PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT – PARTE I

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT, O POETA SINGULAR DO MODERNISMO

“este poeta vai revitalizar o estro romântico, com um acento mais grave”

O poeta nasceu em 1906, no Rio de Janeiro (RJ), onde faleceu em 1965. O poeta integrou historicamente o período modernista, mas nunca participou de nenhum movimento, tendo a sua obra sido uma influência para a geração de poetas que surgiu na década de 1940. Augusto Frederico Schmidt também foi editor e empresário, tendo ainda feito parte do governo de Juscelino Kubitschek.
Augusto Frederico Schmidt realizou uma grande obra poética, estreando na literatura brasileira, em 1928, com seu livro de poesia “Canto do Brasileiro”, cujo tema principal era o da morte, e que trazia uma tendência messiânica, contribuindo com a nova poesia brasileira, naquele tempo que era o da afirmação do movimento do Modernismo.
No caso de Augusto Frederico Schmidt, este poeta vai revitalizar o estro romântico, com um acento mais grave, tornando-se o poeta, então, dentre os pares de seu tempo, uma figura singular, pois Schmidt tinha um estilo ainda simbólico que nem sempre ecoava o cotidiano e o coloquialismo que surgia de forma plena na corrente poética modernista.
No cenário posterior da poesia brasileira, e falando do mercado editorial, o poeta se encontra numa espécie de limbo, sem grandes edições, quando muito, o conhecimento que temos do poeta é pela via antológica, e muito se perde de um poeta que atravessou com sua obra grande parte do século XX, de 1928 a 1964, sendo sempre um poeta forte e original.
Augusto Frederico Schmidt, entre os pares de seu tempo, na poesia, estabelece um corte, e que é ao mesmo tempo a sua marca, sua diferença, e seu isolamento num estilo em geral diverso do que vinha sendo feito pelos modernistas. Desde sua estreia em 1928 com o Canto do Brasileiro, seu estro avançava para outro domínio de expressão e estilo que não era o do poema modernista que era praticado naquelas década de 1920.
Os poetas do Modernismo eram mais coloquiais, com poemas-piada, retratando um Brasil local e arcaico. E no caso de Schmidt tínhamos um canto do brasileiro com estilo mais simbólico, o que então em sua obra posterior também se revelará, como dito, nos pendores românticos, colocando Schmidt num lugar próprio e sensível, na verdade instável, talvez sendo um dos motivos de sua obra ter tido menos reedições do que os modernistas mais standard.
Esta bifurcação do poema modernista, entre os mais modernos, e poetas mais tradicionais como Augusto Frederico Schmidt, no entanto, refletia o próprio projeto de pesquisa da poesia modernista, não era uma contradição, pois a liberdade de cada poeta para realizar as suas próprias experiências reforçava um dos legados principais do movimento modernista, que era o de uma pesquisa estética permanente e infindável, como irá afirmar em conferência de 1942 o poeta Mário de Andrade.
Schmidt, então, será o poeta que vai inaugurar um poema moderno com fundo simbolista, que tinha certos eixos coloquiais, mas que se fundava mesmo era numa linguagem poética mais séria e formal, num tema que ia para o fantástico e o lírico para escapar da angústia cotidiana. Mas, como dito, Schmidt foi pouco lido, se o compararmos aos poetas mais conhecidos do Modernismo, e outros tiveram até destino pior, pois ficaram num esquecimento histórico, poetas como Emílio Moura, Dante Milano e Henriqueta Lisboa.
Os temas líricos, de um mundo invisível, da poesia de Schmidt, se distanciava do que era concreto, sendo um caso único no Modernismo, numa busca de universalidade para a linguagem poética moderna que se tornou, no entanto, uma singularidade que hoje habita um lugar estranho no cenário geral dos poetas que fizeram parte das gerações do Modernismo.

POEMAS :

CANTO DO BRASILEIRO (1928)

CANTO DO BRASILEIRO : O poema que dá título ao livro de Schmidt nos dá um panorama do 
cenário do Brasil como um lugar evitado por uma fuga ao mundo, sendo então aqui o poeta aquele que vai descrever muito mais as suas próprias sensações do que um retrato cotidiano da paisagem que talvez evoque o título do poema antes de nos debruçarmos sobre ele, no que temos : “Não quero mais o amor,/Nem mais quero cantar a minha terra./Me perco neste mundo./Não quero mais o Brasil”. O poeta meio que se rebela contra o Brasil, mas nem tanto, como se vê no poema que exala uma contradição radical entre impulsos fortes e opostos entre si, no que segue : “Quero é perder-me no mundo/Para fugir do mundo.” (...) “Sou uma confissão fraca/Sou uma confissão triste/Quem compreenderá meu coração?!/O silêncio noturno me embala./Nem grito. Nem sou./Não quero me apegar nunca mais/Não quero nunca mais.”. As decisões dramáticas e radicais revelam um temperamento poético já ultrapassado, mas que ganha nota modernista, pois o poeta é um estranho no ninho, mas não é um ser incompreensível, no que temos : “O mundo pesa em cima de mim/Não quero mais carregar ele./Nem filosofias/Nem nada./Sou o homem que chora”. O peso do mundo, com toda a sua carga que faz filosofar desesperadamente, faz o poeta chorar, e segue : “Meu coração!/Nas vielas escuras – meu Deus que mistério!/Nos portos tão longe/Tristezas tão grandes!/Me perco no mundo” (...) “Agora, a tristeza/Cidades tão lindas/Agora, a saudade/Cidades tão grandes./Nas matas de casas me perco meu Deus!”. E agora a angústia recorre a Deus, este ponto ou lugar oculto ou salvação do tormento do mundo, no que temos : “Meu Deus que te ocultas em tudo o que existe,/Tirai-me a tristeza que lenta sufoca/O meu coração.” (...) “Eu tenho saudade de luares estranhos –“ (...) “_ Minha pátria é bem longe/Minha pátria é mais longe/Fujamos daqui./E a onça é o mistério/Tem febre nos olhos –/Tem sol concentrado no seu coração./_ Minha pátria é aqui mesmo!/Lembrai-vos dos prantos/Que os rios levaram/De alguém que partiu.”. O poeta tem um exílio perturbado, e o poema demonstra a confusão de uma alma errante.

