PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XV


“a sabedoria universal rechaça qualquer plano fechado de futuro”

A vidência sempre veio como um fenômeno controverso, que atravessou milênios, e sem generalizar, temos o seu aspecto negativo, de charlatanismo, no qual aparecem um cabedal de truques, geralmente, no plano da linguagem, podemos inferir tais truques, sempre lidando com a generalidade da linguagem, a fonte predileta para os videntes mal intencionados jogarem a sua isca, como se diz no ditado popular “jogar um verde para colher maduro”.
O vidente charlatão consegue “descobrir” toda a sua vida de modo surpreendente, mas a vítima não sabe estar sendo engambelada por um farsante, caindo em truques baratos que qualquer pessoa com o mínimo de manejo da linguagem já percebe de antemão a cascata. Os poderes sobrenaturais do charlatão têm uma característica comum, alimenta clichês e obviedades e as carrega de sentido, para que sua presa fique realmente impressionada.
Umas das técnicas utilizadas é a sondagem visual, muito do olhar e da linguagem corporal do consulente, que muitas vezes entrega o ouro pela respiração, por um certo jogo de olhar ou por hesitações que o charlatão já “pesca” instantaneamente. Isso vale para a aparência do consulente também, seu modo de se vestir, que diz muito de seu gosto e origem social ou estamento específico. E seu estilo ao falar, seu comportamento, também são chaves de sinalização para o charlatão.
E temos também um truque aparentemente sofisticado, mas que, no terreno da linguagem, é de um acinte que seria hilário se não se tratasse de um golpe, que é o chamado Efeito Forer. Características psicológicas e de personalidade, todas estas genéricas, óbvio, são enumeradas ao consulente, normalmente mexendo com seu ego e vaidade, ou ainda com sua credulidade já com uma escuta predisposta que, a cada esgar do suposto vidente, os olhos do consulente brilham de uma certeza absoluta própria dos alucinados que se arrebentam na próxima esquina.
A intimidade de tais generalidades é que elas são continuidades previsíveis para descrever personalidades das mais diversas, mas sempre numa zona segura em que muito do que é dito pesca uma especificidade que esteja mergulhada nesta lista universal feita para enganar otários. Este é o Efeito Forer. É o que vemos muitas vezes no horóscopo, e também em consultas com médiuns, e adoramos.
Outra coisa típica de videntes charlatães é fazer uma investigação com o consulente, mas sempre com um viés de confirmação, são perguntas genéricas, mas já induzindo o consulente a “entregar o ouro”, mais uma vez do ditado popular “jogando um verde para colher maduro”, no qual o gancho discursivo leva o consulente a dizer, sem perceber, o que logo em seguida o charlatão “descobre”.
E falando de ego e vaidade, muitas vezes o charlatão usa o truque da excepcionalidade, colocando o consulente num lugar privilegiado, e por se tratar de alguém que veio se consultar para buscar algo, o vidente joga com o clichê do talento “não reconhecido”, o consulente se sente um eleito, mas que não tem o seu valor reconhecido, mas claro que o vidente sabe que ali na sua frente ele tem uma pessoa, digamos, “avant-garde”.
E nos truques de “visões” o vidente vai por tentativa e erro, até que o próprio consulente dá a deixa e o vidente nada de braçada. Ali é o momento supremo da “adivinhação”, dali para a frente o vidente toca de ouvido e o consulente se emociona. Outro truque próprio para pegar otários é a apropriação do que está sendo dito pelo consulente, a “mágica” é simples, o consulente faz uma afirmação, e o vidente termina esta afirmação já abrindo uma resposta na qual o consulente cai que nem um pato, aqui mais uma vez o viés de confirmação ganha ares de perversidade psicológica. Aqui a técnica do charlatão é bem conhecida em Filosofia, a dedução lógica.
E o truque principal, para evitar denúncias de consulentes desiludidos, é que as mensagens recebidas do “astral” têm um valor diferente para cada pessoa, então a exegese final das mensagens deve ser feita pelo próprio consulente, no decorrer dos acontecimentos, e caso se decepcione, não é culpa do vidente que, a esta altura, já consumiu a sua cervejinha de sexta-feira sossegado, com o dinheiro do consulente incauto.
E temos um truque sofisticado, mas de fácil desmascaramento, que é o registro de previsões feitas por videntes em cartório. Quando temos uma tragédia, sempre aparece um vidente de plantão afirmando que fez tal “previsão”, e que tem o documento comprobatório. Uma carta registrada em cartório se torna a prova material da previsão do vidente, mas é um truque.
O primeiro aspecto hilário da situação é que o tal “vidente” só divulga a sua “profecia” após a tragédia, nunca antes. Mas, peraí, ele não tem a prova em cartório? Como assim? Simples, sempre que o vidente registra as suas previsões em cartório, nos documentos que ele forja sempre têm espaços em branco para preenchimento posterior, que são (jura?) as informações principais.
Para um esclarecimento sério, sobre a cultura oracular, que tem muitas pessoas responsáveis e gabaritadas, e que não podem ser confundidas com a banda podre, temos que a vidência não tem o papel de prever o futuro, pois isto seria uma interferência no livre-arbítrio, portanto, o que temos são direções, indicações, orientações, o vidente sério deve estar consciente de seu verdadeiro propósito, que é de preparar o consulente para seus eventos futuros, mas não de prevê-los.
Preparar, portanto, significa dar a melhor direção possível para que o consulente tenha êxito, e não olhar para uma bola de cristal e dizer tudo que irá ocorrer em sua vida, os eventos aqui são vislumbrados de modo simbólico, nunca como uma certeza cega própria daqueles que acham que são visionários, mas que na verdade estão participando de uma alucinação própria da convicção divinatória dos farsantes. O saber oracular verdadeiro aqui tem mais caráter operacional do que de desvelar exatamente o que vai acontecer.
O vidente cônscio de sua missão verdadeira, nunca é um profeta, no sentido pejorativo do termo, ele preserva a livre determinação do consulente intacta para que ele faça as suas escolhas, pois a sabedoria universal rechaça qualquer plano fechado de futuro.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




quinta-feira, 3 de outubro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XIV

“O proselitismo católico é a maior deformação do trabalho realizado pelo Padre Quevedo na parapsicologia”

O jesuíta espanhol Oscar González Quevedo, mais conhecido como Padre Quevedo, foi um dos mais destacados parapsicólogos do Brasil, figura midiática, contestador e também contestado, pois ao mesmo tempo que desbaratava inúmeras mistificações, com destaque às fraudes espíritas, também foi questionado em suas teses, sobretudo na sua associação de uma pseudociência como a parapsicologia, a inserindo no campo doutrinário católico, pois Quevedo, ao mesmo tempo em que refutava diversos fenômenos espirituais, referendava os milagres reconhecidos pela Igreja Católica oficialmente.
Lembre-se que a parapsicologia estuda fenômenos de cunho supostamente sobrenatural como a telepatia, a telecinese, a precognição e a clarividência. Contudo, a pretensão da parapsicologia em se afirmar cientificamente esbarra em ceticismo, sobretudo dos físicos, estes que possuem conhecimento dos fenômenos da natureza e contestam invariavelmente as interpretações da parapsicologia e suas bases que os físicos dizem não ter relação com o método e os experimentos científicos, para muitos dos físicos não há comprovação material dos fenômenos descritos pela pseudociência da parapsicologia.
Foi durante o século XIX que surgiu a parapsicologia, que teve como precursora a metapsíquica, mas a parapsicologia se consolidou mesmo no início do século XX, com contribuições do botânico Joseph Banks Rhine e do psicólogo William McDougall, a colocando num campo de conhecimento psíquico, ou seja, como uma nova linha da psicologia. As pesquisas e os métodos empregados para interpretação e comprovação de fenômenos extra-sensoriais não demoraram para serem contestados pela comunidade científica.
Dentro deste campo de tentativas de comprovação de fenômenos sobrenaturais não podemos nos esquecer da conhecida tentativa da CIA em plena Guerra Fria de empreender um grande esforço e utilizar estes conhecimentos a serviço de suas espionagens, por exemplo, no intuito fantástico de criar um grupo de espiões paranormais, para se antecipar aos movimentos e estratégias da União Soviética. Depois de quase duas décadas tal programa foi cancelado, pois não teve resultados.
Uma parte considerável da comunidade científica se incomoda com a utilização, por parte de parapsicólogos, de conceitos e conhecimentos científicos para explicar fenômenos sobrenaturais, esta relação entre ciência e parapsicologia, portanto, teria, na verdade, um caráter de pseudociência. Como nos afirma a professora e pós-doutora do Instituto de Física da USP, Marina Nielsen : “Essas pessoas citam um monte de gente com livros sem nenhuma equação, o que é errado. A física usa a matemática como linguagem para interpretar qualquer fenômeno, e não por palavras”.
Como exemplo de tal apropriação sem fundamentos temos a obra A Física da Alma, livro do físico e ex-professor da Universidade de Oregon, Amit Goswani, considerado um místico pela comunidade científica, em que o autor faz um desfile extenso de fenômenos parapsicológicos, mas sem usar, em nenhum momento, equações ou fórmulas, apenas um conjunto de reflexões e desenhos descritivos.
Por sua vez, os escritos e o trabalho de Padre Quevedo são bem divulgados e conhecidos na Espanha e na América Latina. Sua obra sempre reuniu um grande conjunto de reflexões, apoiada por uma vasta documentação, sempre com o fito de desfazer confusões e esclarecer sobre diversos pontos dos fenômenos paranormais. Contudo, muito de sua documentação para a feitura de suas obras, apresentam, muitas vezes, distorções, apropriações e às vezes até falácias.
Somente no livro "As Forças Físicas da Mente" vemos contradições sobre o médium Guzik, e ao passo que afirma que as irmãs Fox são uma fraude, mais na frente referenda a veracidade do que elas produziam ao concordar com o cientista Crooks, quando este se refere aos fenômenos de tiptologia. Quanto à ectoplasmia, Padre Quevedo afirma que tal substância chamada de ectoplasma só tem a capacidade de formar figuras rudimentares e parciais.
Padre Quevedo afirma que os componentes do Círculo Minerva, grupo de cientistas que se reuniam para fazer experimentos com a médium italiana Eusapia Palladino, eram todos espíritas declarados. Mas temos que o professor Porro e o cientista Morselli não eram espíritas, inclusive Morselli é atacado como anti-espírita por Sir Lombroso, e outros dos membros do Círculo Minerva só se converteram ao Espiritismo após estas sessões, e não antes.
Quanto à afirmação de que Crooks abandonara o Espiritismo rapidamente em seus estudos, é conhecido o fato de que Crooks morreu acreditando na doutrina e nos fenômenos do Espiritismo. E temos na obra do Padre Quevedo, apesar das inúmeras incoerências e contradições de versões, uma obra que apresenta um vasto conhecimento da História da Parapsicologia, mas a distorção documental de Quevedo compromete, mas o mais grave em sua obra é um tipo de distorção ideológica, fazendo do pretenso cientificismo da Parapsicologia, já ferozmente acusado de pseudo-científico, um panegírico de tintas católicas.
O proselitismo católico é a maior deformação do trabalho realizado pelo Padre Quevedo na parapsicologia, e sua forma categórica de afirmações ainda ganha a vestimenta de uma argumentação autoritária, fundada em certezas inabaláveis, o que resulta numa intolerância à divergência, transformando uma pseudo-ciência como a parapsicologia em afirmação católica de um padre jesuíta, mais do que de um pesquisador dos fenômenos paranormais.

