PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

BORGES, OS SONHOS BÍBLICOS E MAIS DESCRIÇÕES ONÍRICAS

“um dos temas do sonho é a concepção da insignificância da vida individual neste mundo”

Borges nos fornece neste seu Livro dos Sonhos uma perspectiva em que a ficção mais uma vez se faz como uma aparente crítica literária, mas no caso deste livro temos um caso mais específico ainda da literatura borgiana, temos uma espécie de documento transcrito, vide o relato inicial da História de Gilgamesh, seja no trecho em que se dá os diversos relatos bíblicos do plano onírico e de como o terreno do sonho sempre foi, na era antiga e demais contextos, também associado com uma faculdade profética ou de adivinhação.
Na abertura do livro temos, portanto, a História de Gilgamesh, este que é um dos registros de ficção mais antigos do mundo civilizado, surgido nos inícios da civilização mesopotâmica, pois, em meio de uma mitologia que reunia entidades como Tamuz e Ishtar, Gilgamesh nos aparece como um personagem sui generis, não fazendo parte do panteão sumério, por exemplo, mas sendo o primeiro poema épico de que se tem notícia na nossa História do mundo. E Borges faz aqui uma reprodução fiel do texto antigo, na relação entre Gilgamesh e Enkidu, e no afã de romper o mundo dos mortais em direção do mundo dos deuses, Gilgamesh teria, no entanto, o mesmo destino reservado aos mortais, a finitude, no que o herói regressa, por fim, a Erech.
Se segue, no livro de Borges, então, uma série de textos bíblicos curtos, todos referentes ao papel do sonho no contexto destes relatos bíblicos, e começando com o mais conhecido, que é o de José no Egito, no Gênese, que era um hebreu feito cativo que ganha a confiança de Faraó ao ser o único que teve a capacidade de interpretar um sonho do soberano que nenhum dos adivinhos do Egito tiveram como decifrar.  E José acaba sendo então nomeado por Faraó o superintendente do Egito.
Outro relato bíblico famoso e também transcrito por Borges em seu Livro dos Sonhos é o de Daniel com os sonhos de Nabucodonosor, já no reino caldeu ou neobabilônico. A história começa com um pesadelo que o soberano tivera, mas que havia sumido de sua memória, e nisto ele convoca todos, isto é, os adivinhos, os magos, os encantadores, e por fim os próprios caldeus, mas ninguém lhe dá a resposta, mesmo com a ameaça do soberano sobre o seu povo de perecerem se não lhe dessem a resposta.  Uma vez que os caldeus disseram ao rei que só os deuses poderiam lhe dar tal resposta, ele então ordena a morte de todos os sábios de Babilônia. E Daniel, que também poderia perecer, pediu ao rei, no entanto, um tempo, e lhe prometeu que desvendaria o mistério.
E então o segredo foi descoberto por Daniel numa visão durante a noite. Daniel então é levado ao rei por Arioc, e este cativo, um dos filhos de Judá, diz ao soberano : “Os sábios, os magos, os adivinhos e os agoureiros não podem descobrir ao rei o mistério que o rei deseja descobrir. Mas no céu há um Deus que revela os mistérios, o qual mostrou, ó rei Nabucodonosor, as coisas que hão de acontecer nos últimos tempos.”
E então temos a revelação de que o sonho era de que o rei olhava uma estátua bem grande, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, uma das partes do pés era de ferro e a outra de barro. O rei olhava, segundo a revelação feita a Daniel, a estátua, quando então rolou uma pedra de um monte e feriu a estátua nos seus pés de ferro e de barro e os fez em pedaços. E tudo se quebrou, o ouro, a prata e o cobre também. Este era o sonho do rei e que Daniel então também teve a visão. 
E a tradução do sonho feita por Daniel, com o concurso de seu Deus, era o de que o rei era a cabeça de ouro, de um reino próspero, que seria sucedido por um reino menor que o dele, que seria de prata, um terceiro reino então viria, de cobre, o quarto reino de ferro, e este reino, por fim, será dividido, entre a firmeza do ferro, e a parte frágil do barro. Então Nabucodonosor se prostra diante de Daniel dizendo-lhe que aquele Deus que revelara o sonho era o Deus dos deuses.
Temos então em seguida mais relatos de sonhos bíblicos, tendo então uma grande alegoria de quatro reinos, com todo o simbolismo que envolve também imagens fundidas de animais para interpretações de acontecimentos históricos, lembrando uma dinâmica comum entre a alegoria do sonho e sua interpretação, o simbolismo sendo sempre um enigma evidente, nunca algo sem sentido, daí que a interpretação, quando nos aparece, revela a lógica interna de tais sonhos. E terminamos o trecho bíblico do Livro dos Sonhos, por fim, com orações e confissões de Daniel e a citação do Evangelho de São Mateus, com a descrição do sonho de José que era uma comunicação espiritual do anjo do Senhor, a fuga para o Egito, incitada pela perseguição de Herodes, e o retorno, com o falecimento do perseguidor, da sagrada família a Israel, por fim.
Segue-se então, ao término do ciclo bíblico em Livro dos Sonhos, um conto sobrenatural hitita, História de Kessi, e então a fonte grega “Os sonhos procedem de Zeus”, da Ilíada, As Duas Portas, parte I, da Odisseia, uma fonte latina, a parte II, vinda da Eneida, O Sonho de Penélope, que era alegoria do retorno de Odisseu a Ítaca, o qual dava um fim ignominioso aos pretendentes de Penélope, a águia que mata os gansos rompendo-lhes o pescoço, retirado da Odisseia. E temos em seguida Os Idos de Março, um dos episódios mais famosos do périplo que foi o trajeto romano do reino à República e daí para se constituir como um grande império, Idos de Março que envolve a conspiração contra Júlio César e sua morte, relato este que foi feito pelo historiador Tito Lívio, mas que aqui em Borges se inspira na conhecida Vidas Paralelas de Plutarco.
Segue-se um pequeno relato sobre O Sonho de Cipião, obra de Cícero, que tem caráter filosófico-religioso, e tem a descrição do sonho do título, que envolve, na sua parte reflexiva, ou seu leitmotiv, a questão da piedade e da justiça, que então nos leva a uma descrição dos mundos supralunares e sublunares, de como esta divisão astronômica é também uma divisão da alma do Homem, o mundo inferior, sublunar, como lugar da mortalidade e da decrepitude, “exceto as almas dos homens”, como nos lembra Borges nesta descrição, e temos então a necessidade destes homens de se voltarem às virtudes citadas da piedade e da justiça, voltando então a vista a este plano superior das esferas supralunares, “onde nada é decrépito ou mortal”, como nos lembra Borges.
E o autor então também nos dá a chave : “A alma se acha ligada por sua parte superior a estas esferas, e somente poderá regressar efetivamente a elas, como sua verdadeira pátria, quando esqueça a caducidade dos bens materiais e das falsas glórias terrenas”. A origem de tais ideias em Cícero remete a Pocidônio, a qual alguns negam, e temos um plano geral em que tais concepções eram correntes, seja da influência das ditas religiões astrais, seja na concepção platônica, e que vai influenciar, por sua vez, autores posteriores, se destacando então Macróbio.
E aqui cito mais uma vez o texto borgiano, que nos diz : “É mister observar que um dos temas do sonho é a concepção da insignificância da vida individual neste mundo, comparada com a imensidade do cosmo. O tema está igualmente desenvolvido no Livro VI da Eneida (revelação de Eneas a Anquises) e em alguns escritos estoicos (por exemplo, em Sêneca, Ad Marciam de consolatione, XXI).”
Quanto a Macróbio, o temos citado pelo texto borgiano que se segue em Livro dos Sonhos, que é o Sonhos Caseiros, que nos diz da desimportância dos sonhos prosaicos ou cotidianos, e temos a valorização dos sonhos mais sublimes, lembrando que este autor, por exemplo, da obra Saturnais, escreveu um difundido Comentário ao Sonho de Cipião, capítulo VI da República de Cícero, Macróbio que, por sua vez, era um escritor latino do século V, e temos novamente esta descrição cosmogônica de origem platônica e pitagórica.
E seguindo a primazia de tais sonhos maiores, após na História, temos o mestre de São Tomás de Aquino, que era São Alberto Magno, iniciador da conciliação escolástica entre a filosofia grega e a doutrina cristã, na sua obra Da alma, reforçando a irrelevância dos sonhos menores e elevando os de origem divina. E tal levantamento se baseia bem em Rodericus Bartius, uma das fontes principais do Livro dos Sonhos de Borges.
(continua)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38375/17/borges-os-sonhos-biblicos-e-mais-descricoes-oniricas






