PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 25 de março de 2013

FOGO RESSUSCITADO

Que traia a dor ao vil da filosofia,
a flor tépida emula a dança.

Faz o fogo, dor minha,
cair e levantar ao grito
da aurora,
faz do fogo,
meu vento de chama
ao ouvido
mais sublime.

Faz, fogo de fada,
minha vida mais astuta,
meu sol brilhar indômito,
o céu todo com todas
as suas estrelas
cair na minh`alma
como dança do eterno
numa paisagem de vinho.

Faz o fogo tornar a ser Rei!
E do poema faustoso,
labor intimorato
de toda espada
no coração
que levita!

25/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

POEMA-ADAGA

De longe, se mede a distância.
O corpo distante tinge a visão,
qual corpo-esfera de profunda precisão.

De perto, a proximidade se acalenta,
o corpo esquenta em outro corpo,
qual corpo-junção que dá e recebe
toda a face do encanto.

De longe, o poema se enevoa,
e de livre-pensar
se vai ao sem fim
de poemar.

De perto, o poema estala vivo,
pula e ressurge limpo,
qual adaga que voa,
mas que não some,
mata.

25/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

O RELÓGIO E O TEMPO

Relógio, momento da precisão,
em seu tempo se molda o tempo,
decide o universo em sua mecânica,
não pausa ao tempo que lhe cai,
só para por falta de pilhas ou bateria,
no entanto, o tempo em si que lhe foge,
da sua súbita interrupção,
retoma o tempo indômito,
corrigido de seu sono,
mais uma vez com o ponteiro
em dia com todo o trabalho
matinal, vespertino e noturno.

Relógio que não dança,
relógio que derrota
a metafísica,
numa física do tempo urge.

Relógio da hora exata,
reto e lúcido,
retidão e lucidez
de um tempo que
se move
no enigma,
mas que em sua realidade clara
ao convencional se doma,
tempo indômito em si,
que, por trágico que seja,
se doma na aptidão correta
do relógio inventado.

25/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

domingo, 24 de março de 2013

UNIVERSO DUPLO

Adorada, a musa sapiência.
Calmamente, ao sol teme o vento.
Diuturnamente, da lua
traz o rebento.

Fel mortiço da dor exaure,
doce mel das asas decola.
O retrato é fiel à marca,
a pele é o sinal do amor.

Lá do alto, anjo matinal
sorri sozinho,
cá embaixo o mar
braveja,
lá do alto não tem nuvem,
somente os deuses
na alcova,
cá embaixo a terra venta,
dores de sol e vento,
tambores ao relento,
via sacra e desalento,
cá embaixo as almas sofrem,
cá embaixo poucos veem,
tudo é névoa da visão,
na terra funda do drama,
no chão negro do desespero,
cá embaixo o socorro não vem,
lá do alto se vê tudo,
como eterno em si
que o universo refulge.

24/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

FLOR DE LITANIA

A litania que viva ora,
das calmas flamas
a nau vigora.

E o caos, este belo campo de nada,
da relva grita ao céu,
do fim serve ao sol,
da luta morre o farol.

Ao céu a dor profunda,
ao chão a vida imunda.
Ao céu o sonho exato,
ao chão o sofrimento vasto.

Das flores que contei
no campo verde,
tinha rosas e crisântemos,
begonias e lírios,
clarividente violeta
fincava a sua astúcia
como gerânio
extasiado.

Ao céu a flor eterna,
ao chão a palavra incerta.

Tua dor é o meu silêncio,
tua flor o meu delírio.
Tua dor é o meu vinho,
tua flor o meu destino.

24/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

PORVINDOURO

Até que chegue o campo risonho,
fiquemos no vão tristonho.
Até que tudo aconteça,
façamos versos que nos apeteça.

Longe, o mar e o vitral.
Perto, a noite mais o mal.

Até que a hora clara exploda
na nossa cara,
fiquemos com a desonra
do mais sujo drama.

Até que a pequenez morra,
façamos grandezas estupendas.

Mais sal que o mar liberto,
nos dá o frio do tempo.
Mais sabedoria que o sol exangue,
nos é dado o saber
a cada instante.

Até que eu navegue a xangrilá,
não nos zanguemos com estes
do mundo de cá.

24/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)

PRIMEIRA FILOSOFIA

Quem, da verdade ao peito clama,
e desdoura no átrio do verso
com voz de alvorada?
A dor a tantos inflama,
e cada um é cadáver de si
e eterno de outro.

Pois, da pena ao sinal da honra,
tudo se vai ao plano que falta.

E da luz imorredoura,
tanto pranto derrama.
E da sombra mortiça,
um sorriso destoa.

Como o limo da pedra,
a cruz e o castelo,
a terra e o céu,
são odes e marchas,
são fontes de filosofia primeira,
uma de caos mantida,
outra de razão urdida.

24/03/2013 Êxtase
(Gustavo Bastos)