PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 30 de maio de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE IX

“Euronymous e sua loja eram o ponto de encontro físico da cena black metal norueguesa”

Após a morte de Dead, Euronymous continuou no seu esforço de assumir o controle do underground extremo norueguês e já havia restabelecido a sua gravadora sob o nome de Deathlike Silence Productions (DSP).

Em seguida, Euronymous alugou um espaço em Oslo para uma loja de discos, e ali venderia também música menos extrema se fosse o caso, para pagar as contas, mas a identidade da loja seria de black metal, e a loja foi batizada de Helvete, palavra em norueguês que significa inferno.

Em Lords Of Chaos, podemos ler : “Em meados de 1991, as bandas Darkthrone, Burzum, Immortal, Thorns, Enslaved, Arcturus e, posteriormente, Emperor estavam todas em contato com Oystein Aarseth, que tinha planos de lançar a maior parte delas via Deathlike Silence.

O círculo interno de amigos e conhecidos casuais que constituíam essas bandas seria chamado por Aarseth de “O Círculo Negro Norueguês” (The Norwegian Black Circle, no original), quando perguntado pela imprensa sobre os incêndios em igrejas que começariam antes do final daquele ano. Ihsahn, o vocalista do Emperor, relembra a dinâmica que operava na época :

Não existe mais disciplina na cena, como no começo ao redor da loja – você meio que tinha que ser aceito. Você ia lá e se você fosse de confiança, se eles soubessem que você levava suas visões a sério, você era aceito. Existia muito respeito pela loja, e as pessoas iam lá usando corpse paint, o que em alguns casos era bem idiota porque estava de dia, e as pessoas estavam fazendo compras.

Mas era uma atmosfera muito complexa e muito dura, você sentia isso quando você entrava lá – era uma coisa muito poderosa. A loja era um ambiente (...) As pessoas queriam ser aceitas, elas eram meio que humildes diante de Euronymous e dos caras mais antigos da cena”.

Em relação ao que ocorreria em seguida, temos os primeiros indícios na DSP, aqui segue o relato em Lords Of Chaos, no que temos : “Uma das pessoas a chegar na cena tardiamente foi Varg Vikernes, também conhecido como Count Grishnackh, com sua one-man band Burzum, que vivia em Bergen, na costa oeste.

Era uma viagem muito longa de seis ou sete horas de carro ou trem para chegar de lá até Oslo. Vikernes vinha para visitas extensas, ao longo das quais ele e Aarseth rapidamente se tornaram amigos.

Os detalhes para que a DSP assinasse a banda de Varg foram acertados, e um álbum de lançamento já estava gravado. Aarseth estava extremamente empolgado com a sonoridade e com a apresentação do Burzum : a banda se encaixava perfeitamente na sua proposta de lançar apenas música ‘verdadeiramente do mal’. Com sua atmosfera depressiva e seus vocais agudos, gritados e dolorosamente roucos, o som do Burzum era bastante distinto de qualquer outra banda da cena.

Aarseth também manteve contato com um crescente número de bandas de fora da Noruega, às quais ele encorajava e fazia planos de lançar seus álbuns : Sigh, do Japão, Monumentum, da Itália, e a bizarra entidade sueca Abruptum.

Apenas alguns desses planos se concretizariam antes da morte de Aarseth, principalmente porque ele nunca havia sido muito bom como empresário. Ele administrava seu selo com inépcia, e o capital para investir em novos lançamentos simplesmente não existia”.

Portanto, refletindo sobre estas citações de Lords Of Chaos neste texto, podemos ver um engajamento que vinha de um único centro, Euronymous e sua loja eram o ponto de encontro físico da cena black metal norueguesa, o que fez com que esta rede de relações entre bandas fosse também fonte de um estreito relacionamento de convivência pessoal e formação de uma tribo.

Por sua vez, a Deathlike Silence Productions, a sua gravadora, fazia com que Euronymous buscasse contato com bandas de fora do círculo estreito norueguês, e retratava um engajamento de alguém que também buscava se informar sobre os cenários de black metal de outros países, a sua pesquisa foi boa, mas Euronymous era um péssimo administrador, tanto de sua loja como de sua gravadora, e nunca teve uma condição financeira independente.

A cena norueguesa, por fim, tinha em Euronymous a fonte agregadora e que dava diretrizes para a expansão desta, tendo sido ele o principal causador da mudança brusca de bandas que passaram do death metal ao black metal que usa corpse paint.

Euronymous era a figura central, mas os eventos que viriam logo a seguir colocariam outros personagens em evidência, e a polêmica superaria a música, mas, por outro lado, a cena black metal norueguesa, a sua música, também sofreu influxo mundial destes escândalos infames.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/lords-of-chaos-a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-ix 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

APPLE E FACEBOOK EM GUERRA

 

"não é uma briga de santos que querem servir o usuário, mas uma competição feroz por domínio do mercado"

A Apple colocou em vigor em abril deste ano o App Tracking Transparency, que inaugura uma nova política de privacidade que coloca pressão sobre empresas como o Facebook e o Google para terem maior transparência. Neste novo mecanismo da Apple todos os aplicativos serão obrigados a pedirem autorização dos usuários para a utilização de dados de navegação que envolvam publicidade.

No influxo do lançamento do novo iPhone 12, pacote de assinaturas de podcast e iMac, no novo iOS 14.5 se terá esta nova política de privacidade da Apple estabelecida. Tim Cook fez declarações de defesa da privacidade de usuários, o que levou Mark Zuckerberg, do Facebook, a acusar a Apple de práticas anticompetitivas.

As trocas de acusações que envolvem as Big Techs, por sua vez, não é uma briga de santos que querem servir o usuário, mas uma competição feroz por domínio do mercado de tecnologia, que está na berlinda agora por iniciativas diversas de medidas antitruste. Portanto, a pressão vem de fora, por medidas antitruste e por privacidade, e entre as próprias big techs, que começam a disputar territórios do mercado de tecnologia, com diferentes estratégias.

