PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 9 de outubro de 2021

MAMBEMBE

Mambembe, o canto xucro

do bufo e o pasmado

esgar de um pantaleão,

reza braba depois

da feira, e uma sopa

fria para o mendigo

que se faz de pândego,


o ébrio passa ao largo

de uma peça montada

no raio do sol

de um outono rubro,


o poeta faz da musa

um caminho para

o seu vinho,

ele vê a comédia bufa

em volta, e toda

a trupe patética

que cai no abismo.


09/10/2021 Gustavo Bastos 

O CORAÇÃO POÉTICO

Este exercício fatídico

de fazer verso me impressiona,

eu estalei a minha carne

o abri os meus poros

infinitas vezes,


o mágico passa e tira um coelho,

seu lenço se estica e o seu

número é ágil, tudo

muito rápido, voilá,

aparece a margarida.


Este verso tem nome,

e vivifica toda uma história,

todo um dom vertido

e trabalhado,


lá longe, na rua deserta,

na noite acelerada

de minhas estrelas,

a penumbra desaparece

e se faz toda a luz,

uma festa colorida

do sonho aberto 

de um poema erguido,

este é o castelo

e o reino, todo um

sangue e fardo

e felicidade derramados

neste soco do coração.


09/10/2021 Gustavo Bastos 

BRAVA GENTE

A bravura estala sobre

o medo como um caçador

que cerca a sua presa,


o ataque frontal da verdade

tem este dom de fera,

estraçalha a sua presa,

esta que vive da hipocrisia

e do ardil, estes seres

bisonhos de uma peça

histriônica, quais

caracteres do ridículo,


sim, a vastidão do horizonte

se abre como uma explosão,

e os cacos que se espalham

são do teatro desmoronado,

os marionetes lamentando

a própria sorte, e a força

aérea e bruta da verdade

e da bravura cantando

a sua própria coragem,

o seu dom de vitória

e de sucesso.


09/10/2021 Gustavo Bastos 

PASSEIO NA IGREJA

Muita sede surge 

na febre deste vitral

com o santuário gélido

de meu ícone pétreo,


a pintura está velha,

tem uma infiltração

que cobre o rosto da santa,

o milagre está fosco,

um cinza de mofo

avança sobre o éden,


corre a lágrima furtiva

na oração surrada

de minha salvação,

eu olhei o sol

na cúpula, e o minarete

desaba com uma viga

sobre a cabeça

de um capuchinho

que ali passava,

seu crânio abre e racha,

eu olhei de soslaio

para um escapulário

e delirei que a Bíblia 

sobre o púlpito

queimava, a pintura,

neste ínterim, caiu da

parede e o ícone tremeu,


o vasto vitral começou

a brilhar, era o alvorecer

e o padre acordou,

a minha oração 

agora virava uma

ladainha, a procissão

de beatas entra

e começa a entoar

cânticos populares,

o meu rosto fica

encharcado de

água benta,

e a hóstia

é servida

qual

a última

ceia. 


09/10/2021 Gustavo Bastos  

ECOS DA FLORESTA

Com os ecos e o grande sol

nas vinhas, o mel desce

à garganta e o canto faz

melodia pelo brio que

irrompe no bosque,


os ecos que refulgem

no cântaro e na cabaça,

a água brilhosa e a espuma

de cerveja na boca sequiosa,


vai ao vento o cedro de

um rei ou poeta ou louco,


o poeta faz o vento soprar

e o louco tenta ver

um feitiço neste vento,

o rei tenta ordenar

ao vento que vire

um vendaval,


no bosque, o sopro da melodia

faz casa no centro do

coração dos bichos

e imitando o sentimento

das plantas.


09/10/2021 Gustavo Bastos 

OS HINOS DO ARRABALDE

Na sombra e no arrabalde

os corpos suam um labor

de roda e cordas,

os corpos exangues

da enxurrada

e do caos,


o poema é esta traquitana

que estala qual os dentes

na presa atacada,


o poema é uma vestal que

dança a sensação de seu voo,

é uma feiticeira que

faz magia dentro

da noite venenosa,


sim, o poema é este

mantra que o demente

transforma em cantiga

e o bandido toma

na arma o seu destino

de bandoleiro.

09/10/2021 Gustavo Bastos 

CANTIGA SINISTRA

Na língua da vala que se abre,

o verme cresce em seu anelado

que vomita o corrupto lasso

que governa a noite pútrida,


verde o musgo que escorre

na boca da morte virulenta,

e o certo poeta que ergue

a ponte que desaba

e faz um estrondo,


no lagar ainda se canta

a Baco uma modinha suja,

os humilhados em seus bolsos

não têm nada além de lamento,


nas espadas e facas seminais

o peito estoura seu grito,

um corte profundo na carne,

com a linha precisa

de um desespero oco.


09/10/2021 Gustavo Bastos