PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AUGUSTO DOS ANJOS – EU E OUTRAS POESIAS – PARTE IV

“A poesia de Augusto dos Anjos, então, possuidora desta riqueza vocabular naturalista, se utiliza, portanto, dos recursos de uma linguagem científica”

AUGUSTO DOS ANJOS : UM PRÉ-MODERNISTA

ESTILO E INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS

O livro de poemas de Augusto dos Anjos “Eu e Outras Poesias” é formado por diversas frentes estilísticas que confluem num resultado poético original, poesia que aparece como a soma de tendências que vêm do final do século XIX e que vão até formas que aparecem no início do século XX.
Esta soma de influências na obra de Augusto dos Anjos podem ser elencadas desde o Parnasianismo, o decadentismo, o Simbolismo, e que, por fim, antecipa muitas das tendências modernas, mas com um caráter único na literatura brasileira, obra poética que até hoje representa um trabalho sui generis no cenário geral da poesia brasileira, com um vocabulário naturalista bem próprio.
A poesia de Augusto dos Anjos, então, possuidora desta riqueza vocabular naturalista, se utiliza, portanto, dos recursos de uma linguagem científica, e que também, a partir desta linguagem de origem técnica, tem temas tétricos e fúnebres, de formas abjetas que são colocadas na elegância da poesia como um sublime retirado do grotesco, num paradoxo que vai da forma bela da poesia usando um conteúdo a princípio nada poético, à primeira vista, e resultando nesta originalidade da obra augustiniana, que também tinha uma veia existencial, mas esta também trágica e lidando com a morte e o nada.
Na poesia de Augusto dos Anjos lidamos com uma forma métrica de rigor formal herdada do parnasianismo, com sonetos e poemas mais longos, no uso de quartetos, com versos isométricos e rimados, a maioria decassílabos, e uma sonoridade com a qual se vê a influência simbolista, nos ritmos, rimas e aliterações, simbolismo que por vezes também aparece nos temas, como são os da transcendência e da angústia existencial. Por fim, as antecipações modernas da poesia augustiniana aparecem na linguagem eventualmente coloquial, e que também ganha as vezes de denúncia social, e com uma operação, como dita, de uso do belo na forma com um sumo do grotesco e do hediondo, poesia que também ganha uma face universal com seus temas por vezes existenciais.

A POESIA DECADENTISTA DE AUGUSTO DOS ANJOS

Dentro do processo histórico, a poesia de Augusto dos Anjos pode ser bem situada entre as últimas produções parnasianas, ainda correndo em paralelo também os estertores do simbolismo, sendo o poeta estudado como um poeta de transição entre o Simbolismo e o nascente Modernismo, pois era um poeta que reunia uma forma poética que devia tributo aos parnasianos e simbolistas, mas que já trazia uma renovação no léxico que já superava os caminhos destas correntes literárias.
Augusto dos Anjos era uma mente cientificista, partidário que era do evolucionismo e do determinismo, herdando uma visão monista e materialista, trazia em sua poesia o rico e duro conflito entre o idealismo metafísico e o materialismo científico, com o tema da morte, que em seu sentido metafísico poderia romper com estes limites em que a decomposição dos corpos lhe deixava perplexo e impotente, e que faz então uma poesia que herda a influência, também, do decadentismo francês num registro poético que vem com a morbidez e o repugnante no tema final da extinção da espécie humana diante da morte, que é a carne perecível como imagem física e da morte como limite metafísico em que um nada búdico ganha corpo e fonte de reflexão de sua poesia, e isto num cenário decadente de decomposição física e finitude corporal que flerta com o grotesco.

POEMAS :

OUTRAS POESIAS

O MEU NIRVANA : O poema se move no nada do nirvana e lhe dá as formas sutis, no que temos : “No 
alheamento da obscura forma humana,/De que, pensando, me desencarcero,/Foi que eu, num grito de emoção, sincero,/Encontrei, afinal, o meu Nirvana.” (...) “Destruída a sensação que oriunda fora/Do tato – ínfima antena aferidora/Destas tegumentárias mãos plebeias –/Gozo o prazer, que os anos não carcomem,/De haver trocado a minha forma de homem/Pela imortalidade das Ideias!”. O nirvana aparece aqui como um estado de plenitude, e que tem a imagem poética da imortalidade das Ideias, o poeta tem uma ânsia de libertação, e acha um prazer eterno, ao fim do trajeto.

A DANÇA DA PSIQUÊ : O poema nos dá a forma dançante em que a psiquê se aventura : “A dança dos encéfalos acesos/Começa. A carne é fogo. A alma arde.”. A luta da alma e do instinto abre o poema com um esforço de forças antagônicas, e a alma do poeta dança aqui de mãos dadas com a liberdade espiritual, no que temos : “É então que a vaga dos instintos presos/- Mãe de esterilidades e cansaços –/Atira os pensamentos mais devassos/Contra os ossos cranianos indefesos./Subitamente a cerebral coreia/Para. O cosmos sintético da Ideia/Surge. Emoções extraordinárias sinto .../Arranco do meu crânio as nebulosas./E acho um feixe de forças prodigiosas/Sustentando dois monstros : a alma e o instinto!”. As forças prodigiosas surgem com o poema que crê fiel em seu intento de liberdade.

A FOME E O AMOR : O poema entre fome e amor é uma guerra instintiva entre contrários, ânsia voraz, fome da alma, a plenitude luta contra o ínfimo de uma finitude carnal angustiosa, no que temos : “Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,/Receando outras mandíbulas a esbanjem,/Os dentes antropófagos que rangem,/Antes da refeição sanguinolenta!/Amor! E a satiríase sedenta,/Rugindo, enquanto as almas se confrangem,/Todas as danações sexuais que abrangem/A apolínica besta famulenta!” (...) “Representam, no ardor dos seus assomos,/A alegoria do que outrora fomos/E a imagem bronca do que inda hoje sois!”. O poema luta contra a face bestial que é a imagem ainda persistente na qual o poema faz sua forma final.

HOMO INFIMUS : O poema aqui luta com o ínfimo diante das grandezas universais, no que a imagem mais crua do Homem está diante de um universo hostil e silencioso, criatura cega é o Homem, este que se vê diante de um alfa e ômega enigmáticos, indecifráveis : “Homem, carne sem luz, criatura cega,/Realidade geográfica infeliz,/O Universo calado te renega/E a tua própria boca te maldiz!/O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega/Amarguram-te. Hebdômadas hostis/Passam ... Teu coração se desagrega,/Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!” (...) “Deixa a tua alegria aos seres brutos,/Porque, na superfície do planeta,/Tu só tens um direito : - o de chorar!”. A dor do mundo impede a imagem poética do riso, o poema tem esta visão que chora no fim.

