Da fruteira brilha a maçã
em sua juventude,
um passeio de laranjas
e tangerinas,
o vigor da melancia,
um lambuzar de manga
e toda a esperteza
da goiaba,
lembro das mangueiras
e das goiabeiras,
sabor de infância
que tem este viço
de felicidade simples,
meu amor pela tarde calma,
meu sentido maior
com as memórias
de família,
meu privilégio é saber
que a vida continua,
e não estamos sós.
07/02/2019 Gustavo Bastos
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
O POEMA DA SABEDORIA
Funda-se o poema como um monólito,
estrutura críptica,
esfinge esbelta,
flor de lis.
Poema água, mineral pétreo
da fonte lodosa,
canto supremo
e máquina
de sonhar,
poema.
Poema que sorri como um devaneio,
que diz sol terroso e vira
a noite sob a flauta doce,
que diz a essência
que habita a beleza,
que revela
o abscôndito
coração,
poema feliz dos mistérios
e das coisas prosaicas,
que bebe licor
e tem no tempo
sua razão
de sabedoria.
07/02/2019 Gustavo Bastos
estrutura críptica,
esfinge esbelta,
flor de lis.
Poema água, mineral pétreo
da fonte lodosa,
canto supremo
e máquina
de sonhar,
poema.
Poema que sorri como um devaneio,
que diz sol terroso e vira
a noite sob a flauta doce,
que diz a essência
que habita a beleza,
que revela
o abscôndito
coração,
poema feliz dos mistérios
e das coisas prosaicas,
que bebe licor
e tem no tempo
sua razão
de sabedoria.
07/02/2019 Gustavo Bastos
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PARAÍSO ARTIFICIAL
Que prata nos olhos
e que alegria no coração!
Vai-te ronda suprema
com o galardão
dos eleitos,
sobre a terra indomável
um sopro de luz
que invade meu recinto,
meus heróis,
meus ídolos,
todos vivem
em coração
forte!
Que ouro atávico em minhas
pupilas dilatadas!
Venho de viagem psicodélica
lhes dizer que o
paraíso existe,
e vive n`alma
das coisas
como um clarão
que nos rodeia.
07/02/2019 Gustavo Bastos
e que alegria no coração!
Vai-te ronda suprema
com o galardão
dos eleitos,
sobre a terra indomável
um sopro de luz
que invade meu recinto,
meus heróis,
meus ídolos,
todos vivem
em coração
forte!
Que ouro atávico em minhas
pupilas dilatadas!
Venho de viagem psicodélica
lhes dizer que o
paraíso existe,
e vive n`alma
das coisas
como um clarão
que nos rodeia.
07/02/2019 Gustavo Bastos
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O MILAGRE DO VENTO
Ao monte que lhe chora
tens um topázio
em teu peito,
órfão do tempo
e do socorro,
eu, menino azul, que da
queda me tenho incólume,
passo à praça, valente
hei de estar, qual uma
flecha varando o ar,
lhe choro meu sangue,
lhe tenho família,
o que mais devo
ver? porfia dos dias
dos astutos,
um caos iminente,
a trovejar.
Ao monte em que choro
uma rosa brota
de minha mão
direita, um mel
se derrama de minha
mão esquerda,
era o milagre
que o vento
me revelava.
07/02/2019 Gustavo Bastos
tens um topázio
em teu peito,
órfão do tempo
e do socorro,
eu, menino azul, que da
queda me tenho incólume,
passo à praça, valente
hei de estar, qual uma
flecha varando o ar,
lhe choro meu sangue,
lhe tenho família,
o que mais devo
ver? porfia dos dias
dos astutos,
um caos iminente,
a trovejar.
Ao monte em que choro
uma rosa brota
de minha mão
direita, um mel
se derrama de minha
mão esquerda,
era o milagre
que o vento
me revelava.
07/02/2019 Gustavo Bastos
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
GURUS E CURANDEIROS – PARTE I
“temos a indefinível origem até mítica do Hinduísmo, sendo
nesta fonte que surgirá a figura do guru”
A História Antiga ou Antiguidade é o lugar no qual temos a
revelação de figuras de vulto espiritual e religioso, de caráter messiânico ou
de portador de uma revelação. No primeiro caso, do messianismo, um fenômeno
espiritual e social que eu julgo próprio deste contexto do mundo antigo, era
algo relativamente generalizado, podendo ser apontado como originário do
profetismo hebreu do Velho Testamento, este que, por sua vez, um pouco antes,
no Pentateuco, sobretudo no Gênesis e no Êxodo, nos dá uma revelação divina
direta, os dez testamentos, por exemplo, sem ainda a figura de um Messias ou “O
Messias”.
