PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 15 de janeiro de 2017

CHARLES BAUDELAIRE E AS FLORES DO MAL – PARTE V

“há uma fusão entre a ideia do tempo e a o tema da morte”

CHARLES BAUDELAIRE

TEMAS POÉTICOS EM AS FLORES DO MAL

Baudelaire foi um dos poetas franceses que mais manteve o tema da morte em seus versos, sendo então este um dos temas principais e dominantes de As Flores do Mal. Com a sua junção com a problemática do tempo, a morte, por conseguinte, está presente do primeiro ao último poema do livro. Com a ideia da Queda sendo uma das orientações em que se dá o tema da morte na poesia de Baudelaire. E em relação à condição post-mortem, por sua vez, Baudelaire tem dois mestres que são Edgar Poe e Swedenborg, para os quais a alma, ainda não atingida pela morte, leva uma existência fetal, até a destruição do corpo, no que finalmente a alma se liberta e conquista a sua autonomia.
Como dito, há uma fusão entre a ideia do tempo e a do tema da morte, tal processo é constante na poética baudelairiana, o que se pode ver na imagem macabra da putrefação. Aqui o tempo é nada mais que uma das vertentes mais fortes da dor, como reflexo da consciência infeliz. O tempo como um tipo de inimigo a ludibriar, estando o homem em movimento ou estagnado. Com a imagem cara da putrefação como a visão adequada da ideia da ação corrosiva do tempo, que é o tempo, também, da contingência do mundo múltiplo e fenomênico em que se dá a vida material ou encarnada, e que nos leva, ao fim, para a imagem desoladora do abismo da Queda.
Baudelaire, a fortiori, portanto, grupou os 85 poemas incluídos no segmento inicial de As Flores do Mal sob o título antinômico de “Spleen et idéal”. Tal organização temática refletirá como conteúdo um antagonismo entre essas duas matrizes, e tal bifurcação será a imagem do próprio pensamento poético do autor, que é ter, de um lado, o spleen, uma angústia como um estado indefinível e sem causa aparente que vai culminar como a expressão suprema do tédio baudelairiano; e de outro, o anelo do poeta pela superação que representa o absoluto e o infinito, cujo símbolo será o ideal.

A INFLUÊNCIA DE BAUDELAIRE NA POESIA E NA LITERATURA

Por fim, a permanência de Baudelaire nos quadros da poesia moderna, como um de seus maiores precursores, é uma confirmação da importância e grandeza de sua obra, que não é apenas seu legado como poeta, mas também como esteta, crítico literário, musical e de artes plásticas, e também como um pensador. Sendo que tal influência de Baudelaire, como algo forte e evidente, se deu sobretudo ao longo da segunda metade do século XIX, momentos nos quais a poesia moderna começa a criar seus primeiros passos. Na França, por sua vez, neste contexto de influência baudelairiana, temos os três maiores poetas desse período – Verlaine, Rimbaud e Mallarmé. E também, Baudelaire será influência, com seu idealismo realista, na literatura realista e naturalista, e ainda na reação simbolista ao poema parnasiano.
Tiveram a influência de Baudelaire também, na França, poetas como Tristan Corbière, Jules Laforgue e o parnasiano José María de Heredia, e ainda especula-se de sua influência até no surrealismo, antecipando-lhe algumas coisas em poesia. E fora da França, por sua vez, Baudelaire influenciou poetas como Swinburne, Wilde, D`Annunzio, Dario, Herrera y Reissig, Heym e Stefan George.

POEMAS:

UMA VIAGEM A CITERA: O poema começa como o sobrevoo do poeta, em que o navio flutuava: “Voava o meu coração como um pássaro ocioso/E ao redor do cordame em pleno azul pairava;/Sob um límpido céu, o navio flutuava” E então ele se depara com a ilha de Citera: “Mas que ilha é esta, triste e sombria? – É Citera,/Dizem-nos, um país em canções celebrado/E dos jovens, outrora, o banal Eldorado.” Eis que ali havia já sido o paraíso, outrora Eldorado da juventude, e esta viagem do poeta continua, com versos que exaltam a ilha, como se vê: “_ Ilha dos corações em festiva embriaguez!/Da antiga Vênus nua a imagem soberana” (...) “Ilha do verde mirto e das flores vistosas,/Venerada afinal por todas as nações,”. Mas o poeta tem uma visão: “_ Citera era somente um chão dos mais desnudos,/Um áspero deserto a ecoar gritos agudos./Eu via ali, no entanto, um singular objeto!”. O poeta tem a visão da forca, a ilha outrora Eldorado agora tinha uma febre de patíbulo, um odor de morte e de execução: “bordejando ao pé da costa agreste,/As velas pondo em fuga as aves e os sargaços,/Vimos então que era uma forca de três braços,/A erguer-se negra para o céu como um cipreste./Ferozes pássaros que o odor da morte atiça/Destroçavam com raiva um pútrido enforcado,”. O enforcado era tal um Prometeu devorado, e o poeta prossegue a viagem agora sem mais qualquer nostalgia: “Ó filho de Citera, herdeiro da luz pura,/Em teu silêncio suportavas tais insultos/Como dura expiação dos teus infames cultos/E pecados, sem ter direito a sepultura!/Ridículo enforcado, eu sofro iguais horrores,/E sinto, ao contemplar-te as vértebras pendentes,/Subir-me, qual se fosse um vômito entre os dentes,/A torrente de fel das minhas velhas dores;”. O poeta faz das dores do enforcado as suas próprias, ele tem a dor de sua alma, e o poema tem esta sensação de devoramento que o corpo do enforcado sente com os pássaros do céu, no que o poeta, enfim, sem mais, celebra a ilha que abrigou Vênus, e Baudelaire é aqui o próprio enforcado, num espelhamento: “Vênus, em tua ilha eu vi um só despojo/Simbólico: uma forca, e nela a minha imagem ...”.

O ABISMO: O poema começa com a imagem de Pascal, e nutre a palavra como um abismo: “Pascal em si tinha um abismo se movendo./_ Ai, tudo é abismo! _ sonho, ação, desejo intenso,/Palavra!” (...) “Em minhas noites, Deus, o sábio dedo erguendo,/Desenha um pesadelo multiforme e imenso.” (...) “E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,/Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.”. Deus aparece como um enigma que desenha na multiplicidade o pesadelo, e no desvario, o poeta está tão mal que sente inveja até mesmo da insensibilidade e do frio, como num ato de noite eterna.