A Apple afirma que o usuário poderá não conceder o rastreamento, o que deixará zerado o identificador e o aplicativo utilizado por este usuário não poderá obter dados sobre a sua navegação. Tal mecanismo novo da Apple pressiona Google e Facebook, por sua vez, pelo fato destas empresas dependerem fortemente de publicidade para sustentar seus negócios, com um big data imenso.

O Facebook, assim que ficou sabendo do mecanismo da Apple, já em dezembro de 2020, se pronunciou, pretensamente em nome de todas as pequenas empresas do mundo, dizendo : “No Facebook, as pequenas empresas estão no centro de nossos negócios… Muita gente que está à frente de pequenos negócios vem compartilhando preocupações sobre a atualização forçada do software da Apple, que limitará a capacidade das empresas de veicular anúncios personalizados e alcançar seus clientes de forma eficaz”, disse a empresa.

O Google também depende muito do rastreamento de terceiros para alimentar seus negócios de publicidade, mas já tenta melhorar sua política de privacidade, em anúncios conjuntos com a Apple, já promete medidas efetivas para realizar uma forma mais amigável de compartilhamento de dados de usuários, isto é, de um modo menos invasivo.

Neste quesito de uso massivo de dados de usuários, a empresa que parece que vai entrar num impasse e sofrer com limitações será, certamente, o Facebook de Mark Zuckerberg, empresa esta que se acomodou numa falta de inventividade, fagocitando ideias novas dos outros, como nas aquisições do WhatsApp e do Instagram.

A competição entre Facebook e Apple, não é nada mais do que entre esta empresa que agora vive mais do WhatsApp e do Instagram do que de sua comodidade original, e a empresa que teve Steve Jobs e que se tornou uma das fabricantes de eletrônicos mais valiosas do mundo e a quarta maior empresa do setor de celulares.

O Facebook depende muito dos dados de seus usuários para poder personalizar seu conteúdo, receita e publicidade. Por outro lado, a rede social acusa a Apple de realizar a sua própria coleta de dados, numa posição de domínio como dona dos aparelhos, sistemas operacionais e lojas digitais. Diante disto, o Facebook pensa em processar a Apple por práticas anticompetitivas de mercado.

Pode ser que no pior cenário de todos, isto tudo possa terminar nos tribunais, virando tema de fiscalização do Congresso dos Estados Unidos ainda em 2021. Agora já chamam estas disputas e suas possíveis consequências o caminho para um modelo de ética de dados.

Temos leis de proteção de dados já em mais de 140 países, em diferentes estágios de avanço, e este mecanismo novo da Apple vai colocar em prática uma parte dessas leis, e o jogo em que o Facebook se acostumou, certamente a empresa mais acomodada das big techs neste sentido de controle de dados e em uma dependência profunda dos mesmos, tenha que reaprender a jogar, pois a Apple está sendo bem mais esperta.

As leis de privacidade e medidas como a da Apple não vieram para acabar com o big data e a inteligência de negócios web, mas estabelecer um limite e abrir o caminho, agora, dentro das próprias big techs, de uma conciliação entre este big data e uma ética dos dados, com recursos menos invasivos.

A Apple não está sendo benevolente, a sua grande jogada é tentar controlar o Facebook, Google e outras plataformas numa tacada só, e obter o seu próprio controle para benefício próprio, mas tal medida vem no influxo das mudanças de modelos de negócios no mercado web.

Por outro lado, sem o ecossistema de personalização de anúncios, pequenos e médios desenvolvedores serão obrigados a cobrar de alguma forma pelos aplicativos, ou na hora de baixar ou via assinatura. E a Apple se beneficia também disto, pois seu interesse será o de cobrar uma comissão desses desenvolvedores em sua loja, a App Store. Por fim, a decisão da Apple diminui o incentivo a criação de aplicativos gratuitos, baseados no modelo atual.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/apple-e-facebook-entram-em-guerra 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

A POESIA ULTRAMARINA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

“uma poesia que reforça imagens clássicas das viagens ultramarinas portuguesas”

No livro Navegações, de 1983, a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen continua com a parte de sua poesia de temática política, e se concentra num tipo de consciência política em que o mar, seu eixo poético supremo, vem com toda a carga histórica.

Sua poesia, neste livro, novamente se depara e enfrenta a realidade histórica do evento político como fonte de uma poesia que reforça imagens clássicas das viagens ultramarinas portuguesas.

Nesta jornada ultramarina aparecem poetas do cânon português como a grande origem da linguagem lusófona que foi Luís de Camões, este que fora o autor incontornável para a poesia portuguesa do clássico livro Os Lusíadas.

Por sua vez, Navegações é um livro que traz descobertas, esta busca das navegações portuguesas por territórios a serem explorados é, também, a produção de um éthos.

Este éthos é uma busca de uma vida plena, que ultrapassa o próprio fenômeno histórico, algo que culmina em imagens como a do marinheiro, e que nos remete a experiências de alto-mar, a vida no mar que se expande  defronte à própria riqueza da natureza.

Aqui temos uma aventura que transcende marcadores socioculturais e convenções ideológicas. Poemas breves compõem este espaço de descrição desta experiência direta, isto é, sem a mediação de limitadores artificiais, estamos aqui diante da natureza pura em alto-mar.

A suspensão ideológica é o resultado desta abordagem poética de Sophia neste livro, e temos, então, a ausência completa de um programa político neste livro, a epifania produzida visa o coletivo, mas não aprisiona a experiência poética num marcador cultural ou político específico, existe neste livro um tipo de liberdade absoluta.

No seu livro, Ilhas, de 1989, temos também o tema da viagem, com as paisagens culturais e geográficas indo além de Portugal e da Grécia, temos poemas de diversas abordagens, como o que fala do Palácio Mocenigo em que se instala o poeta inglês Lord Byron.

Ainda temos um poema chamado Veneza, e vemos o contato do Oriente com o Ocidente, o que se descreve no primeiro encontro entre europeus e japoneses no poema “Os biombos Namban”.  

