PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 20 de junho de 2018

CONTO SURREALISTA


“virei pasta para entrar mais fácil na pintura de Dalí”

(Obs: ler ouvindo “Scream Thy Last Scream” de Syd Barrett)

Mister X adorava tomar LSD e contemplar suas réplicas de pinturas surrealistas de Salvador Dalí. Um belo dia ele se transformou em pasta e entrou no quadro “A Persistência da Memória”, e foi aí que começou a sua aventura.
O tempo se liquefez e se transformava em formas elásticas de sons e imagens, a sinestesia tomava o campo da percepção de Mister X, nos seus olhos de gafanhoto e suas antenas ele detectava o relógio derretido quando da descoberta da relatividade geral de Einstein.
A viagem no tempo se tornara possível para uma alucinação potente daquele LSD puro ingerido uma hora antes, tudo girava em proporções gigantescas, ele era uma pasta que metamorfoseava como uma lesma sem casco ou uma minhoca psicodélica, era a própria mandala subterrânea em trânsito pelo inconsciente, uma energia cinética emanava dos relógios derretidos e sua memória delirava com um encanto juvenil, o grito rejuvenesceu e seu crânio derreteu junto com a paisagem surrealista de Dalí.
Mister X nunca foi humano, foi concebido como uma máquina para realizar experiências com alucinógenos e pinturas, cogumelos gigantes invadiam a vastidão da viagem, lembrou Mister X de que não tinha nascido e nem sido abortado, vivia como se tivesse brotado do chão, não era exatamente humano, mas não era uma simples máquina e nem simplesmente uma experiência como qualquer outra, ele era composto de várias fórmulas secretas que tornaram possíveis suas viagens pelo tempo através de pinturas ao ingerir LSD.
Vamos ao relato imaginário de Mister X:
Eu era uma lesma subatômica, virei pasta para entrar mais fácil na pintura de Dalí, não sei ao certo o que me levou, eu sei que me vi entre os relógios de um tempo paralelo, subatômico, uma viagem quântica, é, eu acho que fiquei microscópico, virei um elétron apenas, e um elétron pode fazer o que quiser e se transformar no que quiser, então eu virei pasta subatômica e meu átomo se dividiu em peças que se uniram à molécula alucinógena, eu sou a própria viagem, eu sou o meu princípio ativo, tudo me é permitido sob esta nova condição, onde nenhum humano jamais ousou entrar, no fundo de uma pintura com sede e delírios.
A Persistência da Memória é visionária, a pasta subatômica não era humana, Mister X não tinha mais crânio ou carne, sua viagem no tempo se tornou possível por ser este partícula e onda, foi ao céu e saiu do outro lado da existência, ele continuou e se fascinou com seu passeio pela pintura de Dalí, nunca mais seria o mesmo, em todo o percurso vinham imagens e sons diversos, tudo num caldo sinestésico de música psicodélica.
A miragem era seu sonho e torpor, seu surto era ter se tornado um estranho ser inumano, geleia do tempo elástico de Einstein, ele já não era alguém, a dissociação de seu ego derreteu seu superego e ele era um bicho freudiano chamado ID, mas era um anti-ente subatômico, incompreensível para a inteligência humana, seu destino de pasta o levava para ver o sentido do tempo fora de seu curso normal, pois havia cronos e kairós.
Mas, agora, Mister X estava no que na mitologia grega chamam de Tártaro, um ser nada que apenas flutua, e logo se encontra com Tânatos, é o mundo louco da titanomaquia, Mister X nunca poderia voltar a ter um corpo e alinhar a sua mente liquefeita com os velhos relógios de cronos, nem ter a sua psique submetida a kairós, não havia mais realidade, o surrealismo de sua anticondição de um anti-ente nos leva ao mundo escuro da anti-matéria, mas não no universo, mas dentro da pintura, e sob efeito de LSD, nada mais complexo. Mister X não sabia mais de nada.
Qual seria o seu fim? Tânatos? Ou dissolver-se no mar da ilusão subatômica? Qual seria o antídoto para Mister X voltar ao normal? Sua imaginação o levara longe, e não havia mais vestígio do que tivera sido, a persistência de sua memória, neste caso, revelava um passado desconhecido para ele mesmo.
O que ele lembrava parecia pertencer ao inconsciente coletivo e não ao seu suposto eu. Ele não tinha mais eu, era um elétron, ainda pensava, mas era surreal, inumano, terrível, temerário. Ele se arrepende e pede perdão a Deus. Mas Deus não revela o segredo do que é o tempo, pois nem Einstein o tinha decifrado, pois nem cronos e nem kairós teriam solução para o enigma.
O que restava era a morte das perguntas em Tânatos e no vazio Tártaro, que não é o inferno cristão, onde ainda se tem pessoa e tempo, não é mais do tempo que se trata a pintura de Salvador Dalí e a viagem de LSD de Mister X, tudo se torna alegórico neste surrealismo pagão, Mister X era uma experiência que termina num anti-tempo indecifrável.
Mister X nunca mais voltou de seu delírio subatômico, virou pasta e se perdeu no infinito paralelo de uma pintura de Dalí, e não terá sido em vão. Sua nova morada era a arte, e na arte podemos ser o que quisermos, não haveria porque voltar, portanto.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/39141/14/conto-surrealista

segunda-feira, 18 de junho de 2018

GÓNGORA, PANEGÍRICO AO DUQUE DE LERMA


“o plano geral da obra gongórica possui duas fases”