NUMA FORJA : O poema está com o poeta na forja, no que temos : “De inexplicáveis ânsias prisioneiro/Hoje entrei numa forja, ao meio-dia.”. O poema vem com um estro em esforço diante de uma metalurgia em que o ferro chia e ri, e a luta humana do poeta se forja em desesperança, num vazio de estática na qual o poeta se perde : “No horror da metalúrgica batalha/O ferro chiava e ria!/Ria, num sardonismo doloroso/De ingênita amargura,/Da qual, bruta, provinha/Como de um negro cáspio de água impura/A multissecular desesperança/De sua espécie abjeta/Condenada a uma estática mesquinha!”. O sofrimento cósmico dá as caras, e o poema retrata esta dor de conteúdo universal, no que temos : “Era um cosmos inteiro sofredor,/Cujo negror profundo/Astro nenhum exorna/Gritando na bigorna/Asperamente a sua própria dor!” (...) “Era a revelação/De tudo que ainda dorme/No metal bruto ou na geleia informe/Do parto primitivo da Criação!”. As coisas ínfimas, primitivas, eram a base desta viagem cósmica, a brutalidade metálica, rochosa, o sono mineral, estes aqui têm no poema a fonte primeira desta luta universal, cósmica, no que temos, por fim : “Punha em clarividência/Intramoleculares sóis acesos/Perpetuamente às mesmas formas presos,/Agarrados à inércia do Inorgânico/Escravos da Coesão!” (...) “A ouvir todo esse cosmos potencial,/Preso aos mineralógicos abismos/Angustiado e arquejante/A debater-se na estreiteza bronca/De um bloco de metal!” (...) “Ao clangor de tais carmes de martírio/Em cismas negras eu recaio imerso/Buscando no delírio/De uma imaginação convulsionada/Mais revolta talvez de que a onda atlântica,/Compreender a semântica/Dessa aleluia bárbara gritada/Às margens glacialíssimas do Nada/Pelas coisas mais brutas do Universo!”. A semântica mineral do universo bruto, o poema no primeiro esboço da evolução das coisas.

REVELAÇÃO : O poema búdico mergulha no infinito, no que temos : “Escafandrista de insondado oceano/Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,/Penetro a essência plásmica infinita,”. O poema segue o caminho desta ausculta, e ouve o lugar em que se agita o pensamento humano, no que segue : “Sou eu que, auscultando o absconso arcano,” (...) “Ouço o universo ansioso que se agita/Dentro de cada pensamento humano!”. E o poeta entra no profundo da mente, e consegue alcançar uma esfera calma em que a alma sonha, o poema abre esta dimensão embrionária do cosmos oculto, no que segue : “Sou eu que, revolvendo o ego profundo/E a escuridão dos cérebros medonhos,/Restituo triunfalmente à esfera calma/Todos os cosmos que circulam na alma/Sob a forma embriológica de sonhos!” (...) “Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta/Dos limites orgânicos estreitos,/Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,/Sinto bater na putrescível crusta/Do tegumento que me cobre os peitos/Toda a imortalidade da Substância!”. O poeta quer ver a imortalidade, e na substância universal pode intuí-la, e a vê na calma de um ego aprofundado e embrionário.

VIAGEM DE UM VENCIDO : O poema vem com a noite profunda, o cérebro do poeta está imerso na sombra de sua finitude, no que segue : “Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio .../E, enquanto eu tropeçava sobre os paus,/A efígie apocalíptica do Caos/Dançava no meu cérebro sombrio!”. E o poema segue em sua viagem universal pela luta indômita dos sentidos finitos diante de seu caos original, o poeta espera ver algo essencial e esclarecedor, mas está novamente diante de seu limite em que só fica o pó e as formas efêmeras do humano somem no espaço, no que segue : “Aprazia-me assim, na escuridão,/Mergulhar minha exótica visão/Na intimidade noumenal dos seres./Eu procurava, com uma vela acesa,/O feto original, de onde decorrem/Todas essas moléculas que morrem/Nas transubstanciações da Natureza./Mas o que meus sentidos apreendiam/Dentro da treva lúgubre, era só/O ocaso sistemático de pó,/Em que as formas humanas se sumiam!”. O poema se dá então com as formas mais simples da natureza, no que temos : “Dentro de mim, como num chão profundo,/Choravam, com soluços quase humanos,/Convulsionando Céus, almas e oceanos,/As formas microscópicas do mundo!” (...) “Em contraposição à paz funérea,/Doía profundamente no meu crânio/Esse funcionamento simultâneo/De todos os conflitos da matéria!”. Os conflitos da matéria lutam com estas formas ínfimas da natureza, e a luta se dá sobretudo na alma do poeta que vê este sofrimento universal, no que temos : “Cumpria-se afinal dentro de mim/O próprio sofrimento da Substância!”. E o poeta ouve a própria voz da natureza, que lhe diz sobre esta substância universal que vem do menor para o maior, no que temos : “Mas das árvores, frias como lousas,/Fluía, horrenda e monótona, uma voz/Tão grande, tão profunda, tão feroz/Que parecia vir da alma das cousas :/“Se todos os fenômenos complexos,/Desde a consciência à antítese dos sexos,/Vêm de um dínamo fluídico de gás,/Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas,/A humildade botânica das algas/De que grandeza não será capaz?!”. O despertar da natureza tem aqui uma chave evolutiva de que o poeta é partidário, mas que ganha tons místicos de uma grandeza universal incomensurável, no que segue : “Se a contração que hoje produz o choro/Não há de ser no século vindouro/Um simples movimento para rir?!/Que espécies outras, do Equador aos polos,/Na prisão milenária dos subsolos,/Rasgando avidamente o húmus malsão,/Não trabalham, com a febre mais bravia,/Para erguer, na ânsia cósmica, a Energia/À última etapa da objetivação?!” (...) “Porque em todas as coisas, afinal,/Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg,/Tragicamente, diante do Homem, se ergue/A esfinge do Mistério Universal!/Por isto, oh! filho dos terráqueos limos,/Nós, arvoredos desterrados, rimos/Das vãs diatribes com que aturdes o ar ...” (...) “Na avançada epiléptica dos medos/Cria ouvir, a escalar Céus e apogeus,/A voz cavernosíssima de Deus,/Reproduzida pelos arvoredos!/Agora, astro decrépito, em destroços,/Eu, desgraçadamente magro, a erguer-me,/Tinha necessidade de esconder-me/Longe da espécie humana, com os meus ossos!/Restava apenas na minha alma bruta/Onde frutificara outrora o Amor/Uma volicional fome interior/De renúncia budística absoluta!/Porque, naquela noite de ânsia e inferno,/Eu fora, alheio ao mundanário ruído,/A maior expressão do homem vencido/Diante da sombra do Mistério Eterno!”. O mistério universal ganha aqui uma forma de renúncia búdica em busca de um nada em que o absoluto da paz se ergue como um estranho ápice da criação, mas o poeta está então aqui em confronto com uma voz divina que, de forma violenta, está na volição deste poeta que sofre com fome interior insaciável, e que é aqui a imagem final do poeta vencido. 

