PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

ENSAIO BEAT


“Neal Cassady já tinha roubado sete carros naquela noite de benzedrina”

  A rocha não teme toda a bruma que vem candente, o vinho ébrio traz a astúcia de todo poema, naufraga Rimbaud, desce ao inferno seu esplendor ao ato de suicídio literário, a viagem toma a tela da tempestade, vejo atônito passar por uma ruela Allen Ginsberg dando baforadas estupefatas com Peter Orlovsky. Neal Cassady já tinha roubado sete carros naquela noite de benzedrina, o adrenocromo ficava na mente de uma demência jornalística, seu mestre gonzo, o guru dos desajustados profissionais, Hunter Thompson. Não sobraria da nau bêbada do que restou de Rimbaud senão a peste assassina de um Villon em fuga para o paraíso do esquecimento. Acordava numa tarde de ressaca Jack Kerouac com sua datilografia para ofender com escrita automática os pruridos racionais e de espírito de coerência de um grande dos grandes Truman Capote. Neal pega uma ferrari em Las Vegas e chama Kerouac para um passeio a 180 Km/h até Denver para escutar Jazz em New Orleans e encontrar Burroughs descansando depois de um pico, num acumulador de orgones. Ginsberg então fica puto por não estar lá, por ter se perdido no caminho, em busca do “grande poema”, e teria que ser antes de fazer 23 anos, pois dos 30 para frente a fruição jovem dá lugar a uma dureza de expressão que tem muito de ritmada, mas não proclama mais as vísceras do tempo, do seu próprio tempo, o tempo do mundo dentro da cabeça e do tempo do artista, depois são ondas, ondas grandes, mas o grande maremoto, o poema do apocalipse, este só uma cabeça jovem poderia fazer, e nada mais restaria senão ecos desta grande hecatombe, o caos que Ginsberg percorria era “jazzy” e delirava como um cão fugido do cativeiro, mas “o cara” mesmo era Neal e sua jovem cabeça de poeta sem escrita, de poeta da vida e não da palavra, arranhando biografias inacabadas e morrendo num trilho depois de cair ébrio num colapso físico que lhe esperava com as mãos ansiosas.
   A tragédia remonta novamente na prosa beat, Kerouac morre no seio materno com delírios republicanos e sede alcoólica que lhe mata de tanto que ficou na frente da televisão. Ginsberg sobrevive, Ferlinghetti edita toda a loucura daquela América que vinha de Mark Twain e Thomas Wolfe, de onde Kerouac surgiu e depois desaguou na onda de um trompete de Dizzie Gillespie e no ritmo sincopado e frenético de outro trágico da heroína, mais um, o sax-alto Charlie Parker, que voava como Bird em seu horse que lhe envelheceu na casa dos trinta. A música sempre foi a grande aliada da literatura, a música é a grande arte, a literatura dos boêmios é só um reflexo dos tímpanos, a escrita precisa do delírio auditivo para eclodir, e a onda só vem no topo de gênios musicais.

                   Passava por Denver, encontro a rapaziada,
                   Todos bêbados, loucos para viajar,
                   Passava por New Orleans, Old Bull Lee
                   Ensinava o caminho para os novatos,
                   A estrada era longa, a metafísica da estrada!
                  O “conhece-te a ti mesmo” sobre rodas,
                  A poeira deixada pelo acelerador
                  Como a cosmologia fundamental
                  Que compõe o poema
                  Que nasce no reflexo de um trompete,
                  No frigir de um sax, no estalo
                  Do vento na cara e na luta por viver
                  De uma maneira louca, o modo dos
                 Corajosos, os idiotas que são espertos,
                 Os que contam o dinheiro que acaba
                 Antes do destino, a gasolina que se perde
                 Na velocidade do risco, Neal pilotando
                 Sua nau de quatro rodas e motor turbinado,
                 A navegação dá lugar à estrada,
                 A viagem de Rimbaud à África
                 Transmutada em raio cósmico
                  Na estrada rumo ao Oeste mítico,
                  No fim a vastidão do Pacífico,
                  Os olhos no horizonte sem fim,
                   A estrada dos olhos no fim da
                   Estrada de chão,
                   Ginsberg grita bêbado,
                   Kerouac toma benzedrina
                   Para acreditar no que via,
                   Neal cheira gasolina,
                   Burroughs sorri em sua casa
                   Depois de mais um pico
                   Para embarcar no horse místico,
                   A geração beat estava pronta,
                   Kerouac já estava em condições
                   De escrever a sua grande história,
                   Neal, o herói, Burroughs, o mestre,
                   Ginsberg, o poeta ideal em busca
                    Do grande poema que seria
                    A consumação de toda a metafísica
                    De todos os poemas e poetas do mundo
                    Num atingir infalível do “It” do Jazz.

