PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 22 de março de 2017

CANORO

Soa e reflete o espelho o prado
que na poesia estulta vira nobre.

Flechas em corpanzil fere o sangue,
e a paixão suscita este maquinário
que do cosmo vira o poema.

Levanto todas as esferas que circulam
nos vãos astronômicos, e as sombras
que exultam de sorte, estas estavam
já mortas em cirandas na caverna.

Levo o frontispício de uns baluartes
que no sonoro campo das flores
sucumbem com seus mantos rasgados
depois do pecado original.

Soa a capa dura do diamante e o carbono
que forma toda a montanha,
e o rosa que mora dentro
das estruturas floridas do
campo, estas que são poemas rotos
que dormem na mata,

são entidades do delírio
nas violáceas canções
do canoro que voa
depois ao silêncio
das horas sutis.

22/03/2017 Gustavo Bastos

ANJO MISTERIOSO

Vento que vem de labor,
umedece a boca do sopro
com o calor de seu movimento.

Delícias do jardim florido,
vulto samsárico queima
como deve na geena.

Doira o espírito, o livre-arbítrio
calcado em nobres ambições,
que volteia e delineia
corpos sutis de paisagem.

Ermo o poema poente, leve e valente
tal o rouxinol que canta o espanto.

Flébil e exangue, os sopros
teriam mnemosyne
com as musas desesperadas,

oh, falsete como nota dissonante,
e os bichos ferozes que acordam
no apito das trombetas,
como o anjo que no mistério
fez morada.

22/03/2017 Gustavo Bastos

CANÇÃO DO OURO

O bosque canta em tons violáceos,
teu soturno campo de arauto,
a voz modulada de um melômano.

Melodia, em sons criados de lume
ao albor da aurora súbita, e que
de remansos a flor absorve.

Sorte, como és a dança macabra
em que o meu coração colapsa
de canção vindoura.

Eis, donde o canoro sopra o leme
com léguas de bruma santa e pó santo,
que de liames entre continentes
as fadas sucumbem como sereias.

Vertendo d´água o mel melodioso,
com sacos de fardos, com flertes
de enfado, com rimas de sal.

Ó bosque de bode encantado,
inquices e voduns
soprados em mitos campônios.

Leva o elmo com ermo encanto,
e se cansa o poeta, viajor d´strelas,
com a nuvem castiça de que o choro
e a lágrima padecem em película.

Ai, que do monte azul serve o
benquisto poema luz d´aurora,
e quente como o crepúsculo
é um tremor de terra.

Oceano, que da águia e do albatroz
faz sinfonia, o cisne e o pato
e as maçãs dançantes do veneno
de eva com volúpia e sarcasmo.

Como no bosque tens poeta
e melisma e miasma
e melodia.

Como no poeta que vês está
febricitando o sublime
com volúpia d´strelas,
o viajor que canta lira
em corações d´oiro.

22/03/2017 Gustavo Bastos

domingo, 19 de março de 2017

ANDY WARHOL E A POP ART – PARTE IV

“um tipo de artista profissional, com tino de manager”

