PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 22 de abril de 2017

PÚCHKIN – POESIAS ESCOLHIDAS – PARTE III

“no dia 10 de fevereiro de 1837 o poeta morre”

BIOGRAFIA DE PÚCHKIN – PARTE III

Natália Púchkina era destaque na corte, mas Púchkin decide retirar-se com ela para o campo, no que temos o poema “É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila ...”, tudo isso em meio a dívidas que complicavam a vida do poeta. No campo Púchkin escreveu mais poesia e planejou publicar uma revista, até que George Dantès, jovem oficial francês emigrado, decide conquistar a mulher de Púchkin, a qual começou a receber cartas anônimas. No meio disso, Púchkin já tinha escrito bons versos como “Um monumento ergui a mim, obra extra-humana ...”, inspirado em Horácio.
Púchkin publica a pequena novela A filha do capitão, mas a situação econômica e sentimental continuam complicadas, até que o poeta recebe um papel anônimo que é um insulto com a inscrição “Diploma da Ordem dos Cornos”. Dantès continuou a assediar Natália Púchkina. Para Púchkin certamente haveria um duelo, e foi quando Dantès o desafiou.  O encontro realizou-se no dia 8 de fevereiro de 1837, e os que estudaram a vida de Púchkin dizem que a trama foi urdida nos círculos palacianos, com o objetivo de dar fim à vida do poeta, devido sobretudo a suas polêmicas contra o czar. Dantès foi o primeiro a atirar, e Púchkin, atingido mortalmente no estômago, conseguiu disparar contra o adversário e Dantès foi ferido na mão.
A notícia do duelo se espalha e no dia 10 de fevereiro de 1837 o poeta morre. Depois disso, a fama de Púchkin começa a crescer, sua obra é vastamente reconhecida. Sua poesia e sua prosa passam a ser reeditadas sempre, influenciando um mundo de escritores e artistas, sendo louvado pelos maiores prosadores e poetas russos. E Gógol nos diz: “Púchkin é um fenômeno extraordinário e, talvez, o único fenômeno do espírito russo.” Turguiênev: “Ele criou nossa língua literária, nossa língua poética, e a nós e a nossos sucessores resta apenas ir pelo caminho aberto pelo gênio dele (...). Sem falar da beleza viril, da força e da clareza de sua linguagem, essa verdade sincera, essa ausência de mentira e de estilo bombástico, essa franqueza e essa probidade de sentimentos (...) a nenhum de nós, seus compatriotas, surpreende que se encontrem nas obras de Púchkin, nem surpreende àqueles estrangeiros aos quais ele se torna acessível.” Dostoiévski: “Púchkin morreu no pleno desenvolvimento de suas forças e indiscutivelmente levou consigo, no ataúde, algum segredo grandioso. E esse segredo, nós, agora sem ele, tentamos adivinhar.” Górki: ‘Suas obras são o testemunho precioso de um homem inteligente, instruído e verídico sobre os usos, os costumes, as concepções de uma época célebre. Todas são ilustrações geniais da história russa.”

POEMAS:

OS DIABOS : O poema abre com um canto natural: “Nimbos giram, nimbos passam;/A lua, oculta sob véu,/Aclara os flocos que esvoaçam;/Turva, a noite; turvo, o céu./Vou, vou pelo campo aberto;”. E segue: ““Cocheiro, ande! ...” “Não se pode:/Duro é para os animais;/Nos olhos neve sacode/O ar. Rumo não se vê mais;”. O caminho se torna turvo e já não tem rumo, e o poema segue: “Agora, a agreste égua açula/À brecha, e ela ergue-se assim./Faz-se de marco e se estende/Na estrada, vejo-o acolá;” (...) “As éguas pararam; já/Cala a sineta. “Que vemos?”/“Um cepo? ou lobo será?”/Mais cresce a borrasca, e chora;”. O tempo é duro, na borrasca se chora, o poeta tenta ver, e vem: “E espíritos se amontoam/Na brancura – vejo, enfim.”. A presença dos espíritos, que estão na brancura, e o poeta novamente se funde à visão natural, de turvo clarão e de folhas de outono: “Infinitos, discrepantes,/Da lua ao turvo clarão,/Demos disformes, dançantes,/Quais folhas de outono, vão.”. E o poeta, condoído, finaliza: “Vão eles, bando trás bando,/Na ilimitada amplidão,/Gemendo, pranteando, uivando,/A pungir meu coração.”

ELEGIA : O poema tem um ar de dor, uma dose de loucura, o poeta aqui está na ressaca após a primavera da vida, lamenta e está nostálgico : “Dos anos loucos a alegria extinta,/Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta./Mas, como o vinho, é o remorso meu/Que mais forte ficou, se envelheceu./É triste minha estrada. E me anuncia/O mar ruim do porvir dor e agonia.”. Em meio das lamúrias de poeta, ainda busca o gozo, em meio da aflição, quer sentir ainda suas doses de alegria, no que segue: “E sei que há gozos para mim guardados/Entre aflições, desgostos e cuidados;” (...) “E talvez com sorrir de despedida/Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.”. O amor é uma das visões acalentadas, e o poema ainda tem esperança.

