PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

NÉVOA DE NARDO

Giz de cera, bruma azul
lampeja, qual furibundo
dia, o poema golpeia.

Ataca a composição
o traço marcado:
como numa revolta,
sim, como a rebelião!

Peça de comédia bufa
é o canhão e a pólvora,
peça de tragédia
este vil coração!

Dai ao golpe da letra
seu terrir de fardo,
dai ao poeta
seu porvir de nardo.

18/02/2016 Gustavo Bastos

ESPANTO FRIO

Gerações ao espanto frio,
eu tinha muita sorte
no grito destemido.

As lutas das literaturas rotas
são frouxos de riso,
as lutas dos artistas brutos
são de estética e vinho.

O poema, como uma dose de veneno,
eis que de karma e música
enfada o homem prático,
eis que de dança e delírio
exalta o homem dissipado.

Contas de colares do frasco madrepérola:
o poema, nota bruta, fábrica da pedra,
regenera o fraco de seus vícios,
e enobrece o forte de suas ambições.

Estética da vinha, por mim mesmo:
o tanino é denso
como madeira de lei,
não enverga
no espanto,
não deplora
a viagem da vida.

18/02/2016 Gustavo Bastos

NOTÍVAGO DA FADA VERDE

Luzidio frasco de absinto,
com karma de indolor esfera,
às notas rotas que pressinto,
qual dharma que dormita fera.

Azedume dos folguedos vãos,
quais descansos de risos frouxos,
às mais claras vinhas dos sãos,
são risos e escárnios de brutos ocos.

Ah, pois mesmerize fada azul,
ah, pois catalise a manta de verdor,
ah, que nada me espante ao debrum,
ah, e nem me encante o albor!

Luzidia razão dos nobres,
pois do mundo vão aos vinhos,
que são obras dos fortes,
e caem bem em sonos de linhos.

Absinto do frasco alucina,
já bêbado de alta miragem,
que sinto absorto na vil sina,
ao estar no encanto selvagem.

18/02/2016 Gustavo Bastos

FIM DO POEMA

Assim, de carne e veste envolvida,
a estrela de chumbo tonteia,
pois mais seca e densa neblina,
às amarras do coração bombeia.

Pois, do canto mais solar,
como o verão de cal e sonho,
a mais funda estrela polar
cai como luva no caldo risonho.

Das trevas enuncia luz,
como uma jarda longínqua,
que enternece o que supus,
por mais alta sala contígua.

Assim, de sol e lua à carne dura,
sonha vinha assim de mel,
pois à arma fruto de sal e luta,
sonha o fim do mundo e do fel.

Pois de chumbo estrela escarlate,
lá no alto com albor de carmim,
que da branca nuvem tudo arde,
do fim ao fim deste sonho de fim.

18/02/2016 Gustavo Bastos

HAXIXE MARROQUINO

Ah, quão longe flor de flora!
Que meus pés já não sentem,
que meus olhos só veem!

Atrás da big band,
atrás dos cacos
de fumo.

Um ar de fumaça toma o trompete,
psiconáutico flor morfema,
que as vinhas seviciadas
de mosto aos pés
embriaga!

Ah, quão longe o caminho
da espera matreira!

Atrás da música solista
o kaaos on the hills,
pois because of you
I have been mad.

Haxixe marroquino
nos tímpanos:
oh como é doce o pecado
das cores e dos sons
quando se está
em êxtase!

18/02/2016 Gustavo Bastos

DORES DA BORRASCA

Que borrasca que nada!
O pranto seco sequestrou
o dia,
e as flechas de bruma
só seriam ao orvalho
da flor,

Que alma danada!
Esta que se mutila
dando ares
de "sinto dor"!

As mais das vezes
flor e dor
são selvagens escravos
do amor.

Se escrevo-escravo
dos olores da flora?
Sim, mais ou menos,
pois talvez de perfumes
o canto do dia
se faça mais ouvido
pela chuva borrasca pranto
que lágrimas pretendidas
tinham novamente o apelo
do tal "sinto dor".

18/02/2016 Gustavo Bastos

ATAVISMO DA ALTA TORRE

Os olhos atávicos semeiam
o caos dos símbolos,
como nota inconsciente de dor
a onisciência da morte,
onipotente aniquilação,
onipresente violência.

Os deuses mais mórbidos
compõem os caminhos
de vitória,
os deuses mais pacíficos
sofrem na dor d`alma.

Os ouvidos atávicos
se bebem em sensações,
como numa viagem de ácido
em que o duro karma
mostra seus dentes de leão,

como na esfera última
circunvolutiva
dos febris delírios
da alta torre,

e a vida passaredo conclama:
o poema está traçado
com veias e sangue
nas náuticas canções
de brutos calores.

18/02/2016 Gustavo Bastos