PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

CLARVOYANT

The clarvoyant read the news
and fell down with
his treasures,

like a terrible nightmare
he wrote a letter against
the censorship of those
bounds of pain,

in his dream like a castle
he sang freely on those
mountains he´d like
to draw when he was a child,

the clarvoyant act in his
dream through the walls
of sorrow and among
the army of freedom,

he teached the beggars,
he saved the life
from nothingness,

and he sang again
during the trip
of bloom.

31/12/2019 Gustavo Bastos

PARAÍSOS ARTIFICIAIS

A sintaxe que se abre é uma
bebida premium com o estalo
de cantorias brotadas de caos,

ali, na hora dos vigias,
um delírio leviano chamuscava
e o palavrório operístico
encantava os teatros
com suas madames atávicas,

o samba, de chofre,
prorrompia qual azáfama
alucinado com brio sincopado,

depois, já do sexo refeito,
o dândi semeava seus escritos
nos lagares dos langores
que a festa da morfina
lhe proporcionava,

ah, o silêncio dos soníferos
em baladas em que a penúria
caía no olvido das graças
infinitas da alucinação
e seus paraísos artificiais.

31/12/2019 Gustavo Bastos

A CIDADE

A cidade abre as portas com
a fé dos poetas nas sombras
do acaso que furioso destino
tece entre os gritos,

ah, desde a fé mais pueril
ou aquela fé pétrea que
derruba arengas
como um trator
de linha reta,

a cidade tem ventríloquos
que se disfarçam em seus
teatrinhos de bonecos,
a cantar na chuva dos prantos
seus inferninhos alegrinhos,

a cidade tem desta astúcia
a fábula urbana qual gerânio,
e o passo largo das calçadas
entre os atropelados
das curvas absurdas,

a cidade faz de poema-piada,
a rir dos alcoólatras
e dar sopapos
em mendigos.

31/12/2019 Gustavo Bastos

DOSE CAVALAR

Em certa manhã universal,
quando batiam os dobres
das badaladas d`aurora,
eu precisava dourar os mistérios
com a dose cavalar de ópio
sob as cobertas com o estro de febre
que delira num campo de mártires,

ou seja, em minha túnica azul cobalto,
indubitável, qual supremo sábio,
a elencar das flores botânicas
o canto de soror e seus vinhos
de fêmeas tatuadas,
qual licor que do ventre
à cabeça molha os endereços
perdidos de amores bêbados,

desta feita, no caminho dos ritos
e manjares, anuncia em seu
tabernáculo o vulto de propaganda
entre os intermezzos da paixão,
e rutila meu passarinho
na alvissareira montanha
entre as monções
do crepúsculo.

31/12/2019 Gustavo Bastos 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XVII


“O Reverendo Moon fundou a Igreja da Unificação em 1954”