 



sábado, 14 de abril de 2018

METAL FERVIDO

Nos jardins suspensos
eu tenho as garras
do que me impulsiona,
estes caros livros
de vultos e sopros,
os cantos setentrionais
e meridionais,
os ventos austrais e boreais,
poemas divinos e satânicos,
noites negras e dias solares,
setas de corações convulsos,
borrões de poemas incultos,
vastas formas estouradas
de versos petrificados,
imensos rios que desaguam
como uma golfada
de literatura,
ah, como me faz bem
este pouco poema
de estrela e de cometa
que volteia
como supernova
e quasar,
como me faz bem
ser este meio
e mensagem
com a fúria
do metal fervido.

14/04/2018 Gustavo Bastos

PEQUENA BIOGRAFIA POÉTICA

Me convenço que estas notas febris
são paixonites mórbidas,
um telefone telepático
mordisca a nuvem da ideia,
quando ando em fuga
meus miasmas somem
comigo,

ah, que a luta e a lida não me
deformem a forma poética,
pois um canto oscila
e faz melismas
no ócio,
seu trinado depende
também da preguiça,
ah, este canto,
esta música sentimental!

Oh, que quanto mais eu somo
meus poeminhas,
estes saltam do asco
e se perfilam
como um exército
brancaleone
de versos
aparvalhados,
como uma sinfonia
de mambembes,
oh poemas bonitos
e burilados eu tenho!

Que mais queime tudo,
o corpo, a alma, o espírito,
as ideias e as ações,
que queime a literatura,
que queime os olhos e a boca
estes poemas crédulos
e semeiem novos mundos
de fábula e ardor,

ah, me dê esta cara de medusa
no campo lutuoso
dos orbes macabros,
touro indômito
que deixa a chaga
em seu oponente,
o poema luta com força
e fibra motora
seus elencos de um
parque industrial,
de uma usina louca
de som e fúria,

este poeta canta seu canto
de zênite e nadir,
com sua história
mesmerizada
em pranto e riso
de um viver
em desassombro.

14/04/2018 Gustavo Bastos

A DOR POÉTICA

 A praia me detém
com uma gaivota
ou um albatroz
no arrebol,

o poema nomeia a falange solar
que inunda a tela dos pintores,

caiam todas as máscaras,
ceifem os atores canastrões,
suicidem os poetaços,
morram os filosofastros,

eis que tenho uma boa nova :
os novos poemas
são imprevistos,
são bons,
são vitoriosos,

o tempo dos poetas tristes passou,
o tempo dos poetas suicidas
saiu de moda,
hoje o mundo oprime tanto,
que nem de morte e tristeza
vive mais o coração do poeta,
mas da ácida ironia
que transforma dor
em poesia.

14/04/2018 Gustavo Bastos

DOS POETAS DOENTES

Amando as setas de poesia
caio em luva e máscara,
sofro de paralisia muscular
com os anti-inflamatórios,
meu suco pancreático
destrói minha bílis,
meus ossos sofrem e doem
como guilhotinas
em minhas células
túrgidas,
meus tecidos todos corroem
minhas glândulas
e eletrólises sopram
em sinapses como
axônios que se dendritam
em cápsulas de cianureto,
oh, quantos nervos
sulcam as faces malditas
de poesia e de poetas,
seres nervosos em colapso,
filhos do vento nodoso
das equimoses e dos traumas
anímicos, seres hipocondríacos
com elencos de câncer
e de gota,
seres estelares
com corpos rebeldes
e infensos
à saúde benquista.

14/04/2018 Gustavo Bastos

ESPERANÇA

Por olvidar o que lhe é inculto,
a inteligência cósmica e perene
se orna com lustros de experiência,
formas acabadas de percepção,
olhos que veem como lupas
seus corações mais brandos,
uma lufada de calor
que levita a alma,
os cortes de argumento
que estabelecem as teorias,
as práticas bem estruturadas
de um tempo mais sábio e sutil,
de todas as esferas estudadas
nada do ardil dos que não
conhecem o outro, estudar o
rosto humano é de antemão
o exercício do autoconhecimento,
este que combina instinto, razão
e fé num arcabouço de
sistemas de pensamento e de
filosofias de vida,
ó mãe natureza,
me leve em tuas mãos
ao seio da verdade,
teu ciclo e minha
esperança.

14/04/2018 Gustavo Bastos

TRAMA ATÔMICA

Como os pedaços de carne
que caíam em Chernobyl,
caio com surtos atômicos
e um passo a mais
detono os isótopos
da usina,

febril o poema se estende
e se expande como o sol,
reto e firme,
o poema tece seu hinário
com os rasgos de câncer
das formas de polímeros
e de cadeias moleculares
rotundas,

febre o poema se retorce
e vira um todo geométrico,
em Chernobyl nasce
um asno sem rosto
e sem cérebro,

produz-se aos montes
os herdeiros de Hiroshima
e Nagasáki,
seres sem olhos
como a bomba que secou
os corações do sol nascente.

14/04/2018 Gustavo Bastos














































































































quarta-feira, 11 de abril de 2018

DA POSSESSÃO

"Vejam como o fogo se levanta! Queimo como deve. Vá, demônio!"

(Do poema Noite no Inferno, do livro Uma Temporada no Inferno, Rimbaud, Arthur)


