PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 30 de abril de 2017

LÓTUS

O nardo, que na meditação
age ao natural, me dá a força
centrífuga que abre o caminho
na flor-de-lis que ao regente sol
à capa e espada os livres cantam.

Pois, quando da estrela polar
os cânticos sulcam o mármore,
os poetas quase loucos
furam as ondas com fúria,
sabem de seus emblemas e pórticos
como discípulos bem postos
nas selvas brutas do crepúsculo.

Pois o nardo, e a fonte de almíscar,
e o espanto do sândalo,
e o bafo de canela,
todos estes odores são
fantasmas da matéria,
sopros luzidios com giros de fumaça
que descansa nas bocas das espumas
venusianas que o poema rutila
como uma ametista sobre
os rubis da montanha.

E as sombras mutiladas,
estes corpúsculos do bafo quente,
soam contritos como ranger de dentes
na batalha dos faróis,
e fervem na relva úmida
como os delírios do bobo
quando este é visionário.

Tais visões, que nas alturas cerúleas
ou nos abismos dos ínferos,
nos traz os fundos saberes,
do oráculo mais perfumado
são o vaticínio como tear
na flor d`alma das estrelas
platinadas dos alvores
que o lago místico de lótus
tornou canção.

30/04/2017 Gustavo Bastos

POEMA ESTRELADO

O duro e claro poema,
que atravessa os cantos,
remete seu esquema
como um convés.

Dentro ou fora, o verso escança
suas sombras e luzes
como matizes,
corre à mão e à sorrelfa
como um canto repentino
que volteia ondas ou marcha
como pedra avante.

E, do linho ao óleo cru,
poema de todo gosto,
eldorado, pasárgada
e utopia.

E, como poema que é contrito,
passa como lema e livro
nas cores brutais do sonho,

e, como poema estulto,
sofre rima como paralaxe
da estrela que brota
na visão do páramo.

30/04/2017 Gustavo Bastos

CIDADE BALANÇANTE

Na rua, com a cara molhada,
os gemidos de dor de fome
são mais nítidos.

A chuva nos libera os dons mortíferos,
e eu que vi os ínferos brotarem
como topázios na via diamantada,
cresci como um grande cogumelo
nos mofos das paredes,
gritei como um leão nos haustos
produtores de caos
na flor da cidade.

E, calma, não saio com os colares
das cores que pus na trilogia
dos cavalos xucros,
pois na lida ainda sei dos teares
que são moto-contínuo
e leitmotiv
com crescidos giros
de orlando furioso,

ou talvez que o livro indecente
que havia muito imaginado
virou frontispício
de um gole de absinto
na floresta da cidade.

Pois, que ao bruto sacode das ancas,
jogral eu fui como poeta.

30/04/2017 Gustavo Bastos

POEMA REBATIDO NO CHÃO

Cansei desta obscuridade, em lhes dizer
que o livro "está pronto",
pois em um dia, ou uma tarde,
ou ainda numa noitada,
faço dramas por linhas tortas,
devaneio e um espirro atômico,
flancos na subida dos degraus.

Ah, já me desfaço em partes pueris,
geometria dos braços trucidados,
meios tons, semi-círculos,
folguedos e bruma.

Que o átrio e a ária, que o raio e
a praia, e os fones de ouvido
quando ando ainda, 
todos estes penduricalhos
me movam impiedosamente,
como um giro convexo,
em planas formas como
uma arquitetura brutalista,

e que os sóis desenhados
na tela infantil
me deem alento
na fronteira final
do poema que me
cai sem mais.

30/04/2017 Gustavo Bastos

POR QUE LER OS CLÁSSICOS – ÍTALO CALVINO – PARTE II

“o romance de cavalaria é um fenômeno literário e não calcado na realidade”

