PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 23 de dezembro de 2012

ENTORPECIDOS PELO SONHO AMERICANO


“Medo e Delírio é o coração do Sonho Americano pulsando no perigo e na adrenalina.”

   Li o livro “Medo e Delírio em Las Vegas” (uma jornada selvagem ao coração do sonho americano) de Hunter S.Thompson e logo em seguida assisti ao filme de 1998 baseado no livro. Gostei de ambos. Tanto o livro como o filme retratam bem uma época pós-hippie, o ano era 1971.
   Como quem leu o livro sabe, os fatos relatados são reais, não sei se um pouco romantizados, acho que não, apesar do recurso metafórico, em certas passagens, para descrever as viagens de drogas que os dois principais personagens do livro têm durante o decurso da história. Viagens que vão de haxixe, mescalina e LSD até éter e adrenocromo. Meus caros, Hunter S.Thompson, criador da narrativa de estilo transgressor e revolucionário batizada de jornalismo gonzo, era o que podemos chamar de um típico “doidão”.
   Hunter é nomeado para fazer uma cobertura jornalística em Las Vegas de uma corrida de motocicletas, a Mint 400. E, como se vê ao começarmos a ler o livro ou a ver o filme, Hunter não é um jornalista padrão, seus métodos de trabalho vão logo se mostrar heterodoxos ao extremo. A viagem a Vegas vai se transformar numa épica de drogas e viagens alucinadas e circunstâncias bizarras e engraçadas, para não falar perigosas. Hunter e seu advogado de “raça samoana” vão se aventurar na estrada. Alugam o Grande Tubarão Vermelho, um imenso conversível vermelho da Chevrolet. Aí começa a aventura gonzo rumo a Las Vegas a 160 Km/h no deserto.
   Eles seguem rumo ao Sonho Americano, dentro do conversível um arsenal de drogas e bebidas, ... One toke over the line ... era o itinerário que eles seguiriam para ver se era tudo verdade, se enfim conheceriam o Sonho Americano. Ao som de “Sympathy for the Devil” no último volume eles dão carona a um garoto que encontram na estrada no meio do deserto, logo começa a piração, Hunter rememora como recebeu a incumbência de cobrir aquela matéria, como pegou o conversível e juntou as drogas para levar na viagem, mas depois de umas loucuras, como uma viagem de morcegos voando em volta dali, o garoto se assustou e saiu do conversível, ficou no meio do deserto, ali era encrenca, pensaram Hunter e o advogado, mas seguiram adiante.
   Enfim, Hunter e seu advogado chegam ao hotel Mint, Hunter chega até a recepcionista, completamente transtornado, e se intitula Raoul Duke, o advogado contorna a situação com a recepcionista. Hunter estava louco de ácido, logo começa a viajar com lagartos e poças de sangue, um zoológico de répteis. Eles vão para o quarto. Logo depois vão, então, para o evento do Mint 400, e a cabeça do advogado de Hunter cheia de éter e ácido. Finalmente, porém, Hunter vai cobrir a matéria. Era a quarta edição anual da Mint 400. Logo em seguida saem as motos, de dez em dez, e somem numa nuvem de poeira. Depois os dois vão a um cassino atrás do “Sonho Americano”. Quando volta ao quarto do hotel, Hunter vê seu advogado na banheira, submerso em água verde. Ao lado da banheira, um rádio ligado na tomada. Hunter logo percebe que seu advogado tinha mastigado uma folha de ácido inteira, e no rádio estava a fita de Surrealistic Pillow da banda Jefferson Airplane, o advogado surta e pede White Rabbit, era uma viagem suicida, seu advogado queria novamente White Rabbit, e no clímax em que o coelho corta a própria cabeça queria que Hunter jogasse o rádio dentro da banheira, Hunter fingiu jogar o rádio e atirou uma laranja na banheira como uma bala de canhão, seu advogado começou a berrar enlouquecido, mas Hunter, a esta altura, já tinha tirado o rádio da tomada e colocado pilhas.
   Depois, a imprensa demanda nova tarefa a Hunter, cobrir a conferência nacional dos promotores públicos num seminário de quatro dias sobre entorpecentes e drogas perigosas. Era uma matéria para a revista Rolling Stone. Um jornalista gonzo numa conferência misturado com mil policiais de todos os cantos dos Estados Unidos para discutir sobre o problema das drogas, dessa vez num Cadillac branco ao invés do Grande Tubarão Vermelho. “Se os Porcos estavam se reunindo em Las Vegas para uma importante Conferência sobre Drogas, nada mais justo que a cultura das drogas mandasse representantes.” Disse Hunter.
   Hunter volta ao quarto do hotel e encontra seu advogado nu com uma menina que parecia bem nova e fica irado, o nome da garota era Lucy e estava cheia de pinturas do rosto de Barbra Streisand, levam ela para o aeroporto louca de ácido e mandam ela para o hotel Americana.
   Os dois vão à suíte do hotel em que estavam para a conferência, e aí começa a maior viagem, “Extrato de pineal”, Hunter toma adrenocromo (as glândulas de adrenalina de um corpo humano vivo) e logo depois começa a ter uma viagem alucinógena ouvindo a voz de Nixon na TV repetindo a palavra “sacrifício”. No dia seguinte, os dois vão à conferência sobre drogas trabalhar. Depois de ouvir um punhado de asneiras sobre drogas das autoridades, os dois ficam de saco cheio, deixam a conferência e descem para o cassino.
   Mais alguns percalços e tudo termina. Hunter conclui a sua jornada atrás do Sonho Americano, mas não chega a conclusões definitivas, a busca continua, Hunter passou seu tempo em loucuras com drogas para talvez ter a percepção do que seria o Sonho Americano, mas no caminho o que conta são os percalços, e a aventura. Não podemos levar uma vida comum, a vida tem que ser extrema, como extrema é esta narrativa gonzo de Medo e Delírio, um registro que é mais do que drogas e piração, é o coração do Sonho Americano pulsando no perigo e na adrenalina. Comparando o livro com o filme, sinto que o filme levou isto mais para o lado do humor ou da comédia, com os excelentes Johnny Depp e Benito Del Toro, mas o livro é mais visceral, sem dúvida, e um conselho: por favor, leiam o livro antes de ver o filme.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=4172&secao=14
   