Este eflúvio ou sangue que explode é a loucura, plena e sarcástica. Como se dá a plenitude? Ilusão demoníaca ou a mais pura graça divina em seu êxtase e esplendor? A psiquiatria tem uma resposta pronta e cientificizada, os espiritualistas divergem quanto à origem da possessão. O remédio amargo da luta espiritual é interrompida por uma brutal injeção, o ser é contido, alvejado, paralisado, amordaçado, Alice acorrentada se chama em todas as letras antes das tesouras libertadoras que lhe retiram da cama da morte, ele viu a morte, viu a face de Cristo pela madrugada doentia. O exorcismo foi feito, sem as agruras mistificadoras de Anneliese Michel.
Se chamou Exú na encruzilhada, despencou da virtude com a voz trevosa, se colocou às alturas na entrada do hospício, regurgitou em todas as esquinas em sua corrida louca pelo trabalho, a luta pelo salário que lhe meteu a loucura em todas as ruas, a rua da estrela, mortal como a queda de sete anjos desfigurados.
Se chamou Rimbaud, viu a África como uma miragem numa viagem de trem movida à ópio, fez a regressão, se fez chinês, se fez francês numa guerra brutal e viu Guilhotin morrer de febre.
Igual Joana D`Arc! A voz espiritual lhe empestiou o cadafalso. Viu o Apocalipse, verteu a fórmula, dançou como Cristo, aniquilou a festa com Che na cara inchada. Surto psicótico delirante. Sintomas do espectro esquizofrênico. Bipolaridade. Sintoma do tempo. Sintoma de época. Cerne inenarrável da poesia. Esteve enfermo num sono de Morfeu. Amou o sono com a sonoridade psicodélica da paz dos paraísos artificiais. Lia Baudelaire, e explodiu com Rimbaud ao estridente trompete de Miles Davis em Bitches Brew ... Um soco!
Voltou vivo! O esplendor se levantou de novo numa simples pescaria, pescou o sono na luz divina. Sorriu, vivo.
Hipnose. Conversas literárias. A Filosofia se condensava em sua cabeça, não tinha tempo a perder. Vingou-se sem fazer nenhum gesto. O silêncio tonitruante de Deus ou seja lá o que for se manifestou e queimou a inveja mais anódina da História.
Quadro de humor irritado, afeto aplainado, interpretações delirantes e símbolos, eis o simbolista fracassado, eis o Parnaso retumbando palavras, teve que beber outros, sair do ciclo dos antiquários, beber poesia moderna, fazer do som Neruda embriagado de Lorca, fazer peste e amor, encontrou o amor.
A possessão é: psicologia interpreta o louco, a Igreja "cura", no terreiro só tem possessos, veja um psiquiatra numa sessão de Umbanda, veja os loucos numa sessão de tortura. Veja a tortura da mentira. Não, não veja nada, já viram demais, a visão do visionário pode derreter a própria cabeça, não ouse resgatar do inconsciente perigos jamais vistos, fantasmas do Espiritismo, leia apenas, seja pensador, jamais feiticeiro ou prestidigitador, louco apenas de prosa, é mais seguro do que ser possesso, mais "clean". O espírito da letra leva ao Espírito, este é o caminho.
Ocultismo. Das visões egípcias guarde apenas o que viu, da meditação apazigue a teoria, rejuvenesça em cada campo de saber, vivifique seu bom, não seu mau. O demônio só entra em portas escancaradas, a mente segura é a mente da atenção, a mente segura é a mente prevenida, até ao amor seja prudente, sobretudo no amor.
Tese materialista sobre um possesso: Delírio de grandeza. Síndrome do grande gênio. Van Gogh. O inferno de Rimbaud, de novo? Três vezes, é mais do que o suficiente para saber de todos os segredos místicos dos nervos, é o bastante para a pena inspirada, terá que retumbar por toda a vida, até a eternidade!
Tese materialista sobre a possessão: Vítimas de mistificação, autossugestão, hipnose, Charcot, Wundt explicam. Viés reencarnacionista é rechaçado pelas evidências científicas, o Pensamento ainda é cartesiano. O fogo atômico-quântico é inexplicável e inaplicável para entender o "Homem". O ser integral é quântico, o pensamento lógico é necessário, a distinção cartesiana não é um artifício, é o método psiquiátrico, não adianta contestar, senão terá que fugir e pular muralhas, o canalha de si mesmo é a contestação, todo possuído é um contestador, todo possuído é um anarquista, todo possuído é um ente perturbador das leis, até das leis físicas, ele levita como uma pena como troça fundante do espanto. Exú foi expulso da rede inextricável da Psiquiatria, é certo, eu acho certo, errado é ser legião onde o melhor é ser indivíduo.
Minha tese espírita é cética e agnóstica, eu falo de ideias, de conclusões lógicas, à parte mediunidade, comprova-se muito destas verdades. O conluio com os duendes que é a parte da farsa, o lamaísmo tibetano nos orienta muito bem sobre estas coisas, parcimônia, afinal os magos negros estão por aí, orai e vigiai. A correção budista: despertai tu que dormes. O ascetismo, no entanto, é um engodo. A compaixão é seu acerto, pensamento e ação corretos. E a chave da sabedoria: o caminho do meio.
Tese espírita sobre a possessão: primeiro a obsessão simples, depois a fascinação, e por último a subjugação. Também é verdade. Mas a química é mais verdadeira ainda! As moléculas são a salvação da alma, cuide da sua alma medicando o seu corpo, o cérebro é destruído na fascinação, não tem volta, as medicações cortam o canal comunicador, a sensatez e a serenidade viram a nova obsessão. Não tem pajelança, é química para os doentes, com civilidade, sem isolar do campo humano, sem ser a velha fábrica de monstros. Tenho que ler Basaglia e Foucalt, como num contraponto, tenho que estudar como tudo funciona, neurociência, a cura não tem, mas estudo tem, e disciplina. O possesso é o doente imaginário de Moliére, a imaginação só serve bem à arte, em mais lugar nenhum! Júlio Verne nos dá a chave deste caminho.
A subjugação é foda. A pessoa escreve em todos os lugares, até em paredes, é uma rede, é uma teia, o esperto percebe esse assédio, mas o neófito cai, e pode morrer se não tomar conta de si, o cuidado de si é a sabedoria primeira, a compaixão (o cuidado do outro) é o objetivo final da vida, mas ponha-se de si a ordem que encontrou, só depois pense nos outros. A ordem de si irradiará ao mundo, e sua missão será cumprida, a tese da possessão: as duas estão corretas. Olho vivo!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38320/14/da-possessao










terça-feira, 10 de abril de 2018

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT – PARTE V

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT, CONSIDERAÇÕES FINAIS

“o homem de negócios que foi Schmidt não eclipsou em nada o seu caráter de artista”

Finalizando a nossa análise do poeta Augusto Frederico Schmidt, podemos reiterar a sua grandeza dentre os poetas brasileiros, conhecido sempre como o autor de “Canto da Noite”, um poeta lírico por excelência, em meio ao fervilhar do Modernismo, movimento este de caráter mais iconoclasta e renovador do que propriamente lírico, num primeiro momento.
Podemos dizer que Schmidt traçava uma linha paralela que só seria reencontrada, mais tarde, com poetas como Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, já em chaves líricas mais avançadas do que uma herança direta do romantismo e do simbolismo, caráter poético este que ainda pulsava na escrita poética de Augusto Frederico Schmidt. Por fim, Schmidt é um dos poetas ideais, destes da chamada “Poesia imperecível”, a qual Novalis dizia ser o “autêntico real absoluto”.
Biograficamente, o homem de negócios que foi Schmidt não eclipsou em nada o seu caráter de artista, e nem a sua verve lírica de poeta herdeiro da tradição romântica e simbolista, ou ainda sua própria produção poética e literária como um todo.
A poesia de Schmidt, mesmo sendo levantado aqui no texto que tem forte influência de uma tradição romântica e simbolista, nunca deixou de também estudar formas e conteúdos modernos, e seu lirismo, por outro lado, também era reflexo forte de nossa velha poesia de Portugal, que sempre foi influência para muitos dos poetas no Brasil, e por muito tempo.
Por fim, um aspecto que liga muito a poesia de Schmidt a uma imagem consolidada de poesia tradicional, pode ser o fato de que ele era um poeta também adepto de um grande transbordamento verbal.

POEMAS :

AURORA LÍVIDA (1958)

POEMA DE NATAL : O poema levanta a imagem do poeta Ungaretti, e nos lembra da tragédia pessoal deste poeta que perdera um filho que morreu criança, no que temos : “A IDEIA de escrever um/poema de Natal/Traz-me à lembrança o poeta Ungaretti,/Na sua casa em Roma,” (...) “Ungaretti é um pássaro revoando,/Volteando, girando e, de súbito,/molhando/As largas asas duras nas águas/Onde pousa e, às vezes, se move/A imagem do seu filho perdido.”. Logo Schmidt evoca liricamente o poeta italiano e de como esta dor tão central definiu grande parte da poesia de Ungaretti, no que segue :  “Ungaretti possui um tesouro,/E este dia de Natal reabre-lhe/Não só a ferida, mas também/a vontade de viver/Para que viva nele e com ele o seu fruto.” (...) “Possui a sua própria dor a queimar-lhe/o peito e a acompanhá-lo./E enquanto sua lembrança esvoaça/Em torno do filho pequeno que partiu,/Poupa-lhe Deus miséria igual à minha :/Contemplar nesta hora festiva/A face morta da criança que eu fui.”. E Schmidt mal compara, por fim, sua imagem infantil desaparecida como algo melancólico, sem a chama de uma tragédia como a de Ungaretti.