   Eu passo pelas notas febris de On The Road, tudo brilha como fogo na montanha do miasma frenético dos poemas de Ginsberg, misturo O Uivo com Miles Davis e dá pura poesia nova! A guerra já se foi como tema, coisa de menino que fuma erva. A nota do It agora é a meta, não há o grande poema, o que tem mesmo é a festa da palavra, e tudo consuma para além da palavra, estrangulamento da linguagem no eletro-choque da música, o não-verbal do Jazz invadindo a palavra que vasa dos poros da mente à mão e daí ao papel, que importa! Vamos em frente! Vamos! Pela última nota que será sempre a primeira, por todas as palavras que sempre serão transcendência, magia e poesia totalizante, vamos deglutir os morfemas e trazer na sonora canção a flor revolta da paixão que sorri na tarde que brilha nos dentes, pois da estrada até a praia, do mar até o horizonte, tudo é poesia!
(POEMA EM PROSA)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/ensaio-beat



      

 

 

 


domingo, 16 de setembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA : ENTRE O RELIGIOSO E O PROFANO


“Tal contradição, por conseguinte, será a marca do homem seiscentista e barroco”

Gregório de Matos Guerra, embora tenha produzido muitos poemas, não publicou um único livro em vida. Sua produção foi dispersa, entre manuscritos, cópias estropiadas de admiradores, sendo questionada autoria e autenticidade, em uma época que escritos de diversas origens circulavam sem autoria comprovada.
A produção poética de Gregório se conhece, na História, pelo traslado que se deu entre manuscritos organizados em códices que, contudo, eram contraditórios ou divergentes entre si.
Num esforço feito por Afrânio Peixoto, a Academia Brasileira de Letras conseguiu reunir os poemas de Gregório em seis volumes, que foram então compilados com o título de Obras Completas. Já em 1969 temos novos poemas entrando no espólio e então James Amado faz uma versão da produção de Gregório agora em sete volumes. E que se tornou dois volumes em 1992 sob o título Obras Poéticas, já fundamentada em maior número de códices.
A produção poética de Gregório, em sua temática, temos a sua divisão principal entre poemas religiosos e poemas profanos. Temos, por conseguinte, em seus poemas religiosos, uma unidade maior em características, tendo então esta poesia um caráter que não necessitava de novas divisões.
Por sua vez, na poesia profana de Gregório, dada a sua diversidade maior de características, podemos situá-las entre poemas amorosos, encomiásticos, satíricos e de circunstância.
Essa divisão da poesia de Gregório retrata também a divisão anímica do homem barroco, entre a metafísica e a carnalidade, entre os anseios espirituais e os impulsos naturais, que na poesia de Gregório vai se dar entre temas religiosos e profanos, como dito. Tal contradição, por conseguinte, será a marca do homem seiscentista e barroco.
POEMAS :
A CHRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA. : O poeta, em franco drama e derramamento barroco, se encontra aqui entre a vida e a morte, e também entre o pecado e a salvação, no que segue : “Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,/Em cuja lei protesto de viver,/Em cuja santa lei hei de morrer” (...) “Neste lance, por ser o derradeiro,/Pois vejo a minha vida anoitecer,/É, meu Jesus, a hora de se ver/A brandura de um Pai manso Cordeiro./Mui grande é vosso amor, e meu delito,” (...) “Esta razão me obriga a confiar,/Que por mais que pequei, neste conflito/Espero em vosso amor de me salvar.”. O poema é uma prece ou pedido do poeta diante da divindade que lhe proporcione o descanso dos justos e não o tormento infinito reservado aos pecadores no inferno. O poema ganha esta tensão que será bem comum na poesia religiosa de Gregório.
AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO : Segue aqui um dos trechos de versos mais célebres da pena gregoriana, no que temos, em júbilo : “Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,/Da vossa piedade me despido,/Porque quanto mais tenho delinquido,/Vos tenho a perdoar mais empenhado/Se basta a vos irar tanto um pecado,/A abrandar-vos sobeja um só gemido,/Que a mesma culpa, que vos há ofendido,/Vos tem para o perdão lisonjeado.”. O poeta se volta aos céus em sua contradição espiritual de poeta pecador e despido, no que segue : “Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada/Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,/Perder na vossa ovelha a vossa glória.”. O poeta anseia pela glória, de ser uma ovelha que a divindade não quereria perder ao abismo da morte e da maldade.
