a nossa alegria do mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real.”. A poeta tenta não ser devorada por este ser mitológico, e também luta para que toda a existência não tenha este destino, o jogo imagético se torna impressionante, a citação do vaso cretense nos faz lembrar exatamente de uma foto deste vaso, o polvo, e a cidade de Cnossos, e segue : “Mas de súbito verás que é um homem que traz em si próprio a violência do toiro.” (...) “Só poderás ser liberta aqui na manhã d`Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas – portadoras limpas da serenidade”. A violência do Minotauro pode ser a violência humana, de um homem, o que resta é resgatar a voz da serenidade, que encerra o poema, após este terror mitológico de violência e devoramento.

ÍTACA : A descrição da embarcação e de sua mecânica se funde em um poema que também aponta um nascimento, um segundo nascimento, a restituição é rica e potente, no que temos : “Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas/verdes de Brindisi/Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos/remos e guindastes” (...) “Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos/Quando o barco rolar na escuridão fechada/Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar/Porque esta é a vigília de um segundo nascimento”. O poema refunda uma existência, a poeta aqui em sua inteireza descreve esta experiência de plenitude e completude, reunião, religare, retomada, restituição, a sabedoria renasce, a vida recomeça : “O sol rente ao mar te acordará no intenso azul/Subirás devagar como os ressuscitados/Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial/Emergirás confirmada e reunida/Espantada e jovem como as estátuas arcaicas/Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto”.

MANUEL BANDEIRA : O poema de Sophia homenageia o poeta brasileiro Manuel Bandeira, no que temos : “Este poeta está/Do outro lado do mar/Mas reconheço a sua voz há muitos anos/E digo ao silêncio os seus versos devagar” (...) “Eu recitava/”As três mulheres do sabonete Araxá”/E minha avó se espantava” (...) “Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó/Quando em manhãs intactas e perdidas/No quarto já então pleno de futura/Saudade/Eu lia/A canção do “Trem de ferro”/E o “Poema do beco””. A poeta cita a sua avó e a admiração desta por este poeta, e segue : “Quando/Me sentava nos bancos pintados de fresco/E no Junho inquieto e transparente/As três mulheres do sabonete Araxá/Me acompanhavam/Tão visíveis/Que um eléctrico amarelo as decepava”. Os poemas de Bandeira ecoam neste poema de Sophia, e temos : “Estes poemas caminharam comigo e com a brisa/Nos passeados campos da minha juventude/Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro/E foram parte do tempo respirado”. É tanto uma leitura, como uma lembrança, é a experiência de Sophia com a poesia de Manuel Bandeira.

BRASÍLIA : Este poema tem uma descrição impressionante de Brasília, nesta ligação de Sophia, agora não apenas com a poesia brasileira, mas agora com a paisagem brasileira, e no caso de Brasília, por conseguinte, com a arquitetura e a concepção urbana desta cidade projetada, no que temos : “Brasília/Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras/Lógica e lírica/Grega e brasileira/Ecuménica/Propondo aos homens de todas as raças/A essência universal das formas justas”. Aqui a relação das formas justas remete, para Sophia, às formas clássicas gregas, Pitágoras é evocado, depois Babilônia surge, paisagem e arquitetura viram uma fusão em que a poesia de Sophia se expande, no que vem : “Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem/Nítida como Babilónia/Esguia como um fuste de palmeira/Sobre a lisa página do planalto/A arquitectura escreveu a sua própria paisagem”. E a citação social, refletindo da riqueza arquitetônica, braços destes candangos que ergueram uma façanha, e toda a clareza racional idealizada aqui pela poeta : “No extremo da caminhada dos Candangos/No extremo da nostalgia dos Candangos/Athena ergueu a sua cidade de cimento e vidro/Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento/E há no arranha-céus uma finura delicada de coqueiro”.

DA TRANSPARÊNCIA : O jogo da realidade ganha aqui contrastes que podem confundir os sentidos, se perder se torna fácil e tentador, o poema vem : “Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência/No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios/Mas sufocado sonho/E não sabemos bem que coisa são os sonhos/Condutores silenciosos canto surdo/Que um dia subitamente emergem/No grande pátio liso dos desastres”. E dentro da vida interior, residência da alma, sonhos, que se não os colocamos nas rédeas dos objetivos, podem emergir desordenados num cenário de desastres.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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quinta-feira, 25 de março de 2021

AS BIG TECHS ESTÃO NA MIRA DA REGULAMENTAÇÃO

“O movimento nos Estados Unidos pode ter motivos antitruste, mas também envolvem  questionamentos sobre impactos na democracia”

A computação teve um grande e intenso avanço que permitiu um maior armazenamento de dados, o que fez as empresas de tecnologia crescerem e se tornarem gigantes, e algumas destas empresas desenvolveram sistemas cada vez mais sofisticados de inteligência artificial.