Góngora tem todas as suas composições datadas, tendo assim como ponto de partida o ano de 1580, e citando seu primeiro poema impresso, uma canção que figura abrindo a tradução de Os Lusíadas para o castelhano feita por Luís de Tapia.
Nesta sua primeira composição podemos já observar os temas mitológicos que serão levantados em toda a sua obra, assim como já se verte neste caso versos esdrúxulos à moda italiana, e na sua forma temos já também o domínio de um léxico latinizante, figurando em seu modo de escrita como um poeta de porte, o que no plano geral de sua poesia lhe dará a característica de poeta culto, mesmo tendo feito parte de sua obra poética composições populares como, por exemplo, letrillas e romances.
Na sua fortuna crítica temos como que uma visão histórica que atuará de maneira pendular, pois temos o primeiro Góngora como bom, mesmo diante de uma visão negativa de sua fase mais esteta com o “Polifemo” e as “Soledades”. Portanto, o plano geral da obra gongórica possui duas fases, embora possamos também, por outro lado, identificar uma continuidade entre estas duas fases, configurando então um poeta inteiro e único, e por fim, coerente com seu destino e objetivo poético.
Góngora foi ganhando fama até ampla a partir do início da década de 1580, tendo produzido o soneto “A Córdova” sob influência de uma viagem a Granada, seu primeiro feito literário de grande valor, podendo ser citado, antes deste soneto, talvez somente o soneto “Al tramontar del Sol la ninfa mia”, de 1582, pois neste temos já impresso o que seria a poesia futura e a obra em geral de Góngora.
Luis Góngora, em face da renúncia de D. Francisco de Góngora da prebenda que tinha na Igreja de Córdova, torna-se então prebendado da catedral. Contudo, Góngora passa por interrogatório pelo bispo Francisco Pacheco, e acaba delatado por um dos seus companheiros, no caso de ter ido a corridas de touros e de escrever coplas profanas, no que o poeta se defende com humor, sendo, por fim, multado e proibido de ir a novas touradas.

PANEGÍRICO AO DUQUE DE LERMA

POEMAS :

I : O poema se abre da seguinte maneira, já na inspiração de Euterpe, no que segue : “Se arrebatado mereci algum dia,/Euterpe, a soberana tua lição,/Beije o curvo marfim desta macia/Sonante lira, tua divina mão;”. E o poema fecha ainda com o ardor da lira, no que temos, por fim : “Sinta-o inda mais a Líbia surda e odienta/Do que as áspides frias que alimenta.”

II : O poema descreve o marfim, e seu som, e aqui entre os hindus, e ainda deve o poema, o poeta Góngora, ao duque de Lerma, este que inspira esta grande peça gongórica, e aqui temos : “O osso canoro ouça da fera, inteira/Pompa de suas margens, a corrente/Do Ganges, cuja bárbara ribeira/Banho é supersticioso do Oriente :/De venenosa pluma, se ligeira,/Armado o escute o Maranhão valente,/E a meus números deva-lhes o mundo/Um fênix de entre os Sandos, um segundo.”

VII : Aqui se descreve o jovem duque, e seu tio, bispo de Córdova, no que temos : “Jovem depois meu ninho ilustrou pio,/Redil já numeroso para o gado/Que o silvo ouviu de seu glorioso tio,/Pastor de povos bem-aventurado;” (...) “Tanta lhe mereceu Córdova, tanta/Veneração a sua memória santa!”. Aqui um poema à cara memória santa do bispo, por fim.

VIII : O poema bebe bem e prudente doutrina do varão em glória, e ao fim nos lembra no poema a presença do centauro Quiron, no que segue : “Doce bebia na escola prudente/Ora a doutrina do varão glorioso,/Ora chispas de sangue a espora ciente/Solicitava ao trovão generoso,” (...) “De Quiron não biforme aprende ameno/Quantas já fulminou armas o heleno.”

XII : Aqui um poema próprio do panegírico, que homenageia o duque com toda a pompa, no que temos : ““Cresce, ó de Lerma tu, ó tu de Espanha/Bem nascido esplendor, firme coluna/Que ao bem cresces comum, pois não me estranha/O belo oráculo de tua fortuna;” (...) “Ao santo rei que ao juízo teu sem engano/Os anos deverá de Otaviano”.”. Aqui o poema que levanta a imagem do duque e ao fim cita o futuro rei Filipe III de Espanha.

XXXVIII : O poema aqui descreve a Espanha que então inundava as areias de Valença, no que temos : “A Valença inundava-lhe as areias/A Espanha então : o seu antigo muro/Só era capaz de, havendo aquelas cheias,/Ser do Himeneu o tálamo futuro./Desatadas a América suas veias/De um ostentou e de outro metal puro :/Admira, se o cavalo pisa o prado,/Que ouro morda e que prata haja calçado?”. Eis então o himeneu, e ao largo os metais chegados da América.

XXXIX : A bela Margarida, ainda no navio, aqui ouve de Mercúrio lisonjas de seu esposo, no que temos :“Da nau, não inda os seios inconstante/A bela Margarida havia deixado,/E já do esposo ela escutava amante/Lisonjas doces, por Mercúrio alado :” (...) “Títulos cá na Espanha esclarecidos,/Em grã, em ouro, a Alva, o Sol, vestidos.”. E os títulos de nobreza aqui bem lembrados, o poema da realeza, a poesia cortesã, eis o panegírico em seu esplendor, estro gongórico.

XL : A soberana Margarida é aqui homenageada, no que segue : “Com pompa recebida enfim gloriosa/A pérola boreal foi soberana/Em cidade vãmente generosa,” (...) “Doce um dia depois a fez esposa/Flamante o Castro em púrpura romana;/Foi-se o rei, foi-se Espanha, e irreverente/Pisou o mar o que inundou a gente.”. Por fim, a inundação novamente, Espanha e o mar.

LX : O Oriente aqui de despoja de seus bens, de sua ambição, no que temos : “Ambicioso se despoja o Oriente/Das coisas que entesoura em si mais belas :” (...) “O resplendor, a vaidade, a gala,/Em seu templo, em seu circo e em sua sala.”. Uma descrição da riqueza oriental aqui nós temos, e o destino que elenca em poema templo, salão e a gala.

LXV : O salão brilhante do palácio serve ao epiciclo ao rubi do dia, o sol, o rei, no que temos : “Apenas confundiu a sombra fria/Nosso horizonte, eis que o salão brilhante/Novo epiciclo ao grão rubi do dia/E ao maior dos da noite deu diamante :” (...) “Um orbe desatou e outro sonante/Astros de prata, que em luzentes giros/Bateram com alternos pés safiros.”. Por fim, o poema descreve a dança dos nobres, com toda pompa de um poema gongórico e barroco.