TIRANT LO BLANC

Ítalo Calvino segue em sua análise, desta vez sobre Tirant Lo Blanc e o romance de cavalaria, desde suas origens, e coloca o fenômeno Tirant Lo Blanc como o primeiro romance de cavalaria espanhol, e faz sua crítica lembrando que há algo que podemos chamar de regressão ao infinito neste modelo de romance, pois para Calvino, quando nos deparamos com um romance desses, temos logo a noção de que um romance de cavalaria sempre se refere a outro do mesmo modelo que lhe é precedente. Pois temos aqui que a formação do cavaleiro num romance advém da leitura de outro precedente, e assim temos esta regressão inusitada da tradição do romance de cavalaria.
E Calvino conclui que o romance de cavalaria é um fenômeno literário e não calcado na realidade, isto é, tal tradição é feita no próprio romance, no próprio objeto livro, e não num estrato social real, como se poderia supor. Assim, como diz Calvino “é possível compreender como o último depositário das virtudes cavalheirescas, Dom Quixote, será alguém que construiu a si mesmo e a seu próprio mundo exclusivamente por meio dos livros. Uma vez que Cura, Barbero, Sobrina e Ama tenham ateado fogo à biblioteca, a cavalaria terminou: Dom Quixote permanecerá como o último exemplar de uma espécie sem sucessores.”
E Calvino faz uma distinção entre o autor Cervantes e a personagem Dom Quixote, lembrando que o autor do romance de cavalaria tem a originalidade literária como orientação e que se funda numa verdade humana, não sendo objeto de sua apreciação o mito da cavalaria em si, mas sim o fenômeno do livro que este modelo envolve sobretudo para o autor, tanto como homem ou como romancista, o livro é que importa, uma vez que Calvino já tinha concluído por este viés quando recorre à tradição do romance de cavalaria assim mesmo, como romance, e não como realidade.
Por outro lado, quando vemos Dom Quixote, temos aqui o fenômeno de fusão que mistura a realidade com a loucura, em que o mito da cavalaria se torna a junção delirante entre a vida real e os livros, numa busca por este mito fora dos livros, no que temos o adjetivo quixotesco em seu uso sobre todo empreendimento que junta a realidade à fantasia e não faz mais distinção entre ficção e mundo real, ou de quando a utopia vira delírio.
Por sua vez, como nos diz Calvino, “o declínio da cavalaria fora celebrado por Pulci, Boiardo, Ariosto num clima de festa renascentista, com matizes burlescos mais ou menos marcados, porém com nostalgia pela ingênua fabulação popular dos contadores de histórias; aos rudes despojos do imaginário cavalheiresco ninguém atribuía nenhum valor além de um repertório de motivos convencionais, mas o céu da poesia se abria para acolher seu espírito.”
E assim, na França e Inglaterra, a tradição literária cavaleiresca se apagara antes, e o revival cavalheiresco do século XVI envolve sobretudo Itália e Espanha. A descoberta do Novo Mundo e a Conquista foram acompanhadas, no imaginário coletivo, como nos diz Calvino, “por aquelas histórias de gigantes e de encantamentos das quais o mercado de livros oferecia vasto sortimento, assim como a primeira difusão europeia do ciclo francês acompanhara, alguns séculos antes, a mobilização publicitária para as Cruzadas.” E conclui Calvino: “O milênio que está para se encerrar foi o milênio do romance. Nos séculos XI, XII e XIII, os romances de cavalaria foram os primeiros livros profanos cuja difusão marcou profundamente a vida das pessoas comuns e não somente dos doutos.”
O romance de cavalaria, portanto, nos traz o fenômeno literário como central, a imagem do livro como inauguração do romance moderno, e Dom Quixote como a figura simbólica de um movimento na literatura que ganha o contorno em que Cervantes abre um caminho, que para Quixote era a fantasia dos livros de cavalaria no mundo real, e que para Cervantes era usar uma tradição para fazer o novo romance surgir como a literatura nova que ganharia força nos séculos seguintes. Cervantes como autor faz uma renovação a partir de uma origem fictícia que também é um conteúdo de ficção, só sendo real para Quixote e todos aqueles utópicos e visionários que foram adjetivados de quixotescos.

A ESTRUTURA DO “ORLANDO”