   

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

DEVIR DO CORAÇÃO DESPERTO

Eu ouvi a matéria em sonho, com o espírito roxo de ar desesperado, eu vi a morte alucinada como decapitação de sondas em meu estômago. Na era de tudo já era, eu esqueci o lago, eu fui néscio na hora do amor, um corrente acorrentado, vi a pirâmide do holocausto em Cuzco, dos astecas vi o sacrifício, Tenochtitlán rimava com Vietnã em meu delírio. Na capa de morte nua eu sentia um arroto na nuvem e o cerne das especulações com a filosofia dando frêmitos em avessos de poesia, nada veria mais que ritmo intempéries a nota fria do karma condor na nódoa do deva que subia, o demônio azul era Totem, uma fúria e um avatar na senda soada ao término da sessão, Freud indagava o tema inóspito do quadro, ele não entendia a maçã, ele me propôs um jogo de xadrez, eu falava de celibato e de fumar maconha em Katmandu, amarrar os bagos, deixar a barba e os cabelos crescerem, Freud não entendia, nunca entenderia. Eu olhei outra vez a fórmula, nela botava elencos infinitos de comédia, Moliére com tonalidade de Artaud, Chaplin numa luta de antevisões, na noite via Hitchcock, a flor do abismo, Grace Kelly, a faca do suspense, o homem ERA  a sua própria mãe, um festim diabólico em vertigem, não cantaria na chuva com Gene Kelly por muito tempo, Pavlov veio com a sua máquina de fazer zumbis, não era a estrada que importava, mas o homem em seu motor previsível, tudo que estava fora da fórmula (deles) era anomalia, e não havia soluções ad hoc, só um prato de acordes dissonantes, a dissonância era térmica, a febre de convulsão, eu via o amor e fogo, fogo do Gólgota, via Jonas, via Elias sabendo do céu, eu entendia de cretinos amando suas sombras, eu via as sombras encantadas da dor de eternidade convalescente, donde se tem verso de Keats, verso de Byron, afogamento de Percy Shelley, o barco embriagado, passei impassível por rios risíveis, entornei a cerveja no túmulo de um alcoólatra, eu perdi o rumo, não perdi, perdi, não perdi, descobri, chorei, lamentei, não lamentei, lamentei, não lamentei, eu gritei, eu fui sedado, fui atenazado, um bom arrazoado, um doesto, uma compaixão, uma brutalidade, um doberman, não, dois rotveillers, não, dois dobermans, não, a placa de contramão, não, a flor mística, isso não é amor, é um dinossauro, que século de mãos! Nunca terei a minha mão, a domesticidade, um pão com café, você é linda, eu era tu és meu, eu sou tua és minha, não, eu quero quero pássaro, terror, comédia, eu som e fúria, aloprados, leão-marinho, tubarões, baleias, eu quase fui atropelado por uma moto depois de ser quase assassinado, depois nada, eu tinha dores, ninguém se importava, eu tinha dores, eu era o nada, não era nada, toma uma injeção de adrenalina que passa, passa nada, eles passarão, eu passeata. Nota de novo, não há nada no horizonte, veja só, um poeta e sua consorte, que sorte, olha