LXVI : Termina a festa, e temos então o poema, que nos diz : “Prolixa prevenção em breve hora/Dissolveu-se, e o topázio resplendente/Que foi ocidental balcão da aurora,/Canto de paço se tornou somente.” (...) “E o mesmo âmbito à terra, mudo exemplo/Ao desengano bem fabrica um templo.”. Por fim, o poema se encerra no templo, e nos lembra que tudo passa.

PANEGÍRICO AO DUQUE DE LERMA

POEMAS :

(Introdução)

I

Se arrebatado mereci algum dia,
Euterpe, a soberana tua lição,
Beije o curvo marfim desta macia
Sonante lira, tua divina mão;
Emulando com as trompas na harmonia,
De neves branco o sétimo Trião
Sinta-o inda mais a Líbia surda e odienta
Do que as áspides frias que alimenta.

II

O osso canoro ouça da fera, inteira
Pompa de suas margens, a corrente
Do Ganges, cuja bárbara ribeira
Banho é supersticioso do Oriente :
De venenosa pluma, se ligeira,
Armado o escute o Maranhão valente,
E a meus números deva-lhes o mundo
Um fênix de entre os Sandos, um segundo.

(Mocidade do Duque, em Córdova)

VII

Jovem depois meu ninho ilustrou pio,
Redil já numeroso para o gado
Que o silvo ouviu de seu glorioso tio,
Pastor de povos bem-aventurado;
Com lábio alterno, ainda hoje, o sacro rio
Beija o nome em suas árvores gravado.
Tanta lhe mereceu Córdova, tanta
Veneração a sua memória santa!

VIII

Doce bebia na escola prudente
Ora a doutrina do varão glorioso,
Ora chispas de sangue a espora ciente
Solicitava ao trovão generoso,
Ao cavalo veloz, que em poeira ardente
Envolto voa, em fogo pulveroso.
De Quiron não biforme aprende ameno
Quantas já fulminou armas o heleno.

XII

“Cresce, ó de Lerma tu, ó tu de Espanha
Bem nascido esplendor, firme coluna
Que ao bem cresces comum, pois não me estranha
O belo oráculo de tua fortuna;
Cloto o fio, vital de fulgor banha
Ao que Mercúrio já prepara a curna,
Ao santo rei que ao juízo teu sem engano
Os anos deverá de Otaviano”.

(1599 : Bodas reais, em Valença)

XXXVIII

A Valença inundava-lhe as areias
A Espanha então : o seu antigo muro
Só era capaz de, havendo aquelas cheias,
Ser do Himeneu o tálamo futuro.
Desatadas a América suas veias
De um ostentou e de outro metal puro :
Admira, se o cavalo pisa o prado,
Que ouro morda e que prata haja calçado?

XXXIX

Da nau, não inda os seios inconstante
A bela Margarida havia deixado,
E já do esposo ela escutava amante
Lisonjas doces, por Mercúrio alado :
Ao Sandoval em zéfiros voante
De trinta vezes dois acompanhado
Títulos cá na Espanha esclarecidos,
Em grã, em ouro, a Alva, o Sol, vestidos.

XL

Com pompa recebida enfim gloriosa
A pérola boreal foi soberana
Em cidade vãmente generosa,
Em nação generosamente ufana.
Doce um dia depois a fez esposa
Flamante o Castro em púrpura romana;
Foi-se o rei, foi-se Espanha, e irreverente
Pisou o mar o que inundou a gente.

LX

(1605 : Batizado do futuro Filipe IV, em Valhadoli)

Ambicioso se despoja o Oriente
Das coisas que entesoura em si mais belas :
Quantas, Ceilão, tua esfera aduz rubente
Centelhas no melhor metal revelas;
Do solo seu trouxe Camboja à gente
As que apesar do Sol mostrou estrelas :
O resplendor, a vaidade, a gala,
Em seu templo, em seu circo e em sua sala.

LXV

Apenas confundiu a sombra fria
Nosso horizonte, eis que o salão brilhante
Novo epiciclo ao grão rubi do dia
E ao maior dos da noite deu diamante :
Por uma láctea após segunda via,
Um orbe desatou e outro sonante
Astros de prata, que em luzentes giros
Bateram com alternos pés safiros.

LXVI

Prolixa prevenção em breve hora
Dissolveu-se, e o topázio resplendente
Que foi ocidental balcão da aurora,
Canto de paço se tornou somente.
De a idade quantos mármores devora
Volvendo ao ar o espaço equivalente
E o mesmo âmbito à terra, mudo exemplo
Ao desengano bem fabrica um templo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/39109/17/gongora-panegirico-ao-duque-lerma

quinta-feira, 14 de junho de 2018

HOLLOW


"Aéreo o plano aedo cintila, rumoreja ferve e briga”

