PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

TELEVISION E O ÁLBUM MARQUEE MOON


“Marquee Moon é o marco-zero do pós-punk.”

A banda Television é um fenômeno ímpar no movimento punk que se consolidou sobretudo em 1977, mesmo ano de lançamento do principal álbum da banda, o Marquee Moon. O disco é tão emblemático como objetivo, em oito canções que completavam cinquenta minutos o recado é dado com uma força e precisão inauditas.
O Television era uma banda diferente, e de um preciosismo que não se confundia exatamente com um virtuosismo no seu sentido gratuito, era uma banda que amadureceu com bastante trabalho e esmero, numa produção de algo ainda novo no cenário musical, ecoando jazz experimental, folk e rock clássico que já antecipava o que viria a ser o pós-punk.
Marquee Moon antecipa com maestria os caminhos do rock alternativo, sendo como o modelo do que veio a ser a típica banda de rock nova-iorquina, tal veia que tinha predecessores como Velvet Underground, Modern Lovers e New York Dolls, e aqui temos os contemporâneos do Television como Patti Smith e os Talking Heads, e aí vindo sucessores como Sonic Youth e The Strokes, e temos o seguimento desta linha virtuosista com bandas diversas como R.E.M., Joy Division, Pixies, Echo & The Bunnymen, Wilco e Radiohead.
A banda Television começou numa obsessão de seus músicos em tocar bem, no que isto fez com que o primeiro álbum, que viria a ser o Marquee Moon demorasse a se concretizar. Por exemplo, a banda fazia ensaios de até seis horas todos os dias, tirando domingos, e que levou Tom Verlaine ao CBGB`s, cuja sigla era de country, bluegrass e blues, e ali a banda Television tocaria pela primeira vez com o Patti Smith Group, local que passaria a receber bandas novas como os Ramones, os Stilletos que virariam o Blondie e os Talking Heads. Aqui temos configurado um cenário geral do punk nova-iorquino que começa em 1975 com o disco Horses de Patti Smith, e em 1976 com o debut autointitulado dos Ramones.
Como dito, a gestação de Marquee Moon foi aos poucos, Verlaine e Lloyd se alternavam entre guitarra base e solo, reinventando o instrumento na história do rock. E temos então a produção de uma música que não era apenas feitas de virtuosismo, mas de fontes do blues e do folk, mas num desenho que se pode chamar de urbano, citadino.
Verlaine demorou a liberar o material da banda, desde 1974 a banda foi contatada, teve até com a Island e a produção de algumas músicas com Brian Eno, mas o guitarrista não se satisfez com o som da produção, até a gravadora Arista tentou contratar a banda no ano seguinte, mas foi em 1976 que a banda assinou com a Elektra e finalmente Marquee Moon seria realizado, com Verlaine e Lloyd escolhendo Andy Johns para a engenharia de som, este que já havia trabalhado com bandas como o Humble Pie, Free, Jethro Tull e Led Zeppelin, pois o Television queria Andy sobretudo pelo fato do som que este havia tirado das guitarras no disco Goat´s Head Soup dos Rolling Stones.
O álbum foi gravado em setembro de 1976, e mesmo com tempo e liberdade, a banda já tinha tal domínio do material que tudo foi muito rápido, e o disco foi lançado em 7 de fevereiro de 1977. Marquee Moon é o produto nova-iorquino beat de um cenário urbano decadente entre solos de Verlaine e seus vocais falados e gritados, com pouco vocal cantado, e então temos o documento musical que é o testamento do nascimento do pós-punk e o fim da era clássica do rock, com som melódico, jazzístico, já avançando num terreno diferente do punk, este que ainda tinha um som agressivo e direto.
O Television influenciou o que viria a ser mais a frente o indie rock, banda que inaugurou o caminho do pós-punk com uma formação poderosa que tinha o letrista Tom Verlaine (vocal, guitarra e teclado), Richard Lloyd (guitarra e vocais), Fred Smith (baixo) e Billy Ficca (bateria). Marquee Moon é o marco-zero do pós-punk.
Marquee Moon junta influências do proto punk, indo até o art rock e antecipando passos que seriam dados por bandas importantes do rock alternativo como o Sonic Youth, por exemplo, e ainda ecoando ao mesmo tempo Lou Reed, Velvet Underground, David Bowie, e a guitarra de Robbie Krieger do The Doors na música-título do álbum.
O segundo álbum Adventure de 1978, por sua vez, não teve muito impacto, pois a banda já se encontrava entre brigas e visões musicais conflitantes entre os membros da banda, com a banda se separando logo após o lançamento deste álbum. No que temos a volta da banda em 1992, com a gravação de um terceiro álbum de nome Television e com a banda fazendo apresentações intermitentes em Nova York e esporadicamente pelo mundo.