NAVIO PERDIDO (1929)

A PARTIDA : O poema evoca a noite como o cenário ideal da morte do poeta, no que temos :“QUERO morrer de noite –/As janelas abertas,/Os olhos a fitar a noite infinda.”. E temos a descrição precisa do desenlace de sua alma do corpo, e a cena geral de um velório, no que segue : “Irei me separando aos poucos,/Me desligando devagar./A luz das velas envolverá meu rosto lívido.” (...) “E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos./Os que virão, os que ainda não conheço,/Estarão em silêncio,/Os olhos postos em mim.”. E seu destino após a morte também é descrito, a fuga para a distância, no que segue : “Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo./E quando todos souberem que já não estou mais/E que nunca mais volverei/Haverá um segundo, nos que estão/E nos que virão, de compreensão absoluta.”. Uma alma que nunca volverá, e aos que ficam se gera o milagre da compreensão absoluta.

LEMBRANÇA : O poema levanta a ideia da consciência da finitude, um tipo de memento mori (pensar na morte) pessimista que invade o entretenimento feliz de uma sessão de cinema, no que temos : “TODOS os que estão neste cinema agora,/Neste cinema alegre,/Um dia hão de morrer também :/Nos cabides as roupas dos mortos/penderão tristemente.”. E o poeta nos lembra ainda que a morte é universal, no que segue : “E todos os homens medíocres/se elevarão no mistério doloroso da morte./Todos um dia partirão –/mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo :”. E enfim o poeta continua a nos lembrar da morte, esta que os frequentadores da sessão de cinema esqueceram, a ignorância é feliz, e o poeta é um angustiado, no que termina o poema : “No entanto parece que os frequentadores deste cinema/Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer/- Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de/esquecimento e equilíbrio.”.

NOTURNO I : O poeta aqui tem medo do trovão e da chuva, ele lembra de sua infância, e seu refúgio é a memória, mas também está nela a origem de seu medo, e nesta contradição vai o poema, que evoca a chuva e o escuro da noite, e que tematiza o medo através da memória infantil, no que temos : “EU tenho medo da chuva/E do raio, do trovão –/Fica menor, quando chove,/Meu coração./Quando os raios riscam rápidos/O escuro do firmamento –/Que saudade se apodera/De mim, do meu pensamento!/Me lembro de um tempo longe/Que não volta nunca mais :/Eu era bem pequenino/E eram vivos os meus pais.” (...) “_ Minha mãe, que medo eu tenho/Do escuro da noite enorme!/Quanto menino pequeno/Anda no mundo, sozinho,/Que tem medo e que não dorme!”.

CANTIGA : O poema traz um poeta que tem medo da solidão e de perder o amor, e este parte e lhe deixa aos seus lamentos, no que temos : “Ficarei sozinho,/Não partas assim!/É longo o caminho,/Longo e tenebroso.”. Um caminho longo e grande se abre, o poeta o encara como um abismo, que muitos chamam de vazio da alma, e este gera o medo, e o poeta aqui é um refém exangue de seu próprio coração, no que temos : “Ficarei sozinho/Numa angústia enorme,/Ficarei sozinho/Numa tal tristeza/Que – ai de mim! –/Jamais os meus olhos sentirão beleza/Nas coisas mais belas deste mundo assim.”. Temos neste poema um exemplo do estro romântico em pleno modernismo, aqui Schmidt é intenso, como um bom romântico chorão, no que segue : “Nunca mais o mundo me será risonho,/Nunca mais a vida sorrirá pra mim./Não partas assim!” (...) “Fica mais um instante!/Não me deixes pobre/Neste isolamento,/Nesta casa escura/Ouvindo o lamento/- Ai de mim! –/Deste meu tormento/Que não tem mais fim!”. Eis a ideia de que o tormento não tem fim, quando na verdade tudo passa e finda sempre, mas o poeta está com o coração transbordando, e sucumbe, no que segue o poema : “Ficarei chorando de desesperança/Como em terra estranha chora uma criança/Sem amparo algum./Ficarei sozinho .../Não partas assim!”.

IMAGEM : Um encontro se foi, o cruzamento dos destinos se deu uma única vez, e o poema lembra atônito um fato radical, que é o fato irrepetível do qual o destino é mestre, e pertence a quem o decifra, sem mais. Mas, aqui o poeta é mais uma vez um refém, um ingênuo que sofre em vão, no que temos : “AQUELA despedida para nunca mais./As mãos se apertaram num gesto rápido./Os olhos se encheram de lágrimas –/Nunca mais, como um soluço, nunca mais./Destinos que se cruzam rapidamente./Quem sabe se de novo, um dia ...?/Havia um pressentimento, uma certeza quase, porém,/De que nunca mais, nunca mais ...”. É o poema que deseja o nunca mais, que é o vazio da alma que se apega e que tem o coração oprimido do poeta, com um peso que lhe apunhala o peito, e o poema finda, então : “No coração opresso, os apitos eram punhaladas longas./E aquele olhar, e aquele olhar triste e molhado./E aquelas mãos morenas a dizer adeus ...”.