I

Tantos casos estudados nesta cosmologia, e que são seres nus, como poucos vermes que sobrevivem ao mundo, e que tentam abarcar os númenos com galhardia de soberbos e alvissareiros, pois por pouca monta os severos e os antoninos sucumbem ao senado pueril, eu de meu turno resvalo e reservo fortuna para um cabedal brio de espuma no vento sacal dos hindus e seus vímanas, como uma corrente literária manchada de lodo e vinho, este que é sabor estulto na glória do sistema, este também estulto, capital armado e nauseabundo, contrito o esquema de Aristóteles explode com o rigor de um kantiano crítico feroz do sono metafísico, com um Hume sensitivo na campanha de um fundo vitral que arde por entre os ventos mais modernos, um plano cartesiano que ribomba pétreo com sarcasmo de poeta, e o riso enfermo que mora num castelo em Copacabana, na mais miserável canção que está de frente à rua que grita somos os outsiders, os mamulengos e vitrolinhas da paixão antiga, dos poemas rebuscados com notas de absinto, das rimas ricas como idólatras que têm sede.
Dos poetas antiquados que não vivem no mundo, não neste mundo, em mundo algum, moram em carne e osso como vapores de veneno na história mundial, moram tal os animais ou bestas repletas de carbono em seus corpos e polímeros cosmogônicos teodiceia da arte rupestre, um totem burilado com sílex na caverna de paris, setenta ladrões como gangue, viralizados costumes que são a rixa e o riot das galeras fumegantes, dos estertores do fracasso, dos lenhadores e tremores que sorriem para alguns capatazes com seus enfermos vitoriosos, guerra e paz na aura de um anjo fetichizado com bombas de esterco na fome do boi, estes senhores do mundo que vivem morrem como indigentes da fama, como desejo ruminado nas estrelas mais abscônditas, remadores dos sonhos de pano por entre frestas que olham ao nada, rasputins negros com faces de mago, monitoram os passos a cada dia, e sentam na torre de lume viscoso, eles olham o pote de ouro que revela poesia na esbórnia, são telemas e budismos ranqueados num campeonato de astúcia, num grimório de fardos e buchas de canhão.
Sete pantokrators que vivem giro de escopeta, de fumo revirado com espoleta, belicosos que querem a paz mundial, fervores de antros pacificadores, de não-violência, dos hippies de ocasião, dos fashionistas que definem o mundo de segunda mão, da realidade aumentada como manto e segredo penhorados depois do escaldo e martírio. Venha, os ogros imantam servos com náiades esbeltas como anacoretas, e bebem uísque com tambores na cabeça e flautas nos braços, senhoras músicas que de guitarra e trompete repete o fusion indefinidamente, pois cada retrato destes ossos têm a espessura de uma densidade de átomo, indivisível como uma bola de gude, temerários como templos e pagodes na sarça briosa que elenca vates e vedetas. Canção esmerada que tilinta tal o metal de rigor que funda filosofia de poetastro depois da bebedice, que define saudade como uma rima fugitiva.

II

Aéreo o plano aedo cintila, rumoreja ferve e briga, e ferve tal o campo mestre que cintila, como cobra serpentina, e um estrelado estribilho que cintila, bruma rebuscada que mesmeriza tal o sino que dobra, e o banho em festonado vinho, odre pecaminoso que bebe e ventila, evento e evidência de poema, a prova científica do terror, vertido como água benta na pacífica amurada, um grafite terroso no sonho de poeira, levedura que nos dá a boca de saída, pentecostes nos ombros de atlas com o mapa ao pé do geógrafo, bolhas de mundo estouradas por revoluções, penedos que caem como mísseis no apocalipse, espíritos imundos que brigam com pastores, brechas do sistema que assomam no estudo corrupto dos punguistas, leves sintomas de hematomas que roem a corda do enforcado, sete flechas de indigenistas que buscam o eldorado, tânatos dorido que fervilha necromancia depois do ritual poético.
Linho que costura cada gesto artaudiano com gags beckettianas. Olhos mesmerizados que ensinam a palavra morte aos neófitos que ainda sonham acordados, pleito burlado por campanhas sujas de pós-verdade, brotos de floresta que povoam um mundo perdido, paraíso silvestre que nos dá selvagens novos de literatura da mata, poetas novos que caem como cometas no frio do sistema falido das artes comerciais que deliram anátemas proscritos. Banho de lua nas noites que eu servia ao mártir, estes barcos que navegam mar azul de diamante, frio de mar turquesa caribenho, milhares de remadores que vão à galáxia dos aviadores, reis setentrionais contra centuriões que formam o exército brancaleone dos românticos suicidados.
Eis que vive um novo brio bíblico que sonhava holocaustos na hégira e no êxodo, benta a água de poder de tais sacerdotes em seus levitas pasmados com o Deus-homem. Eis que venho de sonhos tempestuosos e kafkianos e pesadelos de Godot depois do milagre indômito que delirava o paraíso de permuta entre cantores de fancaria. Ai! Ai de mim! Tenho cada visão que caio em deslumbramento como um ósculo olvidado depois do porre. Mas, no meio da canção, com dotes de artista, reverbero samples e synths mais que anacrônicos, são vinhas de monastério com ritmo de jazz na fusão dos elétrons que batem entre neutrinos invisíveis da bala perdida, eis que numa viagem astral venho contar-lhes a dor profunda da miséria dos poetas, mas ainda tenho fogo que queimar na sarça mais potente do sol.

III

O fog londrino me apetece, o beberrão morde os tímpanos com rock de estrada, fervilha um berro kerouakiano, um velho mestre que se chamava Ferlinghetti, Neal Cassady que morria na linha do trem, os Estados Unidos e toda a gama de capitalistas de Wall Street e seu touro valente que faz tentações de estelionato, os espiões da Big Apple que reviram seus bens com fome ventral de cartas na manga, pois que eu tenho por mim que prefiro Louvre e seus melismas potentes como mantras sinfônicos, já que vejo as litanias repetirem Fausto e Mefistófeles depois do urro brutal que Goethe não evitara nem na sua invenção de Werther epistolar, ah que nem mesmo a lenda medieval nos salva do capital, mas é seu cristal mais atraente, e o dinheiro gasto em tais deambulações serve ao historiador para contar uma biografia acidentada como pinguelas de rua de terra, de rios de cobre depois do caos mimético dos plantonistas que encontram a morte com dentes de fogo na noite violenta, pois que sumido está o zen na hora enferma, e nem tenho mais tibetanos que lembrem de maoístas sem lhes ferver as pestanas, e o desastre sonha em se proteger da mediocridade, pois ela mata e delira cabeças ocas como hollow men que não servem para nada.
Ah! Ai de mim! Estou no inferno de Caronte, nas uvas de Dioniso, na febre inaugural de Téspis, nos trágicos que de Ésquilo e seu Prometeu Acorrentado apenas faz loas ao abutre, e leis cósmicas são fado nestas peças antigas, o que hoje temos como puro acaso, e que nos idos putrefatos de Março estavam como novos ventos de um novo mundo cristão, que tem o reverso da moeda como Inquisição, o que também hoje tem o nome de manicômio, e que custa a verba pública para os bolsos de seus torturadores, nova platitude medieva, oh como cada burgo sonhava revolução, e como cada soviete sonhava revolução, e como cada hollow man sonhava status quo.