ARIÃO : O poema navega, é um verso forte, e se guia pelo mar revolto: “Nós éramos, na embarcação,/Muitos. Uns a vela esticavam;/Outros na fundura apoiavam/Remos pesados. Ao timão,/A pender, nosso hábil piloto/Guiava, em silêncio, o amplo batel;”. No que temos um choque: “Morreu o audaz navegador!/Só eu, clandestino cantor,/Na praia, longe da procela,/O hino de antes a cantar,/A casula estou a secar/Ao pé da fraga, à diurna estrela.”. O poeta quer cantar seu hino, na morte do navegador, ele faz versos.

O PROFETA : O poema tem um tom místico, e está cheio de vida, e o poeta está com sede de espírito, no que se arrasta e tenta a liberdade alcançar: “Cheio de sede espiritual,/No ermo sombrio eu me arrastava,/E um serafim, ou ser igual,/Na encruzilhada me esperava.”. E o poema segue: “Ouço dos céus o movimento,/De anjos do empíreo o adejar,/Do que há sob a água o rastejar/E da videira o crescimento.”. A visão dos anjos agora tem também a luta interior no coração do poeta, que segue: “Meu peito com gládio fendeu,/Sacou-me o coração convulso,/E um carvão em brasa meteu/No lugar do órgão avulso./Qual morto nesse ermo a jazer,/Ouvi a voz de deus dizer:/“Levanta, vate, acorre a atende,/Dá ao que quero execução,/E, indo por mar e terra, acende/Com fogo cada coração.””. O fogo e a brasa que acendem no coração também podem ser poesia.

A TCHAADÁEV : O poema se abre diante da doce ilusão dos sentimentos nobres: “Amor, glória quieta e esperança/Foram nossa breve ilusão;”. E o coração convulsionado, está impaciente: “Nosso impaciente coração/Da pátria sob autoridade/Fatal ouve a convocação.” (...) “Enquanto o ardente coração/Incitam honra e liberdade,/Do íntimo a nobre agitação/Demos à pátria, amigo, e à idade.” (...) “Do sono a Rússia acordará/E na aversão da autocracia/Teu nome e o meu escreverá.”. E a crítica política fecha este poema em que o coração do poeta está cheio e ardente, com a esperança da Rússia acordar.

POEMAS:

OS DIABOS

Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Vou, vou pelo campo aberto;
A sineta faz tlim-tlim ...
No plaino estranho, decerto,
Medo involuntário há, sim!

“Cocheiro, ande! ...” “Não se pode:
Duro é para os animais;
Nos olhos neve sacode
O ar. Rumo não se vê mais;
Nem de morto avisto traço;
Perdemo-nos. Que fazer?
O Cão nos trouxe a este passo
E está em volta a correr.

Olhe: ele lá brinca e pula,
Soprando, a zombar de mim;
Agora, a agreste égua açula
À brecha, e ela ergue-se assim.
Faz-se de marco e se estende
Na estrada, vejo-o acolá;
E ei-lo adiante, apaga-acende,
Antes que à treva erma vá.”

Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob o véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Para mais, força não temos;
As éguas pararam; já
Cala a sineta. “Que vemos?”
“Um cepo? ou lobo será?”

Mais cresce a borrasca, e chora;
Cada égua, arisca, a fungar;
Ei-lo, aos saltos, longe, agora;
Olhos, na névoa, a brilhar;
As éguas outra vez voam.
A sineta faz tlim-tlim ...
E espíritos se amontoam
Na brancura – vejo, enfim.

Infinitos, discrepantes,
Da lua ao turvo clarão,
Demos disformes, dançantes,
Quais folhas de outono, vão.
Quantos! Que meta os atende?
Que vão, queixosos, a entoar?
Vão enterrar um duende?
Vão uma bruxa casar?

Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Vão eles, bando trás bando,
Na ilimitada amplidão,
Gemendo, pranteando, uivando,
A pungir meu coração.
(1830)

ELEGIA

Dos anos loucos a alegria extinta,
Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta.
Mas, como o vinho, é o remorso meu
Que mais forte ficou, se envelheceu.
É triste minha estrada. E me anuncia
O mar ruim do porvir dor e agonia.

Mas não desejo, amigos meus, morrer;
Quero ser para pensar e sofrer.
E sei que há gozos para mim guardados
Entre aflições, desgostos e cuidados;
Inda a concórdia poderei cantar,
Sobre prantos fingidos triunfar,
E talvez com sorrir de despedida
Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.
(1830)

ARIÃO

Nós éramos, na embarcação,
Muitos. Uns a vela esticavam;
Outros na fundura apoiavam
Remos pesados. Ao timão,
A pender, nosso hábil piloto
Guiava, em silêncio, o amplo batel;
E eu – descuidado menestrel –
A cantar-lhes ... Mas tufão cruel
Da onda torna o seio roto ...
Morreu o audaz navegador!
Só eu, clandestino cantor,
Na praia, longe da procela,
O hino de antes a cantar,
A casula estou a secar
Ao pé da fraga, à diurna estrela.
(1827)