POEMAS :

CANTO DO BRASILEIRO (1928)

CANTO DO BRASILEIRO

Não quero mais o amor,
Nem mais quero cantar a minha terra.
Me perco neste mundo.
Não quero mais o Brasil
Não quero mais geografia
Nem pitoresco.

Quero é perder-me no mundo
Para fugir do mundo.

As estradas são largas
As estradas se estendem
Me falta é coragem de caminhar.

Sou uma confissão fraca
Sou uma confissão triste
Quem compreenderá meu coração?!

O silêncio noturno me embala.
Nem grito. Nem sou.
Não quero me apegar nunca mais
Não quero nunca mais.

Vem calma fresca do vento bom
Abanar minha febre!

Vem beija minha ferida
lua tão branca!

Vem matar minha sede
água tão pura!

O mundo pesa em cima de mim
Não quero mais carregar ele.

Nem filosofias
Nem nada.

Sou o homem que chora
O silêncio chora também
Tudo chora
A noite chora
Os bois choram perdidos no alto do morro.

Meu coração!
Nas vielas escuras – meu Deus que mistério!
Nos portos tão longe
Tristezas tão grandes!

Me perco no mundo
Me perco nas vidas
Me rasgo de raivas inermes e enormes.

E a terra era pura
E puros os homens
E tudo tão puro!

Nos galhos as frutas maduras pendiam
E os rios corriam tão puros cantando
E a vida corria no leito dos rios
Nas noites – tão trêmulas – mulheres erguiam
Mulheres erguiam os olhos pra lua
Pra lua tão branca, tão pura no céu.

E a lua chorava seu choro macio
E a lua deitava seu óleo oloroso
Na pele tostada das lindas mulheres.

E as cobras se erguiam nas matas escuras
Sagradas e lindas – bandeiras estranhas
Mil cores sombrias corriam no chão.

Depois no silêncio da noite serena
Os homens pensavam nas lutas e guerras
Nas pescas e caças – que vida meu Deus!
Mas se as tempestades tombavam medonhas
E raios riscavam o céu sempre azul
Que medos sombrios! Castigos medonhos!
Que medos tamanhos sentiam então!

Agora, a tristeza
Cidades tão lindas
Agora, a saudade
Cidades tão grandes.
Nas matas de casas me perco meu Deus!

Me sinto sozinho

E vieram cantando cantigas tristonhas
Morcegos escuros olharam para eles –
Se encolhem os ombros nos suores tragédias.

De noite as esquinas das ruas dos bairros –
Dos bairros longínquos –
A luz é mortiça.

Ah, são os primários!
Ficaram grudados no povo bem fundo.

E a voz chama ele
De dia é moleque

Escuro e safado
De noite o mistério da voz chama ele
E muda-se em trágico anseio o seu grito
Macumba!
E ele é o mistério também.

Está tudo minado
Ah são os primários!

Meu Deus!
(nem precisão de mundo ...)
Meu Deus que te ocultas em tudo o que existe,
Tirai-me a tristeza que lenta sufoca
O meu coração.

Meu Deus a inocência primeira trazei-me,
São Jorge na lua!
Meu Deus explicai-me que eu vivo tremendo!
Meu Deus aclarai-me!

Eu tenho saudade de luares estranhos –
Eu tenho nos olhos paisagens estranhas –

Paisagem estranhas de frios intensos
Cegonhas tremendo no alto das torres
Visões de distâncias tão raras – tão raras –
Nos mundos estranhos, que voz se ergue então?

_ Minha pátria é bem longe
Minha pátria é mais longe
Fujamos daqui.

E a onça é o mistério
Tem febre nos olhos –
Tem sol concentrado no seu coração.

_ Minha pátria é aqui mesmo!
Lembrai-vos dos prantos
Que os rios levaram
De alguém que partiu.

(Obs : o poema continua, aqui está a sua primeira parte).

NAVIO PERDIDO (1929)

A PARTIDA

QUERO morrer de noite –
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas envolverá meu rosto lívido.

Quero morrer de noite –
As janelas abertas.
Tuas mãos chegarão aos meus lábios
Um pouco de água.
E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.
Os que virão, os que ainda não conheço,
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.

Quero morrer de noite –
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada ...

Quero morrer de noite –
As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.

E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.

LEMBRANÇA

TODOS os que estão neste cinema agora,
Neste cinema alegre,
Um dia hão de morrer também :
Nos cabides as roupas dos mortos
penderão tristemente.

Os olhos de todos os que assistem
às fitas agora,
Se fecharão um dia trágica e dolorosamente.
E todos os homens medíocres
se elevarão no mistério doloroso da morte.
Todos um dia partirão –
mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo :

Os abastados e risonhos
Os estáveis na vida
Os namorados felizes
As crianças que procuram compreender –
Todos hão de derramar a última lágrima.

No entanto parece que os frequentadores deste cinema
Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer
- Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de
esquecimento e equilíbrio.

NOTURNO

I

EU tenho medo da chuva
E do raio, do trovão –
Fica menor, quando chove,
Meu coração.

Quando os raios riscam rápidos
O escuro do firmamento –
Que saudade se apodera
De mim, do meu pensamento!

Me lembro de um tempo longe
Que não volta nunca mais :
Eu era bem pequenino
E eram vivos os meus pais.

Alguém, num canto, cosia
À luz de um bico de gás –
Forte trovão sucedia
A um relâmpago fugaz.

Alguém, num canto, cosia.
E a chuva chorava forte
Na rua escura e vazia,
Num tal silêncio de morte.

_ Minha mãe, que medo eu tenho
Do escuro da noite enorme!
Quanto menino pequeno
Anda no mundo, sozinho,
Que tem medo e que não dorme!