BABILÔNIA (1959)

OUVE A TARDE CHEGAR ... : O poema nos evoca Jerusalém, a imagem de Babilônia, e um deserto logo se abre, no que temos : “OUVE a tarde chegar em Babilônia./O rio leva suas águas mansas/Até onde se ergueu Jerusalém/E hoje é o deserto, a ruína, a solidão.” (...) “Pensa em Jerusalém e no destino/O Profeta. O fumo da tarde que se vai/Hesita, e na sombra por fim repousa triste./_ Ó meu Deus de Israel! – exclama o Doido –/Corta-me logo as ligações com o tempo/E aquieta no Teu seio o meu tormento!”. A prece é por um Deus, esta conhecida entidade de Israel, que nos corta as ligações com o tempo, para que seja aplacado o tormento deste mundo aflito, prece de um doido, de um profeta.

ÀS VEZES, QUANDO SÓ ... : O poema segue com uma meditação ou reflexão sobre o Mal, no que temos : “Às vezes, quando só no quarto estreito/Do hotel, em Babilônia, meditava/Sobre as desditas deste feio mundo/E no Mal triunfante em toda parte;/Quando a aurora da atroz desesperança/Rasgava o véu consolador da noite,/A Rainha do Céu o visitava,/Em doçura e tristeza toda envolta.” (...) “Ó milagre de amor, estranho e forte,/Do próprio desespero vitorioso,/Que as feridas do mundo em flores muda!”. A presença materna de uma Rainha do Céu então salva o poeta da visão desolada que ele tinha, a visita desta divindade feminina aquieta o coração de Schmidt, e então ele descansa.

O CAMINHO DO FRIO (1964)

O CAMINHO DO FRIO : O poema evoca o frio, no que temos :“Foi um fruto que caiu da árvore,/Foi alguém que passou na estrada,/Foi um pássaro,/Foi a história de uma viagem que pousou em mim,” (...) “E senti que ressurgiste com tuas mãos pequenas/Com teus olhos que não tinham cor certa;” (...) “E me indicavas o início do caminho do frio dizendo :/“_ É lá, onde se alinham aquelas árvores/Magras e feias, que começa o caminho do frio.””. A presença misteriosa do poema indica, por fim, ao poeta este caminho do frio que dá título ao poema.

POEMAS :

AURORA LÍVIDA (1958)

POEMA DE NATAL

A IDEIA de escrever um
poema de Natal
Traz-me à lembrança o poeta Ungaretti,
Na sua casa em Roma,
Via Remuria, 3.

Vejo-o impassível, o rosto difícil
De florir um sorriso,
Com os seus olhos que parecem
cansados
De contemplar o fundo do mar.

Ungaretti é um pássaro revoando,
Volteando, girando e, de súbito,
molhando
As largas asas duras nas águas
Onde pousa e, às vezes, se move
A imagem do seu filho perdido.

Ungaretti tem – e é seu consolo –
A certeza de que o filho
Não tocou no mal,
Que não chegou a perceber
Que os seres são sempre órfãos
E caminham sozinhos.

Ungaretti possui um tesouro,
E este dia de Natal reabre-lhe
Não só a ferida, mas também
a vontade de viver
Para que viva nele e com ele o seu fruto.

Penso com inveja em Ungaretti.
Invejo a tristeza do poeta.
Quem tem uma tristeza assim,
Não está de todo abandonado,
Não perdeu os últimos sinais
Que reconduzem à cidade da infância.

Neste dia de Natal, na sua casa em Roma,
Via Remuria, 3,
O poeta Ungaretti está menos só do que eu.

Possui a sua própria dor a queimar-lhe
o peito e a acompanhá-lo.
E enquanto sua lembrança esvoaça
Em torno do filho pequeno que partiu,
Poupa-lhe Deus miséria igual à minha :
Contemplar nesta hora festiva
A face morta da criança que eu fui.

BABILÔNIA (1959)

OUVE A TARDE CHEGAR ...

OUVE a tarde chegar em Babilônia.
O rio leva suas águas mansas
Até onde se ergueu Jerusalém
E hoje é o deserto, a ruína, a solidão.

Um pássaro volteia no ar, às tontas,
Retardatário, branco e inquieto. As asas
Tocam nas sombras ainda muito leves
Que anteciparam da noite a plenitude.

Pensa em Jerusalém e no destino
O Profeta. O fumo da tarde que se vai
Hesita, e na sombra por fim repousa triste.

_ Ó meu Deus de Israel! – exclama o Doido –
Corta-me logo as ligações com o tempo
E aquieta no Teu seio o meu tormento!

ÀS VEZES, QUANDO SÓ ...

Às vezes, quando só no quarto estreito
Do hotel, em Babilônia, meditava
Sobre as desditas deste feio mundo
E no Mal triunfante em toda parte;

Quando a aurora da atroz desesperança
Rasgava o véu consolador da noite,
A Rainha do Céu o visitava,
Em doçura e tristeza toda envolta.

Nos seus braços maternos o tomava
Como se infante fosse, e o embalava
E o fazia dormir um sono ameno.

Ó milagre de amor, estranho e forte,
Do próprio desespero vitorioso,
Que as feridas do mundo em flores muda!

O CAMINHO DO FRIO (1964)

O CAMINHO DO FRIO

Foi um fruto que caiu da árvore,
Foi alguém que passou na estrada,
Foi um pássaro,
Foi a história de uma viagem que pousou em mim,
Foi uma hora de ausência em que voltei a mim mesmo.

E senti que ressurgiste com tuas mãos pequenas
Com teus olhos que não tinham cor certa;
Estávamos assentados no alto muro de pedra.
No sítio em que as águas se dividem.
E me indicavas o início do caminho do frio dizendo :
“_ É lá, onde se alinham aquelas árvores
Magras e feias, que começa o caminho do frio.”

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38307/17/augusto-frederico-schmidt-consideracoes-finais




quinta-feira, 5 de abril de 2018

PET SOUNDS

“Pet Sounds é o resultado mais brilhante da mente de Brian Wilson”

Este álbum dos Beach Boys foi um marco histórico na música pop e no rock como um todo, lançado em 1966, redefiniu fronteiras de harmonia e era um reflexo direto do talento obsessivo e do rigor metódico de um gênio atormentado de nome Brian Wilson. É um dos álbuns definitivos do rock e do pop, um dos maiores álbuns de todos os tempos.
Durante um voo em dezembro de 1964, em que a banda seguia para uma turnê após o disco Beach Boys’ Party, Brian Wilson teve um ataque de pânico dentro do avião, e então logo após decidiu voltar para a Califórnia para fazer as canções de um próximo disco e convenceu o resto da banda de que não tinha condições de seguir em turnê. A gestação de Pet Sounds, portanto, se deu sob total controle de Brian Wilson.
Brian Wilson, por sua vez, se encontrava perplexo com a audição de Rubber Soul dos The Beatles e ficou instigado em seu ímpeto competitivo. O curioso é que Pet Sounds mais para a frente seria grande motivador para os mesmos The Beatles produzirem o fantástico The Sgt. Peppers.
Outro registro a se fazer de Pet Sounds é que este disco superava a concepção de canções populares e de apelo pop de surf music que tinha os Beach Boys até então, com músicas como Surfin USA, dentre outras, com direção comercial evidente. E foi quando Brian Wilson encontrou a outra parte fundamental do disco Pet Sounds, que foi Tony Asher, um compositor de jingles publicitários.
O trabalho era tão inovador e diferente do que vinha sendo praticado pelos Beach Boys, que o resto da banda, quando de volta da turnê, ficou chocado com o que estava sendo produzido por Brian Wilson, e houve desentendimentos quanto tanto a viabilidade comercial do novo disco como também de que maneira aquilo poderia ser reproduzido ao vivo. Al Jardine, Dennis Wilson e Mike Love não esconderam a desconfiança com relação a Pet Sounds, mas acabaram cedendo.
O disco foi um fiasco comercial nos Estados Unidos, mas no Reino Unido foi bem recebido, pois ganhou adeptos notórios como John Lennon, Paul McCartney, Keith Moon, dentre outros, chegando a segundo lugar das paradas britânicas.
O fato é que Brian Wilson tinha 23 anos de idade e conseguiu produzir um disco grandioso, que com o tempo ganhou valor histórico, muito mais intenso do que todo o trabalho comercial que também envolveu a banda, pois Pet Sounds antecipou a ideia de álbum conceitual que também viria com o Sgt. Peppers dos The Beatles.
Pet Sounds se destaca por uma espécie de pop elegante e polido, fruto de um trabalho minucioso, de harmonias indescritíveis, de um gosto refinado e de uma mente que fervia flertando com a loucura, que era a cabeça criativa e no limite da realidade que era a de Brian Wilson. Podemos citar a riqueza harmônica da abertura de Would`N Be Nice e também em Sloop John B, complexidade percussiva e um arranjo celestial de vozes.
Por sua vez, temos uma das músicas mais belas da História que é God Only Knows, uma canção de amor que evoca Deus no seu refrão inebriante, e que nos dá a dimensão total do que é o sentimento musical, faixa esta que é cantada por Carl Wilson, trabalho de uma complexidade até hoje estudada pela música contemporânea.
Pet Sounds é o resultado mais brilhante da mente de Brian Wilson, um hino do amor e o primeiro álbum conceitual que abre as portas para o infinito em matéria de harmonia e arranjos, e que coloca muito bem o atormentado Brian Wilson na categoria ilustre dos gênios. Pet Sounds é um disco clássico.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38242/14/pet-sounds




