PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SPIRITUALS


“libertação é o nome de spirituals, este é o poema”

I – O FUNDO MITOLÓGICO

Os passarinhos do céu são longânimos:
Atitude ventral: o caboclo sete flechas retira-se da batalha campal, a tosse espirra com bruma valente, o exú sete trevas rebomba a nau mestra com galhardia. Veio meu sumário neste dia frouxo de meu poema: a lida é seca e pura, eu via igrejas pasmadas como delírios na rota de saberes moucos, surdos aviltados por barulhos, mudos gritando com as mãos, a saber navega em si o poeta que não sabe de si, louco como um assunto estorvo, mutante que revigora as pestes de que a antiguidade é farta, pois Seth revirava Bek, Osíris e a fada Ísis, pelo canto sumério um deserto se abria em Tigre e no Eufrates, pois Baal, como se via na gira, borbulha tal o elmo, pois Tamuz, Enlil, o grande Marduk face a face com Tiamat, todo este séquito sabia todas as notas do sistema sexagesimal, um outro castelo feito na rua astronômica em que dormia tal estrela, vestes de vestais com Deméter, riso e troça com miasma de tal defumação do rigor da luta, pastores e ribeirinhos falando tupi no meio do defumador, eu que lia as cartas e Pai Antônio das Almas apenas fazia fumaça.

II – O FUNDO MUSICAL

As avezinhas do céu são libertárias:
Quando se ouvia Robert Johnson se tinha em seus dedos e palheta ou sabe-se lá o que foi teu pacto, a ver nas fazendas de algodão um martírio se ouvia os lamentos virarem arte, pois de outro modo seria apenas sofrimento e não ladainha, e não saída voilá da parte d`alma que canta, ou se tudo fosse de fato só duramente forjado, não haveria poesia, só roncos e patifes, não haveria poesia, só murros em cada passo, não haveria música, só um estrondo que rimaria desesperado. Pois, com as notas musicais se edifica o espírito da verdade, e não se rima em demasia a produção dorida, mas se faz templo de ritual com sete cortes na jugular, como um cancioneiro que ritualiza não teu dorido lamento apenas, mas teu apaziguado sonho que floreia mais a utopia geral do que o flagelo do mundo, pois, com todo o concerto, não temos apenas a dor do coração, mas a felicidade que ruma ao paraíso depois de morta, uma visão ou antevisão, um dom se assim se quer chamar, ou a violência pacífica que tem norte e sul em cantorias vertidas do sangue ruim da vida, do líquido sonhado e azul que não sangra mais, da nobreza escrava que dedilhava as mãos de blueseiros depois de um drama nas unhas fincadas em algodão.

III – O FUNDO POÉTICO

Os cucos do céu são pontuais:
A poesia métrica ou espatifada são sonoras e musicais, são discursivas e modais, são poemas com cavaletes, com vinhos, com romanceiros, vertem fúrias, sobra o espírito vulcânico, corrompe o demônio interno, fulgura como montanha e galardão. Nota a poesia com vinha retinta, bruma de banho e sol, como fia sem porfia, como tanto se faz com doses de lida, e nem se faz idiota, ou pouco inteligente, mas sim como um coro trágico desperta, e longa ou curta se esmera. Vai-te poesia de sim e de tudo! Mas quanto melisma simbólico, e frutos metafóricos! A vida se frutifica como mel e maná, otimiza sem lugar, viraliza sem notar, sem cerimônia o poema eterniza, e rima qual longo sonho ou delírio, mas, cônscia e reta, a poesia fulmina e gira, tal a sua geologia, tal a arte geodésica, a rima gravita, o verso em crosta se firma, e à atmosfera voa. A poesia é esta nau dos insensatos que nada mais faz além de cantar, pois dádiva tu és, poesia como empresa, vinho como glória, alma como mérito, corpo como guerra, vícios e virtudes como o que se é. Poesia, tua morada é de mitos, sua tez é democrática, teu legado é todo o universo, pois uma vez lida, poesia, tua fuga se encontra, e pasma o mundo sem ter te visto ou mirado quando tudo se sucedia a olhos vistos, poesia, poesia. Ah, mas que rima pouco dada, que vagabundo sem sorte! Mas não, poesia tem tudo em uma linha, tudo em dez linhas, como o fio que não faz porfia, como Ariadne que mata o cão, linha de linha e costura de armadura, poesia é linda como o verão, respeitável como o inverno, faz verso na primavera, e depois se despede no outono, com folha seca da relva vermelha, rubra seca folhagem do sangue, via de fogo fátuo que a natureza assimila sem enfado, poesia é um grau de mestria por espada e flor, por guerra e paz, poesia é contradição absolutizante, paradoxo que borbulha champanhe, vinho tinto seco que lambe a garganta dos sonhos que não são vãos, poesia farta o homem como um banquete, e quem não a entende passa fome, e o faminto morre por nada mais, sem poesia. Farta a tua seiva, a tua sebe, a tua colheita, farta do mundo cão teu verso potente como som, farta do mundo vão dos que passam fome sem saber.  Poesia é comida, é refeição sagrada da alma, poesia é esta alma canora que dá de comer ao mundo, mesmo que o mundo prefira a fome.

IV – O FUNDO LITERÁRIO

As andorinhas do céu são veraneios:
A Literatura espiritual que conquista o coração das coisas, o literário que emana tua estrela pátria, e se expande tal o cosmos que brilha, tem no livro um maná inesgotável da aventura, pois a escrita se faz em ode e elegia, alegria e mutação, dor parida e fonte de feliz canção, o poema astúcia deste concerto é a coroa da vida, a literatura se serve de tudo o que existe na imaginação, e o mundo real é um espelho que joga com este delírio. Vamos! Toda a sorte do mundo e todo o amor do mundo neste universo literato, que nos leva além, que nos dá a luz que vem de um estalo de sol, que nos dá a noite profunda da reflexão, que nos traz estórias loucas que o mundo surpreende, tais são as aventuras letradas que sorriem para o dia auroral que nos dá tudo, e que nos livra de todo o mal. Literatura é um pássaro que vai e voa para mais longe do que o olhar ao horizonte, que nos vinga de frios eternos da morte, que nos leva ao cerne de todo o existir, pois que da sombra faz treva espiritual se demudar em luz própria, e nos dá salvamento para o Orfeu que toca o coração da música, a literatura vem de poesia e aedos rapsodos e começa a se inserir em ficção, duas frentes libertárias que é poesia e estória, música e imaginação. Vem me dar o dia à tarde a carta escrita no outono da vida, no mar que bem se quer com a flor benquista que bebe vinho, com a dor vertida que nos leva à filosofia mais bruta do mundo, para mais que tudo o sonho reverter-se do pó e virar céu azul ao infindo voo, e eis que o torpor não é mais o desejo da pena, mas a lucidez extrema que povoa o mundo real, a vida mais autêntica que conquista todo o universo com loas de suprema letícia. As minhas canções saem na rua que grita estamos aqui, rua da cidade que pula e ri, o circo que passa no vento da careta que faz a criança, o lúdico que se embrenha em meio ao caos, a cidade mais alta torre se despe pelo calor e se cobre no frio, todas as canções atingem o coração das coisas, e a literatura, deste modo, canta de si mesma o seu terreno imaginoso, de que a terra é repleta, a plenitude é o clímax que o poema, enfim, ventila, por saber-se tão preso ao chão, mas com o espírito livre que bebe e come cheio de esperança! Sim! A terra é da literatura e de seu espírito livre, uns dizem alma de poeta, outros dizem inspiração de artista, e os que fazem dizem esperança. Literatura é vida reafirmada em sol e gerações delirantes.  