O CACHIMBO DA PAZ: Este poema tem o mestre da vida Gitchi Manitou como guia e como estribilho, e este tem a missão com os humanos, o poema tem teor visionário, no que Baudelaire nos diz: “E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,/O Poderoso, veio à planície florida,” (...) “Eis que se ergueu, onipotente e vigoroso./E convocou então os povos incontáveis,/Mais do que as ervas e as areias infindáveis./Com sua mão tremenda uma lasca arrancou/À rocha, e fez com ela um cachimbo disforme;” (...) “Para enchê-lo tomou um bálsamo oloroso;/E, criador da Energia, o Todo-Poderoso,/De pé, eis que acendeu, qual divino fanal,/O Cachimbo da Paz. De pé sobre a Pedreira,/Fumou, soberbo e erecto, ardendo à luz primeira./E para as tribos esse era o grande sinal.”. O tom visionário tem aqui a fusão do mestre da vida com a imagem mística do cachimbo e de sua fumaça, e a paz que viria neste milagre que o fumo poderia oferecer: “Os Profetas diziam: “Vedes essa estria/De vapores, que, igual ao braço que chefia,/Oscila e se recorta em negro no ar vermelho?/É Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,/Que proclama por toda a planície florida:/Guerreiros meus, eu vos convoco ao real conselho!”” (...) “Os guerreiros de pé se erguiam na paisagem,/Armas na mão, a face impávida e selvagem,” (...) “Em seus olhos brilhava a maldição da guerra./E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Terra,/Tinha por eles uma infinda compaixão,”. Os guerreiros tinham a compaixão do mestre da vida, e tal missionário tinha nada mais que tornar a guerra na paz, com o milagre do cachimbo da paz, o pensamento mágico domina o poema, tal que é o próprio dom visionário de que a poesia é farta: “E ergueu sobre eles sua forte mão direita” (...) “Depois lhes disse, a voz solene e majestosa,” (...) ““Minha posteridade, odiosa mas querida!/Ó filhos meus, ouvi a divina razão!/É Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,/Quem vos fala!” (...) “Eu vos tornei a caça e a pesca generosas;/Por que se fez então o caçador tão vil?/De pássaros povoei as várzeas mais lodosas;/Por que não sois felizes, crianças belicosas?/Por que ao vizinho o homem dá caça e faz-se hostil?” (...) “Bem longe estou de vossa arena de inimigos./Promessas e orações de vós não ouço mais!/Domina vosso gênio o amor pelos perigos,/E vossa força está na união. Quais bons amigos/Vivei, pois, e aprendei a vos manter em paz.”. O grão-mestre prega a paz universal, e proclama, aprofundando o dom visionário, a imagem adventícia de um profeta que virá: “Um Profeta virá de minha mão em breve/Para vos dar conforto e convosco sofrer,/E seu verbo fará a existência mais leve;/Mas se a menosprezá-lo algum de vós se atreve,/Tereis então, filhos malditos, que morrer!” (...)  “Às ondas apagai a cor dos ódios vãos./O caniço é abundante e a rocha não se esfaz;/Cada um pode entalhar o seu cachimbo. Às mãos/Limpai o sangue! Agora vivei como irmãos,/E unidos, pois, fumai o Cachimbo da Paz!””. O cachimbo da paz e o profetismo se fundem como num delírio, que também se pode chamar da ideia cara de uma sociedade utópica que nunca existiu ainda, mas em poesia este milagre acontece, como se vê: “E eles então, depondo as armas sobre a terra,/Lavam nas águas as brutais cores da guerra/Que às frontes lhes ardiam triunfantes e cruéis./Cada um faz seu cachimbo e às margens do regato/Colhe um longo caniço e dá-lhe o corte exato./E o Espírito sorria ante os seus filhos fiéis.” (...) “Todos se foram, a alma quieta e enternecida,/E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,/Uma vez mais galgou a escada celestial./_ Através do vapor que em nuvens se desdobra/Ergueu-se o Poderoso, ébrio de sua obra,/Sublime, perfumado, infinito, triunfal!”. O grão-mestre, missionário, cumpre a missão, o poema de visionário se torna real, e a utopia da sociedade da paz é o poema em sua coda e fim feliz.

LESBOS: A ilha de Lesbos, com seus poetas, é aqui celebrada: “Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias,/Lesbos, ilha onde os beijos, meigos e ditosos,/Ardentes como sóis, frescos quais melancias,/Emolduraram as noites e os dias gloriosos;”. Um clima de luxúria toma o ambiente, e desafia a filosofia racional: “Deixa o velho Platão franzir seu olho sério;/Consegues teu perdão dos beijos incontáveis,/Soberana sensual de um doce e nobre império,/Cujos requintes serão sempre inesgotáveis.” (...) “Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?/De que valem as leis do que é justo ou injusto?/Virgens de alma sutil, do Egeu orgulho eterno,/O vosso credo, assim como os demais, é augusto,/E o amor rirá tanto do Céu quanto do Inferno!”. E o poeta se crê escolhido por tal ilha sensual: “Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo/Para cantar de tais donzelas os encantos,/E cedo eu me iniciei no mistério profundo/Dos risos dissolutos e dos turvos prantos;”. Mistério profundo, espiritual e carnal, eis do quê o poema se nutre ao cantar em verso os feitos de Lesbos: “Para saber se a onda do mar é meiga e boa,/E entre os soluços, retinindo no rochedo,/Enfim trará de volta a Lesbos, que perdoa,/O cadáver de Safo, a que partiu tão cedo,”. E o corpo da poetisa Safo retorna, a mesma que se jogou do penhasco, num delírio suicida: “Desta Safo viril, que foi amante e poeta,/Mais bela do que Vênus pelas tristes cores!” (...) “Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida!/_ De Safo que morreu ao blasfemar um dia,/Quando, trocando o rito e o culto por luxúria,/Seu belo corpo ofereceu como iguaria” (...) “E desde então Lesbos em pranto se lamenta!”. Safo, por fim, como poetisa maior da ilha, é lamentada em sua morte desde que ela ocorrera, Lesbos é cantada aqui em exaltação, e ao fim é a ilha que chora por Safo.

O LETES: O poema tem como tema o rio do esquecimento, no que os versos se seguem: “Vem ao meu peito, ó surda alma ferina,/Tigre adorado, de ares indolentes,” (...) “Quero dormir o tempo que me sobre!/Num sono que ao da morte se confunde,”. O sono se funde com a sensação de morte, e o poema segue: “Para engolir-me a lágrima que escorre/O abismo de teu leito nada iguala;/O esquecimento por teus lábios fala/E a água do Letes nos teus lábios corre.” (...) “O meu destino, agora meu delírio,/Hei de seguir como um predestinado;/Mártir submisso, ingênuo condenado,/Cujo fervor atiça o seu martírio,” (...) “Sugarei, afogando o ódio malsão,/Do mágico nepentes o conteúdo/Nos bicos desse colo pontiagudo,/Onde jamais pulsou um coração.”. O destino do poeta tem esta dor de mártir e este rio que o sono leva ao esquecimento da morte, este mistério maior.

AS JOIAS: O poema começa na visão do poeta de sua amante, e que brilha em suas joias: “A amada estava nua e, por ser eu o amante,/Das joias só guardara as que o bulício inquieta,/Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante” (...) “Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,/Este universo mineral que à luz fulgura/Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro/As coisas em que o som ao fogo se mistura.”. O poeta está em êxtase e adoração, e o poema segue: “Ela estava deitada e se deixava amar,/E do alto do divã, imersa em paz, sorria/A meu amor profundo e doce como o mar,”. O poeta sonha, e tem a sensação de amor como a visão do mar: “E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,/Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,/Para agitar minha alma enfim posta em repouso,/Ou arrancá-la então à rocha de cristal/Onde, calma e sozinha, ela encontrara pouso.”. O poeta é deliciosamente perturbado de seu repouso, o amor agita a carne e o espírito e, enfim, o poema aparece.

AS METAMORFOSES DO VAMPIRO: O poema se abre com a visão de uma mulher, e esta logo se manifesta: “E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,/Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,/E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,/Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:/_ “A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência/De no fundo de um leito afogar a consciência.”. Ela é a voz de uma ciência do sono, um lugar em que a consciência evanesce, no que o poema segue, abrindo o delírio nesta perdição de metamorfoses: “Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,/As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!/Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,/Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,”. A volúpia vem aqui como sufocamento, o domínio da entidade que aparecera como mulher é pleno, o poeta está sugado em suas entranhas: “Quando após me sugar dos ossos a medula,/Para ela me voltei já lânguido e sem gula/À procura de um beijo, uma outra eu vi então/Em cujo ventre o pus se unia à podridão!” (...) “Os dois olhos fechei em trêmula agonia,/E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,/A meu lado, em lugar do manequim altivo,/No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,/Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,”. O poeta acorda e, ao invés de ver vida, somente tem nas mãos farrapos de um esqueleto abandonado.

POEMAS:

UMA VIAGEM A CITERA

Voava o meu coração como um pássaro ocioso
E ao redor do cordame em pleno azul pairava;
Sob um límpido céu, o navio flutuava
Como um anjo inebriado à luz do sol radioso.