O Reverendo Moon fundou a Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial, dentre outras associações, espalhadas no mundo. Tem como obra em livro principal a Exposição do Princípio Divino. Umas de suas funções conhecidas era a de celebrar casamentos em massa. Moon também foi dono de um conglomerado bilionário na área de comunicações, de automóveis, remédios, armas, turismo, publicidade e outras atividades mais.
E o Reverendo Moon decidiu comprar terras no Mato Grosso do Sul e também do lado paraguaio, e nos anos 1990 o Reverendo Moon iniciou um projeto de fazer da cidade de Jardim uma colônia coreana, para onde afluíram tanto coreanos como japoneses. Pelos seus métodos de doutrinação, o Reverendo Moon foi proibido de entrar no Reino Unido em 1995, e em 1982 foi preso nos Estados Unidos por suborno de parlamentares, sonegação fiscal, e especulação acionária.
A Igreja da Unificação foi fundada pelo Reverendo Moon em Seul, na Coreia do Sul. O livro sobre o Princípio Divino foi a base da teologia desta igreja, e tal doutrinação passa pela ideia de que Deus, através de Jesus, escolheu o Reverendo Moon para concluir a missão de Jesus, como uma espécie de segundo advento para terminar o trabalho do Messias.
As controvérsias do movimento de Unificação passam pela política, como nos temas da reunificação coreana e do anticomunismo, sendo um movimento criticado por eruditos judeus e também cristãos, e Moon e sua esposa foram também proibidos de entrar nos países signatários do Acordo de Schengen, como a Alemanha, por exemplo.
A igreja do Reverendo Moon no Brasil começou a ser investigada pela Polícia Federal em dezembro de 2001, com suspeitas de lavagem de dinheiro, uso de documentos falsos, estelionato e problemas trabalhistas, em 2002 chegou a ter uma operação de busca e apreensão tanto em São Paulo como no Mato Grosso do Sul.
No município de Jardim o Reverendo Moon chegou a ser considerado como Deus, com um projeto de erguer ali o Reino dos Céus na Terra. Para os fiéis do Reverendo, ele é o Verdadeiro Pai, e sua esposa, Hak Ja Han, a Verdadeira Mãe, e tudo que diz respeito à seita, por fim, é entendido pelos fiéis como “Verdadeiro”.
A fazenda Nova Esperança, por sua vez, no município de Jardim, foi fundada para virar um verdadeiro paraíso terrestre, e com diversos workshops, o Reverendo Moon consegue fazer a combinação de religião com finanças, com o Reverendo que tinha como objetivo tornar Nova Esperança num modelo autossuficiente de criação de animais e de lavouras, indo dali para todo o Mato Grosso do Sul, para o Brasil, América Latina e dali para o mundo.
O Reverendo Moon fundou a Igreja da Unificação em 1954 para concluir a missão que Jesus lhe confiou quando o mesmo lhe apareceu quando o Reverendo tinha 16 anos. Moon aparece então aos seus fiéis como o novo Messias, com a função de mostrar a salvação por meio da família.
Contudo, essa imagem de entidade espiritual só vigorava dentro de seu círculo de ação, pois na própria Coreia ele já era acusado de orgias sexuais. Depois nos Estados Unidos tiveram novas denúncias, como citei acima neste texto. Mas, mesmo diante de problemas com a justiça, o Reverendo Moon conseguiu fundar um império de empresas diversas.
O cálculo da fortuna do Reverendo Moon em vida, no seu auge, é um caso obscuro, ele tinha tanto o patrimônio próprio, como tinha ajuda financeira para o movimento de empresários japoneses e coreanos. Pode ser que a fortuna do Reverendo Moon chegasse a somar cerca de US$ 8 bilhões, com aportes nos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão. E grande parte desta fortuna foi aplicada no projeto utópico no município de Jardim.
E o Reverendo usou seu poder econômico para seduzir os populares da região, muitos evangélicos e católicos, por exemplo, e que tiveram chance de emprego graças ao Reverendo, sendo assim um meio de cooptação e de conversão à igreja do Reverendo. O Reverendo Moon morreu em 3 de setembro de 2012 de pneumonia.

(Obs : Caros leitores, estou saindo de férias e retorno em fevereiro de 2020, para encerrar esta série sobre os gurus e trazendo novidades para a coluna, boas festas!)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



sexta-feira, 29 de novembro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE XVI


“Muitos estudiosos apontam Thomas como uma farsa, um ilusionista, e nem é um dos melhores”