E o poema mais visceral nos aparece, neste livro, em “Não te esqueças nunca”, em que Treblinka, na Polônia, e Hiroshima, no Japão, são o centro imagético que queima a visão diante da desumanidade da guerra, que no século XX atingiu um nível de barbárie sem precedentes na História humana.

E neste livro Ilhas temos, por fim, este eixo temático da viagem que mistura História, poemas que descrevem lugares, como o citado do Palácio Mocenigo, poemas sobre viajantes, e o poema “Carta (s) a Jorge de Sena”, que fala de um emigrante, que é o retrato de um português legítimo do século XX.  

DE NAVEGAÇÕES

LISBOA : A poeta Sophia se abre a Lisboa ao passo que a cidade se abre em seu poema, no que temos : “Digo :/”Lisboa”/Quando atravesso – vinda do sul – o rio/E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse”. Lisboa que nasce de seu próprio nome, se expande neste poema, no que vem : “Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna/Em seu longo luzir de azul e rio/Em seu corpo amontoado de colinas -/Vejo-a melhor porque a digo/Tudo se mostra melhor porque digo/Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência/Porque digo/Lisboa com seu nome de ser e de não-ser”. A sensação da poeta é que ao dizer o nome de Lisboa esta se fixa no poema e em sua realidade, no que temos : “Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata/Lisboa oscilando como uma grande barca/Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência/Digo o nome da cidade/- Digo para ver”. Aqui o sentido da visão se dá através de dizer o nome Lisboa. A poeta faz ver ao dizer o nome desta cidade.

AS ILHAS : A navegação aqui se dá no percurso do poema até a visão das ilhas : “I : Navegámos para Oriente -/A longa costa/Era de um verde espesso e sonolento”. A descrição marítima e de seu clima se abre e a poeta coloca os versos nesta paisagem que toma a sua visão : “Um verde imóvel sob o nenhum vento/Até a branca praia cor de rosas/Tocada pelas águas transparentes”. As ilhas, então, finalmente aparecem, e o poema celebra : “Então surgiram as ilhas luminosas/De um azul tão puro e tão violento/Que excedia o fulgor do firmamento/Navegado por garças milagrosas” (...) “E extinguiram-se em nós memória e tempo”. Ao fim, diante deste evento, findam-se memória e tempo.

III : A poeta se volta ao luzir da madrugada, no que vem : “À luz do aparecer a madrugada/Iluminava o côncavo de ausentes/Velas a demandar estas paragens”. As paragens e a escuridão dão um clima ao poema, e segue : “Aqui desceram as âncoras escuras/Daqueles que vieram procurando/O rosto real de todas as figuras/E ousaram – aventura a mais incrível -/Viver a inteireza do possível”. Neste tatear da realidade da vida, em sua busca, aqueles que buscaram a face real das coisas conseguiram viver a inteireza do possível, aqui podemos falar da vida plena ou da plenitude como dom e desiderato.

V : A poeta segue em sua visão total da vida, e esta busca no poema revela e alcança este dom ou faculdade de ver a verdade, aqui a exposição do visível em sua forma plena e inteira é, propriamente, o que temos como o verdadeiro : “Ali vimos a veemência do visível/O aparecer total exposto inteiro/E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/Era o verdadeiro”.

VII : A poeta Sophia abre as singraduras da navegação, e o poema aqui se enuncia : “Outros dirão senhor as singraduras/Eu vos direi a praia onde luzia/A primitiva manhã da criação” (...) “Eu vos direi a nudez recém-criada/A esquiva doçura a leve rapidez/De homens ainda cor de barro que julgaram/Sermos seus antigos deuses tutelares/Que regressavam”. As origens são evocadas, uma realidade nua, que acabou de ser criada, com homens ainda mal saídos da terra, sob deuses tutelares, aqui se descreve poeticamente a criação.

VIII : A poeta, mais uma vez, se coloca em seu sentido da visão, aqui podemos dizer que ela vê com o olho de seu espírito, e que a dá o dom da poesia, e de sua descrição rica, no que vem : “Vi as águas os cabos vi as ilhas/E o longo baloiçar dos coqueirais/Vi lagunas azuis como safiras/Rápidas aves furtivos animais/Vi prodígios espantos maravilhas/Vi homens nus bailando nos areais/E ouvi o fundo som de suas falas/Que já nenhum de nós entendeu mais”. Existe algo que ainda não se entende, a poeta, então, bebe na mitologia, um de seus eixos temáticos : “Vi o rosto de Eurydice das neblinas/Vi o frescor das coisas naturais/Só do Preste João não vi sinais/As ordens que levava não cumpri/E assim contando tudo quanto vi/Não sei se tudo errei ou descobri”. E de tudo que a poeta viu, nem ela mesma pode mensurar ou entender exatamente o que viu.