O PROFETA

Cheio de sede espiritual,
No ermo sombrio eu me arrastava,
E um serafim, ou ser igual,
Na encruzilhada me esperava.
Minhas pupilas tocou com
Dedos leves qual sonho bom:
Para prever fê-las bastantes
E às da águia arisca semelhantes.
As mãos nestas ouças apor
Quis, e ei-las plenas de rumor:
Ouço dos céus o movimento,
De anjos do empíreo o adejar,
Do que há sob a água o rastejar
E da videira o crescimento.
Para meus lábios se inclinou
E a língua insana me arrancou
Que era astuciosa e maldizente,
E da sábia serpe o aguilhão,
Com sua ensanguentada mão
Pôs-me entre glaciais dente e dente.
Meu peito com gládio fendeu,
Sacou-me o coração convulso,
E um carvão em brasa meteu
No lugar do órgão avulso.
Qual morto nesse ermo a jazer,
Ouvi a voz de deus dizer:
“Levanta, vate, acorre a atende,
Dá ao que quero execução,
E, indo por mar e terra, acende
Com fogo cada coração.”
(1826)

A TCHAADÁEV

Amor, glória quieta e esperança
Foram nossa breve ilusão;
Passou dessa quadra a folgança:
Sono, matinal cerração.
Mas arde em nós inda vontade:
Nosso impaciente coração
Da pátria sob autoridade
Fatal ouve a convocação.
Aguardamos com fé estuante
Da hora da liberdade o soar,
Tal como aguarda o moço amante
A hora do encontro regular.
Enquanto o ardente coração
Incitam honra e liberdade,
Do íntimo a nobre agitação
Demos à pátria, amigo, e à idade.
Crê, camarada: elevar-se-á
Feliz estrela de almo dia;
Do sono a Rússia acordará
E na aversão da autocracia
Teu nome e o meu escreverá.
(1818)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/33672/17/puchkin-poesias-escolhidas-parte-3 



domingo, 9 de abril de 2017

PÚCHKIN – POESIAS ESCOLHIDAS – PARTE II

“a polícia foi ordenada a vigiar Púchkin secretamente.”

BIOGRAFIA DE PÚCHKIN – PARTE II

A sublevação de 14 de dezembro de 1825 é conhecida como “sublevação dos dezembristas”, a qual visava a derrubada da autocracia e a instauração de um regime constitucional, e que resultou em fracasso, e entre os papéis dos que foram capturados encontravam-se poesias de Púchkin. Este, por sua vez, decidiu apelar ao czar contra o enforcamento dos prisioneiros, mas Jukóvski lhe convenceu a continuar escrevendo a sua tragédia sobre Godunov.
Contudo, em setembro de 1826, o czar mandou um correio militar a Mikháilovskoie para levar Púchkin até Moscou, e o czar foi benevolente com o poeta, pois não se incomodou com o fato de Púchkin ter estado entre os sublevados, já que perdoou o poeta e lhe autorizou a permanência em Moscou.
Logo em seguida, foi publicado o volume de Poemas de Púchkin, que é bem recebido pelo público e pela crítica, porém a tragédia Boris Godunov, que ainda não tinha sido editada, fez com que o czar sugerisse alterações, no que Púchkin não concordou, demorando cinco anos para tal trabalho ir ao prelo.
Púchkin então frequenta o salão da princesa Zinaida Volkónskaia, no que Púchkin lhe musica os versos de “Apagou-se a diurna estrela”, e é neste meio que o poeta encontra a esposa de um dos dezembristas, Aleksandra Muraviova, e surgem duas poesias: uma para o amigo Púchtchin; e outra, para os prisioneiros dezembristas, e ainda a composição, também para os dezembristas, Arião. 
Pouco tempo depois, sua poesia André Chenier, que fora impressa com lacunas provocadas pela censura, o coloca de novo diante da polícia para esclarecimentos, e um dos trechos tirados pela censura se espalha com o título Ao 14 de Dezembro, que é a data da sublevação dos dezembristas, no que o poeta diz que tal escrito tinha sido feito antes da sublevação, e que se referia à Revolução Francesa. No entanto, a polícia foi ordenada a vigiar Púchkin secretamente.
Em Petersburgo, Púchkin se apaixona por Anna Olênina, filha do presidente da Academia de Artes, e ao ouvi-la cantar algo de Glinka, se lembra de Maria Raiévskaia, e faz a poesia “Não cantes, bela, frente a mim ...”. Contudo, é recusado pelo pai da jovem, pois mesmo com o talento, era um alvo de desconfiança pelas autoridades.
Em Moscou, Púchkin encontra o amor da sua vida, e também causa de sua morte, Natália Gontcharova, então com 16 anos, e pede aos Gontcharov a mão de Natália, no que é admitido pela família.  Neste ínterim, o pai de Púchkin lhe deixa parte de sua propriedade. O poeta viaja para Boldino, e ali escreve várias poesias, entre as quais Os diabos e Elegia (“Dos anos loucos a alegria extinta ...”), e consegue terminar Evguêni Onêguin, que já tinha várias partes publicadas nos anos anteriores, e o autor, finalmente, considera terminada a sua obra no outono de 1831. E escreve, logo a seguir, em prosa, as Novelas do finado Ivan Petróvitch Bélkin, que é um conjunto de cinco estórias, mas que é mal recebida pela crítica, e que só ganha espaço aos poucos, pois o ambiente literário ainda era dominado, geralmente, pelo estro byroniano.
Púchkin escreveu depois o conjunto a que chamou Cenas dramáticas: O cavaleiro avarento, Mozart e Salieri, O convidado de pedra, O festim no tempo da peste, vindo também História do povoado de Goriúkhin e trabalhos para um jornal literário publicado por Dél`vig. E o poeta se casa com Natália Gontcharova no dia 18 de fevereiro de 1831, e a ela dedica um belo soneto de título Madona. E a glória alcançada pelo poeta permitia que Natália tivesse acesso aos círculos sociais, o que levou Púchkin a gastar mais do que tinha, se endividando com empréstimos ao tesouro público.
Púchkin então viaja para colher material para a sua História de Pugatchov, que era sobre o chefe de rebelião camponesa na Rússia do século XVIII, e em Boldino, em menos de dois meses, ele compõe este trabalho, mais os poemas Ângelo e O cavaleiro de bronze, o Conto do pescador e do peixinho (em verso) e a pequena novela A dama de espadas, dentre outros escritos. E também deixa a sua poesia, O outono, inacabada.  