V – O FUNDO FILOSÓFICO

Os anjos do céu são eternos:
A filosofia espiritual emana como a esfinge fundamental que do karma mais bruto nutre os passos de paquiderme à leveza da angelitude, passos firmes que sonham alto, passos delicados que trabalham com cuidado, esmero na arte e força no coração, leão de todas as horas é filosofia e seu corte na coisa toda, espírito aqui é analítico e sintético, espiritual é o idealismo totalizante de uma figura final, mas não tem fim, e o estro do espírito tenta ser sistema, depois tenta ser crítica, antes ainda essência, depois ainda nada disso, uma das perspectivas, a liberdade, e se está sempre diante da esfinge que é o universo, o pensamento tem força, mas a existência tem uma força descomunal diante do pobre pensador que tenta se organizar, toda a poesia que bebe em filosofia, certa se embriaga, mas continua só cantando, pois do total que se dá a todo o tempo, os pré-socráticos diziam ser algo, os contemporâneos ainda o sentem em certas cosmologias, mas tudo que brilha no olhar destes todos que vivem é a encarnação da dúvida e da origem do mal, sonhamos muito na paz, e somos sempre bélicos na estrada, se tudo fosse perfeito ruiria, pois nem poeta e nem filósofo, na sua melhor hora, será pleno ou perfeito, ondas de humor povoam a terra e seus dramas, o mal do mal gerado inverte e bem vem como utopia, o canto espiritual ainda ecoa como um pequeno oásis, já se perdeu, toda esta estória de plenitude já se perdeu, em algo ainda moramos na esperança, como uma entidade benfazeja nos dizendo que há luz no mundo, e que nem tudo é grave ou pecado, e que nem tudo a filosofia dá conta, e que nem tudo a poesia e a literatura resolvem, e que nem no mundo mais brando do coração não há conflito, a batalha espiritual busca a sabedoria, esta sim entidade dificílima, repleta das nossas contradições e repetições, a plenitude dos erros que nos dá tudo que temos, a poesia e toda a literatura, juntando-se à filosofia e ao mito, como forma de esperanças que tentam dar conta do mundo e melhorá-lo, e que do erro tenha vez este todo acerto da imperfeição total, spirituals vem de canto dorido para cantar a esperança que já está em todo coração que sonha e faz, libertação é o nome de spirituals, este é o poema.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/spirituals 










quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O PAPAGAIO

todo o hair metal dos anos 80 foi feito com vocalistas cantando com voz de papagaio"

Resolvi comprar um papagaio, fui à uma loja de pássaros, decidi que não colocaria corrente em seu pé, ele ficaria na minha casa se quisesse. Logo pensei num nome para o papagaio, pensei muito, e então veio o nome : Bibi, um nome ambíguo, já que na verdade não dava para saber se o papagaio era macho ou fêmea, e Bibi pode ser macho ou fêmea que não tem muito problema.
Logo me veio as ideias toscas de fazer o papagaio aprender a falar, e lógico que pensei primeiro em xingamentos e onomatopeias, me lembrei que quando eu era criança fiquei sabendo, não sei se é verdade, que havia um papagaio que sabia cantar parabéns, mas sempre havia sonhado com um papagaio que xingasse,  mas mudei de ideia, pois isso poderia dar um problema danando com visitas, tipo, entra uma pessoa em sua casa e o papagaio já diz : “filho da puta”. Não iria dar muito certo.
Depois de um mês com o papagaio, ou melhor, o Bibi ou a Bibi, me peguei ouvindo Guns`N`Roses, percebei então que os vocais estridentes do Axl Rose pareciam o timbre de um papagaio agitado, meio “Welcome to the jungle we've got fun and games”, uma coisa, como posso dizer, voz de papagaio, pô!
Logo vi abrir diante de mim um tipo de “eureca”, eu era o Arquimedes, só faltou eu sair nu correndo pela rua, mas vi o Bibi ou a Bibi, e comecei a fazer exercícios de canto com o papagaio, foi lento o processo, colocava o som estéreo com Guns, enchia o saco do papagaio, era uma loucura, além de fazer o papagaio falar, não, eu queria que o papagaio cantasse em inglês, pô, como isso poderia dar certo?
Bibi então soltou um “wekom de jungo”, já era um começo, mais um mês, e Bibi seria um cover perfeito do Axl, viajei na maionese que poderia fazer apresentações de Bibi para visitas em minha casa, como um show pequeno para distrair a moçada enquanto rolava o vinho e os quitutes e quetais, era uma viagem, mas fazia sentido, o Axl tinha voz de papagaio, e Bibi era agora cover do Axl que tinha voz de papagaio, mas é óbvio, todo vocalista poser tinha voz de papagaio, todo o hair metal dos anos 80 foi feito com vocalistas cantando com voz de papagaio, pô, é óbvio!
Depois de mais um mês treinando Bibi, o papagaio já soltava um “welcome to the jungle” quase perfeito, me empolguei, Bibi era agora cover de Axl, minha ideia agora fazia sentido, pois se tornara real, Bibi agora toda hora soltava um “welcome to the jungle”, era fascinante, eu agora tinha um papagaio que cantava em inglês, pô, magnífico!
Meu objetivo agora era que Bibi completasse pelo menos a primeira frase da música, e depois de mais um mês, Bibi soltava “welcome to the jungle we`ve got fun and games”, caraca, meu delírio agora era então fazer Bibi cantar a parte “In the jungle, welcome to the jungle, Watch it bring you to your knees, knees”, mais um mês, e tudo dava certo, Bibi soltava toda hora esta parte, mostrei para o meu primo, e ele soluçou de gargalhar, meu papagaio agora era um cover perfeito do Axl.
Então eu resolvi treinar Bibi para soltar a primeira frase da letra de Welcome to the jungle e depois o trecho que ensinei em seguida, foi perfeito, agora era só completar “In the jungle, welcome to the jungle, Feel my, my, my serpentine”, voilá, meu papagaio agora aprendia a cantar cada vez mais rápido, Bibi era um cover perfeito do Axl, e então fiz ele falar “gunzeroze”, e ele falou, pô, genial!
Agora ele já poderia enfileirar : “Welcome to the jungle, We´ve got fun and games” seguido de “In the jungle, welcome to the jungle, Watch it bring you to your knees, knees” e logo em seguida Bibi falava “gunzeroze!”. Tava pronto meu papagaio, Bibi, agora também conhecido como cover do Axl, pô, era uma loucura, eu agora tinha ensinado meu papagaio a cantar, e só descobri que isso era verdade fazendo, lógico, tentativa e erro, tentativa e acerto, como um cientista maluco no mundo animal, bem-vindo à selva, bibi, cantaê : “In the jungle, welcome to the jungle, Watch it bring you to your knees, knees”, hahaha, Bibi era um Axl verde, e soltava para a visita : “gunzeroze!”. E era uma festa.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/o-papagaio-1 

