PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 16 de julho de 2018

GÓNGORA, O HOMERO ESPANHOL


“tal riqueza e tesouro de Góngora ganha cidadania castelhana inconteste”

INFLUÊNCIA GONGÓRICA

Na fortuna crítica do escritor Góngora temos autores que iam aos extremos de aprovação e desaprovação da literatura gongórica, ou seja, temos críticos e apologetas. Portanto, nunca se ficou indiferente diante deste escritor, o que sempre foi um ótimo sinal, e isto também diz muito de sua relevância histórica e de sua influência enorme até em escritores que pela frente condenavam o gongorismo, mas eram ao mesmo tempo devedores desta presença desejada e indesejável ao mesmo tempo.
No levantamento que se faz da obra gongórica, temos acusações e defesas do estilo poético de Góngora. Díaz de Rivas, que o chamava de “Homero espanhol”, nos esclarece muito acerca de tal literatura e nos aponta muito bem as motivações da condenação do estro gongórico, o que passava pelas palavras peregrinas que renovavam o léxico, mas que para um crítico negativo poderia passar por pedantismo ou afetação, ou ainda artificialismo linguístico, uma maneira de expressão forçada, rebuscada e no extremo antinatural.
Ainda temos como elementos de suposta condenação de Góngora tanto os tropos frequentes como as numerosas transposições, resultando num estilo hermético e de difícil exegese. E Díaz finaliza a sua análise citando também a dureza metafórica de algumas passagens, a distribuição estilística muitas vezes desigual e desequilibrada, e ainda temos a mescla extravagante de termos mundanos ou normais com imagens possuídas de palavras sublimes, e também temos a repetição ad nauseam de palavras e frases, hipérboles e exageros, extensão grande de certos períodos, e por fim a redundância ou cópia em demasia no dizer poético.
Por outro lado, ainda citando a crítica que se teceu em torno da obra gongórica, esta não é mais de grande valia, em sua maioria, pois se trata de um domínio crítico que se estendeu pela análise de autores latinos ou renascentistas, já não fazendo muito sentido para nós contemporâneos, pois depende de contextos específicos. E aqui lembramos também que já houve a reabilitação de Góngora, depois de seu período de proscrição até o início do século XX, como figura histórica de vulto, independentemente do que lhe cabe de acusação ou apologia.
O que cabe à crítica atual diante de Góngora é mais uma questão de tornar coerente todos os seus processos de estilo, o que fica mais evidente, uma vez que estamos diante de obra acabada, portanto, passível de uma visão mais universal e até menos apologética ou acusatória como em contextos de polêmica pretérita que tal obra sofreu até em demasia. E uma das chaves agora utilizadas é a maneira da escrita gongórica, que deriva de Petrarca, o que leva a considerar o gongorismo, por fim, um petrarquismo espanhol nos princípios do século XVII.

CULTISMOS

As palavras introduzidas na língua por via culta, chamados de cultismos, no caso de Góngora, este se utilizou de vocábulos já usados anteriormente. Temos aqui em Góngora uma riqueza renovadora do léxico que alimentou o vazio de originalidade da maior parte dos escritores do século XVII, e nem se citarmos os originais, pois até havia, estes também não saíram do grande círculo de influência do léxico gongórico, incluindo em tal poder persuasivo até mesmo escritores inimigos do poeta Góngora.
O mais impressionante é que a influência lexical gongórica enche a língua literária do século XVII de cultismos, e temos na mudança até radical de gosto do século XVIII a permanência de uma operação milagrosa do estro gongórico, isto é, a língua vulgar ganhou potência com um léxico erudito desta herança gongórica, e mesmo com um rival escandalizado como Quevedo, também um dos grandes, tal riqueza e tesouro de Góngora ganha cidadania castelhana inconteste.
Góngora se torna então o cultor do léxico renascentista e que o leva, como dito, para o que veio depois, salvando do olvido tal erudição e que se torna corrente até do vulgo. Temos como exemplos de repetição de metáforas imagens como sóis por olhos, rubis por sangue, ouro por cabelos, prata ou cristal por água, já comuns na poesia renascentista, que ganham corpo em Góngora, ao ponto de tais recursos passarem do terreno da metáfora por si mesma e tendo no estro gongórico uma qualidade de representação real, como substantivos normais. E temos, por fim, como qualidades precípuas em Góngora tanto suas metáforas como a sua sonoridade.

POEMAS :

SOLEDADES (FRAGMENTOS)

[Dedicatória] ao duque de béjar : O ditado da musa revela os passos do peregrino, este torto, instável, errante : “Passos de um peregrino são errante/Quantos me ditou versos doce musa :/Em solidão confusa/Alguns perdidos, outros inspirados.” Os gigantes da fábula despertam as feras e o eco da trompa aqui expõe : “Feras te expõe, que – no tingido chão/Mortas, pedindo términos disformes –/Espumosos coral cedem ao Tormes! :”. Segue o poema, o sangue lavado no rio Tormes, no que vem : “seu metal/Sangue suando, em tempo fará breve/Purpurear a neve –/E enquanto dá o monteiro serviçal/Ao duro roble, ao pinho levantado/- Êmulos que viventes são das penhas –/As formidáveis senhas/Do urso que até beijava, atravessado,/A haste de teu dardo sobranceiro,”. E o Duque é aqui o homem esclarecido, logo ganha a fama já de Euterpe agradecida, no que temos, por fim : “todo o majestoso/Do assento à divindade tua devido -./Ó Duque esclarecido!” (...) “Que, generoso nó, honre não rudo/Liberdade, da sorte perseguida :/Que a tua piedade Euterpe, agradecida,/Seu canoro dará doce instrumento,/Quando não sua trompa a Fama ao vento.”

SOLEDADE PRIMEIRA

[O náufrago. Chegada a uma cabana pastoril] : O poema floresce na estação de Touro, o firmamento aqui aparecendo em metáfora como campos de safira, no que temos : “Era do ano essa estação florida/Em que o mentido roubador de Europa” (...) “Luzente honra do céu,/Em campos de safira pasce estrelas;/Quando o que ministrar podia a copa/A Júpiter melhor que o jovem do Ida/_ Náufrago e desdenhado, além de ausente _/Lacrimosas de amor doces querelas/Dá ao mar :”. O mancebo, melhor que Ganimedes, o jovem do Ida, dá ao mar doces e lacrimosas queixas, e temos em seguida aqui o vento sul, que é inimigo Noto, e na nau se salva por um pedaço este Arion, que vai pelo mar, no que vemos : “Do sempre na montanha oposto pinho/Ao inimigo Noto,/Piedoso membro roto/_ Breve tábua _ delfim no desempenho/Foi para o incauto viajor marinho/Que a uma Líbia de ondas seu caminho/Fiou, e a vida a um lenho./Pelo Oceano, pois, antes sorvido/E logo vomitado/Não longe de um escolho coroado/De secos juncos e de quentes plumas/_ Alga no todo e espumas _/onde de Jove a ave/Achara ninho, foi ele acolhido.”. Este Arion que é tragado pelo mar e depois devolvido, temos aqui o náufrago colhido pela ave de Júpiter, a águia, no que vem : “Quanto em roupa do jovem já despido/Oceano foi bebido,/Ele o faz às areias devolver;/E ao sol a estende logo,/Que, com só a lamber/Sua doce língua de abrandado fogo,/A investe lento e, com um agir macio,/A menor onda chupa ao menor fio.” (...) “Vencido, enfim, o cume/_ Entre o mar sempre soante/E entre o campo calado/Árbitro igual e inexpugnável muro _ ,/Com pé já mais seguro/Declina ao vacilante/Breve esplendor de maldistinto lume : Lampião de algum colmado/Que sobre o ferro está, naquele morto/Golfo de sombras a anunciar o porto.” E o náufrago enfim descansa na cabana que nos parece ancorada em incerto golfo de sombras, no que temos adiante o anúncio do porto.