DE ILHAS

A PRINCESA DA CIDADE EXTREMA OU A MORTE DOS RITOS : Aqui a poeta faz uma viva descrição que tem o clima oriental e mitológico, como se estivesse contando uma lenda, no que temos : “Quando o palácio do rei do Estio foi invadido/Isô princesa da Cidade Extrema/Inclinou gravemente a cabeça pequena/E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz”. A riqueza dos versos é compatível com todo o requinte que envolve a temática : “Quando levaram sua colecção de jades/O seu leito de sândalo/O sorriso franziu sua narina fina/Suas pestanas acenaram como borboletas” (...) “Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas” (...) “Ela continuou flexível e serena/Suas pestanas aplaudiram como leques pretos/Seus lábios recitaram a sentença antiga :”. A poeta agora enuncia a filosofia da princesa, que faz um breve provérbio, no que vem : “Aquele que é despojado fica livre”. E esta princesa se vê, qual seu provérbio, na surpresa que este poema oferece : “No lago viu-se/Ela mesma era/Flexível e brilhante como seda/Fresca e macia como jade/Colorida e preciosa como estampa” (...) “Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras” (...) “Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade”. E a princesa acorda de seu transe, no que vem : “Quando ela acordou/O cortejo das mãos não acorreu/A mão que acende o incenso/A mão que desenrola o tapete/A mão que faz cantar a música das harpas/A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos/A mão fresca e lenta que derrama os perfumes”. E a poeta Sophia aqui discorre sobre os limites dos dons humanos, remetendo ao mundo dos deuses, no que temos : “Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses/Protectores do tecto/Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz/O fogo linear do dia/Mão nenhuma traça o gesto que constrói/A forma celeste do dia”. E a princesa, acordada, agora terá que dar conta sem o concurso da divindade, com as suas próprias forças e dons, no que segue o poema : “As vozes dizem :” (...) “Ergue-te sozinha/Não és ídolo não és divina/Nenhuma coisa é divina” (...) “Como seda no chão cai desprendida/Assim elas esvaída/Quando a si torna não torna à sua imagem”. O poema segue, então, e os deuses aparecem, mas a princesa está em si e em seus próprios desafios, como é a vida : “Suas mãos tacteiam o ar/Muito alto ouve ranger o céu/São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento” (...) “Para não ouvir o silvo dos gumes acerados/Mergulha no lago até ao lodo/Depois flutua muitos dias/No centro da corola que formam/Os seus largos vestidos espalhados”.

NÃO TE ESQUEÇAS NUNCA : O poema descreve o mundo antigo e divino, no que vem : “Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina/O pinhal a coluna a veemência divina/O templo o teatro o rolar de uma pinha/O ar cheirava a mel e a pedra a resina/Na estátua morava tua nudez marinha/Sob o sol azul e a veemência divina”. Agora, ao fim, o desencanto, terra sem deuses, as cidades da desgraça da guerra, em seus extremos : “Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima/O horror o terror a suprema ignomínia”.

OLÍMPIA : A mitologia, mais uma vez, predomina como tema na poesia de Sophia, no que temos : “Ele emergiu do poente como se fosse um deus/A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo”. Todo o clima do mundo antigo e a paisagem aqui se dão no poema, e segue : “Era o hóspede do acaso/Reunia mal as palavras/Foram juntos a Olímpia lugar de atletas/Terra à qual pertenciam/Os seus largos ombros as ancas estreitas”. O casal então se dispersará, e o poema abre como o mar em seu canto : “Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua/Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido” (...) “Porém na manhã seguinte/Entre as espalhadas ruínas da palestra/Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas/Dóricas” (...) “De qualquer forma em Patras poeirenta/No abafado subir da noite/Tomaram barcos diferentes” (...) “De muito longe ainda se via/No cais o vulto espesso baloiçando esguio/Que entre luzes com as sombras se fundia” (...) “Sob a desprezível indiferença/Não dela mas dos deuses”. A existência habita aqui em meio a uma indiferença, que também vem dos deuses.

A ESCRITA : O poema de Sophia descreve aqui a vida nababesca do poeta inglês Lord Byron, que podia desfrutar de seu grande espaço, de suas salas, e de seu tempo livre, no que temos : “No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho/Lord Byron usava as grandes salas/Para ver a solidão espelho por espelho/E a beleza das portas quando ninguém passava” (...) “Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital/Mas a escrita exige solidões e desertos/E coisas que se veem como quem vê outra coisa”. A relação dos grandes espaços, da solidão e dos vazios, com a criatividade, também aparecem neste poema de Sophia sobre Byron, no que temos : “Podemos imaginá-lo sentado à sua mesa/Imaginar o alto pescoço espesso/A camisa aberta e branca/O branco do papel as aranhas da escrita/E a luz da vela – como em certos quadros -/Tornando tudo atento”.

ESTÁTUA DE BUDA : A descrição da vida de Buda inicia o poema, a sua renúncia, e o poema termina com a visão de sua estátua no museu, no que temos : “Os belos traços o inchado beiço a narina fina/O torneado corpo e sua/Beleza tão carnal de magnólia e fruto/Em tão longínqua latitude representam/O príncipe da perfeição e da renúncia” (...) “Antes do museu/Em sua frente/Oscilavam sombras e luzes enquanto deslizava/O rio das preces”.

DEDICATÓRIA DA SEGUNDA EDIÇÃO DO CRISTO CIGANO A JOÃO CABRAL DE MELO NETO : A poeta Sophia aqui se volta, mais uma vez, a seu amigo  e também poeta, o brasileiro João Cabral de Melo Neto, no que vem : “I - João Cabral de Melo Neto/Essa história me contou/Venho agora recontá-la/Tentando representar/Não apenas o contado/E sua grande estranheza/Mas tentando ver melhor/A peculiar disciplina/De rente e justa agudeza/Que a arte deste poeta/Verdadeira mestra ensina”. E o poema exato e frio da dicção cabralina, também não deixa de alucinar, e a poeta cita Cesário Verde, como uma possível comparação, no que temos : “II – Pois é poeta que traz/À tona o que era latente/Poeta que desoculta/A voz do poema imanente” (...) “Nunca erra a direcção/De sua exacta insistência/Não diz senão o que quer/Não se inebria em fluência” (...) “Mas sua arte não é só/Olhar certo e oficina/E nele como em Cesário/Algo às vezes se alucina” (...) “Pois há nessa tão exacta/Fidelidade à imanência/Secretas luas ferozes/Quebrando sóis de evidência”.

