PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

POESIA CADAVÉRICA

O suspiro da noite
evoca a morte.
A morte, alva negra,
bílis melancólica,
decreta o meu túmulo
em meu esquife
o meu ser.

As noites dos corpos
são canções de lamento,
os corpos dançam
na noite,
a escuridão das trevas
é o meu nome,
eu sou o cadáver do inferno,
a alma do limbo
que grita
no meu corpo.
No meu corpo
eu grito
o meu limbo,
eu sou o cadáver
da noite,
eu sou a morte rancorosa
da sorte,
a morte morrida
que jamais morrerá
porque não foi matada,
a morte poética
na noite que esconde
meu horror de poeta.

23/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

CANTO SECO

Na sarça o fogo mana
de um torpor sem dor,
áureo filosofema
de todo o ser,
ser-de-si que afunda
na sombra,
ser-de-outro que ilumina
o coração solitário.

O fogo, ventre da arte,
refulge indômito
pelas paragens.
O fogo, mestre tenebroso,
anseia a cripta e a pira funerária
da veste escarlate,
túnica do sábio solar
no nervo que rosna
a febre dos dervixes
em dança hipnotizada.

Ruge a esfera, Sol e Lua,
estrela rosa vermelha
de âmbar,
escultura do corpo celeste
na onda de Éolo
e o sopro ao sotavento
do mar,
oceânides fundam
suas lápides,
e o poeta conversa
com a bruma salgada.

O vozerio da enseada,
rouco tilintar de mistérios,
vulcaniza o poema sombrio
nas dálias refeitas
e selvagens,
lembra ao poema-ônix
telúrico emblema
de Poesia Arcaica,
leveza de elmos,
heráldica potente
que tem ênfase e rigor.

Nas águas mansas do esquecimento,
vai o pássaro-mortal
morrer de amor-ódio
na sombra-luz
da penumbra.

O sal, vigor da vida,
é a moldura da cristalização
do caos,
cristais virgens
que a revoada
dos poetas
chora,
carne viva
da lembrança,
emoção sentida
da esperança.

Os poetas, bêbados de vinho,
são salvadores da folia,
embriagados na ambrosia,
vagando pelo silêncio
que a noite venera,
ócio contemplativo
e asceta
de um anacoreta
no rio do enigma.

O sol, destemor indelével,
marca da faca e da carne crua,
vigia a nudez fêmea da lua
ao navegar na constelação
da noite para após a aurora
tornar-se em luz furiosa
ao som da sinfonia
dos elementos naturais
que o cosmos
anuncia.

Crepúsculo da divindade,
o vento zéfiro
rumoreja
o sopro de vida
e a arte regenera
a vida
posta em si mesma
como
vida vivida.

23/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

OLHO

Saber do limite
do olho,
ao qual se olha
e que olha
o todo,
refém do mesmo
e da angústia
do nada,
olho que vigia
e que vê sem ver
o que enxerga,
não existe
o sentido pregado,
o entendimento
buscado,
a teoria é exumada
pelo olho,
a existência é um olho,
o olho não compreende,
compreensão é uma ilusão
da razão,
o que há é a visão
que não se compreende,
que não se entende,
que não se crê
na certeza,
o olho é a dúvida
do que se vê,
o olho sente
e não se preocupa
em um dia se cegar.

23/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

O DILEMA ROTO

Eu não sei da raiva
que grita
no soco
do sol,
luz vinda,
partida,
que ilumina.

A raiva, viciada em ódio,
cai rota na sua rota,
plêiade ignota,
rua rarefeita,
paz desfeita,
na lua perfeita.

Ando meio sei lá,
com dores de acolá,
um vinho e um enfado,
uma pausa marcada,
talvez o rio de sono
na voz embargada.

Olhos selvagens,
em vão tuas miragens,
noites e sacanagens,
que não serão, nunca serão,
o que saberei
após os dilemas
destas viagens.

23/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

AUSCULTA DO POEMA

A cerração do sono
refulge na inóspita
aquarela.
Faz saudade e sombra
serem irmãs,
sombra do entendimento
na cor funda
que resvala
nas ondas
do topázio.

Sai de carreira o poeta
e sua chave.
Faz da ponte do coração
seu desenlace.
E num lance qualquer
vê o fim e a paisagem.

Como um alarde,
o gigante mortal
se afunda
em sua alma
de vitral
escondida
num lago
de pensamento
submerso
e incompreendido.
Faz assim
para ser
ouvido.

19/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

POEMA FANTASISTA

Um grande beijo
ao som da flauta doce.
Um doce desejo
de um ensejo.
Cabisbaixo o peito desarmado
que se iludiu de paixão.
Bem mais alto o coração.

Vaga nuvem esfera.
Passa o tempo que espera.

O poeta sorri de mau sonho
que não veio,
mais um engano
de seu anseio.

O poeta, correndo desvairado,
presta atenção no que
vem e em tudo que canta,
pois da pena que se espanta,
faz de poema o que antes
era problema,
faz de si emblema,
e não esquece
dos amores
versos
desandados
que vivem
o sol
e a fantasia.

19/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

VENTO E SOPRO

Fluidas eras de outras épocas,
ferida lástima do horror.
Em meu corpo uma rima sofrida,
em meu corpo os ossos
que se cobrem de carne.

Nas almas latejam corações
sem rumo, almas do pulo,
salto mortal.

Eras que não lembro em demasia.
O horror e sua ambrosia.
Os deuses, conspirando,
eternos em suas vestes e túnicas
frugais.
Desejavam o desejo
como o ódio
deseja a morte.
A preguiça é o norte,
e a fome o consorte.

Noite finda, uma noite ainda
a mais em demasia.
Ademais, um alegre cantante
faz de rima em rima
seu ar enervante.
Apenas um instante,
um passo adiante,
na dor que sucumbe
no ar que irrompe
com vento e sopro.

19/06/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)