IV

A caça às bruxas está aberta:
Grimório do capa preta,
Eis que rumina maçons
Na sete emblema de arquiteto
Que campeia marmóreo
Como capiteis em Parthenon
Oh Crowley e seus cantos heroicos
Oh bruxos como celtas em Stonehenge
Ah fada musicada que burila soma
Na mente mística do Absoluto
Ah como cada magia tem altas paragens
O paraíso perdido e seus sapientes embriagados
O êxtase de Santa Teresa D`Ávila
No fim da aurora que rutilava salvação.

Poema em prosa

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/39074/14/hollow



segunda-feira, 11 de junho de 2018

EXUBERÂNCIA E ELEGÂNCIA NOS VERSOS DE GÓNGORA


“Quando nós falamos do cromatismo, por exemplo, este carrega as palavras como um lume”

Temos em Góngora grande parte do preciosismo imagético que reverbera a escola poética e artística barroca, pois no exagero da metáfora e com o cromatismo povoando as palavras num poema esteticamente intenso temos um dos grandes escritores aqui do esplendor mais forte no qual viveu a literatura espanhola.
O poeta Góngora, por sua vez, diante de sua época e no contexto social e político de sua nação, agora incluindo a dominância do pensamento religioso, não escapará da influência da ideologia do Concílio de Trento, e sua poesia, quando for tematizar a vida religiosa e sua ideologia, lembrará de certas citações ou ideias bíblicas por excelência, uma vez que o poeta terá na sua produção de versos uma imagética que não estará alienada do que está a sua volta, mesmo com todo o seu formalismo.
Quando nós falamos do cromatismo, por exemplo, este carrega as palavras como um lume que vai enriquecer a cepa barroca com todo este incremento estético próprio deste movimento, que nunca se furtou de exibir uma exuberância que vai ao paroxismo de um exercício de fazer versos bonitos e elegantes, e isto define bem tanto o barroquismo como o que veio dele por Góngora, isto é, o gongorismo.

POEMAS :

XLIV : Polifemo, que de sua boca era prodigioso fole, vem aqui no poema emitir seu som, no que temos : “Árbitro de montanha e praia austera,” (...) “A quantas canas agregou a cera/O prodigioso fole de sua boca;/A ninfa ouviu-os, e ser mais quisera/Breve flor,”. Mas a ninfa, já resoluta, quisera antes ser erva humilde, aqui diante do temor de Polifemo, no que vem a coda nos lembrar : “Que, do tronco recém, vide lasciva,/Morta de amor, e de temor não viva.”

XLV : Aqui temos o poema que descreve o enlaçamento da ninfa Galateia, e Ácis  aqui, o moço, que logo será partido em pedaços pelo ciclope Polifemo, pelo cortante machado dos ciúmes, no que temos : “Mas – cristalinos pâmpanos seus braços –/O amor a enlaça, se o temor a gruda,/Ao infeliz olmeiro que pedaços/A segure dos ciúmes fará aguda./As cavernas, entanto, e os mais espaços,/Que preveniu aquela avena ruda,/O trovão de sua voz fulminou logo :/Referi-o, Piérides, vos rogo!”. E o que resta mais ao poeta é rogar, eis um último verso de piedade que aqui se derrama, pois.

XLVI : A descrição aqui é amorosa, e reúne partes em que a associação é rica, no que temos : ““Ó bela Galateia, mais suave/Que os cravos todos que truncou a aurora;” (...) “Igual em pompa ao pássaro que, grave,/Seu manto azul de tantos olhos doura/Quantas a celestial safira estrelas!/Ó tu, que incluis em duas as mais belas!”. Ao fim, no que temos os olhos, duas estrelas, antes sendo homenageada como bela Galateia, no barroquismo aqui já gongórico e elaborado metaforicamente, demandando forte interpretação.

LI : O ciclope filho de Netuno, este Júpiter do mar, aqui Polifemo como filho evoca seu poder para conquistar Galateia, e ele a chama, no que temos : ““Eu sou filho do Júpiter das ondas,/Mesmo pastor; se em teu desdém já aflora/Que o rei das grutas fundas e redondas/Em trono de cristal te abrace nora,/Polifemo te chama, não te escondas;/Que esposo tal admira a praia agora/Qual outro não viu Febo, mais robusto/Do preguiçoso Volga ao Indo adusto.” Aqui o poema descreve o contexto em que se dá o chamado, já diante do Volga, e rumando para o Indo.

LVII : A gruta aqui então serve de tábua de salvação a um genovês, no que temos : ““Tábua outra a um genovês foi  minha gruta,/Para a pessoa sua e sua fazenda;” (...) “Luzente paga pela melhor fruta/Que em ervas se recline, em fios penda,/Colmilho do animal foi a que o Ganges/Viu sofrer muros e romper falanges :” Vindo de um naufrágio, o genovês agora que do marfim troca pela melhor fruta, eis o refúgio e a recompensa.

LVIII : Recompensa esta um arco gentil e uma aljava brunhida, no que temos : ““Arco, digo, gentil, brunhida aljava,/Obras ambas de artífice brioso,/E de rei de Malaca a deus de Java/Alto dom, tal me disse o hóspede aquoso.” (...) “Convicta a mãe, imita o filho airoso :/Serás a um tempo nestes horizontes/Vênus do mar, Cupido destes montes.”” E ao fim Vênus imita seu filho, do arco se fazendo como Cupido.

LIX : A voz de Polifemo é interrompida, no que temos : “Sua horrenda voz, não sua íntima dor,/Cabras aqui lhe interromperam,” (...) “A Baco ousaram atacar as plantas./Mas o pâmpano ao ver fero o pastor” (...) “Despediu ele, e tanta pedra a funda,/Que voz e pedras varam a hera funda.”. E então Polifemo ao ver pisoteado o pâmpano mais tenro, deu muitos brados, e sua funda lançou tantas pedras que rompeu o muro de heras atrás do qual estavam Ácis e Galateia.

LX : Agora os amantes assustados com a voz e as pedras de Polifemo, se separam dos abraços mais suaves, no que temos : “Dos nós, com tudo isso, mais suaves,/Os doces dois amantes desatados,/Por duros seixos, por espinhos graves/Solicitam o mar com pés alados;/Tal, redimindo de importunas aves/Incauto lavrador os seus semeados,/De lebres cópia dirimiu amiga/Que vário sexo uniu e um sulco abriga.” Os amantes procuram com pés alados o mar, e permanecem apartados entre si, também agora, um casal de lebres.