Mas que ilha é esta, triste e sombria? – É Citera,
Dizem-nos, um país em canções celebrado
E dos jovens, outrora, o banal Eldorado.
Olhai, enfim: um solo inóspito, eis o que era.

_ Ilha dos corações em festiva embriaguez!
Da antiga Vênus nua a imagem soberana
Como um perfume à tona de teus mares plana
E enche os espíritos de amor e languidez.

Ilha do verde mirto e das flores vistosas,
Venerada afinal por todas as nações,
Onde os suspiros de ardorosos corações
Flutuam como o incenso entre jardins de rosas

Ou como nos pombais o eterno arrulho inquieto!
_ Citera era somente um chão dos mais desnudos,
Um áspero deserto a ecoar gritos agudos.
Eu via ali, no entanto, um singular objeto!

Não era um templo antigo à sombra das figueiras,
Onde a sacerdotisa, amorosa das flores,
Ia, o corpo a pulsar em secretos calores,
A túnica entreabrindo às brisas passageiras;

Mas eis que bordejando ao pé da costa agreste,
As velas pondo em fuga as aves e os sargaços,
Vimos então que era uma forca de três braços,
A erguer-se negra para o céu como um cipreste.

Ferozes pássaros que o odor da morte atiça
Destroçavam com raiva um pútrido enforcado,
Todos cravando, qual verruma, o bico afiado
Em cada poro ainda sangrento da carniça;

Os olhos eram dois buracos e, rasgado,
O ventre escoava os intestinos sobre as coxas,
E seus algozes, comensais de entranhas roxas,
A bicadas o sexo haviam-lhe arrancado.

A seus pés, um tropel de bestas ululantes,
Focinho arreganhado, às cegas rodopiava;
Uma fera maior ao centro se agitava,
Como um executor em meio aos ajudantes.

Ó filho de Citera, herdeiro da luz pura,
Em teu silêncio suportavas tais insultos
Como dura expiação dos teus infames cultos
E pecados, sem ter direito a sepultura!

Ridículo enforcado, eu sofro iguais horrores,
E sinto, ao contemplar-te as vértebras pendentes,
Subir-me, qual se fosse um vômito entre os dentes,
A torrente de fel das minhas velhas dores;

Ao ver-te, pobre-diabo, ainda suspenso agora,
Em mim senti todos os bicos e os caninos
Dos abutres em fúria e tigres assassinos
Que amavam tanto a carne espedaçar-me outrora.

_ Translúcido era o céu, o mar em calmaria;
Mas para mim tudo era escuro e solitário,
E o coração, como entre as sombras de um sudário,
Eu envolvera nessa estranha alegoria.

Vênus, em tua ilha eu vi um só despojo
Simbólico: uma forca, e nela a minha imagem ...
_ Ah, Senhor, dai-me a força e insuflai-me a coragem
De olhar meu coração e meu corpo sem nojo!
(Citera: Ou Cérigo. Em grego clássico. Kýthera, ilha grega situada entre o Peloponeso e Creta. Feitoria fenícia no século X a.C., em meados do século VII a.C. tornou-se possessão de Argos e, logo após, de Esparta. Era célebre por sua produção de púrpura e pelo santuário de Afrodite Anadiomena ou Vênus, que, nascida da espuma das ondas, teria se apossado da ilha./Eldorado: País imaginário da América que os conquistadores espanhóis supunham existir entre os rios Amazonas e Orenoco e que, segundo eles, abundava em ouro. Por extensão, país maravilhoso por suas riquezas e prazeres.)

O ABISMO

Pascal em si tinha um abismo se movendo.
_ Ai, tudo é abismo! _ sonho, ação, desejo intenso,
Palavra! e sobre mim, num calafrio, eu penso
Sentir do Medo o vento às vezes se estendendo.

Em volta, no alto, embaixo, a profundeza, o denso
Silêncio, a tumba, o espaço cativante e horrendo ...
Em minhas noites, Deus, o sábio dedo erguendo,
Desenha um pesadelo multiforme e imenso.

Tenho medo do sono, o túnel que me esconde,
Cheio de vago horror, levando não sei aonde;
Do infinito, à janela, eu gozo os cruéis prazeres,

E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,
Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.
_ Ah, não sair jamais dos Números e Seres!
(Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico, filósofo e escritor francês. Jansenista e patrono dos movimentos de renovação religiosa em seu país, tornou-se famoso graças às 18 Lettres provinciales (1656-1657) e, sobretudo, às Pensées (publicação póstuma, 1670). Distinguia entre o esprit de géometrie, que dele fez importante matemático e físico, e o esprit de finesse, graças ao qual foi profundo hómo religiosus. É sensível a influência desta última vertente sobre a poesia de Baudelaire.)

O CACHIMBO DA PAZ

Imitado de Longfellow

I

E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
O Poderoso, veio à planície florida,
Ao prado imenso rente ao cerro montanhoso,
E ali, sobre as escarpas da Rubra Pedreira,
O espaço dominando e ardendo à luz primeira,
Eis que se ergueu, onipotente e vigoroso.

E convocou então os povos incontáveis,
Mais do que as ervas e as areias infindáveis.
Com sua mão tremenda uma lasca arrancou
À rocha, e fez com ela um cachimbo disforme;
Depois, junto ao regato, num bambual enorme,
Para servir de tubo, um caniço apanhou.

Para enchê-lo tomou um bálsamo oloroso;
E, criador da Energia, o Todo-Poderoso,
De pé, eis que acendeu, qual divino fanal,
O Cachimbo da Paz. De pé sobre a Pedreira,
Fumou, soberbo e erecto, ardendo à luz primeira.
E para as tribos esse era o grande sinal.

E em círculos subia a fumaça sagrada
No ar doce da manhã, sensual e perfumada.
E agora o que se via era um sombrio véu;
Logo o vapor se fez mais azulado e intenso,
Depois branqueou, sempre engrossando no ar suspenso,
Para extinguir-se aos pés da abóbada do céu.

Dos distantes confins das Montanhas Rochosas,
Desde os lagos do Norte às ondas impetuosas,
De Tawasentha, a várzea amena e sem igual,
A Tuscaloosa, erma floresta trescalante,
Avistou-me o sinal e a fumaça ondulante
Lentamente a subir no incêndio matinal.

Os Profetas diziam: “Vedes essa estria
De vapores, que, igual ao braço que chefia,
Oscila e se recorta em negro no ar vermelho?
É Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
Que proclama por toda a planície florida:
Guerreiros meus, eu vos convoco ao real conselho!”

Pelas sendas do rio ou pelo ermo poeirento,
Pelas quatro vertentes de onde sopra o vento,
Vós, fiéis guerreiros, vós das tribos em porfia,
Entendendo o sinal da nuvem caminheira,
Viestes dóceis até junto à Rubra Pedreira
Onde sempre Gitchi Manitou vos ouvia.

Os guerreiros de pé se erguiam na paisagem,
Armas na mão, a face impávida e selvagem,
Matizados tal como uma folha outonal;
O ódio que à luta impele a todos os mortais,
O ódio que ardia nos olhares ancestrais
No olhar lhes acendia uma flama fatal.

Em seus olhos brilhava a maldição da guerra.
E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Terra,
Tinha por eles uma infinda compaixão,
Como um pai extremoso, indisposto às disputas,
Que vê seus filhos a morder-se em árduas lutas.
Tal Gitchi Manitou por toda uma nação.

E ergueu sobre eles sua forte mão direita
Para dobrar-lhes a alma e a natureza estreita,
Para esfriar-lhes a febre à sombra dessa mão;
Depois lhes disse, a voz solene e majestosa,
Comparável à voz de uma água tormentosa,
Que tomba e ecoa mais hedionda que um trovão:

II

“Minha posteridade, odiosa mas querida!
Ó filhos meus, ouvi a divina razão!
É Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
Quem vos fala! o que em vossa planície florida
Pôs a rena, o castor, a raposa e o bisão.