Link recomendado : https://www.youtube.com/watch?v=s4s5bj5fZO8

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.









domingo, 21 de outubro de 2018

O CAMPO DOS MORTOS

Sereno o campo dos mortos
goteja de chuva,
do pó marmóreo
os cantos sublimes
do céu,
a imortalidade da alma,
a gênese dos sonhos
e delírios de morte.

Vejo e aceno a  mais um que
se foi, e este canto de fuga
enumera minhas mortes
queridas,
os planos fiéis
que me levam
ao luto,

oh, o fúnebre campo dos mortos,
este cheiro de cadáver,
este palco da memória,
e estes poemas que
falam da paz eterna.

22/10/2018 Gustavo Bastos

POEMA SUICIDA

Tenho, em casos de suicídio,
pontas de cigarro
queimadas na pele
insossa,
cartas mal escritas
por mãos trêmulas,
e uma dose de cianureto
na cabeceira.

Este poema solene
ainda está vivo,
mas passa mal,
muito mal,
com ânsia de vômito
e vontade de morrer,

este poema exangue
calcula seu passo
medindo o sangue
vertido,

e o cenário não é divertido,
é urgente.


22/10/2018 Gustavo Bastos

ORÁCULOS POÉTICOS

Contemplo o inamovível
de meus anseios,
caio e levanto
sem atavios,
contemplo a rubra flor
que explode,
vigor e galhardia,
poemas amados,
jogos de sedução,
eis o poeta como está,
zonzo de prazer,
quase um zigoto.

Contemplo as ações infindáveis,
do alto de minha torre,
como um nababo,
como um poeta do ópio,
como um contador de causos
que são elegantes
em vinho e láudano,

sou este que com encantamentos
faz da magia a profecia,
e do poema, oráculo.

22/10/2018 Gustavo Bastos

POEMA FINDO

Neste canto do indizível
eu digo que não sei,
digo que não sei dizer
o que nunca disse,
eis, indizível.

No inaudito tenho dito
coisa tolas,
esmero e sacrifício
são meus versos.

Toda estrela um dia cansa
e morre, todo sol se exaure
de si, todo planeta é
consumido em pó,
e o corpo, este coitado,
é um infinitesimal
mínimo do cosmos.

Eu, poeta reles,
sou menos ainda,
me findo em poema.

22/10/2018 Gustavo Bastos

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

OS CACHORROS LOUCOS (UM MINICONTO POLÍTICO)


“Agora a campanha de Cerberus está chegando ao cume”