[Presentes que levam os serranos a umas bodas] : A multidão alegre de serranos diante das bodas , e a vitelinha, com flores nos chifres, tais como raios do sol (Febo) já serenavam na sua fronte, no que vem : “Vulgo lascivo errava” (...) “Ao tempo que _ de flores impedido/O que já serenava/A região de sua fronte novo Febo/_Purpúrea vitelinha, conduzida/Por sua mãe, não menos enramada,/Entre albogues se oferta, acompanhada/Por moçada florida.” // Um dos rapazes baixa com galinhas (cristadas aves), e temos adiante o núncio canoro (o galo), no que vem : “Um deles as pendentes somas graves/De negras baixa, de cristadas aves,/Cujo lascivo esposo vigilante/Doméstico é do sol núncio canoro,”. Outro dos rapazes leva na nuca o peso de muitos cabritos, no que temos: “A cerviz, outro a preme/Com a cópia manchada/De cabritos os mais retouçadores,/Tão gulosos, que geme/O que menos roçar consegue as flores/Da grinalda adequada.” // O poema, aqui em partes, segue o coelhinho se assusta, pois seus iguais são levados aos montes, e como troféus, por serem despojos, por estarem mortos, e segue o poema, aqui, enquanto o peru ao deus do casamento é destinado às mesas, no que vem : “Não o lugar fragoso,/Não o trado torcido, não, da terra/Privilegiou na serra/A paz do coelhinho temeroso;/Troféu é já seu número num ombro/Que Himeneu a suas mesas te destina./Se fardo não e assombro./Tu, ave peregrina,/Arrogante _ pois belo não _ fulgor/Do último Ocidente :/Penda o rugoso nácar dessa frente”. E o poema segue, nesta parte, seu último ponto, no que temos : “Emulação e afronta/Mesmo dos berberescos,/Naquela zona de alcantis brutescos.” // A Aurora que chora se pergunta se é néctar, e a abelha temos aqui que suga flores e chupa cristais (o orvalho), no que temos : “O que chorou a Aurora/_ Se é néctar o que chora _/E, antes que o Sol, enxuga/A abelha que madruga/A libar flores e a chupar cristais,/Em celas de ouro fluente, em favos tais,/O boião exibia/Que um montanhês trazia.”. E conclui aqui o poema, no que temos : “Que a contragosto ia,/E com razão : que o tálamo condena/A sombra até de gala tão pequena.”

[Fragmento do discurso sobre os descobrimentos marítimos; O estreito de Magalhães e as ilhas da Oceania] : O poema segue ao zodíaco, este aqui que do pinho (nau) glorioso, pois este percorreu o mar, tal como o carro de fogo do Sol o céu, temos no poema o estreito de Magalhães abraçador dos oceanos Atlântico e Pacífico, e a nau Vitória que pende no templo úmido de Netuno, no que vem : “Zodíaco depois foi de cristal/Ao pinho triunfal/Êmulo vago do carro de fogo/Do Sol, este elemento/Que havia quatro vezes sido um cento/Dossel ao dia e leito à noite logo,/Quando encontrou de fugitiva prata/A estreita dobradiça abraçadora/De um oceano a outro, sempre uno,/Ou as colunas beije ou a escarlata,/Tapete para a aurora./Esta, pois, nave, agora,/No templo úmido do deus Netuno/Pende encalhada, e é uma imortal memória,/Por nome de Vitória.”.

POEMAS :

SOLEDADES (FRAGMENTOS)

[Dedicatória] ao duque de béjar

Passos de um peregrino são errante
Quantos me ditou versos doce musa :
Em solidão confusa
Alguns perdidos, outros inspirados.
Ó tu, que de venablos impedido
- Muros de abeto, ameias de diamante -
Bates os montes que, de neve armados,
Gigantes de cristal medo ao céu dão;
Onde o corno, pelo eco repetido,
Feras te expõe, que – no tingido chão
Mortas, pedindo términos disformes –
Espumosos coral cedem ao Tormes! :
Arrima a um freixo o freixo – seu metal
Sangue suando, em tempo fará breve
Purpurear a neve –
E enquanto dá o monteiro serviçal
Ao duro roble, ao pinho levantado
- Êmulos que viventes são das penhas –
As formidáveis senhas
Do urso que até beijava, atravessado,
A haste de teu dardo sobranceiro,
Ou o sagrado supra do azinheiro
_ O augusto do dossel; ou da nascente
A alta sanefa, todo o majestoso
Do assento à divindade tua devido -.
Ó Duque esclarecido!
Regra em suas ondas tua fadiga ardente,
E, teus membros entregues ao repouso
Sobre o torrão de grama não desnudo,
Deixa-te um instante achar do pé acertado
Que seus errantes passos tem votado
À cadeia real de teu escudo.
Que, generoso nó, honre não rudo
Liberdade, da sorte perseguida :
Que a tua piedade Euterpe, agradecida,
Seu canoro dará doce instrumento,
Quando não sua trompa a Fama ao vento.

SOLEDADE PRIMEIRA
[O náufrago. Chegada a uma cabana pastoril]
Era do ano essa estação florida
Em que o mentido roubador de Europa
_ Meia-lua nas armas de sua frente
E o Sol os raios do pelame seu _
Luzente honra do céu,
Em campos de safira pasce estrelas;
Quando o que ministrar podia a copa
A Júpiter melhor que o jovem do Ida
_ Náufrago e desdenhado, além de ausente _
Lacrimosas de amor doces querelas
Dá ao mar : que condoído,
Às ondas foi e ao vento
O mísero gemido
Novo e doce de Arion instrumento.
Do sempre na montanha oposto pinho
Ao inimigo Noto,
Piedoso membro roto
_ Breve tábua _ delfim no desempenho
Foi para o incauto viajor marinho
Que a uma Líbia de ondas seu caminho
Fiou, e a vida a um lenho.
Pelo Oceano, pois, antes sorvido
E logo vomitado
Não longe de um escolho coroado
De secos juncos e de quentes plumas
_ Alga no todo e espumas _
onde de Jove a ave
Achara ninho, foi ele acolhido.
A areia beija, e da desfeita nave
Aquela parte pouca
Que o expôs na praia ofereceu à roca :
Deixam-se as próprias penhas
Lisonjear com agradecidas senhas.
Quanto em roupa do jovem já despido
Oceano foi bebido,
Ele o faz às areias devolver;
E ao sol a estende logo,
Que, com só a lamber
Sua doce língua de abrandado fogo,
A investe lento e, com um agir macio,
A menor onda chupa ao menor fio.
Nem bem, pois, de sua luz os horizontes
_ A erguerem desigual, confusamente
E montes de água e pélagos de montes _
Desdourados os sente,
Quando _ o estrangeiro mísero integrado
No que do mar já redimiu irado _
Entre espinhos crepúsculos pisando,
Penhas que até igualara mal, voando,
Ave que brava se ala,
_ Menos cansado que confuso _ escala.
Vencido, enfim, o cume
_ Entre o mar sempre soante
E entre o campo calado
Árbitro igual e inexpugnável muro _ ,
Com pé já mais seguro
Declina ao vacilante
Breve esplendor de maldistinto lume :
Lampião de algum colmado
Que sobre o ferro está, naquele morto
Golfo de sombras a anunciar o porto.