Eu vos tornei a caça e a pesca generosas;
Por que se fez então o caçador tão vil?
De pássaros povoei as várzeas mais lodosas;
Por que não sois felizes, crianças belicosas?
Por que ao vizinho o homem dá caça e faz-se hostil?

Bem longe estou de vossa arena de inimigos.
Promessas e orações de vós não ouço mais!
Domina vosso gênio o amor pelos perigos,
E vossa força está na união. Quais bons amigos
Vivei, pois, e aprendei a vos manter em paz.

Um Profeta virá de minha mão em breve
Para vos dar conforto e convosco sofrer,
E seu verbo fará a existência mais leve;
Mas se a menosprezá-lo algum de vós se atreve,
Tereis então, filhos malditos, que morrer!

Às ondas apagai a cor dos ódios vãos.
O caniço é abundante e a rocha não se esfaz;
Cada um pode entalhar o seu cachimbo. Às mãos
Limpai o sangue! Agora vivei como irmãos,
E unidos, pois, fumai o Cachimbo da Paz!”

III

E eles então, depondo as armas sobre a terra,
Lavam nas águas as brutais cores da guerra
Que às frontes lhes ardiam triunfantes e cruéis.
Cada um faz seu cachimbo e às margens do regato
Colhe um longo caniço e dá-lhe o corte exato.
E o Espírito sorria ante os seus filhos fiéis.

Todos se foram, a alma quieta e enternecida,
E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
Uma vez mais galgou a escada celestial.
_ Através do vapor que em nuvens se desdobra
Ergueu-se o Poderoso, ébrio de sua obra,
Sublime, perfumado, infinito, triunfal!
(O poema imitado é o “Peace-pipe”, pertencente à coletânea The song of Hiawatha (1885). Baudelaire fez aqui uma adaptação bastante livre do texto de Longfellow./Gitchi Manitou: Manitou designa um espírito ou gênio do bem e do mal, sendo sua tendência predominantemente monoteística. A ele estão relacionadas noções de guarda, de orientação ética e de autoridade cósmica. É também o nome de um rio da província de Quebec, no Canadá, afluente do São Lourenço./Tawasentha: Vale da província de Quebec, no Canadá/Tuscaloosa: Cidade do Alabama, nos EUA, às margens do rio Black Warrior.)

LESBOS

Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias,
Lesbos, ilha onde os beijos, meigos e ditosos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancias,
Emolduraram as noites e os dias gloriosos;
Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias;

Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas,
Que desabam sem medo em pélagos profundos,
E correm, soluçando, em meio às colunatas,
Secretos e febris, copiosos e infecundos,
Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas!

Lesbos, onde as Frineias uma à outra esperam,
Onde jamais ficou sem eco um só queixume,
Tal como a Pafos as estrelas te veneram,
E Safo a Vênus, com razão, inspira ciúme!
Lesbos, onde as Frineias uma à outra esperam,

Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,
Onde, diante do espelho, ó volúpia maldita!
Donzelas de ermo olhar, dos corpos amorosas,
Roçam de leve o tenro pomo que as excita;
Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,

Deixa o velho Platão franzir seu olho sério;
Consegues teu perdão dos beijos incontáveis,
Soberana sensual de um doce e nobre império,
Cujos requintes serão sempre inesgotáveis.
Deixa o velho Platão franzir seu olho sério.

Arrancas teu perdão ao martírio infinito,
Imposto sem descanso aos corações sedentos,
Que atrai, longe de nós, o sorriso bendito
Vagamente entrevisto em outros firmamentos!
Arrancas teu perdão ao martírio infinito!

Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?
Ou condenar-te a fronte exausta de extravios,
Se nenhum deles o dilúvio pôde ver
Das lágrimas que ao mar lançaram os teus rios?
Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?

De que valem as leis do que é justo ou injusto?
Virgens de alma sutil, do Egeu orgulho eterno,
O vosso credo, assim como os demais, é augusto,
E o amor rirá tanto do Céu quanto do Inferno!
De que valem as leis do que é justo ou injusto!

Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo
Para cantar de tais donzelas os encantos,
E cedo eu me iniciei no mistério profundo
Dos risos dissolutos e dos turvos prantos;
Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo.

E desde então do alto da Lêucade eu vigio,
Qual sentinela de olho atento e indagador,
Que espreita sem cessar barco, escuna ou navio,
Cujas formas ao longe o azul nos faz supor;
E desde então do alto da Lêucade eu vigio

Para saber se a onda do mar é meiga e boa,
E entre os soluços, retinindo no rochedo,
Enfim trará de volta a Lesbos, que perdoa,
O cadáver de Safo, a que partiu tão cedo,
Para saber se a onda do mar é meiga e boa!

Desta Safo viril, que foi amante e poeta,
Mais bela do que Vênus pelas tristes cores!
_ O olho do azul sucumbe ao olho que marcheta
O círculo de treva estriado pelas dores
Desta Safo viril, que foi amante e poeta!

_ Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida,
A derramar os dons da paz de que partilha
E a flama de uma idade em áurea luz tecida
No velho Oceano pasmo aos pés de sua filha;
Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida!

_ De Safo que morreu ao blasfemar um dia,
Quando, trocando o rito e o culto por luxúria,
Seu belo corpo ofereceu como iguaria
A um bruto cujo orgulho atormentou a injúria
Daquela que morreu ao blasfemar um dia.

E desde então Lesbos em pranto se lamenta,
E, embora o mundo lhe consagre honras e ofertas,
Se embriaga toda noite aos uivos da tormenta
Que lançam para os céus suas praias desertas!
E desde então Lesbos em pranto se lamenta!
(Este poema e os cincos seguintes foram condenados, em 1857, pelo tribunal correcional, e não mais puderam ser reproduzidos na coletânea das Flores do Mal. Sabe-se que o outro título escolhido por Baudelaire para o seu livro era As lésbicas. Este título não se explicaria senão pela presença deste poema e dos outros dois que levam o título de “Mulheres malditas”, ou talvez, também, pelo segundo terceto de “Sed non satiata”, onde o autor alude à anomalia sexual de Jeanne Duval./Lesbos: em grego, Lésbos ou Mytiléne. Ilha grega do mar Egeu, perto do litoral turco. Na antiguidade, a ilha era partilhada por várias cidades rivais, entre elas Mitilene, que vivia a dominá-la. Nos tempos arcaicos foi um celeiro de poetas líricos, como Alceu, Terpandro, Arião e Safo./Frineias: Em grego Phrýne. Cortesã ateniense (Téspias, século IV a.C.). Acusada de impiedade, ter-se-ia beneficiado da indulgência de alguns juízes quando seu defensor, Hipérides, a despiu diante deles./Pafos: em grego Páphos, na antiguidade, nome de duas cidades do setor oeste da ilha de Chipre. Uma delas (hoje Koúklia), fundada pelos fenícios, tornou-se célebre entre os gregos por seu templo consagrado a Afrodite. Pafos era o centro do culto de Afrodite e ali se celebravam as afrodisias, cujo ritual incluía um banho no mar e danças mímicas./Safo: em grego, Sappho: Poetisa grega (Lesbos, 625-580 a.C.) cujos nove livros de poemas de amor foram célebres na antiguidade. De todos eles restam apenas 650 versos, alguns dos quais surpreendem pelo intenso acento lírico. Criou ritmos e metros novos, como, por exemplo, a estrofe sáfica./Platão: em grego Pláton. Filósofo grego (Atenas 428 ou 427 – 348-347 a.C.) cujo pensamento radica numa teoria das ideias em que estas se organizam hierarquicamente sob a égide do Bem. Toda a construção do platonismo está vinculada ao pensamento matemático da época, buscando explicar o conhecimento e a existência das coisas através da participação do sensível no inteligível e da reminiscência, ou seja, a memória supra-empírica da alma. Deixou inúmeros Diálogos./Lêucade: Ou, mais corretamente, Leucádia (em grego, Leukadía ou Leuká). Ant. Santa Maura, antiga ilha do mar Jônio, hoje ligada ao continente asiático por um istmo alagadiço. O geônimo Leucádia inclui também as ilhas de Kálamos e Ítaca.)