Forma-se o pelotão, o líder da matilha é Cerberus, seguido de seu fiel escudeiro, Rex, e mais três capangas, filhos de Cerberus, que são : Kronus, Bellum e Warfare. Cerberus ganhou destaque nos últimos tempos, pois condenou desde o início de sua atuação, no canil, as ações libertárias de lobos alucinados.
Cerberus dizia que os tais lobos iriam deturpar a matilha de cães, e, portanto, Cerberus defendia que toda a matilha devia seguir regras mais rígidas contra ataques de alcateias de lobos, estes que bradavam aos quatro cantos a revolução dos bichos, lendo autores logicamente partidários dos lobos, como eram Carlo Mauro e Vlad Ursal.
Cerberus fez, então, propaganda fake news dizendo que os tais lobos queriam transformar todos os filhotinhos de cães em lobisomens, e logo condenou um suposto kit que ele dizia que era para transformar cãezinhos inocentes em membros de alcateias, e mais ainda, em futuros lobisomens. Leu isto nos canais abertos, uns mais afeitos à matilha, e outros tendendo a defender as alcateias.
Cerberus foi firme em suas colocações, e logo a matilha se ampliara em um grande partido de cães ferozes, querendo atacar lobos, lobisomens, e não usar coleira, além de não ficarem mais presos em quintais, podendo se defender dos lobos com os próprios meios, uma vez que a polícia canina já não dava mais conta de conter ataques de lobisomens na madrugada, por exemplo.
Quanto à política de tirar os cães dos quintais e não deixá-los mais de coleira, com um treinamento forte de ataque relâmpago, sobretudo contra alcateias de lobos revolucionários, Cerberus dizia que a prioridade era formar um exército armado de pit-bulls e bull terriers. No que cabia a seus filhos, Kronus encampou a campanha contra a coleira em cães de bem, podendo estes se defender sozinhos contra ataques das alcateias e de possíveis lobisomens que atacavam à meia-noite, enquanto Bellum e Warfare faziam o nome de Cerberus ser uníssono nas redes sociais caninas.
Rex, por sua vez, defendia um novo plano de vender algumas casas caninas para financiar o combate cada vez mais duro contra alcateias e os tais lobisomens. Às vezes, havia ruído de comunicação entre Rex e Cerberus, quando Rex dizia algo, muitas vezes Cerberus dizia outra coisa, mas nada que se comparasse ao pandemônio que provocava outro membro de sua matilha, e sucessor eventual de Cerberus em possível governo, o dito general Pantufas, que dizia coisas sem sentido, às vezes soltava pum sem avisar, no que Cerberus acalmava a sua matilha, dizendo que aquilo eram arroubos de uma outra época, em que as matilhas andavam com porretes para matar lobos e muitas vezes sumirem com estes.
Agora a campanha de Cerberus está chegando ao cume, o que ele diz agora é que o partido das alcateias, pego em flagrante numa organização de açougues de renome internacional, e que prometia um grande banquete, terão que montar uma oposição a seus cães fiéis e ferozes, todos repetindo que Cerberus é um mito e que será o futuro líder tanto da matilha como das alcateias que não gostam dele e nem de seus seguidores, os chamados cerberistas, que atuam com assiduidade tanto nas redes sociais caninas, como também atacando bolhas de alcateias indignadas com a campanha difamatória alimentada pelo tal “kit-lobisomem”.
Os cerberistas, neste momento, estão em êxtase, e a dinastia já elegeu Kronus como capitão de matilha, enquanto Bellum e Warfare ganharão destaque como agentes especiais da matilha, tanto na propaganda cerberista, como contra os membros de alcateias na casa dos bichos, esta que faz e vota leis, com o grande líder, Cerberus, na casa do alto para governar os bichos, estes agora polarizados entre matilhas e alcateias, com alguns outros bichos como cardumes, enxames e cáfilas, pouco numerosos, sendo uma exangue esperança de uma futura terceira via contra esta radicalização em que os cães latem e os lobos uivam.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://seculodiario.com.br/public/jornal/artigo/os-cachorros-loucos-um-miniconto-politico



domingo, 14 de outubro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA : UM POETA DE SEU TEMPO


“poeta histórico e com lugar cativo na antologia poética brasileira”

O Barroco, já com Gregório de Matos Guerra, também se faz com as banalidades cotidianas, uma vez que temos aqui também a concepção de que a vida é vã, e tal versificação de temas banais pode ainda ser mais um meio de evasão do poeta Gregório das questões graves que também lhe provocam a pena como o pecado, o mundo efêmero, quando este se volta para a sua poesia religiosa, num voltar-se ao banal que também lhe faz descansar um pouco da realidade política e social que é tema de suas sátiras.
No estilo, Gregório é um poeta que mimetiza algumas fontes, tal é a influência de Gôngora, Quevedo, Camões e Antônio Fonseca Soares. Em uma lira bilíngue, como era do feitio da moda cortesã, Gregório também cometia versos em espanhol, afetando versões copiadas de Quevedo, como também paráfrases de textos camonianos, e seguindo ainda a tradição portuguesa de escárnio e maldizer, desancando tudo em volta com ironia e senso crítico.
Gregório era um poeta que produzia uma verdadeira crônica de costumes de seu tempo, portanto, era um poeta temático circunscrito ao seu tempo histórico, logo sua poesia é mais compreensível nesta contextualização adequada, pois tais temas já não são mais familiares para gerações posteriores, com nomes e referências que se perderam no tempo, sendo uma poesia que deve ser analisada num método de revisão histórica para poder tanto ser entendida como apreciada. Seus poemas são, sobretudo, uma crônica regional e seiscentista das mazelas e vícios coloniais.
Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno, chegou à posteridade como um poeta de seu tempo, um cronista intenso e preciso de seu tempo, daí a sua dimensão de poeta histórico e com lugar cativo na antologia poética brasileira.