a paisagem, não é nada, nada há nesta terra de ninguém, não somos a grande inteligência, não somos inteligentes, não temos o controle do universo, um asteroide e tudo acaba, um asterisco e tudo é risco, eu morro, você também, eu corro, você não, você dorme, a vigília é para poucos, não há soco na noite dos ratos, há vinho e porrada, a paixão revoltada, não sou eu! A paixão jovem muda surda cega. Lota o show, eu chuto o ar, eu grito pelo ar, um velhinho me recolhe, eu estava indigente, diga agora qual é o teu sonho amor meu que és tua minha eu tu teu sou, não tem paisagem, tem estrada, vamos à estrada, não leva a nada, só diversão, só happinessssss ..... quantas lágrimas? quantas loucuras no caderno? Ore por Deus, ele não sabe o que faz. Não chore por mim nesta noite, eu sou alegre, ser alegre é melhor do que ser triste, veja o horizonte, não leva a nada, não tem nada, só diversão, happiness? Só doce, a vida é doce, vamos tomar heroína, vamos dançar hero, look! A moda da caverna, eu citava Platão numa rave, eu catapultava os sonhos de ecstasy, eu entendia todos, era a fuga, era centauro, era o dia amanhecendo, as gostosas não me davam mole, um cara caía de tanto esteroide e lança-perfume, hoje tenho o olho de shiva, charada, orbital, tudo na minha mente louca, eu tenho um chevrolet velho que já saiu pela noite linda, você é linda, no meu chevrolet pra ver de qual é, pra noite de sumo sacerdote do rock and roll, para ouvir Hendrix no volume máximo e totalmente caretas! Vamos por aí, não leva a nada, só diversão, happi ............. nesssssss ...... é verão, relaxa que tem tempo, somos ilusão, não leva a nada, vou ao Cairo cair em Goa, vou ver-ouvir trance a noite toda, a vida é doce, tem tempo que não nos falamos, a vida é doce, você é linda, não leva a nada, tudo eu gosto, notas musicais, livros de filosofia, Neruda e Lorca de um lado, João Cabral e Ferreira Gullar de outro. Ainda não tenho aquele disco do The Doors, Waiting for the sun? Strange Days? Eu gosto muito de Axis Bold as Love, Band of Gypsys é totalidade, Janis é soluço, Cream é LSD, eu espero o sol, vou pintar a lua de sol, o sol nascerá na lua e a terra é azul, não importa, não pega nada, não leva a nada, a vida é assim, caos, anarquia, poluída, eu quero o instante, tenho que estudar Budismo, passo por Thimpu, por Lhasa, desço ao Ganges, vou me banhar com Krishna, sabe-se lá o samadi, Bhagavad-Gita Mahabarata, avatares, tudo pelos ares. Quando o sol vier, diga amém, tudo passa passa vem volta corre desmaia morre vive grita silencia tudo é mais tudo é menos quanto mais menos assim passado presente e futuro se juntam no caleidoscópio, a luz entra no prisma, é o fim, é o começo, eterno retorno, devir, vejo Tantra, danço samba, dou cem mil voltas e venho de guerra longa, assim é a vida, poesia flui porque quer, Heráclito sabe de tudo, sou um rio dentro de uma bacia chamada universo.