AO SANCTISSIMO SACRAMENTO ESTANDO PARA COMUNGAR. : O poema mais uma vez revela a contradição do homem barroco e seiscentista, encarnado aqui no poeta Gregório, que se bate entre céu e inferno, e temos : “Tremendo chego, meu Deus,/ante vossa divindade,/que a fé é muito animosa,/mas a culpa mui cobarde.” (...) “Como comerei de um pão,/que me dais, porque me salve?”. Anseio de salvação que torna aqui em estro metafísico, poema religioso, pois, no que segue : “de um pão, que é tão formidável/vendo, que estais todo em tudo,/e estais todo em qualquer parte?”. E a especulação se volta aos desígnios divinos, no que tem : “Senhor, eu não vos entendo;/vossos preceitos são graves,/vossos juízos são fundos,/vossa ideia inescrutável.” (...) “só sei, que importa salvar-me.”. E o poema segue então diante dos anjos do Senhor, em louvação e glória em que o poeta tenta acudir os brutos em sua oração e poema, e até aos montes e vegetais, numa louvação universal, no que temos, por fim : “Os Anjos, meu Deus, vos louvem,/que os vossos arcanos sabem,/e os Santos todos da glória,/que, o que vos devem, vos paguem./Louve-vos minha rudeza,/por mais que sois inefável,/porque se os brutos vos louvam,/será a rudeza bastante./Todos os brutos vos louvam,/troncos, penhas, montes, vales,/e pois vos louva o sensível,/louve-vos o vegetável.”
CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRÁVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS : O poema aqui se configura com a natureza terrena do humano que, contudo, tenta alcançar a glória do céu como seu destino, e não a terra que lhe forma e que lhe dá o caráter mortal de pó, no que temos : “Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,/Te lembra hoje Deus por sua Igreja,/De pó te faz espelho, em que se veja/A vil matéria, de que quis formar-te./Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,”. E o poema finaliza entre salvação e natureza terrena, no que tem : “Todo o lenho mortal, baixel humano/Se busca a salvação, tome hoje terra,/Que a terra de hoje é porto soberano.”
AO BRAÇO DO MESMO MENINO JESUS
QUANDO APPARECEO. : O poema vai entre a parte e o todo, no que faz então um tipo de teoria poética sobre a divindade, no que vem : “O todo sem a parte não é todo,/A parte sem o todo não é parte,/Mas se a parte o faz todo, sendo parte,/Não se diga, que é parte, sendo todo./Em todo o Sacramento está Deus todo,”. E Jesus aqui é todo e não parte, o sacramento se dá inteiro, e então temos : “O braço de Jesus não seja parte,/Pois que feito Jesus em partes todo,/Assiste cada parte em sua parte./Não se sabendo parte deste todo,/Um braço, que lhe acharam, sendo parte,/Nos disse as partes todas deste todo.”.
MOTE 13 : O poema pinta bem a paixão do Senhor, e temos em versos delicados um trajeto que deseja a luz divina, no que temos :“Já requintada a fineza/nesse Pão sacramentado/temos, Senhor, ponderado/vossa inaudita grandeza :” (...) “Permiti por vossa cruz,/por vossa morte, e paixão,/que entrem no meu coração/os raios da vossa luz :/clementíssimo Jesus/sol de imensa claridade,/sem vós a mesma verdade,/com que vos amo, periga;/guiai-me, porque vos siga,/Ó divina Majestade.”. E Deus se fez Homem, a imagem do cordeiro então humaniza a divindade, e finaliza o poema, com júbilo : “na forma rendida/de um cordeiro a Majestade/aos olhos da humanidade/melhor a potência informa,/sendo cordeiro na forma,/Que sendo Deus na verdade.” (...) “que sendo Deus infinito,/Sois também Pão na aparência.”.
CONSIDERA O POETA ANTES DE CONFESSAR-SE NA ESTREYTA CONTA, E VIDA RELAXADA. : O poema clama contra a morte em pecado que pode roubar a salvação do poeta, no que temos : “Ai de mim! Se neste intento,/e costume de pecar/a morte me embaraçar/o salvar-me, como intento?” (...) “Valha-me Deus, que será/desta minha triste vida,/que assim mal logro perdida,/onde, Senhor, parará?”. O poema segue seu rumo e teme pelo assédio diabólico, no que temos : “Que desculpa posso dar,/quando ao tremendo juízo/for levado de improviso,/e o demônio me acusar?” (...) “Nome tenho de cristão,/e vivo brutalmente,” (...) “Sempre que vou confessar-me,/digo, que deixo o pecado;/porém torno ao mau estado,/em que é certo o condenar-me :”. O poeta faz confissão, mas retorna ao seu próprio mal, no que temos : “Mas se tenho tempo agora,/e Deus me quer perdoar,/que lhe hei de mais esperar,/para quando? Ou em qual hora?/que será, quando traidora/a morte me acometer,/e então lugar não tiver/de deixar a ocasião,/na extrema condenação/me hei de vir a subverter.”. A subversão e a condenação são o temor deste poema inteiro, pois.
POEMAS :
A CHRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA.
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