POEMAS :

OUTRAS POESIAS

O MEU NIRVANA

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero,
Encontrei, afinal, o meu Nirvana.

Nessa manumissão schopenhaueriana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora

Do tato – ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias –

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!

A DANÇA DA PSIQUÊ

A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos!

É então que a vaga dos instintos presos
- Mãe de esterilidades e cansaços –
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coreia
Para. O cosmos sintético da Ideia
Surge. Emoções extraordinárias sinto ...

Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros : a alma e o instinto!

A FOME E O AMOR

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbanjem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríase sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos,
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!

HOMO INFIMUS

Homem, carne sem luz, criatura cega,
Realidade geográfica infeliz,
O Universo calado te renega
E a tua própria boca te maldiz!

O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega
Amarguram-te. Hebdômadas hostis
Passam ... Teu coração se desagrega,
Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!

Fruto injustificável dentre os frutos,
Montão de estercorária argila preta,
Excrescência de terra singular,

Deixa a tua alegria aos seres brutos,
Porque, na superfície do planeta,
Tu só tens um direito : - o de chorar!

NUMA FORJA

De inexplicáveis ânsias prisioneiro
Hoje entrei numa forja, ao meio-dia.
Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía
A térmica violência de um braseiro.
Dentro, a cuspir escórias
De fúlgida limalha
Dardejando centelhas transitórias,
No horror da metalúrgica batalha
O ferro chiava e ria!
Ria, num sardonismo doloroso
De ingênita amargura,
Da qual, bruta, provinha
Como de um negro cáspio de água impura
A multissecular desesperança
De sua espécie abjeta
Condenada a uma estática mesquinha!

Ria com essa metálica tristeza
De ser na Natureza,
Onde a Matéria avança
E a Substância caminha
Aceleradamente para o gozo
Da integração completa,
Uma consciência eternamente obscura!

O ferro continuava a chiar e a rir.
E eu nervoso, irritado,
Quase com febre, a ouvir
Cada átomo de ferro
Contra a incude esmagado
Sofrer, berrar, tinir,
Compreendia por fim que aquele berro
À substância inorgânica arrancado
Era a dor do minério castigado
Na impossibilidade de reagir!

Era um cosmos inteiro sofredor,
Cujo negror profundo
Astro nenhum exorna
Gritando na bigorna
Asperamente a sua própria dor!
Era, erguido do pó,
Inopinadamente
Para que à vida quente
Da sinergia cósmica desperte,
A ansiedade de um mundo
Doente de ser inerte,
Cansado de estar só!

Era a revelação
De tudo que ainda dorme
No metal bruto ou na geleia informe
Do parto primitivo da Criação!
Era o ruído-clarão,
- O ígneo jato vulcânico
Que, atravessando a absconsa cripta enorme
De minha cavernosa subconsciência,
Punha em clarividência
Intramoleculares sóis acesos
Perpetuamente às mesmas formas presos,
Agarrados à inércia do Inorgânico
Escravos da Coesão!

Repuxavam-me a boca hórridos trismos
E eu sentia, afinal,
Essa angústia alarmante
Própria de alienação raciocinante,
Cheia de ânsias e medos
Com crispações nos dedos
Piores que os paroxismos
Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.
A ouvir todo esse cosmos potencial,
Preso aos mineralógicos abismos
Angustiado e arquejante
A debater-se na estreiteza bronca
De um bloco de metal!

Como que a forja tétrica
Num estridor de estrago
Executava, em lúgubre crescendo
A antífona assimétrica
E o incompreensível wagnerismo aziago
De seu destino horrendo!

Ao clangor de tais carmes de martírio
Em cismas negras eu recaio imerso
Buscando no delírio
De uma imaginação convulsionada
Mais revolta talvez de que a onda atlântica,
Compreender a semântica
Dessa aleluia bárbara gritada
Às margens glacialíssimas do Nada
Pelas coisas mais brutas do Universo!

REVELAÇÃO

I
Escafandrista de insondado oceano
Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,
Penetro a essência plásmica infinita,
- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!

Sou eu que, auscultando o absconso arcano,
Por um poder acústica esquisita,
Ouço o universo ansioso que se agita
Dentro de cada pensamento humano!

No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,
Sou eu que, revolvendo o ego profundo
E a escuridão dos cérebros medonhos,

Restituo triunfalmente à esfera calma
Todos os cosmos que circulam na alma
Sob a forma embriológica de sonhos!

I
Treva a fulguração; sânie e perfume;
Massa palpável e éter; desconforto
E ataraxia; feto vivo e aborto ...
- Tudo a unidade do meu ser resume!

Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,
Apreendo, em cisma abismadora absorto,
A potencialidade do que é morto
E a eficácia prolífica do estrume!

Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta
Dos limites orgânicos estreitos,
Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,

Sinto bater na putrescível crusta
Do tegumento que me cobre os peitos
Toda a imortalidade da Substância!

VIAGEM DE UM VENCIDO

Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio ...
E, enquanto eu tropeçava sobre os paus,
A efígie apocalíptica do Caos
Dançava no meu cérebro sombrio!

O Céu estava horrivelmente preto
E as árvores magríssimas lembravam
Pontos de admiração que se admiravam
De ver passar ali meu esqueleto!

Sozinho, uivando hoffmânnicos dizeres,
Aprazia-me assim, na escuridão,
Mergulhar minha exótica visão
Na intimidade noumenal dos seres.

Eu procurava, com uma vela acesa,
O feto original, de onde decorrem
Todas essas moléculas que morrem
Nas transubstanciações da Natureza.

Mas o que meus sentidos apreendiam
Dentro da treva lúgubre, era só
O ocaso sistemático de pó,
Em que as formas humanas se sumiam!

Reboava, num ruidoso burburinho
Bruto, análogo ao peã de márcios brados,
A rebeldia dos meus pés danados
Nas pedras resignadas do caminho.

Sentia estar pisando com a planta ávida
Um povo de radículas e embriões
Prestes a rebentar, como vulcões,
Do ventre equatorial da terra grávida!

Dentro de mim, como num chão profundo,
Choravam, com soluços quase humanos,
Convulsionando Céus, almas e oceanos,
As formas microscópicas do mundo!