Isto vai se dar mais para a frente, com a figura histórica ou
não de Jesus de Nazaré, que na encarnação do Cristo se tornou, além de Messias,
a figura mais importante da História, mesmo não sendo comprovada materialmente
(ou ainda, arqueologicamente) a sua existência real. No campo da revelação,
temos a figura de Maomé, este que recebe instruções do Anjo Gabriel para a
confecção do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, fechando a trilogia das
“religiões do Livro”, ou seja, a Torá e o Velho Testamento judaico, o Evangelho
e o Novo Testamento cristão, e por fim o aqui lembrado Alcorão com suas suratas
fundamentando a religião do Islã.
Por sua vez, indo ao Oriente, temos a indefinível origem até
mítica do Hinduísmo, sendo nesta fonte que surgirá a figura do guru, palavra
sânscrita dos Upanishads, hoje de uso corrente, para definir um guia espiritual
ou iluminado, ou ainda, alguém que tem um conhecimento e sabedoria superiores,
e que, com isto, ganha adeptos, os chamados discípulos. No caso do Oriente,
portanto, temos a fonte imemorial do Hinduísmo, e um mestre espiritual, Buda,
antes Sidharta Gautama, que terá a iluminação para o caminho óctuplo e as cinco
nobres verdades que ecoarão em correntes do Budismo como o Theravada, o
Mahayana e o Vajrayana.
A figura do guru, por sua vez, pode ser definida, em seu
sentido espiritual principal, como um guia para a autorrealização, um dos
diversos sentidos da iluminação, grande liberação, nirvana ou samadhi.
Geralmente, tais gurus possuem um pensamento ou reflexão muito mais
existenciais, ou seja, falam da vida e nada mais, do mundo da vida, claro que
aqui numa elevação de princípios direcionada a uma vida superior e não banal, e
que então, portanto, não serão entes intelectuais, haverá até, por parte deste
grande movimento de gurus, um certo desligamento das questões do intelecto, tal
saber espiritual não será, por conseguinte, exatamente metafísico, no sentido
que podemos depreender da filosofia ocidental quando esta trata de abstrações
as mais elevadas ou quando de seu período hipostasiado de inspiração
escolástica.
Não, tal saber que os gurus nos trazem tem uma origem na
vida, eventualmente ensinando técnicas mentais e corporais, como no saber yogue
e da meditação, mas com um sabor cotidiano. É só vermos como atuam os mestres
do zen budismo, por exemplo, como D.T.Suzuki, que nunca foram portadores de
pretensos ou “grandes mistérios”, como temos, por exemplo, em outra áreas do saber
espiritual como, por exemplo, no ocultismo, em seitas ou denominações de
fraternidades espirituais em diversos graus como o rosacruz ou a maçonaria. Temos
aqui, com os gurus de saber oriental, uma certa espiritualidade mais voltada a
uma percepção natural do que a uma abstração teosófica ou cabalística, ou ainda
de cunho astrológico, mesmo que haja certos simbolismos exagerados no budismo
tibetano e suas deidades, por exemplo, sob a influência evidente do animismo
Bön, o qual precedeu o florescimento do Budismo no Tibete.
Quando vemos a atuação do saber ensinado pelos gurus, temos
esta espiritualidade mais imediata, mais real, menos metafísica, sem ânsias
metafísicas como temos no Espiritismo ou no Espiritualismo geralmente de cunho
reencarnacionista, mesmo que os ecos hindus nos tragam todos estes mistérios
como as fontes de tais sabedorias. Temos, contudo, uma estruturação reflexiva
construída pelos gurus modernos que tratam de questões mais simples, em geral,
como felicidade ou bem-estar, por exemplo, e não do que nos reserva a vida após
a morte ou de como podemos revelar os mistérios da alma ou algum segredo
transcendental oculto. Não, pois o que temos são exercícios de meditação, de
aprofundamento do autoconhecimento direcionado à autorrealização, o que confere
ao conhecimento espiritual oriental na sua versão moderna uma faceta new age
sedutora, e é disto que falaremos, a seguir.