CESÁRIO VERDE : A poeta Sophia aqui faz um poema como se Cesário Verde descrevesse a sua própria dicção poética, num poema bem curioso, no que temos : “Quis dizer o mais claro e o mais corrente/Em fala chã e em lúcida esquadria/Ser e dizer na justa luz do dia/Falar claro falar limpo falar rente”. O mesmo tema da fala fria que, em seguida, alucina, dita no poema anterior, aqui se repete, no que vem : “Porém nas roucas ruas da cidade/A nítida pupila se alucina/Cães se miram no vidro da retina/E ele vai naufragando como um barco”. E a vida urbana e decadente toma a poesia de Cesário, por fim  : “Amou vinhas e searas e campinas/Horizontes honestos e lavados/Mas bebeu a cidade a longos tragos/Deambulou por praças por esquinas” (...) “Fugiu da peste e da melancolia/Livre se quis e não servo dos fados/Diurno se quis – porém a luzidia/Noite assombrou os olhos dilatados” (...) “Reflectindo o tremor da luz nas margens/Entre ruelas vê-se ao fundo o rio/Ele o viu com seus olhos de navio/Atentos à surpresa das imagens”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-poesia-ultramarina-de-sophia-de-mello-breyer-andresen 

 

 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

O DESMONTE DE SALLES E O NOVO LICENCIAMENTO AMBIENTAL

“a sucessão de instruções normativas e portarias completa o processo de desmonte do combate aos crimes ambientais”

Ricardo Salles já havia se pronunciado no seu episódio polêmico da fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, no meio da crise da pandemia, em que o Ministro do Meio Ambiente fez a seguinte declaração alarmante : “É passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação ... Enquanto estamos nesse momento de tranquilidade porque só em fala em Covid e ir passando a boiada ... Ir mudando todo o regramento”.

Agora, em um espaço de 12 meses, o ministro fez 721 canetadas, o que inclui 76 reformas institucionais, 36 medidas de desestatização, 36 revisões de regras, 34 de flexibilização, 22 de desregulação e 20 revogações. Tivemos um grande desmonte de toda a fiscalização, e o desmatamento aumentou mais de duzentos porcento, com o garimpo avançando sobre as terras indígenas.

As ações de mineradores, grileiros, madeireiros e pecuaristas, tudo de forma ilegal, foram constantes e aconteceram de modo orquestrado. As ações do ministro Salles, minando e sabotando toda a estrutura de defesa do meio ambiente, com o sucateamento sistemático do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o esvaziamento do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), são premeditados de modo que não haja controle sobre tais ações predatórias e orquestradas.

Tivemos a anistia de desmatadores da Mata Atlântica, e ações como a liberação de madeira nativa pelo Ibama, houve ainda a autorização de certificação de propriedades privadas em terras indígenas não homologadas, a Instrução Normativa 9, e tivemos a transferência para o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do licenciamento ambiental em comunidades quilombolas.

E, por fim, no desmonte da fiscalização, de outro lado, os cargos estratégicos dos órgãos ambientais foram progressivamente sendo ocupados por militares, e estes ocupam lugares de especialistas como geógrafos, engenheiros ambientais e florestais, além de biólogos.

Salles ainda barrou operações contra crimes ambientais pessoalmente, como a do garimpo ilegal na paraense Jacareacanga, e o ministro ainda desfez a maior apreensão de madeira já feita no Brasil.

O Supremo Tribunal Federal (STF), diante deste fato, tem uma queixa-crime tramitando. No caso da apreensão de madeira, a exoneração do delegado Alexandre Saraiva da Superintendência da Polícia Federal do Amazonas causou polêmica e repercutiu na imprensa.

Nesta quarta-feira (19), o ministro e servidores do Ibama foram alvos de uma operação da Polícia Federal, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, que apura crimes contra a administração pública praticados por agentes públicos e empresários do ramo madeireiro.

A ação de Salles que resultou na queixa-crime envolve documentos fraudados pelo ministro para autorizar a apreensão de 43,7 mil toras, que foi objeto de uma pseudoperícia, uma cena teatral em que o ministro fingiu que não havia problemas nas escrituras apresentadas pelos madeireiros, e os documentos fraudados possuíam vício de origem. Salles, por fim, é acusado de fazer advocacia administrativa e de dificultar a fiscalização feita pelos órgãos competentes.

Salles assinou uma norma que não permite  mais que um fiscal multe um infrator, pois este terá que submeter um relatório a um superior, que será alguém a serviço de Salles, um pelego do ministro.

Por sua vez, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) está ameaçado e os ataques ao Ibama, Fundação Nacional do Índio (Funai) e ICMBio são sistemáticos, sempre no sentido de prejudicar o funcionamento pleno de tais órgãos, com o aparelhamento dos mesmos por militares, e com o fito de colocar tais órgãos sob um jugo que inviabiliza suas finalidades originais de defesa do meio ambiente.

E a sucessão de instruções normativas e portarias completa o processo de desmonte do combate aos crimes ambientais, tendo como resultado a derrubada do edifício regulatório do Brasil para o meio ambiente. A atuação de Salles no nível infralegal é a sua estratégia principal de desmonte das ações dos órgãos ambientais.

Agora temos a aprovação pela Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 3.729/2004, que é o texto principal do relatório do deputado Neri Geller (PP-MT), que é a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e se este PL virar lei poderá produzir recordes de desmatamento, pois libera da necessidade de licenciamento obrigatório algumas atividades, incluindo estradas e hidroelétricas.

“O texto aprovado é tão nefasto que, de uma só vez, põe em risco a Amazônia e demais biomas e os recursos hídricos, e ainda pode resultar na proliferação de tragédias como as ocorridas em Mariana e Brumadinho e no total descontrole de todas as formas de poluição, com prejuízos à vida e à qualidade de vida da população. Por fim, pode se transformar na maior ameaça da atualidade às áreas protegidas e aos povos tradicionais”, alerta Maurício Guetta, consultor jurídico do Instituto Socioambiental.

“Com a aprovação da Mãe de Todas as Boiadas, a Câmara dos Deputados, sob a direção do deputado Arthur Lira, dá as mãos para o retrocesso e para a antipolítica ambiental do governo Bolsonaro. É o texto da não licença, da licença autodeclaratória e do cheque em branco para o liberou geral. Implodiram com a principal ferramenta da Política Nacional do Meio Ambiente”, afirma Suely Araújo, analista sênior de políticas públicas do Observatório do Clima.