sábado, 17 de novembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA, OS VERSOS FERINOS DO BOCA DE INFERNO


“temos Gregório então definido como um crítico político e social”

Gregório de Matos Guerra tem a sua poesia bem compreendida dentro de certas fronteiras históricas, isto é, temos como depreender seu sentido mais correto quando nos voltamos para os códigos culturais em que o poeta se estabeleceu como tal.
No que se refere ao contexto da escrita de Gregório, lembrada aqui a sua relação com outros textos produzidos na mesma época em que o poeta viveu, nem sempre a crítica se voltou para este aspecto, pois muito da lenda sobre o poeta veio de uma visão pejorativa que negligenciava o fato de que os gêneros em que os poetas brasileiros se fiavam por volta daquele século XVII eram relacionados com modelos pré-existentes, e tais relações se estabeleciam, sobretudo, com a poesia espanhola de Gôngora e Quevedo.
E, por sinal, temos uma regra de imitação poética que irá vigorar pelos séculos XVI, XVII e por fim no século XVIII, embora tal forma de mimética não fosse uma coisa necessariamente negativa, mas parte da natureza da escrita nesses períodos citados, ou seja, temos um ambiente literário em que o empréstimo e assimilação eram correntes, no que até mesmo a reação barroca em face do Renascimento, ainda tinha esta imitação como uma regra normal de produção poética.
Quanto ao apelido “boca de inferno” do poeta Gregório, por sua vez, temos esta expressão retirada de um soneto do espanhol Lope de Vega, soneto este que tomava por alvo o arquiteto e escritor Trajano Boccalini, que era o satírico “Boca del Infierno”.
Uma vez que sabemos da faculdade de imitação poética como prática e regra natural na época em que viveu Gregório de Matos, podemos entender que neste contexto não temos a nossa hoje validada valoração positiva da originalidade como sinal de distinção literária e o plágio como crime ou apropriação indevida, a questão da poesia e da escrita criativa no século XVII tem cepa diversa e própria de um processo em que o diálogo entre escritores ia além da mera influência, pois era feita de intercâmbios e empréstimos que faziam uma unidade bem rígida de composição.
Os versos de Gregório possuem temática ampla, ou seja, podemos transitar pela máquina mercante e as condições sociais e políticas da Bahia em perspectiva de humor e crítica, indo a uma multiplicidade de etnias em Pernambuco ou passearmos em sonetos com artifícios afetando certa fidalguia. Temos versos e poemas que tomam alvos diversos, pois eles variam entre acusações de maricas, críticas contra a bazófia de pretensos fidalgos, passando por epítetos desrespeitosos para algumas mulheres, e indo de encontro a ricos que eram sistematicamente ridicularizados pela pena ferina de Gregório, passando, por fim, ao ataque contra certos aspectos da vida clerical, e temos Gregório então definido como um crítico político e social, e que era poeta e fazia esta crítica com poesia.
A obra de Gregório, por fim, tem uma significação importante para o contexto do que era o Brasil colonial. A composição de versos ferinos desvelam toda uma realidade da época com uma agudeza crítica que nos facilita a compreensão do que era a vida do século XVII, pois Gregório nos fornece uma obra notável que serve como um documento fiel ao que é importante saber de uma vida social e política que somente é discernível por meio de certo humor e senso crítico que nos resume muita coisa que, fora isto, demandariam um tempo e uma pesquisa maior e mais maçante do que tais versos de Gregório.
O contexto histórico dos versos de Gregório, por fim, não lhe impedem de ser uma poesia de cepa universal, pois seu alcance é suficiente para situarmos esta obra tanto como documento fiel do Brasil colonial como peça indispensável da literatura universal.

POEMAS :