quarta-feira, 4 de abril de 2018

O VENTO DO POEMA

O vento cai ao quadrado
e vira ventania,

vendo o vento assim,
me mordo de paixão
por um vendaval,

tenho ímpeto de conceber
um furacão,

e tal ciclone que gira,
o vento é um sopro
divino que corta
o ar
com o mistério
que tudo vê.

04/04/2018 Gustavo Bastos

POEIRA CÓSMICA

Quando vir o anjo Gabriel
e lhe der tábuas
com indicações,
leia e faça seu dogma.

Quando vir Jeová
e lhe der tábuas
com leis,
leia e faça seu dogma.

Ah, para o diabo que te carregue!

Estes mares abertos
são infinitos
ao coração,

o enigma da sarça
e suas leis são
misteriosas,

mais que suratas e pentateucos,
a natureza divina
ou bastarda
nunca
se revela
por inteiro,

somos pó do pó
das estrelas.

04/04/2018 Gustavo Bastos

CORAÇÕES MOLES

Memento confissões,
sempre rubro o falso
dilema, face rúbida,
facécia fescenina.

Morte, este absoluto nada
e supremo, que nos leva
ao Letes,

memento memória, o vale suicida
nos dá um coração triste,
este que se embriaga
e cai no chão,
como um mendigo
contrito,

confissões de um apedeuta
dos sentimentos,
um frio e gélido
coração
de brinquedo.

04/04/2018 Gustavo Bastos

GAIVOTA GAIATA

Sobrevoa o inóspito campo
a gaiata gaivota,
sempre voa voa.

A gaivota gaiata
das canções
de asas,
dos jardins suspensos,
da vinha e da sarça
selvagens.

Voa voa ainda mais,
gaiata sobrevoa,
gaivota que voa,

o poema, este documento,
voa contigo,
gaivota gaiata
como este poema.

04/04/2018 Gustavo Bastos



RIO DA PRATA

No rio da prata um pescador
olhava o borrado marrom
e imenso, Almado González,
também bebedor de malbec,
um astuto jogador
de carteado.

A bem da verdade, seja alhures
suas apostas, o rio mancha
seus olhos em flor,
o rio da prata,
imenso,
em sua alma na
amplidão.

Visto de cima, o rio é o ventre
mais caudaloso do mundo,
uma bacia com o rigor
da correnteza,
e as varas de pesca
em meio ao burburinho
do aeroporto.

Conheci Almado González,
um torcedor do river
nascido em Rosário,
com o suor do rio
da prata em seu rosto.

04/04/2018 Gustavo Bastos

O TROVADOR FELIZ

Sempre pense na bifurcação
como o dilema do karma,
ouça a razão e o coração,
ouça mais ainda o instinto.

Sempre haverá a paisagem,
nua e árida,
dos sofrimentos.

Cale um pouco a dor mordente,
seja um cão guia
de cegos que se exaltam
por qualquer coisa,

note bem : as almas são ventos
que sopram amores desfeitos,
pactos rompidos,
vidas ao meio.

Sempre, poeta da rua,
cante sua loucura
e a sua liberdade
como um trovador
que parece feliz
no meio do caos.

04/04/2018 Gustavo Bastos


sábado, 31 de março de 2018

SOBRE DOWNLOADS NA INTERNET

"Não temos como regular a internet de forma rígida”

A questão da pirataria digital, se é que se trata tão somente de pirataria, ganhou corpo e ficou na ordem do dia quando se estabeleceu a tentativa polêmica do Congresso dos EUA de coibir tais práticas com dois projetos de lei anti-pirataria chamados pelos acrônimos SOPA e PIPA.
O SOPA (Stop Online Piracy Act) com tradução livre por “Pare com a pirataria on-line” e o PIPA (Protect IP Act) que é o ato para proteção da propriedade intelectual, acabaram sendo arquivados pelo Congresso americano, o que se deveu às manifestações ou interrupções de serviços de sites importantes como Google e Wikipedia (este que ficara 24 horas fora do ar), e após protestos de centenas de sites, sendo então decidido por alguns parlamentares a retirada de apoio a essas propostas.
O SOPA é um projeto de lei com regras mais rígidas contra a pirataria digital nos EUA. Ele prevê o bloqueio no país, por meio de sites de busca, por exemplo, a determinado site acusado de infringir direitos autorais. Logo após o SOPA, o fundador do Megaupload, Kim “Dotcom” Schmitz, foi preso em sua mansão na Nova Zelândia, e o site foi fechado pelo FBI. Logo, outros sites similares também fecharam as portas ou excluíram arquivos que pudessem infringir direitos autorais. E o pior, algumas pessoas foram presas por download ilegal.
Outro projeto mais ambicioso, o ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement), acordo internacional que promete limitar a internet, quer implementar propostas semelhantes às do SOPA e PIPA no mundo inteiro, e alguns países já aderiram a este projeto. O foco do ACTA não é só a internet e a pirataria digital, pois cobre também a pirataria física, e estipula regras duras sobre direitos autorais.
Aqui no Brasil temos a APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música), criada em meados de 2007, que foi responsável pelo fechamento da maior comunidade de compartilhamento de músicas do extinto Orkut, a Discografias, comunidade esta que representou uma "era de ouro" de downloads e uploads, da qual eu tive o prazer de participar. Outras comunidades foram criadas após este ataque da APCM, mas nunca com o sucesso da finada Discografias, restando agora o Google como fonte de links para downloads.
Bom, voltando ao SOPA, a proposta era ter penas de 5 anos de prisão para os condenados por compartilhar conteúdo pirata por 10 ou mais vezes ao longo de 6 meses. Sites como Google e Facebook, por exemplo, também poderiam ser punidos pela acusação de “permitir ou facilitar” a pirataria. Ferramentas de busca como o Google teriam que remover dos resultados das pesquisas endereços que compartilhem conteúdo pirata. O SOPA tinha apoio de emissoras de TV, gravadoras de músicas, estúdios de cinema e editoras de livros, como, por exemplo, Disney, Universal, Paramount, Sony e Warner Bros.
Contra o projeto estavam empresas de tecnologia como Google, Facebook, Wikipedia, Craiglist, WordPress, entre outros. Estes eram contra os projetos de lei SOPA e PIPA, alegando que, caso aprovados, eles teriam menos liberdade da internet e dariam poderes excessivos para quem quisesse tirar endereços do ar, prejudicando o funcionamento da web em todo o mundo.
Por fim, a Casa Branca também se manifestou contra os projetos, afirmando que eles podem atentar contra a liberdade de expressão na internet. A Casa Branca afirmou em mensagem publicada em seu blog que “os projetos de lei reduzem a liberdade de expressão, ampliam os riscos de segurança na computação ou solapam o dinamismo e inovação da internet global”.
O fato é que desde que surgiram os programas P2P (ponto a ponto, computador a computador) como Napster, AudioGalaxy, Soulseek, eMule e os arquivos Torrent, que facilitavam a troca de arquivos de músicas e filmes, além dos sites em que você podia tanto armazenar conteúdo quanto fazer download, como o extinto Megaupload, além de Fileserve, 4shared, Rapidshare, Filesonic, Mediafire, dentre outros, começou esta briga entre grandes corporações ou empresas, e esta nova forma de compartilhamento de conteúdo que, diziam, infringiam regras de direitos autorais.
Mas, numa perspectiva histórica, esta briga se parece muito de quando surgiram os hoje obsoletos VHS (que poderia ameaçar a indústria do cinema, diziam) e as famigeradas fitas cassete (que, por sua vez, poderiam ameaçar a indústria da música). E hoje é uma repetição dos mesmos problemas e dilemas que, na verdade, não são verdadeiros. Uma vez que é a indústria cinematográfica ou fonográfica que têm que se adaptar aos novos tempos, pois, assim como o VHS ou as fitas cassetes não destruíram a indústria da música ou do cinema, também não acredito que o MP3 e os arquivos gratuitos de filmes vão ameaçar tais indústrias. Sendo uma saída alternativa para o dilema os serviços de streaming, que garantem alguns direitos ao autor.
Novas soluções aparecem para resolver esta briga entre a indústria cultural corporativa e a propagação de arquivos gratuitos na internet, que são os downloads pagos e o arquivamento em nuvem, além do streaming como citei. Vejo aqui novas modalidades que estão adaptadas ao mundo contemporâneo e que podem conviver, sem muita dificuldade, com a indústria cultural tradicional.
Não temos como regular a internet de forma rígida, mas sim colocar marcos mínimos de regulação que equilibrem a relação de forças entre tradição e inovação, direitos autorais e liberdade, pois não há como ter um controle absoluto sobre a internet, já que, ao invés de combatermos ingloriamente os downloads, deveríamos sim, combater o verdadeiro problema desta anarquia dentro da internet, que são os sites de pedofilia, neonazistas ou de conteúdo racista ou preconceituoso, aí sim teremos um mundo civilizado de fato e teremos a chance de ver também, não um marco regulatório rígido sobre a internet, mas antes de tudo um marco civilizatório da internet para o mundo real e físico.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38190/14/sobre-downloads-ma-internet