Se aprovado no Senado, o texto ainda pode ser alvo de questionamentos no Supremo Tribunal Federal. “Se o projeto de lei que dilacera o licenciamento ambiental virar lei, vamos entrar no STF, pois fere a Constituição”, avisa o ex-ministro Carlos Minc, que assinou com outros ex-ministros do Meio Ambiente uma carta contrária ao PL 3.729/2004.

O texto que aprovou o desmonte do licenciamento ambiental, que foi um texto enviesado discutido entre ruralistas e industriais a portas fechadas, tem o objetivo de atropelar fundamentos do direito ambiental e representa mais um retrocesso do governo na área ambiental.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 8 de maio de 2021

LORDS OF CHAOS – A SANGRENTA HISTÓRIA DO METAL SATÂNICO UNDERGROUND – PARTE VIII

“Dead tinha um temperamento depressivo e sombrio”

O Mayhem começou em 1984 as suas atividades, e a banda foi influenciada por bandas como Venom, Bathory e Hellhammer. A formação inicial ainda contava com Euronymous usando o pseudônimo Destructor, na guitarra, mas ele logo adotou o pseudônimo com o qual o conhecemos, que era traduzido por “príncipe da morte” (título grego mencionado em livros-texto sobre ocultismo). Ainda havia o baixista Necro Butcher, o baterista Manheim e o vocalista Messiah.

A banda se identificou como tocando “total death metal”, fato desmentido depois pelo próprio Euronymous, que afirmou que o Mayhem sempre fora uma banda de black metal. O primeiro show do Mayhem foi em 1985, e a demo de estreia foi Pure Fucking Armageddon, em 1986, com 100 cópias numeradas.

Em 1987, entra na banda o vocalista Maniac, e Messiah foi chamado por Euronymous de “ex-vocalista de estúdio”, que teve a sua aparição na demo e no primeiro lançamento oficial da banda, o mini-LP Deathcrush, deste ano de 1987, com uma tiragem de 1000 cópias.

Após o lançamento de Deathcrush, entra o vocalista Dead, que veio da banda cult de Estocolmo, na Suécia, Morbid, de onde alguns integrantes, mais tarde, montariam a conhecida banda sueca de death metal, Entombed.

Dead se mataria poucos anos depois, em 1991, e seria um dos primeiros fatos chocantes da cena norueguesa do black metal que, naquele período, se expandia. A história é conhecida no underground, e envolve detalhes macabros.

Euronymous, pouco depois do suicídio de Dead, escreveu : “Nós não temos mais vocalista! O Dead se matou há duas semanas! Foi muito brutal, primeiro ele cortou todas as artérias dele nos pulsos e aí ele explodiu a cabeça com uma escopeta. Eu encontrei ele e foi muito macabro, a parte de cima da cabeça dele estava espalhada por todo o quarto, e a parte de baixo do cérebro tinha escorrido do resto da cabeça e caído na cama.

Eu, claro, peguei minha câmera imediatamente e tirei umas fotos; a gente vai usar elas no próximo LP do Mayhem. Eu e o Hellhammer tivemos tanta sorte que encontramos dois pedaços grandes do crânio dele, e nós colocamos eles em colares pra guardar de lembrança.

O Dead se matou porque ele vivia somente pela antiga cena e estilo de vida black metal true. Isso significa roupas pretas, spikes, cruzes e por aí vai (...) Mas hoje em dia só tem crianças em roupas de ginástica e skates, e ideias morais do hardcore, eles tentam parecer o mais normais o possível. Isso não tem nada de sombrio, esses imbecis têm que temer o black metal!

Mas ao invés disso eles amam bandas de merda tipo o Deicide, Benediction, Napalm Death, Sepultura e toda essa merda. A gente tem que levar essa cena de volta ao que ela era no passado.

O Dead morreu por essa causa e agora eu declaro guerra! Eu estou com raiva, mas, ao mesmo tempo, tenho que admitir que foi interessante examinar um cérebro humano em estado de rigor mortis. Morte ao falso black metal ou death metal! E também aos modinhas do hardcore ... Aarrgghh!”

Hellhammer desmente a afirmação dizendo que : “O Euronymous espalhou o boato de que [o Dead] cometeu suicídio por causa da cena. Esse não foi o motivo, mas ele queria que parecesse que fosse porque aí ele poderia ganhar mais dinheiro e parecer mais diabólico do que ele de fato era”.

No livro Lords of Chaos podemos ler : “Oysten estava rapidamente percebendo o poder que havia em criar uma imagem militantemente sinistra para a banda, como parte de seu plano declarado de ‘espalhar o mal’ para as massas. No que competia às suas empreitadas musicais, as únicas circunstâncias em que o Mayhem de fato se mostrava à altura de sua imagem eram os raros shows ao vivo que eles conseguissem organizar.

O show de Sarpsborg em 1990 se tornou lendário, posteriormente gerando um CD bootleg – cuja capa traz uma reprodução muito clara da cabeça de Dead estourada por uma escopeta e seu tronco caído, com o cérebro espalhado pelo seu colo.”

E o livro Lords of Chaos continua : “no início dos anos 1990 a moderna face do black metal já dava a sua cara macabra de corpse paint. Era algo muito distante dos velhos dias dos shows do Venom e suas torres de luz estroboscópicas, pirotecnias e trajes bregas cheios de rebites e elastanos.

O black metal norueguês havia encontrado sua alma, e estava satisfeito em se contentar com apenas algumas cabeças decapitadas, automutilação e uma oposição a tudo considerado ‘bom’ ou que afirmasse a vida.”

Dead tinha um temperamento depressivo e sombrio e afirmava não ser deste mundo, ele praticou a automutilação nos shows do Mayhem, mas era visto na cena como uma pessoa de quem nunca ninguém falou mal, mas o seu suicídio não tinha sido uma surpresa para ninguém.