Krishnamurti, por exemplo, foi um tipo de guia que, por sua
vez, recusava a ser um guru, não queria discípulos, foi descoberto pela
Sociedade Teosófica, cuja sabedoria espiritual é uma miscelânea de
orientalismos e ocultismos, com a Madame Blavatsky sendo uma de suas figuras
mais controversas. Portanto, Krishnamurti é um ponto fora da curva, não era e
nunca quis ser um guru, e foi prolífico em sua produção escrita, com
ensinamentos simples, intuitivos, nada intelectuais ou de sistema espiritual
como tínhamos em Blavatsky, por exemplo, na qual tínhamos revelações de supostos
mahatmas espirituais ou evanescentes que poderiam beirar ao charlatanismo ou em
certa credulidade mistificadora. Krishnamurti, no seu caso, foi um destes que
não se corrompeu. Este que foi, literalmente, o grande achado da Sociedade
Teosófica, pelas mãos de Charles W. Leadbeater.
Temos outra figura importante neste cenário espiritual
moderno, que é Paramahansa Yogananda, este que é um dos guias ou gurus que vêm
do Oriente, no seu caso da Índia, e traz este conhecimento espiritual milenar
ao Ocidente. Sua autobiografia, a “Autobiografia de um iogue”, vira um
best-seller. O guru fundou a organização Self-Realization Fellowship (SRF), nos
Estados Unidos, e começa a divulgar e difundir os conhecimentos e as técnicas
da Kriya Yoga.
Yogananda era herdeiro espiritual de Sri Yukteswar, que fora
seu mestre, e que o preparou, a pedido de Babaji, para ser o grande responsável
pela expansão da Kriya Yoga no Ocidente. A Self-Realization Fellowship,
portanto, era parte de uma missão mundial, organização que foi fundada, por sua
vez, em 1920, inaugurando um dos primeiros capítulos de sucesso da
espiritualidade oriental em sua face moderna, agora no mundo ocidental.
O fascínio era evidente, e logo nos veremos com os tais
efeitos adversos desta cultura irrefletida, muitas vezes, deste incensado (sem
trocadilho) mundo dos gurus da new age para celebridades, endinheirados,
benfeitores, gente perdida, louca, crédula, sincera, muitos com formação
sólida, mas que confundiram charlatanismo com mestria, sabendo que não há
generalização, mas os casos e escândalos são notórios, e logo falaremos deles.
O guru, como podemos ver na tradição védica, especialmente no
Mahabaratha, na parte mais conhecida, até pelos ocidentais, que é o Bhagavad
Gita, temos já a tal relação tradicional guru/discípulo nas figuras respectivas
de Krishna, que aqui é o próprio Deus, e Arjuna, um nobre. O princípio diz
sobre a importância de ter ou encontrar um guru, pois este que lhe fornecerá o
conhecimento transcendental (vidyā), segundo o Hinduísmo.
Na sua versão oriental, temos a tradição guru-shishya, o que
envolve toda uma transmissão de conhecimento espiritual em torno de uma relação
de respeito ao estudante, e da parte deste uma devoção e obediência das
instruções pessoais (muitas vezes de tradição esotérica, isto é, um
conhecimento fechado, para iniciados) quando o discípulo ou estudante
compreende o saber que habita seu mestre ou guru.
Kranenborg, um pesquisador de religiões holandês, por sua
vez, faz uma distinção entre tipos de gurus, no que enumera quatro tipos
principais, no que segue : O conselheiro espiritual, que atua no ensinamento da
casta mais alta dos Hindus, os brâmanes, tais conselheiros que não são
sacerdotes, no entanto, e nem possuem templo. Temos um segundo tipo de guru,
que é o mestre iluminado, este que faz parte da tradição tântrica e do
movimento bhakti, e que ganha a sua autoridade espiritual a partir de sua
própria experiência e vivência, estando supostamente apto a conduzir seu
discípulo para o caminho da iluminação. Temos um terceiro tipo, que é o avatar,
este que encarna a própria divindade, um guru que se confunde com a própria
divindade, que são, por exemplo, o guru indiano Sathya Sai Baba e os gurus da
linhagem Sant Mat. E por fim, temos o guru na forma de livro, que é o Guru
Granth Sahib, na religião Sikh.