No Brasil, Thomas Green Morton apareceu como alguém dotado de capacidades sobrenaturais, cujo dom era produzir fenômenos inexplicáveis apenas usando a mente, o que levou Thomas a ser considerado, em certo ponto, o maior paranormal do Brasil. Seu auge foi nos anos 1970 e 1980, passando por um período de ostracismo nos anos 1990, foi ressuscitado pelo Fantástico da Rede Globo no início do século XXI e depois voltou ao esquecimento novamente.
Thomas, no entanto, era considerado por muitos parapsicólogos como uma fraude, e muitas vezes se esquivou de participar de experiências controladas por cientistas, ao contrário de Uri Geller, que chegou a ser testado, e Thomas então seguiu um caminho midiático com fenômenos registrados em vídeo e apresentados na televisão.
Thomas até os doze anos foi uma criança normal, até que em 1959 houve uma mudança abrupta, sua vara de pesca foi atingida por um raio e ele foi jogado para trás, batendo no chão e levitando. Ele teve um desdobramento e viu seu próprio corpo recebendo as luzes de uma nuvem escura.
E veio uma voz desta nuvem e disse : “Thomaz… Várias forças te protegeram… protegeram… A partir deste momento, terás um poder mental muito grande. Poderás curar, ajudar as pessoas a resolver problemas diversos. Chegarás a fazer coisas impossíveis, inexplicáveis. Escute bem. Não esqueça! Guarde este pedaço de varinha pelo resto de sua vida e a toda pessoa que precisar de alguma força, ou de resolver algum problema dê um pedacinho desta varinha. Basta que a pessoa tenha fé e faça um pedido todos os dias às 18 horas e terá o problema resolvido. Você não poderá usar esta força para seu próprio proveito. Este pedacinho de varinha será um meio de sintonização com todas as forças cósmicas e divinas e você formará através dela, uma corrente mental e espiritual muito grande e muito poderosa”. Foi quando começou a história que daria no movimento da Mentalização Positiva.
Thomas, depois de voltar de um circo e fascinado com um número de hipnotismo, aplicou isto em um amigo e deu certo, ele dormiu, começava a história de Thomas como paranormal. E com os anos as habilidades de Thomas foram se desenvolvendo, tais como telepatia, teleporte, projeções, atuação sobre metais, depois fenômenos de energia perfumada. E Thomas então, em Divisa Nova, na fazenda de sua irmã Sônia, tem seus contatos com luzes extradimensionais, conhecidas orbs ou ultras. E Thomas passa também a fazer cirurgias psíquicas e observa óvnis na sua casa em Três Corações.
E a conhecida palavra “Rá” surgiu em 1980, depois de ouvir um ruído na sala da pirâmide, na propriedade de sua prima. Ele fez uma cirurgia psíquica, depois deste ruído, uma pedra atravessou a vidraça sem quebrar nada e pousou na sala da câmara planetária, lugar das energizações. Thomas pegou a pedra e levou um choque, e nos sinais que tinha na pedra, o nome Rá lhe surgiu com grande força, e ele passou a usar esta expressão para liberação de energia positiva.
Muitos estudiosos apontam Thomas como uma farsa, um ilusionista, e nem é um dos melhores, ao ponto de já ter sido flagrado com um flash fotográfico que saiu antes da hora de seu famoso grito Rá, o que era um truque barato para seus fenômenos luminosos.
E o desmascaramento de Thomas se deu pelo ilusionista Khronnus, no programa do Fantástico, demonstrando que todos os fenômenos feitos por Thomas eram truques baratos de ilusionismo, com os raios de luz sendo flashes fotográficos. A história do Fantástico começou na série Paranormal, quando Thomas começou a ser questionado e foi desafiado pelo mágico James Randi, que já havia desmascarado Uri Geller nos anos 1980, e prometeu a Thomas um milhão de dólares caso provasse a veracidade de seus poderes. Depois de aceitar o desafio, Thomas, contudo, desapareceu. E o Fantástico foi investigar, descobrindo que Thomas atuara como mágico em Três Corações, antes da fama.
E mesmo diante da revelação dos truques de Thomas, como a da moeda torta (para quê serve uma coisa desta no mundo prático, mesmo se fosse autêntico, de fato não sei, uma coisa frívola, como as cadeiras girantes), pelo Fantástico, ele teve defensores como Ivo Pitanguy que disse que Thomas entortou talheres seus sem tocar em nenhum deles, Sepúlveda Pertence, que foi ministro do Supremo, que disse que Thomas tratou a sua mulher que esteve doente, e Elba Ramalho que afirmou já ter visto Thomas levitar.

