PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

terça-feira, 1 de setembro de 2020

MATILDE CAMPILHO TEM VOZ PRÓPRIA EM JÓQUEI

“Jóquei tem norte, tem estilo, tem personalidade”

Matilde Campilho já tinha uma certa reivindicação de uma edição de seus escritos desde a sua atuação no Facebook, aonde inicialmente foi publicando os seus poemas, e os poetas brasileiros que a liam foram incitando a poeta a editar o que ela estava fazendo, mas Matilde adiava a edição destes poemas, até que decidiu fazer uma ação sistemática, o que foi seu retiro para fazer seu livro Jóquei.

Jóquei não se trata somente destes poemas que apareceram no Facebook, mas um novo material que Matilde tornou em um PDF, e acabou recebendo no dia seguinte um e-mail de Pedro Mexia, que a descobriu por indicação de um amigo. Jóquei demandou um ano inteiro de trabalho de Matilde Campilho, quando ela deixou o emprego e ficou fazendo freelance, num jeito de escrever rápido dentro de ônibus, por exemplo, e depois se debater com os poemas.

Matilde nos diz : “Foi mais de um ano assim, acordar para escrever, ir dormir depois de escrever. Claro que a vida acontecia na mesma - amigos, cervejas, mergulhos, chuva, empregos, tudo. Mas durante aquela temporada havia um eixo central (…) [que] era o livro.

Quando comecei essa temporada nem tinha a total consciência de que ia ser assim tão firme, tão constante. Mas foi. Foi uma prática diária, e quase tudo o que se pratica diariamente se afina e ganha as suas próprias regras. E ao mesmo tempo acaba dando uma regra à vida. Foi um tempo muito bom, ganhei uma cadência e um sossego que contaminou quase todos os meus gestos. É como um ginásio, sabes? Como fazer jogging todas as manhãs. Fica no corpo e muda o corpo. Fazer este livro foi muito isso”.

E Jóquei foi ganhando este corpo imenso de uma polifonia de poetas e cantores, muitas vozes ecoando nestes poemas, e Matilde fazendo desta mistura seu próprio estilo, que tem um tributo especial aos norte-americanos como Frank O'Hara, Allen Ginsberg, Ferlinghetti, John Ashberry, Kenneth Koch, Wallace Stevens e william carlos williams.

Matilde leu bastante, e também traduziu muito. Matilde, falando destes norte-americanos, ela fala que o mais marcante talvez tenham sido “aqueles norte-americanos todos”. Ela diz : “Acho que foi com os norte-americanos que aprendi o ritmo, aquela coisa quase de canção que muitos deles têm”. E Matilde também faz tributo a figuras como Octavio Paz e Antonio Cisneros, e seus conterrâneos como Ruy Belo, Daniel Filipe ou Fernando Assis Pacheco.

Por fim, com a sua vinda ao Brasil Matilde Campilho teve também a influência dos textos que Caetano Veloso escrevia no jornal e nas costas dos discos, que também tem ecos eventuais em Jóquei. O Brasil é um evento de gratidão para esta poesia que Matilde produziu em Jóquei, com este seu lado virado também para Portugal, como disse em meus outros textos sobre este livro e sobre Matilde.

Matilde consegue criar um caleidoscópio de cosmopolitismo mais do que de ecletismo, a mistura que temos em Jóquei tem norte, tem estilo, tem personalidade, sua polifonia, sua babel, portanto, não tem nada de um ecletismo pejorativo que não resulta em um material coerente.

Em Jóquei, muito pelo contrário, a mistura de ingredientes que Matilde realiza e dos quais se apropria é muito mais para dar ao seu ritmo um caminho próprio na poesia, na SUA poesia, e Matilde Campilho alcança este seu objetivo, Jóquei é um livro que lhe pertence, tem a sua assinatura inconfundível.

POEMAS :

BADLAND : O poema começa com uma dúvida sobre o gênero sexual da voz poética, lembrando, que em algumas partes de Jóquei, Matilde gosta de brincar com esta ambiguidade, assumindo, às vezes, em seus poemas, uma voz masculina fictícia, esta mania de Matilde também de se dirigir a um interlocutor percorre obsessivamente os versos de Jóquei, no que temos : “Não sei se sou homem/já não sei se sou/homem/se sou besta/se tenho olhos azuis/ou mesmo se visto/camisa azul.”. O poema evoca uma dúvida, Matilde desperta aqui um questionamento e fundamentalmente uma interrogação, no que vem : “Não sei se sobre meu ventre/foi depositada uma concha, há uns./1.000 dias atrás. Não sei se sou automático, se devo/trabalhar, pagar o revólver a prestações,/fazer remo, correr na calçada, usar/camisa esquadrinhada, escrever em/cedro esquadrinhado.”. Matilde não tem uma memória plena, se esquece dos nomes de poetas, e segue em seu poema do que ela não sabe : “Eu não sei os nomes/dos poetas todos mas sei que os poetas/todos são os novos roqueiros.”. Evoca o amor, que promete ser intenso e segue seu curso normal, logo após, com os pés na realidade, e que tem muito a nos ensinar, no que vem : “Aquele amor/aquele que eu pensei/que se despedaçaria como/um meteorito no Minnesota” (...) “afinal caiu silencioso/como um aviãozinho de papel/passeando em Itaparica/em dia de apanha dos morangos.”. Matilde finaliza, aqui, com esta dúvida de gênero sexual, a ambiguidade da voz poética de Matilde dando a cara mais uma vez neste poema simpático : “Não sei se sou homem,/se sou mulher. Mas este/é o caminho do estio/e por perto passam os bois.”.

GNOMON : O poema tem um desejo intenso, a faculdade do querer em toda a sua potência, no que temos : “Eu queria tudo como/no livro monogramado/A musa/As crianças/A discussão à chuva/que nos obrigaria a perceber/a circularidade mística/de algumas árvores”. Matilde quer tudo, no que vem : “Queria tudo como/no lenço das aparições/O gengibre assustando-nos/de vez em quando os pratos/O morro da Lopes Quintas/que você nunca chegaria a ver/Mas que certamente verá/Só não mais por meus olhos”. O querer que, normalmente, vem de um desejo de mudança, e mais radicalmente, de transformação, no que temos : “Queria tudo em jeito de promessa/de um acontecimento que mudaria/a percepção da sombra humana/Mas você insistiu em morrer/Você sempre insistia em morrer/e finalmente conseguiu”. No entanto, em meio a estes quereres, eventualmente, existem adversidades, e até mesmo tragédias, é a vida como ela é, e este poema a conhece, a vida, também, e narra de forma natural o curso dos acontecimentos, no que temos :  “Acontece que agora/Mil anos depois/do enterro de sua bandeira/Depois do choro/Depois da impressionante mudança/nas ocorrências diárias do mundo/Você fica se queixando/Sobre a queda da musa/Sobre a saudade das crianças/Sobre a reprodução profícua/de certas árvores no jardim.”. Matilde então segue a narrativa da sensação que vem após completar 30 anos de idade, no que temos : “As coisas que a gente aprende/depois dos 30 anos : sempre achei/que os mortos fossem mudos/E afinal os mortos se descontrolam/no exercício alto da sintaxe.”. A ideia de morte e da voz dos mortos, aqui nesta coda, fecha o raciocínio com uma naturalidade que podemos chamar de poética.

O AMOR FAZ-ME FOME : Aqui temos um dos poemas em prosa de caráter fluido de Matilde Campilho, no que vem : “Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made/E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas/em vouchers de correio ou publicidade não endereçada/Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem/cafés da manhã para entregar ao domicílio”. O poema segue sobre o tema da entrega a domicílio e logo divaga sobre Rimbaud, saltimbancos, e depois retorna à comida, e o tema da paixão, no que temos : “No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem/mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud/Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias” (...) “A comida não era de todo o que mais nos interessava/se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente/para rebentar-nos o estômago até o nível da alegria”. Mais uma vez, como Matilde fez em outros poemas de Jóquei, ela se refere a esta sua idade que acaba de passar dos 30 anos, no que temos : “Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver/os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev/Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas/se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan”. Um tour rápido por Kiev, um sniper, as ruas venezuelanas, enriquecendo o poema em prosa que reforça a sua fluidez nestas imagens, e segue : “Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso/mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas/e entre os galhos de fogo de um gigante inverno”. E temos o amor, tema poético par excellence, em uma chave cool e contemporânea, no que vem : “O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras/A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas/Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos/Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal/Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei/Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio/Seja como for o amor ainda me faz bastante fome/e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda revolução/Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos/tomar café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.”. E Matilde e seu miúdo, enfim, corrompem a chave de prata do poema e vão à rua, fora do domicílio, a chave de ouro ou coda formam a surpresa de uma decisão nova da poeta.

PAZ, PALAVRA ÚTIL : O poema lembra mais uma vez Whitman, um dos poetas-fetiche de Matilde, podemos compará-lo somente à presença de T.S.Eliot nesta citação de poetas que Matilde faz em seu livro Jóquei, no que temos : “Estava lendo Whitman/e lembrei de você/Isso para começo dos trabalhos/já é mais ou menos bom sinal”. E Matilde faz esta colagem em que produz seu poema próprio de Whitman, no que temos : “Quando descobri o tal poema curto/que lá para o meio do corpo diz/“the pay is certain one way or another”/Não foi exatamente por isso/que lembrei de você/Até porque esse é um poema/que fala daqueles amores assim/longos, assustados, algumas vezes/raivosos e geralmente/de correspondência difícil”. E o poema vem com o tema do amor, esta âncora comum dos versos clássicos, mas que aqui aparece junto com outros sentimentos como o espanto, no que vem : “Um amor daqueles semieternos/que faz escrever um livro/ou um punhado de versos” (...) “O que aconteceu foi que/por causa do espanto/precisei coçar o queixo/levar as duas mãos à cara”. E o evento do poema explica o fato da memória que o poema evoca, no que temos : “O que aconteceu foi que/por causa  do gesto indecifrável/ou da estocada da memória/o livro caiu no chão do trem/E então a queda ferroviária/fez voar o marcador das páginas/Veja só : era o cartãozinho/do bar dos pescadores”. E aqui temos o esclarecimento de todo o tema do poema, no que temos : “caindo a meus pés/Foi por causa do nome da rua/que vinha escrito no cartão/O endereço do boteco/do sol & das fainas/Que lembrei de você” (...) “E daquele mês/de ouro na cidade-norte/Quando tudo ia bem/hiper mega bem/com as 4 vidas/transatlânticas.”.