O LETES

Vem ao meu peito, ó surda alma ferina,
Tigre adorado, de ares indolentes,
Quero os meus dedos mergulhar frementes
Na áspera lã de tua espessa crina;

Em tuas saias sepultar bem junto
De teu perfume a fronte dolorida,
E respirar, como uma flor ferida,
O suave odor de meu amor defunto.

Quero dormir o tempo que me sobre!
Num sono que ao da morte se confunde,
Que o meu carinho sem remorso inunde
Teu corpo luzidio como o cobre.

Para engolir-me a lágrima que escorre
O abismo de teu leito nada iguala;
O esquecimento por teus lábios fala
E a água do Letes nos teus lábios corre.

O meu destino, agora meu delírio,
Hei de seguir como um predestinado;
Mártir submisso, ingênuo condenado,
Cujo fervor atiça o seu martírio,

Sugarei, afogando o ódio malsão,
Do mágico nepentes o conteúdo
Nos bicos desse colo pontiagudo,
Onde jamais pulsou um coração.

AS JOIAS

A amada estava nua e, por ser eu o amante,
Das joias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.

Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz fulgura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.

Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.

O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.

E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, a imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,

Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então à rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontrara pouso.

Como se à luz de um novo esboço, unida eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!

_ E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira,
Toda vez que emita um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
(Antíope: em grego, Antiope, Filha de Nicteu, rei de Tebas. Seduzida por Zeus, que lhe apareceu sob a forma de sátiro, dele teve dois filhos: Anfíon e Zeto.)

AS METAMORFOSES DO VAMPIRO
E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,
Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
_ “A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
As lágrimas eu seco em meus seios triunfantes,
E os velhos faço rir com o riso dos infantes.
Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,
As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,
Ou quando o seio oferto ao dente que o mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!”

Quando após me sugar dos ossos a medula,
Para ela me voltei já lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão!

Os dois olhos fechei em trêmula agonia,
E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
A meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/32362/17/charles-baudelaire-e-as-flores-do-mal-parte-5  


sábado, 14 de janeiro de 2017

CHARLES BAUDELAIRE E AS FLORES DO MAL – PARTE IV

“As Flores do Mal, seu único livro de poesia, possui apenas 166 poemas”

CHARLES BAUDELAIRE

SENTIDO MODERNO DE AS FLORES DO MAL

CONTEXTO HISTÓRICO E CRÍTICO

Baudelaire tinha cerca de 20 anos quando começou a escrever os primeiros poemas de As Flores do Mal, só que o poeta não teve pressa em publicar seus poemas, os quais passaram por um processo exigente de escrita e reescrita, com poemas provavelmente destruídos, fundidos, refundidos, e sobretudo esmerilhados. Tudo isso num espaço de tempo de 27 anos, no qual Baudelaire fez sua concepção estética amadurecer, tornando-se um artista com alto grau de lucidez e consciência poética. Tal era a entrega e a exigência de seu trabalho, que Baudelaire, de suas cartas, no entanto, podia inferir a ideia de que sua obra não seria reconhecida rapidamente, pois Baudelaire se via num contexto de uma sociedade e de uma época que tinha apego por certos juízos oficiais e que tinha nas palavras de Victor Hugo uma lei, este que, consagrado, reconheceu de pronto o gênio de Baudelaire, pois sabia das coisas.
No entanto, como poderia a França de sua época e tal espírito francês da primeira metade do século XIX tolerar o que deles dizia Baudelaire? Num contexto histórico de uma época contaminada pela agonia do romantismo, como As Flores do Mal seriam bem recebidas pelo austero e discricionário regime de Napoleão III, levando até mesmo a entidade que era Victor Hugo ao exílio? Baudelaire poderia ser encarado então como um poeta já escolhido pela posteridade, aonde de fato morava, pois não estava inserido na hipocrisia e no irrespirável prosaísmo do espírito francês de sua época.
Contudo, é com As Flores do Mal que Baudelaire antecipa tanto os temas como também todo o processo estético da poesia moderna. Baudelaire seguia com certa fidelidade as ideias expostas por Poe no Poetic principle, no que se via que Baudelaire, à exceção de uma meia dúzia de composições, expurgou o poema longo, que era um tipo de afetação cara ao gosto dos românticos. Mas, para além do Poetic principle de Poe, o verso baudelairiano tem outras fontes de inspiração e reflexão como nos textos dos escritores latinos, nas propostas estéticas da Pléiade, na Ars poetica de Boileau e, sobretudo, na obra de Racine, este que tem por uma das bases o mesmo citado Boileau. Mesmo sendo um poeta que antecipou a poesia moderna e como contemporâneo da febre romântica, Baudelaire, contudo, é um escritor de linhagem clássica, pois tem uma lucidez na expressão, com sua sintaxe sem floreios e um estilo conciso que são reflexo do que há de melhor nas tradições da língua francesa, revelando no poeta um diálogo criativo frutífero com muito do que houve no século XVII, daí advindo sua negação estética dos transbordamentos retóricos e do desleixo de estilo visto nos românticos.
E podemos ter uma medida da exigência baudelairiana se vermos que o poeta cuidou com afinco até da própria extensão de seu cânon poético: As Flores do Mal, seu único livro de poesia, possui apenas 166 poemas, aos quais se poderiam ajuntar, se quiser, o legado talvez irrelevante dos primeiros versos, ou ainda das Amoenitates Belgicae, que reúnem a poesia epigramática e os versos de circunstância que nos deixou o autor. E vem a questão de se de fato Baudelaire escreveu pouco, já que isso seria uma insinuação, por exemplo, de Jean-Paul Sartre, que em sua súmula idiossincrática e irritada sobre o poeta levanta tal polêmica. Mas se Baudelaire foi exigente com o próprio trabalho, pode-se inferir também o contrário, de que escreveu muito, já que uma obra do quilate de As Flores do Mal não nasce da noite para o dia, lembrando aqui os 27 anos que o poeta maturou para vir à luz, podendo então ter como objeto o fato de que os poemas de Baudelaire são produto de alguém que escreveu e reescreveu incontáveis vezes esses 166 poemas da arte final, obra que lhe custou sua vida inteira de poeta e como escritor. Então, ao contrário da visão sartreana, pode-se ver que Baudelaire escreveu muitíssimo, mas somente publicou o que lhe parecia digno de seu gênio. E então acertou em cheio, independente, e muito!, da crítica reducionista de que era um escritor breve.