Link recomendado : Especial 1º Abril: Thomaz Green Morton, o homem do rá :


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

ANA MARTINS MARQUES E A POESIA COTIDIANA


“uma poesia com precisão nos detalhes”

Na poética do espaço, por sua vez, Ana Martins Marques nos dá como tema o espaço do lar, a imagem poética da casa, aqui mais uma vez reforçando a relação de parte da poesia contemporânea brasileira com temas do cotidiano. O espaço interior, a imagem do dentro, ao mesmo tempo, está aqui fora do mundo, o limiar entre uma vivência particular, o dentro, entra neste contraste com o mundo exterior, criando este limiar entre uma poesia íntima e o que fica fora deste lugar particular.
Em poemas como “Arquitetura de Interiores” do livro A Vida Submarina, temos este contraste entre dentro e fora, com a ideia de limiar tencionando todo o poema. E neste mesmo livro há toda uma série com este tema da casa, com a porta sempre como este limiar que tenciona a casa com o mundo exterior.
Na poética de Ana Martins Marques temos toda uma série de utensílios que irão compor a sua paisagem de poemas do cotidiano, desde xícaras lascadas até encanamentos, com a poesia dos utensílios ou a poesia das coisas aqui virando, de modo amplo, a poesia da casa. Com o tema do cotidiano em Ana Martins Marques, temos aqui uma herança que vem do Modernismo, e que passa, claro, por Ana Cristina César, esta influência indisfarçável para muitos poetas brasileiros contemporâneos, sem demérito, ao contrário, e que também vem de Chacal, Cacaso e Adélia Prado.
Temos, também, nos poemas de A Vida Submarina, a imagem da casa como fonte da memória e não apenas de um ímpeto objetivo e de uma poesia descritiva, a imagem dos afetos e a relação memorial de objetos com vivências, também amorosas, aparece nesta poesia do cotidiano de Ana Martins Marques. O espaço da casa, que tem, de um lado, nostalgia amorosa, também vira campo de anelo e sonho, uma paisagem imaginada ideal, impulsionando o poema que parte deste espaço particular.
Em Da Arte das Armadilhas, a concentração objetiva deste cotidiano, de uma poesia da casa, aumenta, aprofundando um microcosmo que aqui aparece com mais nitidez do que em A Vida Submarina. E finalmente, em O Livro das Semelhanças, esta relação entre dentro e fora se intensifica de modo mais amplo, com o tema metapoético do poema e do livro, culminando em poemas cartográficos, com o tema do mapa como o “fora” que a poesia busca.
Um ponto interessante é também de como a poeta vai edificar a sua subjetividade a partir deste espaço da casa, pois, partindo de uma linguagem cotidiana, inicialmente descritiva, logo vemos se desenhar nos poemas de Ana Martins Marques sobre a casa, a sua condição subjetiva, tanto de memória como de sonho, e a construção de sua reflexão pessoal partindo deste espaço de subjetivação particular que é do verbo habitar e que vem do substantivo casa.
A poesia de Ana Martins Marques, por fim, compõe um espaço de subjetivação e construção do eu lírico que não se limita numa poesia da casa e do cotidiano tomada como simples descrição objetiva e comezinha, mas como lugar em que a poeta reconfigura seu espaço objetivo e familiar e nos aponta para algo desconhecido.
Tal rearranjo cotidiano é próprio da linguagem poética se confrontando com sua reflexão subjetiva e o choque desta com o mundo objetivo da casa, uma poesia com precisão nos detalhes que, ao fim, coloca a poeta nesta tensão entre sua casa e o mundo, uma poesia do dentro e do fora que reconfigura a realidade com uma poesia atenta aos detalhes e que se forja entre o eu lírico e uma interação deste com o cotidiano, agora redesenhado pela linguagem poética.
POEMAS :
SEM TÍTULO : O poema vem com o tema do mapa, este contato da poesia de Ana Martins Marques com o mundo, com o que está fora, no que vem : “E então você chegou/como quem deixa cair/sobre um mapa/esquecido aberto sobre a mesa/um pouco de café uma gota de mel/cinzas de cigarro/preenchendo/por descuido/um qualquer lugar até então/deserto”. E seu interlocutor, aqui incógnito, deixa seu rastro no mapa, como que preenchendo o vazio, seja o deserto do mapa, ou um deserto na poeta que ali olhava o mapa.