TENHO PLANOS PARA UMA CONFISSÃO : O poema segue em seu imprevisto e o que se  espera, e se abre nesta tensão da razão desafiada, no que temos : “Foi em novembro de dois mil e tal/em Ipanema/Fazia frio e não devia/Chovia como era previsto/E algumas dessas coisas/nos confundiam/Eu era demasiado novo para o desterro/Um pouco velho já para certas aventuras”. E o poema ganha um tom reflexivo, no que temos : “Meu rosto não se transformava/mas a paisagem sim” (...) “Maria meu velho tesouro/não me acompanhava mais/Os canaviais, as abóbadas do Arkansas,/as feridas no rosto e os recibos de pensões/iam caindo no caminho como balas de açúcar”. O poema fala do pensamento, da reflexão do tempo, da memória, no que temos : “Era nisso que eu pensava/quando não pensava em nada/Foi no novembro de Ipanema/quando me acertei com a meditação” (...) “A vida nunca foi tão pacífica/Desistira facilmente dos troféus”. E as consequências do tempo, em toda a sua densidade existencial, no que vem : “Meus amigos iam se retirando como lascas/Eu ia aproximando o rosto das orquídeas/atadas nas árvores pelos porteiros de Ipanema” (...) “As manhãs eram todas de ouro/E à passagem de cada uma delas/eu atava uma nova pulseira em meu braço/Foi um poeta quem me disse/Que os gêmeos se distinguem pelas cores/das fitas amarradas em seus pulsos/Eu queria distinguir-me de mim mesmo/Como um urso que fareja as moedas/entre os cachos de erva”. O poema segue seu curso, e temos : “Certa manhã, entre as colunas/de fogo que de vez em quando/se levantavam no terror das esquinas,/apareceu o rosto doce de Antonio/Fotografei-o com minha câmera descartável/E essa imagem desfocada é a pagela/que trago dobrada em meu bolso até hoje”. A voz poética, depois de todo este trajeto, faz uma bela descoberta, foi feliz, coda magistral de Matilde : “Aqueles foram meus pleitos literários/entre o mar e a cidade/E, como disse o santo da fotografia,/na verdade fui feliz.”.

WE NEVER DID TOO MUCH TALKING ANYWAY : O poema descreve ambiguamente Coney Island, e contradiz apontando para um outro lado, no que temos : “Por exemplo/esqueça Coney Island/e as trezentas peças/de metal que compõem/o jogo mágico de Coney/Island no mês de agosto”. Evoca a lembrança, no que temos : “Lembre de meu fascínio/profundo por desportistas/noturnos que sincronizam/a respiração com o batimento/dos dedos da amante morta” (...) “Lembre do quanto me iluminam/os animais talhados no marfim”. O poema faz este jogo entre lembrança e esquecimento, mais uma vez Matilde coloca o tema aqui da memória, no que temos : “Esqueça talvez/a manobra repetida/de lamber envelopes/no silêncio de um quarto” (...) “Lembre que por vezes/você tem muita razão/e que outras vezes não/Esqueça vá esqueça/o inverno em Ipanema” (...) “Lembre de meu desejo/muitas vezes certo/muitas vezes não” (...) “E se puder não esqueça/o rosto calmo do tigre/que está parado na porta/esperando para entrar/e para depois nos atravessar.”. A riqueza de imagens do poema conversa bem com os motes ambivalentes da memória, que são a lembrança e o esquecimento.

POEMAS :

BADLAND

Não sei se sou homem

já não sei se sou

homem

se sou besta

se tenho olhos azuis

ou mesmo se visto

camisa azul.

Também já não sei

se seguro um toco

meio ardido, aqui sentado

na esplanada desta cidade

cujo nome é Tavizkam.

Não sei se sobre meu ventre

foi depositada uma concha, há uns.

1.000 dias atrás.       

Não sei se sou automático, se devo

trabalhar, pagar o revólver a prestações,

fazer remo, correr na calçada, usar

camisa esquadrinhada, escrever em

cedro esquadrinhado. Eu não sei

se possuo uma barca, se possuo

ossos que podem apodrecer

a qualquer hora. Eu não sei os nomes

dos poetas todos mas sei que os poetas

todos são os novos roqueiros. Eu não

sei, só sei que antes julguei que

os poetas eram escavadores.

Aquele amor

aquele que eu pensei

que se despedaçaria como

um meteorito no Minnesota

(uma coisa assim

estrondosa abusiva

gritante maravilhosa

estilhaço prolongado

cheio de uivos)

afinal caiu silencioso

como um aviãozinho de papel

passeando em Itaparica

em dia de apanha dos morangos.

 

Não sei se sou homem,

se sou mulher. Mas este

é o caminho do estio

e por perto passam os bois.

 

GNOMON

Eu queria tudo como

no livro monogramado

A musa

As crianças

A discussão à chuva

que nos obrigaria a perceber

a circularidade mística

de algumas árvores

O choro

O recado escondido de Chillida

Queria tudo como

no lenço das aparições

O gengibre assustando-nos

de vez em quando os pratos

O morro da Lopes Quintas

que você nunca chegaria a ver

Mas que certamente verá

Só não mais por meus olhos

(como você ainda disse :

o caleidoscópio através

do qual sucedia o mundo)

Queria tudo sobre o pano

de um chapéu de tirolês

Tudo tão importante quanto

a descoberta grega

do ângulo de noventa graus

Queria tudo em jeito de promessa

de um acontecimento que mudaria

a percepção da sombra humana

Mas você insistiu em morrer

Você sempre insistia em morrer

e finalmente conseguiu

Acontece que agora

Mil anos depois

do enterro de sua bandeira

Depois do choro

Depois da impressionante mudança

nas ocorrências diárias do mundo

Você fica se queixando

Sobre a queda da musa

Sobre a saudade das crianças

Sobre a reprodução profícua

de certas árvores no jardim.

As coisas que a gente aprende

depois dos 30 anos : sempre achei

que os mortos fossem mudos

E afinal os mortos se descontrolam

no exercício alto da sintaxe.

 

O AMOR FAZ-ME FOME

 

Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made

E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas

em vouchers de correio ou publicidade não endereçada

Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem

cafés da manhã para entregar ao domicílio

Perdão queria dizer pequenos-almoços

deixemos o café e as manhãs para outras dinastias

No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem

mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud

Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias

Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa

Dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco

às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade

A comida não era de todo o que mais nos interessava

se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente

para rebentar-nos o estômago até o nível da alegria

Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições

assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico

Acostumamo-nos desde muito cedo a sair das celebrações

de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas

Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto

e então os dois acelerávamos até a praia mais deserta do país

Nem por isso deixamos de nos escapar aos acontecimentos

mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro

Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias

às quais dedicamos quase toda nossa juventude igualitária

Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver

os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev

Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas

se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan

Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo

do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia

Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso

mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas

e entre os galhos de fogo de um gigante inverno

No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão

Hoje eu acredito nas experiências que me contam os homens

Ontem éramos os filhos dos netos da revolução

E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo

o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção

Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos

e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução

O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras

A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas

Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos

Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal

Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei

Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio

Seja como for o amor ainda me faz bastante fome

e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda revolução

Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos

tomar café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.

 

PAZ, PALAVRA ÚTIL

                                                              poema alegre para o capitão

 

Estava lendo Whitman

e lembrei de você

Isso para começo dos trabalhos

já é mais ou menos bom sinal

Foi imediatamente depois do espanto

da página 108

Quando descobri o tal poema curto

que lá para o meio do corpo diz

“the pay is certain one way or another”

Não foi exatamente por isso

que lembrei de você

Até porque esse é um poema

que fala daqueles amores assim

longos, assustados, algumas vezes

raivosos e geralmente

de correspondência difícil

(repare que difícil é bastante

o contrário de impossível)

Um amor daqueles semieternos

que faz escrever um livro

ou um punhado de versos

Sendo essa a correspondência

mais honesta

Portanto não foi aí que lembrei

de você Não

O que aconteceu foi que

por causa do espanto

precisei coçar o queixo

levar as duas mãos à cara

e respirar entre os 20 dedos

O que aconteceu foi que

por causa  do gesto indecifrável

ou da estocada da memória

o livro caiu no chão do trem

E então a queda ferroviária

fez voar o marcador das páginas

Veja só : era o cartãozinho

do bar dos pescadores

(ele que pelos vistos tem servido

de marca-compasso

para a canção  de Whitman

desde o último verão)

caindo a meus pés

Foi por causa do nome da rua

que vinha escrito no cartão

O endereço do boteco

do sol & das fainas

Que lembrei de você

De sua primeira aparição

De sua primeira gargalhada

E daquele mês

de ouro na cidade-norte

Quando tudo ia bem

hiper mega bem

com as 4 vidas

transatlânticas.

 

TENHO PLANOS PARA UMA CONFISSÃO

 

Foi em novembro de dois mil e tal

em Ipanema

Fazia frio e não devia

Chovia como era previsto

E algumas dessas coisas

nos confundiam

Eu era demasiado novo para o desterro

Um pouco velho já para certas aventuras

Dormia algumas horas por noite

num quartinho de esquina

Onde guardava os 7 livros, uma hamaca

vermelha & branca e a pequena caixa

de madeira onde ia depositando a diário

as lascas que sobravam da escultura

Eu ia esculpindo um novo genoma

Com mãos encharcadas de água de coco

 

Meu rosto não se transformava

mas a paisagem sim

Uma vez por semana cruzava a rua

de saquinho plástico pendurado no braço

e levava a roupa na lavanderia

Maria meu velho tesouro

não me acompanhava mais

Os canaviais, as abóbadas do Arkansas,

as feridas no rosto e os recibos de pensões

iam caindo no caminho como balas de açúcar

O desenho daquele rastro no chão

apontaria certamente ao palácio lunar

Era nisso que eu pensava

quando não pensava em nada

Foi no novembro de Ipanema

quando me acertei com a meditação

 

Comia duas bananas por dia

Um suco de acerola

E de vez em quando um sanduíche

A vida nunca foi tão pacífica

Desistira facilmente dos troféus

Guardando para mim apenas a bandeirola

Da Federación Uruguaya de Esgrima

Porque sempre suspeitei

que aprenderíamos muito

fixando os espaços

entre as listras azuis e brancas

 

Meus amigos iam se retirando como lascas

Eu ia aproximando o rosto das orquídeas

atadas nas árvores pelos porteiros de Ipanema

Tomava o café da manhã no mercado

enquanto lia o jornal da cidade

Havia um forte cheiro de mar sujo

que subia sempre a 3 quadras

até chegar na avenida

As manhãs eram todas de ouro

E à passagem de cada uma delas

eu atava uma nova pulseira em meu braço

Foi um poeta quem me disse

Que os gêmeos se distinguem pelas cores

das fitas amarradas em seus pulsos

Eu queria distinguir-me de mim mesmo

Como um urso que fareja as moedas

entre os cachos de erva

 

Havia uma artéria que ligava todas as coisas

desde a Praia de Botafogo até o Centro da Cidade

O atravessamento do Aterro

nas cavalitas de um ônibus bêbado

foi durante muito tempo

a única salvação possível

 

Certa manhã, entre as colunas

de fogo que de vez em quando

se levantavam no terror das esquinas,

apareceu o rosto doce de Antonio

Fotografei-o com minha câmera descartável

E essa imagem desfocada é a pagela

que trago dobrada em meu bolso até hoje

 

Aqueles foram meus pleitos literários

entre o mar e a cidade

E, como disse o santo da fotografia,

na verdade fui feliz.