POEMAS:

SEM TÍTULO : O poema, bem inspirado em estro amoroso, contém certo esgar amargo, um efeito visual de agonia, e o som da canção da musa que Púchkin já não quer ouvir: “Não cantes, bela, frente a mim,/Tuas canções da Geórgia triste:”. E a memória padece desta agonia que traz a canção, a tristeza da Geórgia, e o poema que contempla a paisagem e a própria dor, que se misturam neste poema: “Ai! elas me fazem lembrar,/Essas dolorosas canções,/A estepe, a noite e, vista ao luar,/De pobre donzela as feições.”.

O TALISMÃ : O poema tem um tom místico, o mito do talismã que protege aquele que o carrega, e que até tem este viés de sorte também, e o poeta descreve tal dom espiritual de tal símbolo: “Lá onde o mar se esparrama/Sobre pétrea solidão,/E o luar morno se derrama/Sobre a grata escuridão,” (...) “A maga, em meio a carícias,/Entregou-me um talismã./E falou-me carinhosa:/“Conserva meu talismã:/Nele há força misteriosa!”. A força deste mistério o poema canta, e contra os males o poema tem no talismã sua homenagem: “Contra doença e sepultura,/Tempestade e tufão,” (...) “As riquezas do Oriente/Ele não te ofertará,”. Portanto, não é a riquezas que o talismã se dirige, mas a algo essencial, o poder de deter as ameaças, e que o poema dá a nota: “Mas quando olhada astuciosa,/Súbito, te enfeitiçar,” (...) “Da traição e do olvido/Livrará meu talismã!””.

O CÁUCASO : O poema tem uma descrição de uma paisagem de abismo, e o poeta lhe dá o verso certo: “O Cáucaso observo. Num pico, de pé,/Estou sobre as neves, de abismo diante;”. E vai adiante, com o movimento que lhe dá: “Daqui, das torrentes vejo o nascimento,/Do alude funesto o inicial movimento.”. E a paisagem vira um tipo de fera, e que é um império de colosso, a opressão de tudo o que é vasto e grandioso canta o poema em estro tonitruante: “Brinca e ruge, como cria de animal/Querendo a ração que está fora da grade,/A lançar-se à praia, em sua hostilidade,/E, ávido, a lamber as rochas, por seu mal .../Debalde! ração não acha ou refrigério:/Colosso calado o oprime com império.”.

SEM TÍTULO : A lira do poeta quer erguer o sobrenatural, ir além da capacidade humana, o impossível aqui é o poema que tenta ser um monumento: “Um monumento ergui a mim, obra extra-humana./Sua vereda o mato não há de ocultar.”. E a lira também se quer imortal, enfrenta a morte e deseja a glória: “Todo não morrerei: a alma que pus na lira/As cinzas vencerá, da morte há de escapar;/Fama no orbe terei que sob a lua gira/Enquanto um poeta restar./Ouvirá sobre mim toda a Rússia grandiosa,/Nela fará meu nome a cada língua jus:”. A profecia histórica do grande poeta russo, e que faz deste um dos maiores, e que também sabe de tudo, já que é profeta, não dá asas ao elogio e à calúnia, e sabe muito bem que aquele que sempre se insinua e acha pretexto, é um rematado paspalho, e isso a poesia sabe identificar no rumo que o verso dá: “Ao chamado maior, sê, Musa, obediente,/Sem ofensas temer, sem pedir galardão;/Elogio e calúnia acolhe, indiferente,/Nem dês ao paspalho atenção.”.

SEM TÍTULO : O poema conflita com a loucura, e a luz da razão é aqui bem valorada: “Que eu não perca a luz da razão./Antes a sacola e o bordão./Prefiro a fome e a dor./Não é que eu minha lucidez/Estime, e não queira de vez/Seus limites transpor.”. Mas logo o descompasso fértil é o próprio êxtase, esta harmonia invisível aos que vivem como mortais, e que ao poeta aparece como as suas visões originais: “Vejo-me, em êxtase, a cantar,/De mim ausente, a suscitar,/Visões originais.”. E o poeta canta a liberdade: “Livre, mostraria vigor”. Mas o poeta sabe que é a ruína perder a razão, no que o poema segue: “Desgraça é: perde a razão,/E como à peste temer-te-ão,/Preso sempre estarás;/A ferros o louco porão,/E pela grade atiçar-te-ão/Como a cria alguém faz./Rouxinol, à noite, afinal,/Não ouvirei, ou carvalhal/- Doces murmurações -,/Mas de amigos meus o clamor,/Pragas de noturno inspetor,/Guinchos, sons de grilhões.”. A loucura, ao fim, é quando o êxtase se dilui insano e leva o poeta aos grilhões, uma sandice de que o poeta é pródigo (todos os poetas).