O LIVRO DISCUSSÃO DE JORGE LUIS BORGES – PARTE II

“a amplitude de um texto canônico não sofre com a ação livre de um tradutor”

A DURAÇÃO DO INFERNO

Jorge Luis Borges se confronta aqui com um dogma que lhe é incômodo, e creio ser um dos argumentos mais contra-intuitivos e perturbadores tanto do dogma católico do inferno, como da ideia geral que se tem de castigo infinito. O campo especulativo aqui tem um entrave filosófico diante de uma intenção religiosa dogmática que ignora o fim e o processo como algo provisório. Quando Borges nos diz, abrindo seu texto : “Especulação que vem se tornando cansativa com o passar dos anos, essa do Inferno.” Aqui ele já acusa a ideia de inferno incessante como algo tanto enfadonho como exaustivo, isto é, se cansa de pensar sobre ou imaginá-lo, este inferno em que o castigo é perene, burlando qualquer conceito mais verossímil de justiça divina.
E Borges então ainda nos lembra, e isto com a ideia crítica embutida que ele logo explicará, que já havia um inferno físico, as fogueiras eclesiásticas do Santo Ofício, aqui, este sim, um tormento temporal, e que Borges logo nos diz ser “uma metáfora do imortal e da dor perfeita sem destruição que conhecerão para sempre os herdeiros da ira divina”.
Nem Dante, segundo Borges, segue tal entusiasmo por uma ideia tão cruel, e então o autor Borges se depara com um dogma que se desgasta, e temos então o episódio irônico, já no século XIX, de um poeta como Baudelaire, que trata tal dogma com ironia, fazendo do inferno o seu ideal, simulando uma adoração do castigo, mas que no contexto do poeta francês é somente mais um sintoma da decadência de tal dogma diante da realidade e da ideia de justiça divina, mais uma vez.
E Borges então nos esclarece, dizendo : “a noção de inferno não é privativa da Igreja católica (...) seja o inferno um dado da religião natural ou apenas da religião revelada, o certo é que para mim nenhum outro assunto da teologia tem igual fascinação e poder”. Borges então desfaz a ilusão do senso comum de uma ideia primária de fogo, espetos e tenazes, imagem desgastada por escritores e autores, e que carrega também o conceito precípuo de “lugar de castigo eterno para os maus”. E o que vira objeto de conflito e contestação, tanto por parte de Borges, como de vários outros, é a ideia de eternidade da pena.
Borges, então, levanta o argumento do teólogo evangélico Rothe, em 1869, de que “eternizar o castigo é eternizar o Mal”. Pois se tem uma ideia mais cara contra o que seja o inferno como castigo eterno, que é a ideia mais clara de uma teologia que sabe que a criação do mundo é obra de amor, e a predestinação entra nesta ideia como o destino universal da glória.
Por fim, aqui se conclui a posição borgiana diante de tal inferno : “Creio que no nosso impenetrável destino, em que regem infâmias como a dor física, todas as coisas extravagantes são possíveis, até mesmo a perpetuidade de um Inferno, porém acredito também que é uma irreligiosidade crer nele”.

AS VERSÕES HOMÉRICAS

Temos uma certa relatividade em relação com a inferioridade das traduções, para Borges, uma superstição, mesmo que lhe tenha passado a questão da tradução de Quixote como algo que não destroça o texto original, ao contrário de um poema de Gôngora, temos também o fato de que a tradução não deve ser um fator negativo em relação com os textos originais, uma vez e até mesmo quando estes texto originais se perdem no tempo, como quando se fala de textos da Antiguidade como  nos exemplifica Borges com a Odisseia de Homero.
Ou seja, da relatividade da qualidade de tradução, passamos à constatação borgiana de que a amplitude de um texto canônico não sofre com a ação livre de um tradutor, pois já quando um leitor se volta para um clássico como é a Odisseia, já teremos ouvido sobre a obra tanto e de tal maneira, que sempre que alguém se volta para textos como a Odisseia de Homero ou mesmo trechos bíblicos, já se trata de uma segunda leitura.
E ficamos com o fenômeno de que a tradução, neste caso, não tem o que destruir, pois o cânone é indestrutível, e seu caráter de mensagem já foi passado, já está cristalizado na consciência histórica, e a tradução, qualquer que seja o estilo ou método desta, só dá seguimento a um texto que não tem mais como desaparecer, mesmo que seus originais antigos sejam completamente desconhecidos da leitura contemporânea.
A riqueza e amplitude da tradução estão aqui desde já garantidas, as relações de grandezas da obra são abertas e plenamente adaptáveis. Há várias versões da Odisseia de um lugar incógnito e universal da obra que, no entanto, não se desfez.

