PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE X


“Houdini teve sua história marcada por seu enorme talento como mágico e escapista”

Houdini se revezava entre seus espetáculos de mágica e suas intervenções surpresa para desmascarar sessões mediúnicas, seu método de combater o Espiritismo era o de aparecer disfarçado, por exemplo, com bigodes e barbas postiças, e atuava rápido quando percebia o truque por trás de um fenômeno supostamente sobrenatural. E ele então se apresentava : “Eu sou Houdini! E você é uma fraude!".
Houdini conseguiu, nesta sua cruzada contra o charlatanismo espiritual, uma cobertura considerável de mídia e publicidade. E, por sua vez, nos seus números de mágica, ele mimetizava truques que via nestas sessões falsamente sobrenaturais, com o intuito de revelar como tais fraudes eram confeccionadas.
A cruzada de Houdini residia num paradoxo, seu combate era também um meio para que ele, quem sabe um dia, descobrisse um verdadeiro fenômeno sobrenatural, mas o que ocorreu, de fato, foi que ele se tornou um dos principais algozes das fraudes espiritualistas da História.
Houdini fez várias viagens para divulgar as fraudes que o espiritualismo produzia, e em meio desta cruzada incansável, ele passou a promover seu livro “Um Mágico entre os Espíritos”, publicado em 1923. Houdini chegou a oferecer uma recompensa de 10 mil dólares a quem conseguisse lhe provar de uma vez por todas a veracidade de um fenômeno espírita ou de uma verdadeira capacidade mediúnica.
Mina Crandon, por sua vez, era uma das médiuns mais conhecidas do mundo, contemporânea de Houdini, famosa espiritualista norte-americana, ela era uma verdadeira sensação em Boston. Mina era jovem, ao contrário de outros vultos espiritualistas, como foram também Helena Blavatsky e Eusapia Palladino.
Mina tinha carisma e conduzia suas sessões com maestria, tinha um domínio de seu suposto dom, o que levou o crédulo Arthur Conan Doyle a declarar Mina Crandon como “uma das mais poderosas médiuns do mundo".
Num desafio entre o “debunker” Houdini e a grande médium Mina Crandon, se teve uma primeira sessão na casa da médium, numa sessão com fenômenos incríveis que logo depois Houdini denunciou como fraude e repetiu alguns dos truques.
Houdini, logo em seguida, para dar o golpe de misericórdia na suposta médium, decidiu convidá-la à sua própria casa, devidamente preparada contra fraudes, no que Mina Crandon, um pouco a contragosto, aceitou o convite, e a sessão fenomênica foi um verdadeiro fiasco, com o suposto guia espiritual da médium nem dando as caras nesta sessão espírita fracassada. Mina, ridiculamente, alegou que o ceticismo de Houdini provocou um bloqueio espiritual.
Houdini veio a falecer poucos anos depois, em 1926, depois de sofrer um golpe abdominal, pois o ilusionista, imprudentemente, mais uma vez quis demonstrar sua incrível força abdominal, e levou um soco de um fã que lhe provocou complicações decorrentes de apendicite aguda.
E foi logo após a sua morte que passaram a ocorrer sessões espiritualistas em busca de contatos com o espírito de Houdini. E toda semana aparecia um médium mistificador alegando ter tido tal contato, mas nada comprovado, até que, em 1928, Arthur Ford anuncia que tinha uma mensagem para a viúva de Houdini, Bess. A suposta mensagem era da mãe de Houdini e era um recado lacônico com uma única palavra : “perdão”.
Ford então, pouco tempo depois, traz uma mensagem do próprio Houdini, em que, dentre outras coisa, é citada a palavra “Rosabelle”, o que emociona Bess, pois era um código combinado entre Bess e Houdini, pois se referia à música que estava tocando quando Harry e Bess se conheceram décadas antes.
Mas a mensagem logo caiu em contradição, pois alguns amigos de Houdini haviam afirmado que Ford teve acesso a um diário que pertenceu ao ilusionista. Resultado : Ford não recebeu a recompensa de Bess.
A última sessão oficial de busca de contato com o espírito de Houdini foi em 1936, dez anos após a morte do ilusionista, com um grupo de amigos, mágicos, ocultistas e cientistas e, claro, a própria Bess, que se reuniram no Hotel Knickbocker em Hollywood.
Tal sessão foi conduzida por Eddy Saint, um famoso místico, sessão esta que foi transmitida ao vivo pelo rádio, mas a sessão, mesmo com toda a pompa de um espetáculo, não teve o resultado esperado, nenhuma mensagem do além do espírito de Houdini foi captada, e foi quando Bess desistiu de sua busca e se conformou.
Houdini teve sua história marcada por seu enorme talento como mágico e escapista, de um lado, e sua cruzada que foi um paradoxo de combate a fraudes espirituais e ao mesmo tempo de provar ao menos um fenômeno mediúnico ou espiritual verdadeiro. Harry Houdini entrou para a História como uma figura combativa e corajosa  e, de fato, como o maior da arte do escapismo em todo o mundo.

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=Ubhuo1Hn54U (HOUDINI DESMASCARA O ESPIRITISMO PARTE 2)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




domingo, 30 de junho de 2019

FLOR DE BRUMA

A flor que nasce da bruma
está em sonho como um delírio,
flor mormente doce
e cheia de vida,
flor diamantada
que nasce do rio
e vive ao vento,

folhas caem, o caule da
árvore alimenta
a floresta densa,
a água desce à raiz,
flor e fruto
fazem canção,
um pássaro pousa,
o dia está iluminado,
o poeta olha em volta
e desata a cantar
seu estro de liberdade.

29/06/2019 Gustavo Bastos

TEMPOS FORTES

A geografia do pensamento
traça esta história com
o rigor da máquina
e a dureza do diamante,

os tempos fortes da música
ressoam na câmara de eco,
poemas lutam sempre
com o ar da vida,
afirmam este sopro
que nos dá a visão,

poema reto, de um estro
que é enigma, revela
a minha face precisa,
este poema todo,
como uma rosa.

29/06/2019 Gustavo Bastos

O DOM DA PALAVRA

A palavra, dom e graça
da poesia, veste o poema
com seu ardor e mármore,
sua rocha original
que sonha e realiza,

vem todo este poema,
verter d ´água palavra,
fazer da chuva e do sol
o tempo inteiro
de seu ritmo,

luta a nuvem contra o silêncio,
o vento lhe sopra,
a palavra, esta
nuvem plena,
é soprada
pelo poeta,

o poeta que escreve,
na palavra seu
dom e graça,
revela o divino
em versos profanos.

29/06/2019 Gustavo Bastos

O CAVALEIRO

O cavaleiro de aço mormente
o valete que luta em guerra,
faz de seu estro grande bardo
e rutila sol como aurora,

o cavaleiro, da veste tormentosa,
que rutila seu sonho e tem de si
o próprio raciocínio, querendo
os dias como glória e seu
tempo de luta uma bravura,

cavaleiro, que todo o caminho
seja este, feliz em ser guerreiro
e pleno de si ao meio-dia.

29/06/2019 Gustavo Bastos

VINHO TINTO

Pressinto no dom que funda a vida
o canto vinho que derrama
e me ferve a alma,
lenho que crepita
entre os poros,
que me vê
e que me sente,

sinto, do vinho mais nobre,
o coração que levita
embriagado, e o sonho
que me envolve
na luta febril
dos que são poetas,

vem todo este cabedal
de sentimentos,
do vinho à estrela
que rutila, do páramo
ao canto terroso
que flui no vinho
tinto seco.

29/06/2019 Gustavo Bastos

O PEIXE

O peixe na represa se balança,
a água do rio lhe dá as nadadeiras,
suas guelras lutam em meio à correnteza,
todas as cores deste sonho
lhe dão este ar brilhoso de peixe,
o ser supremo dos mares e dos rios,
livre de nadar, livre de ser ele
o peixe que conhece o
dom da água,

peixe que borbulha e nos dá
esta visão do mar,
este certo aroma de rio,
e uma cultura bela
de lagoa,

o peixe, símbolo cristão primevo,
que dos pescadores tem o
milagre, que da cozinha
tem a destreza,
peixe do mundo d `água,
peixe dos mares
e de todo o oceano,
peixe que nada
e se balança.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

AMETISTA

A pedra ametista refulge
em notas da pedra rolada,
o poema gera este viço
que lembra meu ardor,
que lembra meu saber,

a luta que revoa na ametista
tem este dom de tudo ver
na fábula dos escritos,
um dom de ver e saber
que traduz a sensação
do mundo,

visão plena, ametista sábia,
que canta e encanta
com os meneios de joia
entre os ventos
e as montanhas.

29/06/2019 Gustavo Bastos

ÁS DE ESPADAS

Se temos um dom atávico,
ele vem de um veio animal,
inconteste, vigoroso,
e que tenta virar o
campo de avesso
ao tempo da colheita,

não temos o estro langue,
letárgico ou entorpecido,
temos este estro firme,
como canção de gente forte,

lembra-te, poeta, teu estro
delineia a poesia com reto sentido
e tem de antever seu intento
como um grande ás de espadas.

29/06/2019 Gustavo Bastos

MILAGRES

Desta cultura reta, qual fundamento,
o estro cultiva seu intento,
livre inspiração que transpira,
verte e retém de seu verso
o passo preciso,

leve, no entanto, a pluma
que lhe tece, o poema rumina
e dá forma a uma asa,
deste voo o poema
traduz em verso
o sonho do poeta,

flui a pena como um emblema,
seu símbolo da vida irradia
a sua forma bem acabada,
um canto de sol e de lua
que dá ao páramo
este viço milagroso.