O ANTIAR : A imensidão se abre no poema, e o veneno está presente, inclemente: “Em erma e seca solidão,/Solo que o sol torna candente,/Ergue-se, em meio à imensidão,/Sozinho, o antiar, guarda inclemente.”. O feitiço que mata, eis: “Ave em seu rumo não vai, nem/Tigre se achega: o remoinho,/Só, pousar nessa árvore vem/E logo a deixa, já daninho.”. Mas tem os que trazem o tal veneno: “Alguém, no entanto, alguém mandou/Ao antiar, com soberbo aceno/Do olhar, e, dócil, caminhou/O outro e, manhã, trouxe o veneno.” (...) “Trouxe – e deitou-se, sem vigor,” (...) “E o czar no veneno embebeu/As setas suas obedientes/E nelas morte remeteu/A mais países e outras gentes.”. E o veneno, ao fim, torna a morte ampla em seu poder, no que o poeta constata a queda geral na sua coda.

POEMAS:

SEM TÍTULO

Não cantes, bela, frente a mim,
Tuas canções da Geórgia triste:
Fazes-me recordar assim
Viver em praia que não viste.

Ai! elas me fazem lembrar,
Essas dolorosas canções,
A estepe, a noite e, vista ao luar,
De pobre donzela as feições.

Eu a meiga e fatal visão
Esqueço quando estás presente.
Mas entras a cantar, e então
A moça lembro novamente.

Não cantes, bela, frente a mim,
Tuas canções da Geórgia triste:
Fazes-me recordar assim
Viver em praia que não viste.
(1828)

O TALISMÃ

Lá onde o mar se esparrama
Sobre pétrea solidão,
E o luar morno se derrama
Sobre a grata escuridão,
Onde, do harém nas delícias,
Dias passa o fiel do Islã,
A maga, em meio a carícias,
Entregou-me um talismã.

E falou-me carinhosa:
“Conserva meu talismã:
Nele há força misteriosa!
E é dado com paixão grã.
Contra doença e sepultura,
Tempestade e tufão, sã
Tua cabeça, e segura,
Não dará meu talismã.

As riquezas do Oriente
Ele não te ofertará,
Nem a muçulmana gente
Sob teu governo porá;
Nem de cruéis terras estranhas
Ao seio desta alma irmã
Por vales e por montanhas
Trar-te-á meu talismã ...

Mas quando olhada astuciosa,
Súbito, te enfeitiçar,
Ou, em noite tenebrosa,
Outra boca te beijar,
Da perfídia, meu querido,
Da dor no imo e seu afã,
Da traição e do olvido
Livrará meu talismã!”
(1827)

O CÁUCASO

O Cáucaso observo. Num pico, de pé,
Estou sobre as neves, de abismo diante;
Havendo-se alçado de cume distante,
Uma águia pairando ante mim ora é.
Daqui, das torrentes vejo o nascimento,
Do alude funesto o inicial movimento.

Aqui nimbos passam, humildes, sob mim;
Despenham-se entre eles cachoeiras rugindo;
Sob elas penhascos lisos vão surgindo;
Musgo e sarça, secos, abaixo há, e, enfim,
Ali vejo bosques, caminhos sombreados
Onde aves gorjeiam e folgam veados.

Lá ninho até gente nas montanhas faz,
Ovelhas saltitam nas gratas vertentes,
E desce o pastor para as várzeas ridentes
Que o Aragva entre sombras percorre sem paz,
E o pobre a cavalo em garganta se oculta
Onde o Térek brinca e, em sua fúria, exulta.

Brinca e ruge, como cria de animal
Querendo a ração que está fora da grade,
A lançar-se à praia, em sua hostilidade,
E, ávido, a lamber as rochas, por seu mal ...
Debalde! ração não acha ou refrigério:
Colosso calado o oprime com império.
(1829)
(Aragva: Rio da Geórgia.)
(Térek: Rio que nasce na Geórgia e desemboca no Mar Cáspio.)

SEM TÍTULO

                      Exegi monumentum.
                      Horácio (livro III, ode XXX)

Um monumento ergui a mim, obra extra-humana.
Sua vereda o mato não há de ocultar.
Eleva-se bem mais sua cúpula ufana
Do que o alexandrino pilar.

Todo não morrerei: a alma que pus na lira
As cinzas vencerá, da morte há de escapar;
Fama no orbe terei que sob a lua gira
Enquanto um poeta restar.

Ouvirá sobre mim toda a Rússia grandiosa,
Nela fará meu nome a cada língua jus:
O finês, o calmuco estépico, a orgulhosa
Que herdou o eslavo, e a do tungus.

E o povo me amará durante longa idade,
Pois nobres propensões com a lira espertei,
Pois num tempo cruel cantei a Liberdade
E pelos caídos roguei.

Ao chamado maior, sê, Musa, obediente,
Sem ofensas temer, sem pedir galardão;
Elogio e calúnia acolhe, indiferente,
Nem dês ao paspalho atenção.
(1836)

SEM TÍTULO

Que eu não perca a luz da razão.
Antes a sacola e o bordão.
Prefiro a fome e a dor.
Não é que eu minha lucidez
Estime, e não queira de vez
Seus limites transpor.

