PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 4 de janeiro de 2020

AS SUNAS DO DESERTO

Qual réptil sussurra
o morto Ali com
os xiitas :
Hezbollah ataca a frente
israelense que bombardeia
comboios e  a faixa de gaza,
o Hamas responde
e Netanyahu apela
para não perder seu posto,

O Exército Livre da Síria
tenta redesenhar a geopolítica
depois da tragédia do Daesh,
Mossul, o rio Eufrates,
os antigos monumentos
pagãos marretados,
em uma ruína
estava o refúgio
yazidi  e suas
moças estupradas,

na rede virtual
as cabeças decapitadas
por um inglês que
virou wahabita
depois de ler
a versão do alcorão
em que se lia as sunas
invertidas ao
fio da espada.

04/01/2020 Gustavo Bastos

TOURADA DA ARENA

Estoura o touro de Wall Street,
roubam mecenas na Faria Lima,
e os cândidos do butim
em small caps e fundos abutres
que batem nos solavancos dos kirchneristas,

bem, eu pude vislumbrar, com um
certo esgar nervoso, as sombras
do lúmpen depois das primaveras
árabes que ruíram, a dar
um passo aquém depois
de atear fogo na babilônia,
o grito egípcio e argelino
que desembocam no
mesmo inferno ditatorial,

Wall Street, desta feita,
agora investe, shale gas
e o fracking tomam
a frente impura
da dinheirama,
o delírio de trump
agora tuita,
o cinema iraniano
pode explodir
de realismo.

04/01/2020 Gustavo Bastos

AOS CANTOS DE LÓTUS

Lembrem-se que as ruínas de dezembro
tinham estourado um doente em agosto,
e neste ínterim, a partir dos documentos
que estavam arquivados, linha 7 da
letra G, com a seção toda revisada,
um taumaturgo, destes muito espertos,
batizou de espada cravada
na dorsal seu mar prorrompido
de proteu e netuno,
ah, e na senda soteriológica
um ex-cocainômano
se vestia de bênçãos
católicas e extasiadas,

as ruínas de março e abril,
a utopia de maio e junho,
o brio revirado em julho,
meses mesmerizados de chuva,
passes longitudinais
sob hipnos no sol
de setembro,
a um outubro e novembro
em morfeu,
com as flores de ópio
que as pupilas
sentiam na papoula,
a carta descoberta
no arquivo dizia :
o poeta qual jogral
faz de janeiro e fevereiro
seu semblante enigmático,

dentre os entrementes,
aos passos de atavios
sob badulaques de dama
formosa, seu canto
risonho brotava
com os guizos e arabescos
dos capiteis que se erguiam
na luta destas colunas
hercúleas da guerra,
seu rito e sua paisagem,
o poeta e sua viração,
no delírio do templo
e vícios de papoula,
o poeta e a virtude
da lótus branca
que levita.

04/01/2020 Gustavo Bastos

O ESPELHO SOLAR

No espelho da retina brilha
o remanso e a enseada,
sob uma astúcia de prata
o poeta e seu riso absoluto,

longe, ao canto da sétima badalada,
o albatroz mergulha,
o sequioso morre,
o feroz saqueia.

Perto, por detrás dos ardis,
os escroques sonham
e se espatifam
no chão,

ah, com este rosa na testa,
com estas flores brumosas
o campo é êxtase,
ah, que nem tudo
se perde em labirinto!

Registro a manhã com esta
manha de ladino no ósculo
das entranhas que flamejam,

brota entre os poros do girassol
o poema vestido de sol,
como um dia de aurora
prenhe de arrebol.

04/01/2020 Gustavo Bastos

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

POEMA IDIOTINHA

Venham os idiotas com seus
hemistíquios, na casa dos lobos
os idiotas nos governam,
qual idiotas inveterados
são idiotas profissionais.

Eu penso o seguinte :
vamos iludir o populacho
com cambalachos e estelionato,
não temos nada a perder,
farei minha delação
e não vou ressarci-los,
ha ha ha ha ha!

Ah, peraí bobinho,
você pensou que eu
comprei esta farsa?

Faça de conta que não viu
e saia assobiando,
seus podres estão
à vista.