 

WE NEVER DID TOO MUCH TALKING ANYWAY

 

Por exemplo

esqueça Coney Island

e as trezentas peças

de metal que compõem

o jogo mágico de Coney

Island no mês de agosto

Lembre da palavra sushi

sendo gritada no metrô

quando tudo o que alguém

queria gritar era sua devoção

por pedacinhos de prata

Lembre de meu fascínio

profundo por desportistas

noturnos que sincronizam

a respiração com o batimento

dos dedos da amante morta

Esqueça o comprimido

composto de estearato

de magnésio e macrogol

receitado por doutor Roberto

quando o pobre doutor Roberto

não sabia mais o que tentar

ou então tinha mais o que fazer

naquela tarde de quarta-feira

na emergência de São Vicente

Lembre que quarta-feira

é dia de jogo de pebolim

e sobre isso não tem discussão

Lembre do quanto me iluminam

os animais talhados no marfim

principalmente aquela baleia

de oito centímetros e meio

minha única esperança

Esqueça talvez

a manobra repetida

de lamber envelopes

no silêncio de um quarto

quando já faz sol nas praças

Somos feitos para o relento

Lembre que por vezes

você tem muita razão

e que outras vezes não

Esqueça vá esqueça

o inverno em Ipanema

e o tubarão nadando

nas veias da besta

de Ipanema gelada

Lembre de meu desejo

muitas vezes certo

muitas vezes não

Lembre a descoberta

daquele excerto que dizia

nós subimos os degraus

a correr e saímos do frio

brilhante para o frio escuro

E se puder não esqueça

o rosto calmo do tigre

que está parado na porta

esperando para entrar

e para depois nos atravessar.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com                                      

                                  

 

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A DISPUTA TECNOLÓGICA DO 5G

“representa a chamada quarta revolução industrial”

A guerra deflagrada entre EUA e China, atualmente, vem com a característica de um fenômeno que definirá o futuro do mundo, uma guerra tecnológica que envolve o desenvolvimento e expansão da tecnologia 5G pelo mundo. Uma guerra que, por ser tecnológica, tem implicações econômicas e movimenta toda uma energia de pressão política internacional.

A China joga pesado, oferecendo recursos financeiros para outros países, enquanto os EUA pressionam alguns países com bravatas diplomáticas, mas que em termos de economia, não funciona muito, pelo visto, a estratégia chinesa se mostra mais eficiente, neste primeiro momento.

A tecnologia 5G irá transformar toda a vida humana, desde os modos de viver, como as formas de organização da produção, do consumo, vai mudar as formas de lazer, transformar os serviços públicos, os transportes, as finanças e até as formas de governar e exercer o poder, também influenciando na arte militar.

Temos como característica principal da tecnologia 5G uma forma de interconexão geral de tudo com tudo, isto é, uma manifestação integrada de comunicação, informação, e uso tecnológico, que é a internet das coisas, um mundo organizado do que representa a chamada quarta revolução industrial, em que se verão máquinas prevendo problemas, analisando situações e tomando decisões em microssegundos.

O 5G pode ser caracterizado como um grande projeto tecnológico de infraestrutura, e apenas poucas empresas dominam esta tecnologia, que são quatro empresas, duas chinesas, a Huawei e a ZTE, uma finlandesa, a Nokia, e uma sueca, a Ericsson. E temos a Huawei disparada na frente por esta corrida pelo domínio da tecnologia do 5G.

Os questionamentos de tal competição tecnológica pelo 5G, por sua vez, coloca o tema como preocupação política e disputa territorial pela distribuição desta tecnologia, com implicações dos efeitos colaterais deste novo domínio tecnológico, com problemas como espionagem.

Tal domínio da Huawei, por sua vez, fez com que o presidente dos EUA, Donald Trump, por exemplo, colocasse em suspeita o governo chinês e esta mesma empresa Huawei, com acusações de que estes poderão usar a principal infraestrutura do mundo do futuro, uma vez submetida a um poder ditatorial do Partido Comunista da China, entregando todas as informações dos países que terão a tecnologia da Huawei, portanto, a uma espionagem do governo chinês, isto tendo consequências como chantagem e outras manipulações de big data que esta ligação com o governo chinês pode acarretar.

Tal corrida pelo 5G virou, de fato, uma guerra tecnológica, e os EUA, então, fizeram ações de boicote à Huawei e a ZTE, de um lado, e houve a oferta barata do serviço desta tecnologia para partes do planeta, por parte dos chineses, de outro lado. A competição tem a larga vantagem da Huawei, uma vez que empresas como Ericsson e Nokia, e poucas empresas norte-americanas, não têm preços competitivos e volume suficiente de oferta.

Portanto, os EUA e a China fazem uma disputa por quem dominará o mundo conectado à internet do futuro próximo, este que terá, por exemplo, de carros autônomos a drones. O valor econômico dos dados aumentarão, pois será uma forma de poder sobre outros países. Contudo, os EUA enfrentam o grande problema de que quem já tem domínio na área 5G é justamente a empresa chinesa Huawei, que é a líder mundial em equipamentos de telecomunicação.

O 5G tornará o uso da tecnologia onipresente na vida humana, equivalerá a um salto tecnológico de impacto semelhante ao que foi para a humanidade como a domesticação dos animais, a imprensa de Gutenberg, a máquina a vapor, a eletricidade e o automóvel.

A evolução das comunicações, por exemplo, seguiu da conexão dos países com cabos submarinos de telégrafo, no século XIX, depois as casas se ligaram umas às outras com a telefonia fixa e, por fim, as pessoas se conectaram entre si, tanto com o celular como com a internet móvel. Esta quarta revolução industrial representa a conexão das coisas, das indústrias e dos serviços.

O 5G permitirá downloads ágeis, com uma capacidade de transmissão de dados que passa de megabits/segundo para gigabits/segundo, algo entre 20 a 100 vezes mais rápido, e o tempo de resposta entre um aparelho e seu servidor, a chamada latência, será de um centésimo do que é hoje.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-disputa-tecnologica-do-5g

 

 

domingo, 23 de agosto de 2020

WERNER HERZOG : A CONQUISTA DO INÚTIL (PARTE FINAL)

 “a coragem de uma vida plena sempre corre o risco de dar muito errado”

Herzog segue ao final de sua saga no coração da floresta, num governo constante do caos e num misto de coragem e temeridade que fez este diretor de cinema ousar umas das realizações mais sui generis da História do cinema, ele segue seu relato : “A primeira tentativa de puxar o navio não vingou, mas pelo menos filmamos o insucesso. Depois de alguns metros, o navio ficou levemente atravessado e encalacrou-se; ouvi como o gigantesco cabo de aço estalou estranhamente na roldana e produziu sons nada agradáveis.

Por fim, rompeu-se o cabo de aço, que tinha a grossura de um braço; a pressão o fez esquentar por dentro, e ele caiu fumegando no chão. No lugar em que se rompeu, vi que os fios internos ardiam, vermelhos. O navio escorregou lentamente para trás, e até estava com uma boa aparência, mesmo que isso não ajude muito em nossa tarefa. Os atores principais de nosso drama estranho, rodeados pela floresta indiferente como nossa espectadora, já não são as pessoas, mas os cabos de aço, o Caterpillar, os cabrestantes, os troncos das árvores, o barro, o rio, a chuva, os deslizamentos de terra.”

Herzog não nos poupa das escatologias, que volta e meia aparece neste livro Conquista do Inútil, e aqui vemos mais casos curiosos e lendo este livro posso dizer que tive momentos bem felizes, com frouxos de riso, Herzog relata : “Ao arrastar para longe um cabo de aço renitente sujo de barro, um dos índios peidava em razão do esforço, e fazia-o com uma intensidade tão duradoura, que soava na vulgaridade ressonante da natureza como o início de um primeiro desejo de ordem humana a se contrapor a ela. Eu gostaria de estar em outro lugar, onde pessoas partem voando sobre torres de igrejas, torres de igrejas sobre campos arados, navios sobre montanhas e continentes sobre oceanos.”

Herzog narra, mais uma vez, as dificuldades práticas da filmagem, e nos faz perceber que para dirigir um filme, não basta somente uma boa ideia, existe uma infinidade de problemas que exigem do diretor de cinema um forte senso prático, sem isto, qualquer filmagem não passaria de uma miragem de um sonhador, e Conquista do Inútil, embora se trate de uma ideia delirante, talvez por isto mesmo tenha exigido de Herzog mais do que qualquer outra de suas filmagens, e isto tudo numa concepção de senso prático extremamente selvagem.

Herzog relata : “Filmagens. Várias tentativas com o navio; grande labuta, grandes decepções. Anéis com cabos de aço pesados e renitentes; colocação de troncos extremamente pesados sob o corpo do barco; ganchos de ferro da grossura de braços se abrem, como quando abrimos um clipe de papel, transformando-o em um fio reto. Huerequeque está com um de seus surtos de malária, que sempre voltam em ciclos.”

Herzog segue seu relato : “Quando já estava escuro, fui chamado ao posto de saúde do grande acampamento. Os lenhadores estavam derrubando árvores entre os dois rios – como sempre, todos descalços, e um foi picado por uma cobra. Jamais foram vistas cobras nem mesmo no entorno mais amplo das serras elétricas, porque elas fogem selva adentro em razão do barulho e da fumaça; mas aconteceu que de repente o homem foi picado duas vezes no pé. Ele deixou a serra cair e ainda pôde ver que a cobra, que desaparecera pela vegetação, era uma chuchupe.

Normalmente, depois de menos de um minuto a contar do ataque, a respiração e o coração param, e praticamente não se conhecem casos de alguém que tenha sobrevivido a essa picada por mais do que sete ou oito minutos sem tratamento. E nosso acampamento, com o médico e o soro antiofídico, ficava a vinte minutos de distância. O homem – assim me contou o que estava trabalhando ao lado dele – ficou totalmente imóvel por alguns segundos, mergulhado em pensamentos. Então pegou do chão a serra elétrica, que com a batida parara de funcionar, puxou a corda, que, de modo semelhante a um motor de barco, a faz funcionar, e cortou o próprio pé acima do tornozelo.”