29/06/2019 Gustavo Bastos

PROSA DA MEMÓRIA


Certamente que o osso duro de roer dá as cartas num vento de força que urra e bate o martelo, fechado o contrato sem loucos senis, sem floreios de mártir, sem nada a dever ao mundo cão, um livro que tem a consistência de uma rocha, e os poetas de um elenco forte que lhe dão a mão, poeta que reluz sua carne em espírito. Ossos do ofício, lembra do lumpen, lembra dos dias sofridos da vida aberta e sem chão, daquela sua juventude que se fortaleceu no raio impiedoso do desamparo, lembra de quem você é, lembra de sua luta e por tudo o que você passou, ganhe vitória de sua luta também, mas lembra, lembra.
A memória reluz este teu campo de azul que revira em verde, veste tua armadura, gestos pontuais lhe trabalham o corpo, seu estro profundo vem da guerra em busca da paz, sempiterno sentimento de garra, tua batalha gera tua espada, teu gládio gera tua fortuna, se defenda dos precipícios, arme seu dom, se defenda, sobretudo. Venha ao ataque também, funde uma república alternativa, fume seu sonho e realize seu intento, ganhe teu rio castanho em mar, volte ao tempo de infância, vire velho, torne-se adulto, conheça os países, viva como um nababo, saiba viver como um renunciante, saiba que tudo passa, volte e retenha este tudo que passa, viva o presente, lute pela memória do passado, lute pela ambição nobre do futuro, seja seus três tempos, seja completo, inteiro, sem estilhaço, sem fissuras, se revolte, bata de frente, lute que nem um poeta, lute que nem um escritor, lute pela sua filosofia, ame quem luta também, não se arrependa disto.
A poesia, numa lufada, ganha em tempo sua força, ganha todo este tempo forte que nem um soco, verte sangue e música qual a barafunda de uma azáfama de turba que gira como rebanho que parte em todo o caminho de povoados, aldeias viram mundos na pena do artista, e seu canto universal pode vir de um vilarejo de cantores trovadores e repentistas, a poesia do povo também registra os sonhos de uma poesia de gabinete, de uma poesia erudita e declamada, tenho no slam, certamente, a imagem mais bela da poesia do futuro, o futuro é slam, bicho.
Eu logro vitória à poesia mnemônica, o slammer que diz “sou aqui este que canta e rima, minha vida não foi sopa, mas tenho minha firma, yeah, não dou mole para mané, pois aqui mantenho a minha fé”, e segue ali, em meio ao burburinho e à cerveja. Não julgue teu passado, vire a mesa e ganhe o jogo, mantenha a coluna ereta, o sangue frio e os nervos de aço, tenha nesta regra a sua autoridade máxima, ao que negar o seu espaço, o chame de louco. Louco! Diz o poeta. Primeiro, riram. Depois, choraram. E agora, respeitam.
Louco! Gritavam os loucos. Louco! Ah, mas a poesia é de uma ignorância solene, bem ligadinha na cultura salutar e infalível do foda-se, venha aqui lutar por um mundo melhor, mas fume seu baseado e se defenda com jah rastafári, eles vão odiar. Louco! Gritavam os loucos. Louco! E depois calavam, atônitos com a guerra que eclodia. Louco! Gritava o idiota. Louco! Chorava o idiota. E todos ali se encastelavam depois da tragédia, pois faziam número para inglês ver, e o poeta em seu foda-se tudo como uma grande denúncia. Loucos! Agora gritava o poeta.
Mnemosyne, acho que alguns estão agora tanto ouvindo o foda-se que acabam de se foder, a poesia solene ignora os sentimentos de hipocrisia, os aniquila sem piedade, seu coração de poeta, memória, tem de seu sentido reto seu mais perfeito mérito. E eles agora gritavam : Poeta! E o poeta, depois de um foda-se bem dado, apenas dizia, numa serenidade de quem passou por muito, obrigado.

29/06/2019 Gustavo Bastos




LIBERDADE

Pergunta-se da trombeta
dos anjos, e o cantochão
verte um tanto de missais,
lhe tenho o vinho de orquestra,
e os campos violetas
que buscam a boca da flor
na noite dos argonautas,

germina ametista e safira,
craveja o corpo diamantado
com os silentes delírios
de um poeta que se
suicida como máquina
e que se mata
como dom de
não morrer,

da trombeta dos sete dias,
os cães cérberos caem
ao precipício,
e o poeta canta
a sua fuga
como um voo
brutal de liberdade.

29/06/2019 Gustavo Bastos

sábado, 29 de junho de 2019

BRUMA DE MAR

A bruma vence a morte
como um lagar que
em seu canto firme
sonha gerânios,
busca em tua efeméride
a nota sucinta
de um poeta
que viria do caos
e depois sentiria
o coração ao pulo,

vem, de um certo dom,
elencar os rios vistosos
que saem da nascente
das cataratas e abraçam
o grande mar
do infinito,

o poeta, já cheio do coração
aguado, marca com faca
seu passo e seu amor primeiro
vem de um vento sábio
que não derrama
estrela, mas
a desenha.

29/06/2019 Gustavo Bastos

PENHASCO

Na água revolta do mar
das esmeraldas, fluía
o ar africano que
lutava contra
os generais,
lutava o imberbe chinês
contra seus algozes,
xoguns viravam
pó na revolução meiji,
e os cadáveres de Hitler
renasciam ao fim,
descobertos após
o massacre,

na tormenta destes mares
de sangue, dorme a
santidade exangue
que em seu bruto torpor
sonha, e a loucura
mística que lhe
inflama o peito,
lhe mata à paixão
suicida, como um
jovem que se joga
do penhasco
e desaparece
no mar.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

ASAS IMORTAIS

No pátio refluía o meu
azul febril, da pena aloucada
um certo estro de noite e de buril,
veste túnica e traz de seus
drapeados o solto vento
que lufa sobre o vinho
translúcido de uma flor,

ramas filosóficas floreiam
no caos das horas,
e as raízes deste sonho
náufrago ecoa qual
monstro marinho
os mapas antigos
da perdição,

canto de sereia, feitiços
de circe, letargia
de lótus, o vento
leva o barco, os
sonhos de poeta
navegam risonhos
este caminho
livre,

a poesia é do mundo,
e o mundo lhe sorri
toda a esfera
que lhe dá as asas
imortais.

29/06/2019 Gustavo Bastos

FANFARRAS DOS SÓIS E DAS NOITES

Brilha no plenilúnio a fanfarra
atávica dos ébrios e suas canções,
germina toda a memória
que busca em silente anelo
a paz imortal
de um lenitivo
espiritual,

lembra, desde o mormaço
ao sol mais inclemente,
a semeadura que a chuva
fez ao brotar das flores
as folhas verdes
e os frutos vistosos
que brotam e vivem
do campo à floresta,

silvestre este canto de pássaro
ao sol da felicidade,
e vem de um azul cobalto
que permeia toda estrela
vésper qual floreio
que vai do rio castanho
ao mar turquesa
que lhe desperta
um delírio de navio.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

POETA REFEITO

Na luz âmbar da noite calma,
eu pego meu livro de poetas
suicidas e sublinho
os sinais da morte
nas estrelas que
lhes caem,
vejo nestes corações
um azul mortiço
que foge do destino
brilhante,

ah, como sei desta dor bruta
em cores frias, mas me vem
este instinto nobre de
vencer, no entanto,

e com a espada de
dâmocles sobre
a minha cabeça,
viro o jogo todo
num lance forte
como rocha,

agora, desde a fúria
e o pendor da sabedoria,
me chamam ou de
"o filósofo" ou de
"o poeta", orientador
da turba e louco
de hospício.

29/06/2019 Gustavo Bastos

VERDOR ALUCINADO

Adormecia sobre o campo o verdor
de uma viagem de absinto,
com quatro luas espantadas,
e uma obra que enfim
rumava ao seu porto,
lhe dando a forma tratável
de um poeta que sorri
a sua nuvem qual viajante,
que delira seu estro
qual anjo de ametista,

mas, do intento à nau formosa,
recebe tua carta a soma
de toda a guerra,
uma carta assinada
de sangue nobre
com os vinhos
de mãos divinas
como sóis,

lhe registra toda a nota
febricitada em coração,
e levita o monge
de teu peito
qual vaticínio
que ferve êxito.

29/06/2019 Gustavo Bastos

LÓTUS

Longanimidade, a poesia se
tem em seu passo firme
que olha o tempo
e lhe dá a face
universal da
sapiência,

eu, quando acordei de
um pesadelo mórbido,
garanti a estrela matutina
qual flor brotada
em toda a aurora
de potência,
sem febre
e sem o anseio
de um apedeuta,

lhe vem toda a história
das cartas biográficas,
e este canto alegre
que felicita
a lótus proeminente
que lhe enleva
o coração.

29/06/2019 Gustavo Bastos

A NOITE DA TORRE

A terra vermelha a lamparina
ilumina os ossos de um velho sábio,
lograr êxito qual poeta
nesta noite atávica
é sonhar alto
todo o elenco
de fábulas,

registra seu senhorio de verso,
mas, do mar às nuvens,
retira de seu campo a flor doente,
e remete ao tempo burilado
as cores mesmerizadas
de seu canto campestre
e de floreio rocambolesco,

ah, parte à parte, corta
todos estes pedaços de ritmo
e forma um corpo de bronze
sob o prisma de volúpia
que lhe dá os sentidos de sedução
de uns versos espertos
que não somem na noite
dos ébrios.