AO MESMO ASSUMPTO E NA MESMA OCCASIÃO

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história :
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

AO SANCTISSIMO SACRAMENTO ESTANDO PARA COMUNGAR.

Tremendo chego, meu Deus,
ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.
À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude,
e veneno da maldade?
Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.
Como não hei de ter medo
de um pão, que é tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?
Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me :
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?
Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?
Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa ideia inescrutável.
Eu confuso neste caso
Entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.
Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!
E pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus próprios manjares :
Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.
Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.
Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável.

CONTINUA O POETA COM ESTE ADMIRÁVEL A QUARTA FEYRA DE CINZAS
Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja,
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta pois, que o vento berra,
E se assopra a vaidade, e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina, e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.

AO BRAÇO DO MESMO MENINO JESUS
QUANDO APPARECEO.

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

MOTE 13
Ó divina Onipotência!
Ó divina Majestade!
que sendo Deus na verdade
sois também pão na aparência.

Já requintada a fineza
nesse Pão sacramentado
temos, Senhor, ponderado
vossa inaudita grandeza :
mas o que apura a pureza
da vossa magnificência
é, quererdes, que uma ausência
não padeça, quem deixais,
pois que partindo ficais,
Ó divina Onipotência.

Permiti por vossa cruz,
por vossa morte, e paixão,
que entrem no meu coração
os raios da vossa luz :
clementíssimo Jesus
sol de imensa claridade,
sem vós a mesma verdade,
com que vos amo, periga;
guiai-me, porque vos siga,
Ó divina Majestade.

Na verdade esclarecida
do vosso trono celeste
toda a potência terrestre
de compreender-vos duvida :
porém na forma rendida
de um cordeiro a Majestade
aos olhos da humanidade
melhor a potência informa,
sendo cordeiro na forma,
Que sendo Deus na verdade.

Cá neste trono de neve,
onde humanado vos vejo,
melhor aspira o desejo,
melhor a vista se atreve :
aqui sabe, o que vos deve
(vencendo a maior ciência)
amor, cuja alta potência
adverte nesse distrito,
que sendo Deus infinito,
Sois também Pão na aparência.

CONSIDERA O POETA ANTES DE CONFESSAR-SE NA ESTREYTA CONTA, E VIDA RELAXADA.

Ai de mim! Se neste intento,
e costume de pecar
a morte me embaraçar
o salvar-me, como intento?
que mau caminho frequento
para tão estreita conta;
oh que pena, e oh que afronta
será, quando ouvir dizer :
vai, maldito, a padecer,
onde Lucifer te aponta.

Valha-me Deus, que será
desta minha triste vida,
que assim mal logro perdida,
onde, Senhor, parará?
que conta se me fará
lá no fim, onde se apura
o mal, que sempre em mim dura,
o bem, que nunca abracei,
os gozos, que desprezei,
por uma eterna amargura.

Que desculpa posso dar,
quando ao tremendo juízo
for levado de improviso,
e o demônio me acusar?
Como me hei de desculpar
sem remédio, e sem ventura,
se for para aonde dura
o tormento eternamente,
ao que morre impenitente
sem confissão, nem fé pura.

Nome tenho de cristão,
e vivo brutalmente,
comunico a tanta gente
sem ter, quem me dê a mão :
Deus me chama co perdão
por auxílios, e conselhos,
eu ponho-me de joelhos
e mostro-me arrependido;
mas como tudo é fingido,
não me valem aparelhos.

Sempre que vou confessar-me,
digo, que deixo o pecado;
porém torno ao mau estado,
em que é certo o condenar-me :
mas lá está quem há de dar-me
o pago do proceder :
pagarei num vivo arder
de tormentos repetidos
sacrilégios cometidos
contra quem me deu o ser.

Mas se tenho tempo agora,
e Deus me quer perdoar,
que lhe hei de mais esperar,
para quando? Ou em qual hora?
que será, quando traidora
a morte me acometer,
e então lugar não tiver
de deixar a ocasião,
na extrema condenação
me hei de vir a subverter.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-entre-o-religioso-e-o-profano
       

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

MUSEU NACIONAL


“muito trabalho árduo foi perdido junto com a História”