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=6boC3a4GVzs (Padre Quevedo X Lúcifer - Fantástico (2000))

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O CIRCO

No trapézio eu vejo
os saltos mortais
de corpos soltos,
a liberdade do salto
em seu canto
de coreografia,

entre os malabares,
a habilidade burilada
com força e afinco,

os palhaços, estes médicos
da alegria, nos brindam
em risos e sorrisos,

e temos equilibristas e
contorcionistas,
que fazem as suas
com mestria,

o mágico que nos dá
a ilusão da vida
que é o sonho
e o divertimento,

passam todos os sonhos,
o circo fica a nos dar
a alegria de viver
como um lenitivo
das dores profundas.

30/09/2019 Gustavo Bastos

CORAÇÃO BRILHOSO

Sente passar em seu coração
o ritmo de uma nuvem,
pois do azul caribe
em seu passo montês
sussurra a febre.

A moça com seus cachorros,
e um gatil infernal
que mia de madrugada
espasmos e orgias.

Leva em seu sonho
este brilho de panteão,
como uma sábia
que também
é louca.

30/09/2019 Gustavo Bastos

ARRUMAÇÃO DA POESIA

Os objetos da casa se juntam
aos montes :
comprei uma mesinha
e tenho muitos livros,
uma epopeia se insinua
defronte ao espelho,
a poesia épica briga
com um romance amarelado,

bom, e entre os discos,
vejo um hendrix pedindo
para ser ouvido mais
uma vez, again and again!

nos altares, buda se refestela
entre nossa senhora
e duendes loucos,

saio de mansinho de minha toca,
e declaro à vida das ruas
estes mistérios que guardo
em meus delírios
de poeta.

30/09/2019 Gustavo Bastos

AS COISAS ETERNAS

Sei de coisas imorredouras
que faz da campanha da luta
os girassóis do surto,
e como sóis em loucura,
ficam tontos e morrem
vivem delirantes.

Se estas coisas eternas
são enumeradas em infinito,
o sonho as derrete
e vira delírio,
este delírio vermelho
que pinta de rubro
seu debrum de sangue,
este delírio que tem
em si sua fuga
e encontro,
uma filosofia
do eterno.

30/09/2019 Gustavo Bastos

CÉU LONGÍNQUO

Resta em um cantinho de nuvem
os sonhos infantis,
lembro de um jogo de amarelinha
e cordas de chicote queimado,
não pulava, eu caía,
e sentia em meu peito
que era poeta do absurdo,

longe, lá no canto matinal
d`aurora, vejo em sinal
de alerta as cores de poesia
pintar meu rosto
para a guerra,

ah, e que dia findo para a noite!
e que noite de patuscada
em que os ébrios anunciavam
em canções rotas,
a visão de um céu
longínquo e enigmático,

venho lhes dizer que os terrores
e as fortunas são o jogo duro
e voraz da selva do destino,
e nós somos os donos
de nossa sorte.

30/09/2019 Gustavo Bastos

UMA MULHER EM CINCO ATOS

Uma mulher em cinco atos :

primeiro ato :
surge da imponência de uma chuva
com as cartas na manga
e o doce de sua língua
como delírio de formas
e espírito livre.

segundo ato :
passeia, em seus meneios,
e delira com o sol
tal uma fada rosa.

terceiro ato :
cai de uma queda que tonteia,
risca com o giz o chão
de mármore, e chora lágrima
em seu futuro brilhante,

quarto ato :
da paixão que renasce, sente
o peito em tempestade,
e se veste em bruma
para seu coração
acalmar,

quinto ato :
pinta em seu acorde de luz
cinco estrelas em passos largos
de felicidade eterna.

30/09/2019 Gustavo Bastos

RITOS ANTIGOS

Das coisas atávicas eu tenho
um meio de decifração
de esquemas e regateios,
pago com ouro em espécie,
prata mordiscada
e um aço de bronze
em cobre e estanho,

certo, da promessa com fulcro
em missas sagradas,
os santos cantam em
uníssono o som
da harpa dourada,
como um delírio.

Me tenho por inteiro, com o corpo
batizado em chuva e estrela,
e no tilintar das cores
um som sinestésico
em que o verde vem agudo
e o azul grave,
o vermelho em tom maior,
e vejo lilases como
melismas de erudição,

das coisas atávicas tenho
a mais profunda alucinação,
como um ídolo do canto primevo
das dores e dos amores
e danças entre os fogos,

gemidos da terra inculta
aparecem entre estas hordas,
até que o sacerdote da
primeira era pega seu
cajado e funda a língua tribal
que dará aos ritos perdidos
uma fundação sagrada,
o panteão de novos deuses
e sua poesia feérica
de sol.

30/09/2019 Gustavo Bastos

A POESIA VITORIOSA

O combate que as palavras travam
é a fonte de um riso imortal
que enuncia a alvíssara
de uma aurora eterna,

regente em saturno, tua terra
vem com o monte e a vida
funda e intensa de um
fogo batismal,

a poesia, infensa ao fracasso
dos burocratas, decreta
em seu sangue a sua
vida, traça em grito
seu estilo de vida,
a poesia burilada
como máquina,
a poesia estrelada
em ritos sumários
de possessão.

30/09/2019 Gustavo Bastos

RELVA ESOTÉRICA

As folhas caem na relva
com os olhares perdidos
de um estupefaciente,
as notas que caem
sobre o grande
vulto do coração,
é a emoção sentida
da vitória,

mas, com o olor das flores
na relva verdejante,
o poeta se embriaga
e vira nuvem,
desaparece magicamente
dentro de um sol
rachando a terra
e queimando
a morte,

pois, da morte à vida,
ressurrecto está
teu canto azul,
e se vira em sete pontas
como um símbolo
perdido de pendores
esotéricos.

30/09/2019 Gustavo Bastos

TRAÇADOS DE RAPSÓDIA

Traçando uma linha imaginária,
vou ao fogo que mora no absinto,
e sem recuos, na febre exilada,
tento me libertar.

Os olhos, como poços de piche,
alardeiam os calabouços e as masmorras
aonde jaz a razão,
e um ímpeto de louco
toma a face da poesia.

Desde muito, nos cantos primevos
e antigos, as fadas rubras sorriam
sob um manto azul cobalto
de magos adoradores
de ervas,

na fauna atrevida dos sonhos,
sete magos de bruma
visitavam o palácio
arborizado da poesia,

pois, quando da queda do anjo,
a harpa tocava a poesia
de rapsodo com o brilho
de um canto silvestre,

venho lhe dizer o mistério :
a sorte é um escudo
que nos rodeia.

30/09/2019 Gustavo Bastos

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ANELO

Entre as jogatinas da madrugada,
um bêbado que sonhava
acordou entre as buzinas
e uma manhã cáustica,
seu brio de ébrio
dormia, e sua hora
se perdia.

No domínio das letras,
com poucas notas
um poeta delineava
em verso seco
o sentido de saturno,
um anelo de anéis.