Para Calvino “Orlando furioso é um poema que se recusa a começar e se recusa a acabar”. Aqui temos que tal poema tem como origem outro poema, é sua continuação, a do Orlando innamorato, de Matteo Maria Boiardo, interrompido pela morte do autor. E o Orlando furioso, por sua vez, é um poema que não acaba, pois seu autor, Ariosto, não para nunca de trabalhar dentro de nós. Após sua primeira publicação em 1516, em quarenta cantos, Ariosto continua seu aprimoramento, e que ganha outra versão nos chamados Cinque canti, publicados postumamente, depois inserindo novos episódios nos cantos centrais, de modo que na terceira e definitiva edição, que é de 1532, os cantos passaram a ser 46.
E como retrata Calvino: “para chegar à primeira edição de 1516, Ariosto havia trabalhado doze anos e outros dezesseis sofre para publicar a edição de 1532 e, no ano seguinte, morre. Essa dilatação a partir do interior, fazendo proliferar episódios de episódios, criando novas simetrias e novos contrastes, me parece que explica bem o método de construção de Ariosto; e permanece para ele o verdadeiro modo de alargar esse poema de estrutura policêntrica e sincrônica, cujas vicissitudes se difundem em todas as direções e se bifurcam continuamente.”
Por conseguinte, quanto à forma, não temos uma definição sintética do poema, pois sua geometria não é rígida, a fluência do poema tem mais a ver com campos de força que interagem, num movimento que podemos chamar de centrífugo, com o anúncio que se pode fazer do Orlando furioso como o poema do movimento, no qual, como nos diz Calvino “o prazer da rapidez da ação se mistura logo a um sentido de amplitude na disponibilidade do espaço e do tempo”, no que podemos chamar de o movimento “errante” da poesia de Ariosto.
Tais características do “espaço” ariostesco está tanto na escala do poema inteiro ou dos cantos singulares bem como numa escala menor, a da estrofe ou do verso. E temos a oitava como a medida em que reconhecemos o estro de Ariosto em atividade, e que, como nos diz Calvino “na estrofe de oito versos Ariosto se vira como quer, está em casa, seu milagre é feito sobretudo de desenvoltura.” E Calvino segue a sua análise, nos dizendo que quanto à oitava de Ariosto, temos que: “uma estrofe que se presta a discursos também longos e a alternar tons sublimes e líricos com tons prosaicos e jocosos; e uma intrínseca ao modo de poetar de Ariosto, que não se tolhe com limites de nenhum gênero, que não se propôs como Dante uma repartição rígida da matéria, nem uma regra de simetria que o obrigasse a um número de cantos preestabelecido e a um número de estrofes em cada canto.”
E temos que a característica da oitava ariostesca está numa orientação poética pelo ritmo variado da linguagem falada, com ironia, de registro coloquial, e que é um pêndulo que vai do lírico ao trágico e até ao gnômico, isto tudo podendo estar numa mesma estrofe. E como nos diz Calvino, ainda sobre a oitava: “Convém frisar que a própria estrutura da oitava se baseia numa descontinuidade de ritmo: aos seis versos unidos por uma dupla de rimas alternadas seguem-se dois versos com rimas emparelhadas, com um efeito que hoje definiríamos como anticlímax, de brusca mudança não só rítmica mas de clima psicológico e intelectual, do culto ao popular, do evocativo ao cômico.”
Ariosto, portanto, nos dá um poema com fluência e não com unidade, como poderíamos esperar de um Dante, por exemplo, uma vez que a estrutura de oitavas, como nos mostra o próprio Calvino, é uma forma literária brusca, que termina emparelhada, e que tem fluência como quebra e como ruptura tanto de forma como de conteúdo, no que Orlando furioso é um poema que se comporta mais como um poliedro do que como uma geometria plana e definida como previsível.
Até pelo fato de que Ariosto nos confunde com sua estrutura que tende ao infinito, tanto nas suas origens em Orlando innamorato, como na sua adição de cantos intermináveis, além de suas adaptações de estilo e dimensões que torna o poema um enxerto em que cabe tudo, temos a ideia de um poema completo que é na verdade uma estrutura que parece um tanto implodida por suas características poliédricas em todos os sentidos da palavra. Ariosto quer o poema total como um grande espaço repleto de campos de força, nos quais vemos conflitos de forma, conteúdo e estilo, um poema completo no sentido de que contém diversas tendências e orientações. 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/33855/17/por-que-ler-os-classicosij-1





PÚCHKIN – POESIAS ESCOLHIDAS – PARTE IV

“Púchkin em sua bela forma é o poeta russo de todos os tempos.”

OBRA DE PÚCHKIN – PARTE I

Púchkin simboliza a Rússia como Goethe simboliza a Alemanha, Shakespeare a Inglaterra, Camões Portugal, Dante a Itália ou Cervantes a Espanha. Poeta genial, prosador e dramaturgo, é autor de obras-primas como a novela em verso Evgueny Oneguin, a novela Dama de Espadas, ou a tragédia Boris Godunov, e inspiradas em suas obras, temos também as óperas dos célebres compositores russos Tchaikovsky e Mussorgsky.
Púchkin foi pioneiro no uso da língua vernácula nas suas obras, num estilo que fundia o drama, a sátira e o romance em suas obras, no que temos este caudal estilístico como o que deu a nova orientação para toda a literatura russa que veio após Púchkin e que ficaram lhe devendo todo o tributo. Com Púchkin sendo considerado, portanto, o fundador da modernidade literária da Rússia, lhe dando o molde no qual se abandona, finalmente, a subserviência literária aos franceses e aos seus 'rócócós' de linguagem. Púchkin, por conseguinte, se utiliza da linguagem popular russa para imprimir um estilo simples, lacônico e claro, e que será a nova literatura russa livre dos cacoetes anteriores.