SEM TÍTULO : O poema fala sobre a dobra do mapa que aproxima cidades distantes e corações que desejam se encontrar, o mapa dobrado junta o que tá longe, no que temos : “Você fez questão/de dobrar o mapa/de modo que nossas cidades/distantes uma da outra/exatos 1720 km/fizessem subitamente/fronteira”. A fronteira que se faz aqui é do gesto de dobrar um mapa, distância que aqui acaba neste gesto poético.
SEM TÍTULO : O mapa aqui aparece mais uma vez como a indicação do caminho para um encontro, no que vem : “Você assinala no mapa/o lugar prometido do encontro/para o qual no dia seguinte me dirijo”. O lugar assinalado logo vira a pressa do desejo, sempre este afoito, que esquece o mapa sobre a mesa, viagem perdida, no que temos : “a pressa feroz do desejo/deixando no entanto esquecido sobre a mesa o/mapa que me levaria/onde?”.
SEM TÍTULO : O poema tem o mapa do mundo aqui descrito de modo físico, disposto de forma que pode ser modificado ao gosto da poeta, no que temos : “Não sei viajar não tenho disposição não tenho coragem/mas posso esquecer uma laranja sobre o México/desenhar um veleiro sobre a Índia”. Ana Martins Marques tem aqui a onipotência de manipular seu mapa ao bel prazer, no que segue : “duplicar a África com um espelho/criar sobre o Atlântico um círculo de água/pousando sobre ele meu copo de cerveja/circunscrever a Islândia com meu anel de noivado”. A intervenção física do mapa como um papel disposto aqui vira imagem de poder à poeta de revirar um mundo inteiro com pequenos gestos, no que temos : “visitar os nomes das cidades/levar o mundo a passeio/por ruas conhecidas/abrir o mapa numa esquina, como se o consultasse/apenas para que tome/algum sol”.
SEM TÍTULO : O poema aqui, mais uma vez, usa da imagem do mapa como fonte para a imagem poética do encontro, no que temos : “Viajo olhando pela janela do ônibus/em busca das linhas vermelhas das fronteiras/ou dos nomes luminosos das cidades”. O poema segue aqui com o estudo detido da poeta sobre o mapa como modo de encontrar o caminho ao seu interlocutor, no que temos : “e eu passava horas estudando/todos os caminhos que me levariam até você/mas nos mapas eu nunca te encontrava”. A poeta aqui especula, sonha, delira, e na conjectura tenta realizar um anelo meio solto, que fica neste poema, ao ver do mapa a sua esperança de um caminho direto : “talvez você me espere na rodoviária/talvez eu te veja ainda antes de descer do ônibus/assim que descer vou entregar nas suas mãos/emboladas num novelo/as linhas desfeitas das fronteiras e/como as contas luminosas de um colar/cada um dos nomes das cidades”.
SEM TÍTULO : O poema segue com o tema do mapa, agora como um efeito da chuva que influi toda a descrição poética que o poema desenha, aqui também com a imagem física do mapa fazendo uma linha com sua associação com o que o mapa representa, no que segue : “Abro o mapa na chuva/para ver/pouco a pouco/diluírem-se as fronteiras” (...) “as cores confundidas/nem parecem mais aleatórias” (...) “agora há um grande lago/onde antes havia uma cordilheira/o mar não é mais molhado/do que o deserto logo ao lado”. O mapa, tomado como objeto físico, ganha a sua proporção gigante de descrição do mundo, interagindo este microcosmo com uma vastidão de fronteiras e países, entre insetos que dominam o cenário, e que Ana Martins Marques aproveita aqui para brincar de modo genial, no que temos : “Deixo depois o mapa/para secar ao sol/sobre a grama do jardim/mais rápidas do que aviões/as formigas atravessavam/de um continente a outro/uma lagarta riscada/apossou-se das Coreias/agora unificadas/um tapete de folhas/cobre o mar Egeu/e o rastro de uma lesma umedeceu/o Atacama”. E diante desta festa da natureza, a poeta deixa o mapa para um pequeno inseto novo lhe dar a feição, ao fim este mapa se dobraria sobre si mesmo, revelando lugares secretos, no que temos : “Penso que se deixasse o mapa aí/tempo o bastante/em algum momento surgiria/quem sabe/um pequeno inseto novo/com esse dom que têm os bichos/e as pedras e as flores e as folhas/de imitarem-se/uns aos outros” (...) “Quando enfim/fechássemos o mapa/o mundo se dobraria sobre si mesmo/e o meio-dia/recostado sobre a meia-noite/iluminaria os lugares/mais secretos”.
POEMAS :
SEM TÍTULO
E então você chegou
como quem deixa cair
sobre um mapa
esquecido aberto sobre a mesa
um pouco de café uma gota de mel
cinzas de cigarro
preenchendo
por descuido
um qualquer lugar até então
deserto