10/12/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

domingo, 9 de dezembro de 2012

O CHEIRO DO RALO DE MUTARELLI

   Lourenço Mutarelli, escritor brasileiro contemporâneo, não começou sua carreira no ramo da literatura, mas sim como quadrinista, chegando a trabalhar com Maurício de Souza. Depois, já na década de 80, tentou publicar suas estórias em quadrinhos sem muito sucesso, pois a estranheza do que ele fazia não foi muito compreendida no início, mas Mutarelli se tornou, com o tempo, reconhecido, mesmo que num nível "underground", o que também caracterizaria seus romances, e é disso que vou falar aqui, mais especificamente de O Cheiro do Ralo, que foi uma obra muito bem sucedida e que ganhou até uma versão no cinema com a direção de Heitor Dhalia e tendo o consagrado ator Selton Mello como protagonista, o qual encarnou o narrador e personagem principal do livro de Mutarelli, e que no filme recebe o nome de Lourenço em homenagem ao escritor de O Cheiro do Ralo, personagem e narrador  que, no livro, na verdade não tem nome.
   O tom urbanoide em um misto de escrita descompromissada e niilista, numa forma que parece tosca, mas que cria o efeito desejado de um mundo niilista, niilismo que vem junto com o narrador e personagem principal, sobretudo no amor e na sua ideia de que "não gostava de ninguém", reflete na frieza de seu trabalho, onde a especulação de valores de quinquilharias vira um jogo que vai permear todo o romance, numa narração reta, limpa e sem preciosismos, ou seja, numa narração simples e nenhum pouco afetada.
   Mutarelli mostra um mundo da cidade, um mundo de solidão e de pessoas desesperadas, desespero que acaba por bater à porta do narrador no seu trabalho de compras e vendas de objetos usados na sua loja, o niilismo percorre todo este clima urbano que culmina na total falta de vínculos do personagem e narrador, ausência de sentimentos que vai nortear a sua relação com as pessoas no romance, principalmente com aquelas que vão à sua loja tentar vender alguma coisa, o que vai da manipulação ao senso de objetividade fria entre os valores dos produtos, tudo se torna um jogo frio em que a vantagem está na maioria das vezes com o narrador. E a narrativa de Mutarelli neste romance é fragmentada, orações coordenadas em sua maioria, uma narrativa que lembra uma fala de cortes, sem compromisso com a "garnde literatura", e é o que faz deste romance um livro de fácil leitura e que reflete muito bem todo o vazio contemporâneo, como se vê nas noites em que o narrador liga a sua TV e zapeia os canais em busca do nada, em busca de satisfação para o tédio urbano e para a sua solidão em uma cidade de fantasmas.
   E os fantasmas vão povoar a loja, uma sucessão de pessoas que vão à loja do narrador, e a justificativa do título O Cheiro do Ralo, que é o cheiro de merda que sai do ralo do banheiro da loja do narrador, cheiro que será uma espécie de enigma que vai levar o narrador a uma especulação de sua condição, cheiro do ralo que é o cheiro dele, como dirá um homem que lhe tenta vender um violino. Ou a sua obsessão com a bunda de uma garçonete numa lanchonete, que ele só frequenta para ver esta bunda, e ele reflete profundamente sobre esta bunda, come seu hamburger e traz um livro, a garçonete pergunta qual é o livro, isso se repete algumas vezes em alguns dias, a garçonete diz que lê a revista dos Astros, o narrador começa a fazer livres associações, numa trama que começa a se tornar psicológica, mas sem psicologismos, apenas em termo especulativo, o narrador associa a bunda com o ralo, o narrador liga a sua obsessão pela bunda da garçonete com a sua obrigação de comer hamburgeres só para ver esta bunda. Ele então tem que ir ao banheiro fazer suas necessidades, o cheiro do ralo está lá, cheiro de merda, cheiro da sua merda, o narrador diz ao encanador que vai lá ver o ralo que este é o portal do inferno, não há saída, o destino do narrador está entre a bunda da garçonete e o cheiro do ralo.
   Mutarelli propõe o enigma do cheiro do ralo, o narrador está vinculado ao cheiro do ralo, o narrador está obcecado pela bunda da garçonete, então é o que se entende do narrador, seus vínculos são estes, não há sentimento, a garçonete quer sair com ele, ela o faria ver a bunda sem pedir nada em troca, o narrador oferece dinheiro para ver a bunda, a garçonete se irrita, depois tudo se resolve, ele vê a bunda. A alegoria da visão no livro está muito bem retratada, o narrador carrega um olho, ele leva este olho para ver várias coisas, ele mente que é o olho de seu pai que morreu na Segunda Guerra. Agora o clímax está em jogo, e o jogo fica perigoso, o narrador terá um fim trágico. Uma mulher feia que tinha sido despida por consequência do narrador em sua loja, volta e lhe dá tiros. Ele termina a sua narrativa. Rosebud, a bunda. "Beijaria a bunda, como se fosse a única" ele diz. A tragédia, talvez seja este o sentido do niilismo, o cheiro de merda, o ralo é só o portal do inferno, o narrador morre, está tudo acabado. "A vida é dura" (Frase repetida no livro).
   "A bunda era o contraponto do ralo. Esse ralo eu mesmo dei vida. Esse ralo é para onde projetei o escuro que sou. Esse ralo é o que lhe emprestei. O ralo e a bunda, dois extremos. Dois buracos extremos. Um leva ao interno do ser, outro ao interno do mundo." (O Cheiro do Ralo, página 170, Editora Companhia das Letras, Lourenço Mutarelli)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