POEMAS :

A N. IA. PLIUSKOVA : O poema começa com estro sublime, a imagem ideal que o poema louva: “Na lira discreta e sublime/Deuses terrestres não louvei,”. Aqui a louvação é a liberdade: “Só a liberdade louvando,/Só a ela dando o meu fervor,”. E a musa como canto revelado: “Cantei Isabel, em segredo,/De Apolo sob a inspiração.” E o canto da virtude, como eco da Rússia em poema de alma e liberdade em versos: “cantei, alma e calor –Digo: a virtude entronizada/E seu encanto acolhedor./À alma a liberdade invisível/Ditou-me (e o amor) simples canção,/E minha voz incorruptível/Foi eco da russa nação.”

LAMENTAÇÕES DE VIAGEM : O poema é um trajeto acidentado, o poeta vê desde sempre o mundo e suas vicissitudes: “Muito inda irei pelo mundo/Em caleça, a cavalgar,” (...) “Não na tenda hereditária/Nem entre os mortos pais meus,/Mas na estrada solitária/Decidiu que eu morra Deus:”. Há um tipo de nêmesis bem consciente por parte do poeta, que segue em sua lira: “Ou me levará peste,/Ou geada me há de transir,/Ou golpe que pau me assente”. A morte é um fenômeno inexorável, e poema e poeta lhe dão vazão, como um dom visionário da sorte e do revés numa mesma vida: “No bosque, adaga sem pena/Far-me-á de flanco tombar,/Ou tédio de quarentena,/Algures, me há de matar.” (...) “Diverso é de rum a taça,/Sono à noite; na alba, o chá;/O lar em que, irmãos, se passa/A vida! Bem, vou-me, e já!”. E ele segue na vida, contemplando a futura morte, qual nêmesis ou libertação dos mortais, nunca se sabe.

SEM TÍTULO : O poema, esperançoso e otimista, segue seu rumo: “É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila./Vai-se dia após dia, e cada hora aniquila/Um fragmento da vida. Embora! Os dois, a sós,/Vivamos. De morrer, um dia, havemos nós.”. A meditação da alma poética está à flor da pele, e o poema se ilumina: “Minha alma a boa sorte a meditar procura/Faz muito, e, escravo opresso, idear pude evasão/Ao refúgio em que a faina é sã, e o prazer, são.”. O prazer, este que termina a lamúria nos braços de um poema de luz.

SEM TÍTULO : O poema contempla, na sua inocência de amor: “Sua beleza, que é serena/E fugaz, brilha, ai! para quê?/Em sua juventude plena/Ela fenece,” (...) “Com a mocidade,/Breve, não se há de deleitar,”. E também sabe que toda alegria é efêmera: “Breve, alegria inda causar;/Nem com palavra meiga e lesta/Nossas conversas reacender,/E, a alma tranquila e manifesta,/No sofredor gerar prazer./E eu, presa de ideias penosas,/Dissimulando meu pesar,/Dou-me pressa em ouvir-lhe as prosas/E o vulto dela contemplar./Olho-lhe cada movimento,/Presto atenção em sua voz,/E aguardo, pávido, o momento/Em que ela nos deixará sós.”. A tal alma tranquila tem uma inquietação, as agruras da contemplação mole e frouxa do amor e da beleza, como um torpor de fuga e redenção evanescentes.

SEM TÍTULO : O poema tem a diurna estrela, o poema é de um tom astral que vai do azul da cerração ao mundo da abóbada celeste em um pulo: “Desvaneceu-se a diurna estrela;/No azul do mar caiu da noite a cerração.”. E a paisagem se faz presença em poema, como um todo harmônico: “Avisto a praia já distante,/Das regiões do sul limite encantador;/Perturbado, angustiado, arrebatado por/Saudade, quero-as neste instante ...”. E a dor irrompe, num choro, e que o poema traduz, prorrompendo, num trecho que me comoveu particularmente, o qual vejo como uma das mais belas passagens de Púchkin, no que temos: “Meus olhos, sei, estão novamente a chorar;/Minha alma, febril, se entibia;/Esvoaça em torno a mim a interior fantasia./Meu louco amor de outrora estive a recordar,/Quanta coisa sofri, quanta coisa achei bela,/Da promessa e da fé a aflitiva traição ...”. E o poema faz seu estribilho, como um lembrete da navegação: “Estruge, estruge, obediente vela,/Agita-te sob mim, oceano resmungão./Barco, leva-me a voar para afastadas raias/Por mais de um mar infiel de capricho fatal,”. E o poema segue em sua conclusão: “O breve riso fez-se, e logo, indiferença, e a/Dor em meu coração – dor crua – introduziu.” (...) “Partícipes do excesso a que, não vos amando,/Licencioso, eu me dei, sacrificando então/Liberdade, lazer, boa fama e afeição -,”. Púchkin em sua bela forma é o poeta russo de todos os tempos.