29/06/2019 Gustavo Bastos 

AVENTURAS DE BLAKE


Quem se abisma como fera nas ruas de uma fumaça metafísica, fuma teu intento como um mártir, o poema que lhe diz que a alma sombreia e margeia o caos sabe do poeta toda a cor de seu drama existencial. As drogas alucinógenas fazem o número do verso como um meteoro que se espatifa entre os sóis que dormiam antes da bomba.
Longe um castelo, e eu rumo a Paris com um canto de Lautréamont sob efeito de beladona, viés romântico anulado, cadafalso azucrinado como um rei decapitado, lembro de meu maldoror, de meu matrimônio do céu e do inferno, uma pintura astuta de Blake que surgia em notas subconscientes.
Veja : os silentes monges levitam sob a fumaça de erva mística, uns poucos idólatras se ressentem de um ataque de riso de um poeta, pois da poesia burilada temos um ardor e um torpor inigualáveis, maldoror veste vermelho, o fragor da rosa estoura meu olfato, eu vejo em sinestesia o sentido metafísico desta alucinação divina.
Veste a rosa fundada em espírito e corpo, dando às nuvens sentidos de sedução e vitória, com a poesia mais estourada como uma boiada e o forte impacto de um touro. Vem, e de Lord Byron tens um tanto de noite opiácea, de um Percy Shelley o naufrágio poético, se mata como Florbela, reflui e volta, se irmana de seus asseclas como um guru virado em lua, um lunático que é escutado por autoridades das mais diversas, como um Rimbaud nascido de uma lótus embriagada.
A nuvem translúcida ecoa em vento a matriz destes cantos ébrios, um ópio futurista que embebeda todas as cores de funda metafísica, o poema se funda como um eixo insuperável da flor universal, eu tenho toda esta fúria como um animal que sai da jaula, eu tenho toda esta fortuna e vitória conquistada pela firmeza de propósito e um lance divino inconteste.
Venho de longe com as sedes desérticas de um beduíno, venho de longe com as águas de um oásis que some na amplitude da visão, venho com todo o peito forte que rege astutamente toda a fábula do caos. A poesia canta na rua, os doentes mentais têm dela um vislumbre, os idiotas dela fazem troça, os embriagados dela têm o sumo supremo como uma flor nauseada que ruma ao campo vasto que dorme como um nababo depois da orgia.
Vento que se ruma todo feliz sem cadafalso ou carrasco, vento de poesia que ruma indelével e idôneo como grande saúde frente à guerra brutal dos sonhos. Passo rente aos filósofos que estudam filigranas, a visão geral me evoca novamente a mística psicografada de Blake, os martírios derramados de Florbela, os gritos primais dos poetas primatas, os lances de dados de um Mallarmé que ecoa toda a próxima poesia de vanguarda. O louco das cartas vaticina, como louco que é, a explosão de uma cidade, o louco delira como um cavalo baio que pula entre as tropas assassinas.
O oásis de seu delírio vaticina como um idiota obsediado seu caos brutal que vira pó. As notas febris e apaixonadas não eram nada mais que cartas adolescentes rasgadas depois de um surto de raiva, seu sentimento como Werther era a paixão idiota que sofre em seu âmago a dor do fim, funesto jovem que caduca sem envelhecer, seu sofrer mesmerizado que canta poesia chorosa na loucura do plenilúnio e chora rosa com um manto azul.
Maldoror e matrimônio do céu e do inferno lhe dão as flores de um espírito grande que explode como grau de mestria, a barcarola e barcos ébrios cantam e se movem como esferas numa harmonia de Kepler, ruma teu verso em atavios que sobem ao céu em ascensão de Maria, e os pássaros que voam lá são tão vistosos que ofuscariam a visão da carne mortal.
Lembra-te que o fino da bossa vem de uma resiliência máxima às intempéries brutais, e forma teu estro sob o prisma imbatível que ferve força e exibe o peito como um bicho treinado no fogo. Blake lhe serve ao espírito como uma espada que corta rente toda a sombra de palco, que ruma todo inteiro com um pincel que delira toda a cor que funda teu estro veemente e vituperante, lhe dá toda a fortuna teu brio formoso que renasce, ressuscita, e qual fênix brota do chão arrasado da morte e dá uma lufada qual um éolo louco e protuberante.
Graças ao Netuno que lida ao mar seu vinho mais fremente, e lhe dá ao peito teu estro e profundidade de máquina, dá ao teu vinho o sabor seminal que enlouquece toda a cor como uma fúria ébria que estoura champanhe na noite dos fuzis, e ruma ao capital como um corsário que vive o espanto de seu sonho qual lagar e giro de tempo em golpes de martelo. Vem a teu atavio cantar Blake e seu canto visionário como este que é poeta e que delira.
O louco das cartas bombeia seu vento qual um coração de absinto que juramenta seu trabalho como grande músico de trombeta e tambor, bate no coração das horas o tempo e ventila sobre o céu estrelado longas noites de som e de vinho, o louco delira Blake, e ressuscita, em toda a campanha em seus campos de marte, as suas batalhas sonhadas com erva e diamante.

29/06/2019 Gustavo Bastos (poema em prosa – Netuno)



quarta-feira, 26 de junho de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE IX


“A investigação de Houdini, portanto, tinha o fito de desvendar todos os métodos destes truques espiritualistas”

Harry Houdini foi um dos maiores mágicos e ilusionistas da História e certamente o melhor na arte do escapismo de todos os tempos, e também se destacou por ter se tornado um obstinado combatente das fraudes que aconteciam no Espiritismo, pois os truques que alguns destes supostos médiuns usavam eram todos conhecidos com facilidade por ilusionistas, quanto mais de um dos maiores deles, Harry Houdini.
Enganando pessoas que viravam crédulas por desespero e puro desamparo, alguns destes farsantes não tinham escrúpulos ou limites. E Houdini acabou se tornando uma destas vítimas, pois quando da morte de sua mãe, ele foi consultar médiuns que tentaram se aproveitar de seu sofrimento e lhe tirar dinheiro.
Sua mãe Cecilia morreu aos 72 anos e Houdini teve uma depressão profunda, e sua obsessão com a morte da mãe o levou a cometer desatinos como, por exemplo, ir ao cemitério frequentemente e ir lá conversar com a mãe e chorar, e alguns lhe aconselharam procurar consolo no espiritualismo.
Houdini foi iniciado na mágica conduzindo falsos números que simulavam sessões espíritas, e logo descobriu que supostos médiuns se utilizavam de truques baratos e canastrões de mágica, e foi quando o notório ilusionista começou seu empreendimento extremamente bem-sucedido de desmascarar estes impostores.
Houdini então empreendeu, além do trabalho de se infiltrar em sessões espíritas para desmontá-las na raiz, um trabalho de repetir estes mesmos números baratos nas suas sessões de mágica para demonstrar a canastrice embutida que havia no Espiritismo. A investigação de Houdini, portanto, tinha o fito de desvendar todos os métodos destes truques espiritualistas, o que virou uma verdadeira cruzada.
Durante sua turnê de mágica de 1920 na Inglaterra, Harry Houdini conheceu Sir Arthur Conan Doyle que, depois de ficar bem-sucedido na literatura, se destacando como o criador do personagem Sherlock Holmes, virou um fervoroso e crédulo espiritualista, e um de seus porta-vozes mais destacados. Os dois se tornaram amigos, mesmo com posições diametralmente diferentes.
Harry Houdini, mesmo com uma posição oposta a de Conan Doyle, foi convencido pelo mesmo a participar das sessões espíritas realizadas na Inglaterra, mesmo permanecendo um cético. E mais tarde, em 1922, Conan Doyle viajou para Nova York para uma série de palestras e Houdini o recebeu como seu hóspede.
A divergência dura entre os dois sobre o mundo sobrenatural continuava, e Conan Doyle então teve a ideia de convidar Houdini para conhecer uma médium que não lhe deixaria mais dúvidas a respeito da veracidade dos fenômenos espíritas. E foi nesta sessão, em um Hotel de Atlantic City, que esta médium tentou estabelecer contato com a mãe falecida de Houdini. E foi quando Houdini ficou furioso ao desvendar uma fraude.
E agora, de amigos, Conan Doyle e Houdini iriam se tornar rivais, e a credulidade de Conan Doyle era tão febril que este achava que Houdini usava do sobrenatural para fazer seus números de escapismo, pois achava que o mesmo transformava partes de seu corpo em ectoplasma para escapar de correntes e algemas em condições extremas, o que, obviamente, só aumentava a ira e a indignação de Houdini frente a tal afirmação absurda, pois o mágico dizia que o que ele conseguia fazer com habilidade era tudo resultado de muito treinamento e dedicação.
E como consequência desta fraude absurda desvendada por Houdini, depois do convite de seu agora rival Conan Doyle, era o seu ataque amplo e frontal contra os supostos médiuns de toda sorte. Houdini chegou a produzir e atuar em um filme que denunciava tais truques espiritualistas chamado “O Homem do Além”. Houdini então ganhou o epíteto de “Debunker”, que pode ser traduzido como desmascarador, pelos jornais da época.

(continua)

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=Ubhuo1Hn54U (HOUDINI DESMASCARA O 
ESPIRITISMO PARTE 2)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





segunda-feira, 17 de junho de 2019

O SOL DA NOITE

O termo da luta se dá
na paz da vitória,
prenhe o sorriso
encanta a nuvem
e não mais sonha,
já tem o mundo
para si,

depois de toda a luta renhida,
o conquistador do mundo
finca a sua bandeira
e depõe sobre a
sua aventura
repleta de
porres homéricos
e vívidos campos
de juventude
ébria,

ah, sempre vivo este
canto brumoso
que ecoa sol
no silêncio
da noite.

16/06/2019 Gustavo Bastos

DOIDO VARRIDO

Lâmina cega que corta a canção,
revira meus olhos de lágrima
e me arranca o peito do peito,
poema roto de febre e delírio,
me arranca o coração
do coração,

poema torto, me revela o riso
do sorriso que chora e ri
como um labirinto
que no andar claudicante
depois ganha vigor,

me leva do meu peito que
do coração arranca
o próprio peito,

me leva embora da canção
do coração que sai do peito
que me arranca de mim mesmo
como um doido varrido.

16/06/2019 Gustavo Bastos

O EREMITA

Na gruta morava um ermitão
que dormia e meditava
o tempo todo,
seu sonho de menino
era sair do corpo,
seu transe místico
poderia ser embuste,
e seu corpo exangue
um simulacro vívido
que ele nunca
conheceu, dentro
de seu casulo,
ele viveu pobre
e iluminado,
como um anjo roto
que medita e dorme.