DISCRIÇÃO, ENTRADA, E PROCEDIMENTO DO BRAÇO DE PRATA ANTONIO DE SOUZA DE MENEZES GOVERNADOR DESTE ESTADO. : O poema se volta ao plectro esguio da Bahia, no esforço aqui de Dom Antônio, e é uma Bahia já com a ressaca de seus velhos poetas ditos elegantes, e já com o poeta Gregório em certa ironia de si mesmo que, no entanto, tem uma boa composição de humor e crítica, no que vem : “Oh não te espantes não, Dom Antonio,/Que se atreva a Bahia/Com oprimida voz, com plectro esguio/Cantar ao mundo teu rico feitio,/Que é já velho em Poetas elegantes/O cair em torpezas semelhantes./Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito,/Lucano do Mosquito,/Das Rãs Homero, e destes não desprezo,/Que escreveram matérias de mais peso/Do que eu, que canto cousa mais delgada/Mais chata, mais sutil, mais esmagada./Quando desembarcaste de fragata,/Meu Dom Braço de Prata,”. O poema parte então para a desconstrução crítica de personagens da vida da Bahia, no que vem : “O rosto de azarcão afogueado,/E em partes mal untado,/Tão cheio o corpanzil de godolhões,/Que o julguei por um saco de melões;” (...) “Olhos cagões, que cagam sempre à porta,/Me tem esta alma torta,/Principalmente vendo-lhe as vidraças/No grosseiro caixilho das couraças :”. A crítica se torna destrutiva, forte, e impiedosa, no que temos, portanto : “De muito cego, e não de malquerer/A ninguém podes ver;/Tão cego és, que não vês teu prejuízo/Sendo cousa, que se olha com juízo :” (...) “Pernas, e pés defendem tua cara :/Valha-te; e quem cuidara,/Tomando-te a medida das cavernas/Se movesse tal corpo com tais pernas!”. A descrição aqui é terrível, o poeta se volta com grande brio e a pena queima e arrasa o que lhe cerca, no que vem : “Um casaquim trazias sobre o couro,/Qual odre, a quem o Touro/Uma, e outra cornada deu traidora,/E lhe deitou de todo o vento fora;/Tal vinha o teu vestido de enrugado,/Que o tive por um odre esfuracado.”. E vem o agouro severo de um poeta potente e senhor de seus versos como poucos, no que temos : “Livre-te Deus de um Sapateiro, ou Sastre,/Que te temo um desastre,/E é, que por sovela, ou por agulha/Arme sobre levar-te alguma bulha :/Porque depositando-te à justiça/Será num agulheiro, ou em cortiça.” (...) “Fundia-se a cidade em carcajadas,/Vendo as duas entradas,/Que fizeste do Mar a Santo Inácio,/E depois do colégio a teu palácio :/O Rabo erguido em cortesias mudas,/Como quem pelo cu tomava ajudas./Ao teu palácio te acolheste, e logo/Casa armaste de jogo,/Ordenando as merendas por tal jeito,/Que a cada jogador cabe um confeito :/Dos Tafuis em confeito era um bocado,/Sendo tu pela cara o enforcado./Depois deste em fazer tanta parvoíce,/Que inda que o povo risse/Ao princípio, cresceu depois a tanto,/Que chegou a chorar com triste pranto :”. E o poema então arremata seu trajeto com o rigor da crítica ferina, no que temos : “Xinga-te o negro, o branco te pragueja,/E a ti nada te aleija,/E por teu sensabor, e pouca graça/És fábula do lar, riso da praça,/Té que a bala, que o braço te levara,/Venha segunda vez levar-te a cara.”. A coda então fecha como um soco.

A CERTO PROVINCIAL DE CERTA RELIGIÃO QUE PREGOU O MANDATO EM TERMOS TAM RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE DE COMPAIXÃO. : O poema parte para o ridículo clerical, no que vem : “Inda está por decidir,/meu Padre Provincial,/se aquele sermão fatal/foi de chorar, se de rir :/cada qual pode inferir,/o que melhor lhe estiver,/porque aquela má mulher/da preversa sinagoga/fez no sermão tal chinoga,/que o não deixou entender.”.  E o poema continua, já pondo o pregador em maus lençóis, no que vem : “eu lhe quero dar das três/a outro qualquer Pregador,/seja ele quem quer que for,/já filósofo, ou já letrado,/e quero perder dobrado,/se fizer outro pior./E vossa Paternidade,/pelo que deve à virtude,/de tais pensamentos mude,/que prega mal na verdade :/faça atos de caridade,/e trate de se emendar,/não nos venha mais pregar,/que jurou o Mestre Escola,/que por pregar para Angola/o haviam de degradar.”. O poeta cobra uma postura mais firme e honesta, a virtude aqui é lembrada, e a degradação condenada. O poeta cita o letrado e o filósofo como exemplos, mas está certo de que todos devem pregar a verdade, não importa a cepa da pessoa, a virtude deve dar lugar à frouxidão moral ou à tibieza dos falsos crentes.

DESCREVE COM MAIS INDIVIDUAÇÃO A FIDUCIA, COM QUE OS ESTRANHOS SOBEM A ARRUINAR SUA REPUBLICA : O poema exalta e critica a Bahia, no que vem : “Senhora Dona Bahia,/nobre, e opulenta cidade,/madrasta dos Naturais,/e dos Estrangeiros madre./Dizei-me por vida vossa,/em que fundais o ditame/de exaltar, os que aí vêm,/e abater, os que ali nascem?”. O poema então se faz em grande estro de descrição de costumes em forma de poesia, e é uma descrição de intenções e de reconstituição histórica, o poema é muito bem estruturado, e considero um dos melhores de Gregório, dos que eu li, no que temos : “E suposto que os louvores/em boca própria não cabem,/se tem força terá a verdade./O certo é, Pátria minha,/que fostes terra de alarves,” (...) “que éreis uma aldeia pobre,/e hoje sois rica cidade./Então vos pisavam Índios,/e vos habitavam cafres,/hoje chispais fidalguias,/arrojando personagens.”. E temos um certo ar decadente e de crime que o poema aqui enumera, no que temos : “Sai um pobrete de Cristo/de Portugal, ou do Algarve/cheio de drogas alheias/para daí tirar gages :” (...) “Entra pela barra dentro,/dá fundo, e logo a entonar-se/começa a bordo da Nau/cum vestidinho flamante./Salta em terra, toma casas,/arma a botica dos trastes,/em casa come Baleia,/na rua entoja manjares.”. O poema ganha corpo e potência inauditas, é uma obra-prima, no que vem : “Entra logo nos pilouros,/e sai do primeiro lance/Vereador da Bahia,/que é notável dignidade.” (...) “Fica em terra resoluto/a entrar na ordem mercante,/troca por côvado, e vara/timão, balhestilha, e mares.”. O poema então descreve um personagem perdido, deambulante, hesitante, como é próprio de uma hipocrisia e também caráter fundante da infâmia : “Vende o cabedal alheio,/e dá com ele em Levante,/vai, e vem, e ao dar das contas/diminui, e não reparte./Prende aqui, prende acolá,/nunca falta um bom Compadre,/que entretenha o acredor,/ou faça esperar o Alcaide.”. A política e todos os seus ardis são aqui destituídos de substância, no que vem :  “O que ele fez, foi furtar,/que isso faz qualquer bribante,/tudo o mais lhe fez a terra/sempre propícia aos infames/e eis aqui a personagem./Vem um Clérigo idiota,/Desmaiado com um jalde,/os vícios com seu bioco,/com seu rebuço as maldades :”. E a crítica se volta aqui, novamente, ao mundinho clerical, no que vem : “Ontem simples Sacerdote,/hoje uma grã dignidade,/ontem salvage notório,/hoje encoberto ignorante./Ao tal Beato fingido/é força, que o povo aclame,/e os do governo se obriguem,/pois edifica a cidade.”. E a enumeração continua, com forma impiedosa, ferina, própria do boca de inferno, no que vem : “Vêm outros zotes de Réquiem,/que indo tomar o caráter/todo o Reino inteiro cruzam/sobre a chanca viandante./De uma província para outra/como Dromedários partem,/caminham como camelos,/e comem como salvages :” (...) “Não se gasta, antes se embolsa,/porque o Reverendo Padre/é do Santo Nicomedes/meritíssimo confrade;/e eis aqui a personagem./Veem isto os Filhos da terra,/e entre tanta iniquidade/são tais, que nem inda tomam/licença para queixar-se./Sempre veem, e sempre falam,/Até que Deus lhes depare,/Quem lhes faça de justiça/está sátira à cidade,/Tão queimada, e destruída/te vejas, torpe cidade,/como Sodoma, e Gomorra/duas cidades infames./Que eu zombo dos teus vizinhos,/sejam pequenos, ou grandes/gozos, que por natureza/nunca mordem, sempre latem./Que eu espero entre Paulistas/na divina Majestade,/Que a ti São Marçal te queime,/E São Pedro assim me guarde.”. O poema então se encerra com mestria, poema magistral de crítica e estética impecáveis.