POEMAS:

A N. IA. PLIUSKOVA

Na lira discreta e sublime
Deuses terrestres não louvei,
E a força que a soberba exprime
Com lisonja não incensei.
Só a liberdade louvando,
Só a ela dando o meu fervor,
A recrear czares não ando,
Nem da musa o deixa o pudor.
Mas frente a fonte, entre o arvoredo,
Confessá-lo-ei, lá no Helicão,
Cantei Isabel, em segredo,
De Apolo sob a inspiração.
O que é de esfera arquielevada,
Térreo, cantei, alma e calor –
Digo: a virtude entronizada
E seu encanto acolhedor.
À alma a liberdade invisível
Ditou-me (e o amor) simples canção,
E minha voz incorruptível
Foi eco da russa nação.
(1818)
(N. Ia. Pliuskova era dama de honra da imperatriz Elizaveta Alekseiêvna).

LAMENTAÇÕES DE VIAGEM

Muito inda irei pelo mundo
Em caleça, a cavalgar,
Em cupê, trenó rotundo,
Em coche ou, ainda, a andar?

Não na tenda hereditária
Nem entre os mortos pais meus,
Mas na estrada solitária
Decidiu que eu morra Deus:

Nas pedras, de casco diante,
No monte, roda a encarar,
No fosso, que a água fez hiante,
Sob ponte que a desabar

Veio. Ou me levará peste,
Ou geada me há de transir,
Ou golpe que pau me assente
Me há de a imoto reduzir.

No bosque, adaga sem pena
Far-me-á de flanco tombar,
Ou tédio de quarentena,
Algures, me há de matar.

Muito inda, triste e esfomeado,
Jejum terei de guardar
E, vitelo enregelado,
Certas turfas recordar?

Diverso é ter estação,
Na Miasnítskaia passear,
Sobre a noiva e a povoação
Com descanso meditar!

Diverso é de rum a taça,
Sono à noite; na alba, o chá;
O lar em que, irmãos, se passa
A vida! Bem, vou-me, e já!
(1829)

SEM TÍTULO

É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila.
Vai-se dia após dia, e cada hora aniquila
Um fragmento da vida. Embora! Os dois, a sós,
Vivamos. De morrer, um dia, havemos nós.
Independência e paz no mundo há, não ventura.
Minha alma a boa sorte a meditar procura
Faz muito, e, escravo opresso, idear pude evasão
Ao refúgio em que a faina é sã, e o prazer, são.
(1834)

SEM TÍTULO

Sua beleza, que é serena
E fugaz, brilha, ai! para quê?
Em sua juventude plena
Ela fenece, e o mundo o vê ...
Fanar-se-á! Com a mocidade,
Breve, não se há de deleitar,
Nem da família ao grupo há de,
Breve, alegria inda causar;
Nem com palavra meiga e lesta
Nossas conversas reacender,
E, a alma tranquila e manifesta,
No sofredor gerar prazer.
E eu, presa de ideias penosas,
Dissimulando meu pesar,
Dou-me pressa em ouvir-lhe as prosas
E o vulto dela contemplar.
Olho-lhe cada movimento,
Presto atenção em sua voz,
E aguardo, pávido, o momento
Em que ela nos deixará sós.
(1820)