LXI : A fugitiva ninfa vê o feroz brutamontes correr para o mar, no que temos : “Vendo, o fero brutaz, com passo mudo/Correr ao mar a fugitiva neve” (...) “E o rapaz vendo, antigas faias, rudo,/Agita, quantas cioso trovão deve :/Tal, antes de que a opaca nuvem rompa,/Do raio avisa a fulminante trompa.” Ao fim, o trovão com sua fulminante trompa dá o aviso da queda.

LXII : Polifemo arranca violentamente a ponta maior da elevada rocha, no que temos : “Com violência arrancou ele infinita/A maior ponta de elevada roca,/Que ao jovem, sobre quem a precipita,/Urna é muita, pirâmide não pouca./Com lágrimas a ninfa solicita/As deidades do mar, que Ácis invoca :/Concorrem todas, e o penhasco duro/O sangue que espremeu, cristal foi puro.”. Lançada a rocha contra Ácis, enfim com lágrimas a ninfa apela às deidades do mar pelo seu amado.

LXIII : Os membros do moço estão aqui esmagados pela rocha fatal, no que temos :  “Opressos tristemente os membros moços/Da fatal rocha vinda de mãos feias,/Os pés dos grandes vegetais mais grossos/Calçou o líquido aljôfar de suas veias.” (...) “A Dóris chega, que, com pranto pio,/Saudou-o genro, conclamou-o rio.”. Então, Dóris chama o moço de genro, esta que era mãe de Galateia, e lhe aclama como deus-rio.

POEMAS :

XLIV

]Árbitro de montanha e praia austera,
Alento deu, no píncaro da roca,
A quantas canas agregou a cera
O prodigioso fole de sua boca;
A ninfa ouviu-os, e ser mais quisera
Breve flor, erva humilde, terra pouca,
Que, do tronco recém, vide lasciva,
Morta de amor, e de temor não viva.

XLV

Mas – cristalinos pâmpanos seus braços –
O amor a enlaça, se o temor a gruda,
Ao infeliz olmeiro que pedaços
A segure dos ciúmes fará aguda.
As cavernas, entanto, e os mais espaços,
Que preveniu aquela avena ruda,
O trovão de sua voz fulminou logo :
Referi-o, Piérides, vos rogo!

XLVI

“Ó bela Galateia, mais suave
Que os cravos todos que truncou a aurora;
Branca mais do que as penas daquela ave
Que doce morre e que nas águas mora;
Igual em pompa ao pássaro que, grave,
Seu manto azul de tantos olhos doura
Quantas a celestial safira estrelas!
Ó tu, que incluis em duas as mais belas!

LI

“Eu sou filho do Júpiter das ondas,
Mesmo pastor; se em teu desdém já aflora
Que o rei das grutas fundas e redondas
Em trono de cristal te abrace nora,
Polifemo te chama, não te escondas;
Que esposo tal admira a praia agora
Qual outro não viu Febo, mais robusto
Do preguiçoso Volga ao Indo adusto.

LVII

“Tábua outra a um genovês foi minha gruta,
Para a pessoa sua e sua fazenda;
Uma revigorada, a outra enxuta,
Relação do naufrágio fez-me horrenda.
Luzente paga pela melhor fruta
Que em ervas se recline, em fios penda,
Colmilho do animal foi a que o Ganges
Viu sofrer muros e romper falanges :

LVIII

“Arco, digo, gentil, brunhida aljava,
Obras ambas de artífice brioso,
E de rei de Malaca a deus de Java
Alto dom, tal me disse o hóspede aquoso.
Com este a mão, com aquela o ombro agrava;
Convicta a mãe, imita o filho airoso :
Serás a um tempo nestes horizontes
Vênus do mar, Cupido destes montes.”

LIX

Sua horrenda voz, não sua íntima dor,
Cabras aqui lhe interromperam, quantas,
Vagas o pé, sacrílegas o corno,
A Baco ousaram atacar as plantas.
Mas o pâmpano ao ver fero o pastor
Conculcado mais tenro, vozes tantas
Despediu ele, e tanta pedra a funda,
Que voz e pedras varam a hera funda.

LX

Dos nós, com tudo isso, mais suaves,
Os doces dois amantes desatados,
Por duros seixos, por espinhos graves
Solicitam o mar com pés alados;
Tal, redimindo de importunas aves
Incauto lavrador os seus semeados,
De lebres cópia dirimiu amiga
Que vário sexo uniu e um sulco abriga.

LXI

Vendo, o fero brutaz, com passo mudo
Correr ao mar a fugitiva neve
(Que, a vista igual, o líbico desnudo
Registra o campo de sua adarga breve),
E o rapaz vendo, antigas faias, rudo,
Agita, quantas cioso trovão deve :
Tal, antes de que a opaca nuvem rompa,
Do raio avisa a fulminante trompa.

LXII

Com violência arrancou ele infinita
A maior ponta de elevada roca,
Que ao jovem, sobre quem a precipita,
Urna é muita, pirâmide não pouca.
Com lágrimas a ninfa solicita
As deidades do mar, que Ácis invoca :
Concorrem todas, e o penhasco duro
O sangue que espremeu, cristal foi puro.

