PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

OCULTO PRAZER

Na miríade dos tempos, em verso oculto
o ósculo transforma a matéria.
Selvagem rito, os poemas transbordam
seu cerúleo canto de espasmo.

A vida, na paz bruta das semanas,
retoma em vil pântano
o lupanar,
ser vítreo sequioso a amar,
a armar de espanto
seu flanar.

Radar: os ponteiros já seduzem
os cantores das horas,
as marcas do palco
são sinais do tempo,
cronômetro-azul dos mais fatigados
poetas ... luz abscôndita
sob tenebroso lume,
imanente-lumiar
luminoso
reacende o sol
               ascendente
ao templo do sexo.

16/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

DELÍRIO INFINITO

De canto festonado, abra-te
sésamo de bombardeio,
cala-te césar, deus-dará
ex machina!

Fruto descabido deste inerme ser
de pantagruel faminto.

És-me verme explodido,
ventre das astúcias,
eis-te clemente vento
ao refazer d`alma,
frio gélido das neves
o frêmito ártico
em pólo de poema.

De cantos arabescos,
de prantos mortiços,
não sei quantos viços.

Nuvens ariscas,
sultões nababescos,

e o canto geral pastiche
dos mundos infinitos
do tempo infinito
das coisas infinitas,

o poeta é sol,
sua musa é lua.

15/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)



GRAVE ESTULTO

Atração gravitacional, a noite fecunda
entreabre a sensação kármica.

Os lados da esfera dançam
em harmonia,
o denso amor das cordas
é o fundo do verso,

Filtro do tempo, é o saber iracundo
da gravidade.
O tom grave, neve sorumbática,
é sombra e pasto alegre no sol,
ao girar da esfera
o palco
da noite e do dia.

Bons ventos, a praga do deserto
reflui ao sol mormaço do crepúsculo,
albor referido dos corpos,
negror dos nardos celestes,
alvorecer brumoso das plangentes chuvas.

Gravidade és grave,
como o cimo da copa densa
deste saber de fruta
que é o dia com
a visão anoitecida.
(gravidade e tempo, a dança do ser.)

Pois de ser grave,
este eu estulto,
mais sério e prumo,
da bruma ao fundo:
vou-me/eis-me.

De grave ao absurdo,
o poema é fumo.
De grave e tonitruante,
a poesia é futuro.

Da atração gravitacional:
o tempo das esferas
só tem desvelo
em levitação.

15/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

MAR DOCE

Minhas palavras doces:
apanágios, ribombares,
plateia.

Doces esquemas de sais límpidos:
croquis, fadas e duendes.
Falácia doce do amor doce
do poema-doce.

Ao mundo estertor figura geômetra
dos sentidos,
os corpos renegados
degredados
em doces esquecimentos.

Oh, ilha vulcânica, sempre
ao voltar até da viagem interestelar
o castelo da montanha meru
serve à visionária cantiga
o doce tempo
        do deserto
da ilha imaginária
                      flor-de-lótus
                      campo
                      ígneo

              doce fundo do
                 mar de sal.

15/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

domingo, 19 de abril de 2015

ESTRANHOS DILEMAS

Estranho estar neste holofote cinza.
A vida mais bizarra
é a vida que vivi.

Difícil o amargor do pasto
ser um transver doce
e afago da miséria bobalegre?

Nem um segundo eu des-dito
as manchetes,
às mancheias a mão-luva repleta,
locupletada de sal e dor.

Sem um tostão, a salgalhada
dos troféus é o campeão
do ócio,
ao relento cartas de navegador,
o passo lento, lendo Rimbaud.

Estranha flora magmática
rés-do-chão
               malamor encarnado
                       e spritu possessed,

a garganta insaciada sempre ventre
              d`abismos dos fundos
                                  d`outrora (aurora?)

15/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)

domingo, 12 de abril de 2015

IDIOTIA

Certa hora eu aprendi
a registrar
toda a estultícia,
fiz uma lista escalar
de classificações idiotas,
medi o meu cérebro
e os dos outros
com um grande cabedal
lógico e em forma de tratado,
de cada idiotia mais
eu elencava uma nova moral,
os poetas, eventualmente,
ficavam no topo da escala
dos cretinos mais infantes,
e o poema, como máquina contábil,
era o reflexo mais fiel
de que a classe dos poetas
sempre esteve repleta
de futuros idiotas
cheios daquela empáfia
das auras explodidas
de seus ideais sem teto,
de suas ideologias tortas
de absinto,
de seus saltos espetaculares
sobre o monte de estrume,
qual acróbatas
classificados nesta minha lista
de idiotas.

10/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)


HARMONIA DOS SÓIS

Eterno sussurro,
este que do ouvido
à ausculta
depõe febre e vinho vítreo
ao envolto abismo
bêbado.

Flanco de miséria sobre a miosótis,
redunda a flor qual flora,
náutica e doce sob bruma,
que ao dançar imorredoura
sucinta e tal ávida,
soa a boca lívida,

eu, mestre de mim,
corro entre o florilégio,
anacoreta do frontispício,
um panegírico, um analecto,
o fastígio sorumbático,
em pele álacre.

Vago sussurro, revolta da vaga,
bombeia meu sangue salino
de oceano, a doce adaga,

bruto mar ao calor cáustico
do farol,
e as naiades reviradas
do meu delírio,
que a outros naufrágios
doía.

Besta-fera de meu mar,
conciso estertor à capa
da turbamulta,
ofélia suicidada de lago,

ao meu rio serpente
que à boca-veneno
morte retinta
antevê.

Poema em recinto brumoso,
poema-sinto,
total flecha dos amores
cálidos,
clamores ácidos,
                 palcos áuricos,
fonte imanente
deste universo multicores,

eu somos nós,
d´outro mais oiro,
pórtico a contento,
cornija que bate o teto,
volúpia dos meus langores,
suicidas fadas dos horrores.

Eis o átrio em harmonia:
a poesia fulmina sem mais.

10/04/2015 Ácido
(Gustavo Bastos)