16/09/2019 Gustavo Bastos

TEORIA DA LOUCURA

As semelhanças que vejo entre
os portais interdimensionais,
é que eles são imaginados
como escape, como fuga,

os que fogem e não conseguem
voltar vivem como vegetais
delirantes, que enumeram
seus duendes em febricitante
enigma,

os enigmas que eles não decifraram,
neles estão mergulhados
em transe místico
ad infinitum,
como seres do infinito
que se perderam
no monumento
concreto
do mundo.

16/09/2019 Gustavo Bastos

JOGOS DE POETAS

Jogo para os montes os seus
livros seminais,
e dentro do coração
em manto verde,
uma semente de sentimento
brota vívida,
fez floresta
e arboriza
a estrada.

Os montes bem vistosos,
a estrada livre
como máquina,
os poetas em
cornucópia
que veem tudo
e enlouquecem,
se matam
no ópio,
se morrem como
ébrios,
e vivem
plenos.

16/09/2019 Gustavo Bastos

NOITE PROFUNDA

A ciência das coisas, na lida
que o teatro emula e simula,
é a ciência dos fantoches,
dos ídolos de poros mofados,
dos cântaros quebrados
e dos cantos desafinados
em desalinho.

As coisas, sobre as nuvens
de delírio, viram-se em
anelos, no chão,
como podres indigentes,
aqueles em desdita,
como que arrebentados
sobre os cacos,
entre vidros e cortes,
e o coração gelado
que falhou,

de outro lado, na sorte da estrela,
eleitos com cantigas de bêbado
na noite profunda.

16/09/2019 Gustavo Bastos

VIDAS PASSADAS

As vidas passadas no barco,
com a febre vítrea
e as cordas de aço,
ah, meu bem,
sofrem com a armadura
e a carapaça,
soltam gritos,
se estapeiam.

O poema, na luta enviesada
dos corpos, que as notas
soam em paisagem,
soçobram como máquina
de sangue nobre,
a pintar entre escalas
muralhas de mármore,
e sonhos de ouro,

dentro dos pilares que
soam entre dentes,
uma mordida
e o garfo
na testa,
um doente
entre os rios,
e um assassino.

16/09/2019 Gustavo Bastos

A CIÊNCIA DO LADINO

Como um trôpego ou malquisto,
o indigente fazia das suas,
armava esquemas de estelionato,
como se estivesse sob
lutas inglórias
de ladinos,

veio, de entre seus balões,
fazer troça de mais
um otário,

saiu pelo dia, todo serelepe,
em uma vida folgazã
que só os românticos
vagabundos poderiam
conceber,

e, de sua mão leve,
como pluma,
eis que lhe
deram,
de súbito,
algemas.

16/09/2019 Gustavo Bastos

O POETAÇO

Contra o muro dos pedregulhos,
vivia um urubu,
sob fezes e carniças,
um grande poetaço,
desses afetados
e estrambóticos,
um sonhador.

Em sua febre de plumagens,
sonhava como um esteta
kitsch o seu castelinho
de diamantes,
e romanceava,
emocionado,
sua musa
de algodão,
imaginária.

16/09/2019 Gustavo Bastos

FRENESI DOS IDIOTAS

Ponteios, em vil sono e vinco
de ópio, meus lares capitulados
fazem a pena capital,
dois mortos.

Frente ao vício da rua,
meus doutores de farda
agitam suas lâminas,
e entre os copos de cerveja,
um arroto interrompe
a música, é o bêbado
prosador que ataca,
e faz cara de esperto
com notas do submundo.

Dentro das casas as mazelas,
e as vidas atribuladas
como o cão,

verte, de um lado torto,
os jorros de água
como potes de mel,
e os dias sob auspícios
de um farol laranja
em arrebol.

16/09/2019 Gustavo Bastos

JOGO DE CARTAS

Sem leguleio ou rame-rame,
tiro a fotografia da capa
e a enfio no bolso,
converso com meus botões
e eles estão bêbados.

Mas, ah, porém,
os cavalos dançam
seus semi-tons
de ferradura,
e eu caio
em anarquia.

Sete valetes, sete damas,
um ás na estrada,
eu tenho joker,
bato a mesa
com a canastra
suja.

16/09/2019 Gustavo Bastos

A BRISA

A brisa, sob manto, escrutina
as páginas que ali jaziam,
roto, o poema escala a
sua música úmida,

oh, quantas cinzas sob o forno,
em que a alma suja se faz imunda,
um ardor e o pó de heroína
sobre a mesa, e toca
jazz.

longe, no balaústre de alabastro,
e o candelabro febril,
vêm paixões dúbias,
como que parindo ratos
desesperados,
e de outro lado,
pasmos,
místicos entoam
uma canção,

oh, ah, que nada!
solucei algaravias
como montes de merda,
arrulhos, atavios,
e de súbito
a cantiga
como
ladainha,
um estouro.

16/09/2019 Gustavo Bastos

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XIII


“James Randi armou uma arapuca para Uri Geller”

Uri Geller começou a sua carreira como mágico, mas logo se divulgou como um paranormal, e em torno de sua figura foi produzida uma ilusão coletiva, deste que de paranormal foi tachado de um dos mais complexos charlatães do mundo, pois ainda tem gente que acredite em seus poderes.
Uri Geller, além de sua capacidade ilimitada de ilusionista vendida como poder paranormal, conseguiu criar um método de marketing mundial e conseguiu ficar milionário com seus supostos poderes. Uri Geller era um bom manipulador, sabia o funcionamento da atenção e com isso usava a sua influência para produzir a sugestão necessária em seu público para que seus poderes paranormais fossem creditados como verdadeiros. O marketing, por sua vez, fazia o resto, colocando Uri Geller como aquele que fazia as pessoas verem o que não existe.
Os anos setenta foram o auge da popularidade de Uri Geller, isso sob o influxo da expansão da pseudofilosofia new age, o que fez com que os fenômenos supostamente paranormais ganhassem certa atenção de curiosos, algo que talvez encontre paralelo somente nos fenômenos de salão na Europa no século XIX pouco antes da codificação kardequiana.
Uri Geller começou a construir a sua lenda com uma versão fantasiosa de que quando tinha 4 anos ele viu no céu um poderoso raio de luz que lançou uma energia sobre ele e o colocou inconsciente, seguindo seu relato delirante (na verdade, possivelmente inventado) ele julgou que tal fenômeno tinha sido um contato com seres extraterrestres. Foi então que após este episódio, voilá, ele adquiriu a sua conhecida capacidade paranormal de entortar colheres. E quando começou a se tornar famoso já tinha também a capacidade extraordinária de parar ou acelerar os ponteiros dos relógios.
Uri Geller se tornou uma celebridade e passou a se apresentar em centenas de programas de televisão como convidado. Sua apresentação tinha os fenômenos de entortar colheres e de movimentar ponteiros, o que era interpretado como dons de telepatia. Também tinha na sua apresentação o fenômeno em que assistentes desenhavam algo sem Uri Geller ter visto o desenho e o mesmo reproduzi-lo fielmente.
O fascínio em torno da figura de Uri Geller levou a CIA a convidá-lo para que este provasse seus poderes paranormais. A CIA, depois de alguns testes, concluiu que Uri Geller era paranormal e ele começou a trabalhar para a CIA. Uri Geller também trabalhou com mineração, localizando minas com seus poderes paranormais, numa função sui generis em tal área.
Mas haveria uma pedra no caminho do sucesso de Uri Geller, até então imponente e inquestionável, e esta figura seria o mágico e ilusionista James Randi, ele que era confundador e membro do Comitê para a Investigação Cética, desmascarando farsas e desfazendo mitos produzidos por conceitos de pseudociência.
E foi em 1973 que James Randi armou uma arapuca para Uri Geller, este que fora convidado para o programa de TV de Johnny Carson, em que Randi desfez todo o esquema em que se dava usualmente as apresentações de Uri Geller, o desafio começando por fazer Uri Geller usar colheres diferentes das que trazia para as suas apresentações, e proibiu Uri Geller de escolher as pessoas que fariam os desenhos para que ele adivinhasse.
James Randi então conseguiu seu intento, pois Uri Geller não conseguiu exibir seus poderes paranormais, não dobrou colheres e nem adivinhou os desenhos, e foi quando Uri Geller deu a desculpa de estar se sentindo pressionado e que isto bloqueou seus poderes paranormais. Uri Geller processou Randi, e o mesmo também processou Uri Geller e venceu o processo.
Uri Geller também teve outros dois episódios conhecidos em que seu suposto poder paranormal falhou, na tentativa de parar o Big Ben e depois o relógio de Puerta del Sol. Mas a crença em torno de sua paranormalidade continuou e ele permaneceu fazendo as suas turnês. Uri Geller, por fim, foi objeto de uma curiosidade enorme, o que resultou em livros e artigos sobre seus poderes paranormais, feito por escritores, parapsicólogos e cientistas.

“Senhor, há uma clara diferença entre ter uma mente aberta e ter um buraco na cabeça pelo qual o cérebro escapa”.