DO CINEASTA “UNDERGROUND” AO ARTISTA MUNDANO

Em 1963, ainda antes de as suas caixas Brillo ser criticadas, e também antes de o seu painel mural Thirteen Most Wanted Men do New York State Pavillon ter provocado escândalo, Andy Warhol comprou uma máquina de filmar e um gravador e foi viver na 47ª Rua e, em Novembro de 1964, Leo Castelli, juntamente com Robert Rauschenberg, organizava então, a primeira grande exposição da sua obra, na qual Warhol tinha escolhido uma série de flores que já tinha apresentado em Paris em janeiro, no que Warhol disse: “Eu pensei que os franceses talvez gostassem de flores, por causa de Renoir e de outros.” “Warhol tinha descoberto a imagem num catálogo de Botânica”, refere Gerard Malanga. “Ele disse-me: Aqui tens, faz disto uma serigrafia.”
Warhol era um artista gregário, em torno dele se juntou um grupo de pessoas que, aos poucos, foi povoando o seu apartamento, e ali ele vivia temporariamente e se ocupava dos mais variados trabalhos, e na então Factory, se trabalhava muito, a produtividade era intensa. A “Factory” não se configurava como uma fábrica e nem como uma empresa industrial, mesmo com este nome, ela poderia sim ser comparada a um atelier de artistas como Verrochio, Leonardo da Vinci, Cranach, Ticiano, Rubens ou Rembrandt, e não saía nada dali que não tivesse a aprovação de Warhol, e seus trabalhadores lhe serviam como instrumentos do que ele veio a chamar de codificação de um conceito imperfeito de “espírito do tempo”, o que incluía, por exemplo, o grupo musical Velvet Underground, que começava a ensaiar numa parte do apartamento.
Por sua vez, os filmes de Warhol concentraram-se, de imediato, em desenvolvimentos e dados elementares: “Sleep” (1963), o seu primeiro filme de seis horas, apresenta um homem adormecido e a câmara passa pelas várias partes do corpo. Na realidade, o filme tem apenas uma duração de 20 minutos, porque, tal como acontece em muitas das suas serigrafias, a primeira sequência repete-se. “Empire”, cujo “cameraman” foi Jonas Mekas, apresenta durante oito horas o orgulho de Manhattan, o Empire State Building, visto do 44º andar do Time-Life-Building. Por fim, o retrato filmado de Henry Geldzahler apresenta durante 100 minutos o conhecedor de arte a fumar um charuto.
Tais filmes de Warhol colocavam ao avesso convenções do cinema hollywoodiano, pois quebrava o paradigma narrativo de tal cinema, no que se via, agora, sequências longas e maçantes, sem cortes, com planos e enquadramentos que pouco variavam, rodado com a câmera Auricon, a qual proporcionava o registro simultâneo da imagem e do som, resultando em diálogos sem nexo, frases anódinas retratando a vida cotidiana, com um trabalho de câmera precário, com um toque de amadorismo.
Mas, a aparente inépcia destes filmes era um estilo, e que era calcado numa falta proposital de profissionalismo, numa subversão absoluta de cânones narrativos, resultando num produto espontâneo e vivo. No entanto, sem o cinema de Hollywood, não é possível conceber os filmes de Warhol que, aproveitando os mitos daquele, se singularizam pela sua oposição consciente à fatura especial hollywoodiana, e ao contrário deste cinema, cujo profissionalismo visava produzir uma realidade ainda mais real que a própria, o cinema underground americano queria documentar a realidade tangível com as suas contradições e imperfeições, e à medida que Warhol aprendia a dominar o ofício, os seus laços com o cinema de Hollywood estreitavam-se de forma paradoxal. Nos filmes, Andy Warhol retomava os princípios estéticos das suas serigrafias, com a repetição de imagens idênticas, cujo princípio norteador era a “imagem em movimento”.
Mais tarde, no dia 3 de Junho de 1968, Valerie Solanis, único membro da S.C.U.M. (Society for Cutting Up Men) perpetrava o funesto atentado à pistola contra o artista. Depois de se ter submetido a uma grave operação, teve que passar dois meses no hospital; as duas balas que o tinham atingido atravessaram os pulmões, o ventre, o fígado, a vesícula e ferido na coxa. “Sinto-me constantemente atormentado com a ideia de que, quando os loucos fazem qualquer coisa, eles irão fazê-la novamente alguns anos mais tarde, sem se lembrarem de já terem cometido esse ato, e julgarão, então, estar a fazer algo inteiramente novo. Em 1968, fui atingido a tiro; é um fato de 1968. Mas aflige-se a ideia: “Será que nos anos 70, alguém desejará repetir estes tiros? Eis uma outra maneira de ser fã” (Warhol).
Uma visão verdadeiramente confrangedora das estruturas do vedetismo, que revela os riscos a que está exposta uma estrela num mundo que tem necessidade dela para assumir a sua existência. As palavras de Marlene Dietrich ecoam ainda: “Fiquei para morrer com tantas fotografias.” Mais frequente do que a morte física, como no caso de John Lennon, a morte psíquica é uma consequência do vedetismo: não é a vedeta aquela aparição não material, feita de sombras e de luz, sem direito a uma existência própria, uma estrela no firmamento dos anseios humanos?
Enquanto Paul Morrissey se ocupava da produção cinematográfica da “Factory”, Warhol colaborava ativamente com o grupo de rock “Velvet Underground”, com o qual, em Abril de 1966, montou, na discoteca de Nova Iorque “DOM”, um espetáculo multimídia de música, dança, iluminação, projeção de dispositivos e filmes, em que participou a alemã Nico, cantora, atriz e boneca moderna. No mesmo ano, organizou na Leo Castelli a sua última exposição de obras “tradicionais”. Forrou as paredes a papel pintado, cujo único motivo, ilimitadamente repetido, era uma cabeça e, como esculturas flutuantes, apresentou almofadas de balão prateadas – as Silver Pillows. Em 1967, prestou homenagem a Marilyn Monroe com uma série de serigrafias que reuniu em grupos de dez e, em Paris, na casa de Ileana Sonnabend, expôs a série completa dos Thirteen Most Wanted Men. Neste mesmo ano, foi viver para Union Square West, onde instalou também a “Factory”. Finalmente, na Expo`67 de Montreal, apresentou seis auto-retratos: mesmo no plano óptico, a pessoa do artista triunfava sobre a sua obra.
No ano seguinte, publicou um diário com Gerard Malanga, “The Andy Warhol-Gerard Malanga Monster Issue”, assim como o romance “A”, a reprodução exata de uma gravação de 24 horas dos barulhos e conversas na “Factory”. Em 1970, um cenário intitulado “Clouds” e destinado ao ballet “Rainforest” do coreógrafo Merce Cunningham veio completar o seu inacreditável espectro artístico. John Wilcock convenceu-o a editar uma nova revista e a “Inter/View” tornou-se o porta-voz mais popular do universo Warhol.  
Mesmo após uma entrevista no fim dos anos 60 em que Warhol dizia que tinha abandonado o desenho, na realidade, ele interrompeu a sua atividade como pintor apenas durante algum tempo. Com retratos do comunista chinês Mao Tsé-Tung, iniciou no começo dos anos 70 um novo capítulo da sua criação pictórica, quer sob o ponto de vista de conteúdo, quer da forma. Warhol intensificou o aspecto manual do seu trabalho, acentuou o traço de pincel em detrimento da parte impressa, introduzindo parcialmente pintura a óleo nas suas serigrafias, e fez desaparecer a impressão de produção mecânica.
Mao tornou-se um símbolo, assim como Mick Jagger, o cantor do grupo de rock Rolling Stones, que entrou também na galeria de cabeças célebres de Warhol, ou Willy Brandt, e também Leo Castelli e Joseph Beuys e também os heróis “falecidos” Franz Kafka, Sigmund Freud, Golda Meir e George Gershwin que, com outros, foram reunidos, em 1980, na série Ten Portraits of Jews of the Twentieth Century. O mesmo acontecendo com Goethe, Alexandre, o Grande e Lenin, e com vista a eventuais retratos serigráficos, o artista fotografava com a Polaroid a maior parte das personalidades que encontrava. 
Naturalmente, há muito tempo que também Warhol se tinha transformado numa superestrela dos media. Tendo em consideração este aspecto, executou nada mais nada menos que seis séries diferentes de autorretratos e, em 1981 alistou-se mesmo entre os mitos americanos como Mickey Mouse, Uncle Sam e Superman. Em contrapartida, Warhol, num trabalho em série, transformou o Martelo e a Foice, emblema do comunismo, numa marca de fábrica – muito antes de ser impresso em T-shirts.
E durante os trabalhos de restauração do quadro de Leonardo da Vinci A Última Ceia, Warhol propôs ao público reproduções de substituição, serigrafias em tela de formato grande e em versões diferentes. Com a série Carros, celebrou a prestigiosa marca alemã Daimler-Benz. A catedral de Colônia, os palácios do construtor real Luís II da Baviera, os espetáculos organizados pelo arquiteto favorito de Hitler, Albert Speer, por ocasião do congresso do Partido Nacional-Socialista em Nuremberg, faziam com que os motivos dos seus últimos quadros estivessem constantemente a mudar, não se manifestando aqui critérios claros de seleção.
A “Factory”, que ainda mudou de instalações várias vezes, produzia incessantemente; a revista “Inter/View”, cujas quotas Warhol tinha vendido, divulgava o seu universo semana após semana. A multiplicação pela repetição era uma parte de sua filosofia. E no começo dos anos 70, passava 24 horas por dia, como um possesso, a registrar tudo no gravador; e na maior parte das vezes, eram só ruídos. Guardava tudo o que lhe vinha parar às mãos. Queria esticar o tempo até ao infinito. A morte surpreendeu-o, quando era já um mito.