[Presentes que levam os serranos a umas bodas]

Vulgo lascivo errava
_ Ao juízo do mancebo,
O jugo dos dois sexos sacudido _
Ao tempo que _ de flores impedido
O que já serenava
A região de sua fronte novo Febo _
Purpúrea vitelinha, conduzida
Por sua mãe, não menos enramada,
Entre albogues se oferta, acompanhada
Por moçada florida.
................................................................
Um deles as pendentes somas graves
De negras baixa, de cristadas aves,
Cujo lascivo esposo vigilante
Doméstico é do sol núncio canoro,
E _ de coral barbado _ não de ouro
Cinge, senão de púrpura, turbante.
A cerviz, outro a preme
Com a cópia manchada
De cabritos os mais retouçadores,
Tão gulosos, que geme
O que menos roçar consegue as flores
Da grinalda adequada.
...............................................................
Não o lugar fragoso,
Não o trado torcido, não, da terra
Privilegiou na serra      
A paz do coelhinho temeroso;
Troféu é já seu número num ombro
Que Himeneu a suas mesas te destina.
Se fardo não e assombro.
Tu, ave peregrina,
Arrogante _ pois belo não _ fulgor
Do último Ocidente :
Penda o rugoso nácar dessa frente
No colo teu _ safira de crespor _
Sobre dois ombros larga vara aponta
Em cem aves cem bichos de rubins,
Tafiletes calçados carmesins,
Emulação e afronta
Mesmo dos berberescos,
Naquela zona de alcantis brutescos.
...........................................................
O que chorou a Aurora
_ Se é néctar o que chora _
E, antes que o Sol, enxuga
A abelha que madruga
A libar flores e a chupar cristais,
Em celas de ouro fluente, em favos tais,
O boião exibia
Que um montanhês trazia.
A orelha não excedia
O chifre pululante
Do gamo vicejante,
Que a contragosto ia,
E com razão : que o tálamo condena
A sombra até de gala tão pequena.

[Fragmento do discurso sobre os descobrimentos
marítimos; O estreito de Magalhães e as ilhas da Oceania]

Zodíaco depois foi de cristal
Ao pinho triunfal
Êmulo vago do carro de fogo
Do Sol, este elemento
Que havia quatro vezes sido um cento
Dossel ao dia e leito à noite logo,
Quando encontrou de fugitiva prata
A estreita dobradiça abraçadora
De um oceano a outro, sempre uno,
Ou as colunas beije ou a escarlata,
Tapete para a aurora.
Esta, pois, nave, agora,
No templo úmido do deus Netuno
Pende encalhada, e é uma imortal memória,
Por nome de Vitória.
.......................................................................
De firmes ilhas não as quedas frotas
Naquele mar descrevo-te de Albor,
Cujo número _ não por seu candor _
Pelo belo, agradável, pelo vário
A doce confusão fazer podia,
Que nos brancos estanques lá do Eurotas
A virginal desnuda montearia,
Fazendo escolhos ou de mármor pário,
Os membros belos, ou terso marfim,
Que Ácteon pode bem ter neles fim.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/39457/17/gongora-o-homero-espanhol 