   
  
   Link da Século Diário: http://www.seculodiario.com.br/exibir.php?id=3909&secao=14

HINO DA SALVAÇÃO

O banquete sobrou de uma via esquecida,
era tempo em discórdia com flor azulada,
febre manchada pelo tempo malquisto,
pelo tempo manchado o poema escrito.

Os dias passaram na pena armada,
na flauta do drama dos comediógrafos,
na conquista do nada em fundo celeste,
com ardis de comarca pela lei furtada,
e os sinos vingaram o leme
com sal de sol em minha arfada,
lua negra de dor desalmada,
plêiade ofuscada em mar de esmeralda.

O mar estava alto,
como um contralto,
como um lago,
como um rio amargo.

O mar revirou suas ondas
em meu corpo dócil,
a sutileza da noite abriu
os sete livros que diriam
estupefatos o segredo da alma,
uma alma de topázio
com frio e gotas de álcool,
uma embriaguez sonâmbula
com poeta e sangue
em flor de berilo
com finos toques
da turquesa azul,
com labor detalhista
de uma ode poeirenta.

Os sinais eram evidentes:
Morte. Loucura. Salvação.

Os sinais eram evidentes:
poema escrito, nascido,
suicidado vivo,
vivo como o sol depois do inferno,
vivo com luz de brio
nas ancas ondulantes
de outro corpo fêmea
que vingou o verso
no hino renascido.

03/12/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

VÉU NOTURNO

A carne misteriosa olhou a chama,
levou eras de dor e anarquia,
como miasma na flor romantizada.

Eu lembrei o sino vertical
das hostes enevoadas,
com mel de vinho em frio rúbido,
com fel liberto de corpo fustigado.

O anel balançava com flor de bruma,
um rimou com outro em veste muda,
um dançou com o outro em vinho de surra.

O céu alimentou o sonho redivivo
com harmonias celestiais como
anjos empenhando suas espadas,
com livros caindo das estantes
de uma dor eterna e fria,
com longitudes sem fim
do vestíbulo de uma caça matada.

A flor extraordinária dos campos hostis
nasceu como refugo de fome atormentada,
eu lia em seu crepúsculo um temor
de vigor emanado,
qual cão que ladrava
na noite que gritava
com o sal tonitruoso
dos corpos em risos
de canção embriagada.

O leme de tal nau despirocada
era terror se avizinhando
dos poetas de acinte ao sistema bruto,
com voz brutalizada e corpo seviciado
se conformava a força de um cometa,
de suas dores avultadas
saíam gramaturas e máquina azeitada,
de seus torpedos de alegria
uma ode espantada
com o sol rúbido
qual sangue de proscênio,
um sangue inoculado
nas trevas de comédia
com sorrisos e choros
deglutidos como um som único
de corpo luxurioso,
de fragor lúbrico
com estalos e gemidos
na ideia precípua
dos castelos em versos
que a alma ditou
no esmero da pena
qual luta já vencida.

Eu olhei a estrela de véu e grinalda,
e não era febre de poeta,
era a cor do poema
como luzidia poesia.

