PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 5 de março de 2014

BICHOS ENCARNADOS

Endereço:
a sede ignota,
a fome desmedida.

Poema:
o sorriso da caveira
em sete ossos,
fêmur de filosofia.

Destino:
sol, lua, a carne teatral.

Come o bicho, febre de lixo,
quantos amores
se fundam
como num rito febril?
Os bichos que comem o coração,
o peito é um terror
de sonho
como o céu é
na noite eterna.

05/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

CARTA DE DIONISO

A vida retinta das trevas,
os sonhos querem a alma,
entra em sintonia o caos,
leva o rico terror do vento.

Eu guardo dentro do pote de porcelana
a senda chinesa que nem Tao
se enumera em sua fenda.

Despacho o delírio com o tempo rijo,
que as alturas sabem é o limpo drama,
sob o refugo de um teatro morto
renasce a paz da tragédia
na comédia que ri em tempo e liberdade,
feri Moliére com um frio de Racine,
 a tropa foi se divertir,
temperatura do dia é o carnal Dioniso,
seus faunos riram
quando a tocha de sol
enfureceu o palco.

05/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

BLUES DE PRATA

Recria teu silêncio,
ósculo de sol,
flor da idade.

Eis lenho da queda,
eu que vi o anjo,
fui ao porto,
e na sede antevi ...
recantos da sala,
uma esquadra,
um compasso,
olhos d`água,
máquina sonhadora,
carnaval vívido,
eu li a mão da astúcia
e nela escrevi
uma carta de tarô,
voz d`antanho
o louco
se matou
e viveu,
o dia se salvou
e se findou,
eu reli a carta
e nela estava
escrita o destino
sob a lua argêntea
que cantava um blues.

05/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

DORSO DE PEDRA

Leve, eu tenho o riso
pelo canto dos sonhadores,
verte o templo que nem cais.

Poesia, quão benquista porta!
Eis o tempo em lenho de fogo,
voragem do ardor com o sol pendendo
da boca dos gênios.

Poema, contorce o que é saudade!
Da boca do tempo o frio lento.
Das horas o silente vinho,
frio das horas em marca de terror.

Marca do tempo, vozes do relento.
Do elenco das alturas,
um sorriso de anjo
sob a tempestade
que mata,
marca do sol em teu dorso
como paixão e honra,
vento do dia nos langores
que o céu flutua
em seus saltos
de dimensões,
eu sou o tempo de mim
com a carne de fogo
e a poesia de sarça,
o gole do vinho
que recria o brasão,
a luta renhida da queda.

05/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

VERSOS DE LENHO

Gera o meu quinhão,
fundador funda dor,
cretinos sonhos de fuga,
velame que resta no linho,
eu fui ao sol qual sedução,
desci de minhas lidas
e o dia era azul
como na filosofia.

Déspotas, senhores reis de si,
dá a poesia o salto em crosta,
fundo o manto ao sábio líquido
que na senhora lua
a sombra d`alma
reflui e flui,
eu sou descompasso,
de todo labirinto
eu sou o centro negro
das lápides do poema,
escrito no ventre da mata
a rica fauna dos lenhos
queimados de calor,
e os déspotas morrem,
e a saudade
é liquidada
no tempo da vertigem.

05/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

FANTASIA DOS LOUCOS

Volúpia dos sinos,
eu entrevi sob a máscara
das certezas,
o orbe estava inchado,
seletas navegam
entre o ócio e o tempo.

Quantos silentes rios operam
na vida fenecida ao caos?
Eis que pátria e razão
se suicidam
em sinfonia,
com os lemes furiosos
que descansam em paz de albor.

Fria a luz, qual seca nuvem,
ao vinho os dias são criados
em penhor dos livros ricos
da paixão amortecida,
teu palco de soluço
sorri o vento,
às vezes sonho louco,
outras pura fantasia.

05/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

RITO DE FADA

Tinha os olhos da fada,
métrica insossa de magia.

Quando a nave encrenca com o espaço,
meu livro estonteia anarcos,
fui ao mestre e delinqui.

Tanto nos olhos da fada,
Morgana?
Sei, duas misteriosas vaginas
secaram de ódio.
Por tu, Lady McBeth, furioso o tempo
aos ais sedentos,
magia negra?

Sempre te vi, bem-te-vi.
Há tempos não gira a minha roda,
o mundo está estacado
nos meus planos,
figura seca é o poema
como dantes,
selva incontida
sobre a palavra
que mordisca
os navegantes,
sempre palavra lavada
da alma,
rito de fada.

15/02/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)