A imprevisibilidade era o estado de espírito dominante de toda a filmagem, Herzog nos dá esta noção extrema de uma realidade que desliza e dá saltos, ele segue seu relato : “Último dia de filmagem em Camisea, por ora. Não consigo me lembrar de algum dia ter trabalhado sob tanta pressão em minha vida. Normalmente, o que resolvíamos era um programa para cinco dias. Kinski gritava histérico, e em seguida agia como um doente terminal que precisava se apoiar em Paul; depois, mais uma vez, novo e revigorado ataque de fúria.”

Herzog, mais uma vez, narra os ataques de fúria de Kinski, mais um fator de pressão sobre as filmagens : “Mais um ataque de fúria de Kinski, e o cacique dos ashaninka-campas e o cacique dos machiguengas de Shivankoreni me puxavam de lado, perguntando calmamente se deviam matá-lo para mim. Para ter certeza, eu perguntei, matar quem? Eles se referiam a K., e, pela forma como falavam, não havia dúvida de que realmente o fariam de pronto, naqueles próximos sessenta segundos. K. percebeu que algo estava acontecendo e rapidamente passou de ataque de fúria a doente terminal.”. Kinski começa a incomodar, e pode ser que o ator colérico tenha escapado de algo mais grave nestas filmagens.

Mais relatos de Herzog sobre o vaidoso e colérico Kinski : “De lancha no Camisea, K. veio em minha direção aos brados, espumando. Ele estava de pé na proa e balançava um machete em golpes confusos contra um inimigo visível apenas para ele. Duas curvas do rio antes de ele me alcançar eu já o ouvira, brigando com o barqueiro em francês. Ao que tudo indica, ele viu do avião, antes de pousar, que o navio estava quase na mesma posição de antes, no rio, mas não percebeu que, de modo rocambolesco, ele já estava bem inclinado para cima.

Ele berrava feito um louco, dizendo que eu era um enganador, que ele não iria filmar, que só falaria comigo em Los Angeles, no tribunal. O nível do rio baixara de forma inimaginável, tanto que em alguns pontos tivemos de descer do barco para poder passar por trechos muito rasos; ao mesmo tempo que eu prestava atenção em K., mecanicamente tirava água do barco, com um prato de lata. A floresta, assim como eu, calada, absorvia os decibéis, e fazia-o com certa leveza. Acontece que K. está desmoronando, e nada mais pode impedir isso.”

A narrativa se volta, mais uma vez, para o leitmotiv do filme, a ideia delirante e megalomaníaca de Herzog, o barco atravessando a montanha, a Conquista do Inútil propriamente dita, Herzog relata : “De fato, no início o barco tomou a direção do monte de terra ao lado da câmera, e eu vi como Raimund pulou para o outro lado, em direção à água, para salvar a câmera, enquanto os campas se mantiveram a postos para Klausmann. Tercero, porém, conseguiu virar o barco para a outra direção. Já com metade do casco na água, foi de maneira tão incrível que o barco se inclinou para o lado, contra a corrente, que parecia inevitável : vai emborcar e afundar.

Rodopiando como que em um sonho febril confuso e desordenado, ele se inclinava de um lado para outro. Perdi o Caterpillar de vista – corajoso, ele se enfiara debaixo do casco, e o navio ameaçava emborcar; eu corri, fora do foco da câmera, em torno dele. Descalço, acabei pisando nos cacos dentados de uma garrafa de cerveja quebrada – os índios a tinham deixado no barro em sua fiesta noturna; sangrando muito, vi que realmente havia muito caco por ali. Correndo aflito, eu já prestava mais atenção aos cacos no chão do que o navio, o Caterpillar já tinha agarrado, violentamente com a pá, a transversal traseira do casco; nisso, a balaustrada, inclinada e quase tocando no chão, foi esmagada, com um estrondo, e o barco, já quase inteiro na água, endireitou-se de novo.

Meu pé sangrava, e eu não sentia. Não me importava com o navio, que já não tinha valor maior do que quaisquer garrafas de cerveja quebradas no barro, do que um cabo de aço qualquer serpenteado na lama. Não houve nenhuma dor, nenhuma alegria, nenhum alívio, nenhum sentimento de felicidade, nenhum som e tampouco um suspiro profundo. Era apenas a compreensão de uma grande inutilidade, ou, mais exatamente, eu tinha apenas penetrado de maneira mais profunda em seu misterioso reino. Vi como o navio, impelido de volta ao seu elemento, endireitou-se lentamente e suspirando. Hoje, quarta-feira, 4 de novembro de 1981, pouco depois do meio-dia, conseguimos transportar o navio do rio Camisea por cima de uma montanha até o rio Urubamba. Tudo o que se tem a relatar é isto : eu participei.”

Herzog aqui finaliza a sua narrativa, a memória registrada de uma das filmagens mais insanas da História do cinema, o diretor Werner Herzog consegue seu intento, a um custo de muito perigo, mas nada do que é feito de grandes conquistas é realizado sem uma enorme dose de perigo, a coragem de uma vida plena sempre corre o risco de dar muito errado, e se deu certo, tem um gosto bem doce de olhar e admirar a própria obra, pode ser esta a sensação do diretor de cinema Werner Herzog, que depois do alívio, sente o gozo de ser um realizador de sonhos e um conquistador do inútil.

(Fim da série sobre o livro Conquista do Inútil de Werner Herzog)

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/cultura/werner-herzog-a-conquista-do-inutil-parte-final 

 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

TEATRO DOS VAMPIROS

Fantoff era um pesquisador de Paris, ele estudava lendas antigas, suas origens, e passou a atuar, posteriormente, como uma espécie de curador de artes, estamos em 1870, e Fantoff se dedica agora ao teatro, escreve umas peças de comédia, dentre elas, uma se destacara em 1869, a “A Dama Louca”, que ganhou um prêmio de melhor texto na última temporada parisiense de inverno, concorrendo com um grande amigo seu, este que também era diretor, Lancaster, que havia ganho em 1887 e 1888 dois prêmios, o primeiro de direção e o segundo por melhor texto.

Fantoff se dirigia para a encenação de Fedra de Racine no Teatro Paris, em Montmartre, e se dizia um admirador das remontagens da tragédia neoclássica, que era um desafio que ele não enfrentaria escrever naquela métrica raciniana em que a história se decorre num único dia, e que pensava mesmo era em fazer uma montagem adaptada de O Doente Imaginário de Moliére, com a direção deste seu amigo Lancaster, que era um pesquisador do comediógrafo, este já tendo dirigido O Avarento e As Preciosas Ridículas, e que já planejava a montagem de Tartufo, numa versão que ele queria que fosse a sua melhor versão de Moliére, e já adaptava um texto para isto.

Fantoff havia se destacado num trabalho de produção e figurino, além de ter trabalhado com cenografia por cinco anos, junto com um outro amigo seu, Joseph, no Teatro Pascal, também em Montmartre, e que resultou na cenografia de As Nuvens de Aristófanes, com um Sócrates fazendo um Deus Ex Machina que era pura fanfarronice, e também fez a cenografia da tragédia Electra de Eurípides, e uma versão simpática de Thomas Kid, que era uma miscelânea de sua obra teatral em forma de pequenos fragmentos, tentando imitar algo do período elisabetano, só que lhe dando um ar parisiense meio forçado adrede, e com um cenário acidentado e pobre, meio que subvertendo a enormidade do teatro elisabetano.

Havia ainda, mas no Quartier Latin, um teatro meio sinistro, de verve gótica, aonde estavam sendo montados pequenos textos de terror e horror gótico, que Fantoff foi visitar, e era o chamado Teatro dos Vampiros, ele acabou vendo uma montagem lá de uma peça escrita por um novo autor, Creonte, que escrevera sob efeito de ópio um texto em três atos de nome “O Enigma”, que era uma história gótica com surtos de consumo de sangue, voos e levitações inexplicáveis.

Fantoff fez contato com um dos contrarregras deste Teatro dos Vampiros, que tinha sido fundado há cinco anos, em 1865, por um empresário obscuro que agora investia em teatro e histórias de terror, de nome Leon Blanc, e que era um velho estrambótico de uns setenta anos, que vivia com uma moça de vinte anos que era intitulada “Mademoiselle Nuit”, uma moça bonita, mas sinistra em suas vestes geralmente pretas. Este contrarregra tinha o nome de Lemort, e se dizia sobrinho de criação deste empresário de origem desconhecida de nome Leon Blanc.

Creonte ainda não havia cruzado com Fantoff, quem o conhecia de dois encontros ao acaso era Lancaster, e relatou para Fantoff que foram impressões bem estranhas, ele disse que Creonte parecia uma espécie de alienígena de aparência cadavérica e bem magro, parecia estar sempre sob o domínio do ópio ou de outra substância qualquer de dons oníricos. Creonte, que montaria sua mais nova peça ainda nesta semana da visita de Fantoff, teria como seu astro principal em “O Enigma”, uma espécie de líder e guru do grupo de atores do chamado Teatro dos Vampiros, que era um inglês naturalizado francês e radicado em Paris, que tinha o nome artístico de “Blackstar”.

Esta figura era sinistra e bem alta e forte, pois tinha cerca de dois metros e dez centímetros, e tinha a força de um touro e era um dos melhores amigos deste empresário Leon Blanc, Blackstar era o melhor ator da companhia que se chamava “Seita Gótica”, e que reunia numa espécie de sindicato e companhia de atores, gerida também por Leon Blanc, todos os atores que eram contratados e que trabalhavam desde 1864 no Teatro dos Vampiros.

Depois do ator Blackstar, das mulheres, a atriz que mais se destacava, por sua vez, era uma moça de trinta anos de nome Heloísa, e que fazia papel de louca, de vampira, de freira e tudo o que se exigisse, com uma veia trágica, mas que tirava de letra um papel cômico se calhasse. Creonte até tinha feito uma peça em sua homenagem em 1869, de título “Heloísa no Inferno”, que foi uma peça gótica em quatro atos de enorme impacto e que rendera a Creonte o apelido de “o mestre do horror em Paris”.

O chamado Teatro dos Vampiros não concorria diretamente com o Teatro Pascal e nem com o Teatro de Paris, as peças montadas no Teatro dos Vampiros eram de autores novos e todas inéditas, e só eram montadas lá, isto é, a Seita Gótica se juntava a uma equipe de autores independentes, que eram seis autores, cinco homens e uma mulher, sendo o mais talentoso Creonte, seguido da Senhora das Trevas, que tinha o título também de Marianne Storm, e assinava suas peças alternando os dois pseudônimos.