NOTA SOBRE WALT WHITMAN

A busca de um livro absoluto, um livro que funcione como um tal arquétipo platônico que reúna em si todos os livros foi um sonho e uma prática de muitos autores, no que partimos de um Apolônio de Rodes, por exemplo, passamos por Camões, as transmigrações pitagóricas da alma em Donne, e a grandeza de um Milton que se dá com as culpas e o Paraíso, todos em busca de grandeza, tomar a obra absoluta pelo que ela implica de clichê, uma enormidade que tenha toda a História e toda a mitologia contida dentro dela.
Apenas quando Gôngora subverteu este conceito de livro absoluto como aquele que comporta uma grandeza histórica ou civilizatória, temos então esta ruptura do autor que nos dá este livro absoluto tratando de coisas frívolas que é o Soledades. O extremo então chega à Mallarmé que vai além do trivial e nos dá uma poesia sobre negativos, sobre ausências. Aqui o poeta segue a ideia de que as artes tendem à música, esta arte em que a forma é o fundo.
Temos ainda casos como o de Yeats que, em certo momento da virada para o século vinte, tenta flertar com um tipo de memória geral ou genérica da humanidade, que antecipa de certo modo os ulteriores arquétipos de Jung. E ainda, de outro lado, atos fundantes do Homem passam pela engenharia de Finnegan’s Wake, com a simultaneidade desta obra em relação com épocas diferentes, obra de Joyce que encerra um trajeto imenso do autor. E ainda, por fim, na poesia, temos Pound e T.S.Eliot no manejo poético de anacronismos para a construção de uma poesia de expressão aparente de eternidade.
Mas, em se tratando de Whitman, em 1855, temos aqui, as palavras do poeta inglês Lascelles Abercrombie, que diz : “Whitman extraiu de sua nobre experiência essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisa grandes da literatura moderna : a figura dele mesmo”.
E temos um autor, Whitman, que Borges compara com sua biografia e sua obra, como um Ulisses que conta grandes feitos, mas que na sua vida real nunca saíra de Ítaca. As biografias de Whitman então são sempre este contraste gritante entre o autor e a pessoa, e Borges então nos denuncia que existem dois Whitmans : “o amistoso e eloquente selvagem de Leaves of Grass e o pobre literato que o inventou”. Por fim, Borges então constata, quando se fala de poesia e de poetas, que : “Byron e Baudelaire dramatizaram, em volumes ilustres, suas desgraças; Whitman, a sua felicidade”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38191/17/o-livro-discussao-de-jorge-luis-borges-parte-ii










terça-feira, 27 de março de 2018

O MODERNISMO E A SEGUNDA GERAÇÃO COM AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT

“Com o Modernismo temos então um projeto de reformulação na criação literária”

O Modernismo é o nome do movimento de renovação cultural e literária no Brasil que se deu a partir da Semana de Arte Moderna, esta que foi realizada em fevereiro de 1922, em São Paulo, sob influência da vanguarda europeia, sobretudo o futurismo, este vindo dos ares de Paris.
Com o Modernismo temos então um projeto de reformulação na criação literária e no campo da arte como um todo, que vai romper com o exaurido Parnasianismo, velharia literária, a esta altura, que vinha carregada de erudição afetada e esteticismo tradicional exagerado.
Seguindo a nova mentalidade de vanguarda, os artistas e escritores brasileiros da década de 20 resolvem então realizar em São Paulo durante três dias, em fevereiro de 1922, sob a direção de Mário de Andrade, contando com figuras como Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, a hoje celebrada Semana de Arte Moderna. Movimento este que se expandiu e ganhou novos adeptos como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.
Dentre vários movimentos decorrentes do Modernismo, temos um predomínio dos temas nacionais, como o Pau Brasil, e também uma veia espiritualista, na qual se destacam escritores como Jorge de Lima, Murilo Mendes e Tasso da Silveira.
E vemos também a eclosão, posteriormente, de uma segunda geração de escritores, a Geração de 1930, com figuras como Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes que, por sua vez, se empenham a um retorno aos temas universais, com menos ímpeto nacionalista, mas mantendo, na forma, a poesia moderna e de vanguarda, mas que era, também, um tipo de poesia reflexiva, mais serena.

POEMAS :

MAR DESCONHECIDO (1942)

MAR DESCONHECIDO : O poeta aqui sente o mar dentro de si, e ele sente este volume que lhe faz ficar em prece, o poeta busca aqui a serenidade que ele julga por orações intraduzíveis, no que segue : “Sinto viver em mim um mar ignoto,/E ouço, nas horas calmas e serenas,/As águas que murmuram, como em prece,/Estranhas orações intraduzíveis.”. E o poeta segue, avante, no que ele agora então liga o mar com a música, em uma harmonia que lhe traz este poema que aqui ele nos dá, no que temos : “Sinto viver em mim um mar de sombras,/Mas tão rico de vida e de harmonias,/Que dele sei nascer a misteriosa/Música, que se espalha nos meus versos,/Essa música errante como os ventos,/Cujas asas no mar geram tormentas.”.

SONETO A CAMÕES : O soneto nos aparece aqui como a forma que é recuperada pela geração de Schmidt, depois de uma primeira onda de vanguarda modernista, e é aqui um soneto dedicado a Camões, um dos cânones da língua portuguesa, no que temos : “As tuas mágoas de amor, teus sentimentos/Diante das leis que regem nossas vidas,” (...) “As tuas dores de amar sem ser amado,/De procurar um bem que não se alcança,/E no canto clamar desesperado/Pelo que nunca vem quando se busca.” (...) “As tuas mágoas de amor, tuas fundas queixas,/Como uma fonte, ficarão chorando/Dentro da língua que tornaste eterna.”. As dores de amor, as desditas de um coração amante, e que flui como a língua eterna camoniana, o maior de todos na poesia tradicional portuguesa, pois.

CONHECESTE AS HORAS ... : O poema se debruça sobre a amada e lamenta o infortúnio, as horas amargas que cita o poema, em que se deu uma luta sem consolo, no que temos : “Conheceste as horas amargas e monótonas,/Conheceste o amor infeliz e sem glória,/Conheceste a luta sem consolo,/E a pobreza velou sempre teu sono./Teu corpo frágil sofreu um dia duramente,/E sentiste o mundo insensível e perdido/Para a tua inocente ambição./O pouco com que sonhaste esteve longe./Sempre longe de ti, ó triste amada.”. E o poema tem um esgar de luz, talvez um consolo inútil, que traz ao poeta a doçura do olhar, ou ainda a voz e o afago que conforta a alma amante deste poeta que cita as horas diante da fragilidade, no que segue : “No entanto, o teu olhar é bom e simples,/E a tua voz, meu amor, é clara e doce,/E o afago de tuas mãos é inocente e feliz!”.

ELEGIA : A elegia, sempre ligada ao luto e à morte, nos dá esta beleza que canta o poeta, fascinado, no que temos : “Tua beleza incendiará os navios no mar./Tua beleza incendiará as florestas./Tua beleza tem um gosto de morte./Tua beleza tem uma tristeza de aurora.”. O gosto de morte e a tristeza da aurora, eis que o poeta segue no seu gesto de idolatria de sua figura amorosa, no que segue : “Tua beleza é uma beleza de rainha./Dos teus gestos simples, da tua incrível pobreza,/É que nasce essa graça/Que te envolve e é o teu mistério.” (..) “Nasceste para o amor :/E os teus olhos não conhecerão as alegrias,/E os teus olhos conhecerão as lágrimas sem consolo.”. E o poeta então faz a junção desta beleza que ele canta com o mistério, no que temos :  “De ti é que nasce esse sopro misterioso/Que faz estremecer as rosas/E arrepia as águas quietas dos lagos./Incendiarei florestas, incendiarei os navios no mar,/Para que a tua beleza se revele/Na noite, transfigurada!”. A beleza na noite, transfigurada, que incendeia os navios do mar, é um fenômeno que agita o poeta, ele que se rende ao poder estético que ele nos mostra neste poema.

FONTE INVISÍVEL (1949)

MARINHA : O poeta vê o navio e o mar, e o trajeto ele desenha neste poema, que vem : “Vi teu navio passar./Era um triste cargueiro/Tisnando/O mar azul.” (...) “Vi teu navio passar./Partias, grisalho e incerto/Com as tuas lembranças/De namoradas, de ruas antigas/De tranças e serenatas./Partias, grisalho e triste./Decerto choravas no tombadilho./Choravas a cidade/E a mocidade inútil./E choravas no mar/Que semeavas de lágrimas.”. O mar e o poeta que registra com tristeza uma lembrança já grisalha, de namoradas e de ruas antigas, o fardo na nostalgia que sucumbe o poeta neste fim em que semeadas são as lágrimas. 