FINAL E PRESENTE

Andy Warhol era um artista do seu tempo; porém não era um revolucionário, mas conseguiu realizar importantes mudanças no mundo da Arte, e se tornou o único artista autenticamente pop, acompanhando os ventos de uma nova Arte Contemporânea, com iniciativas nem sempre dele, pois muitas vezes era levado de roldão por impulsos vários. Warhol era uma espécie de antena que captava como ninguém as aspirações da sociedade em que vivia, explorando a consciência coletiva e gravando nela suas criações, com uma arte familiar e não como algo desconhecido. Exceto a sua celebridade, Warhol de fato não inventou nada, recriando e traduzindo o espírito de sua época.
Warhol não era um visionário ou um gênio ou uma pessoa sofrida com a vida, mas sim um tipo de artista profissional, com tino de manager, se utilizando da mídia, e que não recuava diante de nenhuma adversidade, com aspectos pop e midiáticos que não deixava para trás o caráter de subversão de sua arte, e graças a sua contribuição no mundo da Arte, Warhol renovou o cenário, evitando os impasses e dilemas das vanguardas, e que terminou com o tempo da Arte burguesa, fazendo implodir este conceito dominante da Arte.

(Baseado no livro Andy Warhol de Klaus Honnef, editora Taschen)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/33251/17/andy-warhol-e-pop-art-parte-4



O LIVRO DE CESÁRIO VERDE – PARTE III

“E a preocupação social é a nota dominante da poesia de Cesário Verde.”

CESÁRIO VERDE – O HOMEM E A OBRA

A OBRA DE CESÁRIO VERDE – CONTINUAÇÃO

A poesia do real de Cesário Verde tem também aspectos de preocupações sociais, e neste ponto há um parentesco com a exaltação dos poetas revolucionários, mas há uma diferença entre Cesário e estes poetas que é o fato de os revolucionários terem um compromisso social em base livresca, colhida da cultura geral de que se nutriam, enquanto a fonte de Cesário Verde era a realidade vivida em seu cotidiano, com imagens reais das quais ele dá o seu testemunho em seus poemas, frutos de uma observação direta. E a preocupação social é a nota dominante da poesia de Cesário Verde.
A poesia de Cesário se configurava como algo inteiramente novo no cenário da literatura portuguesa de sua época, e que tinha na mestria do uso dos adjetivos uma de suas marcas, e isto no sentido de suas variadas combinações, e nisto ele também não era superado por nenhum de seus contemporâneos, com a nobre exceção de Eça de Queirós, mas este na prosa. O caráter dos adjetivos na poesia de Cesário Verde é que os poemas ganhavam em corpo e exuberância, na descrição exaustiva que o poeta fazia das situações que tentava esboçar em seus poemas, estas que tinham, por sua vez, uma rara qualidade estética, numa nova poesia do real, com acentos inéditos na apresentação das características de tal real, resultando numa expressão renovada para a poesia até então praticada, com uma novidade de imagens que também eram de notável beleza, e outro trunfo, que era a sua exatidão e a sobriedade de seus versos. No dizer de Antonio José Saraiva, Cesário Verde era “tão exato como Gomes Leal era difuso, tão conciso quanto aquele era caudaloso”, que segue dizendo: “de todos os poetas da chamada escola nova, Cesário foi o único que conseguiu cortar com a retórica romântica, criando uma expressão inteiramente nova, ajustada à expressão direta de um novo conteúdo”.
Na tentativa de entender a indiferença e a hostilidade com que esbarrou a obra de Cesário em vida, podemos elencar fatores decisivos, como o fato de o poeta não ter publicado nada em livro quando ainda vivo, e que veio ainda com o fato de que sua carreira literária foi breve, pois a morte lhe colheu quando o poeta contava apenas 31 anos. Outro fato é que o poeta esteve à margem dos grupos literários então em voga, e que era fator decisivo para obter menção e ser visto. Folheiem-se as obras de história da literatura, e podemos constatar, e isso em todas as épocas, que os nomes que elencam como dignos de menção, mesmo tendo atenção ao que se vai produzindo, sempre guarda lacunas, muitas vezes fundamentais, podendo ocorrer que sejam ignorados e postergados nomes de mérito e valor muito maiores do que muitos dos que ali figuram, seja por falta de obras publicadas, como também pela ausência de filiação literária. E Cesário é um destes casos, sem a proteção de nenhuma tertúlia, de nenhum círculo, e que teve como resultado este ter vivido e morrido ignorado, se tratando de um dos grandes poetas de toda a literatura. No que a posteridade, nos versos ilustres de um Fernando Pessoa, na pele de Álvaro de Campos, invoca-o como mestre: “Ó Cesário Verde, ó Mestre, / Ó do “Sentimento de um ocidental”, sendo unânime hoje o reconhecimento amplo do talento de Cesário Verde. No que não podemos dizer, contudo, que tal poesia não tenha defeitos, aliás, como tudo na vida, e que nos coloca não numa posição de poeta imaculado, mas como uma poesia que não teve seu desenvolvimento pleno, marcado pela imaturidade de um poeta que morreu ainda jovem, repleta do excesso de prosaísmo, qualidade e defeito ao mesmo tempo, com toda a ambivalência de tais valorações. Mas seu valor hoje na História da poesia é inegável.

POEMAS:

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL

AVE-MARIAS: O poema clássico de Cesário Verde se divide magistralmente em quatro partes, e esta primeira tem o clima da rua e da maresia, no que vem: “Nas nossas ruas, ao anoitecer,/Há tal soturnidade, há tal melancolia,/Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia/Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.”. O poeta em meio ao clima soturno, em que a noite cai, sente dor, ou pior, o sofrimento, e a descrição urbana, dá os sinais de que o poema se alimenta: “E os edifícios, com as chaminés e a turba,/Toldam-se duma cor monótona e londrina./Batem os carros de aluguer, ao fundo,/Levando à via férrea os que se vão. Felizes!/Ocorrem-me em revista exposições, países:/Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!”. O poeta tenta viajar pelo mundo num esgar que é o poema, com o fog londrino, e mais os outros, que passam felizes, enquanto o poeta agoniza com suas imagens, que vêm aos borbotões: “Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,/Ou erro pelos cais a que se atracam botes./E evoco, então, as crônicas navais:/Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!/Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!/Singram soberbas naus que eu não verei jamais!”. O poema tem a luta de Camões, nas crônicas navais em que ele evoca os heróis ao paroxismo de ressuscitá-los, eis a primeira parte em que se tenta salvar um livro náufrago.  