A palavra parampara, por sua vez, se origina desta relação
entre guru e discípulo, ou entre guru e shishya, na sua versão oriental, e que
denota uma sucessão deste saber espiritual, a transmissão que vem do guru ao
discípulo, que então também se torna um novo guru e continua a tradição
espiritual na qual foi instruído por um guru anterior, esta sucessão chamada de
parampara que envolve toda a tradição espiritual indiana. O Hinduism dictionary
define parampara como "uma linhagem de gurus espirituais em autêntica
sucessão pela iniciação; a cadeia de poderes místicos pela autorização para a
continuidade, passada de guru para guru."
(continua na segunda parte)
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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domingo, 23 de dezembro de 2018
GREGÓRIO DE MATOS GUERRA E A BAHIA
“Todo o século XVII, como a Bahia colonial deste mesmo tempo,
devem a Gregório um retrato fiel”
Gregório de Matos Guerra e todo o Barroco brasileiro então
são, de certo modo, principalmente no estilo de poesia, herdeiros do estro
gongórico, também denominado de cultista, que era um jogo de palavras refinado,
descrevendo a realidade através do aparato sensorial e tudo num caudal de
versos rebuscados. De outro lado, tínhamos também o estilo quevedista, também
denominado de conceptista, este que, por sua vez, parte de conceitos lógicos e
que versifica através de uma habilidade retórica, tudo isto num discurso que se
fundamenta com requinte e beleza.
Os recursos estilísticos, portanto, podem ser exemplificados
pela antítese, em que ideias contrárias ficam juntas, causando o que conhecemos
por paradoxo. Temos também o oximoro, que é o choque entre ideias que causa a
sensação de absurdo, pois tal é nada mais que a junção de sentidos que se
excluem entre si. E temos, por fim, o hipérbato, que é uma inversão na ordem
direta dos termos que compõem a oração, recurso este bem empregado e de cepa
hispânica por excelência.
Historicamente, tivemos o auge do Barroco lusitano, por sua
vez, após a Restauração da Independência de Portugal em 1640, na qual a
dinastia de Bragança começa. O destaque que temos neste momento da História é a
figura emblemática de Padre Antônio Vieira, cuja obra inclui cerca de 200
sermões, obra sacra, mas de valor literário canônico na literatura de língua
portuguesa.
No Brasil, o Barroco ganha ares de estro religioso de forma
patente. Gregório de Matos Guerra é um dos destaques na poesia nacional, sendo
um representante do contexto social baiano, jogando com a realidade
soteropolitana e construindo uma obra que figura forte no cenário literário
brasileiro. Aqui, com Gregório, temos uma poesia ferina que lhe deu a alcunha
de “Boca do Inferno”.
Todo o século XVII, como a Bahia colonial deste mesmo tempo,
devem a Gregório um retrato fiel, cujo estro poético ia da sátira, humor este
que vinha desde a trova antiga, como também temos Gregório transitando em temas
religiosos, amorosos e políticos, e com um leitmotiv sempre bem estruturado na
realidade de sua Bahia, mais especificamente a vida citadina no contexto de
Salvador.
POEMAS :
PERTENDE AGORA (POSTO
QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS, QUE APLICAVÃO O DITO COMETA À VINDA
DO ENCUBERTO. : Aqui
temos o Gregório satírico, no que vem : “Estamos em noventa era esperada/De
todo o Portugal, e mais conquistas,/Bom ano para tantos Bestianistas,/Melhor
para iludir tanta burrada./Vê-se uma estrela pálida, e barbada,/E deduzem agora
astrologistas/A vinda de um Rei morto pelas listas,”. O culto sebastianista
devidamente ridicularizado, e aqui conhecemos o Boca do inferno e sua pena
mordaz, no que vem : “Oh quem a um Bestianista pergunta,/Com que razão, ou
fundamento, espera/Um Rei, que em guerra d`África acabara?/E se com Deus me dá;
eu lhe dissera,/Se o quis restituir, não o matara,/E se o não quis matar, não o
escondera.”. Como Deus poderia ocultar um rei de promessas? O culto a Dom
Sebastião aqui é contradito na lógica, posto que em Gregório, e em seu poema, a
ideia ganha seu contorno justamente absurdo e utópico.