31/12/2019 Gustavo Bastos 

O PENSAMENTO EM ESTADO DE FLORAÇÃO


Brota nas alturas das sombras o elmo que revira as astúcias qual poemas podres de poderes cáusticos. Lia Allen Ginsberg dentro da editora de Ferlinghetti, não via saída para Cassady na linha do trem, sua cabeça foi esmagada. Ria alto depois da chuva, não lia nada que me aborrecesse, nada enfadonho, pensava em estudar Química e cinemática escalar, não via interesse em deambulações adolescentes depois dos trinta.
No roteiro estava escrito certos cortes, não lia a fotografia na descrição da cena, o fade out era postiço, não rimava com a aparição do protagonista, era uma chuva de erros de continuidade e uma febre bruta de cantos improvisados. Caros leitores, eu não via nenhum motivo para aprovar o roteirista, o chamei a um canto e disse umas verdades : ele não tinha talento, falei para ele fazer outra coisa da vida etc, e ele me xingou e quebrou minha caneca de caveira, saiu revoltado e disse que aquilo não ficaria assim, o esculhambei e não tomei conhecimento de seu ódio.
Jogral das rimas, o bobo elencava depois mais uma aventura de tolo, destas aventuras de utópicos que não têm aonde cair morto, poetas de livretos carcomidos de esquina, que fumam mais maconha do que escrevem etc. Ah, não sou ingênuo, lia de novo Ginsberg e gargalhava quando ele tartamudeava na prosa, um improviso de jazz que fumava ardorosamente enquanto rimava.
Ferlinghetti, de chofre, era a verdadeira cabeça pensante, eu não via mais a estrada de Kerouac senão no cinema, e não via mais grande coisa em citar route 66 para tirar onda de “easy rider”, poeta maldito, e estas baboseiras que vendem nos letreiros dos carros e nos out-doors de vendas a jato. Pois sim, puto da vida eu xinguei o motorista de filho da puta, disse a ele que ele tinha passado do ponto, ele me chutou e me jogou na esquina perto de uma boca de fumo, mas eu tinha largado o vício, fiz que não tinha acontecido nada, e saí com uma fleuma qual altivo ego de pombo.
Cortei umas batatas para fazer um prato que inventei, salada de pank com cebola e batatas, não sabia fazer, não li tutorial, cortei também uns tomates, e taquei pimenta, ficou uma merda. Resolvi que ler era melhor, escrever nem tanto, passei a Whitman, desisti. Fui ler Baudelaire, De Quincey, viciados em ópio, Lord Byron, putanheiros que viviam em notas de rodapé, ébrios amalucados que sonhavam em ser épicos, iludidos que pensavam ser gênios, gênios que não estavam nem aí, e projetos abortados por suicídio.
Ginsberg, neste ponto da história, citava Omar Khayann, ah, eu lia o Islã como uma mofa para machistas inveterados, destes governos totalitários que tratam mulheres como bibelôs, e fumam haxixe de tarde para rezar no ramadã em jejum. Nada de novo no front, o baixo clero é como baixa magia, obscurece a mente e faz mal ao coração, nada de novo, tudo velho, com velhacos e delirantes pré-iluministas. O coração das trevas anuncia : Kurtz está no timão, e vai matar seus escravos com tiro de espingarda, suando álcool na testa. Como no romance de Conrad, um ataque contra a degeneração dos costumes, que sempre precisa de um tirano imprevisível.
Reto vai um buda preguiçoso, rimar com os vagabundos iluminados, os poetas bobos que confundem iluminação com vício e decadência, em seus cantos infrutíferos que não passam de versos feitos sob fumaça e ilusão, nada que a consciência desperta considere no mínimo esperto ou inteligente, uma imposição de fracasso que não tem nada de útil na estrada da porrada e da vitória. Volto com mais vigor, já tinha lido todos os sacanas e embusteiros da História, vendi meus livros lidos, e fui ler Hegel, Kant, só filosofia alemã, fiz que entendi a Crítica da Razão Pura e os juízos sintéticos a priori, mas preferia citar o imperativo categórico, e depois de cair em Fichte passei logo e correndo para os bandoleiros de Schiller, este sim um campeão que competia com Goethe, um fausto astuto que era a antítese de um Werther lacrimoso e destinado à morte ritual.
Caiba nesta fábula o que disse, os mártires são idiotas, me recuso a morrer. Vai andando pelo caminho seu poeta pândego, como uma estrela potente que faz plêiade e faz jazz e blues com letras de rock.
Nota final : este poema astuto não foi produzido sob efeito de estupefacientes.

31/12/2019 Gustavo Bastos (poema em prosa).

O POETA CAÇADOR

Ave, entre as rezas montanhosas
eu pintava de vermelho as rosas
coloquiais dos poemas bonitos,

já na rua, com os notívagos
que entram e saem,
o número de loteria me indicava
o prêmio qual utopia,
um canto de ébrios soava
o alarme, era hora de eu
pegar o meu arpão,
ir atrás de um marlin azul
que seria o poeta azul
que virou abóbora
depois do naufrágio,

ah, este estro de parnaso
e suas afetações de mármore,
este putos romantiloides
e seus mimos aguados,
ah, que porre vou
tomar à meia-noite,

e ser eu o ébrio de bruma
em pele de cobra e couro
de réptil, qual um grande
frêmito de sangue frio
e precisão de cirurgião,
eu e meu estilete,
cortando os corações
de seus exangues delírios
de plêiades,

eu, a marretar os mármores
de parnaso e seus castelos
de marfim e frisos castiços,
eu, o borra-botas
que virou falcão,
o déspota com o olho de águia
que captura um verso
no mar e o leva
à terra dos desolados
e dos capitães que
perderam seus navios.

31/12/2019 Gustavo Bastos