NOITE FECHADA: O poema então segue, nesta segunda parte, e o som ecoa com febre de loucuras mansas: “Toca-se as grades, nas cadeias. Som/Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!/O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,/Bem raramente encerra uma mulher de “dom”!”. O coração do poeta então aparece como um grande abismo: “À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes,/Chora-me o coração que se enche e que se abisma.”. E o poeta então vê a História, com as igrejas e o clero, e com a imagem de um inquisidor: “Duas igrejas, num saudoso largo,/Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:/Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,/Assim que pela História eu me aventuro e alargo.”. O épico toma a frente, com descrição vulgar de um poeta que está inspirado: “Mas, num recinto público e vulgar,/Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,/Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,/Um épico doutrora ascende, num pilar!”. E a partida é dada, o poema continua seu trajeto histórico, desta vez acordando a Idade Média: “Partem patrulhas de cavalaria/Dos arcos dos quartéis que foram já conventos;/Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,/Derramam-se por toda a capital, que esfria./Triste cidade! Eu temo que me avives/Uma paixão defunta!”. E a cidade lhe dá a ameaça da eclosão de uma paixão defunta, e a poesia se esfacela em revolta: “E eu, de luneta de uma lente só,/Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;”.

AO GÁS: Na terceira parte, o poeta permanece em seu périplo: “E saio. A noite pesa, esmaga.”. Mais uma vez a imagem da noite, que aqui pesa sobre o poema, mas que lhe inspira, no entanto. E o poema segue, agora descritivo, mais uma vez: “As burguesinhas do catolicismo/Resvalam pelo chão minado pelos canos;/E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,/As freiras que os jejuns matavam de histerismo.”. Uma imagem nada amistosa da vida monástica, a histeria como efeito do jejum, na visão do poeta, que segue: “E eu que medito um livro que exacerbe,/Quisera que o real e a análise mo dessem;/ Casas de confecções e modas resplandecem;/Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe./Longas descidas! Não poder pintar/Com versos magistrais, salubres e sinceros,/A esguia difusão dos vossos revérberos/E a vossa palidez romântica e lunar!”. O poeta bem queria pintar todas as imagens, e o livro que exacerba, na sua biografia, que em vida nunca veio a lume, mas o poeta insiste: “Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes/Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;”. Mas a sua vontade férrea vai se minando, a exaustão dá as caras, e o poeta entra em autocomiseração: ““Dó da miséria! ... Compaixão de mim! ...”/E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,/Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,/Meu velho professor nas aulas de Latim!”.  

HORAS MORTAS: O poema, nesta parte derradeira, tem o poeta enlevado por uma quimera: “O teto fundo de oxigênio, de ar,/Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;/Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,/Enleva-me a quimera azul de transmigrar.”. O poeta prossegue com visões de angústia: “Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,/E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.”. E o poema segue com uma esperança vã, com a luta poética entre a morte e a eternidade: “Se eu não morresse, nunca! E eternamente/Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!”. A busca da perfeição, típica de quem não entendeu o fato fissurado e estilhaçado da vida, tem nesta rachadura o tormento que vem a seguir: “Mas se vivemos, os emparedados,/Sem árvores, no vale escuro das muralhas! .../Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas/E os gritos de socorro ouvir estrangulados.”. A imagem do estrangulamento é a falta de ar, e o poema ainda se fia em uma triste canção alcoólica, que segue: “Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,/Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.”. E o fel e a dor, o imoral, a tosse e o fumo, em conjunto formando a massa irregular do poema, em que a dor humana luta contra uma barreira sinistra nesta busca de libertação, que é a imagem do horizonte que tenta o amplo a todo tempo: “Por cima, os imorais, nos seus roupões ligeiros,/Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas./E, enorme, nesta massa irregular/De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,/A Dor humana busca os amplos horizontes,/E tem marés de fel como um sinistro mar!”.

POEMAS:

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL
                                                      A Guerra Junqueiro
I
AVE-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba:
E os edifícios, com as chaminés e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

II
NOITE FECHADA

Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de “dom”!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos;
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções retas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos;
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas,
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III
AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cuteleiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos revérberos
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha de bandós! Por vezes,
A sua traine imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus meclemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

“Dó da miséria! ... Compaixão de mim! ...”
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

IV
HORAS MORTAS

O teto fundo de oxigênio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas! ...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, os imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/33248/17/o-livro-de-cesario-verde-parte-3