POEMAS :

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO. E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA. : O poema segue um rumo de queda, mas flerta com uma certa loucura, que lhe será mais cara e salvadora, por sua vez, do que uma sisudez que faria o poema frio, no que temos : “Carregado de mim ando no mundo,/E o grande peso embarga-me as passadas,/Que como ando por vias desusadas,/Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.” (...) “Não é fácil viver entre os insanos,/Erra, quem presumir, que sabe tudo,” (...) “O prudente varão há de ser mudo,/Que é melhor neste mundo o mar de enganos/Ser louco cos demais, que ser sisudo.”. Aqui julgar já saber de tudo seria a destruição da perplexidade poética, esta que se alimenta de espanto, e nada mais certo que a insanidade poética para armar a loucura de arte.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA./MOTE : O poema condena a morte tirana, e responde que esta é a ausência, o poeta logo vivifica seu estro, e nos diz, diante do problema que é suscitado no poema, que tal determinação é abrasar-se no que se ama, já citando academia ilustre presidida por um mítico Apolo, no que vem : “Perguntou-se a um discreto,/qual era a morte tirana:/respondeu, que estar ausente/daquilo, que mais se ama./Numa ilustre academia,/que com ciências infusas/fizeram as nove Musas,/onde Apolo presidia :/leu o Secretário Admeto,/um problema mui seleto” (...) “Qual era a morte tirana.” (...) “Respondeu, que estar ausente./Deixou a resposta absorto/a aquele douto congresso,/porque é já provérbio expresso,/que ausente é o mesmo que morto :/eu me persuado, e exorto,/que quem se abrasa, e inflama/de amor na contínua chama,/inda que sinta abrasar-se,/e menos mal, que ausentar-se/Daquilo que mais se ama.”. A ausência aqui é estar morto, e isto o poema recusa, e afirma o amor como um consumir-se mais certo do que a negligência fria que aqui se condena.

AO CONDE DE ERICEYRA D.LUIZ DE MENEZES PEDINDO LOUVORES AO POETA NÃO LHE ACHANDO ELLE PRESTIMO ALGUM. : Aqui temos um poema emblemático da pena gregoriana, no que se dá como um poema leve e satírico, e também criativo, uma brincadeira precisa e inteligente, no que vem : “Um soneto começo em vosso gabo;/Contemos esta regra por primeira,/Já lá vão duas, e esta é a terceira,/Já este quartetinho está no cabo./Na quinta torce agora a porca o rabo :/A sexta vá também desta maneira,/Na sétima entro já com grã canseira,/E saio dos quartetos muito brabo.” (...) “Nesta vida um soneto já ditei,/Se desta agora escapo, nunca mais;/Louvado seja Deus, que o acabei.”. A coda consuma genialmente um poema que também se abre luminoso, a troça é bem lúdica, e nos dá uma alegria comum à poesia bem posta.

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S.GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA. : O poema nos dá uma visão passageira do poeta de uma mulher formosa em meio a uma missa, a qual ele diz não mais retornar, no que vem : “Fui à missa a São Gonçalo,/e nunca fora à tal missa,/que uma custa dous tostões,/e esta há de custar-me a vida.” (...) “quando pela igreja entrou/o sol numa serpentina./Uma mulher, uma flor,” (...) “vi uma moça divina” (...) “Desde então fui seu cativo,” (...) “Acabou-se a missa logo,/e foi a primeira missa,/que por breve me enfadou,/pois toda a vida a ouvira./Foi-se para sua casa,/e eu a segui a uma vista,/passou o rio, e cobrou-se,/cheguei ao rio, e perdi-a.” (...) “Não tornei a São Gonçalo,/nem tornarei em meus dias,/que entre beleza, e adorno/todo o home ali periga.”. O perigo que oferece a beleza pode ser um martírio quando não há garantias, e o poeta bem o sabe, e então não voltará mais ao lugar de sua contemplação inútil.

SERVIU LUÍS A ISABEL/MOTE : Aqui o poema joga com os tempos verbais do amor que é e do que seria, e faz um grande apanhado do que vale ou não vale no amor, no que temos : “Amar Luís a Maria,/amaria não é amar/logo como pode estar/num tempo amar, e amaria./Serviu Luís a Isabel/por prêmio de um favor só/mais tempo do que Jacó/serviu à bela Raquel :/e porque Isabel infiel/o enganou de dia em dia,/em pena de aleivosia/em Maria o empreguei,/e então lhe certifiquei/Amar Luís a Maria.” (...) “vi eu a Moça de jeito,/que me pus pela quietar/nesta forma a conjugar/“Amar Luís, e amaria/não está em filosofia”,/Logo como pode estar?” (...) “firme enfim ao fundamento/da minha sofisteria/diz, que a boa astronomia/tem uns pontos tão sutis,/que pode estar em Luís/Num tempo amar, e amaria.”. Aqui o amor para ser justificado, não se faz de filosofia, mas de uma sofisteria fundada em astronomia, no que o tempo verbal se torna indistinto.