Era a larva agarrada a absconsas landes,
Era o abjeto vibrião rudimentar
Na impotência angustiosa de falar,
No desespero de não serem grandes!

Vinha-me à boca, assim, na ânsia dos párias,
Como o protesto de uma raça invicta,
O brado emocionante de vindicta
Das sensibilidades solitárias!

A longanimidade e o vilipêndio,
A abstinência e a luxúria, o bem e o mal
Ardiam no meu orco cerebral,
Numa crepitação própria de incêndio!

Em contraposição à paz funérea,
Doía profundamente no meu crânio
Esse funcionamento simultâneo
De todos os conflitos da matéria!

Eu, perdido no Cosmos, me tornara
A assembleia belígera malsã,
Onde Ormuzd guerreava com Arimã,
Na discórdia perpétua do sansara!

Já me fazia medo aquela viagem
A carregar pelas ladeiras tétricas,
Na óssea armação das vértebras simétricas
A angústia da biológica engrenagem!

No Céu, de onde se vê o Homem de rastros,
Brilhava, vingadora, a esclarecer
As manchas subjetivas do meu ser
A espionagem fatídica dos astros!

Sentinelas de espíritos e estradas,
Noite alta, com a sidérica lanterna,
Eles entravam todos na caverna
Das consciências humanas mais fechadas!

Ao castigo daquela rutilância,
Maior que o olhar que perseguiu Caim,
Cumpria-se afinal dentro de mim
O próprio sofrimento da Substância!

Como quem traz ao dorso muitas cargas
Eu sofria, ao colher simples gardênia,
A multiplicidade heterogênea
De sensações diversamente amargas.

Mas das árvores, frias como lousas,
Fluía, horrenda e monótona, uma voz
Tão grande, tão profunda, tão feroz
Que parecia vir da alma das cousas :

“Se todos os fenômenos complexos,
Desde a consciência à antítese dos sexos,
Vêm de um dínamo fluídico de gás,
Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas,
A humildade botânica das algas
De que grandeza não será capaz?!

Quem sabe, enquanto Deus, Jeová ou Siva
Oculta à tua força cognitiva
Fenomenalidades que hão de vir,
Se a contração que hoje produz o choro
Não há de ser no século vindouro
Um simples movimento para rir?!

Que espécies outras, do Equador aos polos,
Na prisão milenária dos subsolos,
Rasgando avidamente o húmus malsão,
Não trabalham, com a febre mais bravia,
Para erguer, na ânsia cósmica, a Energia
À última etapa da objetivação?!

É inútil, pois, que, a espiar enigmas, entres
Na química genésica dos ventres,
Porque em todas as coisas, afinal,
Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg,
Tragicamente, diante do Homem, se ergue
A esfinge do Mistério Universal!

A própria força em que teu Ser se expande,
Para esconder-se nessa esfinge grande,
Deu-te (oh! mistério que se não traduz!)
Neste astro ruim de tênebras e abrolhos
A efeméride orgânica dos olhos
E o simulacro atordoador da Luz!

Por isto, oh! filho dos terráqueos limos,
Nós, arvoredos desterrados, rimos
Das vãs diatribes com que aturdes o ar ...
Rimos, isto é, choramos, porque, em suma,
Rir da desgraça que de ti ressuma
É quase a mesma coisa que chorar!”

Às vibrações daquele horrível carme
Meu dispêndio nervoso era tamanho
Que eu sentia no corpo um vácuo estranho
Como uma boca sôfrega a esvaziar-me!

Na avançada epiléptica dos medos
Cria ouvir, a escalar Céus e apogeus,
A voz cavernosíssima de Deus,
Reproduzida pelos arvoredos!

Agora, astro decrépito, em destroços,
Eu, desgraçadamente magro, a erguer-me,
Tinha necessidade de esconder-me
Longe da espécie humana, com os meus ossos!

Restava apenas na minha alma bruta
Onde frutificara outrora o Amor
Uma volicional fome interior
De renúncia budística absoluta!

Porque, naquela noite de ânsia e inferno,
Eu fora, alheio ao mundanário ruído,
A maior expressão do homem vencido
Diante da sombra do Mistério Eterno!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/36625/17/a-riqueza-vocabular-da-poesia-de-augusto-dos-anjos



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A ADOLESCÊNCIA E O MAL

"Crianças doces podem se tornar verdadeiros celerados na adolescência"