James Randi

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.






sábado, 31 de agosto de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XII


“as psicofonias cheias de religiosidade davam lugar agora a blasfêmias, com Betsy sucumbindo em intenso estado de autossugestão”

O CASO VIRGINIA

Dr. Owen, nas suas pesquisas sobre casos de poltergeist, se deparou com um impressionante, e que se deu em Sauchie, na Escócia. E era um caso que envolvia a menina Virginia Campbell, de 11 anos, e que era um elenco fabuloso de fenômenos como a tiptologia e a telecinesia. Dr.Owen foi lá registrar os fenômenos, e que duraram de novembro a dezembro de 1960, com a difusão midiática da emissora BBC.
Os fenômenos começaram por tiptologias intensas e bem fortes, e logo em seguida as telecinesias que faziam objetos grandes como móveis flutuarem e gavetas se abrirem e fecharem violentamente. Também, falando das tiptologias, barulhos fortes em paredes e móveis, por exemplo, um baú que se levantava a meio metro do chão, cheio de roupas. Um reverendo anglicano chegou a ser chamado, benzeu a casa em que Virginia morava, e durante a sua tentativa de intervenção religiosa nos fenômenos, a tiptologia foi intensa e fragorosa. E na escola em que Virginia estudava também ocorreram fenômenos sob a influência da menina.
Dr.Owen, durante as suas observações, juntou informações às quais deu um sentido de pesquisa psicológica e de descrição patógena. Suas observações reuniam fatos como o de Virginia estar vivendo isolada, com irmãos morando longe, pais idosos que trabalhavam muito, ela tendo como companhia um cachorrinho e, eventualmente, uma amiga de sua idade. E Dr.Owen observou que durante os poltergeists (em que a menina vivia uma espécie de transe) ou ainda quando Virginia dormia e sonhava, falando dormindo, os apelos não eram pelos seus parentes, mas pela sua amiga e por seu cachorrinho.
Dr. Owen também observou que Virginia tinha uma criação rígida e repressora, de uma mãe fria, num contexto isolado, e que tinha, por sua vez, características de uma vida rústica e, digamos, “caipira”, sendo Virginia superdotada, com um QI 111, mas enfrentando uma realidade nova numa escola mais cosmopolita, ela e sua mãe vivendo num universo mental paralelo, como que misturando dados reais com uma capacidade ilimitada de fantasia do pensamento, e ainda havia o fato da menina Virginia também ser tímida, o que dificultava a sua comunicação num universo novo e para ela desconhecido.
Virginia, durante os seus transes em que eram produzidos os fenômenos de poltergeist, entrava num estado desinibido, numa garrulice histérica, em que Dr.Owen percebeu distúrbios mentais e emotivos, e tais fenômenos, assim que cessaram, foram interpretados como originados pela própria Virginia, e não por demônios ou por interferência de espíritos. O poltergeist aqui, mais uma vez, é entendido como uma patologia psíquica intensa, fruto de um distúrbio, geralmente juvenil.

O CASO BETSY BELL

Este caso também envolveu uma menina, e isto incluiu a sua família, sobretudo seu pai, John Bell, numa grande fazenda no Tennesse, Estados Unidos. Betsy tinha 12 anos quando os fenômenos eclodiram, e durou até seus 16 anos, com a morte trágica do pai. Os poltergeists começaram com tiptologias leves, arranhaduras, e foram evoluindo para pancadas fortes e sem explicação. No auge dos fenômenos, por sua vez, já havia as telecinesias envolvendo cadeiras e louças, e por fim os aportes que eram chuvas de pedras e paus.
A família Bell então convocou um pastor que entendeu tais fenômenos como produzidos por demônios, mas primeiramente, no entanto, todos se depararam com supostas psicofonias que repetiam sermões do próprio pastor ou de outro pastor, e então James Johnson, o pastor que veio ver o que acontecia, recitou sobre a família intensos processos de exorcismos.
No entanto, o efeito enganosamente benéfico da sugestão de exorcismo logo desaparecia e eclodiam novas sugestões, estas de cunho demoníaco, e as psicofonias cheias de religiosidade davam lugar agora a blasfêmias, com Betsy sucumbindo em intenso estado de autossugestão. As psicofonias, por sua vez, passaram de blasfêmias para assobios estridentes e vozes ininteligíveis, com Betsy se contorcendo em transes e desmaios de até meia hora.
Depois destes exorcismos fracassados, passaram a atribuir o estado de Betsy à influência do espírito de uma bruxa falecida. O pastor Johnson e ainda vários vizinhos da família Bell foram consultar a tal bruxa, e as respostas eram tiptologias nas paredes e psicofonias rudimentares, e mesmo com um médico tapando a boca de Betsy para verificar se as psicofonias não eram apenas truques de ventriloquia, os fenômenos psicofônicos continuavam.
Numa análise parapsicológica temos a evidência de uma divisão na personalidade de Betsy, e que logo irá se refletir na divisão também da personalidade de seu pai e na morte trágica do mesmo sob efeitos patológicos provocados pela filha. A superstição misturada a situações psíquicas de remorso foram arruinando o estado de saúde do pai de Betsy, começaram inúmeros tiques nervosos que evoluíram para transes e convulsões que duravam até quinze dias, e também com o pai de Betsy sendo acometido por delírios e ficando acamado.
John Bell, num dia de 1820, resolveu reagir e levantar da cama, foi inspecionar a fazenda e caiu prostrado, com fenômenos estranhos como seus sapatos que saíam voando de seus pés, e isto apesar dos esforços dos filhos para calçá-lo, e isto em meio a psicofonias de zombaria e gritos demoníacos. O pai de Betsy foi acamado de novo e logo entrou num estado de torpor e veio a óbito. Ao seu lado, no lugar do remédio que tinha sido lhe receitado, uma beberagem escura que, quando o médico deu esta a um gato, este morreu em poucos minutos.
Por sua vez, quando o médico foi lavrar o atestado de óbito do pai, a tal bruxa se manifestou em Betsy, e disse pela psicofonia : “Não perca tempo com o velho, desta vez agarrei-o bem, não mais levantará”. A bruxa, no entanto, era o inconsciente de Betsy, fruto da divisão de sua personalidade, e com a morte do pai e o fim de seu relacionamento com um namorado, Betsy não precisou mais produzir suas emissões telérgicas, e os fenômenos de poltergeist, envolvendo aqui as tiptologias, telecineses, aportes e as sugestionadas psicofonias, cessaram. Portanto, não existiam demônios e nem a bruxa, era um conjunto de fenômenos de telergia.

Link recomendado : Der Fluch der Betsy Bell Trailer German (High Quality) https://www.youtube.com/watch?v=ZaHN9TnDhio

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



quinta-feira, 22 de agosto de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XI


“Podmore relacionou a grande maioria dos casos de poltergeist com adolescentes”

POLTERGEIST E ADOLESCÊNCIA

Camille Flammarion, renomado astrônomo, que também foi um dedicado pesquisador psíquico e um dos entusiastas e divulgadores do Espiritismo, diante do conhecido fenômeno do poltergeist, chegou a uma conclusão linear sobre o conjunto da pesquisa geral dos casos que se somavam desde há muitos séculos, e diante, também, do caso de uma casa mal-assombrada por um garoto de 12 anos, acaba por dizer, portanto, o seguinte :  “Neste, como na maior parte dos casos análogos, a causa desconhecida produtora dos fenômenos está associada a um organismo moço”.
Frank Podmore, um dos fundadores da SPR (Society for Psychical Research) analisou uma centena destes fenômenos de poltergeist, e descartou categoricamente a hipótese espírita, buscando causas naturais para os casos que enumerou. Na verdade, para Podmore, se tratavam de fenômenos parafísicos, mais do ramo da parapsicologia do que de um suposto comprovante de veracidade espírita. Por conseguinte, depois de juntar informações de 14 anos de observações detidas recolhidas pela fundação que ajudou a criar, Podmore relacionou a grande maioria dos casos de poltergeist com adolescentes, sobretudo do sexo feminino.
Schrenck-Notzing, um renomado psiquiatra e parapsicólogo alemão, na sua pesquisa própria, fora da SPR, mais uma vez corroborou a tese da fundação e à qual Podmore já havia chegado, a relação da juventude com o fenômeno poltergeist. Por conseguinte, com a enumeração pela parapsicologia de causas naturais ao fenômeno do poltergeist, temos que estes se tratam de fenômenos parafísicos, causados por pessoas vivas, geralmente organismos físicos jovens, e não fenômenos espíritas ou do elenco mistificado de uma suposta demonologia.
Temos também a extensa pesquisa do metapsíquico Hereward Carrington, cuja prolífica bibliografia recolheu, dentre outros conteúdos de sua pesquisa ampla, 375 casos de poltergeist, que resultou no seu livro com Nandor Fodor, outro pesquisador metapsíquico, e tal livro reuniu os mais conhecidos casos da História, desde o de Bingen-am-Rheim, no ano de 355 (aportes de pedras, telecinesias, tiptologia e psicofonias) até 1949 (dois anos antes da publicação do livro). E a conclusão vai pelo mesmo caminho da de Podmore e de Schrenck-Notzing, organismos adolescentes desencadeando fenômenos aparentemente sobrenaturais.
Os poltergeists, portanto, relatam casos que envolvem frequentemente fenômenos físicos de diversas matizes com a proximidade de uma pessoa adolescente, geralmente uma moça, seja esta problemática ou reprimida, e ainda pode envolver pessoas mentalmente retardadas, por conseguinte, fruto de uma psicologia infantil, muitas vezes retardada ou problemática.