16/06/2019 Gustavo Bastos

FLORES NAS RUAS

Batia o sino, o dobre dos monges
levitava em bom tom,
ressoava a vida santa
em acédia de vícios
exangues,

lutavam os renunciantes
com suas canções delirantes,
e as trevas enegreciam
suas rezas com vultos gozosos
como demônios de virações
em tempestades,

oh, um poeta ali passava,
e sorria no mundo da vida
por estar em plenitude
e vigor de suas faculdades,
como o sábio que fugiu
das rezas e dos incensos
e decidiu pintar
flores nos muros
das ruas.

16/06/2019 Gustavo Bastos

PALÁCIO DO CREPÚSCULO

Prenhe a nuvem desliza
entre os poros da poesia,
eu li no jornal da manhã
febres d`aurora,
e os risos aos montes
faziam risos de sorrisos
em meus vinhos
que sorriam,

a nuvem flutuava
em meu sonho infante
como um terrível canto
de rouxinol,

leve estava o sol nas
formas de um corpo dourado,
o sol e seu palácio
real de seres de luz,
o sol que da nuvem
lhe dá a cor do crepúsculo
e de arrebol.

16/06/2019 Gustavo Bastos

FLÂNEURS

O que ressoa no silêncio das dores?
Vem um tempo imóvel em que
o coração congelará,
o frio da noite aportará
como um corvo
nos sentidos
do triste
que sucumbe,

mas, com certo sol virado,
alguns loucos de hospício
pensarão ser deuses,
e farão revoluções
usando asas imaginárias
numa pletora
de artistas
embriagados,

neste novo vício será
gerada a virtude,
canções de roda
e brilhos brocados
como deambulações
de infantes flâneurs.

16/06/2019 Gustavo Bastos

GALHOFA

No fogo-fátuo dos risos
de comédia bufa
morria o espelho
quebrado dos
trágicos insossos,

Aristófanes ria
nas nuvens socráticas,
e uma luta renhida
temperava em Eurípedes
uma certa sede
que nascera
de Téspis,
que pensava
ser um fauno,

no teatro arborizado
o proscênio
encantava
e mais uma vez
Aristófanes
fazia galhofa
dos austeros.

16/06/2019 Gustavo Bastos

RIOS DE MARES

Que ritmo de lua lhe
intumesce o peito?
Feroz como lua de absurdo
e ventre potente
em certa vida solar.

O poeta reflui no rio rio,
mar de oceano que lhe
acende os olhos da água,
verte como águia
rios de rios
de mares,
mares rios
como oceanos,

a lua se embrenha
em seu caudal de topázio,
e acorda em senda
germinada
em luta.

16/06/2019 Gustavo Bastos

CÉU INFINITO

Traça a reta o lindo pássaro
que voa com volúpia,
seu norte é um céu
portentoso com
a chama que lhe
acende o peito voador,

vai, e diz aos que ficam
na terra que não há
lugar como nuvem
e sol, que não existe
brilho maior
do que voar,
e solta tuas
asas com
força e a sabedoria
de anjo que
mora na alma
deste céu
infinito.

16/06/2019 Gustavo Bastos

MUNDO LOUCO

O bispo gritou no santuário
que os pecadores terão
seus atavios julgados
por um juiz de várzea,
diabolus in musica
aqui ressoará
as trombetas,
e os anjos descerão
contra os idólatras
e seus bezerros de ouro,
uma lamúria tomará
o cenário repleto
de almas penadas,
e os santos renascidos
farão milagres
como pastores
de fancaria
nos rincões
do mundo.

16/06/2019 Gustavo Bastos

NUVEM AZUL

No fim do cosmos estará
a voz divina
como uma entropia
que geme em seus
estertores,

toda a história do mundo
voltará a um casulo
que não tem mais
serventia, as estrelas
entrarão em colapso,
e os poetas desaparecerão
numa nuvem azul.

16/06/2019 Gustavo Bastos

CONTINENTE

O continente acorda em mim
como um grande sonho descoberto,
meus caminhos se abrem
diante do mar singrado
que me revela as entranhas
do mundo profundo,

o continente que mora em mim
se vê diante de um mar
profundo e misterioso,
e as águas revoltas
da ressaca caem
sobre a areia de
minha praia,
na tormenta do sol
que arrebenta
as minhas
retinas.

16/06/2019 Gustavo Bastos

O PRESTIDIGITADOR

Os truques do prestidigitador
lhe denunciam o ardil,
seu espasmo de tartufo
engana os néscios,
mas perde seu intento
diante dos sábios,

o porte austero dos
velhos vetustos
lhe colocam em
palco nu,
o seu ardil exangue
tem a estreiteza
do estelionato,
sua astúcia primária
cai como uma tragédia
quando seu truque
vira caricatura
e seu ridículo
adormece no chiste
dos que lhe riem
como uma nêmesis
brutal.

16/06/2019 Gustavo Bastos

MAPA DA VIDA

O mapa se abria neste astrolábio
de um deus-atlas,
geometria precisa das penínsulas
e o atol que guardava
as chaves do vale profundo,

venho deste canto pastoril,
a ver o mapa sobre a
minha mesa, traçando
a estratégia certa como
um Erastótenes viciado
em rotas infinitas,

o mapa de um atlas forte,
traçando seu intento
com o esquadro e a
diagramação que
desenha sobre o
relevo todo
um certo ar
de desbravador
das terras incultas,
como um conrad
no coração das trevas,
ou um Rimbaud
em Aden depois
das iluminuras.

16/06/2019 Gustavo Bastos

MORFINA

Por entre os dentes
uma fúria famélica
acordava o sonhador
depois de seu delírio
de rosas,

os bosques lhe davam
um ar de mandrião,
ele dormia o tempo
todo na grama
e fumava qual
um celerado,

seu dito de sábio
era de névoa,
e sua linha de razões
era produto
de seu insano
sono de morfeu.

16/06/2019 Gustavo Bastos

ARQUITETURA DO PASTOR

O pasto levanta com ar de floresta
certos veios cinzelados
da pintura, o poeta-pintor
pressente a flor na lótus
que vira os olhos
em seus sóis de lua,

o pasto refunda a vida do rebanho,
balidos ecoam na aura do dia,
os uivos dos lobos morrem
frente à luz que gerava
tais poetas-pastores,
poetas-pintores
com cajados
e pinceis,
poetas-escultores
com goivas e cinzeis,

certa pedraria
e capiteis dóricos
sob a frondosa
barroca e religiosa
canção das
santas ceias,
floreios que
dão em rococó
depois de um
delírio pré-rafaelita.

16/06/2019 Gustavo Bastos

OS NOVOS POETAS

Os fardos dos ébrios não
ecoam na poesia,
ah, vamos à luta
com brios vertidos
em sons metálicos,

a miséria dos miseráveis
não ecoa na poesia,
o ardil e a porfia
não nascem na poesia,
os hipócritas morrem
com a poesia,
os enormes castelos
de poetas giram
sobre os cadáveres
e as sombras
da terra arrasada,

ah, os fardos são de feno
e não de suicidas,
os poetas novos
não nascem mais
para morrer ou
matar,
mas para
brilhar.

16/06/2019 Gustavo Bastos

FEBRE MALLARMAICA

Apollinaire brincava de dados,
fundou seu vinho de Mallarmé
com muita mestria,
e Cummings em seu devaneio
era mais doido
que um dadaísta
pretensioso,

nas horas valentes
eu via Apollinaire
com certa fúria
desregrada,
um cubismo de verso
arrancado
à fórceps,
seu Mallarmé
ali ecoava
como o primeiro
revolucionário
da poesia.

16/06/2019 Gustavo Bastos

O TOUREIRO DE MADRI

Surge o toureiro de Madri,
o touro valente lhe
dá a chifrada mortal,
seu peito jorra o vermelho,
o toureiro está
todo vermelho,
o vermelho que lhe
cai de seu intento,
colhendo seus rubros
que jorram vermelho
ao ver seu touro
de olhos vermelhos
com a fúria rubra
de seu sangue
que luta
como um animal
que faz justiça.

16/06/2019 Gustavo Bastos

ALMA DENSA

A alma densa tem este
corpo esférico,
adensa como liga de aço
o coração maduro,

a alma densa tem o rigor
da pedra edificada,
tem a dureza de diamante
que irradia ternura,

a alma vitoriosa
toda densa,
a alma gloriosa
toda densa,

seu peito não é mais vitral,
ali reside seu aço de força
como um soco nas
entranhas dos idiotas.

16/06/2019 Gustavo Bastos

domingo, 16 de junho de 2019

SACRIFÍCIO CORPORAL

Feliz o corte entre as entranhas,
revela o corpo nu sob
a reta do bisturi
sua operação de fêmur
e a omoplata
combalida,
gera o poeta
com adendos
em seus ritos
estomacais,

ferve seu tecido muscular,
tendões e artérias
se enrijecem no
mistério deste
corpo perdido
e seu cérebro
trepanado,

sua lobotomia tira
de seu crânio
sua astúcia,
sua sabedoria
vira um farelo
que sangra,
e seu peito grita
em seus átrios
explodidos.

16/06/2019 Gustavo Bastos

DISCURSO REITERADO

O ponto de vista tenta
seu registro com preciso
tema, o elenco das ideias
vem  entremeado de impulsos
atávicos, certa certeza
enumera a si mesma,
sofisma e pleonasmo,
revira com petição
de princípio e redundância
e um leitmotiv que
repete como uma tautologia,

o poeta, estudioso dos odores
do discurso, se perde na
racionalidade deste sistema
de engrenagens, sugere
um fim simbólico, e de
outro lado o espírito de sistema
penteia os conceitos
com uma fúria hegeliana
de ímpeto dialético,
dorme o sol,
dorme a lua,
o poeta perde
sua vista
e o leitmotiv
lhe inferniza
as têmporas.

16/06/2019 Gustavo Bastos

BRUMAS FLORADAS

Vento que acorda as monções,
o minarete treme
em seus arabescos,
linhas de geômetras
e desenhos de artistas
se movem na alucinação
de uma lufada,

eu vou neste sinal de monte
e de profecia, abrir no
oliveiral um azeite
silente que se gira
em bruma,

levanto minha capa de pirata,
meu tesouro rutila
por entre estas
campanhas de
morte e de vida,
e os laranjais
também crescem,
e as macieiras
entumescem
como corações.

