PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 26 de junho de 2016

OS BANDOLEIROS DE FRIEDRICH SCHILLER, TEMPESTADE E ÍMPETO NO TEATRO

“A força da peça foi imensa, seu impacto intenso, iluminando no palco alemão o terror de uma nação em frangalhos”
INSPIRAÇÃO PARA A PEÇA
Friedrich Schiller nasceu no ano de 1759 na cidade de Marbach, sul da Alemanha, e faleceu em 1805, em Weimar. Começou a escrever Os Bandoleiros, sua peça de estreia, provavelmente no ano de 1777, quando ainda não havia completado 18 anos, e publicou-a em meados de 1781, em edição própria e anônima.
Schiller inspirou-se, para escrever “Os Bandoleiros”, na leitura de um conto de Christian Daniel Schubart, intitulado “Por uma história do coração humano” – uma variação da parábola do filho pródigo. A peça “Os Bandoleiros”, por sua vez, é marcada pela influência do Sturm und Drang (movimento romântico alemão, também conhecido por titanismo) e carrega, além de ser uma das fundações do movimento citado, junto com o Werther de Goethe, uma gama variada de referências que vão das tragédias de Shakespeare à obra do jovem Goethe, aos poemas de Klopstock e a vários escritores clássicos. E podemos flagrar também, no texto da peça, os conhecimentos de Schiller a respeito do pietismo, da mitologia grega, da Bíblia e da medicina, e com isso tudo junto, vemos Schiller produzir uma obra selvagem, drástica, cheia de dinamismo, vigor, e que corrobora as palavras inspiradas tempestade e ímpeto, bandeira do movimento novo da Alemanha literária.
IMPACTO DA PEÇA
A força da peça foi imensa, seu impacto intenso, iluminando no palco alemão o terror de uma nação em frangalhos, fragmentada, e a imagem de Schiller ficou para sempre ligada à imagem de sua primeira obra “Os Bandoleiros”. E, mesmo que sua obra tenha continuado e se tornada de um valor gigante, digna de seu gênio, professando então, o classicismo de Weimar, junto com outro baluarte de nome Goethe, e isto já na fase tardia de sua obra, Schiller seria sempre lembrado pelo fulgor juvenil e titânico de “Os Bandoleiros”, pela fúria selvagem, pelo ímpeto e pelo desespero de sua peça de estreia, Schiller, como se diz, começa sua história literária e teatral já chutando a porta, no melhor sentido, e sua arma é o choque e a expressão hiperbólica, digna do Sturm und Drang.
No começo de 1781, por sua vez, a Alemanha perdia Gotthold Ephraim Lessing, o grande autor e, sobretudo, o grande dramaturgo da literatura alemã da época. Foram muitos os que profetizaram a morte de seu Shakespeare. Poucos meses depois, no entanto, a primeira resenha jornalística – publicada no jornal de Erfurt – sobre a peça Os Bandoleiros já sentenciava: “Se um dia pensamos ter um Shakespeare alemão, então é este”. Ao mesmo tempo em que a Alemanha lamentava a perda de Lessing, o grande educador da pátria, ganhava um autor que marcaria profundamente os rumos de sua dramaturgia. Lessing encerrava um ciclo, Schiller e Goethe começavam outro, todas as restrições métricas de um Racine, por exemplo, implodem na explosão romântica, na mesma cepa numerosa de personagens que havia no teatro elisabetano, por exemplo, e na amplitude geográfica de construção de cenas e cenários.
A peça finca raízes profundas na história da Alemanha da época e é açulada pela experiência pessoal do autor, pois embora seja histórica, era uma peça também subjetiva. Com o lançamento de Os Bandoleiros, por sua vez, se diz que as perucas empoadas de uma época afetada e nobre caíam moribundas e mofadas, os castelos de cartas de um século perdido foram ao chão, entrava-se na beira do novo século XIX já com um novo despojamento que arrancaria as paixões mais brutas de seu sossego. A Alemanha, esfacelada em mais de trezentos principados – atrasada política e economicamente -, era obrigada a fixar os olhos no horror de sua própria história.
CARACTERÍSTICAS DA PEÇA
A peça é um ataque surpresa, se podemos citar aqui a catarse aristotélica das tragédias gregas, se tratou disto exatamente na representação cênica de “Os Bandoleiros”, era um tipo novo de experiência que a Alemanha jamais havia visto e vivido. Apresentava força no golpe, um ímpeto dramático inigualável, é uma peça de texto, extensa em matéria de letras, mas que na cena é choque certo. O que era jovem, viril e fogoso triunfava de modo definitivo com a obra de Schiller.
A peça era desmedida e forte, avassaladora como só havia sido a prosa do Werther de Goethe – obra irmã no titanismo -, mas, em comparação ao infortúnio de Werther, romântico suicida, “Os Bandoleiros” é um libelo político, mais agressiva na crítica porque arrancava os heróis do isolamento e levantava os panos da hipocrisia social em que a Alemanha vivia. Todo o problema do estilhaçamento territorial da nação alemã aparecia como fosso político e social, e uma disputa de irmãos, a luta entre revolução e conservadorismo ganha empenho romântico, ímpeto tempestuoso, ações e falas hiperbólicas, cada movimento da peça é um soco.
Tudo na peça é ímpeto, tudo é arranque. Os movimentos não são suaves. Quando alguém se levanta, dá um salto. Quando alguém se afasta, o faz correndo. A sucessão de golpes é interminável e intensa. O tema da liberdade, por sua vez, é motivo condutor de toda a obra de Schiller, já aparece forte e soberano em sua primeira peça. E a expressão da liberdade é Karl von Moor, já com seu lema fundamental de uma mentalidade drástica: Liberdade ou morte. Assim como a marca do tacão absolutista, por sua vez, aparece registrada inteira em seu irmão, Franz von Moor, o hipócrita, ardiloso e invejoso que tenta até mesmo seduzir Amália, apaixonada por Karl. Maximilian, o pai dos dois, é a bondade – meio cega, já fraca e decadente – de uma época que agoniza.