FRAUDE – POLTERGEIST DE ENFIELD

O chamado “Poltergeist de Enfield” é o nome dado às reivindicações de atividade poltergeist em uma Council house em Brimsdown, Enfield, Inglaterra, de 1977–1979. O caso envolveu duas irmãs, entre 11 e 13 anos. Membros da SPR, como Maurice Grosse e Guy Lyon Playfair, foram crédulos e logo atestaram a veracidade do fenômeno e sua evidência espírita, enquanto Anita Gregory e John Beloff encontraram possíveis falsificações para impressionar a imprensa, esta que já estava de olho nos supostos incidentes.
Por sua vez, membros do Comité para a Investigação Cética, incluindo mágicos de palco, como Milbourne Christopher, Joe Nickell e Bob Couttie, depois de investigarem o fenômeno, logo criticaram a postura crédula de Grosse e Playfair. O sensacionalismo logo tomou conta do fenômeno, que virou um circo midiático, envolvendo jornais britânicos como o Daily Mail e o Daily Mirror.
Grosse e Playfair continuavam a defender a tese de que alguns fenômenos do poltergeist de Enfield eram verdadeiros, embora grande parte já tivesse sido falseada ou ridicularizada. E um golpe duro veio com a confissão das irmãs de suas travessuras aos repórteres, o que jogou Grosse e Playfair de vez no escárnio dos céticos.
Logo dúvidas foram levantadas sobre a psicofonia, isto é, sobre a suposta voz do poltergeist, e Anita Gregory, investigadora renomada da SPR, logo disse que o caso estava sendo superestimado, e que havia muita encenação por parte das irmãs para fomentar o sensacionalismo da imprensa. John Beloff, ex-presidente da SPR, logo sugeriu que uma das irmãs estava fazendo nada mais que ventriloquismo, e que, portanto, não havia comprovação de atividade sobrenatural nos eventos do poltergeist de Enfield, e que, além de não terem sido fenômenos estudados ou investigados com rigor e controle, tudo contribuiu mais para um falseamento fácil coberto pelo sensacional e por uma travessura de meninas inteligentes.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE X


“Houdini teve sua história marcada por seu enorme talento como mágico e escapista”

Houdini se revezava entre seus espetáculos de mágica e suas intervenções surpresa para desmascarar sessões mediúnicas, seu método de combater o Espiritismo era o de aparecer disfarçado, por exemplo, com bigodes e barbas postiças, e atuava rápido quando percebia o truque por trás de um fenômeno supostamente sobrenatural. E ele então se apresentava : “Eu sou Houdini! E você é uma fraude!".
Houdini conseguiu, nesta sua cruzada contra o charlatanismo espiritual, uma cobertura considerável de mídia e publicidade. E, por sua vez, nos seus números de mágica, ele mimetizava truques que via nestas sessões falsamente sobrenaturais, com o intuito de revelar como tais fraudes eram confeccionadas.
A cruzada de Houdini residia num paradoxo, seu combate era também um meio para que ele, quem sabe um dia, descobrisse um verdadeiro fenômeno sobrenatural, mas o que ocorreu, de fato, foi que ele se tornou um dos principais algozes das fraudes espiritualistas da História.
Houdini fez várias viagens para divulgar as fraudes que o espiritualismo produzia, e em meio desta cruzada incansável, ele passou a promover seu livro “Um Mágico entre os Espíritos”, publicado em 1923. Houdini chegou a oferecer uma recompensa de 10 mil dólares a quem conseguisse lhe provar de uma vez por todas a veracidade de um fenômeno espírita ou de uma verdadeira capacidade mediúnica.
Mina Crandon, por sua vez, era uma das médiuns mais conhecidas do mundo, contemporânea de Houdini, famosa espiritualista norte-americana, ela era uma verdadeira sensação em Boston. Mina era jovem, ao contrário de outros vultos espiritualistas, como foram também Helena Blavatsky e Eusapia Palladino.
Mina tinha carisma e conduzia suas sessões com maestria, tinha um domínio de seu suposto dom, o que levou o crédulo Arthur Conan Doyle a declarar Mina Crandon como “uma das mais poderosas médiuns do mundo".
Num desafio entre o “debunker” Houdini e a grande médium Mina Crandon, se teve uma primeira sessão na casa da médium, numa sessão com fenômenos incríveis que logo depois Houdini denunciou como fraude e repetiu alguns dos truques.
Houdini, logo em seguida, para dar o golpe de misericórdia na suposta médium, decidiu convidá-la à sua própria casa, devidamente preparada contra fraudes, no que Mina Crandon, um pouco a contragosto, aceitou o convite, e a sessão fenomênica foi um verdadeiro fiasco, com o suposto guia espiritual da médium nem dando as caras nesta sessão espírita fracassada. Mina, ridiculamente, alegou que o ceticismo de Houdini provocou um bloqueio espiritual.
Houdini veio a falecer poucos anos depois, em 1926, depois de sofrer um golpe abdominal, pois o ilusionista, imprudentemente, mais uma vez quis demonstrar sua incrível força abdominal, e levou um soco de um fã que lhe provocou complicações decorrentes de apendicite aguda.
E foi logo após a sua morte que passaram a ocorrer sessões espiritualistas em busca de contatos com o espírito de Houdini. E toda semana aparecia um médium mistificador alegando ter tido tal contato, mas nada comprovado, até que, em 1928, Arthur Ford anuncia que tinha uma mensagem para a viúva de Houdini, Bess. A suposta mensagem era da mãe de Houdini e era um recado lacônico com uma única palavra : “perdão”.
Ford então, pouco tempo depois, traz uma mensagem do próprio Houdini, em que, dentre outras coisa, é citada a palavra “Rosabelle”, o que emociona Bess, pois era um código combinado entre Bess e Houdini, pois se referia à música que estava tocando quando Harry e Bess se conheceram décadas antes.
Mas a mensagem logo caiu em contradição, pois alguns amigos de Houdini haviam afirmado que Ford teve acesso a um diário que pertenceu ao ilusionista. Resultado : Ford não recebeu a recompensa de Bess.
A última sessão oficial de busca de contato com o espírito de Houdini foi em 1936, dez anos após a morte do ilusionista, com um grupo de amigos, mágicos, ocultistas e cientistas e, claro, a própria Bess, que se reuniram no Hotel Knickbocker em Hollywood.
Tal sessão foi conduzida por Eddy Saint, um famoso místico, sessão esta que foi transmitida ao vivo pelo rádio, mas a sessão, mesmo com toda a pompa de um espetáculo, não teve o resultado esperado, nenhuma mensagem do além do espírito de Houdini foi captada, e foi quando Bess desistiu de sua busca e se conformou.
Houdini teve sua história marcada por seu enorme talento como mágico e escapista, de um lado, e sua cruzada que foi um paradoxo de combate a fraudes espirituais e ao mesmo tempo de provar ao menos um fenômeno mediúnico ou espiritual verdadeiro. Harry Houdini entrou para a História como uma figura combativa e corajosa  e, de fato, como o maior da arte do escapismo em todo o mundo.

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=Ubhuo1Hn54U (HOUDINI DESMASCARA O ESPIRITISMO PARTE 2)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

domingo, 30 de junho de 2019

FLOR DE BRUMA

A flor que nasce da bruma
está em sonho como um delírio,
flor mormente doce
e cheia de vida,
flor diamantada
que nasce do rio
e vive ao vento,

folhas caem, o caule da
árvore alimenta
a floresta densa,
a água desce à raiz,
flor e fruto
fazem canção,
um pássaro pousa,
o dia está iluminado,
o poeta olha em volta
e desata a cantar
seu estro de liberdade.

29/06/2019 Gustavo Bastos

TEMPOS FORTES

A geografia do pensamento
traça esta história com
o rigor da máquina
e a dureza do diamante,

os tempos fortes da música
ressoam na câmara de eco,
poemas lutam sempre
com o ar da vida,
afirmam este sopro
que nos dá a visão,

poema reto, de um estro
que é enigma, revela
a minha face precisa,
este poema todo,
como uma rosa.

29/06/2019 Gustavo Bastos

O DOM DA PALAVRA

A palavra, dom e graça
da poesia, veste o poema
com seu ardor e mármore,
sua rocha original
que sonha e realiza,

vem todo este poema,
verter d ´água palavra,
fazer da chuva e do sol
o tempo inteiro
de seu ritmo,

luta a nuvem contra o silêncio,
o vento lhe sopra,
a palavra, esta
nuvem plena,
é soprada
pelo poeta,

o poeta que escreve,
na palavra seu
dom e graça,
revela o divino
em versos profanos.

29/06/2019 Gustavo Bastos

O CAVALEIRO

O cavaleiro de aço mormente
o valete que luta em guerra,
faz de seu estro grande bardo
e rutila sol como aurora,

o cavaleiro, da veste tormentosa,
que rutila seu sonho e tem de si
o próprio raciocínio, querendo
os dias como glória e seu
tempo de luta uma bravura,

cavaleiro, que todo o caminho
seja este, feliz em ser guerreiro
e pleno de si ao meio-dia.

29/06/2019 Gustavo Bastos

VINHO TINTO

Pressinto no dom que funda a vida
o canto vinho que derrama
e me ferve a alma,
lenho que crepita
entre os poros,
que me vê
e que me sente,

sinto, do vinho mais nobre,
o coração que levita
embriagado, e o sonho
que me envolve
na luta febril
dos que são poetas,

vem todo este cabedal
de sentimentos,
do vinho à estrela
que rutila, do páramo
ao canto terroso
que flui no vinho
tinto seco.