16/06/2019 Gustavo Bastos

ILUMINAÇÃO

Uma mirra enfurece o campo,
tem um certo jasmim nas entranhas
do bosque, e uma flor de lótus
que bombeia o coração
do lago,

leve teu passo de poeta
em paisagem, conclama
teus asseclas como
um grande grito
de dor,
e verte teu sangue
que vira lágrima,

no bosque em que dormem os jasmins
a mirra acorda as lutas
depois de uma sapiência
que vivia na fumaça,
e o faquir desperto
já não lida com a dor,
mas com a iluminação.

16/06/2019 Gustavo Bastos

CANTIGA DE RODA

A menina brincava com o menino
nos jardins das delícias,
passava ali um filósofo
e via todo aquele cenário
verde e encantado,
e via os sinais naquelas
crianças como um sol
desde o verde das plantas
até o azul do céu,

ele via todo o mistério
naquelas cantigas de roda
e lendas populares
e de tradição oral
que os recreadores
que ali chegavam
faziam sorrindo,

uma trupe mambembe
então apareceu nos
jardins, o menino
saltou e deu uma pirueta,
a menina rodou a
sua sainha rosa
e fez meneios
como uma borboleta.

16/06/2019 Gustavo Bastos

OUROS E MEMÓRIA

A prata enuncia vertentes
novas da riqueza das nações,
o ouro que nestes rincões
explora a dor,
as serras e os montes
desmembrados em
seus sóis,
os donos do chão
de fábrica com seus
sonhos medidos
em pontes e edificações,

lá, onde o cobre e o bronze
fazem liga com o estanho,
mora um senhorzinho
que já viu de tudo
ou quase nada,
sua barba amarelada
de cachimbo,
e seus anéis de velho ladino,
ali estava ele ao olhar
todo este mundo,
e dizia que vira
o início destas
fábricas desde
a raiz do mundo.

16/06/2019 Gustavo Bastos

CANTO OPERÁRIO

Levantam acampamento os operários,
vigas, guindastes, toda uma
labuta das cidades,
seus rostos cinzas
e suados, suas forças
exponenciais como
vulcões nos dão
toda a estrutura
do mundo, atlas
modernos com carcaças
de aço,

eu os vejo nos dias,
nas auroras da manhã,
e sonham com os
braços e pernas,
sentem o coração
durante um registro
muscular, os verdadeiros
mestres da vida,
em obra tão potente.

16/06/2019 Gustavo Bastos

ERVAS MÍSTICAS

Pita um certo pango o sonho
espasmo e corpos em fera,
luzindo como meditação
seu sonho místico,
como um ar vinho
e um sopro ópio,
levita qual águia
e reluz,

uma fumaça sagrada
que registra em seu
transe de blackheart man,
soçobra um certo
bruto calor,
em meio ao mangue
e ao lixo dos
apátridas exangues.

16/06/2019 Gustavo Bastos

PEQUENA FILOSOFIA

Ouroboros ventila
como um esquadro mágico
sua cornucópia como
um anel de moebius,
volta e volteia,
sob o próprio karma,

ah, este mal de espírito,
que conhece e não é sábio,
não esgota nem o mínimo
átomo que não permaneça
enigma,

ah, vem este poema roto
ainda! elencar sua insciência
que vira verso!
oh, como poeta que diz
de tudo que desconhece,
e assim canta!

16/06/2019 Gustavo Bastos

O VOO DO CRISTAL

O cristal ecoa a vida
em sua luz diamantada,
tal uma cornucópia
que revira os átomos,
um canto silente
em pastos verdejantes,
tal o poema que se
funde ao mistério
e dele vê
toda a sua luz,

lá, no mistério da luz,
um cristal verte
templos de monges
em transe, verte uma
música lilás com
certos passos rubros,
verte seu tema com
versos que traduzem
esta luz como
um sopro d`alma,

ah, e eu não entendo
de onde vem este
santo espírito,
é como se fosse
o espanto que
levanta o coração
em voos.

16/06/2019 Gustavo Bastos

NARDO E VINHO

Nas músicas do nardo
mora a meditação,
as cores despertas
enunciam meu sol,

segue singrando o mar
meus atavios, tenho
por certo o coração
ventilado em novos
horizontes, certo com
os sentidos pairando
alto com a clareza
de meus intentos,

vai, poeta, como um
caçador de estrelas
diante da vida vivida
sem ser mártir,
sem ser profeta,
sem ser mestre,
apenas uma gota
de vinho
na vastidão
das galáxias.

16/06/2019 Gustavo Bastos

VERSOS NATURAIS

Nas longas asas do pássaro
vivia o sonhador,
eu lutei por anos neste
cinzel e goiva,
perdi meu senso
em batalhas campais.

Veste-te à labuta, o poeta
que nasceu do mármore
se funde ao nobre metal
e ao fundo de um tambor,
sua música tem melismas
de aço e de flores,

tenha em campo todos os odores
da rosa, uma certa exaustão
de sua força será mérito,
como um rouxinol e o albatroz
que faz rasante no mar,

resgates de memória, nuvens
passam, o caos se desmonta
nos versos pacatos
que sugerem
sua paz de lume,

ah, como são estes pequenos
versos um tanto de vitória
sem empáfia ou bazófia,
uma lufada natural.

16/06/2019 Gustavo Bastos

quinta-feira, 6 de junho de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE VIII

“o golpe mais cruel se deu com o trabalho implacável do ilusionista Houdini”

WILLIAM CROOKES E JAMES TISSOT

O cientista inglês William Crookes foi um dos pioneiros da pesquisa científica sobre as experiências de materializações de espíritos. Crookes se tornou reconhecido em 1878 ao apresentar à Sociedade Real seu trabalho sobre o quarto estado da matéria, que foi denominado pelo mesmo de matéria radiante.
Crookes partiu da observação dos fenômenos de materialização de Katie King (1870-1873), esta que via à lume com o uso da mediunidade da jovem Florence Cook. Crookes então tem a sua atenção despertada, pois, desta sua observação, ele depreende que havia estados especiais a partir da matéria tangível, estado estes que ainda eram desconhecidos.
O pintor James Tissot, por sua vez, também participando de tais fenômenos de materialização de espíritos, travou contato com o médium William Eglinton, um conhecido médium de efeitos físicos da era vitoriana, e ele não usava cabines, se juntava a seus assistentes e se permitia ser tocado nas mãos pelos mesmos. Foi em uma destas sessões que Tissot pode ver a sua falecida noiva, e seu guia espiritual.

ECTOPLASMIA E MATERIALIZAÇÃO

A ectoplasmia é o fenômeno que produz formas estruturais temporárias, tais formas podem aparecer junto ou até longe dos médiuns que as formam. O ectoplasma é sensível à luz solar ou elétrica normal, só sendo imune a lâmpadas avermelhadas semelhantes a dos laboratórios fotográficos. Diante da luminosidade inadequada, tal ectoplasma pode se dispersar ou voltar ao corpo do médium.
A plasticidade do ectoplasma, que atua em ambiente próprio, como descrito, em luz avermelhada, pode ter um caráter bem maleável de modificação, formando diversas coisas como bastões, alavancas, espirais etc, além de diversos efeitos.
A materialização então envolve tanto a corporificação de seres humanos, mortos, os vivos são raríssimos, mas pode acontecer (aqui não cito a bicorporeidade, um dos fenômenos descritos em O Livro dos Médiuns, e que é surpreendente), como também a aparição de objetos, plantas, flores, animais etc.
Quando falamos da materialização, ela tem sempre como seu meio de manifestação a utilização do ectoplasma, de início o fenômeno se dá como matéria ou aparência amorfa, numa mistura de solidez e vapor.
Ao elencarmos o cabedal de fenômenos de efeitos diversos do documento espírita, quando falamos sobre as materializações, temos tanto a corporificação inteira de um espírito, como a sua aparição parcial, e na ectoplasmia ainda podemos verificar efeitos telecinéticos, pancadas, pneumatofonia, voz direta, efeitos luminosos, suspensão e transporte de objetos, tudo isto formando o conjunto de efeitos físicos, este que precederam a psicografia, esta que é, por sua vez, o documento espírita mais importante e fundamental.

FRAUDES

Um fato importante é que temos diversas pesquisas espíritas e científicas sobre o fenômeno das materializações, mas uma comprovação oficial, ou seja, uma comprovação experimental de laboratório, nunca houve, e o ceticismo científico posterior colocou sérias restrições sobre a autenticidade de tais fenômenos, depois de um interesse genuíno que logo arrefeceu diante de fraudes grosseiras.
No histórico conhecido sobre os fenômenos de materialização, temos a história famosa das irmãs Fox, com Leah Underhill, uma dessas irmãs, produzindo o primeiro espírito materializado nos Estados Unidos. A irmã de Leah, Kate, um tempo depois, materializou Estelle, falecida esposa de um banqueiro, também materializando Benjamin Franklin. Na Inglaterra, por sua vez, uma pioneira da materialização foi Agnes Guppy-Volckman.
Mas logo começou uma reação de desmascaramento de tais médiuns, as irmãs Fox e Agnes logo foram expostas como charlatãs, o poeta inglês Robert Browning despistou um médium de materialização dizendo que tinha um filho morto e que desejava se comunicar com o mesmo, Browning pegou a materialização com as mãos e era o pé do médium charlatão. Browning não tinha perdido filho nenhum na infância, a fraude foi primária.
Na Inglaterra, a médium Rosina Mary Showers foi flagrada ao ser pega com uma touca, e Rosina posteriormente confessou usar roupas de camadas e rolos de musselina dentro da roupa de baixo. Os casos com musselina, por sua vez, se multiplicaram, e logo uma horda de mistificadores foi desmascarada.
Perucas, bigodes postiços, recortes de revistas, vários casos de fraudes grosseiras se sucederam, e tudo ficou à luz do dia, o fenômeno espírita perdia crédito progressivamente, as fraudes eram desmascaradas sistematicamente. E diante desta onda de combate ao engodo, só os muito crédulos ainda ficaram fascinados com tais números grosseiros de prestidigitação, de maus mágicos, que eram, por sua vez, ridicularizados e desmascarados por mágicos renomados, como era o caso de um dos maiores mágicos de todos os tempos, Houdini.
Foram expostos diversos truques de supostos médiuns, como as escritas em lousa, fotografia espírita, mesas girantes, toques de trombeta, materializações diversas, leitura de cartas lacradas, e coisas das mais grosseiras que não enganariam ninguém que já não tivesse predisposto a crer em mistificações penosas e degradantes como as que foram flagradas por alguns mágicos e consulentes mais desconfiados.
Ilusionistas de palco como William Marriott poderiam reproduzir com facilidade um cabedal de todos os fenômenos espíritas que estavam em voga, e tal ridicularização também foi empreendida pelo jesuíta Carlos María de Heredia, que dedicou toda a sua vida ao trabalho de desmascarar os truques do Espiritismo. E o golpe mais cruel se deu com o trabalho implacável do ilusionista Houdini, que não deixava pedra sobre pedra.