quinta-feira, 16 de março de 2017

BEGGAR`S BANQUET

Horácio cresceu numa família abastada, tinha tudo o que desejava, recebia sempre notas altas na escola, por sua mãe era tomado por um pequeno gênio, com doze anos arriscava poemas e pequenos contos fantásticos, desenhava muito bem desde os cinco anos, sua rotina era de estudos, foi para a Suíça estudar por um tempo, lá aprendeu francês, italiano e alemão, além do dialeto suíço. Com dezoito anos ingressou na faculdade de Filosofia, logo concluiu a graduação, e foi fazer mestrado e doutorado, e durante seus estudos para concluir o doutorado se casou com Maria Doroteia, com ela, já com um pós-doutorado, teve três filhos, os dois mais velhos meninos, e uma caçula menina, mas, tudo iria mudar na sua vida, agora ele dava aulas de Filosofia na faculdade como professor titular, avançava para os seus quarenta anos, mas algo iria mudar, ele faz uma viagem com a família de carro do Brasil, São Paulo, aonde morava, para Buenos Aires, mas na estrada acontece uma tragédia, o carro capota e morrem seus três filhos e sua mulher, ele fica entre a vida e a morte durante quinze dias num coma profundo, acorda num hospital já em São Paulo, mas tinha perdido a memória, e no meio disso começou a falar coisas sem nexo, seus pais já haviam morrido, ele não tinha mais outros familiares, como estava sem memória e falando muito, mas nada que fizesse sentido, foi internado numa clínica psiquiátrica aonde ficou três meses, quando deixou a clínica foi morar na rua, recuperou a memória aos poucos, mas tal recuperação virou um pesadelo, e ele lembrou que havia perdido tudo, sua revolta era tão grande que ele decide que ficaria na rua mesmo, por livre escolha, não tinha mais o gosto pela vida como levara até então, conhece um grupo que morava nas ruas do centro de São Paulo e se junta a eles, virando uma espécie de guru do grupo. Na rua ele declamava poesia aos transeuntes e recebia moedas e pequenas quantias em cédulas, tinha um caderno onde registrou a sua filosofia, ele agora se sentia como um Diógenes, o cão, era um novo filósofo cínico, ou melhor, um intelectual mendigo.
Horácio logo ficou conhecido no local em que atuava, tinha em seu grupo de moradores de rua uma união que ele nunca vira em seus tempos de faculdade, e dava palestras ao ar livre como uma espécie de Sócrates urbano. Sua memória, que tinha sumido no acidente, voltara com o tempo com força total, mas ele sentia a alegria de estar diretamente no mundo, com um fundo de revolta por ter perdido a sua família num acidente. O seu lado alegre ele nutria com a ação direta urbana, sua nova filosofia, que consistia em dar aulas gratuitas ao ar livre, pois só aceitava dinheiro quando declamava poemas próprios de cor e salteado, e ele tinha dois comparsas que andavam junto dele com mais assiduidade, que eram os mendigos Daniel e Alencar. Daniel tinha sido criado numa igreja evangélica, mas nunca tivera nada, ele era tomado pela alegoria bíblica “Daniel na cova dos leões”, pois sobrevivera a um incêndio em circunstâncias nunca desvendadas, e nem ele se lembrava como aquilo ocorrera, pois o trauma lhe dera um lapso, sendo a sua lenda contada por testemunhas que o viram escapar de tal tragédia. Alencar tinha sido um especulador no mercado financeiro que afundara no álcool e na cocaína e perdera tudo numa queda vertiginosa de suas ações. Os três, Horácio, Daniel e Alencar, naquele contexto de rua, eram os que lideravam a população de rua local e que decidiam pelas brigas entre os mendigos, que eram constantes, mas o líder maior e mentor de tudo era Horácio. Ele dizia: “Eu tenho tudo, eu não tive tudo, eu tenho a alegria da ação direta urbana, esta é a alegria suprema, nada se compara ao ar da rua e sua realidade.” Dentre as teses levantadas pela ação direta urbana, Horácio erguera três pilares: convivência de rua, desprendimento absoluto, e nada lamentar. Sua revolta, que existia dentro dele sempre muito viva, ele debelava com a sua atuação viva na rua que lhe dava uma vida fora dos padrões, tudo o que aprendera na faculdade lhe dava os instrumentos de seu pensamento, mas era na realidade de morar na rua, em meio às necessidades de sobrevivência mais prosaicas, que o fazia aprender uma nova forma de ver o mundo, a ação direta urbana era a prática que se erguia em seus três pilares.
Com Daniel, que era o que mais estava apto à arte da sobrevivência, Horácio o colocava como o representante do nada lamentar, pois Daniel nunca tivera nada na vida, com Alencar ele colocava a convivência de rua, pois Alencar era um ser sociável ao extremo, e com ele mesmo, Horácio, ele se colocava então como o representante do desprendimento absoluto, pois tivera bens materiais que sumiram como fumaça, e estava aprendendo a ter apenas a sua própria alegria de ter uma filosofia de ação direta urbana que consistia em tais três pilares e seus representantes, no que se configurava uma comunidade com regras próprias, com arbitragens que os três, Horácio, Daniel e Alencar, davam aos outros membros do grupo, que dava, contando os três líderes, uma comunidade de vinte e oito pessoas, todas moradoras de rua, no que se erguia cabanas improvisadas com pequenos bens, mas extremamente escassos, pois a regra do desprendimento absoluto limitava a quantidade de bens para cada membro da comunidade, que àquela altura ganhara o nome de “Sociedade Apócrifa”, batizada por Horácio, querendo dizer que tal comunidade vivia à margem numa adaptação dinâmica com o seu meio, e não como um grupo de miseráveis e vítimas da cidade grande.
“Nada perdi, tudo ganhei” também era um mantra que ficava no pórtico, uma espécie de entrada e senha para ingressar na tal Sociedade Apócrifa, um paradoxo em que o desprendimento absoluto se configurava como um tipo de iniciação ao que representava aquele ambiente em que os meios de produção do capital eram solenemente ignorados, o sistema de vida desta sociedade ou comunidade paralela se erguia com muita filosofia e pouco pragmatismo, portanto. Se se entender que Horácio, como guru daqueles convivas, tinha ascendência sobre os outros vinte e sete membros, ele se via ali como um guia responsável pela manutenção de seu esquema de pensamento, que ele dizia que, pela filosofia da ação direta urbana, era um organismo vivo, todos participavam e a iniciação era também largar a velha vida e ganhar uma nova vida, então era como um processo religioso, místico, algo que Horácio tinha visto quando perdera a memória, pois relatava que o anjo Gabriel lhe fizera uma visita quando se encontrava fora do corpo durante o seu coma, e que ali já tinha vislumbrado o seu futuro de guru urbano numa nova comunidade aonde tudo era de todos e ninguém teria nada senão a alegria. Horácio então era constantemente requisitado nos conflitos dentro da Sociedade Apócrifa, e seus estudos se estendiam no único bem material que tinha, que era uma pequena biblioteca com trinta livros de filosofia, por sinal dois que ele publicara como autor na época em que lecionava na faculdade, este misto de Sócrates e Diógenes, ou melhor, o próprio cínico mendigo Sócrates louco, tinha sua ágora em forma não de pólis, mas de ruptura com esta na forma de comunidade alternativa com regras rígidas de convívio que estariam na direção de um sustento do espírito em meio ao caos e desamparo urbano. Horácio sabia que tinha esta missão especial que o anjo Gabriel lhe confiara quando passou pelo céu em seu coma de quinze dias.
Daniel, como representante do pilar “nada lamentar”, tinha por encargo incentivar os convivas ao conhecimento da resiliência, que era não estar como poliana, do estar tudo bem no meio do mal, mas do estar vivo quando se está vivo, e não reclamar de sorte ou azar, mas ter na resiliência um pilar que passa longe da aceitação poliana, mas de nada lamentar no sentido de que tudo está vivo, até quem já morreu, que o universo é cheio de vida por todos os lados, de que o infinito nos traz este pilar de que o lamento seria reconhecer a limitação da mortalidade, e que ele gritava “e é isto que não queremos!”. Daniel, o da cova dos leões, estufava o peito para falar de que escapara do fogo sem se queimar, e que tinha o poder supremo de nada lamentar, pois nunca tivera nada, e quem nunca teve nada não tem o que lamentar. Ele lia os livros da biblioteca de Horácio, e era o seu seguidor mais fiel, até mais do que Alencar, que era instável por ainda beber álcool, embora com muito mais parcimônia do que na época em que esbanjava no mercado financeiro. Daniel então era o membro mais forte psicologicamente de toda aquela Sociedade Apócrifa. Seu meio era a força, ele era um tipo de ser cabralino educado na pedra, era um azougue, e não tinha papas na língua para falar de sua própria força, repetindo o tempo todo que o fogo não lhe queimava, de que era invencível.
Alencar, como representante do pilar “convivência de rua”, ele era o responsável pelas pregações públicas em que todos tinham que estar presentes e fraternos, Alencar dizia que tudo era energia, e que a ação direta urbana tinha como fundamento a convivência de rua, e que os conflitos seriam arbitrados por princípios como amor, tolerância e uma regra que todos ali concordavam sem questionamento, que era não julgar e não falar da vida dos outros. Uma vez colocada a fundação do que era a convivência de rua, Alencar era o principal árbitro quando alguém brigava, e com a  palavra final do guru Horácio para apaziguar os ânimos. Alencar era um filósofo prático, homem de mercado, era o lado pragmático daquela sociedade filosófica e cínica, ele vivia entre períodos de profundo estudo e meditação, intercaladas com pequenas recaídas no álcool quando tomava a sua caninha e se isolava para não incomodar ninguém, até que voltava sóbrio e sociável como sempre, para fortalecer os laços da Sociedade Apócrifa, laços que deveriam ser cada vez mais fortes, e como representante do convívio de rua, ele tinha este encargo social precípuo para que tudo funcionasse como o guru Horácio planejara e vira na sua conversa mística com o anjo Gabriel.