POEMAS :

DISCRIÇÃO, ENTRADA, E PROCEDIMENTO DO BRAÇO DE PRATA ANTONIO DE SOUZA DE MENEZES GOVERNADOR DESTE ESTADO.

Oh não te espantes não, Dom Antonio,
Que se atreva a Bahia
Com oprimida voz, com plectro esguio
Cantar ao mundo teu rico feitio,
Que é já velho em Poetas elegantes
O cair em torpezas semelhantes.

Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito,
Lucano do Mosquito,
Das Rãs Homero, e destes não desprezo,
Que escreveram matérias de mais peso
Do que eu, que canto cousa mais delgada
Mais chata, mais sutil, mais esmagada.

Quando desembarcaste de fragata,
Meu Dom Braço de Prata,
Cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua
Mandava a Inquisição alguma estátua
Vendo tão espremida salvajola
Visão de palha sobre um Mariola.

O rosto de azarcão afogueado,
E em partes mal untado,
Tão cheio o corpanzil de godolhões,
Que o julguei por um saco de melões;
Vi-te o braço pendente da garganta,
E nunca prata vi com liga tanta.

O bigode fanado feito ao ferro
Está ali num desterro,
E cada pelo em solidão tão rara,
Que parece ermitão da sua cara :
Da cabeceira pois afirmam cegos,
Que a mandaste comprar no arco dos pregos.

Olhos cagões, que cagam sempre à porta,
Me tem esta alma torta,
Principalmente vendo-lhe as vidraças
No grosseiro caixilho das couraças :
Cangalhas, que formaram luminosas
Sobre arcos de pipa duas ventosas.

De muito cego, e não de malquerer
A ninguém podes ver;
Tão cego és, que não vês teu prejuízo
Sendo cousa, que se olha com juízo :
Tu és mais cego, que eu, que te sussurro,
Que em te olhando, não vejo mais que um burro.

Chato o nariz de cocras sempre posto :
Te cobre todo o rosto,
De gatinhas buscando algum jazigo
Adonde o desconheçam por embigo :
Até que se esconde, onde mal o vejo
Por fugir do fedor do teu bocejo.

Faz-lhe tal vizinhança a tua boca,
Que com razão não pouca
O nariz se recolhe para o centro
Mudado para os baixos lá de dentro :
Surge outra vez, e vendo a bafarada
Lhe fica a ponta um dia ali engasgada.

Pernas, e pés defendem tua cara :
Valha-te; e quem cuidara,
Tomando-te a medida das cavernas
Se movesse tal corpo com tais pernas!
Cuidei, que eras rocim das alpujarras,
E já frisão te digo pelas garras.

Um casaquim trazias sobre o couro,
Qual odre, a quem o Touro
Uma, e outra cornada deu traidora,
E lhe deitou de todo o vento fora;
Tal vinha o teu vestido de enrugado,
Que o tive por um odre esfuracado.

O que te vir ser todo rabadinha
Dirá, que te perfilha
Uma quaresma (chato percevejo)
Por Arenque de fumo, ou por Badejo :
Sem carne, e osso, quem há ali, que creia,
Senão que és descendente de Lampreia.

Livre-te Deus de um Sapateiro, ou Sastre,
Que te temo um desastre,
E é, que por sovela, ou por agulha
Arme sobre levar-te alguma bulha :
Porque depositando-te à justiça
Será num agulheiro, ou em cortiça.

Na esquerda mão trazias a bengala
ou por força, ou por gala :
No sovaco por vezes a metias,
Só por fazer enfim descortesias,
Tirando ao povo, quando te destapas,
Entonces o chapéu, agora as capas.

Fundia-se a cidade em carcajadas,
Vendo as duas entradas,
Que fizeste do Mar a Santo Inácio,
E depois do colégio a teu palácio :
O Rabo erguido em cortesias mudas,
Como quem pelo cu tomava ajudas.

Ao teu palácio te acolheste, e logo
Casa armaste de jogo,
Ordenando as merendas por tal jeito,
Que a cada jogador cabe um confeito :
Dos Tafuis em confeito era um bocado,
Sendo tu pela cara o enforcado.

Depois deste em fazer tanta parvoíce,
Que inda que o povo risse
Ao princípio, cresceu depois a tanto,
Que chegou a chorar com triste pranto :
Chora-te o nu de um roubador de falso,
E vendo-te eu direito, me descalço.

Xinga-te o negro, o branco te pragueja,
E a ti nada te aleija,
E por teu sensabor, e pouca graça
És fábula do lar, riso da praça,
Té que a bala, que o braço te levara,
Venha segunda vez levar-te a cara.

A CERTO PROVINCIAL DE CERTA RELIGIÃO QUE PREGOU O MANDATO EM TERMOS TAM RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE DE COMPAIXÃO.

Inda está por decidir,
meu Padre Provincial,
se aquele sermão fatal
foi de chorar, se de rir :
cada qual pode inferir,
o que melhor lhe estiver,
porque aquela má mulher
da preversa sinagoga
fez no sermão tal chinoga,
que o não deixou entender.

Certo, que este lava-pés
me deixou escangalhado,
e quanto a mim foi traçado
para risonho entremez :
eu lhe quero dar das três
a outro qualquer Pregador,
seja ele quem quer que for,
já filósofo, ou já letrado,
e quero perder dobrado,
se fizer outro pior.

E vossa Paternidade,
pelo que deve à virtude,
de tais pensamentos mude,
que prega mal na verdade :
faça atos de caridade,
e trate de se emendar,
não nos venha mais pregar,
que jurou o Mestre Escola,
que por pregar para Angola
o haviam de degradar.