CANTIGA

FICAREI sozinho.
Ficarei sozinho,
Não partas assim!
É longo o caminho,
Longo e tenebroso.
Ficarei sozinho.

Ficarei sozinho
Numa angústia enorme,
Ficarei sozinho
Numa tal tristeza
Que – ai de mim! –
Jamais os meus olhos sentirão beleza
Nas coisas mais belas deste mundo assim.

Ficarei sozinho,
Ficarei tristonho
E – ai de mim! –
Nunca mais o mundo me será risonho,
Nunca mais a vida sorrirá pra mim.
Não partas assim!

Ficarei sozinho
Num silêncio grave,
Num silêncio tal
Que – ai de mim! –
Todos pensarão cheios de piedade,
Cheios de piedade,
Que chegou meu fim.

Ficarei sozinho,
Não partas assim!
É feio o caminho
Cheio de mistérios –
Tem pena de mim!

Fica mais um instante!
Não me deixes pobre
Neste isolamento,
Nesta casa escura
Ouvindo o lamento
- Ai de mim! –
Deste meu tormento
Que não tem mais fim!

Ficarei sozinho.
Ficarei perdido,
Minha Mãe de Deus!
Ficarei chorando de desesperança
Como em terra estranha chora uma criança
Sem amparo algum.

Ficarei sozinho ...
Não partas assim!

IMAGEM

AQUELA despedida para nunca mais.
As mãos se apertaram num gesto rápido.
Os olhos se encheram de lágrimas –
Nunca mais, como um soluço, nunca mais.

Destinos que se cruzam rapidamente.
Quem sabe se de novo, um dia ...?
Havia um pressentimento, uma certeza quase, porém,
De que nunca mais, nunca mais ...

Fazia frio. Homens de sobretudo, as golas levantadas.
Um chalé de madeira, perdido, muito longe.
E a montanha espetando o céu cinzento.

No coração opresso, os apitos eram punhaladas longas.
E aquele olhar, e aquele olhar triste e molhado.
E aquelas mãos morenas a dizer adeus ...

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



 



domingo, 28 de janeiro de 2018

SENTIDOS ESPARSOS

O que escrevi não tem sentido :
bolor dos pães ázimos
e fulgores estranhos
de uma nave interestelar,

o que escrevi não tem senso crítico,
não tem senso moral,
é desorientado.

o que escrevi faz tanto o canto
soar, como calar a esperança
que dorme na pedra inanimada,

não faz sentido o que escrevi :
a cada dia o senso do poema
se perde, eu me perdi
no mundo trevoso
dos conceitos
abstrusos,

não sei, não sei,
eu canto estas canções
ébrias sem sentido,

não sei, o que escrevi
eu nunca expliquei,
pois me tenho em dúvida
do que é o poema,
este que diz tudo
como um louco que delira.

28/01/2018 Gustavo Bastos

O POETA QUE SABE DE SI

O instrumento cortante da cirurgia
corta a galope o coração de poeta
e um palhaço como sou
estuda os abismos que engendram
as voltas da terra

este que sou que se estuda detidamente
com passos geografias e fitas master
que canta e que sonha
este que sou e que funda
os poemas sutis
da cantoria

este que segue seu rumo estelar
com vigores celestes
de bruma
            este que leva e levita
            todas as cores
            este que diz eu sou
            por ter conhecido
            o fim

ah mas me dá poesia como um santo
beberrão que tem renome
e reputação de mago
e de poeta
com paisagem
e ilusões

este poeta sou sou, este que escreve.

28/01/2018 Gustavo Bastos

BEBER ESTRELAS

Edifico um altar e bebo
os tonéis de álcool,
setas cortam o ar putrefato
que os ossos emporcalham.

Astros giram no plano potente,
os corpos celestes
erguidos
como
fábulas,

cuidado ao analisar as voltas,
círculos, elipses, cálculos
infindos do espectrograma,
o infra-vermelho radiante
destes sóis do infinito,

vai, e bebe teu licor
para ver estrelas,
bebe teu vinho
para ver a noite,
bebe teu espírito amplo,
teu grito bebe,
teu silêncio bebe,

e o meu poema eu derramo,
e a estrela rutilante
ecoa este poeta
como um rezador
destes púlpitos ébrios
que canto.

28/01/2018 Gustavo Bastos

O POMAR

O pomar tem uma face calma,
não lhe cabe os espasmos
histriônicos ou a
afetação de poeta.

Lugar imóvel, sereno,
este que o pomar
organiza.

Ah, que meu poema ventile
a paisagem do pomar,
como um este que é verso
e também sereno,
como um monge.

Ah, e leve meu poema para
tomar um arzinho,
passear pela praia deserta,
pelo campo de trigo,
pelos ares de castelos
antigos.

E que este pomar, no jardim que
eu cultivo com ciência,
me ensine a alegria
natural do sol.

28/01/2018 Gustavo Bastos

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O CHOQUE MORAL ENTRE PROGRESSISMO E CONSERVADORISMO

"A discussão política, apesar de vivermos num Estado laico, deixou de ser de cunho ideológico, embora ainda tenha nos extremos da constelação partidária brasileira tais posicionamentos"

Sempre dizem que na política atual não há direita ou esquerda. Bem, não há mais a visão clássica de que os “nomes dos bois”, ou melhor, as caras são bem definidas, na política atual. Quando se fala no jogo que se dá entre os poderes, sobretudo quando se fala do legislativo que sobrevive das coligações, vinculando estas com as candidaturas majoritárias dos cargos ao poder executivo, ainda temos alguns setores da política bem definidos, apesar do conluio partidário atual. Na discussão política contemporânea, falando de Brasil, não se trata mais de falar exatamente em direita ou esquerda, mas em alas conservadoras ou progressistas, e isto, a fortiori, nos extremos das posições ideológicas, por exemplo, quando comparamos partidos como PCO, PSTU ou PSOL com velhos bastiões do “em defesa da família e da vida” que podemos ver em partidos como o PP ou o DEM, ou ainda o partido da Igreja Universal, o PRB, o PR e o PSC, que dispensa comentários.