ESPIRITISMO BRASILEIRO

Dentre os supostos médiuns brasileiros que realizaram sessões de materialização temos o Peixotinho, Chico Xavier, Carmine Mirabelli, e Anna Prado. Atualmente, temos Divaldo Franco que, dentre outras credulidades, divulga a pseudo-tese das “crianças índigo”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


sexta-feira, 17 de maio de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE VII

“já na sessão com Otília Diogo, o circo seria armado pela revista O Cruzeiro”

O CASO OTÍLIA

Chico Xavier, mesmo depois da proibição de seu guia Emmanuel de realizar sessões de materialização, foi assistir em 1963 as conhecidas aparições que eram produzidas pela médium Otília Diogo. Por sua vez, uma das aparições que eram mais frequentes se tratava de uma freira chamada Irmã Josefa.
O chamado caso Otília, um dos mais polêmicos do Espiritismo brasileiro, teve a participação ardilosa da revista O Cruzeiro, que primou pelo sensacionalismo e pela intenção de desmascarar o fenômeno espírita e colocá-lo no ridículo. O escândalo produzido pela revista na época ganhou dimensão nacional e, de certa forma, colocou o Espiritismo no debate público.
O livro de Jorge Rizzini, chamado Materializações de Uberaba, é o documento principal do chamado Caso Otília, e descreve a má fé da revista O Cruzeiro em detalhes. Os repórteres enredaram Chico Xavier e toda a equipe que participou da materialização pela médium Otília em um escândalo que abalou todo o movimento espírita mundial.
Num sessão de controle rigoroso, com equipamentos de filmagem e fotografia, realizada dentro do consultório do médico Waldo Vieira, foram instaladas nove câmeras fotográficas, tal medida tinha como objetivo capturar as imagens materializadas dos espíritos em nove ângulos diferentes para exame e confronto. Além destas câmeras, também havia barômetros, balanças, dentre outros equipamentos para controle rigoroso do fenômeno que se daria ali, para evitar qualquer forma de fraude, incluindo nisto uma jaula de aço para que os médiuns realmente comprovassem a veracidade do fenômeno de materialização, mais uma forma de evitar qualquer forma de prestidigitação.
Na abertura da sessão temos Waldo Vieira lendo um trecho do Evangelho, e logo se apaga a luz do consultório, com a sala ficando na escuridão total. Logo começam a se ouvir, no lado esquerdo da jaula, ruídos guturais. Era a médium Otília em transe e já em seguida liberando ectoplasma, tanto pela boca, como pelos ouvidos e nariz. Logo se ouvem palavras gritadas e ininteligíveis, era a garganta recém-formada do espírito manifestado ali pelo ectoplasma liberado pela médium Otília.
Temos então a materialização de Irmã Josefa, com roupa de freira, toda branca, trazendo uma luz na fronte e no tórax. Ela diz um “Viva Jesus!”, e logo esparziu gotas de perfume. E então a freira manifestada diz : _ Sabem porque estou aqui entre vocês, meus filhos? Para dar provas de que a morte não existe. Provas verdadeiras de que todos vocês são imortais.
O espírito materializado da freira se deixou fotografar sem grandes problemas, e temos também nesta mesma noite a materialização do espírito de Alberto Veloso, ex-médico da marinha, este sendo uma materialização integral que se anunciou no recinto esparzindo gotas de éter. Vendo a médium Otília Diogo, por sua vez, podemos nos lembrar de médiuns pioneiros como Eusápia Paladino, também analfabeta, e também da médium Mme. D `Esperance.

O ESCÂNDALO DA REVISTA “O CRUZEIRO”

E agora teremos a descrição da intervenção desastrosa, adrede, da revista O Cruzeiro, nas sessões de materialização envolvendo a médium Otília Diogo. E isto depois de uma primeira reportagem amigável do fenômeno, baseado num programa de TV, sem qualquer embasamento de local e contexto.
Em seguida, já na sessão com Otília Diogo, o circo seria armado pela revista O Cruzeiro, eram sete repórteres e fotógrafos com intenções sensacionalistas. Dentro de um controle rigoroso, a médium Otília entra em transe, libera ectoplasma, e temos a materialização da freira Irmã Josefa, aparição esta que permaneceu materializada durante trinta minutos, permitindo-se ser tocada e fotografada. Depois temos a materialização do espírito de Alberto Veloso, este ficando por quarenta minutos, e também se deixando fotografar. Depois de impressões estupefatas dos repórteres da revista O Cruzeiro, no entanto, viria a armação do escândalo.
A revista O Cruzeiro passa a divulgar uma série de reportagens intitulada “A Farsa da Materialização”, série esta que atacou a médium Otília e os médicos presentes na sessão, todos acusados de mistificação e charlatanismo. Se tratou de uma campanha de O Cruzeiro contra o Espiritismo que durou quase três meses consecutivos, ocupando onze números seguidos da revista, somando setenta páginas compactas e oitenta e sete fotografias. Tal bateria contra o Espiritismo não poderia poupar, evidentemente, e também, o médium Chico Xavier. Se tratou de uma soma de acusações estapafúrdias, com tons sensacionalistas.
Dentre as acusações, temos que o ectoplasma que saía de Otília era um chumaço de pano branco. Se viam sinais de dobragens e costuras nas roupas dos espíritos materializados. As materializações, sob a luz, projetavam sombras nas paredes. As fotografias das materializações são truques grosseiros. Documentos "oficiais" provam que a materialização de Uberaba é uma farsa.
A espiritualidade já sabia do escândalo que estava sendo tramado pela revista O Cruzeiro, e deste modo, por outro lado, Irmã Josefa atingiu seu objetivo, pois após a publicação da série de reportagens sensacionalistas, temos um fenômeno editorial para o Espiritismo, nesta época, no Brasil, e que leva o Departamento Editorial da Federação Espírita Brasileira a afirmar categoricamente que o caso de Otília Diogo não ficou devendo nada ao caso Arigó. E logo em seguida, Luciano do Anjos e Jorge Rizzini, em programas televisivos, desmascaram a fraude dos repórteres da revista O Cruzeiro.
Contudo, seis anos depois deste escândalo, a médium Otília Diogo é presa com uma maleta cheia de roupas utilizadas nas chamadas “materializações”, sendo, inclusive, encontrado o hábito que era usado pelo espírito de Irmã Josefa. A médium, já presa, explicou que perdera a mediunidade em 1965, e que não se conformou e passou a apelar para truques.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




quinta-feira, 16 de maio de 2019

PODERES VICIADOS

Os discursos versam
seus melismas de retórica
como uma pletora
de vícios,

a língua, anestesiada
com o repto de defesa,
tem toda uma camada
reptílica de hipocrisia,

o sonho naufraga
nestes estertores
de uma ética da vida
que agora vira morte,

o homem, com seu colarinho,
versa seu panegírico
como um rábula
e como um nababo
que, na verdade,
trota como um
sabujo dos altos
poderes,

o reino destes ídolos
reflui e vira ruína
com o grito que
sempre vem das ruas.

16/05/2019 Gustavo Bastos

BROCADO BRILHOSO

O trabalho do brocado é sucinto,
num plano todo bem urdido,
com vincos e dobraduras
que em campos festonados
refulge com fulvos e rubros,

lento todo o esmero,
no entanto, preciso
como um mecanismo
de esfera,

toda sutura e toda a custura
brilha em tal brocado
como um bom karma
e é brilhante,

o poema, com certo mimetismo,
detém deste trabalho
toda a sua ferocidade
amansada de sábio,
seu sol apaziguado
depois da guerra,

o brocado vira em toda
a canção um tanto
de linhas vitoriosas,
como um bom vestido
de festa.

16/05/2019 Gustavo Bastos

CANÇÃO CELTA

O poema que exulta
com as cores das vinhas
tem o tempo como um som
que explode os sonhos
em transes e rezas,

das coisas elencadas
pelo templo dos druidas,
lá estava stonehenge
como delírio em que
merlin exultava
seus mistérios,

vejo, como um lírio
que nasce do solo terroso,
estes mistérios serem
aos poucos desvelados,

o poema está inscrito
na adaga dos guerreiros,
o druida que vertia
sua barba branca,
deu à feiticeira verde
todas as poções
que existiam
desde circe,

as vinhas renasciam
e o torpor dominava
o proscênio,
lá, com as mãos delicadas,
a feiticeira agora
ficava rosa,
e depois de uma luta
entre espadachins,
fitou a mágica
e fez de um poeta
seu mais astuto
redentor.

16/05/2019 Gustavo Bastos

ÊXTASE DANÇANTE

Os dançarinos que correm
pela sala dos espelhos
olham suas almas
com o som da música,
seus corpos em pulsação
e ritmo.