quinta-feira, 12 de julho de 2018

CARTA AO INVENTOR DA MÚSICA


“Mas que alma mora no sol?”
Uma outra morte nos dará vida. Neste bem-vindo anátema dos dias fugidos do horizonte. Não quero o emblema da farsa no meu sangue, ouvi os odres vazios, os cacos de blues sob a névoa de jazz. Claro como o silêncio, delirava montanhas no meu passo entre meu corpo e meu espírito, entre a minha dor empírica e minha angústia transcendental.
Volta e meia dá água, vou ao hospital psiquiátrico, tenho a barriga do tamanho do mundo, o meu punho umedecido, os meus olhos espoucados de riso, meu ventre túmido de pranto. Volta e meia tenho asco de poesia de penumbra, quero a poesia de luz estourada e de sombra macabra. Vejo na água do frio o mar como um grande basalto de limo e de ferro. Tenho asco de poltrões, asco de minudências vis, os asnos de asco que moram fora dos vitrais, os asnos mortos de uma longa dor, estes que estão bem longe das dores de uma flor de ametista. As flores mais úmidas eu as guardei em uma vagina rainha, a queda de debrum de suas vísceras eram bem vivas, me alimentavam e me davam boa capacidade de sonho.
O poema risonho no mar de urdidura fenecia como bela pintura nos átrios de um mausoléu, fantasmagorias passavam entre as visões, canções de visionários lutavam com seus fogos entre os detritos de uma guerra nuclear. Fecha o blues da meia-noite, na aurora suscitava desdém de febre com o horror das ventanias de música, soldados armados de bombas defendiam os trópicos de duendes frios, seres do gelo contemplavam o frio mais absurdo das notas que caíam nas vinhas mais diurnas, girassol e pecado, revelação e teoria, nada ficaria impune sob a veste dos náufragos, vento e poesia seriam volteios de dança na lembrança de uma chuva.
Os nazistas seriam vitoriosos na farsa de um ditador, morte e surra na pauta, carne e demônio nos rádios, estoura a boiada, faz-se uma revolução de paus e pedras, uma intifada mais que justa na queda dos déspotas de suma ignorância. Velocidade e ataque, tudo o mais que fosse de verso morreria no mar de overdose, nadamos em esmeraldas sob o luar de loucura, os loucos uivam para a lua, o riso dos loucos é patético, patética é a ilusão dos loucos, os loucos são poetas desgovernados, arrotam símbolo entre as nuvens, morrem de seus símbolos, comem seus fantasmas, ficam na noite à espreita de uma boa porrada. Nada mais claro na dor dos loucos, a música os entoa entre os desejos, entre as canções, e vigas são destruídas por um montante incalculável de sonhos abortados.
Os poetas fazem a cadência da decadência. O decadente sonha pouco, fala pouco, sempre ou tem cara de mau ou rosto azedo, não faz mais nada senão delirar estultícia sob o governo do álcool, uma cena podre de riso torto, de choro escondido, de grito de abismo sob a lua plangente de sofismas burros, o decadente queria ser grande, mas fala das mesmas coisas e não diz nada, a decadência dos poetas é um pouco diferente, é astúcia entorpecida, inteligência rítmica e verbosa de tanto explodir e resgatar-se de ondas inumeráveis, do vício do espanto que rutila de onde o sonho mais fundo eclode na harmonia do beijo venenoso de um poema bruto como o sol.
Levita a rosa sob o sândalo vidente. Vento e porra na hora da música, tanto sonho de cal e gesso e fuligem e brilho fundo de alma. Fogo entre os sonhos mais azuis, rosa pálida da negra flor da noite, vento e karma sob a justiça de deidades iradas sob o manto de um monge ressequido. O verso se enumera de coleções de espantos, mas ao espadachim não há nada limitado, honra se dá na nau da palavra como monte no céu de Meru. Shambala anárquico dá as cartas, os olhos são muitos, vento e drama são faces duplas de poesia de espada de corte no coração pelo gelo mais frio da rima e do verdor de tanta bruma. Verso e reverso na noite suja, mais longe vai o grito na dor espetada dos dias. Os poetas do ócio não vão além, pois na escrita tem que ter o sentido da guerra, a morte de guerra, a vida disputada à tapa na farsa derrotada, na faca enfiada dentro d`alma!
Corrói o espesso drama, teatro de verso na hora da tragédia sob o riso funesto de um delírio que ruma ao norte, o norte da saudade dos vícios cerúleos dos anjos, das máquinas vigoradas na lida mais forte de todas as armas apontadas no fogo do brio com o olho mórbido do poema suicidado que não dá nota fora do fastígio. Emblema, dor e fúria, a pena atávica decifra todos os enigmas como um duende, o mago abissal revela ao terror a bruma na lua dos lobos uivantes como os loucos. Vejo a música tétrica e vejo a lua cheia, nota abissal retinta sob os gritos da penúria que sai dos alvos campos e mata a caça depois de fugir da verdade búdica que cantou num espírito jovem. Lembra: os notívagos iam atrás das canções de amor como flechas dançando entre os corações ciosos de tanto amar, com o corte da madrugada em seus vinhos, com a beberagem e a voragem dos livros estacados entre palavras de mistérios gozosos. A virgem mais linda sorriu como poema de sonoro verso, e a noite se abriu na galanteria, os versos são paixões tortas como o fiel sabor do amor depois da fria mentira que ressoou pelo tempo matado de raiva.
Me espantei na alma da esfera como fera pútrida de tanto canto em mar de selvagens, com os ossos na urna que ressoa o cadáver entre os potes quebrados e uma ratoeira. Mas que alma mora no sol? Quais os segredos guardados na urna de Da Vinci? Tem poemas estarrecidos de penumbra com flores viciosas na temperatura bruta do cais em tempo de fervura e paixões vermelhas. Venta muito no leste de meus olhos, tempestade que ruma ao sonho alto da viga de aço do terror que rumina entre as frias canções de morte que ainda vivia nos adoradores de Moloque. Venta com a nuvem roxa entre os cantos de funeral num inverno grosso de neve tola nas quedas românticas de mar glacial que congela o poema sob o sangue mais sério da litania. Venta e tudo é tempo na vida da selva, romance de calor vai ao longe falar de flor quando o desmaio é inevitável, caem os espíritos das nuvens que rumam para o oriente, monges fogem de suas cercanias, o monastério fica azul como num bom delírio beatífico.
Venta ao sul, ao norte venta. Mais poemas caem de meu relógio, tenho poemas caindo por todos os lados, tenho poemas em vento como na dor horizontal que teima em versos verticais. Venta com tudo o que há na mais intensa fornalha dos ares que deliram por todos os rios que veem os castanhos deltas sob a piramidal letra. Rezo. Tenho o vício de tantra em meu corpo com os leves sonhos de asa da vertigem entre os folguedos que rumam ao sul, ao norte, vejo no horizonte flores pulando no fim do mar. Quais ventos me levam ao sul ao norte? Vento que reclama na funda bruma do verão, que grita no vinho secreto do inverno. Rezo em todas as cores de meus delírios atávicos, brota o símbolo de minha pena como um mar tolo de fundo drama que é floração do tempo em tinta de eternidade, flor e saudade, mais a queda dos anjos com cintilantes fenecimentos que caem de rumor e vigor que vem na estrada, tal é a estrada brusca dos ferozes campos de trigo, desterro do deserto amarelo, amar a virtude como a morte saudosa do campo de feno, fadado ao sucesso como a alma mais risonha do sangue que pula no mar azul de safira, mar de sangue, flor e tempo, sepulcro rinha de gládios gaudérios pascácios néscios patuscos parvos patente de todo poema quando afoga na tenebrosa beldade que é berro de morte entre a areia e os olhos da pesca.
Lembro dos ócios antes da morte, tenho o caos que nem poema pelo canto de mistério que rumina febre nas ondas que invadem o estaleiro na dor da urtiga e no frio dos espinhos. Cai e renasce o sonho de flor vermelha na via macerada das cabeças de ferro, aço indelével mora no peito, e o poema se vinga com as machadadas na cara de poetaços.
Ruma ao sul, ao norte, qual nau fomentada e de paramentos rústicos como carne e memória. Lenho seco entre os fogos, galhos espraiados na noite de céu estrelado como abóbada na carne e no tempo, memória que ruge em mnemosyne que nem o espanto de renascer com os olhos furiosos na panaceia que levita no sonho do préstito. Bela unção vem o tempo ressoar a estrela maldita que nasce na manhã, enquanto o arrebol canta qual fulminado a dor de seu trovão, venho em mais sal e vigor que o mar, venho com o tempo vertido em mancha de desaforo, em mentira vertida entre o sangue e a espada, entre a faca e o livro, dentre todas as vinhas canto o valor da poesia que nem mendigo diante do fardo de ser máquina entre o total universo e o repleto nada.
Vingo os filhos, caio sem fé nas poças de estanho e no limo do gás que ruge no ar entre as frações de meu coração, tento abarcar os sonhos vis na canoa que vem do mar com os lírios de ilusão nas mãos, venho que nem estrela na barafunda de um pomar que tem tulipas de raiz e tubérculos na metamorfose dos insetos, venho no mar ao mar e vou ao sol pelo sol para tardar até a lua, o sangue vinga o tema azul das horas mais sujas que rutilam pelo vinho e nas sagradas sacerdotisas do império milenar que é nódoa na vulgar serpente dos dramas que comem as tragédias no vício pantagruélico de comédias excêntricas.
O vento rumina flor funesta que nem ritmo de muro pintado de cor estranha no palco dos venenos de mundo e de mundo atordoado na tinta funda dos lenhos mais tardos da chuva. Vinho e terror, a paus e pedras se faz todo o monte de lenho, pedras são roladas no átrio do coração em espanto de ferro como certezas de cobre. Venho, e o vento é mais sinistro que todo o mar, o poema é mais veneno que o delírio da serpente, o poema é vício de estrela entre o sol e a lua no eclipse de sombra que aguarda mistério na ventania e nos olhos que acordam entre satoris de sarça e sândalo. Vejo como o poema cresce como flor circense nas odes mais cruentas que podem nascer da pena vingativa.
O tempo da hora vasta, como filho de Pã sob a lua cheia, tenho meu cenho cortado de palração infinita, sob o leme ao castelo de dor em febre, meus instantes são como sóis, guardo a beleza em forno de ossos. Enquanto a febre dá o calor da morte, tenho o frio sob a noite, e eles, os déspotas, fogem sob a espada com o grunhido louco da ferocidade, cada lado da moeda antiga celebra o punho erguido da viga e da força. Tem toda a hora espetada de espanto, a poesia se emoldura de fracasso, a força não está lá no mundo, a poesia busca desde o eterno sua salvação, e ela, a poesia, se salva própria, de si, uma vez que verso e prosa se fundem no mistério que vem na pena. Não há eterno que se busque, a pena se dá ao fim como ao mítico começo, e o universo se faz verbo e emula em seu sonho um poeta e todas as cores do desespero, um poeta e todas as dores da esperança, os filhos da carne se dão aos montes na orgia, o sal que corre em meu sangue é o poema quando danço, o sal que mora no silente campo de fora, é alma dentro de um poema que se faz carne, e a santidade destes mistérios, ao poema tudo se desvela, e não há chave que a poesia já não conheça, a vidência é o poema em sol com veste lunar, pois à noite o lírio se espanta, e à lira, funda parca, o poema se eterniza.
Flores rutilam no jardim das delícias, minha alma não se salva de tanta dor, e do amor mais vasto, não se fere aos montes mais gélidos, e da cantoria à música de orquestra, ao fundo da câmara a alma se encanta, e o poema-música de som ao corte de cor e morte faz como sinal e signo de toda uma canção. O poeta está na visão, e os olhos ouvem toda a cor de que o cais vai ao mar, nada sobra senão o som do marulho na dama que dança, e o sol fiel morre de êxtase na lira possuída de sombra, ritmo e farsa.
Os poemas montam no campo de flor e riso, e o pranto mais doído, se esquece na queda e olvido. Mais, ao terror da febre o poeta se tece, dá tudo o mais, ao calor feérico de seu delírio, e ao frio racional de sua pena. Dionísio se esmera de loucura abissal, e o poema cai refém de toda loucura da imaginação, todas as sabedorias explodem no ventre de morte que ao lodoso vinho os corpos se esfacelam, e a alegoria dos campos elísios era nada mais que o surto visionário que à poesia se traduziu, olho esférico no transe que é hipnose de uma doença de eternidade.
A alma que tem saudade, no jogo da língua e na torre de luz vai à areia da praia pela liberdade que se encontra com o mar, e da aurora mais funda, o resto do nada ao eterno vai à luta imortal que se fez encampada, e da guerra moribunda a poesia virou corpo e denso karma de canto e música. Nos solos da terra eterna o canto moldou seu ressoar de esfera, e o corpo do som à cor gerou a criação em sinestesia, e o olho semeou a flor de anarquia, e o poeta virou anjo e visão na morte do mar que a onda batizou. O mar feroz se virou ao caudal da prosa. E o silente rumor das feridas d`alma, da flor nascedoura ao rio desceu, como ferro e brasa que na vitória foi liquidada, e o mistério da nuvem densa de amor à tempestade se derramou. A pena faz a História, e o verso se dá ao espanto, sob a jugular da Necessidade:

                             Lírios de morte querem vida,
                             os olhos querem explosão,
                             vinho de meu fel vai ao céu,
                             o paraíso é a rua e a boêmia,
                             vaticina seu holocausto a temida
                             pena de socorrista, nau estrelada
                             que nem vertigem, a noite densa
                             liberta a alma amargurada,
                             de fel morre a estrada sem luz,
                             pois do lume ao vigor do poema,
                             todo mar é música.