Este desenvolvimento tecnológico causou um controle de informações, que juntava dados pessoais, e também provocou o controle da publicidade e do conteúdo, e nos últimos dez anos surgiram verdadeiros monopólios de mercado, minando a concorrência na área de tecnologia.

A reação para regulamentar e limitar este controle das chamadas big techs veio neste contexto em que estas empresas cresceram e se tornaram gigantes do mercado mundial, contudo, com iniciativas de diferentes países e regiões do mundo, também com diferentes motivações e objetivos.

As empresas norte-americanas estão sendo questionadas na Europa e no próprio Estados Unidos, e a China, que não tem a presença do Google e do Facebook há anos, temos a tentativa de controlar os gigantes que surgiram dentro da China, como o Alibaba.

O governo norte-americano abriu uma ação federal em outubro de 2020, na direção do Google, depois de um ano de investigações antitruste da empresa, e agora dezenas de estados dentro dos Estados Unidos processam o Google, com a acusação de monopólio ilegal nos mercados de busca online e de publicidade em pesquisas, e temos também o Facebook recebendo dois processos antitruste com acusações de abuso no mercado digital.

O movimento nos Estados Unidos pode ter motivos antitruste, mas também envolvem  questionamentos sobre impactos na democracia e no fluxo de informações online, pois tivemos uma onda de desinformação e parcialidade como uma preocupação nas recentes eleições norte-americanas.

O questionamento passa por quem tem o controle de informações, e o acesso ao eleitorado, e os Estados Unidos passam pelo cálculo nas medidas antitruste no sentido de não perder o controle do fluxo de informações em outras partes do mundo.

Este fluxo de informações tem seu controle exercido justamente pelo grande poder destas big techs na Europa e em outros lugares do mundo. A resistência é evidente, a vantagem que os Estados Unidos possuem deverá ser conservada nestes movimentos.

Na Europa estas iniciativas antitruste e de um controle maior na expansão de poder das big techs já tem mais tempo, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia, que foi um divisor de águas nas leis de privacidade, foi promulgado em 2018, e proporcionou às pessoas um maior controle sobre seus próprios dados pessoais.

Em 2020 a Europa anunciou ter intenções de tornar o RGPD mais rígido, e a Comissão Europeia divulgou um conjunto de políticas preliminares que daria aos reguladores mais poderes de combate às big techs.

Tais iniciativas e planos receberam forte apoio político em toda a Europa, o limite está no fato de que tais empresas estão sediadas nos Estados Unidos, o que impede um maior controle europeu sobre as ações destas empresas, pois deverá haver um balanceamento entre interesses europeus e o que não atingiria interesses norte-americanos.

Na China, por sua vez, que trilha um caminho paralelo na indústria de tecnologia, o governo quer ações regulatórias, e aqui temos atores internos, pois Google e Facebook já forma há tempos banidos do país, o que permitiu a expansão de empresas nacionais chinesas como Alibaba (BABA), Tencent (TCEHY) e outras.

Em uma reunião de 11 de dezembro, o Politburo do Partido Comunista Chinês (o principal órgão de tomada de decisões do país) prometeu promover reformas e fortalecer o antitruste, prevenindo a expansão desordenada do capital. Mas ainda é cedo até onde irá o poder de Pequim contra estas empresas nativas, provavelmente o foco será a proteção do consumidor.

O principal regulador de mercado da China convocou representantes do Alibaba, da  Tencent, da JD.com e outras grandes empresas de tecnologia, e lançou um alerta contra dumping de bens a preços artificialmente muito baixos, que teriam o objetivo de criar monopólios, e com um abuso sobre dados de consumidores visando o lucro, e a investigação também teria foco no comportamento monopolista do Alibaba.

O governo chinês também tem outros meios de combate além da lei sobre concorrência, um exemplo foi a sua ação no IPO do Ant Group de Jack Ma, que foi suspensa depois que o bilionário chinês se reuniu com autoridades do governo, e agora enfrenta a possibilidade de uma reformulação gigantesca.

As opções de controle por parte do governo chinês são infinitas, e o objetivo não passa necessariamente por aumentar a concorrência, mas garantir que o Partido Comunista Chinês continue no poder.

As normas divulgadas pela Administração Estatal de Regulação do Mercado da China visam impedir que estas grandes empresas de tecnologia vendam produtos causando prejuízo a concorrentes, e o uso ilegal de dados de consumidores, evitando também sobre estes vínculos a cláusulas de permanência.

A maneira usual de fazer negócio dos grandes conglomerados do país, que incluem  Alibaba, Ant Group, Tencent ou a plataforma de entrega de comida Meituan, seriam bastante limitadas com este novo marco. E depois desta ação sobre o IPO do Ant Group, estes estão agora na mira do governo chinês.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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