SEM TÍTULO

Desvaneceu-se a diurna estrela;
No azul do mar caiu da noite a cerração.
Estruge, estruge, obediente vela;
Agita-te sob mim, oceano resmungão.
Avisto a praia já distante,
Das regiões do sul limite encantador;
Perturbado, angustiado, arrebatado por
Saudade, quero-as neste instante ...
Meus olhos, sei, estão novamente a chorar;
Minha alma, febril, se entibia;
Esvoaça em torno a mim a interior fantasia.
Meu louco amor de outrora estive a recordar,
Quanta coisa sofri, quanta coisa achei bela,
Da promessa e da fé a aflitiva traição ...
Estruge, estruge, obediente vela,
Agita-te sob mim, oceano resmungão.
Barco, leva-me a voar para afastadas raias
Por mais de um mar infiel de capricho fatal,
Somente, não às tristes praias
Brumais de meu país natal,
Em que a comoção inicial
Senti de cada amor ardente,
em que a musa sorriu-me, oculta, ternamente,
Em que, nas procelas, floriu
Minha perplexa adolescência,
O breve riso fez-se, e logo, indiferença, e a
Dor em meu coração – dor crua – introduziu.
Impressões novas já buscando,
Deixei a terra em que meu avô jaz,
Deixei as alegrias do educando,
Assembleia fugaz de uma idade fugaz;
Partícipes do excesso a que, não vos amando,
Licencioso, eu me dei, sacrificando então
Liberdade, lazer, boa fama e afeição -,
Também vos esqueci ... Mas no meu coração
Chagas de amor de então, fundas, nada debela ...
Estruge, estruge, obediente vela;
Agita-te sob mim, oceano resmungão.
(1820)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/33858/17/puchkin-poesias-escolhidas-parte-4








sábado, 22 de abril de 2017

PÚCHKIN – POESIAS ESCOLHIDAS – PARTE III

“no dia 10 de fevereiro de 1837 o poeta morre”

BIOGRAFIA DE PÚCHKIN – PARTE III

Natália Púchkina era destaque na corte, mas Púchkin decide retirar-se com ela para o campo, no que temos o poema “É tempo, amiga, é tempo! exista a alma tranquila ...”, tudo isso em meio a dívidas que complicavam a vida do poeta. No campo Púchkin escreveu mais poesia e planejou publicar uma revista, até que George Dantès, jovem oficial francês emigrado, decide conquistar a mulher de Púchkin, a qual começou a receber cartas anônimas. No meio disso, Púchkin já tinha escrito bons versos como “Um monumento ergui a mim, obra extra-humana ...”, inspirado em Horácio.
Púchkin publica a pequena novela A filha do capitão, mas a situação econômica e sentimental continuam complicadas, até que o poeta recebe um papel anônimo que é um insulto com a inscrição “Diploma da Ordem dos Cornos”. Dantès continuou a assediar Natália Púchkina. Para Púchkin certamente haveria um duelo, e foi quando Dantès o desafiou.  O encontro realizou-se no dia 8 de fevereiro de 1837, e os que estudaram a vida de Púchkin dizem que a trama foi urdida nos círculos palacianos, com o objetivo de dar fim à vida do poeta, devido sobretudo a suas polêmicas contra o czar. Dantès foi o primeiro a atirar, e Púchkin, atingido mortalmente no estômago, conseguiu disparar contra o adversário e Dantès foi ferido na mão.
A notícia do duelo se espalha e no dia 10 de fevereiro de 1837 o poeta morre. Depois disso, a fama de Púchkin começa a crescer, sua obra é vastamente reconhecida. Sua poesia e sua prosa passam a ser reeditadas sempre, influenciando um mundo de escritores e artistas, sendo louvado pelos maiores prosadores e poetas russos. E Gógol nos diz: “Púchkin é um fenômeno extraordinário e, talvez, o único fenômeno do espírito russo.” Turguiênev: “Ele criou nossa língua literária, nossa língua poética, e a nós e a nossos sucessores resta apenas ir pelo caminho aberto pelo gênio dele (...). Sem falar da beleza viril, da força e da clareza de sua linguagem, essa verdade sincera, essa ausência de mentira e de estilo bombástico, essa franqueza e essa probidade de sentimentos (...) a nenhum de nós, seus compatriotas, surpreende que se encontrem nas obras de Púchkin, nem surpreende àqueles estrangeiros aos quais ele se torna acessível.” Dostoiévski: “Púchkin morreu no pleno desenvolvimento de suas forças e indiscutivelmente levou consigo, no ataúde, algum segredo grandioso. E esse segredo, nós, agora sem ele, tentamos adivinhar.” Górki: ‘Suas obras são o testemunho precioso de um homem inteligente, instruído e verídico sobre os usos, os costumes, as concepções de uma época célebre. Todas são ilustrações geniais da história russa.”