   Não é fácil ser adolescente, a fase mais vulnerável da vida, psicologicamente falando, em que a personalidade está em formação e tem alterações e saltos radicais, numa busca de se encontrar de algum modo, e onde a alienação do mal se torna uma sedução praticamente irresistível para alguns.
   Crianças doces podem se tornar verdadeiros celerados na adolescência. Os valores entram em crise, a inversão destes se torna meio e fim de uma libertação que pode vir pelo aprisionamento das drogas, dos pequenos ou grandes delitos, e ainda, da cultura pop-rock-etc, que, se levada a sério, será um combustível perigoso para estas almas em combustão.
   O apelo do mal se torna uma nova virtude, a esperteza é a cultura predominante. Tudo na rua é uma aventura, se conhece de tudo, é uma vida muito rica e pulsante, se formam grupos, mútuas influências, desanda tudo pela droga, pelo furto, muitos ficam desorientados, muitos se perdem neste período da vida. Pequenas gangues que ficam na rua o dia todo, pra lá e pra cá. É a vida de flaneur, uma coisa Holden Caulfield que, aditivada por drogas, pode logo se tornar um ensaio de Alex do Laranja Mecânica.
   Alguns, mesmo que inteligentes, caem nas graças do mal. Estes se tornam agentes eficientes de uma vida de tirar vantagem, de tirar onda, de formar, em grupos diversos, comunicações e códigos, tal como em seitas secretas. Se vai à boca de fumo, se enfrenta o perigo, trombamos com pessoas perigosas, o medo sempre existe, mas é camuflado pela aventura, pela transgressão, pelo prazer, tanto das drogas, como do furto, as amizades de "parcerias fortes" ganham força, e geralmente, são efêmeras. Da onda de Racionais MCs, com rock, de ídolos que morreram de overdose, de experimentação ... alguns vão longe demais, outros entram menos fundo, mas também flertam com a morte o tempo todo.
   Já vi muitos que foram doidões no passado, e hoje são impressionantemente serenos. Deve ter algum aprendizado nisso tudo, um autoconhecimento que só quem esteve flanando e correndo perigo, sabe. Uma sabedoria conquistada após aventuras de anarquia e da experiência com o mal.
   O rock and roll e o demônio. Tive este amparo na música pesada, a liga mestra com o satanismo e o black metal, os inalantes, pequenos delitos, nada muito grave. Mas, o mais interessante de tudo é a cultura de rua, é um bom enfrentamento, conhecemos todos os loucos na rua, acontece de tudo, se ouve e se vê muita coisa, aprendemos, e nos perdemos.
   Holden Caulfield. A adolescência flaneur é o autoconhecimento pela pilantragem. Temos medo, muitas vezes. Entra-se em muita roubada. Duras de polícia, nem se fala. Mas, a flanagem é uma riqueza de imagens e experiências guardadas no nosso arquivo íntimo e pessoal.
   Talvez, de modo torto, se sobrevivemos, e, depois, olhamos para trás, valeu a pena, fomos aprendizes de feiticeiro. E sorte dos que saíram regenerados, estes tiveram sorte. Já vi gente que morreu, e tem outros que ainda insistem.
   Mas, a vida adulta é outra onda. O mal é bem compreendido, depois de porradas, o caráter se fortalece, voltamos a entender os valores dos valores, e até voltamos a ser doces, como quando se era criança.
   A onda amaina, a virtude da esperteza dá lugar até a uma nova atitude mais comediógrafa, mas nada boba. Ali dentro, todos os códigos estão bem guardados, o que é útil é percebido, o uso das habilidades é mais modulado, nos tornamos falsos bobos, mas a antena tá ligada, o novo engano e a nova malícia é serenar, não se impressionar, dar uma de idiota para testar quem ainda vende ilusão.
   Relaxei, onde há serenidade, o caos tá governado, bem governado. Todos os apelos já estão bem trabalhados. Já sei e já soube, não preciso saber mais. Outro caminho se abre, quem fica pra trás, fica neste lugar morto. Pois, pra quem já tá em outra, um novo lugar se coloca, o intelecto se abre, a espiritualidade aflora. Já não somos mais os mesmos. Se conhece o mal, se respeita o mal, sabemos que as virtudes da adolescência são bom caldo de vivência, a educação pela pedra, coisa pra quem pulou no buraco e saiu mais forte, ouro puro, vibrante.
   Agora, a vida se torna mais clara e farta, repleta de toda satisfação, e a experiência é pessoal e intransferível, muitas vezes mais rica do que de quem sempre andou na linha, o que não é uma regra. Mas, não é justificar, é saber que o arquivo foi enriquecido, muito prazer foi experimentado, muita dor foi enfrentada, parecia que muitas vezes não se poderia aguentar.
   Muitos tiveram que ver todas estas tentações, ter todas as oportunidades de sucumbir, de implodir e nunca mais se levantar. Que nada, a alma está livre, e tudo aquilo que passou, também foi liberdade. Mas, troca-se a pele, a liberdade caminha sempre livre, e agora, por novas paragens, mais serenas, mais estudadas, menos impetuosas. Tudo isso sempre foi liberdade, mas agora, sem armadilha.
   Os que ficaram na rua, podem ainda crescer, e vão, se quiserem.  A ideia de liberdade, de agora em diante, se torna autêntico e potente autoconhecimento. A loucura é bem conhecida, bem explorada, e bem respeitada. Tudo passa pelo crivo desta experiência intransferível de cada um, e sobrevive quem é esperto, pois, bobo mesmo, é quem se perde na rua, e não volta pra casa.
   A rua agora é apenas um brinde, a flanagem é mais intelectual. Os garotos ficaram lá, ainda estão lá, em algum lugar da nossa memória. É engraçado tudo isso, tudo valeu, mesmo. O conhecimento do mal, cada coisa que se vê e se aprende, foi necessário, foi rico. Muita coisa não serve mais, agora, como conduta, mas serve como reflexão.
   O caminho que se trilhou teve muita armadilha, quase se morre. Mas, as experiências radicais, são também, sinal de uma liberdade radical. E, quando esta liberdade se encontra com a serenidade, tudo fica iluminado, e a rua ganha uma nova cor e um novo som, que nunca tínhamos imaginado.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/36574/14/a-adolescencia-e-o-mal

Obs : crônica já publicada antes neste blog e reeditada especialmente desta vez para o jornal Século Diário, obrigado a todos.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

AUGUSTO DOS ANJOS – EU E OUTRAS POESIAS – PARTE III

“o mórbido e o tétrico na poesia, numa visão crua da realidade”

PERSPECTIVA CRÍTICA - PARTE III

É a partir dos anos 1950 que surge no Brasil o que será chamado de nova crítica, um trabalho de análise literária que será feito por pesquisadores acadêmicos e não mais por poetas e prosadores com visões apologéticas ou impressionistas, mas sim uma visão estética com embasamento teórico, e que terá sua revolução como crítica literária no Brasil com a figura de Afrânio Coutinho, com os cursos de literatura sendo difundidos na universidade brasileira também neste período de renovação e de revolução da crítica literária brasileira, esta que passou a ser uma prática de pesquisa universitária e não mais amadora.
Temos então, nesta série da nova crítica, em relação à obra poética de Augusto dos Anjos, a presença de José Escobar Faria, este que já elaborava a visão da poesia de Augusto dos Anjos como um novo tipo de poesia científica, com construções formais avançadas e inéditas na sua época, com uma riqueza vocabular não apenas no sentido geral, mas de uma linguagem especializada, reveladora de um léxico comum à ciência moderna, mas aplicada à prática da poesia.
Esta porta da ciência que tinha influências como Haeckel, Darwin e Spencer, e que também era uma poesia, ao mesmo tempo, mórbida e de uma filosofia que se esgarçava entre o monismo e o dualismo. Com Faria, portanto, inaugurando uma crítica literária dissertativa acerca da obra de Augusto dos Anjos, que até então só tivera o tributo impressionista de seus primeiros críticos.
Temos, em seguida, a figura do crítico Eudes Barros, que liga a poesia de Augusto dos Anjos a de Baudelaire, mas não como uma influência direta ou formal, mas de temas, uma vez que ambos os poetas inserem o mórbido e o tétrico na poesia, numa visão crua da realidade que sucede de forma radical toda a afetação de que se nutria, antes, o estro e o lirismo da corrente e do temperamento romântico.
Mas um dos críticos literários mais completos que abordará a obra poética de Augusto dos Anjos é a figura de Anatol Rosenfeld, que realiza uma análise interna da obra do poeta, isto é, oposta à apologética impressionista dos primeiros críticos, que viam a vida do poeta refletindo na obra, sem bem perceberem as questões formais e estéticas evidentes que viviam no próprio texto augustiniano.
Agora, com Rosenfeld, a crítica literária sobre a obra de Augusto dos Anjos tinha esta nova abordagem mais técnica do conteúdo da obra do poeta, centrando seus esforços por elucidar a temática que vinha de suas metáforas grotescas, de sua dissonância e de suas figuras exóticas, numa poesia que o crítico não olvidava, também, a influência que esta recebia de alguns poetas expressionistas alemães como eram Trakl, Georg Heym e Gottfried Benn, e também, ao fim, Rosenfeld nos revela a matriz filosófica de Augusto dos Anjos na figura de Arthur Schopenhauer.