O guru Horácio, por sua vez, como representante do “desprendimento absoluto”, reconfirmava o nada lamentar, o nada perdi, tudo ganhei, e as regras fraternas do convívio de rua, com sua bagagem filosófica e profissional, o guru, guiado pela visão reveladora da conversa com o anjo Gabriel no meio de uma viagem astral num coma, era o responsável pela gestão dos poucos bens que regiam a vida social e material da Sociedade Apócrifa, pois ele tinha tanto a autoria da frase do pórtico, como um novo livro, na verdade um caderno escrito com caneta bic, em que fundamentava as diretrizes desta comunidade urbana livre dos meios de produção convencionais, e que já dava dor de cabeça para alguns transeuntes que achavam todas aquelas pregações públicas e diárias um pé no saco, produto de um grupo de surtados e desocupados de uma seita fanática, que não era do “nada lamentar”, mas do nada fazer, começa a crítica daquele sistema paralelo que estava em vias de ruir, pois o incômodo da sociedade produtiva com aqueles seres que se achavam especiais e livres do mundo já produzia um conflito de espaços, pois o prefeito colocara a assistência social para resolver o problema da Sociedade Apócrifa, depois de muitas reclamações de moradores das redondezas em que tal comunidade se instalara, pois havia uma crítica em relação ao fanatismo daquela gente e que estavam numa situação de ruptura que não passava de uma trupe de vagabundos disfarçados de filósofos iniciados e que tinham até um pórtico, no que um morador de um prédio em frente do espaço em que ficava a comunidade chamava de uma ilha da antiguidade paranoica no meio do mundo moderno.
Problemas começam a ocorrer e ameaças veladas são feitas à Sociedade Apócrifa, destacando-se um jovem skinhead que passou pelo grupo com correntes e soco inglês fazendo sinais obscenos para os moradores de rua que eram da comunidade de Horácio, e depois um engravatado que disse que logo aquela festa de vagabundos acabaria, e uma mulher evangélica que passou e disse que eles eram endemoninhados que precisavam de uma sessão do descarrego para voltarem à sociedade normal. E a notícia de que uma comunidade parecida com hippies festeiros, mas que era um grupo sui generis de mendigos, corre pela cidade, e muitos simpatizantes vão tirar fotos e selfies com os membros da comunidade, e alguns universitários alternativos vão ouvir as pregações públicas de Horácio, Daniel e Alencar, havia um misto de admiradores e pessoas que abominavam a comunidade, e a notícia e fama desta comunidade se espalhava, e isto chega à imprensa, e um jornal local impresso faz uma entrevista com Horácio, depois um repórter de televisão entrevista Horácio e depois Daniel, e o grupo da Sociedade Apócrifa vira objeto de culto de universitários fora do padrão e de ojeriza da parte conservadora da sociedade moderna e urbana, o meio de vida que era pacato dentre os membros da comunidade começa, rapidamente, a se tornar uma balbúrdia, e Horácio começa a pensar que a filosofia do desprendimento absoluto não poderia ser corrompida pela fama repentina, e que ele, Daniel e Alencar teriam que dar uma solução ao problema, talvez até se mudando de lugar para um recanto mais isolado daquele interesse extremo que ganhara corpo em torno deles.
Daniel, como representante do nada lamentar, tinha na resiliência a palavra de ordem, discute com Horácio se era mesmo necessário sair dali ou eles demonstrarem força e enfrentarem a tempestade contra aquele monte de gente que amava e odiava com a mesma intensidade uma coisa que lhes pertencia, a eles, os membros da Sociedade Apócrifa, e se era o caso de permanecer e não levantar acampamento, e de tentar conciliar, finalmente, o dogma do desprendimento absoluto com o destaque que ganhava corpo, do que eles viviam com tanta sinceridade e coração, e se o momento era de se isolar ou de se fazer entender, para que não houvesse um ruído de comunicação, e que ele, Daniel, seria o porta-voz para que aquela balbúrdia toda se resolvesse da melhor maneira, e sem necessidade de que eles tivessem que tomar a medida extrema de sair de seu local de atividades. Horácio estava muito temeroso, e nutria um mau pressentimento, mas foi convencido, por fim, por Daniel, de que eles deveriam tentar um caminho do meio, como Buda, ao invés de uma ruptura total como tal comunidade até aquele momento pregara e vivera.
O mau pressentimento de Horácio tinha razão de ser, e não tardaria muito para a confusão ocorrer, pois o filósofo sabia das relações causais de quando se é mal interpretado e os frutos daninhos que a ignorância era pródiga em produzir, principalmente no caso deles, da Sociedade Apócrifa, que poderia ser levada ao pé da letra como desobediência civil no meio de um mundo materialista ao extremo. Horácio passa a dar crédito a Daniel, mas sentia que algo estava se perdendo para sempre, que aquela vida mudaria, que não mais eles, os membros da Sociedade Apócrifa, teriam a paz que tiveram até o momento em que seus meios de vida alternativos viraram objeto de curiosidade mórbida para o bem e para o mal, e o problema era justamente o que o mal estava tramando, e para Horácio, mesmo com o otimismo de Daniel, ele se encontrava com um pessimismo, pois sabia que a humanidade era ambivalente em suas interpretações particulares, e que o perigo existia e já tinha mostrado a cara com o skinhead, o engravatado e a evangélica.
Desta vez, é um repórter da imprensa nacional que entrevista Horácio, e ele dizia que a Sociedade Apócrifa, infelizmente, estava com os dias contados, dizendo o mesmo para a imprensa alternativa americana que lá aportara para também entrevistá-lo. Com a repercussão da Sociedade Apócrifa, velhos colegas de profissão de Horácio decidem resgatar o novo Diógenes de sua viagem mística e readaptá-lo à vida acadêmica, no que não obtêm sucesso, pois Horácio queria uma solução para que a Sociedade Apócrifa sobrevivesse e não morresse, mas ele sabia que teria que fazer logo concessões para não ver o modelo filosófico que ele tratara como a vida autêntica fosse engolida pelo sistema que agora cobrava fortemente um equilíbrio entre ruptura total e vida socialmente aceita pela maioria, e que não era eles, os membros da Sociedade Apócrifa, a maioria, mas o mundo moderno, e o caminho antigo de Horácio finalmente tem o fenômeno de “cair a ficha”, e Horácio entra num tipo de transe e vai meditar atrás de uma nova iluminação, se a vida comunitária da ação direta urbana teria que negociar com o mundo real da cidade que não para, do mundo materialmente construído por imperativos econômicos inexoráveis, a fissura já acontecia, a Sociedade Apócrifa agora virava uma caricatura do mundo antigo no meio da vivência frenética da população ativa do mundo do trabalho, e Diógenes, ou Horácio, estava encurralado.
No meio disso, aparece um empresário que se interessa pela história de Horácio, que se tornara pública, até o episódio da tragédia familiar, e sua fundação da Sociedade Apócrifa, que era também o interesse de tal empresário por colocar aquilo como um tipo de ilha da fantasia no meio tão atribulado da vida economicamente ativa, e o empresário vai na intenção de resgatar Horácio daquela vida, mas o filósofo resiste, ele diz ao empresário que teria de levar até o fim a ideia de desprendimento absoluto para não entrar em contradição, mas o fato era que Horácio estava ferrado e sua premonição intuitiva de que o mal mostraria os dentes logo se confirmaria. Pois no dia seguinte à visita do empresário a Horácio, a Sociedade Apócrifa dormia às três da manhã, e de súbito aparece uma Kombi e dela saem cinco mascarados com porretes e com o barulho de freio da Kombi que para em frente à comunidade, todos os membros acordam, todos eles levam porretadas desses mascarados, e descem mais dois mascarados da tal Kombi e com escopetas disparam contra a Sociedade Apócrifa, os membros da comunidade saem correndo pelas ruas, quinze morrem no ataque, os outros são perseguidos pelas ruas, os mascarados matam mais dois, Alencar é um deles, e Horácio, Daniel e os nove sobreviventes somem pelo mundo, os objetos e acampamentos da Sociedade Apócrifa são queimados por estes mesmos mascarados, que entram, enfim, de volta à Kombi e saem por uma avenida cantando pneus.
No dia seguinte, Horácio, Daniel e os membros voltam ao local de origem da comunidade e veem carros de polícia e ambulâncias em volta, e tudo o que eles tinham, queimado. O empresário que tinha conversado com Horácio, no dia anterior, também estava lá, fotógrafos também, e os universitários que frequentavam a Sociedade Apócrifa como ouvintes da pregação, também no local, estavam inconsoláveis. O empresário finalmente convence Horácio de que tudo aquilo era o sonho ideal de um mundo antigo, que a Sociedade Apócrifa não existia mais, e que ele ofereceria um almoço para Horácio e os membros da comunidade, e que todos eles, e Horácio, trabalhariam na sua empresa, de que também tinha um apartamento em que os membros da comunidade poderiam morar, pois a rua tinha ficado perigosa para eles, e que a volta ao mundo econômico faria bem aos aventureiros que um dia sonharam com a Sociedade Apócrifa. De todo modo, nunca se descobriu quem foram os mascarados que fizeram aquele ataque, e o desprendimento absoluto de Horácio e a força descomunal de Daniel agora estavam a serviço do empresário, e a Sociedade Apócrifa agora não existia mais. Horácio é convidado a voltar a dar aulas como professor convidado na faculdade de filosofia, escreve um livro sobre a Sociedade Apócrifa, que agora era uma lembrança, depois deste trágico incidente com os mascarados, decretando o fim da comunidade. Com o fim da Sociedade Apócrifa, por fim, o empresário faz ser servido um grande banquete aos sobreviventes desta aventura filosófica.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