03/12/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

VELOCIDADE DO TEMPO

                          
   Os ossos contorcem de dor na esfera náutica dos meus espasmos, não sei o dia adventício das mortes totais, eu vejo o todo enfurnado em si mesmo como uma cloaca gigante em termos de História e sangue.
   Não sei o contorno da astúcia e os meandros do medo, eu vejo lancinado os horrores que surgem de um nada esférico de tempo e luxúria, eu controlo o tempo em suicídio, eu tenho o tempo de regozijo numa pátria morta de tanto amar a fúria, eu tenho gozo da máquina acidental de meus poemas, não consigo transpor a porta do infinito, não vejo em mistério o véu de Ísis como miragem de um ser absurdo e paralelo, navego na alma do tormento, navio fugido do esquecimento, parto nascido de antros pútridos de nababos e dançarinos.
   Vejo a época nua de teus maxilares, entro na noite como apaniguado do poder dos déspotas, faço a onda material na super sônica cor das astrais canções, livro o pecado de sua morte, livro o mercado de sua sorte, a economia dos solos de guitarra não devem se conter, é uma opulência de fardo de toda a viga de contemporaneidade, de toda virtude de ser avant-la-lettre, de ser vanguarda partida em fogo de amálgama, em ser flor de vultos negros na dura lição da constelação, não há nada que me segurar quando esburra o sangue na liberdade atômica de sua bomba, uma hidráulica de âmbar com soluços de vitória depois da morte penhorada ao susto de um assassino incompetente, de um frio na jugular da febre doente, de um vidro em minha carne procurando a minha veia aorta, e nada de sátrapas e vizirs na aleluia do folguedo de um préstito de volições de terror em vinho e pura aguardente.
   Na barca espantada dos vícios inominados, reinava Moloque em seu trono aparatado de Sodoma, lúbrico como a vida dionisíaca em tédio de orgias, não soçobrava o meu corpo e nem a minha alma, eu levitava incólume sobre a dor da mulher amada, e a viga do castelo rimava com frio e com nada, viciava em carne desnuda em temor de frutas e cristais desencontrados no labor que não ruminava nada mais senão o corte do pulso ao fim da noite.
   Eu vi a esmeralda no meu caminho como flor de lótus em toada de veloz e tórrida mansarda, não cheguei ao termo das danças noturnas em tom sincopado de respirações anárquicas, e a voz da noite não olhou vinho e tédio temerosos em minha maqúina de soluço na vigiada festa dos libertinos, a ciranda era mefistofélica, não havia outra senda para um Fausto com medo de belezas angelicais, o anjo não havia nascido de sangue de corcéis em tal noite abduzida de caos e febre amotinada.
   As bombas soltas na vilania da estrada não miravam o sentinela, mas ele morreu com o grito de vida na dor entrecortada, não restava nada de seu corpo naquela noite em que ele visitou o além, e os dias se passaram como rouxinóis cantantes na dor da estrada que levava ao nada, sua família chorou a guerra dos abismos em que todo o luto ressoava, não havia mistério em sua dor lembrada, tudo era o suor em sangue de sua roupa lavada, e o fim da noite se iluminava com o clarão de um avião em tour pela morte fetichizada.
   Os ardores do karma em que se ruminava a máquina não era dor de fúria rememorada, era cão e era nada, tudo jogado pela dor da estrada, a nau afundava, o rio castanho da flor de dezembro nascia suada, uma flor florida de flora destinada, um amor revivido de poeira e de cantata, concerto visceral com ametista em tom ritmado de poesia, nada de aleivosia, nada de histeria, uma luta simples com o silêncio da pena manifestada.
   Eu fui ao centro da terra lembrar de tudo que via na dor da estrada, eu trazia em meu paletó um diamante de cor matizada, de linda bruma secada, de luto pela rimada funesta dos meus karmas, um livro na maleta para a hora marcada, e um lema dentro dele para usar nas vigas de frio quando cair a noite gelada, eu não esperei cair a estrela para ver o sol de novo como poema vivo, eu caí na chuva com dor mordida de flor amaciada, eu caí no nada como poeta sem dinheiro para pagar meus cheques fantasmas, eu era o livro e a mansarda, eu era meus filhos como nota de lufada, o vento soprou na máquina atarefada, eu sentia com a certeza de um vulcão toda a luta manada de caos em minha alma, e acordava o animal furioso na contenda que ali surgia, eu tive o gosto de sangue em luta armada, eu eu vi que minha musa era a mais amada, por mim e pelo meu sabor de perigo.

03/12/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

domingo, 2 de dezembro de 2012

LUTA ARTÍSTICA

Das ancas da pedra polida,
dos átrios soturnos do pagode,
dos hinos sepulcrais de sua consorte,
o poeta abre o livro das escrituras,
vigia em vão os ritos legais,
uma flor nasce de seu peito árido,
flor de semblante maduro
de canto forte como a dor.

Eu leio o poema em rimas soltas,
a liberdade rumoreja
no correr do rio,
o espanto se fundamenta
com o uivo da arte deflorada,
uma ira e uma risada,
um fardo de raiva,
um atlas para ver
terras ignotas,
um pomo da discórdia
em vã terapia
de loucos.

A liberdade composta
na exaustão dos dramas
talha um homem vencedor,
e de sua pena de poeta
não há pena e nem dor,
reina o mistério
de sua sobrevida
como sangue e como horror.

02/12/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)