Em 8 de abril de 1991 aconteceu seu suicídio, quando Dead tinha 21 anos. Pegou uma das armas que tinha na casa em que morava e carregou com munição providenciada por Varg “Grischnackh” Vikernes, e em sua breve carta de suicídio Dead escreveu : “Desculpa pelo sangue todo”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/a-sangrenta-historia-do-metal-satanico-underground-parte-viii 

 

 

 

 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

PIADA DE FRANCÊS

“o bolsonarismo embarcou nesta onda da cloroquina como uma panaceia”

Jim Jones fundou e foi líder do culto Templo dos Povos, iniciado nos anos 1950, em Indiana, e migrou para a Califórnia nos anos 1960. Em 1974, o Templo dos Povos arrenda uma gleba de terra na Guiana, onde se ergue o “Projeto Agrícola”, é aí que surge a comunidade denominada Jonestown.

É neste local de Jonestown que ocorre o suicídio coletivo mais conhecido da História, o do Templo dos Povos, liderado por Jim Jones, que resultou na morte de 909 pessoas por envenenamento por cianeto. Jim Jones foi encontrado morto em uma cadeira de praia com um tiro na cabeça, supostamente auto-infligido.

Diante do caso do governo brasileiro frente a milagres sobre remédios não comprovados contra a Covid-19, a conduta do presidente Jair Bolsonaro me lembra algo como uma mistificação, que, não sendo religiosa, no entanto, tem seus ares que podem remeter a uma mentalidade alienada de seita. Por sua vez, o primeiro-ministro da França, Jean Castex, na Assembleia Nacional, anunciou o fechamento da França para voos vindos do Brasil.

A revista Science colocou em evidência todo o descontrole atual da pandemia no Brasil, em um artigo, com as seguintes palavras : “O surgimento de novas variantes isolará o Brasil como uma ameaça à segurança da saúde global e levará a uma crise humanitária completamente evitável”, tal artigo foi publicado por brasileiros e americanos um dia após o anúncio do premier Castex.

O vexame, para o Brasil, desta passagem do premier pela Assembleia ficou evidente. O mico internacional do governo Bolsonaro, que no início era um exotismo que virou chacota na imprensa alemã, agora é uma extensa e dramática tragédia que, em seu outro lado, é o ridículo de um governo que compra ilusões, e que agora também virou piada de francês. Pois, na Assembleia francesa, Castex fustigou um deputado da oposição que tinha defendido o uso da hidroxicloroquina na França, em 2020, contra o Coronavírus.

É bom lembrar que foi um médico francês, Didier Raoult, quem primeiro defendeu o uso da cloroquina para combater o vírus, e o bolsonarismo embarcou nesta onda da cloroquina como uma panaceia, um modo de não encarar a realidade, pois primeiro minimizou a pandemia, como uma gripezinha, em pronunciamento oficial do presidente Jair Bolsonaro, numa das cenas mais marcantes e abomináveis deste governo no ano de 2020.

Tivemos, também, no início da pandemia no Brasil, declarações estapafúrdias, como o dono do restaurante Madero, que disse que morreriam apenas 3 mil pessoas, e hoje temos mais de 3 mil pessoas morrendo a cada dia. Didier Raoult, por seu turno, mais tarde, reconheceu que estava errado, esta panaceia é uma ficção. A piada de francês, então, se deu quando Castex declarou : “Gostaria de avisar que o Brasil é o país onde ela é mais prescrita”, e arrancou risadas no parlamento francês.

Agora temos o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sofrendo um processo judicial pela tragédia no estado do Amazonas, ele é acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal, pois demorou para agir nesta tragédia, houve omissão na iminência de falta de tubos de oxigênio, e ainda temos a famigerada pressão do SUS que aconteceu para o uso da cloroquina. No mesmo dia do colapso amazônico, foi enviado 120 mil comprimidos de hidroxicloroquina ao estado do Amazonas.

A demissão de Nelson Teich do ministério da Saúde veio no influxo desta história toda, quando o ministério baixou um protocolo recomendando cloroquina para uso em qualquer fase do tratamento da Covid-19. O Laboratório do Exército passou a produzir o medicamento em escala industrial, e foram feitos milhões de comprimidos. Para piorar, o contrato com a Pfizer foi questionado entre agosto e setembro de 2020, atrasando a vinda de vacinas que já poderiam ter tido doses ainda em dezembro de 2020, e três milhões de doses até março de 2021.

No Brasil, agora, o governo começa a fazer as encomendas, mais por pressão do que por convicção, mas ainda estamos dependendo da Fiocruz e do Butantan. E isto porque a CoronaVac, atacada por Bolsonaro, que hoje responde por 70% das doses aplicadas no Brasil, foi produzida pelo governo de São Paulo, senão teríamos apenas as vacinas da AstraZeneca/Oxford. As doses da Pfizer, agora, podem chegar em maio, tempo perdido.

Tivemos um festival de ilusões sobre medicamentos inúteis para combater a Covid-19, como cloroquina, ivermectina, nitazoxanida e azitromicina, e que passaram a integrar o chamado Kit Covid que impulsionou o famigerado “tratamento precoce”. Tivemos o aval para este Kit Covid e tratamento precoce tanto do presidente Jair Bolsonaro como do Conselho Federal de Medicina.

O caso de Chapecó é emblemático, Jair Bolsonaro desembarcou no município para louvar os resultados de tal tratamento no local, o milagre da cloroquina, este que fora feito pelo prefeito João Rodrigues, do PSD, e agora temos o município com números sobre o vírus piores do que a média estadual catarinense e nacional.

O TrateCov, por sua vez, é outro escândalo que foi patrocinado pelo Ministério da Saúde, um aplicativo que recomendava o tratamento precoce, e isto durante o auge da tragédia no estado do Amazonas, e diante do escândalo todo, o retiraram do ar.

A OMS deu reiterados alertas contra o uso do medicamento cloroquina, e Bolsonaro, no entanto, continuou a vender esta panaceia que não é nada mais que uma ilusão para incautos, e produto propício para mistificadores produzirem este transtorno em torno de uma tragédia contínua, e que só pode ser interrompida com a chegada das doses de vacinas que estão sendo produzidas para a população brasileira e mundial.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/piada-de-frances 

 

 

 

 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

RACISMO E ANTIRRACISMO – PARTE III

“Derek Chauvin, de 45 anos, é condenado sob acusação de três crimes”

Neste dia 20 de abril de 2021, os Estados Unidos viveram um dia histórico que, tomara, seja um marco na História norte-americana que crie um novo paradigma no combate ao racismo policial que, nos Estados Unidos e em diversos países, sempre foi uma mácula introjetada nestas corporações.