29/06/2019 Gustavo Bastos

O PEIXE

O peixe na represa se balança,
a água do rio lhe dá as nadadeiras,
suas guelras lutam em meio à correnteza,
todas as cores deste sonho
lhe dão este ar brilhoso de peixe,
o ser supremo dos mares e dos rios,
livre de nadar, livre de ser ele
o peixe que conhece o
dom da água,

peixe que borbulha e nos dá
esta visão do mar,
este certo aroma de rio,
e uma cultura bela
de lagoa,

o peixe, símbolo cristão primevo,
que dos pescadores tem o
milagre, que da cozinha
tem a destreza,
peixe do mundo d `água,
peixe dos mares
e de todo o oceano,
peixe que nada
e se balança.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

AMETISTA

A pedra ametista refulge
em notas da pedra rolada,
o poema gera este viço
que lembra meu ardor,
que lembra meu saber,

a luta que revoa na ametista
tem este dom de tudo ver
na fábula dos escritos,
um dom de ver e saber
que traduz a sensação
do mundo,

visão plena, ametista sábia,
que canta e encanta
com os meneios de joia
entre os ventos
e as montanhas.

29/06/2019 Gustavo Bastos

ÁS DE ESPADAS

Se temos um dom atávico,
ele vem de um veio animal,
inconteste, vigoroso,
e que tenta virar o
campo de avesso
ao tempo da colheita,

não temos o estro langue,
letárgico ou entorpecido,
temos este estro firme,
como canção de gente forte,

lembra-te, poeta, teu estro
delineia a poesia com reto sentido
e tem de antever seu intento
como um grande ás de espadas.

29/06/2019 Gustavo Bastos

MILAGRES

Desta cultura reta, qual fundamento,
o estro cultiva seu intento,
livre inspiração que transpira,
verte e retém de seu verso
o passo preciso,

leve, no entanto, a pluma
que lhe tece, o poema rumina
e dá forma a uma asa,
deste voo o poema
traduz em verso
o sonho do poeta,

flui a pena como um emblema,
seu símbolo da vida irradia
a sua forma bem acabada,
um canto de sol e de lua
que dá ao páramo
este viço milagroso.

29/06/2019 Gustavo Bastos

PROSA DA MEMÓRIA


Certamente que o osso duro de roer dá as cartas num vento de força que urra e bate o martelo, fechado o contrato sem loucos senis, sem floreios de mártir, sem nada a dever ao mundo cão, um livro que tem a consistência de uma rocha, e os poetas de um elenco forte que lhe dão a mão, poeta que reluz sua carne em espírito. Ossos do ofício, lembra do lumpen, lembra dos dias sofridos da vida aberta e sem chão, daquela sua juventude que se fortaleceu no raio impiedoso do desamparo, lembra de quem você é, lembra de sua luta e por tudo o que você passou, ganhe vitória de sua luta também, mas lembra, lembra.
A memória reluz este teu campo de azul que revira em verde, veste tua armadura, gestos pontuais lhe trabalham o corpo, seu estro profundo vem da guerra em busca da paz, sempiterno sentimento de garra, tua batalha gera tua espada, teu gládio gera tua fortuna, se defenda dos precipícios, arme seu dom, se defenda, sobretudo. Venha ao ataque também, funde uma república alternativa, fume seu sonho e realize seu intento, ganhe teu rio castanho em mar, volte ao tempo de infância, vire velho, torne-se adulto, conheça os países, viva como um nababo, saiba viver como um renunciante, saiba que tudo passa, volte e retenha este tudo que passa, viva o presente, lute pela memória do passado, lute pela ambição nobre do futuro, seja seus três tempos, seja completo, inteiro, sem estilhaço, sem fissuras, se revolte, bata de frente, lute que nem um poeta, lute que nem um escritor, lute pela sua filosofia, ame quem luta também, não se arrependa disto.
A poesia, numa lufada, ganha em tempo sua força, ganha todo este tempo forte que nem um soco, verte sangue e música qual a barafunda de uma azáfama de turba que gira como rebanho que parte em todo o caminho de povoados, aldeias viram mundos na pena do artista, e seu canto universal pode vir de um vilarejo de cantores trovadores e repentistas, a poesia do povo também registra os sonhos de uma poesia de gabinete, de uma poesia erudita e declamada, tenho no slam, certamente, a imagem mais bela da poesia do futuro, o futuro é slam, bicho.
Eu logro vitória à poesia mnemônica, o slammer que diz “sou aqui este que canta e rima, minha vida não foi sopa, mas tenho minha firma, yeah, não dou mole para mané, pois aqui mantenho a minha fé”, e segue ali, em meio ao burburinho e à cerveja. Não julgue teu passado, vire a mesa e ganhe o jogo, mantenha a coluna ereta, o sangue frio e os nervos de aço, tenha nesta regra a sua autoridade máxima, ao que negar o seu espaço, o chame de louco. Louco! Diz o poeta. Primeiro, riram. Depois, choraram. E agora, respeitam.
Louco! Gritavam os loucos. Louco! Ah, mas a poesia é de uma ignorância solene, bem ligadinha na cultura salutar e infalível do foda-se, venha aqui lutar por um mundo melhor, mas fume seu baseado e se defenda com jah rastafári, eles vão odiar. Louco! Gritavam os loucos. Louco! E depois calavam, atônitos com a guerra que eclodia. Louco! Gritava o idiota. Louco! Chorava o idiota. E todos ali se encastelavam depois da tragédia, pois faziam número para inglês ver, e o poeta em seu foda-se tudo como uma grande denúncia. Loucos! Agora gritava o poeta.
Mnemosyne, acho que alguns estão agora tanto ouvindo o foda-se que acabam de se foder, a poesia solene ignora os sentimentos de hipocrisia, os aniquila sem piedade, seu coração de poeta, memória, tem de seu sentido reto seu mais perfeito mérito. E eles agora gritavam : Poeta! E o poeta, depois de um foda-se bem dado, apenas dizia, numa serenidade de quem passou por muito, obrigado.

29/06/2019 Gustavo Bastos




LIBERDADE

Pergunta-se da trombeta
dos anjos, e o cantochão
verte um tanto de missais,
lhe tenho o vinho de orquestra,
e os campos violetas
que buscam a boca da flor
na noite dos argonautas,

germina ametista e safira,
craveja o corpo diamantado
com os silentes delírios
de um poeta que se
suicida como máquina
e que se mata
como dom de
não morrer,

da trombeta dos sete dias,
os cães cérberos caem
ao precipício,
e o poeta canta
a sua fuga
como um voo
brutal de liberdade.

29/06/2019 Gustavo Bastos

sábado, 29 de junho de 2019

BRUMA DE MAR

A bruma vence a morte
como um lagar que
em seu canto firme
sonha gerânios,
busca em tua efeméride
a nota sucinta
de um poeta
que viria do caos
e depois sentiria
o coração ao pulo,

vem, de um certo dom,
elencar os rios vistosos
que saem da nascente
das cataratas e abraçam
o grande mar
do infinito,

o poeta, já cheio do coração
aguado, marca com faca
seu passo e seu amor primeiro
vem de um vento sábio
que não derrama
estrela, mas
a desenha.

29/06/2019 Gustavo Bastos

PENHASCO

Na água revolta do mar
das esmeraldas, fluía
o ar africano que
lutava contra
os generais,
lutava o imberbe chinês
contra seus algozes,
xoguns viravam
pó na revolução meiji,
e os cadáveres de Hitler
renasciam ao fim,
descobertos após
o massacre,

na tormenta destes mares
de sangue, dorme a
santidade exangue
que em seu bruto torpor
sonha, e a loucura
mística que lhe
inflama o peito,
lhe mata à paixão
suicida, como um
jovem que se joga
do penhasco
e desaparece
no mar.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

ASAS IMORTAIS

No pátio refluía o meu
azul febril, da pena aloucada
um certo estro de noite e de buril,
veste túnica e traz de seus
drapeados o solto vento
que lufa sobre o vinho
translúcido de uma flor,

ramas filosóficas floreiam
no caos das horas,
e as raízes deste sonho
náufrago ecoa qual
monstro marinho
os mapas antigos
da perdição,

canto de sereia, feitiços
de circe, letargia
de lótus, o vento
leva o barco, os
sonhos de poeta
navegam risonhos
este caminho
livre,

a poesia é do mundo,
e o mundo lhe sorri
toda a esfera
que lhe dá as asas
imortais.

29/06/2019 Gustavo Bastos

FANFARRAS DOS SÓIS E DAS NOITES

Brilha no plenilúnio a fanfarra
atávica dos ébrios e suas canções,
germina toda a memória
que busca em silente anelo
a paz imortal
de um lenitivo
espiritual,

lembra, desde o mormaço
ao sol mais inclemente,
a semeadura que a chuva
fez ao brotar das flores
as folhas verdes
e os frutos vistosos
que brotam e vivem
do campo à floresta,

silvestre este canto de pássaro
ao sol da felicidade,
e vem de um azul cobalto
que permeia toda estrela
vésper qual floreio
que vai do rio castanho
ao mar turquesa
que lhe desperta
um delírio de navio.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

POETA REFEITO

Na luz âmbar da noite calma,
eu pego meu livro de poetas
suicidas e sublinho
os sinais da morte
nas estrelas que
lhes caem,
vejo nestes corações
um azul mortiço
que foge do destino
brilhante,

ah, como sei desta dor bruta
em cores frias, mas me vem
este instinto nobre de
vencer, no entanto,

e com a espada de
dâmocles sobre
a minha cabeça,
viro o jogo todo
num lance forte
como rocha,

agora, desde a fúria
e o pendor da sabedoria,
me chamam ou de
"o filósofo" ou de
"o poeta", orientador
da turba e louco
de hospício.