POEMAS :

VERSOS ÍNTIMOS : Este é um dos poemas mais famosos da obra de Augusto dos Anjos, e tem uma contundência e uma direção reta e precisa, num tiro curto que condensa tudo numa cápsula de poesia bruta, no que temos : “Vês! Ninguém assistiu ao formidável/Enterro de tua última quimera./Somente a Ingratidão – esta pantera –/Foi tua companheira inseparável!” (...) “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!/O beijo, amigo, é a véspera do escarro,/A mão que afaga é a mesma que apedreja./Se a alguém causa inda pena a tua chaga,/Apedreja essa mão vil que te afaga,/Escarra nessa boca que te beija!”. A relação de ida e volta entre afago e apedrejamento, tem a imagem da mão, esta é que sela o destino e qual é a relação que prevalece, o fósforo e o cigarro só complementam esta visão desolada da vida e do universo que compõem este poema violentíssimo e genial.

VENCEDOR : O poema tem o coração indomável do poeta como tema, e este coração aqui tem uma resistência à prova de qualquer investida, no que temos : “Toma as espadas rútilas, guerreiro,” (...) “e doma/Meu coração – estranho carniceiro!/Não podes?! Chama então presto o primeiro/E o mais possante gladiador de Roma.” (...) “Meu coração triunfava nas arenas./Veio depois um domador de hienas/E outro mais, e, por fim, veio um atleta,/Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem .../E não pôde domá-lo enfim ninguém,/Que ninguém doma um coração de poeta!”. A coda arrasa o terreno em que se deu a luta, e o coração do poeta continua livre, sem quem lhe dome ou lhe possua, o poeta resiste contra toda arma e todo domador.

POEMA NEGRO : O poema tem uma reflexão sobre a finitude numa poesia macabra que luta com o poeta uma luta vã, no que temos : “Para iludir minha desgraça, estudo./Intimamente sei que não me iludo./Para onde vou (o mundo inteiro o nota)/Nos meus olhares fúnebres, carrego/A indiferença estúpida de um cego” (...) “A passagem dos séculos me assombra.”. E as perguntas fundamentais, fundadoras de toda filosofia logo assomam a mente do poeta neste poema perturbado e angustiado, no que temos : “Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:/- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?/E parece-me um sonho a realidade.” (...) “E muita vez, à meia-noite, rio/Sinistramente, vendo o verme frio/Que há de comer a minha carne toda!/É a Morte – esta carnívora assanhada –/Serpente má de língua envenenada/Que tudo que acha no caminho, come ...”. A Morte aparece em toda a sua plenitude e autoridade, com seu agente, o verme, como aquele que come o que resta de uma carcaça que apesar de toda poesia e filosofia, cessa seu questionamento estiolado e como um pedaço de carne que apodrece com a finitude implacável, no que temos :  “Reconheço assombrado o meu Destino!/Surpreendo-me, sozinho, numa cova./Então meu desvario se renova .../Como que, abrindo todos os jazigos,/A Morte, em trajes pretos e amarelos,/Levanta contra mim grandes cutelos/E as baionetas dos dragões antigos!”. E eis a constatação, a estupefação deste poema diante do inevitável, no que temos : “Quis ver o que era, e quando vi o que era,/Vi que era pó, vi que era esterquilínio!”. E o poeta então se transfere à Roma e ao périplo de Jesus, quando então o poeta descreve o que vê, no que segue : “Súbito outra visão negra me espanta!/Estou em Roma. É Sexta-feira Santa./A treva invade o obscuro orbe terrestre./No Vaticano, em grupos prosternados,/Com as longas fardas rubras, os soldados/Guardam o corpo do Divino Mestre.” (...) “De Jesus Cristo resta unicamente/Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente/Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!”. E o poeta agora já se vê como alguém disfuncional, com sua mente desagregada, um ser que flerta com a loucura, no que segue : “A desagregação da minha Ideia/Aumenta. Como as chagas da morfeia/O medo, o desalento e o desconforto/Paralisam-me os círculos motores./Na Eternidade, os ventos gemedores/Estão dizendo que Jesus é morto!/Não! Jesus não morreu! Vive na serra/Da Borborema, no ar de minha terra,/Na molécula e no átomo ... Resume/A espiritualidade da matéria/E ele é que embala o corpo da miséria”. O poeta tenta agora resumir a tragédia de uma vida finita e simplesmente molecular com uma espiritualidade crística que está também nesta vida material e crua da natureza, no que segue a angústia do poeta, no entanto : “Desperto. É tão vazia a minha vida!/No pensamento desconexo e falho/Trago as cartas confusas de um baralho” (...) “Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme./Eu, somente eu, com a minha dor enorme/Os olhos ensanguento na vigília!” (...) “Meu coração, como um cristal, se quebre;/O termômetro negue minha febre,/Torne-se gelo o sangue que me abrasa,” (...) “Ao terminar este sentido poema/Onde vazei a minha dor suprema/Tenho os olhos em lágrimas imersos .../Rola-me na cabeça o cérebro oco./Por ventura, meu Deus, estarei louco?!/Daqui por diante não farei mais versos.”. O poeta está tão desconexo que, ao fim do poema, proclama que desistirá de fazer versos, oh drama total!