POEMAS:

OS DIABOS : O poema abre com um canto natural: “Nimbos giram, nimbos passam;/A lua, oculta sob véu,/Aclara os flocos que esvoaçam;/Turva, a noite; turvo, o céu./Vou, vou pelo campo aberto;”. E segue: ““Cocheiro, ande! ...” “Não se pode:/Duro é para os animais;/Nos olhos neve sacode/O ar. Rumo não se vê mais;”. O caminho se torna turvo e já não tem rumo, e o poema segue: “Agora, a agreste égua açula/À brecha, e ela ergue-se assim./Faz-se de marco e se estende/Na estrada, vejo-o acolá;” (...) “As éguas pararam; já/Cala a sineta. “Que vemos?”/“Um cepo? ou lobo será?”/Mais cresce a borrasca, e chora;”. O tempo é duro, na borrasca se chora, o poeta tenta ver, e vem: “E espíritos se amontoam/Na brancura – vejo, enfim.”. A presença dos espíritos, que estão na brancura, e o poeta novamente se funde à visão natural, de turvo clarão e de folhas de outono: “Infinitos, discrepantes,/Da lua ao turvo clarão,/Demos disformes, dançantes,/Quais folhas de outono, vão.”. E o poeta, condoído, finaliza: “Vão eles, bando trás bando,/Na ilimitada amplidão,/Gemendo, pranteando, uivando,/A pungir meu coração.”

ELEGIA : O poema tem um ar de dor, uma dose de loucura, o poeta aqui está na ressaca após a primavera da vida, lamenta e está nostálgico : “Dos anos loucos a alegria extinta,/Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta./Mas, como o vinho, é o remorso meu/Que mais forte ficou, se envelheceu./É triste minha estrada. E me anuncia/O mar ruim do porvir dor e agonia.”. Em meio das lamúrias de poeta, ainda busca o gozo, em meio da aflição, quer sentir ainda suas doses de alegria, no que segue: “E sei que há gozos para mim guardados/Entre aflições, desgostos e cuidados;” (...) “E talvez com sorrir de despedida/Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.”. O amor é uma das visões acalentadas, e o poema ainda tem esperança.

ARIÃO : O poema navega, é um verso forte, e se guia pelo mar revolto: “Nós éramos, na embarcação,/Muitos. Uns a vela esticavam;/Outros na fundura apoiavam/Remos pesados. Ao timão,/A pender, nosso hábil piloto/Guiava, em silêncio, o amplo batel;”. No que temos um choque: “Morreu o audaz navegador!/Só eu, clandestino cantor,/Na praia, longe da procela,/O hino de antes a cantar,/A casula estou a secar/Ao pé da fraga, à diurna estrela.”. O poeta quer cantar seu hino, na morte do navegador, ele faz versos.

O PROFETA : O poema tem um tom místico, e está cheio de vida, e o poeta está com sede de espírito, no que se arrasta e tenta a liberdade alcançar: “Cheio de sede espiritual,/No ermo sombrio eu me arrastava,/E um serafim, ou ser igual,/Na encruzilhada me esperava.”. E o poema segue: “Ouço dos céus o movimento,/De anjos do empíreo o adejar,/Do que há sob a água o rastejar/E da videira o crescimento.”. A visão dos anjos agora tem também a luta interior no coração do poeta, que segue: “Meu peito com gládio fendeu,/Sacou-me o coração convulso,/E um carvão em brasa meteu/No lugar do órgão avulso./Qual morto nesse ermo a jazer,/Ouvi a voz de deus dizer:/“Levanta, vate, acorre a atende,/Dá ao que quero execução,/E, indo por mar e terra, acende/Com fogo cada coração.””. O fogo e a brasa que acendem no coração também podem ser poesia.

A TCHAADÁEV : O poema se abre diante da doce ilusão dos sentimentos nobres: “Amor, glória quieta e esperança/Foram nossa breve ilusão;”. E o coração convulsionado, está impaciente: “Nosso impaciente coração/Da pátria sob autoridade/Fatal ouve a convocação.” (...) “Enquanto o ardente coração/Incitam honra e liberdade,/Do íntimo a nobre agitação/Demos à pátria, amigo, e à idade.” (...) “Do sono a Rússia acordará/E na aversão da autocracia/Teu nome e o meu escreverá.”. E a crítica política fecha este poema em que o coração do poeta está cheio e ardente, com a esperança da Rússia acordar.

POEMAS:

OS DIABOS

Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Vou, vou pelo campo aberto;
A sineta faz tlim-tlim ...
No plaino estranho, decerto,
Medo involuntário há, sim!