A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA FORA. : O poema nos cita maldades semelhantes em comportamentos estafermos qual um Labão quando Jacó pleiteia Raquel, aqui uma tia chata, no que temos : “Os versos, que me pedis,/podendo-os mandar formar,/que vós por me não mandar,/não mandareis dois ceitis :/como sem assunto os fiz,/pois vós a vosso contento,/não destes o pensamento,/os rasgues, por ser melhor/assunto do meu amor,/que o vosso contentamento./Por sete anos de Pastor/serviu Jacó a Raquel,/eu servi a uma cruel,/mais de sete anos de amor :” (...) “se me não engana um Pai,/veio a enganar-me uma Tia./Esta tão assegurada/me propôs a refestela,/que cuidei, que tinha nela/a tutia preparada :/enganou-me de malvada” (...) “esta ingratidão cruel/foi o meu triste alimento/oito anos,” (...) “Se hei de dizer-vos verdade,/e me haveis de crer a mim,/até o meu bergantim/ficou morto de saudade :”. O poeta então sucumbe, pesaroso e arrasado, no que temos : “levei do perigo a palma,/e ao porto o bergantim,/e saindo dele enfim/soube já na terra lhana,/que éreis vós a Mariana/disfarçada em serafim./Então fiquei mais absorto,/mais sentido, e pesaroso/mais amante, e mais saudoso,/enfim então fiquei morto :/nestes versos me conforto,/pois neles se queixa Amor :/e inda que o vosso favor/é coisa, que nunca espero,/digo ao menos, que vos quero,/e alivio a minha dor.”. O poema é aqui um tipo de consolo triste, sem sinal de vida, morto e saudoso, o poema é um canto exangue e em vão.

POEMAS :

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO. E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA.

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA.

MOTE

Perguntou-se a um discreto,
qual era a morte tirana:
respondeu, que estar ausente
daquilo, que mais se ama.

Numa ilustre academia,
que com ciências infusas
fizeram as nove Musas,
onde Apolo presidia :
leu o Secretário Admeto,
um problema mui seleto
propôs, para argumentar-se,
e havendo de perguntar-se,
Perguntou-se a um discreto.

Ele, que estava distante,
e não ouvia a proposta,
não deu por então resposta
de Surdo, e não de ignorante :
mas vendo no seu semblante
a academia Sob`rana,
que tinha a desculpa lhana,
lhe advertiram com agrado,
que lhe haviam perguntado :
Qual era a morte tirana.

Ele entonces como um raio
prontamente, e sem detença
tomando vênia, e licença
fez consigo um breve ensaio :
o mais horrível desmaio
que um peito amoroso sente,
é a falta do bem presente :
ficou-lhe a resposta lhana;
e a qual é a morte tirana,
Respondeu, que estar ausente.

Deixou a resposta absorto
a aquele douto congresso,
porque é já provérbio expresso,
que ausente é o mesmo que morto :
eu me persuado, e exorto,
que quem se abrasa, e inflama
de amor na contínua chama,
inda que sinta abrasar-se,
e menos mal, que ausentar-se
Daquilo que mais se ama.

AO CONDE DE ERICEYRA D.LUIZ DE MENEZES PEDINDO LOUVORES AO POETA NÃO LHE ACHANDO ELLE PRESTIMO ALGUM.

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo :
A sexta vá também desta maneira,
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S.GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA.

Fui à missa a São Gonçalo,
e nunca fora à tal missa,
que uma custa dous tostões,
e esta há de custar-me a vida.
Estava eu fora esperando,
que o Clérigo se revista,
quando pela igreja entrou
o sol numa serpentina.
Uma mulher, uma flor,
um Anjo, uma Paraninfa,
sol disfarçado em mulher,
e flor em Anjo mentida.
Fui ver a metamorfósis,
vi uma moça divina
ocasionada da cara,
quando arriscada de vista.
Onde tal risco se corre,
ou onde tanto se arrisca,
que menos se há de perder,
que a liberdade, e a vida.
Desde então fui seu cativo,
seu morto daquele dia,
e dentre ambos quis Amor,
que só o cativo lhe sirva.
Serve o cativo talvez,
mortos não têm serventia,
e se tiver de matar-me
vanglória, o terei por dita.
Por entre a nuvem do manto,
que a luz própria então vencia,
às claras estive vendo
aquela estrela divina :
Aquele sol soberano,
que pela elítica via
de seu rosto anda fazendo
um solstício a cada vista.
Acabou-se a missa logo,
e foi a primeira missa,
que por breve me enfadou,
pois toda a vida a ouvira.
Foi-se para sua casa,
e eu a segui a uma vista,
passou o rio, e cobrou-se,
cheguei ao rio, e perdi-a.
Vi-a no monte, e lhe fiz
co chapéu as despedidas,
e lhe inculquei meu amor
por meio da cortesia.
Não tornei a São Gonçalo,
nem tornarei em meus dias,
que entre beleza, e adorno
todo o home ali periga.