QUEIXAS NOTURNAS : O poema tem aqui também a angústia do poeta como numa pintura que nem Pedro Américo poderia plasmar, no que temos : “Quem foi que viu a minha Dor chorando?!/Saio. Minh`alma sai agoniada.” (...) “O quadro de aflições que me consomem/O próprio Pedro Américo não pinta .../Para pintá-lo, era preciso a tinta/Feita de todos os tormentos do homem!”. A universalidade trágica dos tormentos para o poeta, aqui, abarca o mundo inteiro, e nesta visão totalizante é que o poeta soçobra, e o mundo desolado quer sol, mas enfrenta a tristeza, no que segue : “Estou à espera de que o Sol desponte!” (...) “E a minha mágoa de hoje é tão intensa/Que eu penso que a Alegria é uma doença/E a Tristeza é minha única saúde.”. Eis a infinitude, que aqui não passa de ideia e desejo, fontes dos incautos que produz sofrimento, e que segue : “Quero, arrancado das prisões carnais,/Viver na luz dos astros imortais,/Abraçado com todas as estrelas!” (...) “E eu luto contra a universal grandeza/Na mais terrível desesperação/É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião/Da criatura contra a natureza!”. E então esta sede do infinito é nada mais que uma rebelião do poeta contra os limites da natureza, fonte de um sofrimento maior, a luta do poeta contra a sua finitude, no que segue : “E muitas vezes a agonia é tanta/Que, rolando dos últimos degraus,/O Hércules treme e vai tombar no caos/De onde seu corpo nunca mais levanta!” (...) “Ah! Por todos os séculos vindouros/Há de travar-se essa batalha vã” (...) “Vou enterrar agora a harpa boêmia/Na atra e assombrosa solidão feroz” (...) “Que dentro de minh`alma americana/Não mais palpite o coração – esta arca,/Este relógio trágico que marca/Todos os atos da tragédia humana!/Seja esta minha queixa derradeira/Cantada sobre o túmulo de Orfeu;/Seja este, enfim, o último canto meu” (...) “Melancolia! Estende-me a tu`asa!/És a árvore em que devo reclinar-me .../Se algum dia o Prazer vier procurar-me/Dize a este monstro que eu fugi de casa!”. Tal luta e batalha é o último canto do poeta, no que lhe resta, que é a melancolia.

BARCAROLA : A modalidade poética náutica ganha aqui o ar próprio do estro augustiniano, que logo dá suas caras de forma trágica, misturando a este canto do mar, as notas fundas do poeta do tétrico, que então nos dá no poema o relato, e neste ele dá voz à sereia, o poema então tem estes versos : “Cantam nautas, choram flautas/Pelo mar e pelo mar/Uma sereia a cantar/Vela o Destino dos nautas.” (...) “Lá onde as rochas se assentam/Fulguram como outros sóis/Os flamívomos faróis/Que os navegantes orientam.” (...) “Alegoria tristonha/Do que pelo Mundo vai!/Se um sonha e se ergue, outro cai;/Se um cai, outro se ergue e sonha./Mas desgraçado do pobre/Que em meio da Vida cai!/Esse não volta, esse vai/Para o túmulo que o cobre./Vagueia um poeta num barco./O Céu, de cima, a luzir/Como um diamante de Ofir/Imita a curva de um arco./A Lua – globo de louça –/Surgiu, em lúcido véu./Cantam! Os astros do Céu/Ouçam e a Lua Cheia ouça!/Ouça do alto a Lua Cheia/Que a sereia vai falar ...”. Mais uma vez os limites da finitude, e que aqui aparecem como queda, e a voz da sereia então nos dá o sentido desta linguagem do mar, que ao poeta não é história de nada, apenas mais um sonho de uma vida findável e limitada, no que temos : “Que é que ela diz?! Será uma/História de amor feliz?/Não! O que a sereia diz/Não é história nenhuma./É como um réquiem profundo/De tristíssimos bemóis .../Sua voz é igual à voz/Das dores todas do mundo./“Fecha-te nesse medonho/“Reduto de Maldição,/“Viajeiro de Extrema-Unção,/“Sonhador do último sonho!/“Numa redoma ilusória/“Cercou-te a glória falaz,/“Mas nunca mais, nunca mais/“Há de cercar-te essa glória!/“Nunca mais! Sê, porém, forte./“O poeta é como Jesus!/“Abraça-te à tua Cruz/“E morre, poeta da Morte!”/- E disse e porque isto disse” (...) “Mais um poeta que morreu,/Mais um coveiro do Verso!/Cantam nautas, choram flautas/Pelo mar e pelo mar/Uma sereia a cantar/Vela o Destino dos nautas!”. O poeta morre, a morte aqui encerra esta barcarola com a digital infalível de Augusto dos Anjos.

MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO : O poema começa prosaico, mas tem uma amplitude existencial que parte da figura do fósforo para então ir a Moisés e ao próprio Cristo, no que temos : “Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o/Depois. E o que depois fica e depois/Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois/Túmulos dentro de um carvão promíscuo./Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo/Que a individual psiquê humana tece e/O outro é o do sonho altruístico da espécie/Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!”. E o poeta se volta ao aspecto mental, mais ainda, do raciocínio, no que segue : “Raciocinar! Aziaga contingência!/Ser quadrúpede! Andar de quatro pés/É mais do que ser Cristo e ser Moisés/Porque é ser animal sem ter consciência!”. O limite ao menor aspecto da natureza, eis no que o poeta reduz os desejos vãos da finitude, no que segue : “E afogo mentalmente os olhos fundos/Na amorfia da cítula inicial,/De onde, por epigênese geral,/Todos os organismos são oriundos.” (...) “Certo, o arquitetural e íntegro aspecto/Do mundo o mesmo inda é, que, ora, o que nele/Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele/Que vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto!”. E então o que vem depois, um profundíssimo e abismal nada, no que segue o poema : “Depois, é o céu abscôndito do Nada,/É este ato extraordinário de morrer” (...) “Abro na treva os olhos quase cegos./Que mão sinistra e desgraçada encheu/Os olhos tristes que meu Pai me deu/De alfinetes, de agulhas e de pregos?!/Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!”. E o poema vai em acrobacias diante do absurdo da vida e da morte, que o poeta tenta descrever como uma canção inútil sobre nada, no que temos : “Então, do meu espírito, em segredo,/Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,/Na síntese acrobática de um salto,/O espectro angulosíssimo do Medo!/Em cismas filosóficas me perco/E vejo, como nunca outro homem viu,” (...) “Vida, mônada vil, cósmico zero,/Migalha de albumina semifluida,/Que fez a boca mística do druida/E a língua revoltada de Lutero;/Teus gineceus prolíficos envolvem/Cinza fetal! ... Basta um fósforo só/Para mostrar a incógnita de pó,/Em que todos os seres se resolvem!” (...) “Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,/Na abjeção embriológica da vida/O futuro de cinza que me aguarda!”. E então temos o sentido do fósforo no poema, este é o que acende o fogo que queima tudo, até nosso corpo, carne que morre, o fogo, mais ainda, o fósforo, neste poema, vem para nos lembrar de nossa finitude e consistência carnal e que vira cinzas, somos pó, mais que estrelas, neste poema do zero cósmico, da mônada vil com a qual Augusto dos Anjos nos resume a vida.

POEMAS :

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

VENCEDOR

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem ...
E não pôde domá-lo enfim ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

POEMA NEGRO

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte – esta carnívora assanhada –
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come ...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino ...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova ...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajes pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam ...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam!

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitasse vinte e duas vezes ...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros;
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede ...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos ...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas ...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha Ideia
Aumenta. Como as chagas da morfeia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-me os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo ... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos.
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensanguento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre;
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos ...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

QUEIXAS NOTURNAS

Quem foi que viu a minha Dor chorando?!
Saio. Minh`alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Não trago sobre a túnica fingida
As insígnias medonhas do infeliz
Como os falsos mendigos de Paris
Na atra rua de Santa Margarida.