LXIII

Opressos tristemente os membros moços
Da fatal rocha vinda de mãos feias,
Os pés dos grandes vegetais mais grossos
Calçou o líquido aljôfar de suas veias.
Corrente prata enfim seus brancos ossos,
Lambendo flores e argentando areias,
A Dóris chega, que, com pranto pio,
Saudou-o genro, conclamou-o rio.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/39035/17/exuberancia-e-elegancia-nos-versos-de-gongora


quarta-feira, 6 de junho de 2018

SOBRE MENTIRA E POLÍTICA


“o mitomaníaco mente mal e o dissimulado mente bem”

Por que as pessoas mentem? Para quê as pessoas mentem? O que significa uma pessoa mitomaníaca? E não adianta ser hipócrita e mentir que nunca mentiu! Seria um paradoxo trágico, tal como o clássico “Epimênides, o cretense, diz que todos os cretenses são mentirosos.”
E o contrário, quando um diz só a verdade, devemos acreditar? Ora, a propaganda pode trabalhar só com a verdade e passar uma mensagem mentirosa, tal como a filosofia nazista de Goebbels da repetição de uma mentira à exaustão até que tal mentira se torne uma verdade, não é perigoso isso?
O contrário, dizer a verdade para afirmar uma mentira também tem sua eficácia e é terrível quando não sabemos realizar a distinção cartesiana de separar o verdadeiro do falso. Mais terrível ainda é quando a mentira vem sob a forma indecente da dissimulação. A dissimulação é um fingimento que tem eficácia para seus fins, ou seja, a mentira mais eficaz é aquela que vem junto com a dissimulação. Pois a dissimulação é um disfarce da hipocrisia que tem uma má intenção visando somente o benefício próprio ou um meio de evitar constrangimentos que a mentira da dissimulação oculta.
Portanto, temos dois tipos principais de mentira, a mentira do dissimulado e a mentira do mitomaníaco, a primeira com má intenção e a segunda constituindo uma patologia. Quando falo da diferença do dissimulado e do mitomaníaco, falo que o dissimulado é um psicopata e o mitomaníaco um psicótico. A diferença é que o dissimulado mente com má intenção e que o mitomaníaco mente por impulso fantasista, o dissimulado mente para obter vantagens e o mitomaníaco mente para preencher seu vazio existencial.
Ou seja, a mentira do dissimulado possui uma maldade pragmática que o mitomaníaco desconhece, o mitomaníaco mente mal e o dissimulado mente bem, o mitomaníaco é ó único que acredita na própria mentira, portanto, ele não mente deliberadamente, mas de forma inocente e inconsciente, enquanto que o dissimulado mente de forma persuasiva, já que todo psicopata é inteligente e consegue ludibriar as melhores cabeças, o dissimulado é um psicopata perigoso, ao passo que o mitomaníaco é objeto de compaixão por viver iludido, o dissimulado ilude os outros, o mitomaníaco ilude a si mesmo.
Mas, voltando à pergunta inicial: Por que as pessoas mentem? Para quê as pessoas mentem? Muitos mentem para fugir da dor, outros mentem para impressionar, nem todos são, então, dissimulados ou mitomaníacos, existem muitos que mentem que não são nem uma coisa e nem outra, essas duas categorias principais de mentirosos são apenas as mais evidentes. “O buraco é mais embaixo”.
Muitos dizem: Os políticos mentem! Ora, mas o fato é que todo mundo sem exceção já mentiu, é tipo o cara falando da sua primeira vez na cama, todo homem na sua primeira vez é um furor, já viu? Enfim, mentiras e boatos, o boato é uma mentira pública. E agora? O boato é a forma política da mentira, a mentira pública do boato pulula em épocas de eleição, é o fulano pego de calças curtas, é o desmentido do direito de resposta, e quem está com a verdade? Quem é honesto nesse jogo todo? Vamos pedir piedade dessa gente careta e covarde?
O conluio da política com a mentira e com a sua forma popular do boato impera na mídia, o vermelho diz que o azul é pilantra e vice-versa, pergunta-se: A favor de quem? Para beneficiar quem? Voltando agora novamente às duas categorias: O boato é objeto da dissimulação, a mitomania não tem eficácia persuasiva, a mentira do político é a mentira do dissimulado, a política é um meio de gente digna entre alguns ou muitos psicopatas, tenham cuidado ao votar, o sistema é foda e não perdoa!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38975/14/sobre-mentira-e-politica

quinta-feira, 31 de maio de 2018

MINHA LUTA COM O SOL-PENTAGRAMA – PARTE II


“do sangue nasce uma pomba branca anunciando que não haveria apocalipse”

O sol virá, cada instante será eterno, o sol quando
Cai em nossas mãos como sonho vermelho,
A luz de sua origem é fim de noite em aurora.
Corremos na vida com o livro aberto adiante,
Redemoinhos se formam no pesadelo de criança,
Notas do apocalipse eram tomadas naquele momento,
Um desenho é registrado com o sangue jovem,
Perde-se no tempo, depois do desastre a célebre canção,
A tempestade encontra o sol e se torna o céu com todas as vidas,
Virá o sol maior com todos os elementos da fúria,
Pintará de estrela firme de firmamento com voz de sepulcro,
Todos os lados do enigma ascendem ao espírito da manhã.

Eu sinto, com o ardor da noite, que o sol virá,
Os signos sentidos em dor pungente semearão
Nova colheita, a vida enamorada de vinha e macieira,
Toda flor do campo com montes sinuosos de harmonia,
Toca-se o corpo do sol que virá, o pentagrama
Se forma, a batalha espiritual começa,
Os lares esquecidos são destruídos pelo vento do drama,
O dharma é pronunciado com a substância primordial : o fogo.
Prometeu nos deu, o roubo de todas as eras das esferas,
Vingou-se Zeus, com trovão de grito supremo.
Voz do subterrâneo ecoou como na caverna de Platão,
Visões deste mundo ideal são realidades ocultas,
O signo do poder é uma espada dentro do coração,
Corta o silêncio com seu som de estilhaços,
A realidade partida vai de sombra a luz
Num claro-escuro renascentista,
Num volume de vestes nababescas
Como o reino do sol na paz mundial,
Surge Cristo em vida diamantada de amor,
O amor que ressuscita, a morte fere,
E o pecado esmaga!
Estou vivo, viverei eternamente!

Estou na palavra primordial, a sensação é de
Êxtase, eu vi essas coisas, eu as vi
Em minha alma, e dentro dela estava um sol,
Não sei explicar, era o sol no coração, nos olhos,
A compaixão se tornara irresistível,
Poderia ser um demônio produzindo o satori,
Ou a graça dentro dos simulacros de nossa História.
Não viverei para ver tudo que quero ver, as visões
São múltiplas, mas não são da totalidade do universo,
Nem seu sentido, nem a sua falta de sentido,
É o êxtase, é uma onda de sol com o espírito a flutuar,
Não há lógica, é só o brilho celeste de uma paixão.
Tenho o tempo em minha mão, não sofro mais as trevas
Da loucura, vejo o sol que virá,
Vermelho fogo em que luto na eternidade
Desta visão.