A PEÇA E SEUS PERSONAGENS
A peça “me custou família e pátria”, disse Schiller, que teve então que abandonar sua cidade e os seus por causa dela. A experiência dolorosa do autor incompreendido só fez contribuir no primor da obra, que, se leva algumas imperfeições inescapáveis típicas da precocidade, já traz a marca do gênio, o que se consumaria em grandes feitos durante sua vida teatral. No prefácio à primeira edição de Os Bandoleiros, por exemplo, Schiller diz que o texto era mais uma história dramática do que uma peça teatral. A peça foi montada com êxito na Alemanha um sem-número de vezes, mas nela se percebe com nitidez que na Europa o teatro é feito também para ser lido. Ou seja, a riqueza do texto, de caráter hiperbólico, é ainda um feixe matizado extremamente dramático, é um teatro de autor e não de diretor, mas possui todas as virtudes da cena por ter carga dramática de sobra para tal.
E, embora haja falhas na peça, nenhuma delas é grave. Lembrando que Schiller começou a escrever a peça quando tinha apenas 17 anos. Em relação aos personagens, por exemplo: Amália é, segundo os críticos e o próprio Schiller, a personagem mais incompleta da peça. O próprio autor confessa que em seu claustro forçado que viveu na Escola Militar, sob o jugo do Duque de Württemberg, não lhe havia sido dado conhecer mais de perto a beleza do sexo até a época em que escrevera a peça. Assim, Schiller transforma Amália numa sonhadora etérea, de pouca vida, talhada nas frases do poeta alemão Klopstock, que aliás se ajustam a seu caráter vago e quase apenas espiritual. Schiller usa e abusa de Amália para evocar Klopstock na sua fala durante todo o texto da peça.
As figuras paralelas, por sua vez, são bem compostas e têm um final adequado à sua conduta. Schweizer é o sujeito firme e fiel e isto tem efeitos dramáticos em que o drástico entra como grande elemento de cena do romantismo alemão. Roller é o impetuoso confiável e também pagará o preço. Schufterle um pássaro destinado ao patíbulo, e Spiegelberg, a grande figura da peça, quando se diz, sobretudo, do texto em si, pois seu gesto e sua expressão caudalosa enriquecem a peça deveras, e que se trata de personagem fanfarrão, brejeiro, covarde e traiçoeiro, um mandrião em meio ao bando, aliás, o mais esperto e traquina. Esses personagens são desenhados com precisão – embora não sejam descritos -, apenas por meio de suas falas e ações. Não há aqui a famosa descrição psicológica, uma vez que estas figuras já aparecem em contextos definidos de ação direta, assim como a própria peça, desde o princípio, já está inserida na ação sem momento introdutório.
A entrada de Kosinski no fim do terceiro ato, que vem a encaminhar o desenlace da tragédia, é até bem encaminhada. Mas sua situação, e a referência forçada a uma outra Amália, são artificiosas por demais e pouquíssimo sutis, parece um deus ex machina meio atrapalhado do jovem autor. E quando Karl, ainda disfarçado, volta a falar com Amália na segunda cena do quarto ato e diz que o nome de sua amada também era Amália, a peça chega a adquirir virtudes de jogo, algo de teatral para além do texto parece eclodir. Há também expectativas frustradas, como aquela em que Franz ameaça Amália com o claustro e a moça aceita impávida, mas, ao invés de se tornar freira, logo aparece vivendo normalmente no castelo do então senhor Franz von Moor. Para complicar, há a referência poética de Karl ao véu de freira que a moça teria usado (ela “me sacrificou sua coroa de santa ...”). Tudo porque numa primeira versão da peça – a respeito da qual sobraram apenas depoimentos e referências – Schiller planejava de fato levar Amália ao claustro.