Também tinha o jovem autor Pierre Jolie, que era casado com a jovem atriz, também da Seita Gótica, Juliette Blanchet, e que fazia papéis de coadjuvante, tendo já trabalhado bastante sob a tutela de Heloísa, que tinha uma expertise adquirida de um estudo independente de teatro elisabetano e técnicas de farsa e clown que utilizou maniacamente em seu sucesso “Heloísa no Inferno”.

Fantoff, em sua primeira visita ao Teatro dos Vampiros, conversou muito com Lemort, e ficou sabendo um pouco mais do funcionamento deste teatro na prática e um pouco da dinâmica dos atores, e viu que era tudo completamente diferente de seus trabalhos realizados no Teatro Paris e no Teatro Pascal, ele pensava em ter contato com Creonte depois de assistir a peça “O Enigma”, e conhecer alguns atores desta chamada “Seita Gótica”.

Fantoff já concebia uma peça inspirada em Thomas de Quincey, O Comedor de Ópio, pois queria um destes atores da Seita Gótica para fazer o papel do dependente de ópio da história contada por Thomas de Quincey, e queria montar a peça no Teatro dos Vampiros, mas para isto teria que convencer a companhia de atores da Seita Gótica, a equipe de autores e também Leon Blanc, pois o Teatro dos Vampiros, até então, tinha sido um grupo fechado e de versões inéditas, sem nada que se relacionasse a adaptações, releituras e remontagens.

E depois de sua noite vendo Fedra de Racine, Fantoff decidiu que sua visita ao Teatro dos Vampiros também serviria para ele buscar algo novo, nada de neoclássico, embora seu plano para O Doente Imaginário de Moliére fosse, para ele, na área da comédia, a sua última adaptação antes de ele fazer mais comédias próprias, que se juntaria ao que ele pensava de Thomas de Quincey como peça, e dali em diante priorizaria versões de textos seus inéditos, como fora a sua peça “A Dama Louca”, e que lhe rendera prêmio.

Fantoff, depois de uma longa conversa com Lemort e de ter visto um dos ensaios fragmentários de dois atores da companhia Seita Gótica, numa espécie de exercício muito estranho com barulhos, grunhidos e gestos estilizados que Fantoff desconhecia em teatro, ele se deu por satisfeito e iria retornar ao Teatro dos Vampiros na noite de sexta-feira para ver a montagem de Creonte da tal peça “O Enigma” e que seria a estreia da mesma.

Fantoff decidiu que falaria novamente com o contrarregra Lemort para ser apresentado ao autor Creonte. A peça “O Enigma”, por sua vez, teria como atores os grandes da companhia, Blackstar e Heloísa, e uma espécie de menino prodígio de nome artístico Flamboyant, que havia feito três peças no Teatro dos Vampiros, virou um tipo de coringa na companhia, pois se encaixava em qualquer buraco em que lhe metessem.

Fantoff entra em contato com Lancaster e o cenógrafo Joseph, os três combinam de ir juntos ver a tal peça gótica de Creonte e talvez buscarem novas ideias para as peças que aconteciam no Teatro Paris e no Teatro Pascal, longe da reverência a Racine e as maníacas remontagens das peças de Moliére, que dominavam, por sinal, os planos de Lancaster, um fanático pelo comediógrafo, e a ideia teatral de Fantoff para O Doente Imaginário, a última peça de Moliére.

O Teatro dos Vampiros tinha um desenho oval da plateia, com poltronas espaçosas, laterais para a área de luxo, na cena havia um estrado bem grande e retangular, e os chamados efeitos especiais eram um mistério, pois o público nunca descobriu por qual mecânica eram feitas as levitações e os brilhos sobrenaturais de algumas das montagens da companhia Seita Gótica.

Muitas vezes, a atriz Heloísa, por exemplo, parecia que entrava numa espécie de êxtase, levitava e ficava com a face iluminada num azul sobrenatural, o que testemunharam algumas pessoas que puderam assistir à montagem de “Heloísa no Inferno”, e ninguém nunca soube qual era o segredo que havia lá no Teatro dos Vampiros para aqueles efeitos especiais avançados.

Chega a noite de sexta, a estreia de “O Enigma”. Fantoff, Joseph e Lancaster chegam, e Fantoff conversa com Lemort, este diz que apresentaria Creonte ao término da estreia, pois Creonte estava confinado em seu camarim (na verdade, Lemort omitiu o fato de que Creonte estava fumando ópio e queria ver a estreia de sua peça sob o efeito da substância onírica, pois fazia tudo inspirado pelo ópio, além de outros fatos que serão em breve elencados aqui sobre a natureza particular desta companhia gótica).

Fantoff consegue os três lugares para a primeira fileira, é de lá que ele e seus dois amigos veriam a atuação de Blackstar e Heloísa, os dois principais atores da Seita Gótica, e o tão falado Flamboyant, que tinha uns treze anos e parecia que seria o novo astro da companhia. Logo Creonte sai de seu camarim num transe onírico que o fazia se sentir levitando, ele se dirige ao setor de luxo, nas laterais, e de lá veria a sua obra em ação, com a direção de Heloísa, que agora faria a estreia como diretora de teatro, ao mesmo tempo em que atuaria.

No Quartier Latin o chamado Teatro dos Vampiros estava ganhando uma aura mística em que se discutia sobre os tais efeitos especiais das peças, muitos que frequentavam o público do teatro tentavam depreender a mecânica de tais efeitos destas peças feitas pela Seita Gótica, mas ninguém havia chegado a uma conclusão. O trabalho dos contrarregras também não era decifrável, neste ponto, pois eles guardavam segredo com os atores do que era preparado na véspera destas sessões, que sempre eram um tipo de catarse trágica semelhante às descrições do fenômeno feita por Aristóteles em sua Arte Poética.

A impressão que a peça “Heloísa no Inferno” havia causado, por exemplo, talvez tenha sido maior do que as últimas montagens shakespearianas tanto no Teatro Paris como no Teatro Pascal. A concorrência entre estes dois teatros de Montmartre agora convivia com um universo paralelo e misterioso povoado pelas peças autorais do Teatro dos Vampiros.

A diferença de orientação artística entre os teatros Paris e Pascal e o que era feito no Teatro dos Vampiros, por sua vez, era um abismo, pois o que se fazia no teatro sinistro do Quartier Latin era sem precedentes na História do teatro francês e talvez na História mundial do teatro como um todo.

Não havia nada parecido a peças como “Heloísa no Inferno”, ou ainda as peças “Aranhas” e “Dante Vampiro”, estas duas da Senhora das Trevas, por exemplo, ou ainda, uma outra montagem de Creonte, umas das primeiras montadas no Teatro dos Vampiros, que foi a sua peça “Quartier Latin do Ópio”. Até então, contudo, o maior vulto tinha sido com “Heloísa no Inferno”, e que provavelmente seria superada agora pela montagem de “O Enigma”, que já era o resultado do auge criativo do tétrico autor Creonte.

Blackstar havia sido o personagem principal do primeiro sucesso verdadeiro do Teatro dos Vampiros, que foi a peça de Creonte, “Quartier Latin do Ópio”, e que rendeu um prêmio de melhor ator do Júri Parisiense para Blackstar, o mesmo que premiou Creonte um ano depois pela direção de “Sarça Bíblica”, e que premiou a atuação lendária, anos depois, de Heloísa em sua peça mor “Heloísa no Inferno”.

“Quartier Latin do Ópio” foi uma peça escrita e dirigida por Creonte em três atos que se encerrava com Blackstar, encarnado no personagem usuário de ópio e poeta, Jean-Pierre Perrault, que bebe uma taça de sangue de uma jovem loira sacrificada e fuma um narguilé de ópio como ato final, no que o público nunca soube se o sangue e o ópio eram verdadeiros, mais um mistério de Creonte que ficara no ar para o público pensar depois da catarse.

Começa a peça “O Enigma”, primeiro ato, entra Blackstar, que fazia o personagem Claude Gerome, entra Heloísa, que fazia Abigail, Jean Torreau, que fazia Menard, entraria no terceiro ato. Neste primeiro ato, entra Flamboyant, que fazia o menino Clemente, começa a fala de Claude Gerome, ele faz uma declamação poética inspirada nos poemas de William Blake.

Blackstar declama então estes versos com visões escatológicas e cosmogônicas alternando com versos feitos sobre sangue e morte, todos os versos de inspiração em William Blake, e muitas vezes fazendo recapitulações livres de Dante Alighieri e de O Paraíso Perdido de Milton, tudo escrito pelo texto febril sob efeito de ópio de Creonte, que na ala lateral de luxo do teatro, estava num transe onírico contemplando a sua própria criação.

Abigail era uma espécie de bruxa, de mística, e fazia feitiços contra inimigos de Claude Gerome, e era uma das amantes de Claude Gerome, que era casado com Claire, personagem feito pela atriz Susanne Flammarion, que entraria somente no segundo ato, num tipo de conflito kármico com a personagem Abigail, e a transformação em vampiro do menino Clemente, também no segundo ato.

A transformação em vampiro de Clemente no segundo ato vem de uma mordida do personagem Claude Gerome, que tinha sido o vampiro antigo das torres de William Blake, e que usava os poderes mediúnicos de Abigail para fazer novas vítimas, estas que eram hipnotizadas e mordidas por Claude Gerome, sendo que no primeiro ato de “O Enigma”, ele morde cinco mulheres jovens, e se junta a um grupo de vampiros decadentes da Champs-Élysées, que ajudavam Claude Gerome a tomar estas jovens para si, um grupo de dez vampiros que eram atores coadjuvantes da peça e atuavam também como coro nas declamações de Claude Gerome.

Claude Gerome encerra o primeiro ato, depois de morder a quinta jovem (ninguém sabia de onde eram pinçadas estas figuras, pois não pertenciam à Seita Gótica), começa a entrar em transe mediúnico e levita cinco metros acima do estrado em que era apresentada a peça, sua face ganha uma iluminação roxa, meio sinistra, seus olhos brilham, ele entoa um canto gregoriano que tinha uma amplitude desconhecida.

Não havia acústica natural para aquele som que Blackstar emitia, parecia um fenômeno mediúnico e sobrenatural, ele fica trinta segundos suspenso no ar, desce novamente ao estrado do teatro, lentamente, pega a jovem novamente, ele entrega esta jovem ao seu coro de vampiros, que devora a jovem impiedosamente, a cortina se fecha e se encerra o primeiro ato de “O Enigma”.