Este museu mora na minha memória afetiva. Lembro de ter uns nove anos, e depois de uma excursão de minha escola num museu no interior do Espírito Santo, acho que um lugar com pássaros, se não me engano, cheguei nas férias de verão no Rio de Janeiro, e falei com meu pai que queria conhecer museus do Rio. Dentre idas a vários museus, lembro bem da Casa de Rui Barbosa, do Palácio do Catete e, claro, do Museu Nacional.
Fui ao Museu Nacional com meu pai e vi todo seu acervo, e eu era uma criança curiosa e devo ter, realmente, visto tudo que tinha no museu, passando pelos ossos montados de dinossauros logo na entrada, muita coisa de história natural, passando pelo setor do Egito Antigo, objetos históricos da família imperial, acho que foi no museu nacional que vi uma múmia de uma mulher sem nariz, e quando eu contei a história na minha escola já em Vitória, uma menina achou que era mentira, a múmia, se não me engano, era de uma esquimó.
Lembro que já na saída do museu, no parque da Quinta da Boa Vista, na porta do museu, começou uma briga homérica de um casal, daquelas brigas bem baixaria, e todos ali ficaram assistindo, e eu e meu pai também, uma coisa escandalosa da qual me lembro que encerrou a nossa visita naquele museu maravilhoso, o ano provavelmente deve ter sido 1991, e foi a fase em que eu comecei a ler a série de livros Conhecer Atual, no que um dia levei o livro 1 que tinha reprodução humana para a minha sala na escola, e os meninos puderam ver uma cena científica de sexo no contexto do conhecimento reprodutivo.
Bom, voltando ao tema aqui, claro, me refiro a tragédia do incêndio que destruiu o Museu Nacional e que é fruto do descaso do Brasil com a cultura, um país que vive só de momentos e que ignora a História, a memória e a cultura, e que nutre um desprezo pelo conhecimento que pude sentir dando aula para algumas turmas (não todas) de adolescentes, e que é reflexo tanto do momento que vive o país, como de uma certa alienação pela tecnologia, a qual poderia ser uma ferramenta do conhecimento, mas que também pode ser nociva ao se ter alunos tirando selfies no meio da aula.
A questão da verba pública logo foi levantada, a falta de recursos para os museus no Brasil, aqui tomando o exemplo trágico do Museu Nacional, num cenário, agora falando do Rio de Janeiro, em que temos um esqueleto do MIS (Museu da Imagem e do Som) em Copacabana, o qual sempre contemplo nas minhas caminhadas pela praia, e um investimento poderoso que houve no Museu do Amanhã.
Há todo o questionamento de se a UFRJ tem mesmo capacidade de financiar o Museu Nacional, muito se falou da verba que viria do BNDES, e se a iniciativa privada não poderia ter solucionado um problema de orçamento que vinha desde 2014, ou ainda se a UFRJ não deu prioridade ao museu, o que é inviável falar em prioridade em qualquer coisa num orçamento engessado que vai todo para pagar servidores, e que aumentou nos últimos anos da UFRJ. Se o MinC não teria sido também tolhido, como sempre, das prioridades da União, etc, etc.
Não culpo a UFRJ pelo acontecido, mesmo com todo o cenário de abandono que também inclui aqui a casa de shows Canecão, que está parada sem ter nada há anos. O problema eu julgo de prioridades de uma forma geral, o problema de uma postura cultural que não dá valor mesmo ao que se tem de patrimônio histórico e natural no país, e que vive de obras superfaturadas ou de iniciativas que acabam sem terminar e ficam em compasso de espera, como o caso que falei do MIS (Museu da Imagem e do Som).
E vemos então este fenômeno comum de comoção (justificada e legítima) mas que vem sempre depois da tragédia, tendo manifestações impostadas, de outro lado, por políticos em campanha que logo querem se promover como súbitos arautos da cultura nacional, e que agora virou cinzas naquela noite trágica da Quinta da Boa Vista, em que o abandono que já vinha sendo alertado há alguns anos não foi devidamente combatido com iniciativas que solucionassem o problema de financiamento para  a manutenção e incremento de eventos do museu, cujo último presidente da República a pisar lá foi Juscelino Kubitschek, e agora temos os tais paladinos da cultura depois do que foi consumido pelo fogo.
Todo um repertório de pesquisas científicas e antropológicas virou cinzas, tudo foi embora, alguns poucos setores se salvaram, como o herbário, o meteorito Bendegó, como símbolo de resistência, em meio a devastação feita pelo fogo, todo um trabalho de várias pessoas que não guardavam apenas um passado, não apenas um lugar que completa 200 anos de História, mas que tinha um compromisso com o futuro, muito foi perdido, coisas únicas, temas, arquivos, objetos, natureza, todo um trabalho voltado para o futuro, o registro que existia só ali, seja de história natural, seja de antropologia social, muito trabalho árduo foi perdido junto com a História do próprio lugar, e de sua potência simbólica, que agora grita como tragédia cultural.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/museu-nacional 





segunda-feira, 10 de setembro de 2018

JORGE LUIS BORGES, OS CAMINHOS DA METÁFORA


“os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo”

INTRODUÇÃO

Temos aqui, neste texto, partes resenhadas de uma palestra borgiana que veio a se tornar livro, Esse Ofício do Verso, e se trata de palestras proferidas em inglês por Jorge Luis Borges nos anos de 1967 e 1968 na Universidade de Harvard, e aqui temos a digressão do escritor sobre questões que tocam ao estudo linguístico e a literatura, numa riqueza de erudição própria do saber que podemos chamar sui generis da percepção intelectual borgiana.