Se à minha própria discrição
Eu fosse entregue, iria então
Por-me entre os vegetais!
Vejo-me, em êxtase, a cantar,
De mim ausente, a suscitar,
Visões originais.

Escutaria os escarcéus,
Observaria os ermos céus,
Feliz – como hoje, não;
Livre, mostraria vigor
Igual a quando passa por
Campo ou bosque, o tufão.

Desgraça é: perde a razão,
E como à peste temer-te-ão,
Preso sempre estarás;
A ferros o louco porão,
E pela grade atiçar-te-ão
Como a cria alguém faz.

Rouxinol, à noite, afinal,
Não ouvirei, ou carvalhal
- Doces murmurações -,
Mas de amigos meus o clamor,
Pragas de noturno inspetor,
Guinchos, sons de grilhões.
(1833)

O ANTIAR

Em erma e seca solidão,
Solo que o sol torna candente,
Ergue-se, em meio à imensidão,
Sozinho, o antiar, guarda inclemente.

Criou-o em tarde de furor
A sequiosa estepe, e pleno
Fez, das raízes o verdor
E o da ramagem, de veneno.

Ele, do córtex através,
Goteja no tórrido ambiente,
À noite coalhando, ao invés,
Em óleo espesso e transparente.

Ave em seu rumo não vai, nem
Tigre se achega: o remoinho,
Só, pousar nessa árvore vem
E logo a deixa, já daninho.

Se acaso, errante, um nimbo alui
Sobre essa espessa folharada,
Já dela envenenada flui
A chuva na areia esbraseada.

Alguém, no entanto, alguém mandou
Ao antiar, com soberbo aceno
Do olhar, e, dócil, caminhou
O outro e, manhã, trouxe o veneno.

Trouxe ele a resina mortal
E um galho com folhas fanadas;
Lívido estava, e do frontal
Vinham de suor ondas geladas.

Trouxe – e deitou-se, sem vigor,
Sob uma choça de entrecasca,
E aos pés do insensível senhor
Sofreu o escravo a última vasca.

E o czar no veneno embebeu
As setas suas obedientes
E nelas morte remeteu
A mais países e outras gentes.
(1828)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/33567/17/puchkin-ij-poesias-escolhidas-ij-parte-ii




sexta-feira, 7 de abril de 2017

REPUBLIQUETA

Bem-vinda república, que mal
lhe assoma? Como canalhas
lhe usurpam a face cândida?

Eu tenho que notificar os suicídios
enumerados como facas
nos boquirrotos de salão.

Fazer métodos de escrutínio
com os delatores de fancaria.

Proteger os sábios de suas inocências,
atacar os sádicos de sua insciência.

Vamos! Anacoretas com os bolsos cheios,
tirar do povo seu sustento,
dar aos apaniguados suas carteiras,
e aos amigos e filhos
o tesouro incalculado.

Vamos, que a hora é chegada,
a hora é esta!

Está posto:
todos os canalhas da república bananeira
comerão seus pesadelos depois da festa,
como esqueletos já depois
de estarem gordos.

07/04/2017 Gustavo Bastos

FIANÇA

Eu dizia à lua:
"Tu és branca e branda,
flor demoníaca."

E cada castelo de cratera
anunciava aos gritos:
"Estamos fodidos!"

O trabalho braçal é seco
e breve.
Os campos de batalha
estão dispostos
em camadas de tiro.

E tens em lua febril
o ardil do sol,
e tens em saturno anelando
o sonho, uma carta misteriosa
de criptografia entre
silêncios.

Faz de Júpiter um elmo pagão,
em todo trabalho de hefestos
que malha o ferro
como os gritos tontos
da anarquia.

Me faz lua sonhar,
enquanto o dia trabalha.

07/04/2017 Gustavo Bastos

LEVANTE CONTRA O ÓCIO

Levanta e anda!
À cada um, bem o sabeis,
as suas próprias vidas.

Destarte, o meio campo entre
os jornais e os anúncios,
a carta de despedida
é um mal menor,
todos estão assustados
com o ataque frontal
das armas.

Alumia este brio de extermínio,
como em novelas violentas
e filmes híbridos entre o tempo ido
e o tempo vindouro,
como poemas russos
na flor da revolução.

Levanta e anda!
Tuas contas estão como um negror aviltante
de guerra, o teu terço socorre a febre
montada nas dores de senzala,
corre e come o que tens!

À cada um os seus doces e amargos,
e todos os dias comemos farinha
com as mãos, e cada dia como um sopro
ganhamos e perdemos a canção.


07/04/2017 Gustavo Bastos

domingo, 2 de abril de 2017

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE I

“muitos se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso”