16/03/2017 Contos Psicodélicos – volume um.



domingo, 12 de março de 2017

O LIVRO DE CESÁRIO VERDE – PARTE II

“A poesia de Cesário Verde é de difícil definição nas correntes literárias de sua época”

CESÁRIO VERDE – O HOMEM E A OBRA

BIOGRAFIA – CONTINUAÇÃO

O poeta Cesário Verde viveu sob a sombra da tuberculose, sua família teve nisso a sua fonte de tragédia, pois, além de levar-lhe dois irmãos, a doença ceifaria prematuramente a vida do poeta. O que ocorreu foi que em 1872 morreu a sua irmã Júlia, a mais velha, e grande parte do poema “Nós” dedica-se a narrar esta perda. Dez anos mais tarde, em 1882, é o irmão mais novo, Joaquim Tomás, que é levado também por esta doença, e tal também aparece registrado no poema citado. E o poeta, com isso, já sentia a ameaça sobre a sua vida em relação a esta doença, com vastas referências sobre isso nos seus poemas. No poema “Nós” ele, por fim, lamenta esta fraqueza congênita da família, e nele também expressa como à riqueza possuída mas inútil preferiria a saúde.
E a morte de Cesário Verde veio, portanto, em consequência da doença maldita, a tísica, envolvido em meio disso na sua luta por reconhecimento literário, no que malogrou quando vivo e no momento de sua morte, que o levou a 19 de Julho de 1886. Cesário Verde morreu ignorado, como ignorado tinha vivido. Nenhum vulto das letras se manifestou, como também no necrológio, o Diário de Notícias, por sua vez, onde ele publicara parte dos seus versos, alinhava algumas banalidades sobre o “malogrado poeta e comerciante”, e somente o Comércio do Porto deixava entrever um pouco que alguém de muito valor tinha deixado este mundo: “Cesário Verde morre quase ignorado. Circunstâncias especiais da sua vida fizeram talvez com que ele não pudesse apurar as suas faculdades, nem aperfeiçoar os seus processos artísticos; mas o que dele fica basta para revelar uma decidida vocação poética, original e independente como poucas.”