EMBARCADO JA O POETA
PARA O SEU DEGREDO, E POSTOS OS OLHOS NA SUA INGRATA PATRIA LHE CANTA DESDE O
MAR AS DESPEDIDAS. :
O poema é uma crítica social, os maganos portugueses que são cumulados de
riquezas, e os brasileiros que trabalham para sustentar o ócio destes fidalgos
sem sangue azul, montados em dinheiro, no que temos : “Adeus praia, adeus
Cidade,/e agora me deverás,/Velhaca, dar eu adeus,/a quem devo ao demo dar.”
(...) “Adeus Povo, adeus Bahia,/digo, Canalha infernal,” (...) “E tu, Cidade,
és tão vil,/que o que em ti quiser campar,/não tem mais do que meter-se/a
magano, e campará.” (...) “Compre tudo, e pague nada,/deva aqui, deva acolá/perca
o pejo, e a vergonha,/e se casar, case mal.” (...) “Porfiar em ser fidalgo,/que
com tanto se achará;/se tiver mulher formosa,/gabe-a por esses poiaes./De
virtuosa talvez,/E de entendida outro tal,/introduza-se ao burlesco/nas casas,
onde se achar.” (...) “Arrime-se a um poderoso,/que lhe alimente o gargaz,”
(...) “A estes faça alguns mandados/a título de agradar,”. E segue aqui a tese
baiana e nacional de que não é a virtude que faz rico o Homem, mas a esperteza
e a ganância, podemos perceber que este ímpeto ladino que é uma parte de nossa
cultura até os dias atuais vem de longe, e neste século XVII de Gregório são os
maganos que se fazem de fidalgos, os portugueses que ficam no ócio e no luxo,
no que temos : “Vá visitar os amigos/no engenho de cada qual,/e comendo-os por
um pé,/nunca tire o pé de lá./Que os Brasileiros são bestas,/e estarão a
trabalhar/toda a vida por manter/maganos de Portugal.” (...) “No Brasil a
fidalguia/no bom sangue nunca está,” (...) “Consiste em muito dinheiro,/e
consiste em o guardar,/cada um o guarde bem,/para ter que gastar mal./Consiste
em dá-lo a maganos,/que o saibam lisonjear,/dizendo, que é descendente/da casa
do Vila Real./Se guardar o seu dinheiro,/onde quiser, casará :/os sogros não
querem homens,/querem caixas de guardar.” (...) “Oh assolada veja eu/Cidade tão
suja, e tal,/avesso de todo o mundo,/só direita em se entortar./Terra, que não
parece/neste mapa universal/com outra, ou são ruins todas,/ou ela somente é má.”.
E, ao fim, mais uma vez, maldiz sua cidade e sua origem.
DÉCIMAS [Aos
sebastianistas] : Aqui
o poema também tematiza o sebastianismo, mas já numa alegoria bíblica e não
mais de troça satírica, no que temos : “Ouçam os sebastianistas/ao profeta da
Bahia/a mais alta astrologia/dos sábios gimnosofistas :/ouçam os anabatistas/da
evangélica verdade,/que eu com pura claridade/digo em literal sentido/que o rei
por Deus prometido/é quem? Sua Majestade./Quando no campo de Ourique/na cruz de
um raio abrasado/viu Cristo crucificado/el-rei Dom Afonso Henrique :/para que
lhe certifique/afetos mais que fiéis,/Senhor, disse aos infiéis/mostrai a face
divina,”. E o poeta enumera a geração real do colonialismo lusitano, no que
temos então tal sucessão, e que culmina numa imagem apocalíptica da fera
inumana que tinha na testa tirana dez pontas, no que temos : “Na tua prole novel,/lhe disse, hei de
estabelecer/um império a meu prazer,/e crê que na atenuação/da dezesseis
geração/então hei de olhar, e ver.” (...) “Diz o profeta sagrado/que a quarta
fera inumana/tinha na testa tirana/dez pontas, e que entre as dez/uma de grã pequenez/surgiu
com potência insana./Que esta ponta tão pequena,/mas tão potente, e tão forte,/a
três das grandes deu morte/cruel, afrontosa e obscena :/quer dizer que a
sarracena/potência, ou poder tirano/do pequeno maometano/tirara o seu desprazer/as
três partes do poder/do grande Império Otomano.”. A guerra das nações, e o
intento lusitano vai do oriente ao mundo maometano, no que aqui temos como que
a profecia do rei cristão, do império prometido, no que temos : “a chamou Deus
a juízo;/e a condenou de improviso/ao fogo voraz que a coma :/e daqui o profeta
toma/(pois Deus assim a condena)/o fim da gente agarena/e seita do vil Mafoma.”