(POEMA EM PROSA)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

O FANTASMA DO TETO


“Paula cismava que demônios queriam matá-la e que havia um fantasma no teto”

Paula era uma menina de 8 anos bastante fantasiosa. Sua mãe lhe dava leite todas as manhãs e todas as noites quando não estava sumida, sua mãe era alcoólatra, mas a tratava bem, não era daquelas que batiam nos filhos, pois ela nunca ia para casa quando bebia.
O pai de Paula era um misterioso médium vidente que vivia de biscates e de suas consultas, ele era cartomante de baralho cigano e jogava búzios para seus clientes, além de incorporar espíritos para investigações sobre algumas circunstâncias de mortes e assassinatos inconclusos, seu nome era Martin, ele era um verdadeiro médium vidente, mas quando seu dom não funcionava, ele pregava peças nos seus clientes, em sua maioria extremamente crédulos e sugestionáveis.
Martin se aproveitava também de sua astúcia e talento para o hipnotismo, sabia dar passes como ninguém, este era o ambiente em que Paula vivia, um ambiente cercado de misticismo e patifaria. Será neste ambiente que a loucura se insinuará e logo se instalará, a cabeça de uma criança tem mistérios insondáveis, e se o mal era de família, logo uma suposta mediunidade poderia aflorar nesta mente infantil.
Era janeiro, um certo dia de chuva, e a mãe de Paula, Vitória, estava perdida nos bares fazia 5 dias, diziam os vizinhos que ela dormia com um amante, mas nada provado, na verdade, ninguém sabia onde ela estava e como vivia nesses seus sumiços frequentes. Martin era um homem resignado, apesar de um pouco pilantra e de explorar um dom em troca de dinheiro.
Mas, Martin era um homem bom, pois suportava todas as desditas da vida com paciência, e ele sabia que Paula e Vitória precisavam dele e de seu sustento, já que Vitória não trabalhava, e seu alcoolismo só piorava com o passar do tempo. Martin precisava manter-se lúcido, mas a sua loucura logo daria suas aparições, e Paula seria contaminada pelo misticismo terrível de Martin.
A chuva era densa, Vitória aparece em casa depois de 5 dias, toda arranhada, com a cara ralada e inchada, os olhos com equimoses em volta, a roupa toda rasgada, sem noção de nada, totalmente desnorteada, parecia que estava em surto, estava pálida e fraca, a morte certamente teria a cortejado nessas suas peregrinações pelos bares.
Martin não ficou alterado, sua resignação para com Vitória era deletéria, pois só piorava as coisas, pois na hora de um pulso forte o que se via era um “é assim mesmo”, que ele costumava repetir, e iludia sua filha Paula com eufemismos hipócritas e de que nada adiantava, pois Paula percebia a perdição em que sua mãe estava se metendo, ela não compreendia, mas sentia uma tristeza profunda, sentia que poderia perder a sua mãe a qualquer momento para um fantasma que morava no teto. Esta era sua nova ideia fixa.
As sombras estavam cercando a vida de Paula, ela logo se convenceu de que estava sendo perseguida por espíritos do mal por todos os lugares em que passava, tinha pesadelos com demônios disformes e se sentia ferida pelo medo de seus delírios. Ninguém ali falava em psiquiatra, pois a crendice não permitia filosofias materialistas naquele recinto, aquela casa era dominada pela obsessão mediúnica de Martin.
Na verdade, Martin era obsediado e estava passando isso para a filha. Paula cismava que demônios queriam matá-la e que havia um fantasma no teto de seu quarto, tudo o que era sombra ela percebia em seu delírio como forças ocultas e sobrenaturais prontas para devorá-la numa alucinação sem volta, e Martin não fazia nada, achava que era necessário apenas uma limpeza com defumadores no ambiente que tudo se resolveria. Martin era escravo de sua crendice e não sabia lidar com afirmações de vizinhos que diziam que ele era louco.
Mas, as loucuras daquela casa logo fariam com que os vizinhos chamassem a ambulância para internar Vitória, pois ela poderia sumir de novo e nunca mais voltar, Paula chorou copiosamente quando os bombeiros levaram sua mãe para uma clínica de viciados.
Paula gritava: “Ela é minha mãe! Eu amo ela!”. Mas de nada adiantou, Vitória era um caso para a psiquiatria, assim como toda a família, Paula já começava a delirar, e o misticismo de Martin estava levando ele para caminhos tortuosos, o que sempre acontece com quem explora dons mediúnicos para ganhar dinheiro, logo se tornou um farsante obsediado pelas trevas da loucura, sua conduta piorava a cada dia e seu fim poderia ser trágico, e sim, a tragédia do fantasma do teto pegaria todo mundo de surpresa.
Uma semana depois de ser internada, Vitória é encontrada enforcada pelo lençol pendurado no ventilador de teto, suicídio, confirmou a perícia. Vitória estava em surto e não aguentou ficar confinada, sua vida eram a rua e os bares, o álcool a levou para uma escuridão que ninguém sabe se é eterna, mas que é certamente profunda, pois a morte é o ato mais profundo da vida, é a viagem para o desconhecido ou para o nada, depende de quem crê ou não crê.
Martin fica sabendo da tragédia e não consegue falar para Paula do fato terrível. Martin estava mais preocupado com sua crendice e disse para os vizinhos que eles eram os culpados de terem matado a mulher dele. Martin começaria a ficar bem louco a partir desse momento. Começou a delirar que estava em contato com o espírito de um índio xamã em uma de suas sessões mediúnicas, logo o tal xamã ordenou que ele expulsasse o fantasma do teto, agora era o delírio da filha entrando no delírio do pai, Paula acreditava piamente que havia um fantasma no teto de seu quarto, e, por sinal, Vitória, sua mãe, havia morrido pendurada ao teto, que coincidência lamentável!
Paula entrou no meio da sessão mediúnica gritando histericamente expulsando os clientes de Martin da casa. Ela estava com o revólver de Martin na mão, o revólver ficava num fundo falso do armário da cozinha, e Paula sempre soube da arma e onde estava. Martin, já delirando, disse que ele e Paula teriam que matar o fantasma do teto do quarto de Paula. Paula sem querer dispara a arma que atinge o peito de Martin, que agoniza no chão da sala.
Paula corre para seu quarto e atira a esmo. Os vizinhos entram e são alvejados por Paula. Logo os que escapam chamam a polícia e o manicômio, Paula atira até acabar o cartucho do revólver, Paula é internada aos 8 anos no manicômio e entra nas trevas da loucura, o fantasma do teto vai a assombrar pelo resto de seus dias.
A imaginação é um demônio ardiloso que devorará Paula, ela ficará no manicômio até morrer, injeções psiquiátricas às vezes não têm poder contra o misticismo, agora Vitória e Martin também são fantasmas que entrarão na alucinação de Paula, o fantasma do teto realiza o seu intento, a tragédia está feita!

(CONTO)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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quinta-feira, 28 de junho de 2018

OS SONHOS EM BORGES E A SAGA ESPIRITUAL


“tal mundo incrível do sonho também é, por fim, a realidade da alma”