O ENIGMA DA POESIA

Borges começa tratando da palavra enigma já dizendo que não tem nada a revelar neste sentido, que o mistério que cerca a poesia como um todo não é facultado a seu intelecto desvelar, portanto, aqui já de saída desmistifica-se a poesia e seu enigma, uma vez que o saber borgiano discorre mais etimologicamente sobre o tema do que sobre um suposto dom revelador de um adivinho das letras que Borges logo refuta.
Portanto, a postura de Borges diante da poesia é muito mais lúdica, de perplexidade, isto é, de um leitor que tem dúvidas sobretudo, do que de um conhecedor profundo de arcanos que na verdade não existem, pois o intelecto borgiano funciona aqui muito mais como um documento do que um fundamento para a análise da poesia.
E, falando da perplexidade, Borges nos convida ao próprio espanto histórico de que se fez e com a qual se edificou todo o saber filosófico, pois desde as origens do pensamento reflexivo da filosofia temos o espanto, aqui em Borges com a palavra perplexidade, a qual alimentou as especulações filosóficas desde os hindus, chineses, gregos, escolásticos, seja já na filosofia moderna com Berkeley, Hume, Schopenhauer, etc, tal sentimento de dúvida que Borges nos faz saber e compartilha como o começo de sua reflexão sobre o estro poético.
Na análise borgiana temos sobretudo a refutação da ideia ou conceito de forma e conteúdo como expressão, esta que vem da estética, e que está aqui bem citada no livro de estética de Benedetto Croce, área teórica que toma poesia e linguagem segundo o conceito de expressão, num modo de ver que Borges julga equivocado, pois se descola da coisa própria, a poesia aqui vira um fato para a teoria, mas Borges tenta situá-la em seu terreno, a vida.
Borges nos cita John Keats em seu famoso e batido soneto “On first looking into Chapman`s Homer”, o qual é, na fala de Borges, “um poema escrito a respeito da própria experiência poética”. Aqui vigora não a comunicação tomada como tal, mas uma paixão e um prazer, no qual Borges se vê impactado e impressionado não somente em seu intelecto como “com todo o meu ser, minha carne e meu sangue”.
E, fenômeno comum a um leitor, a primeira impressão ao ler um poema impactante nunca se repetirá, isto é, a primeira leitura de um poema causa ao leitor algo tão intenso em termos de deleite e paixão, que não se repetirá em leituras posteriores, já esfriadas por um conhecimento de causa. Contudo, Borges, mesmo diante desta evidência, ainda tenta nos fazer crer que a leitura de um poema se renova e que é possível termos “uma experiência nova a cada vez” com a poesia.
Borges lembra da importância da memória e do saber oral nos inícios da Antiguidade e como isto evoluiu para escritas sagradas como a Bíblia e o Alcorão, sendo aqui o sagrado como escrita do Espírito Santo, por exemplo, quando falamos das Sagradas Escrituras, e atributo do próprio Deus, quando falamos do Alcorão. E segue a leitura de Borges então sobre os clássicos, que lhe são mais caros pela beleza do que necessariamente por sua tomada imortalidade histórica.
E a experiência de beleza passa aqui por uma operação etimológica que se modifica a cada tempo e que na leitura poética tem em palavras de origens diversas uma leitura própria nestes contextos em que a poesia se exerce. A poesia ganha aqui impacto próprio, mesmo em diversas experiências de tradução pelas quais passe. Quando Borges nos diz da beleza, ele nos diz da permanência da poesia.

A METÁFORA

Borges logo nos dá o fenômeno inusual de que as combinações metafóricas se nos dão como infindáveis, mas que temos contudo o fenômeno usual de que muitos de nossos poetas se utilizam geralmente de metáforas surradas que se repetem pelos anos, no que Borges nos dá este paradoxo em que a amplitude da língua se limita, talvez, quando tratamos desta na língua poética.
Borges segue a sua análise e tem em conta que a metáfora se dá tal qual, isto é, funciona sempre para a percepção do leitor como ela é, ou seja, uma metáfora. Podemos até bem citar a análise borgiana das palavras poéticas como espécies de palavras-valise (aqui lembrando uma leitura exógena carroliana que aqui o resenhista inclui por contra própria) e temos então usos que se dão em metáforas que fluem diversamente, independentemente de condições lógicas prestabelecidas, mas do uso diverso feito pelos poetas e suas idiossincrasias simbólicas feitas pelo estro em ação, e que Borges nos dá exemplos como pela palavra noite, ampla em seu ir e vir pelas metáforas em seu sentido e uso.
Contudo, embora Borges nos dê a diversidade da palavra noite como metáfora, nos dá a entender também, por conseguinte, a limitação das metáforas surradas em palavras como lua, rio e pela manjadíssima comparação das mulheres com flores num estro romântico desavisado em língua-clichê que a poesia sempre conflui para o bem ou para o mal. Temos que a metáfora surrada dos poetas é um limite não linguístico, mas estilístico, em que o poeta é escravo de seu próprio estilo e não tem para onde ir.
E Borges segue a sua análise comparando o argumento filosófico em seu conteúdo lógico como insuficiente diante da verdade metafórica encontrada na poesia, e temos que Borges vê um discurso filosófico como o de Martin Buber, por exemplo, tendo mais valor como algo de beleza poética ou sonora como de um argumento filosófico propriamente dito, o que leva Borges a viver em Walt Whitman, por conseguinte, uma medida que ele usa para chancelar sua análise de que a poesia é mais convincente do que as ideias racionais, pois estas estão sem o brilho da beleza que a poesia proporciona.
E Borges nos dá sinais na poesia que atuam como velhos encantamentos que passam com o tempo a configurar truques de obviedade de modelos limitados de metáforas na poesia, desde afetações gongóricas do repertório barroco ou ainda imagens reiteradas de um estro romântico byroniano, por exemplo.
O que temos, por fim, dados exemplos de poetas históricos, é que os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo, “novas variações das principais tendências” em que temos o paradoxo dos modelos limitados, quase truques, com a inovação possível ainda por novos poetas históricos em correntes ou tendências ainda inauditas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/jorge-luis-borges-os-caminhos-da-metafora








 


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

VÓ MARINHA


“o jipe voltou a funcionar e seguimos viagem”