O verso baudelairiano revela tal exigência de uma vida inteira no que se pode ver em seu alexandrino impecável e infinito, numa senda ondulante de duração que rompe até mesmo os limites físicos da palavra, num jogo verbal que tem no mistério do processo criativo a sua fonte original. E tal sortilégio resultante das tensões que se polarizam em seu verso seria produto de uma imaginação na qual o significado das palavras não seria o bastante, pois era produto de uma intuição poderosa animada por entidades como as “opérations magiques” e a “sorcellerie évocatoire”, como o próprio Baudelaire sugere em suas notas, com o fito de explorar os sons, as formas e as cores.
Assim como o verso baudelairiano não pode ser confundido com o dos românticos, este tampouco pode ser incluído entre os parnasianos e no modo como Baudelaire concebia a tão controversa teoria da “arte pela arte”, que tem em seus poemas uma operação criativa diversa da rigidez ortodoxa de um Gautier ou de um Banville, causando espanto, para quem está bem informado, esta associação que alguns críticos fazem de Baudelaire com o parnasianismo. Tal distinção entre Baudelaire e os parnasianos se dá sobretudo por ter o soneto baudelairiano se fundado nas “imperfeições” que são o caráter essencial de sua versificação e da poesia do autor, que passa ao largo de exigências formais tanto da Pléiade quanto do próprio Parnaso, com tal herança, guardadas as proporções, presentes apenas em cinco poemas. Pois toda a obra de Baudelaire será uma transgressão em relação a fôrmas, numa luta constante contra reduções paralisantes.
Quanto ao conceito da “arte pela arte”, portanto, também causa espanto que se haja tentado colocar Baudelaire como seu defensor, uma vez que as “defeituosas perfeições” da poesia baudelairiana lutavam contra escaninhos em que estavam entidades como Gautier e Banville, por exemplo. Com Baudelaire, por sua vez, fazendo uma inversão de princípios em que a feiura era também poesia, e não a ideia metafísica e da tradição filosófica da Estética que tinha no Belo com maiúscula  o fundamento exclusivo da sensação e aqui, no caso de Baudelaire, como fonte única para a inspiração poética. E foi exatamente com esta ruptura que Baudelaire abriu caminho para o que viria a ser a poesia moderna. E Baudelaire, por sua vez, foi quem conferiu todo o sentido metafísico que faltava à poesia musical e muitas vezes vazia de Poe, abrindo caminho para uma concepção de verso que seria livre de todos os elementos narrativos e didáticos que até então povoavam a poesia, lançando então os novos fundamentos da poesia moderna.
Embora o verso baudelairiano se expresse sobretudo em termos de estrita consumação sintático-verbal, este deve, contudo, muito à música,  e ainda mais à pintura. E então não é por acaso que Baudelaire tenha se destacado como o maior crítico musical e de artes plásticas de sua época. Como poeta, Baudelaire certamente tinha essa preocupação musical na sua relação às exigências do ritmo, que é, como se sabe, o elemento que faz a distinção estrutural entre a poesia e a prosa, mais do que a conhecida distinção formal. Há, pois, em Baudelaire, como se veria com Eliot bem depois, este interesse dinâmico pelo que era a “music of the poetry”, numa espécie de visão de herança pitagórica e matemática.
Baudelaire, por outro lado, não permitia que a música pudesse subverter ou adulterar os elementos discursivos do poema, pois a base do poema eram as palavras, e não as ideias, e então Baudelaire teve esta percepção de entender a ameaça da música aos fundamentos estéticos de sua poesia, mantendo-a sob controle crítico. Tal descaminho que ficaria, por sua vez, por conta de dois de seus herdeiros: Verlaine, cuja poesia se reduz a uma verdadeira orgia e embriaguez musical, e Mallarmé, com sua “musique des silences”.
Os textos baudelairianos são claros quanto a imagens, e ao contrário de Rimbaud, que iria colorir as vogais em célebre soneto, Baudelaire pretendia estabelecer uma forma de percepção como analogia entre as distintas manifestações do gênio artístico, numa sensibilidade espiritual, que era, ao fim, uma faculdade suprema da imaginação, com Baudelaire colocando a beleza para além dos elementos plásticos ou musicais que inspirava muitas vezes a sua escrita poética.
A inovação do verso baudelairiano não se dará, contudo, no nível da língua, pois a linguagem de Baudelaire segue critérios canônicos de clareza, não obstando nada para o plano da leitura, pois que tem como fonte histórica os poetas latinos e os grandes autores franceses do século XVII, principalmente Racine, mas observando-se no poeta, todavia, uma preocupação musical que faltava ao verso clássico, quase sempre comprometido com a eloquência e o afã analítico. O verso de Baudelaire é sempre lento, grave, solene, um alexandrino infindável ondulando com um ritmo próprio e original, tendo semelhanças, por vezes, com as litanias da decadência latina.
Fiel à cesura, esse alexandrino baudelairiano possui um vasto cabedal de recursos técnicos e estilísticos, como as rimas internas, o jogo habilidoso de rimas graves e agudas, típico da ordem clássica francesa, as aliterações, além das insólitas “perfeições defeituosas” das quais Baudelaire foi intenso praticante em seus versos. E mesmo quando Baudelaire recorre aos metros curtos, como as redondilhas maior e menor – o que é raríssimo -, pode-se perceber essa duração infindável, e no que tange ao octossílabo, metro muito frequente em As Flores do Mal, este é característico da língua francesa e, como no caso do alexandrino, Baudelaire o levou à perfeição.