A discussão política, apesar de vivermos num Estado laico, deixou de ser de cunho ideológico, embora ainda tenha nos extremos da constelação partidária brasileira tais posicionamentos, e vemos agora a marcação de discussões em torno de direitos civis como dos homossexuais ou do direito da mulher ao aborto que, por sua vez, colocam a política numa nova modalidade de choques entre uma moral tradicional e conservadora e a chamada esquerda libertária, afirmativa de direitos. Tal choque nos leva ao próprio processo civilizatório, aonde os valores novos se tornam de imorais (na visão conservadora e tradicional) para morais, e valores antigos da instituição familiar nos moldes cristãos neopentecostais e/ou católicos, no juízo da interpretação bíblica, colocam estes valores novos como inversões do mundo real.

Isto é, mais do que choque entre morais ou uma contenda axiológica, temos um choque de cosmovisões, o que coloca as coisas em termos bem mais graves, ou seja: temos na discussão política, que deixa de lado aspectos ideológicos de conflitos entre visão liberal ou socialista (área de pleitos de cosmovisão sistêmica e econômica, com viés politizado), a percepção de um novo embate valorativo, que trata agora de cosmovisões mais radicais do que a discussão sistêmica.

Trata-se agora, neste choque entre tradição e libertação, de um novo modus operandi do pleito eleitoral nacional, a realidade valorativa ganha contornos de radicalização, mas não de direita e esquerda (discussão sistêmico-econômica), e sim de um choque entre conservadores e libertários, o que nos leva ao questionamento entre uma tradição diacrônica, que revela velhos lemas ou valorações standard, e os libertários, que são o grupo dos direitos civis, em defesa do processo evolutivo, e o que diferencia o moral do imoral se radicalizando nesta polarização: temos duas moralidades diametralmente opostas, uma da tradição que não se coloca no debate, mas numa discussão anódina de preservação, e o debate libertário, que se lança ao progressismo de suas bandeiras, provocando o adversário que, no seu jogo, usa do juízo estabelecido num embate de inversão, isto é, a moral libertária vai ao debate e a preservação do discurso conservador se usa do viés valorativo tradicional, colocando a falácia da inversão de valores como um anti-debate.

O processo civilizatório levanta a bandeira libertária, dos direitos civis, enquanto a moral tradicional não vai ao debate, prefere os slogans standards, escolhendo uma luta simbólica e não argumentativa, daí ser colocado que a moral tradicional prefere a falácia ou sofisma do slogan do que o aprofundamento dos debates sociais e culturais. Ou seja,  a tradição e seus representantes se colocam fora do discurso racional, ficando confinados no apelo emocional, ou pior, no pseudo-argumento (slogan, defesa simbólica) pela autoridade sobrenatural da religião, conhecido em Filosofia como argumentum ad verecundiam, denunciando aí que não se trata, do lado conservador, de uma discussão política racional, de sopesamento valorativo de um consenso ou dissenso equilibrado. 

A ala tradicional e conservadora, na sua relação com os libertários, se dá apenas na tática política da inversão, isto é, falando do moral e do imoral, eles têm tudo definido, num ato a-histórico, cristalizado, que não estabelece o debate, colocando a nova moralidade ou valoração civil e libertária no canto de uma imoralidade a priori. Isto é, não se discute de forma equânime. A desconstrução (não inversão) fica ao cargo dos libertários nas suas lutas sociais e culturais, a favor do processo civilizatório real. A valoração ganha nova perspectiva no aprofundamento tanto das discussões políticas em si, como do debate valorativo, civilizatório, social, cultural, abrindo a linguagem moral para sua ampliação, o que passa necessariamente pela civilidade da discussão racional de liberdade, e não da emoção barata do slogan, cunho mais próprio aos valores standards da tradição de família, do que do debate importante dos direitos civis.
Portanto, quando e se a ala conservadora da política (religião?) se colocar no debate racionalmente, num embate verbal e não simbólico, teremos da parte libertária o arcabouço discursivo que já vem sendo construído até de forma assembleísta. Pois quem se reúne em torno da discussão pública de valores e de seus critérios de verdade ou mentira, deve ir ao debate munido do argumento tempestivo da razão, e não do apelo emocional de slogans e símbolos. A paixão deve deixar o campo discursivo deste embate valorativo, sendo necessário que a repetição de juízos a priori sejam superados, e que o dissenso ou consenso sejam feitos pela construção e desconstrução discursiva in loco, ou seja, com o jogo de linguagem próprio de um debate político honesto, e portanto, racional.
Portanto, se temos a busca do slogan para defender tanto um lado como o outro, não se dá nem o dissenso, mas a falta do debate propositivo, em que a pura inversão evita entrar no jogo, e os extremos da batalha se refugiam simbolicamente em suas verdades. Claro que não haverá consenso entre algo que se coloca necessariamente como entes em oposição. Mas, no espaço público, as instituições têm de fazer uma escolha, e o critério de verdade terá de passar por uma fundamentação discursiva sem apelos a priori de defesas simbólicas. Isto é, da parte da ala libertária tem que partir o discurso propositivo de novas valorações, mais do que a desconstrução do adversário conservador que, este sim, se coloca num refúgio da inversão a priori, fugindo de um debate dinâmico em que a luta de cada um é questionada e o saber reflexivo se faz, e as práticas sociais, políticas e culturais se aperfeiçoam, sendo então possível a construção do verdadeiro processo civilizatório, filho dileto da História e não da moral a priori.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37394/14/o-choque-moral-entre-progressismo-e-conservadorismo