O quadro de aflições que me consomem
O próprio Pedro Américo não pinta ...
Para pintá-lo, era preciso a tinta
Feita de todos os tormentos do homem!

Como um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de arcabuz,
Na ânsia incoercível de roubar a luz,
Estou à espera de que o Sol desponte!

Bati nas pedras dum tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza é minha única saúde.

As minhas roupas, quero até rompê-las!
Quero, arrancado das prisões carnais,
Viver na luz dos astros imortais,
Abraçado com todas as estrelas!

A Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no combate,
A Eternidade esmagadora bate
Numa dilatação exorbitante!

E eu luto contra a universal grandeza
Na mais terrível desesperação
É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião
Da criatura contra a natureza!

Para essas lutas uma vida é pouca
Inda mesmo que os músculos se esforcem;
Os pobres braços do mortal se torcem
E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.

E muitas vezes a agonia é tanta
Que, rolando dos últimos degraus,
O Hércules treme e vai tombar no caos
De onde seu corpo nunca mais levanta!

É natural que esse Hércules se estorça,
E tombe para sempre nessas lutas,
Estrangulado pelas rodas brutas
Do mecanismo que tiver mais força.

Ah! Por todos os séculos vindouros
Há de travar-se essa batalha vã
Do dia de hoje contra o de amanhã,
Igual à luta dos cristãos e mouros!

Sobre histórias de amor o interrogar-me
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nem há mulher talvez capaz de amar-me.

O amor tem favos e tem caldos quentes
E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;
O coração do Poeta é um hospital
Onde morreram todos os doentes.

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto;
A bênção matutina que recebo ...
E é tudo : o pão que como, a água que bebo,
O velho tamarindo a que me encosto!

Vou enterrar agora a harpa boêmia
Na atra e assombrosa solidão feroz
Onde não cheguem o eco duma voz
E o grito desvairado da blasfêmia!

Que dentro de minh`alma americana
Não mais palpite o coração – esta arca,
Este relógio trágico que marca
Todos os atos da tragédia humana!

Seja esta minha queixa derradeira
Cantada sobre o túmulo de Orfeu;
Seja este, enfim, o último canto meu
Por esta grande noite brasileira!

Melancolia! Estende-me a tu`asa!
És a árvore em que devo reclinar-me ...
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!

BARCAROLA

Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.

Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.

Em fulvos filões dourados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.

Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.

Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda ...

Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.

Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.

Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofir
Imita a curva de um arco.

A Lua – globo de louça –
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!

Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar ...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.

Que é que ela diz?! Será uma
História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.

É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis ...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.

“Fecha-te nesse medonho
“Reduto de Maldição,
“Viajeiro de Extrema-Unção,
“Sonhador do último sonho!

“Numa redoma ilusória
“Cercou-te a glória falaz,
“Mas nunca mais, nunca mais
“Há de cercar-te essa glória!

“Nunca mais! Sê, porém, forte.
“O poeta é como Jesus!
“Abraça-te à tua Cruz
“E morre, poeta da Morte!”

- E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou ...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!

Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!

Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!

MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO

Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o
Depois. E o que depois fica e depois
Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois
Túmulos dentro de um carvão promíscuo.

Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo
Que a individual psiquê humana tece e
O outro é o do sonho altruístico da espécie
Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!

E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres:
- “Cinza, síntese má da podridão,
“Miniatura alegórica do chão,
“Onde os ventres maternos ficam podres;

“Na tua clandestina e erma alma vasta,
“Onde nenhuma lâmpada se acende,
“Meu raciocínio sôfrego surpreende
“Todas as formas da matéria gasta!”

Raciocinar! Aziaga contingência!
Ser quadrúpede! Andar de quatro pés
É mais do que ser Cristo e ser Moisés
Porque é ser animal sem ter consciência!

Bêbedo, os beiços na ânfora ínfima, harto,
Mergulho, e na ínfima ânfora, harto, sinto
O amargor específico do absinto
E o cheiro animalíssimo do parto!

E afogo mentalmente os olhos fundos
Na amorfia da cítula inicial,
De onde, por epigênese geral,
Todos os organismos são oriundos.

Presto, irrupto, através ovoide e hialino
Vidro, aparece, amorfo e lúrido, ante
Minha massa encefálica minguante
Todo o gênero humano intra-uterino!

É o caos da avita víscera avarenta
- Mucosa nojentíssima de pus,
A nutrir diariamente os fetos nus
Pelas vilosidades da placenta! –

Certo, o arquitetural e íntegro aspecto
Do mundo o mesmo inda é, que, ora, o que nele
Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele
Que vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto!

É a flor dos genealógicos abismos
- Zooplasma pequeníssimo e plebeu,
De onde o desprotegido homem nasceu
Para a fatalidade dos tropismos. –

Depois, é o céu abscôndito do Nada,
É este ato extraordinário de morrer
Que há de, na última hebdômada, atender
Ao pedido da célula cansada!

Um dia restará, na terra instável,
De minha antropocêntrica matéria
Numa côncava xícara funérea
Uma colher de cinza miserável!

Abro na treva os olhos quase cegos.
Que mão sinistra e desgraçada encheu
Os olhos tristes que meu Pai me deu
De alfinetes, de agulhas e de pregos?!

Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!
Dentro um dínamo déspota, sozinho,
Sob a morfologia de um moinho,
Move todos os meus nervos vibráteis.

Então, do meu espírito, em segredo,
Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,
Na síntese acrobática de um salto,
O espectro angulosíssimo do Medo!

Em cismas filosóficas me perco
E vejo, como nunca outro homem viu,
Na anfigonia de moléculas de esterco.

Vida, mônada vil, cósmico zero,
Migalha de albumina semifluida,
Que fez a boca mística do druida
E a língua revoltada de Lutero;

Teus gineceus prolíficos envolvem
Cinza fetal! ... Basta um fósforo só
Para mostrar a incógnita de pó,
Em que todos os seres se resolvem!

Ah! Maldito o conúbio incestuoso
Dessas afinidades eletivas,
De onde quimicamente tu derivas,
Na aclamação simbiótica do gozo!

O enterro de minha última neurona
Desfila ... E eis-me outro fósforo e riscar.
E esse acidente químico vulgar
Extraordinariamente me impressiona!

Mas minha crise artrítica não tarda.
Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida,
Na abjeção embriológica da vida
O futuro de cinza que me aguarda!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/36541/17/o-morbido-e-o-tetrico-na-poesia-numa-visao-crua-da-realidade