Este dia foi o dia do veredicto unânime de culpa sobre Derek Chauvin por assassinato, o policial que matou o homem negro de nome George Floyd por asfixia em maio de 2020 na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos.

O ato de Chauvin contra Floyd foi filmado, isto graças à coragem da jovem Darnella, que tinha 17 anos no dia da morte de Floyd, e que foi a autora do vídeo que viralizou e que provocou protestos em todos os Estados Unidos, incluindo os do movimento Black Lives Matter, organização esta que surgiu em 2013 e que ganha cada vez maior vulto pelo mundo.

A filmagem de Darnella mostra Chauvin sufocando Floyd com o joelho em cima dele por mais de nove minutos, a viralização do vídeo desencadeou protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo.

George Floyd morreu aos 48 anos, e agora, Derek Chauvin, de 45 anos, é condenado sob acusação de três crimes (tais crimes não têm paralelos exatos no ordenamento jurídico brasileiro, a Justiça americana possui outras classificações para qualificações de homicídios).

Tivemos o homicídio doloso de segundo grau, este que é mais grave, pois pode implicar numa pena de até 40 anos de prisão, demonstrando uma relação de causa e efeito entre conduta do acusado e morte, e também o homicídio doloso de terceiro grau, em que há demonstração de negligência com a vida humana, que pode dar pena máxima de 25 anos.

Por fim, o homicídio culposo de segundo grau, que é quando alguém submete outra pessoa a um "risco irracional", tanto colocando esta pessoa em risco de morte como sob ferimentos graves, e que é passível de uma pena de até 10 anos de prisão.

Charles McMillian, 61, ficou emocionado ao dar seu testemunho, pois foi um dos primeiros a chegar à cena da morte de George Floyd em maio de 2020, e tentou convencer Floyd a obedecer e entrar na viatura policial.

George Floyd tinha uma nota de vinte dólares falsificada e foi flagrado com esta numa loja de conveniência tentando comprar cigarros. McMillian disse que confrontou Chauvin depois que Floyd foi levado em uma ambulância porque tinha visto uma cena que ele considerou errada. Por sua vez, o argumento da defesa de Chauvin tentou levantar o fato de que na cena da abordagem policial havia muitas pessoas, o que influenciou as ações de Chauvin.

Por outro lado, Courteney Ross, namorada de Floyd por três anos, deu um forte depoimento sobre a dependência química do casal, pois os dois se conheceram num abrigo para pessoas sem teto, em que Floyd trabalhava como segurança, e ela destacou um fato importante, que Floyd ficara devastado pela morte da mãe em 2018. O casal, por sua vez, sofria de dores crônicas, o que acarretou uma luta constante contra a dependência de derivados do ópio.

A defesa de Chauvin aproveitou este fato da dependência de opioides para usar o argumento de que a morte de Floyd fora em decorrência da detecção de metanfetamina e opioides em seu corpo após o óbito, somando-se a seus problemas cardíacos.

O advogado de Chauvin disse que a dependência deveria colocar em questão o fator toxicológico de sua morte. Os promotores de acusação, por outro lado, destacaram a falta de oxigênio como fator da morte de Floyd, ou seja, asfixia.

Derek Chauvin também foi julgado por sua conduta ter violado normas policiais, uma vez que o chefe da polícia de Minneapolis, Medaria Arradondo, disse ao tribunal que Chauvin deveria ter parado de aplicar a sua força assim que Floyd já não oferecia resistência.

Ele demitiu Chauvin no dia seguinte à morte de Floyd. Outros três policiais que o acompanhavam na detenção de Floyd também foram demitidos. J. Alexander Kueng, Thomas Lane e Tou Thao também são acusados e devem ser julgados em agosto deste ano.

Derek Chauvin invocou a Quinta Emenda no tribunal e permaneceu em silêncio, usando este direito constitucional para evitar a autoincriminação. Chauvin se declarou inocente nas três acusações.

O caso George Floyd foi emblemático por ter incendiado os Estados Unidos em inúmeros protestos contra o racismo, outros locais do mundo também receberam protestos contra o racismo e a violência policial contra negros, os movimentos da comunidade negra foram bem atuantes nestes protestos, e o Black Lives Matter ganhou uma ascendência e um destaque enormes em todos estes acontecimentos decorrentes da morte de George Floyd.

O julgamento ocorreu sob forte tensão e protestos, e a decisão condenando Derek Chauvin foi motivo de comemorações. Do lado de fora do tribunal, centenas de pessoas celebraram o veredicto, incluindo a Praça George Floyd, que é o cruzamento onde o segurança foi morto e que recebeu o seu nome, em Minneapolis.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fez um pronunciamento na Casa Branca, no qual disse que a condenação é um passo adiante, ainda que não seja o suficiente, pois este veredicto ainda é raro num país dominado até hoje por um racismo sistêmico.

Podemos falar, contudo, num ponto de inflexão, tanto no plano dos debates como no plano das ações, movimentos como o Black Lives Matter estão na vitrine das lutas políticas e de conteúdo racial e sobre a comunidade negra.

Na política oficial, temos Kamala Harris, a vice-presidente, e Joe Biden, também, instando os senadores americanos para aprovarem uma lei contra a violência policial que leve o nome de Floyd.

Tal lei com o nome de Floyd poderia servir para combater, nos Estados Unidos, toda uma rede de proteções sindicais que blindam policiais de investigações, com leis que servem para lhes dar o benefício da dúvida, tendo, ao fim, poucas condenações de policiais por violência direcionada a pessoas negras, em geral, cometida por policiais brancos.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com