SERVIU LUÍS A ISABEL

MOTE

Amar Luís a Maria,
amaria não é amar
logo como pode estar
num tempo amar, e amaria.

Serviu Luís a Isabel
por prêmio de um favor só
mais tempo do que Jacó
serviu à bela Raquel :
e porque Isabel infiel
o enganou de dia em dia,
em pena de aleivosia
em Maria o empreguei,
e então lhe certifiquei
Amar Luís a Maria.

Deixei-a tão persuadida,
quanto ela é presuntuosa,
que o presumir de formosa
persuade o ser querida :
porém como é entendida,
e em toda a arte de amar
sabe mui bem conjugar,
disse, tomando-me a mão,
que em boa conjugação
Amaria não é amar.

Que amaria é imperfeito,
e perfeito o ter amado,
e a um presente cuidado
não serve o plus-quão-perfeito :
vi eu a Moça de jeito,
que me pus pela quietar
nesta forma a conjugar
“Amar Luís, e amaria
não está em filosofia”,
Logo como pode estar?

Este aparente argumento,
e sutil proposição
não só tirou a questão,
mas deu-lhe contentamento :
firme enfim ao fundamento
da minha sofisteria
diz, que a boa astronomia
tem uns pontos tão sutis,
que pode estar em Luís
Num tempo amar, e amaria.

A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA FORA.

Os versos, que me pedis,
podendo-os mandar formar,
que vós por me não mandar,
não mandareis dois ceitis :
como sem assunto os fiz,
pois vós a vosso contento,
não destes o pensamento,
os rasgues, por ser melhor
assunto do meu amor,
que o vosso contentamento.

Por sete anos de Pastor
serviu Jacó a Raquel,
eu servi a uma cruel,
mais de sete anos de amor :
a Jacó lhe foi traidor
Labão : cuja aleivosia
por Raquel lhe entregou Lia,
e a mim não pior me vai,
se me não engana um Pai,
veio a enganar-me uma Tia.

Esta tão assegurada
me propôs a refestela,
que cuidei, que tinha nela
a tutia preparada :
enganou-me de malvada
tanto pior, que Labão,
que Lia a Jacó lhe dão,
bem que com sorte trocada,
e a mim nem Lia nem nada
me deram, dão, nem darão.

Oito anos há, que fiel,
estou servindo a um amor,
que Labão não foi pior,
porque vos sois a Raquel :
esta ingratidão cruel
foi o meu triste alimento
oito anos, e fora um cento,
porque quem chega a querer
para ajudar-se a viver
faz do Malquerer sustento.

Ontem vos topei no mar
em uma barca tão breve,
quem nem por ligeira, e leve
os pôde a vista alcançar :
pus-me logo a duvidar,
vendo-vos ir sobre a popa,
se seríeis vós Europa
sobre a vaca fabulosa,
mas vós íreis mais formosa,
do que Europa, e toda Europa.

Se hei de dizer-vos verdade,
e me haveis de crer a mim,
até o meu bergantim
ficou morto de saudade :
ficou de tal qualidade
a barquinha entorpecida,
que nem do vento impelida,
nem do remo forcejada
se moveu, antes pasmada,
que a vi por vós perdida.

Com trabalho em tanta calma,
(que o trabalho havia eu tido,
por não haver conhecido;
o que tinha dentro n`alma)
levei do perigo a palma,
e ao porto o bergantim,
e saindo dele enfim
soube já na terra lhana,
que éreis vós a Mariana
disfarçada em serafim.

Então fiquei mais absorto,
mais sentido, e pesaroso
mais amante, e mais saudoso,
enfim então fiquei morto :
nestes versos me conforto,
pois neles se queixa Amor :
e inda que o vosso favor
é coisa, que nunca espero,
digo ao menos, que vos quero,
e alivio a minha dor.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-um-poeta-de-seu-tempo