Borges segue em seu Livro dos Sonhos com o famoso poema de Lucrécio, Da Natureza das Coisas, que aqui em seu Livro IV, temos o trecho “Da Natureza dos Sonhos”, e este nos dá uma visão do onírico que é como um tipo de divisão do mundo entre aquela do mundo natural e dos sentidos físicos ordinários, e um mundo paralelo que nos aparece ou se nos desperta quando sonhamos.
É neste sono que se abre uma visão mais sutil, em que os espectros passam com desenvoltura e tudo flui num outro diapasão que nos coloca em contato com um mundo anímico que registra de forma diversa a realidade, esta aqui mais sutil que o que se nos apresenta quando estamos no mundo real ou físico, e que Lucrécio, de forma passional, tenta nos dar como que o panorama em que tal mundo incrível do sonho também é, por fim, a realidade da alma.
E no texto que Borges nos enumera a seguir, que é o de Alfonso o Sábio, Setenário (Lei XVI), temos aqui então a descrição mais conceitual do sonho ou fenômeno onírico, já tendo neste caso a visão lucreciana ganho aqui neste caso contorno menos sobrenatural e um viés do que pode ser influência natural para o sonho.
Temos já aqui com Alfonso o sonho como o resultado da atividade do dia para o que cai no sono e tem visões relacionadas a sua rotina recente, ou ainda como que a visão onírica que se tem em meio a algo governado pela natureza e não por alguma faculdade anímica, como visto por Lucrécio, na sua visão até então espectral e sutil. E mesmo sendo natural, Alfonso nos diz, contudo, que “os homens sonham muitas coisas, de maneira natural e com muita razão”.
Borges segue então um retorno à visão espiritual ou espiritualista do fenômeno onírico, que é o que temos com o texto de Joseph Addison, em seu The Spectator, intitulado Sobre os Sonhos, em que o mesmo teoriza ou tenta fazer a sua concepção dos sonhos, e ainda cita A Religião de um Médico, de Thomas Browne, fazendo confirmar ou uma tentativa disto sobre a emancipação da alma quando sonha.
O mesmo termo que temos, portanto, em Lucrécio, também temos em Addison, numa visão aqui mais conceptual do que poética, mas tendo o mesmo viés de libertação de um mundo ordinário que é a visão pretensamente sobrenatural do sonho.
Em Giovanni Papini, O Trágico Cotidiano, aqui no texto A Última Visita do Cavaleiro Enfermo, temos uma evocação e citação precisa do texto shakespeariano, em que temos nós como que sonhados por algum outro ente, e então tanto a visão do poeta sobre si mesmo é produto de um outro percipiente que “nos sonha”, como também temos a confirmação da visão filosófica que julga a realidade como uma alucinação ou um simulacro.
Neste ínterim, isto me faz recordar ainda, com a devida vênia ao texto borgiano, a loucura em McBeth, o absurdo que é a vida como contada por um louco, com som e fúria, e o sonho sendo esta canção sublime ou o estrondo de um pesadelo em que o demônio é astuto, um gênio da natureza que é sobrenatural, ou apenas, como poderia se dizer numa piada cética, resultado inerte de uma comida gordurosa consumida altas horas da madrugada, ao cair o sono do glutão notívago.
E no texto de Ulrica, talhado pelo Borges que nunca tem nome próprio, mas que atua em sua propriedade textual em paradoxo, temos o autor então diante da saga de Siegfried, ou melhor, um Borges mítico e também histórico diante de uma escrita alegórica que se faz no próprio Borges a recolocação de uma escrita alegórica, uma reverberação da metáfora como refundação desta metáfora.
Aqui com Brunhild, o mito, a saga, uma história germânica tardia dos Nibelungos, é o vão em que Borges cresce como intérprete mais uma vez do que ele diz e do que ele faz outros dizerem, o paradoxo borgiano que nos faz herdar a visão aqui da  morte e do sono como tema ou leitmotiv que se alimenta tanto de uma especulação filosófica, de uma metáfora poética, como de uma saga por excelência, tudo a serviço de uma literatura alegórica que se duplica e se desdobra em si mesma.
E à alegoria do juízo final de Quevedo, ao fim, Borges nos dá a saber mais uma vez do absurdo e do incompreensível, e como que a sua rica descrição nos fornece mais uma vez o pano em que se dará um absurdo espiritual feito de contradição, paradoxo, e ao cabo de desconstrução de um desfile de tipos que faria o  mais absoluto cristão corar frente a tal opróbrio.
Com as descrições de Quevedo, temos um autor, pela via borgiana alegórica, fazendo apontamentos impiedosos, e que na literatura borgiana se tem mais ainda grave quando a alma do absurdo reina como motivo literário quando demonstra a verdade religiosa como o flerte com o impossível ou o impensável. O texto borgiano atua pelo absurdo como reificação de seu ímpeto alegórico, e nada é mais extremo como alegoria que a visão espiritual escatológica, ou o afamado dia do juízo final, aqui como sonho.
Borges nos dá exemplos de avarentos, poetas, filósofos, e demais figuras que desafiam o bom senso do céu e que ao fim temos, então, um Judas, um Luthero e Mafoma, igualmente contraditos e condenados, todos num juízo final que nos reafirma o absurdo da condição pecadora como incontornável. E o sonho é aqui crer que tal se dá na verdade religiosa sem associar este sonho último com o delírio ou com o próprio impossível se dando ares de mundo coerente com uma certeza espiritual, o que neste contexto de Quevedo e de Borges é uma inversão que vai dar no puro sonho que se desvanece como tal, apenas um sonho.
E a presença demoníaca no texto de Quevedo (Borges) nos leva a sua atuação como um tipo de juiz das falhas, e todo personagem que pretende ser salvo acaba por ter sua vida pregressa escrutinada por todos os lados, e uma vez já sabendo da vida de cada um, seja este o que for, o diabo o condena com algo que lhe escapara antes de reivindicar tal condição de salvação da própria alma, uma vez que aqui no texto “O Sonho do Juízo Final” temos uma faculdade diabólica que redunda no fracasso humano, seja no seu plano de salvação espiritual como de pretensa idoneidade moral.

(continua)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/39240/17/os-sonhos-em-borges-e-a-saga-espiritural





quarta-feira, 27 de junho de 2018

DISMALAND


“jazzman, bluesman, guitar hero, brio todo em fera”