Vejo, em transe, todo o canto
sonoro que ecoa na câmara
que tem toda uma vibração
de fontes anímicas,

soa como um som metálico
os dias vitoriosos
que as almas lavadas
almejam,

a dança frenética
que tem em sua potência
toda a vibração
de poesia e música,

o castelo em que dorme
a lua virada
da noite está
nesta câmara
que ressoa
sensações
extáticas.

16/05/2019 Gustavo Bastos

segunda-feira, 13 de maio de 2019

TORQUATO, O DESBUNDE E O CINEMA MARGINAL


“o debate musical ganhava sentido político”

Torquato Neto viveu a sua geração, e fazia parte de sua época o desbunde, sua criatividade foi influenciada por este cenário que incluía, para o bem e para o mal, uma experiência supostamente espiritual com as drogas. O desbunde então tinha este sentido de experiência corporal e que tinha o carro-chefe desta época, que era o LSD, a viagem lisérgica que foi o tema-valise da geração do desbunde, e Torquato Neto viveu isto intensamente, e de certo modo teve seu preço, não exatamente o suicídio, mas seu percalço na loucura decerto esteve diretamente relacionado à desmedida de álcool e LSD.
A navilouca tinha um brilho, mas a escuridão do cenário político era forte, tempos bicudos de ditadura, a experiência mesclada de desbunde e perseguição política, drogas e tortura, e que tem como resultado um cenário em que os que lutaram na arte e com as armas que tiveram, alguns, fim trágico, ou seja, suicídios, prisões, exílio e tortura. Torquato, em meio a este cenário, manteve no Jornal dos Sports a sua coluna “Música Popular”, que saiu de março a setembro de 1967. O contexto cultural era intenso e interessante, era a época dos festivais de música, o auge da MPB, e cenário do surgimento do tropicalismo, que virou então fenômeno de massa sob o influxo dos festivais.
A música popular, neste contexto histórico, aparecia em meio ao debate político da esquerda contra a direita e no conflito dentro da própria divisão em facções na esquerda. No debate musical, por sua vez, vemos fenômenos que hoje podem ser vistos como anódinos, mas que no contexto da época foram vigorosos, como a passeata contra a guitarra elétrica, de puristas da música brasileira, que logo foram superados pelo amálgama do tropicalismo.
Por sua vez, o debate musical ganhava sentido político, pois este se ligava diretamente ao movimento estudantil. A tragédia toda se deu, no entanto, em dezembro de 1968, com o Ato Institucional n ° 5, a linha dura da ditadura agora dá as caras, e a arte sofreria também, pois a censura seria institucionalizada de vez, a mordaça colocaria um novo desafio criativo para os artistas daquela época, e o paradoxo era o de que temos um momento brilhante da música e da arte em geral, no Brasil, e isto tudo vai de encontro a uma reação da ditadura que vai asfixiar a intelectualidade e os movimentos artísticos nacionais.
Torquato, agora neste cenário de censura e tortura, acaba passando quase um ano em Londres e Paris. Em 1969, por exemplo, chegou a ter contato com Yoko Ono e John Lennon, e seu famoso encontro com Jimi Hendrix. E temos, nestes chamados anos de chumbo, a sua coluna mais célebre, a “geleia geral”, e é o tempo em que Torquato, assíduo, frequenta diariamente o show Gal Fa-tal. “Geleia Geral” é uma coluna que será bem mais ampla em temática do que a coluna “Música Popular”.
Torquato, na sua versão geleia geral, já está afastado e rompido com o tropicalismo, seu envolvimento com a música, contudo, continua intenso, ele descobre Luiz Melodia, e seu foco terá, porém, agora uma prioridade pelo cinema e pela literatura, e aqui surge a literatura marginal que é traduzida pela experiência da Navilouca, e temos também o cinema marginal, e sobretudo a poesia marginal dos anos 1970. É neste cenário que surgirá, por exemplo, o poeta Chacal, que preparava já o que viria a ser a Nuvem Cigana.
Torquato, em fins de 1969, se volta à crítica acerba ao Cinema Novo e a Glauber Rocha, neste cenário da Embrafilme e do circuito comercial nacional financiado pelo Estado. O filme histórico, o carro-chefe deste cenário provoca a crítica de Torquato, um adepto do cinema marginal, e que entra em conflito com o mainstream, Torquato, por sua vez, se envolve intensamente com o cinema marginal, se tornando uma de suas figuras emblemáticas no Brasil, sobretudo no seu entusiasmo pelo superoito.
O cinema marginal vai já numa direção pós-tropicalista e contracultural, com fontes em Godard e do underground nova-iorquino, e que na versão nacional vira o udigrudi tupiniquim, e juntava este estética com a valorização das tradições populares do cinema brasileiro, que eram a chanchada e as criações de José Mojica Marins, que aparecia como o personagem Zé do Caixão. O cinema marginal tem uma estética mais “suja”, contra as cores e o glamour do cinema industrial. Aqui temos o cinema trash contra o cinema pop, e mais além do trash, o terceiro mundo.
Torquato se destaca no cinema marginal como o vampiro Nosferato, sob a direção de Ivan Cardoso, e que será um dos filmes mais cult do chamado udigrudi. No cenário de diretores, temos nomes como Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e Neville d `Almeida. Torquato também participou como ator no inacabado A múmia volta a atacar, e no filme Helô e Dirce, de Luiz Otávio Pimentel, filme este que envolve uma projeção metafórico-performática das andanças imaginárias dos poetas Torquato Neto e Waly Salomão pelo dark side dos dark rooms, e que é uma apropriação do cult underground nova-iorquino dos anos 1960, o filme Flaming Creatures do diretor Jack Smith.
O superoito seria a experiência do último ano de vida de Torquato Neto, junto com a Navilouca, as últimas colunas do Última Hora, e nesta época ele também passa alguns meses em Teresina, lá faz filme, jornal e também se interna numa clínica para desintoxicação. Aqui sua performance poética é de textos e imagens de uma arte em transe, já para além de suas apropriações antropofágicas feitas em outro tempo.

POEMAS :

AI DE MIM, COPACABANA : A música de Caetano Veloso e Torquato Neto vem como uma inspiração na crônica clássica de Rubem Braga, no que segue : “Um dia depois do outro/Numa casa abandonada, numa avenida/Pelas três da madrugada/Num barco sem vela aberta nesse mar/Nesse mar sem rumo certo/Longe de ti ou bem perto é indiferente, meu bem/Um ano depois do outro/Ao teu lado ou sem ninguém no mês que vem/Nesse país que me engana/Ai de mim, Copacabana”. Aqui temos o letrista Torquato com a alegoria do mar e a imagem de Copacabana nessa falta de rumo em que o poeta está num país que lhe engana e que tem o estribilho do ai de mim Copacabana que inverte a lógica que havia em Rubem Braga, no que segue : “Tomar o vento de assalto numa viagem, num salto/Você olha nos meus olhos e não vê nada/Assim mesmo é que eu quero ser olhado/Um dia depois do outro/Talvez no ano passado é indiferente/Minha vida, tua vida/Meus sonhos desesperados”. Copacabana é que olha o poeta-letrista, no que ele possui seus sonhos desesperados, no que segue : “Minha mãe, teu pai, a rua/Nesse país que me engana/Ai de mim, Copacabana/Ai de mim, Copacabana, ai de mim ...” (...) “Nesse país que me engana/Ai de mim, Copacabana/Ai de mim, Copacabana, ai de mim ...”. O estribilho ao fim é nauseante, o poeta-letrista se vê neste país que lhe engana, Copacabana que não lhe salva e nem lhe consola, Torquato vira Rubem Braga do avesso e o estribilho-coda é fatalista.

SEM TÍTULO : O poema vem com a estrofe-valise torquatiana, que é : “Vir/Ver/Ou/Vir”. E o poema segue em estrutura livre, e aqui vem a imagem da terra natal de Torquato, Piauí, no que segue : “a coroa do rio poti em teresina lá no Piauí, areia palmeiras/de babaçu e/céu e água e muito longe, depois, um caso de amor um casal uns e/outros.”. E segue, com a novela o terror da vermelha, e que vem num fluxo, o poema aqui ganha corpo de amálgama, o demônio e a águia, e a citação sousândrade, a loucura poética aqui ganha força e solidez, no que segue : “a hora da novela o terror da vermelha/o problema sem solução a quadratura do círculo o demônio a águia/o/número/do mistério dos elementos os quintais da minha terra é a minha/vida;/o faroesteiro da cidade verde/estás doido então? (sousândrade).”. O poema vem de conversa com gil, e aqui temos a estrada teresina-são luís, no que a imagem culmina em triste e teresina, que é tristeresina, no que vem : “conversa com/gilberto gil/e recomeço a/vir ver ou/aqui onde herondina faz o show/na estação da estrada de ferro teresina-são luís um dia de amanhã/ali/onde etim é sangrando/TRISTERESINA”. O poema aqui ganha a concepção de filme, e a linguagem tem seu papel ressaltado, alegoria que vira viagem, a língua que diz o mundo, no que segue : “saio, uma vez ferido de morte e me salvei/o primeiro filme – todos cantam sua terra/também vou cantar a minha/VIAGEM/LÍNGUA/VIALINGUAGEM/um documento secreto/enquanto a feiticeira não me vê/e eu pareço um louco”. O poeta-louco volta à sua terra, Teresina, e o poema ganha seu sol, sua zona tórrida, no que segue : “TERESINA/zona tórrida musa advir/uma ponta de filme – calças amarelas/quarto número seis sete cidades.”