POEMAS:

O CISNE : O poema do cisne é belo, mesmo vertido ao português, vem com música, em sentido de som e de fundo, como se vê: “Andrômaca, só penso em ti!” (...) “Fecundou-me de súbito a fértil memória,/Quando eu cruzava a passo o novo Carrossel./Foi-se a velha Paris”. Há um quê de nostalgia, a velha Paris se evoca, mas o poeta tem então uma visão: “Ali eu vi, certa manhã,” (...) “Um cisne que escapara enfim ao cativeiro/E, nas ásperas lajes os seus pés ferindo,/As alvas plumas arrastava ao sol grosseiro./Junto a um regato seco, a ave, o bico abrindo,/No pó banhava as asas cheias de aflição,/E dizia, a evocar o seu lago natal:/“Água, quando cairás? quando soarás, trovão?””. A visão do cisne e sua fuga do cativeiro ainda possui um misto de esperança e sofrimento, a água é sentida como fonte redentora, no que Baudelaire continua: “Paris muda! mas nada em minha nostalgia/Mudou!” (...) “Também diante do Louvre uma imagem me oprime:/Penso em meu grande cisne, quando em fúria o vi,/Qual exilado, tão ridículo e sublime,/Roído de um desejo infindo!”. Aqui a velha Paris é o cisne outrora visto, a visão nostálgica funde a beleza do animal à da cidade, e os ventos da mudança como uma dor que quer se ver extirpada: “Andrômaca, às carícias do esposo arrancada,/De Pirro a escrava, gado vil, trapo terreno,/Ao pé de ermo sepulcro em êxtase curvada,/Triste viúva de Heitor e, após, mulher de Heleno!” (..) “Assim, a alma exilada à sombra de uma faia,/Uma lembrança antiga me ressoa infinda!”. A memória, por infinda, ressoa o infinito, que pode ser esperança ou lembrança. Pode-se ver o futuro e ao mesmo tempo evocar do passado algo que da memória não se esgota. O poema é o cisne e é Paris.
A UMA PASSANTE : O poema nos aparece com a sua musa em fuga, uma musa rarefeita, uma passante: “A rua em torno era um frenético alarido./Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,/Uma mulher passou,” (...) “Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia/No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,/A doçura que envolve e o prazer que assassina.” (..) “Não mais hei de te ver senão na eternidade?/Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!/Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,/Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!”. A visão é tão fugaz quanto os passos rápidos da passante, e com a mesma velocidade o poema se encerra, como algo que tenta captar a fuga.
SONHO PARISIENSE : O poema abre com sua visão da paisagem, o sonho parisiense se abre: “Desta fantástica paisagem,/Que ninguém viu jamais um dia,/Esta manhã ainda a imagem,/Vaga e longínqua, me extasia.” (...) “E, artista cônscio do que cria,/Eu saboreava em minha tela/A pertinaz monotonia/Do metal, do óleo e da aquarela.”. O poeta diante de Paris atua aqui tal pintor, pictórica figura se delineia, o poema vê a cidade como em pinceladas, no que Baudelaire prossegue: “Demiurgo de ébrias fantasias,/Fazia eu mesmo, ao meu agrado,/Sob um túnel de pedrarias,/Correr um mar enclausurado;” (...) “E sobre tais sonhos vividos/Pairava” (...) “Uma mudez de eternidade.”. O sonho parisiense tenta abarcar então o silêncio da eternidade, este ser da totalidade que muitas vezes se dá muito mais na meditação e na oração silenciosa do que no esforço do pensamento, no que o poema segue: “Quando meus olhos eu reabri,/O horror surgiu numa visão,/E na minha alma eis que senti/O gume agudo da aflição;/Funéreo pêndulo anunciava/Em dobre atroz o meio-dia,/E o céu as trevas derramava/Sobre este mundo em agonia.”. Mas do silêncio da eternidade, alvissareiro, o poeta se vê na verdade diante de sua finitude, e o mundo real é um mundo em agonia.
A ALMA DO VINHO : Na série famosa de Baudelaire em que ele, em As Flores do Mal, ele tem como o tema o vinho, o poeta coloca toda a riqueza poética que tal imagem possui, e tenta, de saída, captar a alma do vinho: “A alma do vinho, certa tarde, nas garrafas/Cantava: “Homem, elevo a ti, que me és tão caro,/No cárcere de vidro e lacre em que me abafas,/Um cântico de luz e de fraterno amparo!”. O vinho aparece aqui como amigo do homem, e dá as suas boas-vindas, como se vê: “sinto uma alegria imensa quando desço/Pela goela de quem ao trabalho se entrega,/E seu tépido peito é a tumba onde me aqueço/E onde me agrada mais estar do que na adega.”. O vinho foi feito para o homem e não para a adega, e a alegria do vinho é alegrar o homem, vindo da labuta, e aqui o vinho nos consola com sua alma ébria: “Repousarei em ti, vegetal ambrosia,/Grão atirado pelo eterno Semeador,/Para que assim de nosso amor nasça a poesia/Que rumo a Deus há de subir qual rara flor!””. E no fim está a poesia, a alma do vinho, que em Baudelaire, portanto, desperta a poesia, a qual ruma a Deus como flor rara.
O VINHO DOS TRAPEIROS : O vinho aqui aparece como lenitivo da labuta, esta ideia corrente entre operários, camponeses e demais trabalhadores que estão na hora do ócio entregues às seduções da bebida, e o vinho como este ser mais refinado entre várias outras bebidas, no que Baudelaire segue em poesia: “Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,/Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,/Num antigo arrabalde, informe labirinto,/Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,/Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,/Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,” . O trapeiro aqui também é poeta, e o vinho sua alma de poeta, no que o poema segue: “E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,/Embriaga-se na luz de seu talento imenso.” (...) “Assim é que através da ingênua raça humana/O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;/Pela garganta do homem canta ele os seus feitos/E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.”. O vinho e seus dons depende do homem, a poesia que do vinho temos a noção vem do homem embriagado, o vinho só tem alma com esta alma que é a do homem, e os dons de ambos são um só, exatamente nesta interação de virtude, no que Baudelaire dá a coda magistral, concluindo esta invenção sagrada: “O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!”
O VINHO DO ASSASSINO : O poema é visceral, e se abre violentamente: “Livre, afinal! ela está morta!/Posso beber o tempo inteiro.” O vinho virtuoso aparece aqui em sua face de vício, tal o assassino que bebe o tempo inteiro: “Sou tão feliz quanto é um rei;/O ar é puro, o céu adorável .../Era um verão incomparável/Quando por ela me encantei!” (...) “Atirei-a ao fundo de um poço,/E eu mesmo pus, para cobri-la,/De suas bordas toda a argila./_ Hei de esquecê-la, se é que posso!” (...) “Eu lhe implorei uma entrevista,/À noite, numa estrada escura./Ela veio! – a louca criatura!/Talvez em nós um louco exista!”. Diante da louca criatura, a loucura é descoberta pelo poeta como habitante da alma humana, e aqui possuída dos miasmas do assassínio: “Quanto eu a amava! e foi por isso/Que lhe ordenei: Sai desta vida!” (...) “_ Eis-me liberto e a sós comigo!/Serei à noite um ébrio morto;/Sem nenhum medo ou desconforto,/Farei da terra o meu abrigo,” (...) “Eu zombo de tudo, do Diabo,/De Deus ou da Ceia Sagrada!”. O assassino é um zombeteiro, que não reconhece autoridade e não deve obediência, desertou de Deus e até mesmo do Diabo.
O VINHO DOS AMANTES : O poema é um caminho, uma cavalgada de dois amantes, é um poema belo, com astral positivo, e se sucede bem como imagem de amor: “O espaço hoje esplende de vida!/Livres de esporas, freio ou brida,/Cavalguemos no vinho:”. A vida aparece aqui como afirmativa e alvissareira, no que os amantes se juntam, nesta imagem poética de Baudelaire, o poeta do vinho: “Como dois anjos que tortura/Uma implacável calentura,/No límpido azul da paisagem/Sigamos a fugaz miragem!” (...) “Chegaremos enfim, risonhos,/Ao paraíso de meus sonhos!”. O paraíso da poesia que é o do vinho e, por fim, o do amor. Fim sonhador do poema no sonho do vinho e do amor, o vinho dos amantes, poema bem semeado, poesia linda.

POEMAS:

O CISNE

                             A Victor Hugo
I
Andrômaca, só penso em ti! O fio d`água
Soturno e pobre espelho onde esplendeu outrora
De tua solidão de viúva a imensa mágoa,
Este mendaz Simeonte em que teu pranto aflora,

Fecundou-me de súbito a fértil memória,
Quando eu cruzava a passo o novo Carrossel.
Foi-se a velha Paris (de uma cidade a história
Depressa muda mais que um coração infiel);

Só na lembrança vejo esse campo de tendas,
Capitéis e cornijas de esboço indeciso,
A relva, os pedregulhos com musgo nas fendas,
E a miuçalha a brilhar nos ladrilhos do piso.

Ali havia outrora os bichos de uma feira;
Ali eu vi, certa manhã, quando ao céu frio
E límpido o Trabalho acorda, quando a poeira
Levanta no ar silente um furacão sombrio,

Um cisne que escapara enfim ao cativeiro
E, nas ásperas lajes os seus pés ferindo,
As alvas plumas arrastava ao sol grosseiro.
Junto a um regato seco, a ave, o bico abrindo,

No pó banhava as asas cheias de aflição,
E dizia, a evocar o seu lago natal:
“Água, quando cairás? quando soarás, trovão?”
Eu vejo esse infeliz, mito estranho e fatal,

Tal qual o homem de Ovídio, às vezes num impulso,
Erguer-se para o céu cruelmente azul e irônico,
A cabeça a emergir do pescoço convulso,
Como se a Deus lançasse um desafio agônico!

II
Paris muda! mas nada em minha nostalgia
Mudou! novos palácios, andaimes, lajedos,
Velhos subúrbios, tudo em mim é alegoria,
E essas lembranças pesam mais do que rochedos.

Também diante do Louvre uma imagem me oprime:
Penso em meu grande cisne, quando em fúria o vi,
Qual exilado, tão ridículo e sublime,
Roído de um desejo infindo! e logo em ti,

Andrômaca, às carícias do esposo arrancada,
De Pirro a escrava, gado vil, trapo terreno,
Ao pé de ermo sepulcro em êxtase curvada,
Triste viúva de Heitor e, após, mulher de Heleno!

E penso nessa negra, enferma e emagrecida,
Pés sob a lama, procurando, o olhar febril,
Os velhos coqueirais de uma África esquecida
Por detrás das muralhas do nevoeiro hostil;

Em alguém que perdeu o que o tempo não traz
Nunca mais, nunca mais! nos que mamam da Dor
E das lágrimas bebem qual loba voraz!
Nos órfãos que definham mais do que uma flor!

Assim, a alma exilada à sombra de uma faia,
Uma lembrança antiga me ressoa infinda!
Penso em marujos esquecidos numa praia,
Nos párias, nos galés ... e em outros mais ainda!