De olhos bem abertos, ao parque risonho em que os dentes correm com a mente tal uma boca, o mundo ao dispor, a fome dos sóis como um amarelo borrado em espanto, tal a hora que antes havia nos tempos de ouro, sem dor e morte, e bate no relógio todos os dias o contorno dos corpos diante dos faróis.
O horror de Manson, fico de frente à espada, Los Angeles, e o Verão do Amor em San Francisco, a Swinging London, eu o mártir, estes outros tantos, meus carrascos, a dominação do espírito, e os sinos que habitam o tilintar dos frascos de veneno, do Bordeaux embriagado com vinhos de eternos cantores da fábrica de Jazz.
Buda em escarlate, as damas sucintas com mentiras iluminadas, versos que batem de frente, gritos que fogem de hospícios, que batem de frente, que gritam odeio vocês todos, que pulam o poema com tanta febre e terror. O rock, de dentro do coração, não sabe de todos estes esquemas que vivem de um padrão arrotado como canções de tédio. Jesus encarna a música que habitava Fender, luta renhida com sete chamas azuis na bruta lâmpada de Alladin. Insano!
De olhos bem abertos, ao parque das lágrimas, fantasmas de roupa preta batem à porta, atendo um mendicante, me torno um renunciante, flechas do torpor caem como bom soporífero, Morfeu ganha um miasma e um hematoma, eu ganho músculos como um doutor de poesia em banho de sal, mar de Mármara, reto e dançante, nadando para o sol tal o sonho de Ícaro. Vingue-se!
Mas, como um plácido verso, donde a pura flor emana, detenho-me em fúria com calma, viro-me ao tempo lasso da temperatura do corpo perfurado em tatuagens, Krishna subindo em árvores, OM transando no Mahabarata, lento o vinho com cidades estouradas de violência, bento o dia, vertendo a noite. Mate-me!
Eu quero a sedução da morte, a queda do véu, o desvelar de olho com sério pensamento, que corre em fadas e vinhas tal o sonho puro de diamante, eu quero a mortal intuição de todos os símbolos na carne, os miasmas terríveis da dor, as cores estupefatas do amor, os linhos e as malhas de túnicas com sabores de vento, os labores de prazer tal tear como rios de guitarras batendo em meus órgãos, nas tripas coração de elencos de teatro, a queda do Tártaro, o mistério dos surtos bíblicos, o Nirvana como derrota do corpo, o fim da História como o nada místico da aniquilação, a dor remendada com notas de dólares, Hollywood com sementes de riso na stand-up de um pendor básico de poema roto, os mestres do universo vindos de Órion, a estrela azul da imaginação como bom conto de prata embotada de ferrugem, aço marmóreo de toda a força, Dismaland devastada. Verta meu sangue negro!
Prenhe de loucos a nota fria da canção, os devedores pagam suas mulas de coca, passo à Cordilheira, jazzman, bluesman, guitar hero, brio todo em fera, animal interno que eclode ao sucesso, prenhe a nave veneno e rumo sem norte, o frio de escalas em harmonia, o poema que ruge com máquina de Tupã, sempre vivo Osíris, e Tamuz, Marduc babilônio na queda dos anjos de Tiamat, mito vertendo navegação em astrolábio, tem tudo na rigorosa moral, no sangue puro dos éticos de dores regidas por fracassos, nas dores sentidas do palácio, na política de títeres sem dedos, as estrelas correm em seus epiciclos, a hipnose varia com Wundt, eu detenho-me diante da morte, caio em choro por toda a alameda, não tenho tempo misterioso, arranco as vestes com tenazes de pecado, com broto de bambu como último almoço antes da guilhotina, tal é vinho depois quando estou já no céu, com meu anjinho da guarda a dar risadas de uma espoleta de olhos vermelhos, dentro da canção está a dor profunda da vontade morte vida que estoura os tímpanos, que morre vive com a conta paga na hora do suicídio em vão. Música!
Leve-me ao parque, vamos brincar, cavalos coloridos, crocodilos, elefantes, leões, o globo da morte, venha em toda a súcia de politiquentos artistas, Demônios, Deuses, gente estropiada, a entrada é gratuita, o céu está in love, a terra está arrasada, não há mistério, toda a cor de vivência humilha os detentores do saber, a verdade ultrapassa todo rigor de pensamento, o poema só estoura o que já vem bem explodido, e a vida implode por hipocrisia, não temos nada a fazer no parque, a roda gigante é um eterno retorno de ciclo entre fogo e água, vivo períodos de placidez e outros de suicídio, caio em mim e saio de si, tem um Outro na vida dos loucos, a fama só resgata um mártir depois que este já morreu. Dismaland!
O parque tem carrinhos, bebês verdes, moças amarelas, homens de preto, carroças de algodão doce, ó leãozinho, morde meu peito! Ó girafinha, estique o pescoço para ver, está diante do Homem, este animal feroz que habita teu parquinho, besta-fera é esta que arma a guerra, que tem visto para o inferno, e o céu nostálgico aparece nos sonhos de religião destes miseráveis. Pois sim, reto o drama, existência falida, espírito inteiro, no entanto. Veja, não há mistério, Buda sorri de uma piada infame, o poema sorri por pura inspiração. Legalize!
Erva santa, me salve! Vou à Jamaica, passo pelo Haiti, Dismaland é o No man`s land, Eliot sabia de Dismaland, Banksy não mostra-se assim inteiro, venha ao parquinho comer doces de sonhos bobos, palhaços com caras pintadas de vermelho, o inferno de Dante, a comédia de erros com idiotia de propaganda, muita miséria de mentira, muita verdade escondida, venha ao parquinho, andem com seus patins, deem milho aos patinhos de feira, comam a fartar os sanduíches de carne assassinada, festa tem, bem ao gosto do público, distinto e brilhante, o poema só dá sol a este calor de astúcia, venha à Dismaland, olha a fera diante do carrasco, não há escape, sonhar com tudo isso só vira poesia se o sonho não morre de inanição, a fome deste mundo é Dismaland, bruxas de preto, feiticeiras de branco, mulheres fatais de vermelho, e os homens azuis de desejo, os cortes de cicatrizes em seus gritos, vindos de rinhas de macho, e com lâmpadas acesas na cabeça quando fazem a Ideia dar errado. Venham!

(Nota: Dismaland é o centro do universo velho diante do novo que virá, se torna futuramente a utopia da Era de Aquário, com escusas, não entro em detalhes desta visão do futuro, pois a pena só indica que Dismaland é a fase negra antes de uma nova fase brilhante de ciência e espírito.)

Ao coração do mundo dedico estas flores humildes.

(POEMA EM PROSA)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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segunda-feira, 25 de junho de 2018

SONETOS DE GÓNGORA


“logo o poeta se envolve em dívidas para manter a sua fachada de nobre”

Góngora, já viajando em missões como cabido, pensava em virar poeta palaciano, e neste meio, já almejando se tornar um dos grandes, também poeta da realeza, começa a sua inimizade com Quevedo, este que tanto iria criticá-lo e destilar várias farpas.
No cenário literário espanhol temos extensas contendas neste período de ouro. Resumindo a situação : Lope briga com Góngora, Góngora com Quevedo, e Quevedo com Ruiz Alarcón, e este, por fim, com Lope.
Em 1603 o poeta deixa seus escritos que comporiam o Flores de poetas ilustres de 1605 com Pedro Espinosa, aqui com Góngora, poeta cordovês, já de volta a sua terra, vai pelos anos seguintes produzindo uma poesia cortesã.
Contudo, marca a entrada em sua chamada segunda fase em 1610 com uma canção sobre a tomada de Larache, fase que renderia muitas críticas ao poeta. Mas, é neste período que o poeta começa a produzir uma poesia ou obra de tomo, com poemas mais ambiciosos e maiores, os que dariam, por exemplo, em obras como : “Fábula de Polifemo e Galateia” e as “Soledades”.
Em 1617 temos, adiante, seu Panegírico ao Duque de Lerma, trabalho literário decorrente da festa promovida pelo Cardeal de Toledo, este que era tio do Duque de Lerma. Lembrando que a esta altura o grau de elaboração desta obra era o maior até então da obra gongórica.
E temos, na biografia de Góngora, em sua pretensa vida e poesia cortesã, um ponto insustentável, pois logo o poeta se envolve em dívidas para manter a sua fachada de nobre, consumando a sua ruína o fato de poeta também estar mergulhado no vício do jogo, vivendo agora numa pompa aparente, na verdade afogado cada vez mais em dívidas.
Por fim, já próximo da morte de Góngora, este doa a seu sobrinho d. Luís de Saavedra a sua obra literária, que incluía tanto sua poesia como a sua prosa. Lembrando que não se sabe exatamente da prosa gongórica e nem se esta se tratava de sua produção epistolar. E o poeta, por fim, morre em Córdova, em 23 de maio de 1627.

POEMAS :

SONETOS

II (1582) : O poema é de um estro gongórico que imita um esgar petrarquiano, aqui como mímesis de versos de um soneto de um Minturno, por exemplo, no que temos : “De honestidade templo o mais sagrado,/Cujo alicerce belo e gentil muro,/De branco nácar e alabastro duro/Foi por divinos dedos fabricado;” (...) “Soberbo teto, que filetes de ouro,/Enquanto em seu redor gira o sol louro,/Ornam de luz, coroam de beleza;/Humilde adoro-te, ídolo formoso :/A quem por ti suspira ouve piedoso,/A quem te ergue hinos e as virtudes reza.”. O templo, eis, é erguido, o soneto nos canta com um esmero uma descrição majestosa, e nos dá esplendor o templo com fundo sagrado e numa forma trabalhada ao modo barroco.

VI (1582) : O soneto raia com um lume glorioso, no que temos : “Raia, dourado Sol, orna e colora/Desse alto monte o luxuriante cume,”. E segue o estro gongórico, agora com riqueza e realeza, no que vai : “Afrouxa as rédeas a Favônio e Flora,/E usando ao esparzir o novo lume/Teu generoso ofício e real costume,/O mar argenta, de ouro os prados cora,/Para que desta veiga o campo raso/Borde, saindo Flérida, de flores;/Contudo, não saindo ela acaso,/De ornato e cor ao monte não dês traço,/Nem persigas da Aurora o rubro passo,/Nem mar argentes, nem campinas doures.”. As flores dão a este campo do soneto sua luz, um bordado que de ornato tem o fundo e a forma.

XIII (1582) : O soneto levanta uma influência possível de Bernardo Tasso, e temos adiante mais uma demonstração do estro metafórico que faz do verso gongórico um ornato sonoro até na tradução que temos, no que se vê, portanto : “Ora que a competir com teu cabelo/Ouro brunhido ao sol reluz em vão,/E com desprezo, no relvoso chão,/Vê tua branca fronte o lírio belo;” (...) “Colo, cabelo, fronte, lábio ardente/Goza, enquanto o que foi na hora dourada/Ouro, lírio, cristal, cravo luzente/Não só em prata ou víola cortada/Se torna, mas tu e isso juntamente/Em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.”. O soneto nos descreve como colo o cristal, cabelo o ouro, a fronte ainda como lírio e o lábio, por fim, cravo.