(...) “chamou Deus um rei cristão/e lhe entregou na mão/o império prometido :”
(...) “E pois a gente otomana,/vendo esta sua ruína/à luz da espada divina/de
tanta armada austriana,/pode a nação lusitana/confiada neste agouro/preparar a
palma e louro/para o príncipe cristão,/que há de empunhar o bastão/do império
do Deus vindouro.” (...) “Estes secretos primores/não são de ideia sonhada,/são
da escritura sagrada/e de santos escritores :/se não alego doutores/e poupo
esses aparatos,/é porque basta a insensatos/por rudeza ou por cegueira,/que em
prosa os compôs Vieira,/traduziu em versos Matos.”. E a coda então revela a
fonte literária da inspiração bíblica, a mestria de Padre Antônio Vieira.
POEMAS :
PERTENDE AGORA (POSTO
QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS, QUE APLICAVÃO O DITO COMETA À VINDA
DO ENCUBERTO.
Estamos em noventa era esperada
De todo o Portugal, e mais conquistas,
Bom ano para tantos Bestianistas,
Melhor para iludir tanta burrada.
Vê-se uma estrela pálida, e barbada,
E deduzem agora astrologistas
A vinda de um Rei morto pelas listas,
Que não sendo dos Magos é estrelada.
Oh quem a um Bestianista pergunta,
Com que razão, ou fundamento, espera
Um Rei, que em guerra d`África acabara?
E se com Deus me dá; eu lhe dissera,
Se o quis restituir, não o matara,
E se o não quis matar, não o escondera.
EMBARCADO JA O POETA
PARA O SEU DEGREDO, E POSTOS OS OLHOS NA SUA INGRATA PATRIA LHE CANTA DESDE O
MAR AS DESPEDIDAS.
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
Porque o nobre enfim é nobre,
quem honra tem, honra dá,
pícaros dão picardias,
e inda lhes fica, que dar.
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
a magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
A uns compre, a outros venda,
que eu lhe seguro o medrar,
seja velhaco notório,
e tramoeiro fatal.
Compre tudo, e pague nada,
deva aqui, deva acolá
perca o pejo, e a vergonha,
e se casar, case mal.
Com branca não, que é pobreza,
trate de se mascavar;
vendo-se já mascavado,
arrime-se a um bom solar.
Porfiar em ser fidalgo,
que com tanto se achará;
se tiver mulher formosa,
gabe-a por esses poiaes.
De virtuosa talvez,
E de entendida outro tal,
introduza-se ao burlesco
nas casas, onde se achar.
Que há Donzela de belisco,
que aos punhos se gastará,
trate-lhes um galanteio,
e um frete, que é principal.
Arrime-se a um poderoso,
que lhe alimente o gargaz,
que há pagadores na terra,
tão duros como no mar.
A estes faça alguns mandados
a título de agradar,
e conserve-se o afetuoso,
confessando o desigual.
Intime-lhe a fidalguia,
que eu creio, que crerá,
porque fique ela por ela,
quando lhe ouvir outro tal.
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará :
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita em se entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
DÉCIMAS
[Aos sebastianistas]
Ouçam os sebastianistas
ao profeta da Bahia
a mais alta astrologia
dos sábios gimnosofistas :
ouçam os anabatistas
da evangélica verdade,
que eu com pura claridade
digo em literal sentido
que o rei por Deus prometido
é quem? Sua Majestade.
Quando no campo de Ourique
na cruz de um raio abrasado
viu Cristo crucificado
el-rei Dom Afonso Henrique :
para que lhe certifique
afetos mais que fiéis,
Senhor, disse aos infiéis
mostrai a face divina,
não a quem a Igreja ensina
a crer tudo o que podeis.