LOUVAÇÃO : A música de Gilberto Gil e Torquato Neto, que tem a versão conhecida pelas vozes maravilhosas de Elis Regina e Jair Rodrigues, tem uma letra que celebra, ou melhor, louva, e tem uma certa verve positiva, no que segue : “Vou fazer a louvação, louvação, louvação/Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado./Meu povo, preste atenção, atenção, atenção./Repare se estou errado./Louvando o que bem merece,/Deixo o que é ruim de lado.”. A mensagem é boa e evidente, louva o que é bom, deixa o ruim de lado, e aqui a esperança ganha cores de fé e de medida de uma alma que bem sabe o que quer, no que segue : “Quem espera sempre alcança,/Três vêis salve a esperança!”. A letra de Torquato aqui tem graça e luz, seu estro tem uma fé que aqui é louvação, amor e paz contra a guerra, a exaltação do homem e da mulher, um banho de positividade que inunda toda a música e letra, e que nos enleva, numa força irresistível, no que segue : “Louvo agora e louvo sempre/O que grande sempre é :/Louvo a força do homem/E a beleza da mulher,/Louvo a paz pra haver na terra,/Louvo o amor que espanta a guerra.”. A letra aqui tem um corpo inteiro, potente, que registra a vida em toda a sua intensidade, no que segue : “Louvo a vida merecida/De quem morre pra viver,/Louvo a luta repetida/Da vida, pra não morrer.”. Aqui letra e canção, se louva a primavera, no que segue : “Louvo a casa onde se mora/De junto da companheira,/Louvo o jardim que se planta/Pra ver crescer a roseira,/Louvo a canção que se canta/Pra chamar a primavera.”. A letra aqui volta ao seu estribilho, que louva a fé que tem esperança, junta o bom e deixa o ruim, no que vem : “E assim fiz a louvação, louvação, louvação/Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado./Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,/Saberão se estive errado/Louvando o que bem merece,/Deixando o ruim de lado.”.

DOMINGOU : A música de Gilberto Gil e Torquato Neto vem das três horas da tarde, a imagem de domingo, no que vem : “São três horas da tarde/É domingo/Da janela a cidade se ilumina/Como nunca jamais se iluminou/São três horas da tarde/É domingo/Na cidade, no Cristo Redentor ê ê”. A letra de Torquato vem toda cantante, feita para a canção, no que segue : “É domingo ê ê/Domingou meu amor”. A letra aqui segue a forma-canção com mestria, no que vem : “Em Ipanema e no meu coração ê ê/É domingo no Vietnã/Na Austrália e em Itapuã/É domingo ê ê/Domingou meu amor/Quem tiver coração mais aflito/Quem quiser encontrar seu amor/Dê uma volta na praça do Lido/Ô skindô, ô skindô, ô skindô-lê-lê/Quem quiser procurar residência/Quem está noivo e já pensa em casar/Pode olhar o jornal, paciência/Tra-lá-lá tra-lá-lá ê ê”. A letra tem aqui a imagem do tempo passando, e o domingo que produz o verbo domingar, e o poeta diz, sem nenhuma dúvida no coração, domingou meu amor : “Olha o tempo passando,/Olha o tempo/É domingo, outra vez/Domingou meu amor ...” .

GO BACK : A música de Sérgio Britto e Torquato Neto tem um frescor, é jovial, tem até uma versão dos Titãs que enuncia este caráter mais descolado da letra, no que segue : “Você me chama/eu quero ir pro cinema/você reclama/meu coração não contenta/você me ama/mas de repente a madrugada mudou”. A letra então é certeira, objetiva, e não poupa seu interlocutor, e logo anuncia que é tarde, que tudo mudou, só importa o que dá certo, por certo, e melhor que seja assim, no que vem : “Só quero saber/do que pode dar certo/não tenho tempo a perder” (...) “agora é tarde/tempo perdido/mas se você não mora, não morou/é porque não tem ouvido/que agora é tarde/- eu tenho dito –/o nosso amor mixou/(que pena) o nosso amor, amor/e eu não estou a fim de ver cinema/(que pena).”. O letrista faz a sua transição, e diz que está indo, e vai atrás do que vai dar certo.

POEMAS :

AI DE MIM, COPACABANA

Um dia depois do outro
Numa casa abandonada, numa avenida
Pelas três da madrugada
Num barco sem vela aberta nesse mar
Nesse mar sem rumo certo
Longe de ti ou bem perto é indiferente, meu bem
Um ano depois do outro
Ao teu lado ou sem ninguém no mês que vem
Nesse país que me engana
Ai de mim, Copacabana
Ai de mim, Copacabana, ai de mim
Quero voar no Concorde
Tomar o vento de assalto numa viagem, num salto
Você olha nos meus olhos e não vê nada
Assim mesmo é que eu quero ser olhado
Um dia depois do outro
Talvez no ano passado é indiferente
Minha vida, tua vida
Meus sonhos desesperados
Nossos filhos, nosso fusca
Nossa boutique na Augusta
O Ford Galaxie e o medo de não ter um Ford Galaxie
O taxi, o bonde, a lua, meu amor é indiferente
Minha mãe, teu pai, a rua
Nesse país que me engana
Ai de mim, Copacabana
Ai de mim, Copacabana, ai de mim ...

Você olha nos meus olhos e não vê nada
É assim mesmo que eu quero ser olhado
Um ano depois do outro
Ao teu lado ou sem ninguém no mês que vem
Nesse país que me engana
Ai de mim, Copacabana
Ai de mim, Copacabana, ai de mim ...

(música de Caetano Veloso e Torquato Neto)

SEM TÍTULO

                                                                                       Vir
                                                                                       Ver
                                                                                       Ou
                                                                                       Vir  

a coroa do rio poti em teresina lá no Piauí, areia palmeiras
de babaçu e
céu e água e muito longe, depois, um caso de amor um casal uns e
outros.
procuro para todos os lados – localizo e reconheço, meu chicote na
mão
e os outros :
a hora da novela o terror da vermelha
o problema sem solução a quadratura do círculo o demônio a águia
o
número
do mistério dos elementos os quintais da minha terra é a minha
vida;
o faroesteiro da cidade verde

estás doido então? (sousândrade).
ela me vê e corre, praça joão luís ferreira.
esfaqueada num jardim
estudante encontrado morto

ando pelas ruas tudo de repente é novo para mim, a grama, o meu
caso de
amor, que persigo, esses meninos me matam na praça do liceu.
conversa com
gilberto gil
e recomeço a
vir ver ou
aqui onde herondina faz o show
na estação da estrada de ferro teresina-são luís um dia de amanhã

ali
onde etim é sangrando

TRISTERESINA

uma porta aberta semiaberta penumbra retratos e retoques
eis tudo, observei longamente, entrei e saí e novamente eu volto
enquanto
saio, uma vez ferido de morte e me salvei
o primeiro filme – todos cantam sua terra
também vou cantar a minha

VIAGEM/LÍNGUA/VIALINGUAGEM

um documento secreto
enquanto a feiticeira não me vê
e eu pareço um louco pela rua e um dia eu encontrei um cara muito
legal que eu me amarrei e nós ficamos muito amigos eu o via
o dia inteiro e a poucos conhecia tão bem.

VER

e deu-se que um dia o matei, por merecimento.
sou um homem desesperado andando à margem do rio parnaíba. 

BOIJARDIM DA NOITE

este jardim é guardado pelo barão. um comercial da pitu,
hommage,
à saúde de luiz otávio.
o médico e o monstro. hospital getúlio vargas. morte no jardim.
paulo josé, meu primo, estudante de comunicação em brasília,
morre
segurando bravamente seu rolling stone da semana

sol a pino e conceição

correndo sol a pino pela avenida

TERESINA

zona tórrida musa advir

uma ponta de filme – calças amarelas
quarto número seis sete cidades.

LOUVAÇÃO

Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.

E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior :
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vêis salve a esperança!

Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar,
Procede bem quem não para
De sempre e mais trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que devo ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem estiver me escutando, atenção, atenção.
Que me escute com cuidado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.

Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é :
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na terra,
Louvo o amor que espanta a guerra.

Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção.
Falo de peito lavado
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.

Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera.

Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.

E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.

(Música de Gilberto Gil e Torquato Neto)

DOMINGOU

São três horas da tarde
É domingo
Da janela a cidade se ilumina
Como nunca jamais se iluminou
São três horas da tarde
É domingo
Na cidade, no Cristo Redentor ê ê
É domingo no trólei que passa
É domingo na moça e na praça
É domingo ê ê
Domingou meu amor

Hoje é dia de feira
É domingo
Quanto custa hoje em dia o feijão
São três horas da tarde
É domingo
Em Ipanema e no meu coração ê ê
É domingo no Vietnã
Na Austrália e em Itapuã
É domingo ê ê
Domingou meu amor

Quem tiver coração mais aflito
Quem quiser encontrar seu amor
Dê uma volta na praça do Lido
Ô skindô, ô skindô, ô skindô-lê-lê
Quem quiser procurar residência
Quem está noivo e já pensa em casar
Pode olhar o jornal, paciência
Tra-lá-lá tra-lá-lá ê ê

O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que eu quero saber
As notícias que leio conheço
Já sabia antes mesmo de ler
Ê ê qual o filme que você quer ver?
Que saudade, preciso esquecer
É domingo
Ê ê domingou meu amor

Olha a rua meu bem, meu benzinho
Tanta gente que vai e que vem
São três horas da tarde
É domingo
Vamos dar um passeio também
Ê ê o bondinho viaja tão lento
Olha o tempo passando,
Olha o tempo
É domingo, outra vez
Domingou meu amor ... .

(Música de Gilberto Gil e Torquato Neto)

GO BACK

Você me chama
eu quero ir pro cinema
você reclama
meu coração não contenta
você me ama
mas de repente a madrugada mudou
e certamente
aquele trem já passou
e se passou
passou daqui pra melhor,
foi!

Só quero saber
do que pode dar certo
não tenho tempo a perder
você me pede
quer ir por cinema
agora é tarde
se nenhuma espécie
de pedido
eu escutar agora
agora é tarde
tempo perdido
mas se você não mora, não morou
é porque não tem ouvido
que agora é tarde
- eu tenho dito –
o nosso amor mixou
(que pena) o nosso amor, amor
e eu não estou a fim de ver cinema
(que pena).

(Música de Sérgio Britto e Torquato Neto)

Link da música “Louvação” (Elis Regina e Jair Rodrigues) : https://www.youtube.com/watch?

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.