SEM TÍTULO
Você fez questão
de dobrar o mapa
de modo que nossas cidades
distantes uma da outra
exatos 1720 km
fizessem subitamente
fronteira

SEM TÍTULO
Você assinala no mapa
o lugar prometido do encontro
para o qual no dia seguinte me dirijo
com apenas café preto o bilhete só de ida do metrô
a pressa feroz do desejo
deixando no entanto esquecido sobre a mesa o
mapa que me levaria
onde?

SEM TÍTULO
Não sei viajar não tenho disposição não tenho coragem
mas posso esquecer uma laranja sobre o México
desenhar um veleiro sobre a Índia
pintar as ilhas de Cabo Verde uma a uma
como se fossem unhas
duplicar a África com um espelho
criar sobre o Atlântico um círculo de água
pousando sobre ele meu copo de cerveja
circunscrever a Islândia com meu anel de noivado
ou ocultar o Sri Lanka depositando sobre ele
uma moeda média
visitar os nomes das cidades
levar o mundo a passeio
por ruas conhecidas
abrir o mapa numa esquina, como se o consultasse
apenas para que tome
algum sol

SEM TÍTULO
Viajo olhando pela janela do ônibus
em busca das linhas vermelhas das fronteiras
ou dos nomes luminosos das cidades
pairando sobre elas
como nos mapas
neles não ventava nem chovia
e nunca era noite
e eu passava horas estudando
todos os caminhos que me levariam até você
mas nos mapas eu nunca te encontrava
chego em duas ou três horas
o coração no peito como um pão
ainda quente na mochila
talvez você me espere na rodoviária
talvez eu te veja ainda antes de descer do ônibus
assim que descer vou entregar nas suas mãos
emboladas num novelo
as linhas desfeitas das fronteiras e
como as contas luminosas de um colar
cada um dos nomes das cidades

SEM TÍTULO
Abro o mapa na chuva
para ver
pouco a pouco
diluírem-se as fronteiras
as cidades borradas
diminuem de distância
as cores confundidas
nem parecem mais aleatórias
perderam aquele modo abrupto
com que as cores mudam nos mapas
agora há um grande lago
onde antes havia uma cordilheira
o mar não é mais molhado
do que o deserto logo ao lado

Deixo depois o mapa
para secar ao sol
sobre a grama do jardim
mais rápidas do que aviões
as formigas atravessavam
de um continente a outro
uma lagarta riscada
apossou-se das Coreias
agora unificadas
um tapete de folhas
cobre o mar Egeu
e o rastro de uma lesma umedeceu
o Atacama
uma formiga enamorou-se
de um vulcão
exatamente do seu tamanho
um dos polos
ficou à sombra
e resfriou-se mais que o outro
de longe não sei se são moscas
ou os nomes das cidades

Penso que se deixasse o mapa aí
tempo o bastante
em algum momento surgiria
quem sabe
um pequeno inseto novo
com esse dom que têm os bichos
e as pedras e as flores e as folhas
de imitarem-se
uns aos outros
um pequeno inseto novo
eu dizia
um novo besouro talvez
que trouxesse desenhado nas costas
o arquipélago de Cabo Verde
ou as finas linhas das fronteiras
entre a Argélia e a Tunísia

Quando enfim
fechássemos o mapa
o mundo se dobraria sobre si mesmo
e o meio-dia
recostado sobre a meia-noite
iluminaria os lugares
mais secretos

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.