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ANTOLOGIA POÉTICA CASSIANO RICARDO – PARTE IV

CASSIANO RICARDO E O SÉCULO XX

“podemos ver sua reflexão pessimista sobre a ciência e o futuro”

Cassiano Ricardo tem como ideia central de seus últimos trabalhos em poesia uma denúncia da guerra e do progresso tecnológico destrutivo, numa nova visão pessimista do conhecimento científico que resulta numa crítica sobre o estado de sobrevivência em que se encontra a natureza humana, e que tem como grande impacto a imagem apocalíptica da bomba atômica, vulto e sombra que atingirá também o estro de diversos outros poetas do século XX do pós-guerra ou Guerra Fria e do choque que foi a Segunda Guerra Mundial, curiosamente se ligando mais ao fenômeno atômico do que propriamente ao holocausto, outro crime e tragédia humanos de vulto neste século em que tudo foi testado, desde totalitarismos até bombas devastadoras como as atômicas.
Na parte final da obra poética de Cassiano Ricardo podemos ver sua reflexão pessimista sobre a ciência e o futuro, tais como em seus livros Jeremias Sem-Chorar (1964) e Os Sobreviventes (1971), livros que demonstram a inversão de uma percepção otimista da técnica que vinha de vanguardas artísticas e poéticas como havia no futurismo de Marinetti. Agora tínhamos a bomba atômica e tudo muda em relação a isso, o mundo poderia ser extinto pelo Homem e não por imagens bíblicas, nós tínhamos acabado de criar um poder destrutivo maior do que tudo, a vida passa a ser vivida na Guerra Fria na sensação de catástrofe iminente e com isso a ciência, a tecnologia e a ideia de progresso sofrem uma inversão negativa e pessimista, portadora de uma possível destruição em escala mundial.
No seu livro de poesia Os Sobreviventes, Cassiano Ricardo tem como tema a condição humana transformada radicalmente por esta nova destruição ativa e potencial vistas no século XX, e que aqui está diretamente associada ao avanço científico e tecnológico, e aqui com um livro que não vai falar da bomba atômica, mas do progresso numa visão pessimista do futuro, tudo como um grande documento tirado da leitura de notícias de jornal, e que reúne poemas que estarão, por sinal, interligados, numa obra coesa que é a descrição em forma de poesia da desilusão contemporânea, que agora vê o progresso técnico como catástrofe.
No livro João Torto e a Fábula (1956), por sua vez, conjunto vasto de poemas que vai tratar da ameaça nuclear, João Torto é um pescador que vê a bomba de hidrogênio cair sobre uma ilha deserta. A consciência histórica em Cassiano Ricardo nesta altura de sua obra está ligada ao combate contra a utilização bélica da tecnologia nuclear, sendo então, por fim, uma consciência planetária e não somente histórica. A descoberta de Cassiano Ricardo aqui, por fim, é de uma fraternidade despertada pela possibilidade da extinção total.


POEMAS :

JOÃO TORTO E A FÁBULA (1954)

GÁS LACRIMOGÊNEO : O poema de Cassiano Ricardo aqui começa como uma peça de resistência, o homem (poeta) que represa as lágrimas, mas que aqui é assaltado de sua fortaleza pelo gás lacrimogêneo, no que o poema tem força e sucumbe num golpe duplo que o poeta floreia com seu estro que combate na cidade : “Aplaudi o orador do comício./Mas aplaudi, apenas, sem nenhuma/intenção de chorar.” (...) “Mas a polícia compareceu rutilante./A sua máquina de fazer chorar/funcionou/maravilhosamente, rutilantemente./E a multidão se dispersou chorando,/como se um monstro bíblico/desfizesse a alegria das ruas em pânico/com o seu choro mecânico e coletivo./E os meus olhos choraram lágrimas/inverídicas./No entanto eu não pretendia chorar./Pretendia, ao contrário, apartear o orador/pra lhe contar que há muito tenho os olhos/enxutos./Que sou um habitante da caatinga./Que sou antimarítimo, anticeleste.”. A lágrima inverídica, a máquina de fazer chorar da polícia, tudo o que o poeta, nas suas origens, recusa, sua vida seca da caatinga já cansou de levar chumbo e tem a casca grossa de tudo que poderia exasperar, mas já foi tanto, que a dureza toda já transformou tudo em pedra, no que o poeta canta que de tantas razões para se chorar, nem se chora mais, no que temos : “Porque pertenço a uma família enxuta e magra/a quem a sede fez secar os olhos .../Porque moro num chão onde são muitas as razões pra/chorar/mas onde não se chora.” (...) “Que nome terá o crime, a iniquidade/de quem me fez chorar na rua, no áspero país/onde não se chora:/Onde não se chora senão de saudade?”

MONTANHA-RUSSA (1960)

MONTANHA-RUSSA : O poema transita em uma inquietude, de um lugar instável, tal montanha-russa, no que temos : “já o ser inquieto não/está em nenhum lugar/porque a inquietação já/é uma forma de não/estar nunca estaR”. O trânsito aqui também da imaginação, numa montanha-russa que sobe cai, no que segue : “quem imagina não/está em si somente/nem somente onde está/está de repente/sem cuspir nem porvir/numa montanha-russa/só pelo prazer/perpendicular/de subir e caiR”. E o poeta então pede : “Espera-me na porta/se estiveres na lua/maria azul luz clara” (...) “só terás tempo de dizer” (...) “que louco é este/que chegou da terra e não/me trouxe sequer/uma floR”. O louco ou poeta está num turbilhão, em que traz o poema, mas esquece a flor.