Minha avó paterna, Maria da Conceição de Sampaio Bastos, faleceu recentemente, deixando este mundo com uma vida longa de 88 anos. Tive uma experiência muito próxima com ela, sobretudo nestes últimos anos, e o momento chegou, não teve o sofrimento desnecessário, mas por um destes paradoxos da vida e da morte, mesmo diante da situação difícil, tentamos com a medicina e as energias positivas conservar ao máximo as funções vitais de quem gostamos, e sim, é um paradoxo, pois a morte, dependendo do que ocorre, é um misto de dor e libertação.
A vida da minha vó foi repleta de altos e baixos, intensa, com muitos filhos, e interessante, com seu budismo e seus budas que povoavam o nosso apartamento em Copacabana, aonde vivi com ela seus últimos 12 anos, já com a viuvez do meu avô que se foi em 2001, pouco depois de meu tio que se foi em condições mais brutas, em decorrência da AIDS e de uma vida que posso chamar de dissipada.
Eu a chamava de Vó Marinha quando eu tinha uns 4 anos de idade, ela era aquela avó macia, mesmo sendo seu apelido Mãezinha ou Mariinha (daí minha corruptela infantil de marinha, como se ela vivesse no mar), ela era uma Mãezona, assumia toda a família e viveu diversas épocas, é admirável pensar que ela passou por Vargas, Juscelino, a ditadura e a redemocratização, formada advogada, enfrentando a barra quando meu pai foi torturado pela ditadura e tomado como desaparecido por um momento.
Barra pesada, mas sua coragem é eterna e terna, como avó um doce, mesmo quando eu estourava vinte bolhas de uma vez de seu papel bolha que ela estourava devagar um de cada vez. Aprendi com ela nestes últimos anos a entender a velocidade de uma pessoa que já foi muito ativa mas que encarnou a velhice logo após pelo luto que ela viveu nestes últimos 18 anos, muito agravado pela partida de mais um filho seu, meu pai Andrei.
E quando falo de velocidade diferente, falo de paciência e respeito, saber que a pessoa viveu e que talvez estivesse um tanto exausta disso tudo, pois nós que ainda não estamos velhos sentimos o peso muitas vezes, imagina alguém que já não tinha mais o brilho de outrora, pois a viuvez e o luto pelos filhos é encarado por cada um de diversas maneiras, cabe a nós respeitar as escolhas de cada um, se o luto vira luta ou se sucumbimos, não importa, cada um age e reage de um modo a certos eventos, uns aguentam mais e outros menos, e isto não implica em virtude ou vício, as coisas apenas são, assim como as pessoas.
Mas, embora no final ela já não quisesse mais brilhar, ela brilhou na nossa família por muito tempo, e a História que ela deixou foi de uma mulher com um coração gigante, que me deu um Papai Noel de pilha bem louco com seu sininho quando eu tinha 4 anos, que na casa maravilhosa do Recreio dos Bandeirantes preparava meu lanche com leite e nescau ou neston com pão e mortadela quando eu via TV de noite, e algumas vezes rolava limonada suíça.
A casa do Recreio, por sua vez, era um achado, com uma fonte que fazia papel de piscina pequena aonde eu brincava com tubarões brancos de plástico e num quintal com grama que tinha um cajueiro e do lado de fora da casa havia um bairro ainda bucólico com ruas de terra.
E falando em coisas curiosas, uma destas curiosidades, além dos budas que povoavam a casa do Recreio e que depois foram para Copacabana, lembrei do jipe que ela teve neste tempo do Recreio, e nos últimos dias de minha avó lembrei e falei para ela que uma vez o jipe pifou num túnel, estavam eu e ela, e ela disse para orarmos o mantra om mani pad-me hum, o jipe voltou a funcionar e seguimos viagem.
Neste dia, já no Hospital São Lucas, ela me olhou, me olhou por minutos, e eu vi seu filme todo passando neste fim que evitamos, mas também sabemos que precisamos.
Vó Marinha. Peguei teu Buda principal para mim, um beijo, te amo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/vo-marinha

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ATTACK THE RADICAL


“Thomas Kid e Marlowe, os boêmios ingleses”