DESCREVE COM MAIS INDIVIDUAÇÃO A FIDUCIA, COM QUE OS ESTRANHOS SOBEM A ARRUINAR SUA REPUBLICA

Senhora Dona Bahia,
nobre, e opulenta cidade,
madrasta dos Naturais,
e dos Estrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa,
em que fundais o ditame
de exaltar, os que aí vêm,
e abater, os que ali nascem?
Se o fazeis pelo interesse,
de que os estranhos vos gabem,
isso os Paisanos fariam
com duplicadas vantagens.
E suposto que os louvores
em boca própria não cabem,
se tem força terá a verdade.
O certo é, Pátria minha,
que fostes terra de alarves,
e inda os ressábios vos duram
desse tempo, e dessa idade.
Haverá duzentos anos,
(nem tantos podem contar-se)
que éreis uma aldeia pobre,
e hoje sois rica cidade.
Então vos pisavam Índios,
e vos habitavam cafres,
hoje chispais fidalguias,
arrojando personagens.
A essas personagens vamos,
sobre elas será o debate,
e queira Deus, que o vencer-vos
para envergonhar-vos baste.
Sai um pobrete de Cristo
de Portugal, ou do Algarve
cheio de drogas alheias
para daí tirar gages :
O tal foi sota-tendeiro
de um cristão-novo em tal parte,
que por aqueles serviços
o despachou a embarcar-se.
Fez-lhe uma carregação
entre amigos, e comprades :
e ei-lo comissário feito
de linhas, lonas, beirames.
Entra pela barra dentro,
dá fundo, e logo a entonar-se
começa a bordo da Nau
cum vestidinho flamante.
Salta em terra, toma casas,
arma a botica dos trastes,
em casa come Baleia,
na rua entoja manjares.
Vendendo gato por lebre,
antes que quatro anos passem,
já tem tantos mil cruzados,
segundo afirmam Pasguates.
Começam a olhar para ele
Os Pais, que já querem dar-lhe
Filha, e dote, porque querem
homem, que coma, e não gaste.
Que essa mal há nos mazombos,
têm tão pouca habilidade,
que o seu dinheiro despendem
para haver de sustentar-se.
Casa-se o meu matachim,
Põe duas Negras, e um Pajem,
uma rede com dous Minas,
chapéu-de-sol, casas-grandes.
Entra logo nos pilouros,
e sai do primeiro lance
Vereador da Bahia,
que é notável dignidade.
Já temos o Canastreiro,
que inda fede a seus beirames,
metamorfórsis da terra
transformado em homem grande :
e eis aqui a personagem.
Vem outro do mesmo lote
tão pobre, e tão miserável
vende os retalhos, e tira
comissão com couro, e carne.
Co principal se levanta,
e tudo emprega no Iguape,
que um engenho, e três fazendas
o têm feito homem grande;
e eis aqui a personagem.
Dentre a chusma e a canalha
da marítima bagagem
fica às vezes um cristão,
que apenas benzer-se sabe :
Fica em terra resoluto
a entrar na ordem mercante,
troca por côvado, e vara
timão, balhestilha, e mares.
Arma-lhe a tenda um ricaço,
que a terra chama Magnate
com pacto de parceria,
que em direito é sociedade :
Com isto a Marinheiraz
do primeiro jacto, ou lance
bota fora o cu breado,
as mãos dissimula em guantes.
Vende o cabedal alheio,
e dá com ele em Levante,
vai, e vem, e ao dar das contas
diminui, e não reparte.
Prende aqui, prende acolá,
nunca falta um bom Compadre,
que entretenha o acredor,
ou faça esperar o Alcaide.
Passa um ano, e outro ano,
esperando, que ele pague,
que uns lhe dão, para que junte,
e outros mais, para que engane.
Nunca paga, e sempre come,
e quer o triste Mascate,
que em fazer a sua estrela
o tenham por homem grande.
O que ele fez, foi furtar,
que isso faz qualquer bribante,
tudo o mais lhe fez a terra
sempre propícia aos infames
e eis aqui a personagem.
Vem um Clérigo idiota,
Desmaiado com um jalde,
os vícios com seu bioco,
com seu rebuço as maldades :
Mais Santo do que Mafoma
Na crença dos seus Arabes,
Letrado como um Matulo,
e velhaco como um Frade :
Ontem simples Sacerdote,
hoje uma grã dignidade,
ontem salvage notório,
hoje encoberto ignorante.
Ao tal Beato fingido
é força, que o povo aclame,
e os do governo se obriguem,
pois edifica a cidade.
Chovem uns, e chovem outros
com ofícios, e lugares,
e o Beato tudo apanha
por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro, e respeito,
vai remetendo as fundagens,
compra toda a sua terra,
com que fica homem grande,
e eis aqui a personagem.
Vêm outros zotes de Réquiem,
que indo tomar o caráter
todo o Reino inteiro cruzam
sobre a chanca viandante.
De uma província para outra
como Dromedários partem,
caminham como camelos,
e comem como salvages :
Mariolas de missal,
lacaios missa-cantante
sacerdotes ao burlesco,
ao sério ganhões de altares.
Chega um destes, toma amo,
que as capelas dos Magnates
são rendas, que Deus criou
para estes Orate frates.
Fazem-lhe certo ordenado,
que é dinheiro na verdade,
que o Papa reserva sempre
das ceias, e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
porque o Reverendo Padre
é do Santo Nicomedes
meritíssimo confrade;
e eis aqui a personagem.
Veem isto os Filhos da terra,
e entre tanta iniquidade
são tais, que nem inda tomam
licença para queixar-se.
Sempre veem, e sempre falam,
Até que Deus lhes depare,
Quem lhes faça de justiça
está sátira à cidade,
Tão queimada, e destruída
te vejas, torpe cidade,
como Sodoma, e Gomorra
duas cidades infames.
Que eu zombo dos teus vizinhos,
sejam pequenos, ou grandes
gozos, que por natureza
nunca mordem, sempre latem.
Que eu espero entre Paulistas
na divina Majestade,
Que a ti São Marçal te queime,
E São Pedro assim me guarde.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :   https://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-os-versos-ferinos-do-boca-de-inferno           

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

CANTO DO LÓTUS

Maçãs doces dos meus salmos,
me deixem sob a música
que ressoa no quarto,

eu, poeta sonoro,
vivo cantando
nos livramentos
dos canhões,
vivo sonhando
nos pensamentos
das razões,

oh febre de estrela
e delírio de topázio,
acorda em mim
a vida vivida,
que de poesia
os mares
nos guiam,
e de feras indômitas
a cidade
está
repleta,

me faz ter a plenitude
de um canto de sol,
me faz ter a alegria
de um lótus
alucinante.