COMPETIÇÃO : O poema tem uma estrutura simples, e tem um esquema em que se repete o raciocínio com diversidade de imagens, que conclui sempre no melhor ou mais belo, que é o que o poema nos diz, ao fim deste em que se conclui um esquema que é circular, belo é o mar e o barco no mar, pois : “O mar é belo./Muito mais belo é ver um barco/no mar./O pássaro é belo./Muito mais belo é hoje o homem/voar./A lua é bela./Muito mais bela é uma viagem/lunar.” (...) “Belo é o azul./Mais belo o que Cézanne soube/pintar.” (...) “O mar é belo./Muito mais belo é ver um barco/no mar.”

A DIFÍCIL MANHÃ (1960)

A DIFÍCIL MANHÃ : O poema é um canto de esperança, dirigido a todos, até a quem o poeta não conhece, e temos aqui um estro em que se diz de forma universal a forma poética da esperança, no que temos : “Vontade de mandar lembrança/a alguém que não conheço.” (...) “Quando um dístico, pra ser lido,/(por todos) de um e do outro lado,/Como uma grande luz-azul,/me anunciará :/aqui é que começa o país/da esperança?” (...) “O relógio/soluça como um pássaro/em meu bolso.”. O dístico é um prisma que mira para todos os lados, e é também este lugar total e universal que todos chamam de esperança.

A CIDADE FEROZ : O poema é uma grande construção de uma cidade de bichos, estes que não são os rebuscados, mas bichos ferozes de uma lógica fria, que o poeta nos explica, neste poema bruto e duro em ferocidade, no que temos : “Quero construir minha pequena/ferocidade em flor. Num jardim. A capricho./Afinal, sou um homem da cidade/mas tenho um coração de anjo e de bicho./Não quero, para o meu jardim zoológico,/bichos ornamentais, faisões, pavões, aves do paraíso,/de plumagem setecolorida./Quero um jardim mais lógico, como o exige/A cidade feroz.”. Eis a ideia do poeta de sua cidade feroz, no que segue : “Tragam-me bichos que pareçam capricho/da natureza. Os mais grotescos, os mais fulvos.” (...) “Quero bichos que me comeriam vivo/se não fossem as grades, e eu na relva.” (...) “Como o exige/minha ferocidade de homem da cidade.” (...) “Tudo na lógica de um jardim de bichos,/não de flores.” (...) “Fera feérico/feroz/ cidade./Ferocidade/único :/Fica abolida, em meu jardim, que é só de bichos/e não de flores, a palavra saudade.”. O poema é duro, e não ornamental, tal que é a cidade feroz, que junto e invertido resulta na palavra ferocidade.

JEREMIAS SEM-CHORAR (1964)

7 RAZÕES PRA NÃO CHORAR : O poema mais uma vez resiste ao pranto e se vê então num mundo de tal terror, que até sofrer é em vão, no que temos : “O mundo do terror/e do encanto/me obsta o pranto.” (...) “Um coice de cavalo/no comício/e eu – Jeremias seco –/olho de vidro./A cidade mecânica/timpânica/me fez um objeto/concreto./Uns mataram a sede/no suor dos outros./E eu fiquei sem água/nem sal.” (...) “A lágrima é ridícula./Um homem não chora.”. E o poema encerra com o poeta que represa as lágrimas, pois não quer ser idiota.

POÉTICA : O poema, sucinto, revela a poesia e o poeta, em uma forma simples e direta, no que segue : “Que é a Poesia?/uma ilha/cercada/de palavras/por todos/os lados./Que é o Poeta?/um homem/que trabalha o poema/com o suor do seu rosto./Um homem/que tem fome/ como qualquer outro/homem.”. O poema apresenta a poesia, esta que se faz ilha de versos e estrofes, onde tudo é possível, e as palavras orbitam este astro que decifra esta ciranda no estro em atividade, e ao fim temos o poeta, este que tem fome de tudo, e que sua para produzir o melhor de uma senda poética que lhe entretém a alma.

POEMAS :

JOÃO TORTO E A FÁBULA (1954)

GÁS LACRIMOGÊNEO

Aplaudi o orador do comício.
Mas aplaudi, apenas, sem nenhuma
intenção de chorar.
Pois, como diz a Bíblia : ao dia
de hoje já não bastarão os seus males?

Mas a polícia compareceu rutilante.
A sua máquina de fazer chorar
funcionou
maravilhosamente, rutilantemente.
E a multidão se dispersou chorando,
como se um monstro bíblico
desfizesse a alegria das ruas em pânico
com o seu choro mecânico e coletivo.
E os meus olhos choraram lágrimas
inverídicas.

No entanto eu não pretendia chorar.

Pretendia, ao contrário, apartear o orador
pra lhe contar que há muito tenho os olhos
enxutos.

Que sou um habitante da caatinga.
Que sou antimarítimo, anticeleste.
........................................................................

Porque um homem não chora.

Porque sou filho das manhãs sem orvalho.
Porque pertenço a uma família enxuta e magra
a quem a sede fez secar os olhos ...
Porque moro num chão onde são muitas as razões pra
                                                                                         chorar

mas onde não se chora.
Meu filho choraste em presença da morte?
Meu filho não és.

Que nome terá o crime, a iniquidade
de quem me fez chorar na rua, no áspero país
onde não se chora:
Onde não se chora senão de saudade?