O segundo ato começa com a mordida de Claude Gerome sobre o menino Clemente, que aparece no primeiro ato furtivamente como um tipo de santo mirim, que acaba sendo convertido ao satanismo por Abigail, toma uma poção mágica que lhe coloca numa espécie de transe que o faz levitar por alguns segundos ainda no primeiro ato.

Neste segundo ato, o menino Clemente, que já havia matado e comido dois morcegos depois do feitiço de Abigail, acaba sendo transformado em vampiro por Claude Gerome e vira seu pupilo contra um hino de anjos em que se só ouvia o som, logo após o começo deste segundo ato. Abigail reaparece e diz a Claude Gerome que tal hino era uma alucinação produzida pela mediunidade do menino Clemente, que até há pouco tempo era considerado um tipo de santo pelo vilarejo de que veio.

Agora, no movimentado Quartier Latin, Clemente era um satanista que virou imortal pelas mãos de Claude Gerome, o chefe do coro de vampiros decadentes que lhe acompanhava e obedecia a suas ordens cegamente. Clemente emite uma luz vermelha inexplicável, logo em seguida, e o hino de anjos silencia, dando lugar a sons que pareciam de demônios angustiados.

Claude Gerome dá uma ordem a Clemente para que pegasse mais uma jovem que adentra o estrado, parecia que o desespero da jovem era real, o coro captura a jovem e a oferece em holocausto para saciar a sede de sangue de Clemente, agora um vampiro.

Em seguida ao sacrifício desta jovem, que sai aparentemente morta do estrado (muitos com a certeza de ser mais um efeito especial do Teatro dos Vampiros), começa um diálogo sobre bruxaria e ocultismo entre Abigail e Claude Gerome, eles se medem entre si com seus conhecimentos ocultos e apresentam um manual de satanismo para o menino Clemente depois deste longo diálogo.

Aparece enfim Claire, que corre em direção a Claude Gerome, perdidamente apaixonada, e com ciúmes terríveis de Abigail, uma intelectual do porte de Claude Gerome, e Claire sabia que os dois eram amantes e parceiros de magia, mas Claire queria mesmo eliminar ou até matar Abigail se pudesse, mas morria de medo dos feitiços e poderes mediúnicos de Abigail, e tentava apenas seduzir Claude Gerome o tempo inteiro para que ele esquecesse aquelas conversas infinitas e noites de amor que ele fazia com Abigail sempre regado a taças de sangue de jovens indefesas e ópio de qualidade.

Claude Gerome, depois de levar Claire a um aposento, com taças de sangue da tal jovem que fora morta em cena (o público ainda se questionava se a jovem fora morta ou era um efeito especial), voltam em transe, Claude Gerome levita depois de ter bebido muito sangue, umas dez taças ao todo, e fica a três metros do chão, seu rosto volta a brilhar, desta vez num azul cobalto.

Claude Gerome declama poemas feitos por Creonte, versos em homenagem às pinturas de William Blake e com um trecho final que Claude Gerome dizia ter sido retirado de um grimório desconhecido, de autor anônimo, que na verdade era uma invenção do texto de Creonte para impressionar o público.

Claude Gerome, depois de declamar o poema em levitação, retorna à superfície do estrado, aonde reencontra Abigail, agora com uma veste negra e ervas alucinógenas para produzir uma poção do amor que ela queria que Claude Gerome bebesse.

Abigail faz um suco de uvas para Claude Gerome, ele bebe, e lá estava misturada a tal poção do amor, que faz com que Claude Gerome tivesse um desejo súbito e incontrolável de beijar Abigail na frente de Claire, que entra em pânico e tenta demover em vão seu amado.

Claire se retira para seus aposentos, e Abigail leva Claude Gerome para um passeio surreal em que, num momento de êxtase, os dois, depois de beberem uma taça de sangue da tal jovem morta, levitam por trinta segundos e brilham em suas faces uma luz vermelha cor de sangue.

Em seguida à levitação de Abigail e Claude Gerome, se ouve um hino satânico, Clemente reaparece em vestes azuis escuras, toca um sino, chama o coro de vampiros decadentes de Claude Gerome, eles começam a simular cantos de uma missa negra, Claude Gerome e Abigail voltam do transe extático, despertam para um banquete junto com os tais vampiros decadentes.

Aparece mais uma jovem desconhecida para mais um sacrifício, ela é oferecida em holocausto para que Claude Gerome lhe mordesse e bebesse o seu sangue. Depois de colocarem um grande lençol preto sobre o corpo da jovem, mais uma vez parece que sai mais uma jovem morta do estrado, o público se assusta, mas acha que aquilo era parte do espetáculo e mais um efeito especial do Teatro dos Vampiros. E assim se encerra o segundo ato da peça de Creonte, “O Enigma”.

Começa o terceiro ato, aparece um caçador de vampiros, Menard, um tipo social estrambótico, com fama de mulherengo, e que fica vidrado em Abigail, esta decide seduzir Menard para planejar o seu envenenamento, e diz em segredo seu plano para Claude Gerome.

Claire volta de seu sono profundo em seus aposentos, tenta chamar a atenção de Claude Gerome, em vão, ele está imerso em seus planos, e pensa no ardil de Abigail para matar Menard envenenado. Claude Gerome simula uma amizade com Menard, e sabia que o caçador de vampiros tramava contra ele, mas o ataque de Abigail tentava se antecipar aos planos de Menard, que provavelmente seria mais uma vítima naquela trama assassina de toda a peça “O Enigma”.

É feito um jantar em que está Abigail, Claire, Menard, Clemente, Claude Gerome e o grupo de dez vampiros decadentes, Menard conversa, come e bebe muito, Claude Gerome percebe os trejeitos suspeitos do tal caçador de vampiros, também observa a linguagem corporal de Abigail, que fazia a sua estratégia para levar Menard para a sua arapuca.

Claude Gerome encerra o jantar com um discurso, logo em seguida ele deixa o jantar e vai embora com Claire. Abigail, já tendo o jogo ganho com o priápico Menard, o leva a seu aposento, logo após todos os convivas já terem deixado o jantar, lá ela consegue seduzir Menard sem precisar fazer sexo com ele.

Abigail, em seguida, coloca uma bebida vermelha para ele beber, lá ela inocula uma poção com uma mistura inusitada de veneno de Naja e uma dose de láudano que mataria um elefante em questão de minutos. Menard, que já não se controlava de desejo por Abigail, decide beber logo a tal bebida para ir à cama com Abigail, ele bebe, fica um minuto inteiro perseguindo Abigail pelo aposento, ela foge, logo em seguida ele começa a ficar zonzo e babar pela boca, seu coração logo para, ele começa a ter convulsões sinistras e cai duro no chão já morto.

Abigail dá a notícia a Claude Gerome, que comemora com ela bebendo mais um estoque de sangue das duas jovens que haviam saído mortas do estrado, eles levitam por um minuto e dançam entre si numa coreografia tétrica, enquanto Clemente entra e toca um tema fúnebre ao piano.

Claire vê a cena e tem mais uma crise de ciúmes e pânico. Os dez vampiros levam o corpo de Menard, já morto, desta vez a cena era puro teatro, o ator sai do estrado e vai fumar um charuto, mas os vampiros decadentes voltam da coxia e afirmam a Claude Gerome que o corpo havia sido queimado numa pira num ritual satânico, Clemente então toca mais um tema fúnebre, a dança de Claude Gerome e Abigail agora estava no chão do estrado, dominando a cena com desenvoltura.

A peça “O Enigma” então se encerra com um canto de Clemente, que bebe sangue e levita tocando uma flauta, os dez vampiros decadentes deixam o estrado numa espécie de êxtase diabólico. Claire sai de cena atordoada, pois Abigail leva Claude Gerome a seus aposentos, a música ganha tom de hino, vozes estranhas soam de cima da cena, Clemente desce ao chão, faz um monólogo de dez minutos sobre heroísmo e transcendência.

Claude Gerome retorna à cena, bebe uma taça de sangue, e declama um poema do autor Creonte, mais um sobre William Blake com o leitmotiv do misticismo, ao encerrar o poema, ele lê um último trecho de um grimório inventado por Creonte e as cortinas se fecham, a peça “O Enigma” termina. Os atores retornam novamente somente para fazer o usual agradecimento, com dois discursos, um de Blackstar e um final de Heloísa.

Creonte desce de sua lateral de luxo para encontrar com os atores e fazer os seus costumeiros elogios, como sempre fazia ao final de suas estreias, e sobretudo pela sua devoção à Heloísa, sua atriz preferida e que fazia seu debut como diretora de teatro justamente com a melhor peça escrita até então por Creonte, “O Enigma”.

Enquanto Creonte descia em direção à coxia, o público saía do Teatro dos Vampiros, e este se dividia entre pessoas que estavam fascinadas e extasiadas, e um outro grupo que estava horrorizado com as cenas de corpos saindo do estrado, era um misto de sucesso, de um lado, e a impressão de que tudo era muito chocante e gratuito, de outro, e Creonte agora esperaria os textos da crítica teatral parisiense para ter certeza de que havia feito um trabalho impactante, e que nesta estreia teve uma recepção ambígua do público.

Fantoff, Lancaster e Joseph saem das poltronas depois que quase todo o público já deixara o Teatro dos Vampiros, e Fantoff se dirige até Lemort, o contrarregra, que fazia o trabalho de recolhimento do cenário junto com alguns outros funcionários do teatro. Lemort diz que Creonte já havia sido avisado por ele de que Fantoff queria falar com o autor, Lemort diz que haveria um grande banquete naquela noite e Creonte, sempre muito gentil, convidara Fantoff e seus dois amigos para o tal banquete para eles conversarem sobre teatro.

Lemort conduziria os três cavalheiros para o endereço, que ficava a uma quadra do Teatro dos Vampiros, no restaurante Le Chat D`Enfer, que era um estabelecimento em que Creonte era dono em sociedade com Blackstar, o ator-fetiche do Teatro dos Vampiros, com sua altura e porte de gladiador.

Fantoff chega, junto com Lancaster e Joseph, ao Le Chat D`Enfer, Lemort apresenta os três a Creonte que, bem prestimoso, coloca os três cavalheiros num lugar privilegiado da grande mesa retangular que se estendia para o tal banquete, que seria um evento fechado apenas para convidados neste restaurante imenso que era o Le Chat D`Enfer, que era um mundaréu de mesas, cadeiras, e um palco com piano, no qual o ator Flamboyant tocaria naquela noite após a estreia de “O Enigma” e que seria uma comemoração de mais um feito de Creonte e seus atores.