E Deu, vendo tão fiel
aquele peito real
auspicando a Portugal,
quis ser o seu Samuel.
Na tua prole novel,
lhe disse, hei de estabelecer
um império a meu prazer,
e crê que na atenuação
da dezesseis geração
então hei de olhar, e ver.
A dezesseis geração,
por cômputo verdadeiro,
assevera o reino inteiro,
ser o quarto rei D.João :
e da prole a atenuação
(conforme a mesma verdade)
se vê em Sua Majestade;
pois sendo de três varões,
com duas atenuações
se tem posto na unidade.
Logo, em boa consequência,
na pessoa realçada
de Pedro, está atenuada
desta prole a descendência :
logo, com toda a evidência,
e à luz da divina Luz,
se vê que a Pedro conduz
o olhar, e ver de Deus,
que ao primeiro rei e aos seus
prometeu na ardente cruz.
E, se o tempo é já chegado,
perguntai-o a Daniel,
que no sétimo aranzel
o traz bem delineado.
Diz o profeta sagrado
que a quarta fera inumana
tinha na testa tirana
dez pontas, e que entre as dez
uma de grã pequenez
surgiu com potência insana.
Que esta ponta tão pequena,
mas tão potente, e tão forte,
a três das grandes deu morte
cruel, afrontosa e obscena :
quer dizer que a sarracena
potência, ou poder tirano
do pequeno maometano
tirara o seu desprazer
as três partes do poder
do grande Império Otomano.
E que pelo prejuízo
que a pequena ponta fez
das dez maiores às três,
a chamou Deus a juízo;
e a condenou de improviso
ao fogo voraz que a coma :
e daqui o profeta toma
(pois Deus assim a condena)
o fim da gente agarena
e seita do vil Mafoma.
Continuando a visão,
refere a história sagrada
que esta audiência acabada
chamou Deus um rei cristão
e lhe entregou na mão
o império prometido :
logo, bem tenho inferido,
que o sarraceno acabado,
é o tempo deputado
de ser este império erguido.
E pois a gente otomana,
vendo esta sua ruína
à luz da espada divina
de tanta armada austriana,
pode a nação lusitana
confiada neste agouro
preparar a palma e louro
para o príncipe cristão,
que há de empunhar o bastão
do império do Deus vindouro.
Pode a nação lusitana,
que foi terror do Oriente,
confiar que no Ocidente
o será da maometana;
pode cortar a espadana
em tal número e tal soma
que, quando o tempo a carcoma,
digamos com este exemplo
que abriu e fechou seu templo
o bifronte deus em Roma.
Estes secretos primores
não são de ideia sonhada,
são da escritura sagrada
e de santos escritores :
se não alego doutores
e poupo esses aparatos,
é porque basta a insensatos
por rudeza ou por cegueira,
que em prosa os compôs Vieira,
traduziu em versos Matos.
(OBS : Caros leitores, aqui se encerra a série sobre Gregório de Matos Guerra. Estarei
saindo de férias. Retorno no início de fevereiro de 2019 com muitas novidades. Boas
festas, e até a volta.)
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Link da Século Diário : https://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-e-a-bahia
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sábado, 22 de dezembro de 2018
TREVAS E SÓIS
O malho, em lida seca,
corta rente e recorta,
qual faca que fio fia,
das caras de pedra
qual rocha escultórica,
a paz, este ponto cego
do mundo, luta com
a guerra seu sal
e o sol que brota
vermelho,
loucos os astutos,
prenhes as loucas,
meio tontos
os ébrios,
funestas as
cortesãs,
perto do cais,
com espanto,
tece um barco
sua linha mestra
de navegação,
ah, como era bela
a aurora qual
fronte que brilha
potência em clarear.
22/12/2018 Gustavo Bastos
corta rente e recorta,
qual faca que fio fia,
das caras de pedra
qual rocha escultórica,
a paz, este ponto cego
do mundo, luta com
a guerra seu sal
e o sol que brota
vermelho,
loucos os astutos,
prenhes as loucas,
meio tontos
os ébrios,
funestas as
cortesãs,
perto do cais,
com espanto,
tece um barco
sua linha mestra
de navegação,
ah, como era bela
a aurora qual
fronte que brilha
potência em clarear.
22/12/2018 Gustavo Bastos
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