Uma das falhas mais cabais da peça, no entanto, é a condução final do personagem Maximilian, pai de Karl e Franz. Personagem ambíguo em matéria de densidade, pois, embora seja bem construído em sua bondade, fraqueza e cegueira decadente – que ademais testemunham a agonia de uma época -, o personagem é praticamente esquecido ao final. O velho Moor para de falar a certa altura e se despede da peça sem adeus. Um furo que Schiller em seu ímpeto não se desculpou, o velho Moor tem um caráter definido, embora fraco em demasia, e simplesmente evapora no fim da peça.
ALCANCE DO TEXTO
No mais, os monólogos da peça são maravilhosos, poéticos, filosóficos – e surpreendentes quando lembramos que seu autor nem tinha vinte anos. Tanto Franz e seu arrivismo criminoso, forjado num materialismo e num racionalismo nauseabundos, quanto a desilusão libertária e incontida de Karl proporcionam frases lapidares. O alcance filosófico e literário do teatro do então bem jovem Schiller já revela alguém que tinha tanto o conhecimento necessário como o poder de intuição suficiente para o empreendimento que deu em “Os Bandoleiros”. Karl e Franz são os opostos mais bem resolvidos de todo o texto.
Karl e Franz, aliás, são dois personagens inteiriços. A peça em si é bem construída, se vista de modo global. As cenas se sucedem consequentemente e se encaixam umas às outras à perfeição. O ápice é encaminhado depois de vários golpes sucessivos. Assim como nos templos de Ésquilo, a tragédia permanece ligada ao destino na peça do autor alemão. O mundo de Schiller, no entanto, é judaico-cristão e é a justiça divina que acaba por vencer ao final, restaurando a ordem – um tanto vaga – depois do sacrifício. O eco da tragédia grega também aparece em Schiller aqui como catarse, o que pode também ser entendido com a palavra terror. Tempestade e ímpeto, por sua vez, tem tudo a ver com a ideia antiga de Aristóteles de catarse como objetivo do teatro trágico.
TEXTO DE SCHILLER SOBRE OS BANDOLEIROS
O AUTOR AO PÚBLICO
(por ocasião da primeira encenação)
Obs: texto do próprio Friedrich Schiller sobre a peça, na íntegra.
“Os bandoleiros ... a pintura de uma alma grandiosa e perdida .. armada com todos os dons para a excelência e com todos os dons ... perdida. O fogo desenfreado e as más camaradagens deterioraram seu coração, levando-o de vício a vício até que, por fim, ele se encontrava à cabeça de um bando de incendiários assassinos. Atrocidades se juntavam a atrocidades, despencava de abismo em abismo, vivendo todas as profundezas do desespero ... Mas elevado e venerável, foi grandioso e majestático na desventura e através da desventura melhorado, trazido de volta à excelência ... Um homem desses haverá de ser chorado e odiado em Moor, o bandoleiro, amado e detestado.
Franz Moor, um tipo sorrateiro, pérfido e hipócrita ... desmascarado e dinamitado em sua próprias minas.
O velho Moor, um pai demasiado fraco e concessivo, por intermédio de seus mimos fundou a perdição e a desgraça de seus filhos.