(Andrômaca: em grego Andromákhë, esposa de Heitor e mãe de Astíanax. Após a tomada de Troia, tornou-se escrava de Pirro, filho de Aquiles, com quem teve três filhos e que depois a repudiou, dando-a a Heleno, irmão de Heitor/ Simeonte: em grego Simóeis, rio da Tróade no qual outrora desembocava o rio Escamandro/Pirro: em grego Pýrros, em latim, Pyrrhus (c.318-272 a.C.), rei de Epiro (295-272), célebre pela dura vitória (por isso conhecida como ‘vitória de Pirro’) que obteve sobre os romanos em Heracleia (280). Morreu em Argos, após invadir o Peloponeso, durante uma batalha/Heitor: em grego Héktör, herói troiano, filho de Príamo e Hécuba, esposo de Andrômaca e pai de Astíanax. Após realizar várias proezas militares, foi morto por Aquiles, que o arrastou ao redor das muralhas de Troia amarrado a seu carro/Heleno: em grego, Hélenos, em latim, Helenus, guerreiro e adivinho troiano, filho de Príamo e Hécuba, irmão de Heitor e esposo de Andrômaca, que lhe foi dada em casamento por Pirro).

A UMA PASSANTE
A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz ... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

SONHO PARISIENSE
                          A Constantin Guys

I
Desta fantástica paisagem,
Que ninguém viu jamais um dia,
Esta manhã ainda a imagem,
Vaga e longínqua, me extasia.

O sono engendra assombros vários!
Por um capricho singular,
Banira eu já desses cenários
O vegetal irregular,

E, artista cônscio do que cria,
Eu saboreava em minha tela
A pertinaz monotonia
Do metal, do óleo e da aquarela.

Babel de umbrais e colunatas,
Era um palácio ilimitado,
Cheio de fontes e cascatas
Sobre ouro fosco ou cinzelado;

E cataratas vagarosas,
Como cortinas de cristal,
Se despenhavam, luminosas,
Pelas muralhas de metal.

Colunas (árvores, jamais)
Os tanques quietos circundavam,
Onde náiades colossais,
Como donzelas, se miravam;

Azuis lençóis de água fluíam
Por entre os cais de tom diverso,
E por milhões de léguas iam
Rumo às origens do universo;

Havia seixos nunca olhados
E vagas mágicas havia;
Grandes espelhos deslumbrados
Pelo que ali se refletia!

Apáticas e taciturnas,
As torrentes, no azul distante,
Vertiam todo ouro das urnas
Sobre penhascos de diamante.

Demiurgo de ébrias fantasias,
Fazia eu mesmo, ao meu agrado,
Sob um túnel de pedrarias,
Correr um mar enclausurado;

E tudo, a cor mais merencória,
Era solar, claro, irisado;
A água engastava a sua glória
Num raio em si cristalizado.

Além, nem astros nem vestígios
Do sol, sequer nos céus mais baixos,
Para clarear esses prodígios
Ardendo à luz dos próprios fachos!

E sobre tais sonhos vividos
Pairava (hedionda novidade,
Não aos olhos, mas aos ouvidos!)
Uma mudez de eternidade.

II
Quando meus olhos eu reabri,
O horror surgiu numa visão,
E na minha alma eis que senti
O gume agudo da aflição;

Funéreo pêndulo anunciava
Em dobre atroz o meio-dia,
E o céu as trevas derramava
Sobre este mundo em agonia.

A ALMA DO VINHO

A alma do vinho, certa tarde, nas garrafas
Cantava: “Homem, elevo a ti, que me és tão caro,
No cárcere de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico de luz e de fraterno amparo!

Bem sei quanto custou, na tórrida montanha,
De causticante sol, de suor e de mau trato
Para forjar-me a vida e enfim a alma ter ganha.
Mas não serei jamais perverso nem ingrato,

Pois sinto uma alegria imensa quando desço
Pela goela de quem ao trabalho se entrega,
E seu tépido peito é a tumba onde me aqueço
E onde me agrada mais estar do que na adega.

Não ouves os refrãos da domingueira toada
E a esperança que me unge o seio palpitante?
Cotovelos na mesa e a manga arregaçada,
Tu me honrarás e o riso há de ter constante;

Hei de acender-te o olhar à esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e as cores,
E serei para tão tíbio atleta da vida
O óleo que os músculos enrija aos lutadores.

Repousarei em ti, vegetal ambrosia,
Grão atirado pelo eterno Semeador,
Para que assim de nosso amor nasça a poesia
Que rumo a Deus há de subir qual rara flor!”

O VINHO DOS TRAPEIROS
Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,
Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,
Num antigo arrabalde, informe labirinto,
Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,

Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E, alheio aos guardas e alcaguetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.

Juramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vítimas dos crimes,
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,
Embriaga-se na luz de seu talento imenso.

Toda essa gente afeita às aflições caseiras,
Derreada pela idade e farta de canseiras,
Trôpega e curva ao peso atroz do asco infinito,
Vômito escuro de um Paris enorme e aflito,

Retorna, a trescalar do vinho as escorralhas,
Junto aos comparsas fatigados das batalhas,
Os bigodes lembrando insígnias espectrais.
Os estandartes, os pendões e arcos triunfais

Erguem-se ante essa gente, ó solene magia!
E na ensurdecedora e luminosa orgia
Dos gritos, dos clarins, do sol e do tambor,
Trazem eles a glória ao povo ébrio de amor!

Assim é que através da ingênua raça humana
O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;
Pela garganta do homem canta ele os seus feitos
E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.

E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo,
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!

(Pactolo: Em grego Paktolós, pequeno rio da Lídia, afluente do Hermo, célebre pelas pepitas de ouro que abundavam em suas águas, origem da riqueza de Midas e Creso.)

O VINHO DO ASSASSINO
Livre, afinal! ela está morta!
Posso beber o tempo inteiro.
Quando eu voltava sem dinheiro,
Se ouviam gritos logo à porta.

Sou tão feliz quanto é um rei;
O ar é puro, o céu adorável ...
Era um verão incomparável
Quando por ela me encantei!

A sede atroz que me põe louco
Para saciá-la exigiria
O que de vinho caberia
Em sua tumba. E não é pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E eu mesmo pus, para cobri-la,
De suas bordas toda a argila.
_ Hei de esquecê-la, se é que posso!

Em nome das eternas juras,
Pois nada nos pode afastar,
E para nos reconciliar
Como no tempo das venturas,

Eu lhe implorei uma entrevista,
À noite, numa estrada escura.
Ela veio! – a louca criatura!
Talvez em nós um louco exista!

Ela era então ainda garrida,
Embora exausta e já sem viço!
Quanto eu a amava! e foi por isso
Que lhe ordenei: Sai desta vida!

Ninguém me entende. Algum canalha,
Dentre esses ébrios enfadonhos,
Conceberia em seus maus sonhos
Fazer do vinho uma mortalha?

Essa devassa indiferente,
Como qualquer engenho hodierno,
Jamais, no verão ou no inverno,
Sentiu do amor o apelo ardente,

Com suas negras seduções,
Seu cortejo infernal de horrores,
Seus venenos e dissabores,
Seus timbres de ossos e grilhões!

_ Eis-me liberto e a sós comigo!
Serei à noite um ébrio morto;
Sem nenhum medo ou desconforto,
Farei da terra o meu abrigo,

E ali dormirei como um cão!
Podem as rodas da carroça,
Cheia de entulho e lama grossa,
Ou um colérico vagão

Esmagar-me a fronte culpada
Ou cortar-me ao meio, que ao cabo
Eu zombo de tudo, do Diabo,
De Deus ou da Ceia Sagrada!

O VINHO DOS AMANTES
O espaço hoje esplende de vida!
Livres de esporas, freio ou brida,
Cavalguemos no vinho: adiante
Se abre um céu puro e fulgurante!

Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No límpido azul da paisagem
Sigamos a fugaz miragem!

Embalados no íntimo anelo
De um lúcido e febril afã,
Qual num delírio paralelo,

Lado a lado nadando, irmã,
Chegaremos enfim, risonhos,
Ao paraíso de meus sonhos!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/32258/17/charles-baudelaire-e-as-flores-do-mal-parte-4