INTRODUÇÃO

O livro de Ítalo Calvino “Por que ler os clássicos” contém artigos e ensaios do autor sobre o que ele considera os seus clássicos, e que são os escritores, poetas e cientistas que mais o marcaram em vários períodos da sua vida. Segundo Calvino, quando ele abre o livro e sua reflexão, os clássicos são aqueles livros que se pode dizer que : “Estou relendo ...” e nunca “Estou lendo ...”.
A reiteração tem um sentido muito importante, pois Calvino constata, e isso para qualquer adepto da leitura em geral é um fato inexorável, de que muitos se “envergonham de admitir não ter lido um livro famoso”. Mas isso é o fato principal e mais normal para todo grande leitor, pois para Calvino “bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras “de formação” de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu”.
E Calvino exemplifica o drama, bem normal, quando nos diz: “Quem leu tudo de Heródoto e de Tucídides levante a mão. E de Saint-Simon? E do cardeal de Retz? E também os grandes ciclos romanescos do Oitocentos são mais citados do que lidos.” Diz que, embora Balzac seja muito lido na França, não acontece o mesmo na Itália, e que os leitores de Dickens neste país configuram apenas uma pequena elite fora da curva. E tal fato nos diz que a qualidade da leitura de um autor passa pela influência local, isto é, também cultural e que envolve identidades que são tanto geográficas como históricas.
E neste aspecto de sentido histórico, Calvino nos diz: “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes)”. No que temos esta valência tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. E a chave de leitura dos clássicos tem um quesito muito importante para Calvino, que é o de que a leitura direta dos textos originais é o recomendável, e não, como alguns supõem, sua bibliografia crítica, comentários e interpretações.
E um problema prático se apresenta, quando Calvino nos alerta com o seguinte: “não posso mais adiar o problema decisivo de como relacionar a leitura dos clássicos com todas as outras leituras que não sejam clássicas”. Tal problema vem com a hipótese de que “uma pessoa feliz que dedique o “tempo-leitura” de seus dias exclusivamente a ler Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, o Discours de la méthode, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas divagações para Murasaki ou para as sagas islandesas. Tudo isso sem ter de fazer resenhas do último livro lançado nem publicações para o concurso de cátedra e nem trabalhos editoriais sob contrato com prazos impossíveis. Essa pessoa bem-aventurada, para manter sua dieta sem nenhuma contaminação, deveria abster-se de ler os jornais, não se deixar tentar nunca pelo último romance nem pela última pesquisa sociológica. Seria preciso verificar quanto um rigor semelhante poderia ser justo e profícuo”. E sabemos, que nas condições atuais, este leitor privilegiado simplesmente não existe.
Um exemplo de leitor ideal Calvino nos dá com o escritor Leopardi, este que “dada a sua vida no solar paterno, o culto da antiguidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegadas no máximo a um papel secundário, (...) mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, etc.” E vemos que hoje tal educação clássica como a do jovem Leopardi é impossível, pois para Calvino “sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicaram, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas.”

ODISSEIA

Calvino, no livro então, abre sua compilação de artigos e ensaios com a Odisseia, e a coloca no contexto de uma narração épica do retorno, nos dizendo que “o início do poema, a Telemaquia é a busca de uma narrativa que não existe, aquela narrativa que será a Odisseia.” E o fato crucial é da propriedade da narrativa, que nos aparece fluida, pois há uma transmissão de tal órbita quando Calvino nos diz: “Menelau aparece com uma fantástica aventura: disfarçado de foca, capturou o “velho do mar”, isto é, Proteu das infinitas metamorfoses, e obrigou-o a contar-lhe o passado e o futuro. Certamente Proteu já conhecia toda a Odisseia de ponta a ponta: começa a relatar as aventuras de Ulisses do mesmo ponto que Homero, com o herói da ilha de Calipso; depois se interrompe. Naquela altura, Homero pode substituí-lo e continuar a narração.”
Ulisses, que ouve um aedo cego como Homero, ouve a Odisseia como o relato de sua viagem e retorno, e o herói explode em lágrimas; e depois se decide a narrar ele próprio. E Calvino nos dá a chave de leitura que fundamenta a Odisseia, que é o sentido de que “este retorno-narrativa é algo que já existe, antes de se completar: preexiste à própria atuação. Já na Telemaquia, encontramos as expressões “pensar o retorno”, “dizer o retorno”.”
E Calvino conflita isto com a ideia de perda da memória, na qual Ulisses se arrisca quando “uma das primeiras etapas da viagem contada por Ulisses, aquela na terra dos lotófagos, comporta o risco de perder a memória, por ter comido o doce fruto do lótus. Que a prova do esquecimento se apresente no início do itinerário de Ulisses, e não no fim, pode parecer estranho. Se, após ter superado tantos desafios, suportado tantas travessias, aprendido tantas lições, Ulisses tivesse esquecido algo, sua perda teria sido bem mais grave: não extrair experiências do que sofrera, nenhum sentido daquilo que vivera.”
E tal “perda da memória é uma ameaça que nos cantos IX-XII se repropõe várias vezes: primeiro com o convite dos lotófagos, depois com os elixires de Circe e mais tarde com o canto das sereias.” E Calvino conclui, e que é o sentido do retorno para este poema épico: “Ulisses não deve esquecer o caminho que tem de percorrer, a forma de seu destino: em resumo, não pode esquecer a Odisseia.” E a viagem e retorno de Ulisses tem o sentido não de uma regressão, mas sim de uma restauração.
Tais aventuras marítimas estão concentradas em quatro livros centrais da Odisseia, e que é uma rápida sucessão de encontros com seres fantásticos, e que fazem contraste com o restante do poema, em que, segundo Calvino “dominam os tons graves, a tensão psicológica, o crescendo dramático gravitando sobre um objetivo” e que “também aqui se encontram motivos comuns às fábulas populares, como o tecido de Penélope e a prova de arco e flecha, mas estamos num terreno mais próximo dos critérios modernos de realismo e verossimilhança: as intervenções sobrenaturais concernem somente às aparições dos deuses olímpicos, em geral encobertos por feições humanas.” E que configuram, por fim, uma fronteira que Calvino afirma como o fato de que “só nos resta atribuir as diversidades de estilo fantástico àquela montagem de tradições de diferentes origens transmitidas pelos aedos e depois desembocadas na Odisseia homérica, e que no relato de Ulisses na primeira pessoa revelaria seu substrato mais arcaico.”
E Calvino afirma também que mesmo antes da Odisseia e da Ilíada, Ulisses sempre fora um herói épico, e que tais heróis épicos não costumam ter aventuras fabulares do gênero do início da Odisseia, na base de conflito com monstros e encantos diversos. Mas como Ulisses está numa passagem de dez anos em exílio, tal recurso ao fantástico e sobrenatural é um modo de contar este exílio, e que, segundo Calvino, “para tal extrapolação dos territórios da épica, o autor da Odisseia recorre a tradições (estas, sim, mais arcaicas) como as peripécias de Jasão e dos argonautas.” E Calvino conclui, então, nos dizendo: “Portanto, constitui a novidade da Odisseia ter colocado um herói épico como Ulisses às voltas “com bruxas e gigantes, com monstros e devoradores de homens”, isto é, em situações de um tipo de saga mais arcaico, cujas raízes devem ser buscadas “no mundo da antiga fábula e até de primitivas concepções mágicas e xamanísticas”.” Portanto, as raízes da Odisseia e de sua narrativa estão no mais profundo recôndito do mundo arcaico, num tempo perdido da História e do mito. 