15/11/2018 Gustavo Bastos

EIS O POEMA

Abram as cortinas dos sonhadores :
na grande loteria
os joão-ninguém
fazem fortunas,

desde muito cedo
se ensina
a virtude
do sofrimento,
dos maus lençóis
de bolsos rotos,
dos sacrifícios
nobres
da labuta,

pois que de um ato político
nasce o corpo de baile,
as lutas cotidianas
e o suor
nas máquinas
de tear,

as feras mais fortes
do mundo,
os trabalhos
hercúleos
que nos
fazem
viver,
eis o poema.

15/11/2018 Gustavo Bastos

SEMEADURAS DE ALEGRIA

Não mudem vossos pensamentos
e vossas crenças
diante do infortúnio,
pois da seca terra
nasce uma flor,
e estas histórias
têm um destino,
paraísos eternos
de cantos alegres,
noites e dias
felizes
de um idílio
como em sonhos
brocados
de frisos
e esmeraldas,

ah, não se tornem opacos,
não!
brilhem quais estrelas
do céu,
e a sorte
será o sorriso
nos lábios
da poesia.

15/11/2018 Gustavo Bastos

OS DELIRANTES DO SOL

Potência do sol, os mártires
aguerridos se aferram
às suas esperanças,
oito palmos está medido
todo o metro do poeta,
seus cantos vertem
chamas em pupilas,
potência da estrela,
potência dos céus,
oh que de penhascos
se faz a queda,

eram cinco da manhã :
o mestre das armas
soava seu alarme
como um bom corneteiro,
os silvícolas se assustavam
em suas tribos,
os soldados já prontos
ao ataque,

a febre contra os mártires
acordava os cães de guarda,
felinos no fundo da floresta
avançavam mata adentro,
os meninos imitavam
revólveres com as mãos,
todos os sonhos
viravam pó
sob o sol inclemente.

15/11/2018 Gustavo Bastos

PERTO DO SILÊNCIO

As fronteiras do calabouço
calam as vozes dos malditos,
doce aurora ilumina
as prisões,
o arrebol,
no entanto,
anuncia a
noite da angústia,

fundos prisioneiros políticos
gritam por socorro,
em vão,
os cães alucinados
guiam as tropas,
poetas são assassinados
e filósofos são
seviciados,

o líder da matilha
vai ao combate
contra a liberdade,

os libertinos desaparecem
sem deixar vestígio,
e os músicos têm
seus dedos triturados,

pobre dos heroísmos tardios,
os anarquistas nesta terra
morrem sem deuses
e perto do silêncio.

15/11/2018 Gustavo Bastos

OS DIAS DA GUERRA (NO FRONT)

As notícias do front
eram tristes,
assassinos de pistola
atacavam a resistência,
odores cadavéricos
viravam miasmas
de morte,

o líder dos campos de marte
lutava com seus livramentos
dos ataques das granadas,
seus discípulos gritavam
"liberdade" contra
estes tais miasmas,
fantasmas sonhados
em palcos de terror,
guerra química
de cloro e fósforo,
noites paranoicas
sob o alarme
do medo,

oh, tenho em breve
o resultado da chacina,
quem vencer o ódio
das máquinas de guerra
será o galardoado,
pois das misérias rotas
o temor é pela injustiça
e pelo terror dos algozes,
pois dos sonhos maiores,
a paz renascerá.

15/11/2018 Gustavo Bastos

OS SONHOS DO POETA

De sua vida folgazã o poeta
elencava seus sons com
mestria de ourives
e precisão de artesão,

vestem os versos como vestais
e forma as esquadras
com os brocados lúbricos
das sementes seminais,
desde o fundo vítreo
ao acabamento minucioso
dos frisos e capiteis,
temos destes poemas
rica inspiração,

pois que do gládio do guerreiro,
o poeta vos defende
das garras do ódio,
o poeta vos ensina
o ópio do amor
e das paixões,

e de chofre ainda
o poeta nos dá
sustos em fatos
e delírios,

uma vez este poema vos dá
estrelas, de outra vez
o céu de um sol quente.

15/11/2018 Gustavo Bastos

ODE AO SENHOR DA POESIA

Ainda soava o alarme da manhã,
dando voltas a chave abre o recinto,
os poetas ainda dormem,
desde os antigos aedos ou rapsodos
aos moderníssimos slams declamatórios,
eu ainda insisto no verso absinto
de meus láudanos laudatórios,
encômios pastosos de frontispícios,
panegíricos levando solavancos
de idílios na senda dos madrigais.

Ainda soava o alarme da manhã,
e os poetas acordavam
de sonhos tranquilos,
de ilusões confortantes,
de loucuras suaves.

Ainda dobrava o sino da tarde
quando bate continência
o soldado e sua farda,
quando já no alto da torre
se jogava Safo, a bela
do penhasco, com seus sóis
de ópio sobre as flores
mádidas de um rio caudaloso
em que morria a flora profunda
de uma ofélia teatral,
eis o sismo dos versos
em seus atavios de fortuna.

Já dobrava o sino da tarde,
corriam os sentinelas
com dores de pães ázimos,
com revoltas de guerra
sobre os leitos e fios d`água,
com ritos de passagem
nas hordas tribais.

Ao cair da noite o choro fumava
aos átrios do teatro
e seu proscênio dionisíaco,
seus fumadores de cannabis
sonhando deveras
os mais altos delírios
de grandeza,
seus pensadores concebendo
todos os dons divinos
dos mais altos voos
de leveza.

Ao cair da noite a morada
dos anjos botânicos
abriam as pétalas
mirando as damas da noite,
pois ao cair da noite
temos abóbada celeste
em canto de trinado estrelado
que vai do cometa à supernova
ao ver o plenilúnio
das odes que madrugam
felizes.

15/11/2018 Gustavo Bastos

BORGES ENTRE A ÉPICA E O ROMANCE


“Borges lamenta esta cisão que foi feita entre lírica e elegia, de um lado, e romance, de outro.”