XVIII (1583) : O soneto, já acusando uma imitação de Ariosto, terá no Brasil, por exemplo, versões de poetas como Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, e aqui temos, pela versão gongórica, um estro magnífico, no que  vem : “Qual do Ganges marfim, ou qual de Paro/Branco mármor, qual ébano luzente,” (...) “qual tão caro/Safiro oriental, qual rubi ardente,/Ou qual neste feliz tempo presente/Tão douta mão de um escultor tão raro/Estátua conformara e até fizera/Ultraje milagroso à formosura/Seu formoso labor,” (...) “Diante dos olhos teus, sua figura,/Bela Clóri, dulcíssima inimiga?”. O soneto nos dá algumas definições de beleza feitas pela poesia, e a Clóri ainda estas não a iguala, é o que nos faz crer o poeta, com luxuriante estro em que tudo é possível.

XX (1583) : Em soneto que nos dá imitação de Égloga de Garcilaso, em novos ecos de Bernardo Tasso, temos : “Ilustre e formosíssima Maria,/Enquanto deixam ver-se a qualquer hora/Em tuas faces a rosada Aurora,” (...) “Mexe o vento à madeixa voadora/Que a Arábia nos seus veios elabora/E o rico Tejo nas areias cria;/Antes que Febo com a idade eclipsado/E o claro dia feito noite obscura/A Aurora fuja do mortal nublado;” (...) “Desfruta a cor, desfruta, e a luz, e o ouro.”. O soneto rico é um lume em que mais nos dá a ilustre e formosa Maria, num avanço colorista do estro barroco que tem efeito aqui no Brasil sob o poeta Gregório de Matos, por exemplo.

A D. SANCHO DÁVILA, BISPO DE JAÉN

LXXIX (1608) : Aqui temos a descrição poética do palácio do bispo, no que vem : “Sacro pastor de povos, que em florida/Idade, pastor, guias o teu gado,” (...) “Cantem outros tua casa esclarecida,/Mas teu palácio, com razão sagrado,/Cante Apolo de raios coroado,/Não Musa humilde de laurel cingida.” (...) “Milagroso sepulcro, mudo coro/De mortos vivos, de anjos tão calados,/É um céu de corpos, é um vestuário de almas.”. E a tal palácio o poema nos dá lume, com rigor e riqueza do estro barroco, aqui em colorismo gongórico.

OUTRAS COMPOSIÇÕES DE ARTE MAIOR

XXXIX (1608) : O poema florido, mais rico se faz, e sempre, aqui da inspiração sob comando da imaginação de Góngora, no que temos : “Da hoje florida falda/Em que a Alva fez de pérolas bordado,” (...) “Que pedem, com ser flores,/Branco a tuas fontes e a tua boca olores.” (...) “Mais de pontas armado de diamante :/Eu as pus de fugida,/E cada flor me custa uma ferida./Mais, Clóri, te hei tecido/Jasmins nesse cabelo desatado/E a mais beijos convido” (...) “Pagas-me em favos eu jasmins te dar.”. O poema tem este ardor que nos brinda com emoção mais um exemplo da arte barroca, aqui como arte maior, ao menos à época.

POEMAS :

SONETOS

II

(1582)

De honestidade templo o mais sagrado,
Cujo alicerce belo e gentil muro,
De branco nácar e alabastro duro
Foi por divinos dedos fabricado;
Pequena porta de coral prezado,
Claras lumeeiras de mirar seguro,
Que à mais fina esmeralda o verde puro
Para redomas tendes usurpado;
Soberbo teto, que filetes de ouro,
Enquanto em seu redor gira o sol louro,
Ornam de luz, coroam de beleza;
Humilde adoro-te, ídolo formoso :
A quem por ti suspira ouve piedoso,
A quem te ergue hinos e as virtudes reza.

VI

(1582)

Raia, dourado Sol, orna e colora
Desse alto monte o luxuriante cume,
Segue com doce mansidão, ó nume,
O rubro passo da alvejante Aurora;
Afrouxa as rédeas a Favônio e Flora,
E usando ao esparzir o novo lume
Teu generoso ofício e real costume,
O mar argenta, de ouro os prados cora,
Para que desta veiga o campo raso
Borde, saindo Flérida, de flores;
Contudo, não saindo ela acaso,
De ornato e cor ao monte não dês traço,
Nem persigas da Aurora o rubro passo,
Nem mar argentes, nem campinas doures.

XIII

(1582)

Ora que a competir com teu cabelo
Ouro brunhido ao sol reluz em vão,
E com desprezo, no relvoso chão,
Vê tua branca fronte o lírio belo;
Ora que ao lábio teu, para colhê-lo,
Se olha mais do que ao cravo temporão,
E ora que triunfa com desdém loução
Teu colo do cristal, que luz com zelo;
Colo, cabelo, fronte, lábio ardente
Goza, enquanto o que foi na hora dourada
Ouro, lírio, cristal, cravo luzente
Não só em prata ou víola cortada
Se torna, mas tu e isso juntamente
Em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

XVIII

(1583)

Qual do Ganges marfim, ou qual de Paro
Branco mármor, qual ébano luzente,
Qual âmbar ruivo ou qual ouro excelente,
Qual fina prata ou qual cristal tão claro,
Qual tão miúdo aljôfar, qual tão caro
Safiro oriental, qual rubi ardente,
Ou qual neste feliz tempo presente
Tão douta mão de um escultor tão raro
Estátua conformara e até fizera
Ultraje milagroso à formosura
Seu formoso labor, gentil fadiga
Que não fora figura ao sol de cera,
Diante dos olhos teus, sua figura,
Bela Clóri, dulcíssima inimiga?

XX 

(1583)

Ilustre e formosíssima Maria,
Enquanto deixam ver-se a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Febo em teus olhos e na fronte o dia,
E enquanto com gentil descortesia
Mexe o vento à madeixa voadora
Que a Arábia nos seus veios elabora
E o rico Tejo nas areias cria;
Antes que Febo com a idade eclipsado
E o claro dia feito noite obscura
A Aurora fuja do mortal nublado;
Antes de o que hoje é em ti ruivo tesouro
Vencer a branca neve na brancura,
Desfruta a cor, desfruta, e a luz, e o ouro.

A D. SANCHO DÁVILA, BISPO DE JAÉN

LXXIX 

(1608)

Sacro pastor de povos, que em florida
Idade, pastor, guias o teu gado,
Mais com o assobio do que com o cajado,
E mais que com o assobio com tua vida,
Cantem outros tua casa esclarecida,
Mas teu palácio, com razão sagrado,
Cante Apolo de raios coroado,
Não Musa humilde de laurel cingida.
Tenda é gloriosa, onde em leitos de ouro
Vitoriosos dormem os soldados
Que já despertarão a triunfo e palmas;
Milagroso sepulcro, mudo coro
De mortos vivos, de anjos tão calados,
É um céu de corpos, é um vestuário de almas.

OUTRAS COMPOSIÇÕES DE ARTE MAIOR

XXXIX 

(1608)

Da hoje florida falda
Em que a Alva fez de pérolas bordado,
Tecidos em grinalda
À tua fronte estes jasmins traslado
Que pedem, com ser flores,
Branco a tuas fontes e a tua boca olores.
Guarda destes jasmins
De abelhas era um esquadrão volante,
Rouco se de clarins,
Mais de pontas armado de diamante :
Eu as pus de fugida,
E cada flor me custa uma ferida.
Mais, Clóri, te hei tecido
Jasmins nesse cabelo desatado
E a mais beijos convido
Do que houve abelhas no esquadrão armado;
Lisonjas a porfiar,
Pagas-me em favos eu jasmins te dar.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/39205/17/sonetos-de-gongora