AS METAMORFOSES

Ovídio, na abertura das Metamorfoses, aproxima o mundo celeste dos deuses do mundo cotidiano romano, incluindo, como nos diz Calvino, seu “urbanismo, divisão em classes sociais, hábitos cotidianos”. E Calvino também afirma que Ovídio também faz isso “enquanto religião: os deuses mantêm seus protetores nas casas onde residem, o que implica que os soberanos dos céus e da terra tributam por sua vez um culto a seus pequenos deuses domésticos”.
As Metamorfoses de Ovídio nos apresenta um universo em que as formas estão densamente povoando o espaço, com um intercâmbio intenso de qualidades e dimensões, com o fluxo do tempo ocupado na proliferação dos contos e ciclos de contos que compõem a narrativa de Ovídio. Segundo Calvino “as formas e as histórias terrestres repetem formas e histórias celestes, mas umas e outras se entrelaçam reciprocamente numa dupla espiral”. Há, portanto, uma contiguidade entre deuses e seres humanos, pois são parentes dos deuses e objeto de seus amores compulsivos, e tal relação de contiguidade é um dos temas dominantes das Metamorfoses, com tal fusão incluindo também tudo o que existe, ou seja, fauna, flora, reino mineral, e até o firmamento, criando um espaço comum em que tudo se relaciona com tudo. Pois, para Calvino “a mescla deuses-homens-natureza implica não uma ordem hierárquica unívoca mas um intricado sistema de interações em que cada nível pode influir sobre os outros, mesmo que em medidas diferentes. O mito, em Ovídio, é o campo de tensão em que tais forças se defrontam e se equilibram”. 
Do Oriente, por exemplo, por meio do romance alexandrino, Ovídio absorve a técnica “de multiplicação do espaço interior à obra mediante os relatos encadeados uns nos outros, que aqui fazem aumentar a impressão de densidade, de aglomeração, de enredamento. Assim, continuamente se decantam nas Metamorfoses novas concreções de histórias”. E Calvino pontua: “a paixão que domina seu talento compositivo não é sistematicidade mas a acumulação, que anda junto com as variações de perspectiva, as mudanças de ritmo”.
As Metamorfoses configuram um poema em que tudo se sucede com rapidez, o ritmo acelerado de acumulação sem sistema é um caldo em que “cada imagem deve sobrepor-se a uma outra imagem, adquirir evidência, dissolver-se”. E também temos, por outro lado, os momentos em que o relato se torna menos célere, num andamento mais calmo, e neste momento Ovídio suspende o tempo numa apreensão dos detalhes que ele narra, numa descrição de coisas miúdas, e “mais adiante excitada e impaciente por saturar o maravilhoso da fábula com a observação objetiva dos fenômenos da realidade natural”. E, por fim, Calvino nos diz que Ovídio também prima por uma característica que é o seguinte: “uma lei de máxima economia interna domina esse poema aparentemente voltado para o dispêndio desenfreado. É a economia própria das metamorfoses, que pretende que as novas formas recuperem tanto quanto possível os materiais das velhas”.
Para Calvino “Ovídio quis dar uma sistematização teórica a essa filosofia natural, talvez em sintonia com o bem distante Lucrécio (...) mas talvez a única coisa que conte para nós seja a coerência poética no modo que Ovídio tem de representar e narrar o seu mundo: esta efervescência e acúmulo de histórias tantas vezes similares e sempre diferentes, em que se celebra a continuidade e a mobilidade do conjunto”. Portanto, Ovídio tem uma narrativa de conjunto, de multiplicidade, nunca de um sistema acabado, que é a junção dos elementos diversos e suas mudanças, isto nas relações intrincadas que dão o sentido principal de As Metamorfoses.  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/33459/17/por-que-ler-os-classicosij-italo-calvino-parte-1