29/06/2019 Gustavo Bastos

VERDOR ALUCINADO

Adormecia sobre o campo o verdor
de uma viagem de absinto,
com quatro luas espantadas,
e uma obra que enfim
rumava ao seu porto,
lhe dando a forma tratável
de um poeta que sorri
a sua nuvem qual viajante,
que delira seu estro
qual anjo de ametista,

mas, do intento à nau formosa,
recebe tua carta a soma
de toda a guerra,
uma carta assinada
de sangue nobre
com os vinhos
de mãos divinas
como sóis,

lhe registra toda a nota
febricitada em coração,
e levita o monge
de teu peito
qual vaticínio
que ferve êxito.

29/06/2019 Gustavo Bastos

LÓTUS

Longanimidade, a poesia se
tem em seu passo firme
que olha o tempo
e lhe dá a face
universal da
sapiência,

eu, quando acordei de
um pesadelo mórbido,
garanti a estrela matutina
qual flor brotada
em toda a aurora
de potência,
sem febre
e sem o anseio
de um apedeuta,

lhe vem toda a história
das cartas biográficas,
e este canto alegre
que felicita
a lótus proeminente
que lhe enleva
o coração.

29/06/2019 Gustavo Bastos

A NOITE DA TORRE

A terra vermelha a lamparina
ilumina os ossos de um velho sábio,
lograr êxito qual poeta
nesta noite atávica
é sonhar alto
todo o elenco
de fábulas,

registra seu senhorio de verso,
mas, do mar às nuvens,
retira de seu campo a flor doente,
e remete ao tempo burilado
as cores mesmerizadas
de seu canto campestre
e de floreio rocambolesco,

ah, parte à parte, corta
todos estes pedaços de ritmo
e forma um corpo de bronze
sob o prisma de volúpia
que lhe dá os sentidos de sedução
de uns versos espertos
que não somem na noite
dos ébrios.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

AVENTURAS DE BLAKE


Quem se abisma como fera nas ruas de uma fumaça metafísica, fuma teu intento como um mártir, o poema que lhe diz que a alma sombreia e margeia o caos sabe do poeta toda a cor de seu drama existencial. As drogas alucinógenas fazem o número do verso como um meteoro que se espatifa entre os sóis que dormiam antes da bomba.
Longe um castelo, e eu rumo a Paris com um canto de Lautréamont sob efeito de beladona, viés romântico anulado, cadafalso azucrinado como um rei decapitado, lembro de meu maldoror, de meu matrimônio do céu e do inferno, uma pintura astuta de Blake que surgia em notas subconscientes.
Veja : os silentes monges levitam sob a fumaça de erva mística, uns poucos idólatras se ressentem de um ataque de riso de um poeta, pois da poesia burilada temos um ardor e um torpor inigualáveis, maldoror veste vermelho, o fragor da rosa estoura meu olfato, eu vejo em sinestesia o sentido metafísico desta alucinação divina.
Veste a rosa fundada em espírito e corpo, dando às nuvens sentidos de sedução e vitória, com a poesia mais estourada como uma boiada e o forte impacto de um touro. Vem, e de Lord Byron tens um tanto de noite opiácea, de um Percy Shelley o naufrágio poético, se mata como Florbela, reflui e volta, se irmana de seus asseclas como um guru virado em lua, um lunático que é escutado por autoridades das mais diversas, como um Rimbaud nascido de uma lótus embriagada.
A nuvem translúcida ecoa em vento a matriz destes cantos ébrios, um ópio futurista que embebeda todas as cores de funda metafísica, o poema se funda como um eixo insuperável da flor universal, eu tenho toda esta fúria como um animal que sai da jaula, eu tenho toda esta fortuna e vitória conquistada pela firmeza de propósito e um lance divino inconteste.
Venho de longe com as sedes desérticas de um beduíno, venho de longe com as águas de um oásis que some na amplitude da visão, venho com todo o peito forte que rege astutamente toda a fábula do caos. A poesia canta na rua, os doentes mentais têm dela um vislumbre, os idiotas dela fazem troça, os embriagados dela têm o sumo supremo como uma flor nauseada que ruma ao campo vasto que dorme como um nababo depois da orgia.
Vento que se ruma todo feliz sem cadafalso ou carrasco, vento de poesia que ruma indelével e idôneo como grande saúde frente à guerra brutal dos sonhos. Passo rente aos filósofos que estudam filigranas, a visão geral me evoca novamente a mística psicografada de Blake, os martírios derramados de Florbela, os gritos primais dos poetas primatas, os lances de dados de um Mallarmé que ecoa toda a próxima poesia de vanguarda. O louco das cartas vaticina, como louco que é, a explosão de uma cidade, o louco delira como um cavalo baio que pula entre as tropas assassinas.
O oásis de seu delírio vaticina como um idiota obsediado seu caos brutal que vira pó. As notas febris e apaixonadas não eram nada mais que cartas adolescentes rasgadas depois de um surto de raiva, seu sentimento como Werther era a paixão idiota que sofre em seu âmago a dor do fim, funesto jovem que caduca sem envelhecer, seu sofrer mesmerizado que canta poesia chorosa na loucura do plenilúnio e chora rosa com um manto azul.
Maldoror e matrimônio do céu e do inferno lhe dão as flores de um espírito grande que explode como grau de mestria, a barcarola e barcos ébrios cantam e se movem como esferas numa harmonia de Kepler, ruma teu verso em atavios que sobem ao céu em ascensão de Maria, e os pássaros que voam lá são tão vistosos que ofuscariam a visão da carne mortal.
Lembra-te que o fino da bossa vem de uma resiliência máxima às intempéries brutais, e forma teu estro sob o prisma imbatível que ferve força e exibe o peito como um bicho treinado no fogo. Blake lhe serve ao espírito como uma espada que corta rente toda a sombra de palco, que ruma todo inteiro com um pincel que delira toda a cor que funda teu estro veemente e vituperante, lhe dá toda a fortuna teu brio formoso que renasce, ressuscita, e qual fênix brota do chão arrasado da morte e dá uma lufada qual um éolo louco e protuberante.
Graças ao Netuno que lida ao mar seu vinho mais fremente, e lhe dá ao peito teu estro e profundidade de máquina, dá ao teu vinho o sabor seminal que enlouquece toda a cor como uma fúria ébria que estoura champanhe na noite dos fuzis, e ruma ao capital como um corsário que vive o espanto de seu sonho qual lagar e giro de tempo em golpes de martelo. Vem a teu atavio cantar Blake e seu canto visionário como este que é poeta e que delira.
O louco das cartas bombeia seu vento qual um coração de absinto que juramenta seu trabalho como grande músico de trombeta e tambor, bate no coração das horas o tempo e ventila sobre o céu estrelado longas noites de som e de vinho, o louco delira Blake, e ressuscita, em toda a campanha em seus campos de marte, as suas batalhas sonhadas com erva e diamante.

29/06/2019 Gustavo Bastos (poema em prosa – Netuno)



quarta-feira, 26 de junho de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE IX


“A investigação de Houdini, portanto, tinha o fito de desvendar todos os métodos destes truques espiritualistas”