O NARRAR UMA HISTÓRIA

Borges começa o texto nos lembrando de como a palavra poeta possui duas referências e sentidos diversos quando se fala dela na antiguidade e na modernidade. Temos, de início, que Borges julga o sentido moderno de poeta um conceito ou palavra fracionada, uma vez que temos aqui a lírica como fator dominante, ao passo que seu sentido antigo está ligada a uma feitura, a uma narração de uma história, o que vai culminar na poesia épica, a primeira linguagem poética que surgiu na História, e que tem um aspecto de narrativa calcada na conduta do herói.
Tal épica inaugura o que se entendia por poesia, a lírica, por sua vez, é fenômeno mais próprio do verso moderno, o narrador antigo poderia até apresentar certa lírica, mas a sua função era muito mais pragmática, ele era um fazedor de histórias, um guia que nos contava as peripécias de um herói, e Borges nos cita as três poesias épicas principais do período antigo, que eram então a Ilíada, a Odisseia e, por fim, os quatro Evangelhos, que Borges aqui define também como um épico, mesmo que nós entendamos como códice religioso.
Borges, seguindo a sua análise, considera a Ilíada, por exemplo, pobre de atrativos, pois se concentra num episódio maçante do herói Aquiles, seu momento de fúria, e que ganha o contorno de uma guerra, que é a invasão dos guerreiros gregos à cidade de Troia, e o tema da Ilíada passa a ser todo este enredo em que Aquiles enraivecido invade Troia, e temos então Borges nos lembrando que muito da identidade do enredo épico pendia, paradoxalmente, mais para o lado dos derrotados, isto é, os troianos, do que uma certa antipatia dos vencedores gregos, pois as pessoas escolhiam os heróis troianos, numa espécie de dignidade da derrota, a qual será consolidada já na modernidade.
Por sua vez, a Odisseia possui uma narrativa mais densa e completa que a Ilíada, pois seu tema se volta a duas frentes, ou melhor, temos duas leituras que se pode fazer do enredo da Odisseia, tanto a peripécia marítima de Ulisses e suas aventuras nestes caminhos e viagens, como a ideia corrente  e mais conhecida de um exílio e regresso do herói. Portanto, temos, de um lado, a magia dos perigos e curiosidades do mar, e de outro lado, um herói que tem uma intenção principal de regressar vivo à sua terra natal, sendo a ideia de exílio e regresso aqui o leitmotiv da épica do herói, considerando que todos os atrativos do mar são aventuras efêmeras, e que o destino do herói está em seu retorno ao lar.
E, por fim, temos o que Borges considera o maior épico da terra, que são os quatro evangelhos. Estes que, por sua vez, são a narrativa de um herói histórico e real, guardadas as controvérsias que colocam em dúvida a existência de Jesus e, ainda mais, de que se trata do maior herói de todos, isto é, o messias, o homem-deus. Mas a leitura preponderante é a que se constitui como o dogma cristão, ou seja, a ideia de que Deus se fez homem e morreu na cruz para expiar os pecados da humanidade, ressuscitando ao terceiro dia e nos deixando o testemunho do amor de Deus e da realidade do paraíso. A leitura cética, por outro lado, mesmo que não duvide da figura histórica de Jesus, nunca aceitará a ideia de um homem-deus, talvez no máximo a ideia de um sábio que tinha um gênio tal que se dizia deus até que este deus o abandona na crucificação.
Borges nos faz saber também que, por muitos séculos, as três narrativas épicas principais (Ilíada, Odisseia e os quatro evangelhos) que surgiram ainda no mundo antigo dominaram o imaginário da humanidade sem dar falta de nada mais, pois eram épicos poderosos o suficiente para nutrir a humanidade por um bom tempo, e foi o que ocorreu, com tais épicos sendo contados e recontados através de gerações, o que consolidou estas três narrativas como um patrimônio da humanidade e um dos principais materiais narrativos da História até os dias de hoje. Temos tais épicos como cânones indestrutíveis da tradição histórica e literária humana.
Já no despontar da modernidade temos o tal fracionamento ou fragmentação de que nos fala Borges no início, isto é, a divisão entre poesia lírica e elegia, de um lado, e a narrativa moderna, que será o romance, de outro lado. Borges nos sugere, então, sem afirmar categoricamente, que o romance pode figurar como um tipo de degeneração da épica, já que “o romance remonta à dignidade da épica”, nas palavras de Borges.
E uma das diferenças mais patentes entre a épica e o romance, por sua vez, Borges nos faz lembrar, e é um tanto óbvio, de certo modo, é a divisão existente ou separação entre o verso e a prosa, pois a épica canta algo em versos, enquanto o romance enuncia uma história com o uso pragmático da prosa, pois temos a épica que também conta uma história, mas aqui é um cantar, isto é, poesia, ou ainda, poesia épica, ao passo que o romance já faz parte da prosa, oficialmente falando, pois tem um lado objetivo e de materialidade, uma vez que no romance se conta simplesmente uma história, ao passo que na poesia épica se conta uma história no contexto poético de uma linguagem musical ou cantada.
Outra diferença entre épica e romance está no fato de que a poesia épica conta a saga de um herói, ao passo que o romance tem um lance contra-intuitivo de nos contar sobre o aniquilamento de um homem, da degeneração do caráter. A épica nos legou por séculos, portanto, uma tradição narrativa dos vencedores, ao passo que a dignidade da derrota só nos foi tematizada de fato com a emergência do romance como nova categoria literária, mudando um paradigma de final feliz ou de ideia de felicidade como dogma narrativo até então, imagem positiva esta que a épica sempre consolidou com a aventura do herói e suas glórias e vitórias.
Na transição do século XVIII para o XIX temos, então, que o homem começou a inventar histórias, figurando então escritores inaugurais como foram Hawthorne e Edgar Allan Poe, mas sem, contudo, tratar-se da existência de um Adão literário, pois há precursores, mas temos nesta passagem citada entre séculos a evolução das peripécias e a construção diversa de inúmeros enredos, revelando a categoria do romance, por exemplo, como algo mais engenhoso de enredos do que fora o épico até então, poesia épica que fora um modelo canônico, verdadeiro paradigma, que vigorara por séculos.
Borges, por fim, finaliza este texto com um tipo doce de nostalgia, que é seu anelo de retorno da épica, de novamente a poesia se tornar algo originário como foi antes, isto é, uma poesia narrativa, que conta uma história através da canção, que junta duas funções num só modelo, a poesia épica, esta que junta o verso cantado e uma história, uma vez que Borges lamenta esta cisão que foi feita entre lírica e elegia, de um lado, e romance, de outro.
E a nostalgia de Borges também tenta profetizar a implosão do romance, depois de deslocamentos temporais e de estrutura, e o retorno triunfal da épica, no que Borges admite, então, a sua inadequação, ou se tratar de um sonho antiquado, de um “um homem antiquado do século XIX”, pois este é o sonho louco de Borges, um sonho literário, mas que faz sentido, pois julgo que a literatura e a poesia, o verso e a prosa, não são faculdades estanques.
A épica, talvez, se nos dê agora não como um retorno ou renascimento de uma tradição antiga, mas como uma evolução que formará uma nova força de confluência, sem necessariamente implodir ou entrar na frente do romance, como talvez sugere sutilmente o desejo ou profecia borgianos.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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