Em Amália as dores do amor exaltado e as torturas da paixão dominadora.
Não será sem horror que as pessoas haverão de lançar olhos na economia interna do vício e reconhecer que nem mesmo as tentativas de dourar a pílula da sorte, são capazes de matar o verme interno da consciência ... e ver como o terror, a angústia, o arrependimento e o desespero trabalham pesado às suas costas, picando-lhe nos calcanhares ... Que o espectador chore hoje ante o nosso palco ... que trema ... e que aprenda a dominar sua paixões sob o jugo da religião e do entendimento; que o jovem acompanhe com horror o fim de uma vida dissoluta e desenfreada; que também o homem não parta sem a lição da peça, ou seja, de que até o malvado faz uso da mão invisível da cautela como instrumento de suas intenções e juízos e que até o mais confuso nó do destino pode ser, por incrível que pareça e para espanto de todos, desatado.”

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:  http://seculodiario.com.br/29340/17/osbandoleiros-de-friedrich-schiller-tempestade-e-impeto-no-teatro


sábado, 18 de junho de 2016

UNIVERSO

A chuva cai aos cântaros,
o canto simples
não é solene,
busca na água seu espanto,
tem em tal lente detalhes
com a retina sombria.

As trevas, nas quais a alma
se encastela, são os gritos primais
que o poema dá canto,

a chuva torrencial é meu espanto,

o poema é um novelo que da natureza
sempre vive o teatro dos corpos,
e num elixir de alma imortal
revela o universo.

18/06/2016 Gustavo Bastos

PRESSINTO

Marca teu cinzel sobre a esfera,
de lá um corpo esculpe,
com finco e vinco,
como sinto e pressinto.

Aurora em decibéis, meus tons
de gênio sofrem
tal mártir.

Me espanto com tanto frio
nos ossos.

Bela canção está a espreita!
Não valho o poema,
o poema é que me vale.

Marca a tua aura sobre pintura,
e me retrate
com sorrisos longínquos
como o infinito.

18/06/2016 Gustavo Bastos

ESTRELAS

Me leve à sombra,
me coma sobre a morte.
Deu karma na vinha roxa,
a chama vive.

O poema, de um talo ao estalo,
volta e vai com febre.

Donde foi o poeta?
De cá vem sobre toda a grama,
pisar com pés de nuvem
o sopro vital,
elencar de alma
o mundo morto.

Quem de mim quer a natural canção?
Oh, que esta natureza risonha
exploda em mil maravilhas,
como do firmamento
uma explosão nos trouxe
estrelas.

18/06/2016 Gustavo Bastos

ANOTAÇÕES

Volto ao meu cigarro, sobre a mesa
as anotações infinitas do que fazer.
Ligo a TV, antenas do mundo,
não leio mais as redes sociais,
oh meu tédio, gosto do inferno
de sílabas que viram e reviram
o poema,

num estalar de dedos está pronto,
o forno das horas rútilas brilham
sobre a minha espada,
passo os anos com meus olhos frouxos,
caem lágrimas no chão,
sou velho como um ancião.

Fumo o carteado como um enxadrista
diante do torpedo de minha rainha,
salto como um cavalo torto,
com uma asa na mão,
anjo de mim sem mistério,

passa uma banda de sopro pela rua,
caio em mim como um decaído,
alma embotada de fumaça,
ser irrisório de verso,

vento infindo que
bombeia a carne,
alvo de todo corpo,
ser de poema
com a mão boba
de anzol.

18/06/2016 Gustavo Bastos

SÂNDALO DOS CINZÉIS

Abra-te sésamo! Vem as poéticas
dançar sobre o solo da música,
os olhos anárquicos cantando,
os meneios de meus ócios,
os livres cantos em vis sonhos.

Abra o templo, tal sacerdotisa
com velhos emblemas de pórticos,
Pitonisa que bebe cicuta,
jogralesa de mistério bruto.

A poética é sonho no devir,
com as túnicas de topázio,
com o brocado em torpor,
de um desvio de curso
pelo rio calmo.

A História, este ser do triunfo,
coloca o tratado de pé,
tal escultor com cinzel
sob fumaça de nardo,
um poeta embriagado,
com o delírio do sândalo.

18/06/2016 Gustavo Bastos

LIVRO DO TEMPO

Folheio o livro do tempo, és meu porto,
das mil e uma páginas,
um tilintar do brinde,
vinho aos olhos.

Flerto com olhar de través,
comumente poético,
em todo o campo de sol.

Jogral, tenho toda a comédia
como um mambembe
de cara pintada,
rouxinol de equinócio,
vigília do trinado.

Folheio o tempo dos livros,
mais vagar por todo o campo,
lembro-me glorioso,
com o fago-fátuo
do orgasmo.

Eis que tens poemas
em sólidas canções,
de piar a gorjeio,
de gritar meu ponteio,
ao olhar fausto
da conquista.

18/06/2016 Gustavo Bastos