Antes de começar a ser servido o jantar, teria uma apresentação de um ator português com fluência em francês, este que fazia um esquete temático que poderia mudar com o tempo, e que era sempre escrito por Creonte, o ator era Quincas Barreto e seu personagem fixo era Phantôme, era o papel fixo de um fantasma que costumava falar barbaridades, um pequeno número de comédia, e o texto mudava e poderia voltar, havia um rodízio que dependia da inspiração de Creonte, Quincas Barreto era ator contratado e exclusivo do Le Chat D`Enfer, portanto, não pertencia à Seita Gótica e nunca havia trabalhado nas peças que eram montadas no Teatro dos Vampiros.

Depois da apresentação de esquetes de meia hora do ator que fazia Phantôme, começa a sessão de piano de Flamboyant e começa a ser servida a entrada antes do prato principal, e Fantoff começa a conversar longamente com Creonte sobre teatro e a fixação de Creonte na poesia de William Blake, que ficara claro em toda a peça “O Enigma” que muito bem impressionara Fantoff.

Quando Fantoff perguntou a Creonte sobre as levitações e luzes, que Fantoff queria descobrir como se faziam aqueles efeitos especiais, Creonte disse que explicaria tudo isto após o jantar, e Creonte então pediu a Fantoff que fosse com ele, após o jantar no Le Chat D`Enfer, para ir junto com ele e Heloísa de volta ao Teatro dos Vampiros, pois lá Creonte revelaria o segredo de tais efeitos teatrais que aconteciam no Teatro dos Vampiros.

Todos comem a entrada e é servido o prato principal, a Senhora das Trevas, que tinha o nome verdadeiro de Marie Truffaut, que já havia bebido vinho além da conta, começa a contar piadas infames, e Creonte logo avisou a Fantoff e seu dois amigos que isto sempre acontecia nestes jantares, era um hábito da Senhora das Trevas beber e depois contar as suas piadas de gosto bruto e farsesco.

A Senhora das Trevas, depois de finalizar seu número de piadas infames, grita para o garçom trazer a sobremesa, e Flamboyant retoma a música do piano, logo após a Senhora das Trevas sossegar em sua cadeira e saborear a sua sobremesa.

Ao fim da sobremesa, são servidas taças com líquido vermelho para os dez vampiros decadentes, Heloísa, Blackstar, a Senhora das Trevas, e Creonte, eles bebem e Fantoff pergunta, já assustado, o que era aquilo para Creonte, que repete que todos os segredos do Teatro dos Vampiros seriam revelados por ele e Heloísa na coxia do teatro, e que seus amigos não poderiam ver, somente Fantoff, pois Creonte, depois da longa conversa com Fantoff, percebeu que este curioso dramaturgo lhe poderia ser útil em seu Teatro dos Vampiros.

Terminado o jantar, Creonte, Heloísa e Fantoff seguem, somente os três, para o Teatro dos Vampiros, que se encontrava fechado, o último a sair depois de feito todo o alvoroço da estreia de “O Enigma” tinha sido o contrarregra Lemort.

Creonte era um dos que tinham as chaves do teatro, que pertencia ao empresário Leon Blanc, que não havia ido à estreia, pois estava em Toulouse, numa temporada de descanso com sua mulher, Mademoiselle Nuit, e que retornariam na sexta seguinte para assistir à segunda apresentação da nova peça do gênio da Seita Gótica, o autor Creonte.

Os três chegam ao Teatro dos Vampiros. Creonte abre o teatro, eles entram pela plateia, seguem em direção ao estrado e entram na coxia, lá haviam garrafas com líquido vermelho, e Fantoff toma um susto, pois havia os dois corpos das jovens sacrificadas no estrado na coxia, com lençóis pretos cobrindo as partes destes dois corpos, eram então exatamente as jovens que haviam sido devoradas durante a apresentação da peça.

Fantoff fica em pânico, achava que as mortes tinham sido cenográficas, tenta fugir, mas Creonte tinha trancado a coxia, Heloísa pede para Fantoff se acalmar se ele quisesse descobrir o segredo do Teatro dos Vampiros. Heloísa começa a acariciar Fantoff, lhe aperta as partes, Fantoff se excita. Creonte acende seu narguilé de ópio e começa a fumar, Heloísa pede para Fantoff se aclamar novamente, ele começa a relaxar, Heloísa começa a fazer sexo oral em Fantoff, ele tem um orgasmo, então Heloísa se levanta, pede para Fantoff se sentar numa poltrona confortável que havia na coxia e morde seu pescoço, bebendo parte de seu sangue que circulava na veia aorta.

Fantoff, depois da mordida de Heloísa, entra numa espécie de transe onírico que o leva a ter delírios e alucinações durante uma hora, ele não entendia o que estava acontecendo, Heloísa fala para Fantoff permanecer sentado na poltrona e disse novamente para ele se acalmar que Creonte explicaria tudo após passar o efeito entorpecente da mordida que Heloísa lhe havia dado.

Fantoff, durante seus delírios e alucinações, olha para Creonte, olha para Heloísa, depois olha para os dois corpos das jovens mortas na coxia, pensa em suicídio, pensa em matar Creonte, pensa em esquartejar Heloísa, mas ele não controlava a sua própria mente e só rezava para aqueles efeitos entorpecentes passarem logo e que Creonte lhe explicasse logo o que diabos era tudo aquilo.

Termina o efeito da mordida de Heloísa depois de passada uma hora em que Fantoff delirava e tinha alucinações, em meio a ideações suicidas e de assassinato. Creonte vai em direção à poltrona em que estava sentado Fantoff e diz que Fantoff agora pertencia ao Teatro dos Vampiros.

Fantoff ainda hesitava em entender, e Creonte disse, enfim, para que Fantoff não tivesse dúvidas, que Fantoff virara um vampiro, é quando Fantoff quase desmaia de choque, e diz que aquilo não existia, que ele deveria estar sonhando, e Creonte lhe dá um beliscão na cara e diz que a mordida de Heloísa tinha sido a mordida de uma vampira, era tudo verdade, Fantoff agora teria que beber sangue. Fantoff fica indignado, pensa em sair dali imediatamente, mas Creonte disse que já era tarde, que os dois escreveriam uma nova peça em conjunto, e que Heloísa seria a estrela deles.

Fantoff, depois de mais uma hora, e de ouvir as revelações de Creonte, tudo sobre levitações e luzes, por exemplo, não eram efeitos especiais de teatro, mas fenômenos mediúnicos adquiridos por todos que eram vampiros, e que o primeiro vampiro deles era Leon Blanc, o dono do Teatro dos Vampiros, que mordeu Creonte, este mordeu a Senhora das Trevas, que mordeu Blackstar e este mordeu Heloísa, que se tornou a principal mordedora do grupo, e que foi uma das fundadoras da Seita Gótica, junto com Blackstar.

Blackstar, por sua vez, criara o grupo dos dez vampiros decadentes que, ao conhecerem Blackstar e saberem que ele era um vampiro, pediram para serem mordidos, pois antes de conseguirem trabalho no Teatro dos Vampiros, estas figuras eram seres da rua, não tinham paradeiro ou aonde cair morto, e virar uma equipe de vampiros subalternos de Blackstar no Teatro dos Vampiros, seria tanto um lar, já que havia uma casa de dois andares anexa ao teatro aonde eles forma alojados, como uma oportunidade de trabalho.

Fantoff ouve toda a história de como surgiu o Teatro dos Vampiros e fica chocado ao descobrir que as duas jovens tinham sido assassinadas em cena, e que aquilo já se repetira em todas as apresentações do Teatro dos Vampiros.

Fantoff logo percebe que acabara de entrar num seita de assassinos, mas sente sede, muita sede, ele pensa querer água, mas Heloísa esclarece para Fantoff que a sua sede incontrolável e súbita era por sangue e que ele teria que beber o sangue de um dos corpos que ainda estavam lá na coxia.

Fantoff pula em cima de uma das jovens mortas e morde o pescoço, o sangue já frio de um cadáver de cinco horas atrás, que lhe sacia momentaneamente, ele precisaria beber o sangue que estava no estoque, conservado, e Heloísa traz uma garrafa, enche uma taça com sangue conservado, e finalmente Fantoff aplaca a sua sede.

Leon Blanc e Mademoiselle Nuit voltam na segunda-feira, Creonte apresenta Fantoff ao empresário do Teatro dos Vampiros e logo diz a Leon que este agora era um deles, mais um vampiro, e o melhor, era autor teatral, e que Creonte já maquinava criar uma nova peça com a colaboração de Fantoff.

Leon Blanc ri docemente, bebe uma taça cheia de sangue e oferece uma taça também para Fantoff, que já se acostumando a sua nova condição vampiresca, bebe a sua taça, enquanto isto, Mademoiselle Nuit, num lugar recôndito do Teatro dos Vampiros, faz seus estudos de ópera, soltando trinados e melismas ainda com traços toscos de quem estava aprendendo os rudimentos da voz operística.

Leon Blanc então encontra Blackstar, que chega à tarde no Le Chat D´Enfer, para resolver algumas coisas práticas, pois era ele que fazia a administração do restaurante, deixando Creonte cuidar da parte artística, com o palco com piano, detalhes visuais do restaurante e as montagens de esquetes com o tal ator português que se apresentava lá toda sexta de noite.

O jovem ator Flamboyant, que também era músico, ia eventualmente tocar piano lá, mas havia muitos pianistas que eram contratados temporariamente e se revezavam durante semanas ou meses, com Flamboyant sendo uma espécie de convidado especial, geralmente quando se faziam os encontros fechados da Seita Gótica.

Leon Blanc conversa longamente com Blackstar, e depois se dirige novamente a Creonte, que chega ao restaurante, vindo do teatro, junto com Fantoff, e Leon Blanc chama Fantoff e diz que ficara muito contente em conhecer seu novo autor teatral e que aquilo tudo daria muitos frutos.

Leon Blanc percebera a inteligência ardente de Fantoff, com uma curiosidade mórbida que o levou à coxia para ser mordido por Heloísa somente para poder descobrir os segredos que habitavam o Teatro dos Vampiros e a sinistra companhia de atores, a Seita Gótica. Leon Blanc logo se afeiçoa a Fantoff e todos que estavam naquela tarde no Le Chat D`Enfer combinam que estariam na segunda apresentação de “O Enigma”, Blackstar, claro, representando Claude Gerome.

Fantoff, na noite anterior à segunda apresentação de “O Enigma”, na quinta, se encontra com Lancaster para discutir sobre teatro, e acaba o convidando para ir ao Le Chat D`Enfer, lá eles vão e acabam encontrando ao acaso Blackstar, que estava lá cuidando de gerenciar algumas entregas que haviam chegado ao restaurante, que eram o material de limpeza, material para obras, e muita comida e bebidas.