A OBRA DE CESÁRIO VERDE

Como dito, a obra poética de Cesário Verde passou quase despercebida aos seus contemporâneos e até mesmo foi objeto tanto de troça e sarcasmo como também de insulto. E, passando um bom tempo de sua morte, os elogios, por outro lado, ganharam contornos extremos. Como, por exemplo, quando João Cabral de Melo Neto afirma que a poesia de Cesário Verde está na mesma dimensão de valor da poesia de Fernando Pessoa, este sim, com reconhecimento universal como um dos maiores poetas da História mundial, e não tanto Cesário Verde.
Cesário Verde, por sua vez, morreu sem ter publicado um livro sequer, uma vez que a sua poesia só apareceu, enquanto este era vivo, de forma dispersa em diversas publicações, como quando em 1873, a 12 de Novembro, este publicou no Diário de Notícias os seus primeiros versos. E em seguida mais versos aparecem em Dezembro de 1873 no Diário da Tarde do Porto, que são os poemas “Eu e ela” e “Lúbrica”. Sua produção continua, e catorze poemas, entre os quais “Esplêndida”, vêm a público durante o ano de 1874, com a promessa da publicação de um livro “para breve”. Mas entretanto, e a propósito de “Esplêndida”, vêm as palavras de Ramalho Ortigão, que desanimam Cesário Verde, então ainda um jovem autor. E com a sua saída do Diário de Notícias, o projeto do livro fica adiado.
E foi somente depois da morte do poeta que Silva Pinto, por sua vez, concretizou esse sonho, fazendo imprimir, a expensas suas e sem a colaboração nem sequer financeira da família, O Livro de Cesário Verde, com a obra aparecendo em Abril de 1887, com uma tiragem limitada de duzentos exemplares, e que não ultrapassa o círculo dos amigos do poeta. Este livro continha vinte e dois poemas dos cerca de quarenta que o poeta nos deixou, e só em 1901, com a 2ª edição, se pode dizer que o público tomou conhecimento da obra. Dos outros poemas que não entraram no livro póstumo de Cesário Verde se encontram sobretudo seus sonetos, que são uma faceta importante de sua escassa poesia.
A poesia de Cesário Verde é de difícil definição nas correntes literárias de sua época, pois este configura como um caso único na literatura portuguesa que não deixou entrever modelos definíveis que o antecedam ou ainda pelo fato de não ter o poeta tido seguidores que o tenham prolongado a sua fortuna crítica ou influência literária. E a sua época, portanto, o colocava como um ser estranho entre a derrocada do ultrarromantismo e a ascensão das correntes literárias provenientes da escola coimbrã. Com João Penha afirmando em 1868 a existência ainda dessas duas escolas literárias: “A dos metrificadores do ai, ou a de Lisboa; e a dos sacerdotes da ideia vaga, ou a de Coimbra.” A primeira seria constituída pelos românticos e a segunda viria a assumir a designação de realismo.
É bom frisar que tal realismo emergente estava ainda num plano de abstração, pois ao se afastar da melopeia dos românticos, tais novos escritores ainda se encontravam num plano geral de ideias tomadas em si mesmas, quando não ganhavam contornos panfletários de uma postura revolucionária. E comparando tal escola nova com a poesia de Cesário Verde, temos que este é bem mais concreto, pois seus poemas não apresentam somente ideias, mas sim personagens humanas reais, a vida real na poesia de Cesário Verde o coloca num plano de realismo completamente diverso do que era praticado por tais revolucionários, pois nele não está retratado operários na sua dimensão de classe social, e nem são os pobres idealizados na indigência, mas são sim figuras muito concretas de calceteiros, de varinas, de vendedeiras, de regateiras, de marçanos, em ambientes concretos e não atmosféricos, resultando numa realidade prosaica e banal, e não ideológica como destes outros escritores.

POEMA:

CRISTALIZAÇÕES: O poema é de uma dureza e de uma secura que antecipa a verve realista, com o título cristalizações, é algo pétreo como o trabalho manual que lhe dá inspiração e conteúdo: “Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,/Vibra uma imensa claridade crua./De cócoras, em linha, os calceteiros,/Com lentidão, terrosos e grosseiros,/Calçam de lado a lado a longa rua.”. O trabalho e a pobreza, eis: “Luzem, aquecem na manhã bonita,/Uns barracões de gente pobrezita”. Aqui nada se ouve, o trabalho manual, duríssimo, se impõe, e o poema segue: “Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!/Tomam por outra parte os viandantes;/E o ferro e a pedra – que união sonora! –/Retinem alto pelo espaço fora,/Com choques rijos, ásperos, cantantes.”. A canção e a massa sonora que o poema retrata é prosaica, um ambiente hostil se desenha: “A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!/Que espessos forros!” (...) “E nesse rude mês, que não consente as flores,/Fundeiam, como esquadra em fria paz,/As árvores despidas. Sóbrias cores!”. E a imagem do frio, recorrente neste poema de Cesário Verde: “Eu julgo-me no Norte, ao frio – o grande agente! –/Carros de mão, que chiam carregados,/Conduzem saibro, vagarosamente;/Vê-se a cidade, mercantil, contente:/Madeiras, águas, multidões, telhados!”. À imagem do frio se soma a da cidade, o trabalho enfrenta o clima e sua lida hostil, mais uma vez: “E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,/Eu tudo encontro alegremente exato./Lavo, refresco, limpo os meus sentidos./E tangem-me, excitados, sacudidos,/O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!”. Os sentidos do poeta entram nesta contenda forte de que o trabalho manual é o moto do estro: “Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!/Que vida tão custosa! Que diabo!”. O lamento e não só o elogio aparecem, o poema é um registro cotidiano em roupagem mais que real, o poema é uma crônica do esforço, e eis que é do povo que o poeta nos conta a lida: “Povo! No pano cru rasgado das camisas/Uma bandeira penso que transluz!/Com ela sofres, bebes, agonizas:” (...) “Como lajões. Os bons trabalhadores!/Os filhos das lezírias, dos montados:/Os das planícies, altos, aprumados;/Os das montanhas, baixos, trepadores!”. O poema então dá uma imagem animal do trabalho manual, de bestas de carga e como animais comuns, fortes, portanto: “Neste Dezembro enérgico, sucinto,/E nestes sítios suburbanos, reles!/Como animais comuns, que uma picada esquente,/Eles, bovinos, másculos, ossudos,”.  

POEMA:

CRISTALIZAÇÕES
                       A Bettencourt Rodrigues
Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como em chão vidrento,
Refletem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra – que união sonora! –
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços.
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos. Cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas. Valadores
Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio – o grande agente! –
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exato.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um para enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas:
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A atriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a atrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demônico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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