“Cocheiro, ande! ...” “Não se pode:
Duro é para os animais;
Nos olhos neve sacode
O ar. Rumo não se vê mais;
Nem de morto avisto traço;
Perdemo-nos. Que fazer?
O Cão nos trouxe a este passo
E está em volta a correr.

Olhe: ele lá brinca e pula,
Soprando, a zombar de mim;
Agora, a agreste égua açula
À brecha, e ela ergue-se assim.
Faz-se de marco e se estende
Na estrada, vejo-o acolá;
E ei-lo adiante, apaga-acende,
Antes que à treva erma vá.”

Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob o véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Para mais, força não temos;
As éguas pararam; já
Cala a sineta. “Que vemos?”
“Um cepo? ou lobo será?”

Mais cresce a borrasca, e chora;
Cada égua, arisca, a fungar;
Ei-lo, aos saltos, longe, agora;
Olhos, na névoa, a brilhar;
As éguas outra vez voam.
A sineta faz tlim-tlim ...
E espíritos se amontoam
Na brancura – vejo, enfim.

Infinitos, discrepantes,
Da lua ao turvo clarão,
Demos disformes, dançantes,
Quais folhas de outono, vão.
Quantos! Que meta os atende?
Que vão, queixosos, a entoar?
Vão enterrar um duende?
Vão uma bruxa casar?

Nimbos giram, nimbos passam;
A lua, oculta sob véu,
Aclara os flocos que esvoaçam;
Turva, a noite; turvo, o céu.
Vão eles, bando trás bando,
Na ilimitada amplidão,
Gemendo, pranteando, uivando,
A pungir meu coração.
(1830)

ELEGIA

Dos anos loucos a alegria extinta,
Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta.
Mas, como o vinho, é o remorso meu
Que mais forte ficou, se envelheceu.
É triste minha estrada. E me anuncia
O mar ruim do porvir dor e agonia.

Mas não desejo, amigos meus, morrer;
Quero ser para pensar e sofrer.
E sei que há gozos para mim guardados
Entre aflições, desgostos e cuidados;
Inda a concórdia poderei cantar,
Sobre prantos fingidos triunfar,
E talvez com sorrir de despedida
Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.
(1830)

ARIÃO

Nós éramos, na embarcação,
Muitos. Uns a vela esticavam;
Outros na fundura apoiavam
Remos pesados. Ao timão,
A pender, nosso hábil piloto
Guiava, em silêncio, o amplo batel;
E eu – descuidado menestrel –
A cantar-lhes ... Mas tufão cruel
Da onda torna o seio roto ...
Morreu o audaz navegador!
Só eu, clandestino cantor,
Na praia, longe da procela,
O hino de antes a cantar,
A casula estou a secar
Ao pé da fraga, à diurna estrela.
(1827)

O PROFETA

Cheio de sede espiritual,
No ermo sombrio eu me arrastava,
E um serafim, ou ser igual,
Na encruzilhada me esperava.
Minhas pupilas tocou com
Dedos leves qual sonho bom:
Para prever fê-las bastantes
E às da águia arisca semelhantes.
As mãos nestas ouças apor
Quis, e ei-las plenas de rumor:
Ouço dos céus o movimento,
De anjos do empíreo o adejar,
Do que há sob a água o rastejar
E da videira o crescimento.
Para meus lábios se inclinou
E a língua insana me arrancou
Que era astuciosa e maldizente,
E da sábia serpe o aguilhão,
Com sua ensanguentada mão
Pôs-me entre glaciais dente e dente.
Meu peito com gládio fendeu,
Sacou-me o coração convulso,
E um carvão em brasa meteu
No lugar do órgão avulso.
Qual morto nesse ermo a jazer,
Ouvi a voz de deus dizer:
“Levanta, vate, acorre a atende,
Dá ao que quero execução,
E, indo por mar e terra, acende
Com fogo cada coração.”
(1826)

A TCHAADÁEV

Amor, glória quieta e esperança
Foram nossa breve ilusão;
Passou dessa quadra a folgança:
Sono, matinal cerração.
Mas arde em nós inda vontade:
Nosso impaciente coração
Da pátria sob autoridade
Fatal ouve a convocação.
Aguardamos com fé estuante
Da hora da liberdade o soar,
Tal como aguarda o moço amante
A hora do encontro regular.
Enquanto o ardente coração
Incitam honra e liberdade,
Do íntimo a nobre agitação
Demos à pátria, amigo, e à idade.
Crê, camarada: elevar-se-á
Feliz estrela de almo dia;
Do sono a Rússia acordará
E na aversão da autocracia
Teu nome e o meu escreverá.
(1818)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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