Harry Houdini foi um dos maiores mágicos e ilusionistas da História e certamente o melhor na arte do escapismo de todos os tempos, e também se destacou por ter se tornado um obstinado combatente das fraudes que aconteciam no Espiritismo, pois os truques que alguns destes supostos médiuns usavam eram todos conhecidos com facilidade por ilusionistas, quanto mais de um dos maiores deles, Harry Houdini.
Enganando pessoas que viravam crédulas por desespero e puro desamparo, alguns destes farsantes não tinham escrúpulos ou limites. E Houdini acabou se tornando uma destas vítimas, pois quando da morte de sua mãe, ele foi consultar médiuns que tentaram se aproveitar de seu sofrimento e lhe tirar dinheiro.
Sua mãe Cecilia morreu aos 72 anos e Houdini teve uma depressão profunda, e sua obsessão com a morte da mãe o levou a cometer desatinos como, por exemplo, ir ao cemitério frequentemente e ir lá conversar com a mãe e chorar, e alguns lhe aconselharam procurar consolo no espiritualismo.
Houdini foi iniciado na mágica conduzindo falsos números que simulavam sessões espíritas, e logo descobriu que supostos médiuns se utilizavam de truques baratos e canastrões de mágica, e foi quando o notório ilusionista começou seu empreendimento extremamente bem-sucedido de desmascarar estes impostores.
Houdini então empreendeu, além do trabalho de se infiltrar em sessões espíritas para desmontá-las na raiz, um trabalho de repetir estes mesmos números baratos nas suas sessões de mágica para demonstrar a canastrice embutida que havia no Espiritismo. A investigação de Houdini, portanto, tinha o fito de desvendar todos os métodos destes truques espiritualistas, o que virou uma verdadeira cruzada.
Durante sua turnê de mágica de 1920 na Inglaterra, Harry Houdini conheceu Sir Arthur Conan Doyle que, depois de ficar bem-sucedido na literatura, se destacando como o criador do personagem Sherlock Holmes, virou um fervoroso e crédulo espiritualista, e um de seus porta-vozes mais destacados. Os dois se tornaram amigos, mesmo com posições diametralmente diferentes.
Harry Houdini, mesmo com uma posição oposta a de Conan Doyle, foi convencido pelo mesmo a participar das sessões espíritas realizadas na Inglaterra, mesmo permanecendo um cético. E mais tarde, em 1922, Conan Doyle viajou para Nova York para uma série de palestras e Houdini o recebeu como seu hóspede.
A divergência dura entre os dois sobre o mundo sobrenatural continuava, e Conan Doyle então teve a ideia de convidar Houdini para conhecer uma médium que não lhe deixaria mais dúvidas a respeito da veracidade dos fenômenos espíritas. E foi nesta sessão, em um Hotel de Atlantic City, que esta médium tentou estabelecer contato com a mãe falecida de Houdini. E foi quando Houdini ficou furioso ao desvendar uma fraude.
E agora, de amigos, Conan Doyle e Houdini iriam se tornar rivais, e a credulidade de Conan Doyle era tão febril que este achava que Houdini usava do sobrenatural para fazer seus números de escapismo, pois achava que o mesmo transformava partes de seu corpo em ectoplasma para escapar de correntes e algemas em condições extremas, o que, obviamente, só aumentava a ira e a indignação de Houdini frente a tal afirmação absurda, pois o mágico dizia que o que ele conseguia fazer com habilidade era tudo resultado de muito treinamento e dedicação.
E como consequência desta fraude absurda desvendada por Houdini, depois do convite de seu agora rival Conan Doyle, era o seu ataque amplo e frontal contra os supostos médiuns de toda sorte. Houdini chegou a produzir e atuar em um filme que denunciava tais truques espiritualistas chamado “O Homem do Além”. Houdini então ganhou o epíteto de “Debunker”, que pode ser traduzido como desmascarador, pelos jornais da época.

(continua)

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=Ubhuo1Hn54U (HOUDINI DESMASCARA O 
ESPIRITISMO PARTE 2)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O SOL DA NOITE

O termo da luta se dá
na paz da vitória,
prenhe o sorriso
encanta a nuvem
e não mais sonha,
já tem o mundo
para si,

depois de toda a luta renhida,
o conquistador do mundo
finca a sua bandeira
e depõe sobre a
sua aventura
repleta de
porres homéricos
e vívidos campos
de juventude
ébria,

ah, sempre vivo este
canto brumoso
que ecoa sol
no silêncio
da noite.

16/06/2019 Gustavo Bastos

DOIDO VARRIDO

Lâmina cega que corta a canção,
revira meus olhos de lágrima
e me arranca o peito do peito,
poema roto de febre e delírio,
me arranca o coração
do coração,

poema torto, me revela o riso
do sorriso que chora e ri
como um labirinto
que no andar claudicante
depois ganha vigor,

me leva do meu peito que
do coração arranca
o próprio peito,

me leva embora da canção
do coração que sai do peito
que me arranca de mim mesmo
como um doido varrido.

16/06/2019 Gustavo Bastos

O EREMITA

Na gruta morava um ermitão
que dormia e meditava
o tempo todo,
seu sonho de menino
era sair do corpo,
seu transe místico
poderia ser embuste,
e seu corpo exangue
um simulacro vívido
que ele nunca
conheceu, dentro
de seu casulo,
ele viveu pobre
e iluminado,
como um anjo roto
que medita e dorme.

16/06/2019 Gustavo Bastos

FLORES NAS RUAS

Batia o sino, o dobre dos monges
levitava em bom tom,
ressoava a vida santa
em acédia de vícios
exangues,

lutavam os renunciantes
com suas canções delirantes,
e as trevas enegreciam
suas rezas com vultos gozosos
como demônios de virações
em tempestades,

oh, um poeta ali passava,
e sorria no mundo da vida
por estar em plenitude
e vigor de suas faculdades,
como o sábio que fugiu
das rezas e dos incensos
e decidiu pintar
flores nos muros
das ruas.

16/06/2019 Gustavo Bastos

PALÁCIO DO CREPÚSCULO

Prenhe a nuvem desliza
entre os poros da poesia,
eu li no jornal da manhã
febres d`aurora,
e os risos aos montes
faziam risos de sorrisos
em meus vinhos
que sorriam,

a nuvem flutuava
em meu sonho infante
como um terrível canto
de rouxinol,

leve estava o sol nas
formas de um corpo dourado,
o sol e seu palácio
real de seres de luz,
o sol que da nuvem
lhe dá a cor do crepúsculo
e de arrebol.

16/06/2019 Gustavo Bastos

FLÂNEURS

O que ressoa no silêncio das dores?
Vem um tempo imóvel em que
o coração congelará,
o frio da noite aportará
como um corvo
nos sentidos
do triste
que sucumbe,

mas, com certo sol virado,
alguns loucos de hospício
pensarão ser deuses,
e farão revoluções
usando asas imaginárias
numa pletora
de artistas
embriagados,

neste novo vício será
gerada a virtude,
canções de roda
e brilhos brocados
como deambulações
de infantes flâneurs.

16/06/2019 Gustavo Bastos

GALHOFA

No fogo-fátuo dos risos
de comédia bufa
morria o espelho
quebrado dos
trágicos insossos,

Aristófanes ria
nas nuvens socráticas,
e uma luta renhida
temperava em Eurípedes
uma certa sede
que nascera
de Téspis,
que pensava
ser um fauno,

no teatro arborizado
o proscênio
encantava
e mais uma vez
Aristófanes
fazia galhofa
dos austeros.

16/06/2019 Gustavo Bastos

RIOS DE MARES

Que ritmo de lua lhe
intumesce o peito?
Feroz como lua de absurdo
e ventre potente
em certa vida solar.

O poeta reflui no rio rio,
mar de oceano que lhe
acende os olhos da água,
verte como águia
rios de rios
de mares,
mares rios
como oceanos,

a lua se embrenha
em seu caudal de topázio,
e acorda em senda
germinada
em luta.

16/06/2019 Gustavo Bastos

CÉU INFINITO

Traça a reta o lindo pássaro
que voa com volúpia,
seu norte é um céu
portentoso com
a chama que lhe
acende o peito voador,

vai, e diz aos que ficam
na terra que não há
lugar como nuvem
e sol, que não existe
brilho maior
do que voar,
e solta tuas
asas com
força e a sabedoria
de anjo que
mora na alma
deste céu
infinito.

16/06/2019 Gustavo Bastos

MUNDO LOUCO

O bispo gritou no santuário
que os pecadores terão
seus atavios julgados
por um juiz de várzea,
diabolus in musica
aqui ressoará
as trombetas,
e os anjos descerão
contra os idólatras
e seus bezerros de ouro,
uma lamúria tomará
o cenário repleto
de almas penadas,
e os santos renascidos
farão milagres
como pastores
de fancaria
nos rincões
do mundo.

16/06/2019 Gustavo Bastos

NUVEM AZUL

No fim do cosmos estará
a voz divina
como uma entropia
que geme em seus
estertores,

toda a história do mundo
voltará a um casulo
que não tem mais
serventia, as estrelas
entrarão em colapso,
e os poetas desaparecerão
numa nuvem azul.

16/06/2019 Gustavo Bastos

CONTINENTE

O continente acorda em mim
como um grande sonho descoberto,
meus caminhos se abrem
diante do mar singrado
que me revela as entranhas
do mundo profundo,

o continente que mora em mim
se vê diante de um mar
profundo e misterioso,
e as águas revoltas
da ressaca caem
sobre a areia de
minha praia,
na tormenta do sol
que arrebenta
as minhas
retinas.

16/06/2019 Gustavo Bastos

O PRESTIDIGITADOR

Os truques do prestidigitador
lhe denunciam o ardil,
seu espasmo de tartufo
engana os néscios,
mas perde seu intento
diante dos sábios,

o porte austero dos
velhos vetustos
lhe colocam em
palco nu,
o seu ardil exangue
tem a estreiteza
do estelionato,
sua astúcia primária
cai como uma tragédia
quando seu truque
vira caricatura
e seu ridículo
adormece no chiste
dos que lhe riem
como uma nêmesis
brutal.

16/06/2019 Gustavo Bastos

MAPA DA VIDA

O mapa se abria neste astrolábio
de um deus-atlas,
geometria precisa das penínsulas
e o atol que guardava
as chaves do vale profundo,

venho deste canto pastoril,
a ver o mapa sobre a
minha mesa, traçando
a estratégia certa como
um Erastótenes viciado
em rotas infinitas,

o mapa de um atlas forte,
traçando seu intento
com o esquadro e a
diagramação que
desenha sobre o
relevo todo
um certo ar
de desbravador
das terras incultas,
como um conrad
no coração das trevas,
ou um Rimbaud
em Aden depois
das iluminuras.

16/06/2019 Gustavo Bastos