MONTANHA-RUSSA (1960)

MONTANHA-RUSSA

já o ser inquieto não
está em nenhum lugar
porque a inquietação já
é uma forma de não
estar nunca estaR

que se dirá então
do ninguém que mora
em mim por não ter não
onde morar
na terra no ar no maR

quem imagina não
está em si somente
nem somente onde está
está de repente
sem cuspir nem porvir
numa montanha-russa
só pelo prazer
perpendicular
de subir e caiR

ó meu distante amor
quando eu passar espera-me
na tua porta não
te poderei beijar não
só terei tempo para
na paisagem em fuga
entre areia e sal
te deixar na mão
uma floR

Espera-me na porta
se estiveres na lua
maria azul luz clara
quando eu passar como
um peixe-voador não
terei tempo para
te ofertar sequer
uma floR

só terás tempo de dizer
como a mulher de Arvers
que louco é este
que chegou da terra e não
me trouxe sequer
uma floR

COMPETIÇÃO

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco
no mar.

O pássaro é belo.
Muito mais belo é hoje o homem
voar.

A lua é bela.
Muito mais bela é uma viagem
lunar.

Belo é o abismo.
Muito mais belo o arco da ponte
no ar.

A onda é bela.
Muito mais belo é uma mulher
nadar.

Bela é a montanha.
Mais belo é o túnel para alguém
passar.

Bela é uma nuvem.
Mais belo é vê-la de um último
andar.

Belo é o azul.
Mais belo o que Cézanne soube
pintar.

Porém mais belo
que o de Cézanne, o azul do teu
olhar.

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco
no mar.

A DIFÍCIL MANHÃ (1960)

A DIFÍCIL MANHÃ

Vontade de mandar lembrança
a alguém que não conheço.
Que mora atrás do mundo espesso.
Onde a árvore da esperança
ficou sendo minha antípoda.

Quando um dístico, pra ser lido,
(por todos) de um e do outro lado,
Como uma grande luz-azul,
me anunciará :
aqui é que começa o país
da esperança?

De modo que a esperança aí comece
e não termine, por estar,
durante a noite inteira
(como uma grande luzazul)
escrita num e no outro lado
da fronteira.

Quando a manhã, não a manhã
que chega sempre tarde,
mas a que chegará à tarde,
à noite, a qualquer hora,
porque não obedece ao céu
nem ao relógio,
virá?

O relógio
soluça como um pássaro
em meu bolso.

A CIDADE FEROZ
Quero construir minha pequena
ferocidade em flor. Num jardim. A capricho.
Afinal, sou um homem da cidade
mas tenho um coração de anjo e de bicho.

Não quero, para o meu jardim zoológico,
bichos ornamentais, faisões, pavões, aves do paraíso,
de plumagem setecolorida.
Quero um jardim mais lógico, como o exige
A cidade feroz.
Em meu catálogo, saudade será substituída por ciudad.

Não quero uma coleção de borboletas.
Nem de garças. Para o meu coração de anjo e de bicho
as garças são graças que ficaram garças
por anagrama, quando esparsas.

Tragam-me dromedários para a minha vocação de deserto.
Com sedes de viagens sobre areia movediça
e enrediça, entre
plantas secas que estalam flores de papel,
sempre-vivas, com pétalas de alumínio dourado.

(A cidade, uma selva de cimento e relva.
Um gavião debulhando os meus olhos, duas flores
de cardo, mas em rima oculta.)

Tragam-me bichos que pareçam capricho
da natureza. Os mais grotescos, os mais fulvos.
Não os de pelo desbotado
mas a zebra listrada, a girafa da Núbia.
Nada de gansos, de plumagem cinza.
Porque o cinza é burguês, é neutro. Os gansos
já não anunciam, como os do Capitólio.

Gansos
mansos

 Quero bichos que me comeriam vivo
se não fossem as grades, e eu na relva.
(Eu foto hipo pótamo gráfica mente na relva)

Quero bichos t´rombudos, chifrudos, felpudos, rabudos
Com que graça Miss Ruth os apontará – dedos de
rosa –
a seus irmãos pequenos, olhos verdes.
Venha um enorme tigre de Bengala (eu na relva)
para o meu jardim. Uma pantera negra
debaixo da roseira, como a do Cantus Planus.
Não du foyer, como a de Rollinat.

Venha um rinoceronte, oto-rino-bifronte.
Venha uma onça – madrugada elétrica. Venham
os elefantes, ainda indômitos, da África. Orelhudos.
Daqueles que um rajá oferece a outro
em datas genetlíacas egipicíacas. Como o exige
minha ferocidade de homem da cidade.
Cidade substituindo saudade e eu na relva.
(Eu foto hipo pótamo gráfica mente na relva)

Tudo na lógica de um jardim de bichos,
não de flores.
Onde haja fotógrafos especializados em fotografar crianças
junto às jaulas.
Fera feérico
feroz
 cidade.
Ferocidade

único :
Fica abolida, em meu jardim, que é só de bichos
e não de flores, a palavra saudade.

JEREMIAS SEM-CHORAR (1964)
7 RAZÕES PRA NÃO CHORAR
1
O mundo do terror
e do encanto
me obsta o pranto.

2
Subtraído à lei
da gravidade
perdi a noção
do que é grave.

3
Um coice de cavalo
no comício
e eu – Jeremias seco –
olho de vidro.

4
A cidade mecânica
timpânica
me fez um objeto
concreto.

5
Uns mataram a sede
no suor dos outros.
E eu fiquei sem água
nem sal.

6
A seca,
lacrimossedenta,
bebeu meu poço.
E agora?

7
A lágrima é ridícula.
Um homem não chora.

POÉTICA
1
Que é a Poesia?

uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.

2
Que é o Poeta?

um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
 como qualquer outro
homem.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.