Enfim cheguei ao fim da estrada, logo viria a luta espiritual pela qual passara, eu vou então, desço do meu ônibus, com aqueles dois sonhos dançando em minha cabeça, olho para a vila, fico pela manhã nela, bebo água, tomo um banho de rio, e corro em direção das dunas para ver o mar, a praia é vasta, tão vasta como pode ver a visão, e a visão alucinada logo seria revelada, o livro da morte que um dia vou publicar tem destas armadilhas, um grimório dos 77 demônios que me possuíram quando era bem jovem, eu tive a salvação depois deste tormento, busquei a luz espiritual, e hoje sou um ser celeste com carne e palavra, sou o senhor da palavra, dela faço os conceitos, ideias, da palavra tenho o sentido fundante. Mas, ao chegar às dunas a casa dos meus sonhos ruiu, tudo o que tinha visto naquelas duas noites ao dormir me seria revelado naquele mundo infinito de areia e sol, a visão do horizonte me dá o sentido mais profundo de tudo que contém um espírito livre, a liberdade nos dá a chave da filosofia, a liberdade nos dá a voz da poesia, a vida interior se torna um palácio suntuoso do espírito livre, e eu teria a minha visão definitiva naquele dia, mal sabia que as visões dos meus dois sonhos eram o mais bruto e puro profetismo, tempo que se abre como borboleta que sai do casulo, esse é o sentido ontológico do profetismo, tenho decerto a sensação de fúria ao ver a morte, e a fúria de estar vivo quando a morte tentou lhe tocar, a salvação da alma é a cruzada do abismo, o abismo do sol se revelaria agora, meu corpo perdido na areia. A luta começaria, enfim.
Eu caminhei pelas dunas, estava no meio da tarde, uma tarde de sol gigante, calor escaldante, vi os montes de areia, subi num deles, e, de súbito, olhei o horizonte, o sol se transmutando num desenho de um sol inca, de um segundo ao outro o sol foi ficando laranja, depois vermelho, e aí um espírito oculto desenhou um pentagrama dentro do círculo de fogo, este sol inca e vermelho começou a virar o gigante vermelho, uma grande bola de fogo inca e vermelha que, então, com o calor de um inferno de Dante, desceu em vertical do céu em velocidade uniforme até a areia, seus movimentos eram de um ser consciente, dava para perceber que havia um princípio inteligente dentro daquela bola de fogo vermelha de inspiração inca, eu vi, eu vi com os meus olhos de carne, não era mais um simples sonho numa madrugada em um ônibus de viagem, eu via e não acreditava, talvez pudesse estar sonhando de novo, mas não, eu sentia a minha carne e o meu corpo, eu sabia que, desta vez, era uma visão plenamente consciente, não era mais um jogo simbólico-junguiano de sonhos imagéticos, eu via, não saberia descrever quão viva foi esta visão, as palavras são insuficientes, eu via, e custava acreditar, pensei que poderia ser o apocalipse, e lembrei do sonho do sol-pentagrama, logo percebi a centelha do profetismo, e então esperei a descida daquele sol furioso para a grande luta.
Depois do céu ecoar “Not To Touch The Earth” do The Doors quando aquele sol (um grande animal vermelho) descia, o sol-pentagrama foi em minha direção, se completaria a visão das visões, eu teria uma luta contra aquele bicho esférico e feroz, começa a luta, Miles Davis desce de uma nuvem azul e começa a tocar o seu trompete flutuando sobre aquela cena dantesca, eu via, e já não só via, eu lutava, meu corpo entrava em ebulição de guerra, eu teria que vencer aquele demônio em veste de sol, meu sol tão adorado, agora querendo me devorar, rolamos na areia, parecia uma dança macabra e pagã, um Vodu em transe, dancei o Sabá, a bruxa ria, os duendes riam, os 77 demônios de meu passado se reuniam para ver aquela batalha sangrenta, não saberia explicar suas fisionomias, eram tétricos, uns vermelhos, outros negros como corvos, uns azuis escuros, flutuavam em volta da duna em que se dava a luta, Miles parecia estar em outro plano, parecia estar me vendo, mas na verdade não sei, eu queria o fim daquela agonia, “Pharao’s Dance” entra no jogo, surge uma pirâmide de diamante no cume da duna em que eu rolava ferozmente com o sol-pentagrama, consigo enfim pegar a pirâmide e volto ela em direção ao sol furioso, sua própria luz vermelha reflete no diamante da pirâmide, esta luz vai em direção do próprio sol-pentagrama e este derrete e vira sangue, do sangue nasce uma pomba branca anunciando que não haveria apocalipse, que era o tempo da santidade na Terra, e de que eu era um homem livre.

EPÍLOGO: CANÇÃO DA SALVAÇÃO

Não virei anjo, eu vi o anjo.
Olhei o mistério com a alma
Em floração.
Eu refiz a canção da salvação,
Uma pomba branca
No meu peito,
Um dia vivido
Como se fosse perfeito.
O sol-pentagrama morreu,
Sua fúria vermelha derreteu.
Eu vejo o eterno
Como o sol verdadeiro,
Eu ouço a liberdade
Em cada vida bondosa,
Sou a alma que canta no céu
Como campo aberto ao coração,
Tenho a visão do espírito em cada ato,
Não surjo do inferno, venho do paraíso,
A Terra é cantada em sua santidade,
Santo virá, o sol virá,
O vinho vence o sepulcro,
A dor exauriu com a fúria infernal,
Estou salvo de minha maldição,
Tenho tempo para ver todas as coisas novas,
As coisas que compõem a natureza
Em seu espetáculo de vida infinita,
Pode-se ouvir os hinos angelicais
Nesta morada do prazer,
Vejo Deus como o sol que tudo vê,
Tenho a alma como reino do céu,
Longe do abismo do inferno
Que me possuiu,
Vou ao segredo, vou ao cerne,
E a vida se torna sagrada,
A vida no fim da estrada.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38903/14/minha-luta-com-o-sol-pentagrama-ij-parte-ii