O BÊBADO NA ESTRADA : O poema vem com este canto em homenagem a um bêbado, este que compõe com a noite o poema de Schmidt como uma apologia do álcool e deste bêbado que é tanto um pedaço de voz na noite, como também este que se exalta pela noite boêmia, no que temos : “Um bêbado está cantando na estrada/A voz do bêbado vem de longe,/Lá de baixo da estrada molhada.” (...) “Foi a noite que exaltou o bêbado,/Ele é um pedaço de voz dentro da noite.” (...) “É um bêbado que está clamando, é um profeta no deserto/É um náufrago na estrada, no mar, no caminho./É um bêbado que está exaltado pela noite.”. Náufrago, profeta, o bêbado ganha matizes quase santificados pelo poeta, que aqui nos dá o poema, no que segue : “E procura se libertar do terror e do mistério/É um bêbado gritando/Pensará que está cantando?” (...) “É um perseguido pelos cães,/Mas a sua voz é um milagre./E bêbado na estrada úmida/E perseguido pelos cães/Ele povoa o mundo noturno de terror, de gravidade e do/sentimento da morte./É um bêbado na estrada.”. A imagem de um bêbado na noite, de um bêbado na estrada, perseguido pelos cães e pela morte, no mundo noturno de terror, o poeta canta este ébrio neste poema que é puro álcool.

HOMERO : O poema em homenagem a Homero, este poeta mítico, mito em vida e codificador do mito grego, é aqui retratado pelo poeta Schmidt, no que temos : “Poeta maior da raça peregrina,/Como teu canto é vivo e prodigioso,/Que o vento antigo treme e vibra ainda,/No veleiro que a Ulisses conduzia,/Pelos mares ilustres celebrados!”. E segue o poema que diz do mar a fonte de inspiração de Homero. O mar que a tantos poetas é fortuna e tormenta, no que segue : “Foi o mar que aos teus cantos deu o alento/E a veemência de forças indomáveis,/Que flutuam no tempo, eternamente./Foi o mar, que chamaste de infecundo/Que soprou nos teus versos essa flama/E essa palpitação de juventude!”.

POEMAS :

MAR DESCONHECIDO (1942)

MAR DESCONHECIDO

Sinto viver em mim um mar ignoto,
E ouço, nas horas calmas e serenas,
As águas que murmuram, como em prece,
Estranhas orações intraduzíveis.

Ouço, também, do mar desconhecido,
Nos instantes inquietos e terríveis,
Dos ventos o guaiar desesperado
E os soluços das ondas agoniadas.

Sinto viver em mim um mar de sombras,
Mas tão rico de vida e de harmonias,
Que dele sei nascer a misteriosa

Música, que se espalha nos meus versos,
Essa música errante como os ventos,
Cujas asas no mar geram tormentas.

SONETO A CAMÕES

As tuas mágoas de amor, teus sentimentos
Diante das leis que regem nossas vidas,
Desses fados que dão e logo tiram,
E a que estamos escravos e sujeitos.

As tuas dores de amar sem ser amado,
De procurar um bem que não se alcança,
E no canto clamar desesperado
Pelo que nunca vem quando se busca.

Poeta de enamoradas impossíveis,
E que num negro amor desalteraste
Essa sede de amar dura e terrível,

As tuas mágoas de amor, tuas fundas queixas,
Como uma fonte, ficarão chorando
Dentro da língua que tornaste eterna.

CONHECESTE AS HORAS ...

Conheceste as horas amargas e monótonas,
Conheceste o amor infeliz e sem glória,
Conheceste a luta sem consolo,
E a pobreza velou sempre teu sono.

Teu corpo frágil sofreu um dia duramente,
E sentiste o mundo insensível e perdido
Para a tua inocente ambição.
O pouco com que sonhaste esteve longe.

Sempre longe de ti, ó triste amada.
A tua infância foi desprotegida e humilde,
E, moça, conheceste as mais secretas amarguras.

No entanto, o teu olhar é bom e simples,
E a tua voz, meu amor, é clara e doce,
E o afago de tuas mãos é inocente e feliz!

ELEGIA

Tua beleza incendiará os navios no mar.
Tua beleza incendiará as florestas.
Tua beleza tem um gosto de morte.
Tua beleza tem uma tristeza de aurora.

Tua beleza é uma beleza de escrava.
Nasceste para as grandes horas de glória,
E o teu corpo nos levará ao desespero.

Tua beleza é uma beleza de rainha.
Dos teus gestos simples, da tua incrível pobreza,
É que nasce essa graça
Que te envolve e é o teu mistério.

Tua beleza incendiará florestas e navios.
Nasceste para a glória e para as tristes experiências,
Ó flor de águas geladas,
Lírio dos frios vales,
Estrêla Vésper.

Nasceste para o amor :
E os teus olhos não conhecerão as alegrias,
E os teus olhos conhecerão as lágrimas sem consolo.
Tua beleza é uma luz sobre corpos nus,
É a luz da aurora sobre um corpo frio,

De ti é que nasce esse sopro misterioso
Que faz estremecer as rosas
E arrepia as águas quietas dos lagos.

Incendiarei florestas, incendiarei os navios no mar,
Para que a tua beleza se revele
Na noite, transfigurada!

FONTE INVISÍVEL (1949)

MARINHA

Vi teu navio passar.
Era um triste cargueiro
Tisnando
O mar azul.

Vi teu navio passar.
Era um velho navio, humilde
No esplendor do mar azul
E do céu.

Vi teu navio passar.
Partias, grisalho e incerto
Com as tuas lembranças
De namoradas, de ruas antigas
De tranças e serenatas.

Partias, grisalho e triste.
Decerto choravas no tombadilho.
Choravas a cidade
E a mocidade inútil.

E choravas no mar
Que semeavas de lágrimas.

O BÊBADO NA ESTRADA

Um bêbado está cantando na estrada
A voz do bêbado vem de longe,
Lá de baixo da estrada molhada.

A voz do bêbado vem da noite úmida,
Vem da estrada que as chuvas da tarde ensoparam.
Foi a noite que exaltou o bêbado,
Ele é um pedaço de voz dentro da noite.
É uma voz exaltada clamando,
É alguma coisa de exaltado
Dentro da noite.

É um bêbado, longe, é um bêbado
Que está na estrada
Como um sapo,
Como um pedaço de voz dependurada numa cerca.
É um bêbado que está clamando, é um profeta no deserto
É um náufrago na estrada, no mar, no caminho.
É um bêbado que está exaltado pela noite.
É um furioso entre as furiosas forças invisíveis.
É uma voz gritando contra as árvores,
É uma voz que se levanta da lama,
E procura se libertar do terror e do mistério
É um bêbado gritando
Pensará que está cantando?
É um bêbado na noite,
É um homem na noite,
É uma alma no mundo,
É um bicho misterioso que fala,
É um participante do mistério.

É um homem esse bêbado,
É um ser que se levantará bêbado,
Ao som das trombetas
E virá exaltado,
E virá cambaleando,
E virá clamando,
Pelo grande caminho.
É um ser, é um bêbado na noite.
É um perseguido pelos cães,
Mas a sua voz é um milagre.

E bêbado na estrada úmida
E perseguido pelos cães
Ele povoa o mundo noturno de terror, de gravidade e do
sentimento da morte.

É um bêbado na estrada.

HOMERO

Poeta maior da raça peregrina,
Como teu canto é vivo e prodigioso,
Que o vento antigo treme e vibra ainda,
No veleiro que a Ulisses conduzia,

Pelos mares ilustres celebrados!
Poeta da Aurora de rosados dedos,
Que Aurora nasce da tua voz tão fresca
Como as águas à luz do claro dia!

Foi o mar que aos teus cantos deu o alento
E a veemência de forças indomáveis,
Que flutuam no tempo, eternamente.

Foi o mar, que chamaste de infecundo
Que soprou nos teus versos essa flama
E essa palpitação de juventude!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38128/17/o-modernismo-e-a-segunda-geracao-com-augusto-frederico-schmidt