Tive que sonhar na blusa sedenta das paixões, sob o escrito a fada matou os lilases que escorriam na veste rubra que sangrava às setas da noite numa sirene interminável. Os cães mordiam as léguas escancaradas da desilusão, febre de montanha rugia como grito lancinante nas ruas de findo dia. Entrei pela porta de um cabaré, comi as sete putas vermelhas no calar da noite, os cães ainda mordiam os fundos de minha braguilha, mordi um esteta por riso indecente, não tolero o tom pastel de suas rútilas figuras, desci à sala, fumaça por todo lado, encontrei o fella absorto em viga de cânhamo, notei em seu semblante um ardor de fuga, era poeta na noite com os lilases ainda nascendo em suas orelhas, encarnei o silêncio de seus dentes depois de um sexo tântrico com velhos sonhos pós-estetas. Navio era seu nome, poeta das horas perdidas do calabouço, entrei nos sóis que eram a fuligem de um dia incinerado, encontrei os dias do horizonte sob auspícios de boa hora, a tela estava negra e os pincéis tinham secado, não tinha água, o esgoto fedia, tínhamos sede, e o vento era frio, vesti um bom terno, fui ao barco que morria no fim da noite, a lua estava em êxtase, não tive que morrer para ver a lua, fui até o distante lagar das secas estátuas, a praça lá fora, os meninos fundos olhos de aurora não tinham o que comer, roubei umas frutas no fim daquele sonho, corri depois que a tempestade caiu, não tive tempo de sorrir, os meninos gritaram que a noite era uma lua nua de desilusão. Tomei um vinho e fui ao mistério das sete chaves, o que era sombra dançava, ele era o inferno em céu de susto, o inferno como o mar quando cai a nuvem, o mar era meu mistério na dor estalada das horas que passaram ao meditar, voltei sob a tumba macabra que o ordeiro soldado da noite mais a brisa fundaram com o canto dos anjos, não voltei mais àquele lugar, e conheci cada inferno salgado daquele mar.
Pintavam as mãos macabras na festa das bruxas, eu vi os lamentos sob a chuva se adelgaçarem como a rima quando foge, entrei em pânico, surtei como um romântico aniquilado pela fúria, sonhei que era poeta morto no sol vermelho das mortes violentas, o ar fétido se rendia ao perfume, não sofri deste mal, o riso foi catarse na paz de haustos inda vivos, cada gesto do teatro nascia com o coro em horror, Ésquilo feneceu sob a mão pesada de Sófocles, a tragédia era honrosa como um rito bruto de espada corte e dentição, a boca cantava o verdor dos mares, as matas eram extintas dentro do peito que fervilhava nas águas da vinha marrom dos litros de vinho que a hora da asa voava, e todos os sinos tocavam na mesma hora exata, dancei o rock com o mistério em meus olhos. Encontro a paz mundial, depois os esqueletos da sociedade eram densos mas não matavam os que viviam livres, a liberdade atávica nasceu com Eurípides, o canto sepulcral era só a dose de vinho no coração grego, Dioniso renasce em cada fim que se dá no corpo da tragédia, o folguedo se consumou em Aristófanes, a veia crítica deve ao seu sonho o enredo total da flor grega. Dentro da modernidade, o mordaz se sobrepõe ao caráter, na vida os costumes se emolduram com mais radicalidade, depois dos êxtases racinianos, o clássico se demuda, a métrica se solta de vis pseudo-ritos aristotélicos, e o poema qual dança se funda novamente com o rigor da harmonia do sol em Moliére, a febre francesa era música, o viço elisabetano era a orquestra, amplidão em Shakespeare como nunca se via, Thomas Kid e Marlowe, os boêmios ingleses, uma juventude de poder, uma geração ao Globe, e a queda em Cromwell.
Cantava o último hausto, deve a poesia agora gritar na rua como fera indomada, nada de pueril boêmia, só o certo da noite como flecha que dança, catarse só em nota funda sem o vil metal, sem o fundo morto das formas estetas, sem a sombra de ligas esticadas de um verso longo, só o passo natural como ritmo de faca, só o langue sorver de luas dentro de topázios estudados, só o livre pensamento sob forma musicada, só o estar em música como fluxo de instante, só como o frio sem atavio, as memórias como o cão fundante de Eros e Tânatos, eufuísmo só como iniciação, no fim a fala natural deve estar domesticada sem estar adormecida, o rito em que se dá tal fúria é o termo lido de erudição anti-pedante, os sóis devem ser fortes, embora as tintas tóxicas fiquem mais ritmadas, e o emblema estará sob o fundamento de uma mordida seca e esclarecida, como as Iluminações de Rimbaud. Não há na estrada um fetiche de horizonte, não há totem de paisagem, só o fluxo como o calor rente ao frio se dá em tal nuvem sem susto ou rompante, tenho as estórias bem enumeradas das noites que fogem tais os poemas que escorrem de luta e sangue como em dança bem prateada, o ouro deve ser um valor, mas não há ouropéis como numa mão sem treino, o verso deve estar focado, e a prosa explodida.
Semente é o caule, o tronco é a ideia, a copa a metafísica. Metro dominado, fúria sob ternura, dentes calmos, corpo controlado, êxtase iluminado, quando os campos selvagens caem de suas cerejeiras o Nô veste sua rua de Kabuki, mascarada é o sonho da noite das tochas, vejam como a Hélade se levanta qual a fusão entre os philos que cantam na terra de ilhas soltas, o mar dentro do peito é o Homem, Licurgo se irrita, Sólon tenta dar a Atenas um sentido, os atletas correm para Maratona, os irmãos se matam, não há persa que tenha cabeça, Sócrates envenena quem não pensa, e o Organon só se vê pelas mãos de Andrônico, as edições arábes se soltam entre os ritos de um deserto de matemáticos e astrônomos. Venham os algébricos, lendo o Corão a sede do camelo é vasta, o deserto de Satã rumina a parte vasta do sonho de cálculos, Pitágoras sorri em sua confraria, os sonhos amarelos nesta altura já tinha milênios, o Tao já dava seu sorriso de escárnio, nada era ato e Aristóteles se suicidava.
Voltei à noite dos meus amigos febris, os vinhos corriam como quedas infinitas, a boêmia já não é tão sensual, o instante se torna mais matemático, eu conto e calculo os sóis, emolduro os sorrisos, os êxtases se tornam mais raros, e o prazer é todo esférico como um perfeito poema. Não vou mais capturar o som, ele vem demolido e como um triturar bem cantado, eu sonho e tudo vira o farol do mar que ao horizonte não se perde, mas ao oceano se faz sol.

(POEMA EM PROSA)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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