Blackstar decide, um pouco depois, já tendo resolvido a acomodação das mercadorias e dos materiais com os funcionários da cozinha e da limpeza, se sentar junto com Fantoff e Lancaster.

Os três bebem vinho durante umas três horas seguidas, chega tarde da noite, Fantoff e Lancaster se despedem de Blackstar e eles saem do restaurante para ir cada um para suas casas em Montmartre. No meio do caminho, Fantoff tem uma crise de sede, ele precisava de sangue, tenta morder o pescoço de Lancaster, que não entende nada, fica assustado, e pergunta se Fantoff estava ficando louco, Fantoff começa a emitir uma luz azul escura de sua face e Lancaster acha que estava tendo uma alucinação e acaba desferindo um soco na cara de Fantoff que cai desacordado no meio da rua.

Lancaster não quis saber, e saiu deixando ali no meio da rua, desmaiado, Fantoff, que acaba sendo socorrido somente na manhã seguinte, por um guarda, que o leva, junto com dois bombeiros, para um hospital em Montparnasse.

Fantoff é avaliado neste hospital, e um psiquiatra acaba afirmando que Fantoff precisaria descansar por duas semanas, os três primeiros dias em observação no hospital, e o resto destes dias de repouso em sua casa em Montmartre. Mas, Fantoff percebe que estava entrando numa cilada, e acaba dando um jeito de fugir do hospital na sexta de noite, para conseguir ver a segunda apresentação de “O Enigma” e arrumar algum sangue fresco no Teatro dos Vampiros.

Fantoff chega ao Teatro dos Vampiros, esbaforido, uma hora antes da segunda apresentação de “O Enigma”, lá está Creonte, já sob efeito profundo de seu narguilé de ópio, aparece Leon Blanc, Mademoiselle Nuit, a Senhora das Trevas, Blackstar e os dez vampiros decadentes, Flamboyant, Susanne Flammarion, Heloísa, Jean Torreau.

Também estavam no Teatro dos Vampiros duas jovens que possivelmente seriam sacrificadas naquela noite e estavam ali sem saber em que armadilha tinham entrado, seduzidas por Blackstar, que sempre fazia isto para conseguir material para os holocaustos de sangue praticados no Teatro dos Vampiros.

Também chegaram parte da companhia da Seita Gótica que não fazia parte da peça “O Enigma”, como o autor Pierre Jolie e sua esposa Juliette Blanchet, atriz da Seita Gótica, ambos que faziam a preparação para a peça que sucederia a temporada de “O Enigma”, que seria o monólogo sobrenatural para declamação de Juliette Blanchet de título “O Voo”, escrito por seu marido, Pierre Jolie.

Também estava no Teatro dos Vampiros, naquela noite, o contrarregra Lemort, que logo Fantoff descobre que também era um vampiro, assim como todos da Seita Gótica e todos que trabalhavam no Teatro dos Vampiros. Fantoff vai, por alguns instantes, para a coxia beber sangue junto com Leon Blanc, que oferece uma taça com o melhor líquido sanguíneo do estoque do teatro para Fantoff, pois Leon Blanc já sabia que Fantoff passara por apuros e precisava se refrescar um pouco para ver “O Enigma” já saciado.

Todos os principais convidados ficam nas laterais de luxo, os atores que iam se apresentar vão para seus camarins, depois se dirigem à coxia, lá Creonte, minutos antes de começar a peça, já acabara de sair de seu camarim individual, que servia somente para ele se empanzinar de ópio antes de ver suas criações teatrais em atividade.

Creonte era o autor mais criativo do Teatro dos Vampiros, mas também o mais junk de todos, vivia constantemente sob o domínio onírico de seu consumo industrial de ópio, mais do que seus surtos de sede, que era um sintoma que ocorria a todos os vampiros.

Os surtos de sede dos vampiros, por sua vez, ocorriam em lapsos de tempo variáveis para cada vampiro individualmente, estes surtos de sede de sangue tinham diferentes gradações de intensidade também, e entre os vampiros entre si, uns tinham mais surtos que outros, e as intensidades eram bem variáveis, a que mais surtava e que mais tinha mordido gente na Seita Gótica era, disparado, Heloísa, e era a atriz, por conseguinte, que dominava com mais intensidade os fenômenos mediúnicos de levitação, brilhos sobrenaturais e episódios de êxtase místico.

Começa o espetáculo de “O Enigma”, e no desenrolar do primeiro ato, na hora exata em que mais uma jovem seria sacrificada no estrado, de súbito, uma batida policial invade o teatro, eram cerca de cinquenta autoridades, que entram colocando o público para fora e interrompendo a peça.

Creonte, que estava na área lateral de luxo, desce correndo, mesmo num transe onírico de ópio. Blackstar desce do estrado para enfrentar os policiais e acaba sendo contido por cinco autoridades, e o chefe de polícia disse que tinha um mandado feito por uma denúncia anônima, ele afirma que ali no Teatro dos Vampiros eram realizados rituais satânicos, beberagem de sangue e assassinatos, que algumas das famílias das jovens que foram sacrificadas no teatro tinham sido informadas no dia anterior da batida policial que tais jovens possivelmente tinham sido sacrificadas durante as peças realizadas no Teatro dos Vampiros.

O Teatro dos Vampiros cremava os corpos após um dia dos sacrifícios. Contudo, nesta noite de sexta, os policiais entram na coxia e salvam as duas jovens que seriam sacrificadas. Uma das jovens é retirada do palco, e a outra, que estava amarrada dentro da coxia, é libertada, e todo o estoque de sangue é confiscado.

Toda a companhia de atores e autores, incluindo Leon Blanc e Mademoiselle Nuit, todos são algemados e presos. No dia de sábado, após a noite em que a polícia entrou no Teatro dos Vampiros, o estabelecimento é interditado para investigação, que dura um mês, e é concluído que se tratava de uma seita de vampiros, a notícia que sai no diário parisiense é “Noite dos Vampiros vira caso de polícia”, e outra manchete “Vampiros assassinos são presos”.

Neste um mês de investigações, com todos os vampiros presos, incluindo Fantoff, eles agonizam de sede, pois não havia sangue para consumo, tinha sido tudo confiscado. Heloísa, Blackstar, Fantoff, Flamboyant, Leon Blanc, e todo o resto dos vampiros começam, primeiro, a enlouquecer, e depois de um mês, começaram a sofrer de inanição, em questão de três meses, todos sem beber sangue desde a interdição do Teatro dos Vampiros, foram morrendo, e em questão de seis meses, todos estavam mortos por inanição, dominados pela loucura.

Conto pronto em 20/08/2020

Contos Psicodélicos – Volume II

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

AS DARK KITCHENS

“O movimento do delivery tende a se expandir com esta atuação das dark kitchens”

As dark kitchens se apresentaram como uma solução para aumentar a eficiência do delivery de restaurantes, com economia e uma maior agilidade de entrega. Tal modalidade se tornou uma extensão natural do mercado em relação ao avanço do delivery e para atender as demandas dos consumidores.

As dark kitchens são cozinhas profissionais de restaurantes que usam o espaço físico exclusivo para o delivery, ou seja, são diferentes das cozinhas tradicionais, pois não há espaço físico para atendimento dos clientes, podem ser cozinhas grandes, compartilhadas, ou “escondidas” em locais que não são acessíveis para o público. E as dark kitchens podem, ainda, atender a diversas marcas ao mesmo tempo, pois o foco é o delivery.

A opção pelas dark kitchens podem ser praticadas por restaurantes novos que só fazem o delivery ou, também, ser uma alternativa para empresas já consolidadas no mercado, mas precisam dar conta da demanda do delivery ou atender em locais mais remotos, como cidades menores.

As dark kitchens podem servir para ampliar o mercado de delivery, e para os restaurantes é uma alternativa mais barata de custo do que um espaço físico para clientes e mais eficiente para atender toda a demanda crescente de delivery. Este conceito de dark kitchens, por sua vez, surgiu com a popularização dos aplicativos de entrega de comida.

Muitas reportagens indicam que as dark kitchens surgiram em Londres, e sua existência no mercado está apenas nas redes sociais, pois não existe loja ou fachada para clientes. As dark kitchens são um empreendimento bem mais barato do que o restaurante tradicional, pois só precisa de uma cozinha, um cozinheiro, contrato com algum aplicativo e um produto para vender.

Com o tempo, as dark kitchens se popularizaram em países como Colômbia, México, Brasil, Argentina, Chile e Peru, e com o sucesso destas dark kitchens, algumas delas puderam expandir seus negócios para se tornarem uma franquia e até abrir os primeiros restaurantes físicos.

A Rappi, por sua vez, aplicativo de entrega de refeições, oferece à estes empreendedores de dark kitchens, por sua vez, espaços para alugar e trabalhar exclusivamente para eles. A Uber Eats, por sua vez, não investe em infraestrutura, mas promove as marcas diferentes de uma mesma cozinha, por exemplo. Os negócios de dark kitchens fazem a sua reputação, por sua vez, nas redes sociais e espaços online.

Hoje temos 12 % do negócio de refeições envolvendo delivery,  e neste ramo temos uma redução de custos de 30% a 40 % com as dark kitchens, pois o aluguel se torna mais barato, e não precisa contratar garçons ou outros funcionários. Os clientes e entregadores também se beneficiam deste modelo, pois há uma maior cobertura das áreas de entrega e uma redução do tempo de entrega.

O aplicativo Apptite, por sua vez, criou um modelo de cozinheiros independentes, pois opera um delivery de comidas feitas em casa, e está em operação desde 2016, aplicativo pelo qual o cliente pede um prato caseiro feito por chefs profissionais e amadores.

O aplicativo diz que todo o trabalho posterior à preparação da comida pelo chef independente é feito pelo aplicativo, os chefs pagam com isto uma comissão de 25% ao aplicativo, e este fornece para o chef independente sacolas, embalagens, lacres e etiquetas, itens de uso obrigatório, e também cobre a gerência de motoboys.

O movimento do delivery tende a se expandir com esta atuação das dark kitchens. Falando da logística, por exemplo, temos a Rappi que utiliza hubs de cozinhas para alocar restaurantes parceiros ou também em um espaço independente, e com o aumento da eficiência e flexibilidade realizada pelas dark kitchens, por exemplo, uma mesma cozinha pode trabalhar com diversos produtos ao mesmo tempo.

O parceiro da Rappi pode fazer uma dark kitchen com uma única especialidade, ou utilizar uma dark kitchen com uma capacidade maior de produção, podendo abrigar duas marcas diferentes, e a Rappi personaliza a infraestrutura e a estrutura para atender estas marcas que trabalham alojadas em dark kitchens.

Gustavo Bastos, filósofo escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-dark-kitchens