PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O INFANTE

Como um infante o poeta
declama vozes desconhecidas.
Como um infante compõe suas rimas
que brilham como diamante.

Das pestes inumeráveis ele sabe
de todas, enumera os infortúnios
como um grande sabedor
das coisas obscuras.

Devaneia o amor sem
nunca ter amado deveras.
Do elixir tem saudade,
dos miasmas colhe o pranto
que no seu peito ecoa.

Como um infante o poeta
domina a arte do verso,
e neste universo de
mágoas e alegrias,
se diverte nas noites
como um idólatra
de Baco.

25/10/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)


DO PERIGO DA POESIA

Amarga vinha, poetas
descansam no ópio
e na vinha se foi
o tempo recobrar
a lamúria.

Eis que o dia é a mancha
que nos invade os olhos,
mar impreciso das
almas dançantes,
eu olhava a vida
com olhos de furacão,
eu olhava o futuro
como uma antevisão.

O que seria de nós sem o perigo?
O que sobraria da vida
sem o risco de perder tudo?

Como se sabe, a hora dos defuntos
é o dia e a noite
na taverna,
bebemos licores
que renascem
nas águas do mar,
e o delírio nos possui
como uma arma fatal.

Os amantes de boêmia
bem o sabem, e nada
lhes é precioso.

25/10/2011 Delírios
(Gustavo Bastos)






CASO RARO

No tumulto das horas
uma multidão toma
o patíbulo.
Desde tempos imemoriais
o arcaico nos honra
com sua cegueira,
uma pistola é apontada
à cabeça de uma febre,
os dias gritam ou calam
ao sabor das ventanias.

No cais encontraram
um poeta morto
que as águas salgadas
do mar com suas ondas
trouxeram de volta à praia.
Na algibeira encontramos
"Uma Temporada no Inferno"
de Arthur Rimbaud,
o poeta lacrimejante
havia bebido muito
e se jogou nas pedras,
logo ficara sabendo
toda a patuleia.

No tumulto das horas
seu crânio partiu
em loucuras bêbadas
de mágoas antepassadas,
o mar chorou e disseram
que a onda o esmagara.

25/10/2011 Delírios 
(Gustavo Bastos)










































domingo, 23 de outubro de 2011

A BOCA DO MUNDO E A FOME VIZINHA


   Sonho este que está no tempo
   Ido e doído, corrói o sêmen
   E o prurido escapando
   Com o céu da boca em pranto
   Em curtas passadas da língua
   Que é a mesma fala falaciosa
   Faladeira em falsa forma.

   Sonho meu e teu e nosso
   Que a boca do espanto
   Contorce a língua que flui
   Em tons dialetos e palavras próprias
   De um viver de cultura e História.

   Sonho todo em tudo que nada além
   Diz não aos que choram.
   E dorme como come, e baba como bebe.

   Boca miúda, cala-te!
   Este sonho não é o nunca ver
   Do visto que é o mundo incômodo
   Que vem aos olhos?

   Sob o céu da boca da fome o grito.
   O real é a boca sem céu
   Do purgar-se do purgatório
   Nosso de cada dia.
   E cada noite sozinha
   Acende a vela do sétimo dia ...
   Desnutrição.

   E cada um em si já foi sêmen um dia
   Que saiu e virou gente.
   E cada um em nós é um só da mesma
   Reunião de gentes.

   Assim se vai do ventre à boca,
   Da barriga grita a fome
   Do corpo inteiro desnudo.

   O mundo assim de nós mesmos
   Que comemos, são a fachada
   Do sonho. O real que não
   Queremos não é o nosso.
   Estamos cheios, repletos de tudo,
   Longe das bocas ignotas da fome
   Sem fama sem fundo sem mundo.
   O mundo lhes é negado
   Tanto quanto se pode.
   Tudo que é tempo e sonho
   Desfez-se como gostaríamos.
   Dois mundos não se tocam.
   Um que é ser, outro que é nada.

   Nos esquecemos
   Da morte da fome
   Do que não tem nada
   E nada espera
   Senão o não
   Do mundo que lhes
   Evita.

REDAÇÃO DO INFANTE


                                     
   Lá no campo longínquo, que faz séculos que no horizonte descansa, esteve em olhos marejados um tímido coração tremendo no espanto da vida.
   No silêncio da alma não há esperança, não há alegria.
   As pedras nos sonhos jazem em masmorras, poesia sem dono que o fantasma do profundo quer como um abismo, que este filho da dor desenhou ao infortúnio, e declarou-se como o líder de uma gangue dos ínferos.
   O riso que além escapa, e a boca sedenta, derramam a alma que não quer se expor. Guardada em gavetas, a poesia não quer se revelar estonteante ou bela como antigamente.
   Antigamente, havia um paraíso, que no mar sumiu, no azul do fim.
   A fumaça vigora, a desgraça vigora. Esteve o vinho lamentando a taça vazia e o estilhaço do coração sufocado.
   Sempre o pássaro, imagem qual era, ascende em outros cimos. E a noite, agora possessa, deveria tomar o dia, e jamais trazer o sol que antes brilhava, pois o fogo da vida findou no tédio e na revolta.
   Lembro-me apenas: Antigamente é só infância. O campo longínquo não voltará.

EXISTÊNCIA


             
   É de tudo o que enfraquece, o tempo
   Do minúsculo relógio de fogo.
   Flores nos jardins me fascinaram tanto,
   Que a minha tranquila vida acabou.
   Este viço de vida que acaba
   Por ter perturbações,
   O reflexo do espelho quebrado,
   A dança morna que invade a alma.
 
   Imóvel, me movimento por dentro,
   Quando tanto sentido escapa da vida.
   E vento, ou nuvem, talvez a chuva
   _ não me convalesçam.

   O fraco sou eu.
   O tempo não é meu e de ninguém.
   As flores nos jardins que me fascinaram tanto,
   Tampouco se revelam verdadeiras.

   Não é o campo o meu êxtase.
   Não é a cidade o meu fim.
   Meu tempo que não é meu e de ninguém,
   Talvez chamando o que é este passar de tudo,
   Por tudo passa sem ter o que buscar.

   O fraco é o poeta.
   Minúsculo, esquecendo da grandeza.

                                   

NA NEGRA NOITE, UM SONHO QUE VEM


   Em mim um sonho se avizinha,
   E bate à porta.
   Por lares em que tudo alinha,
   Dou o meu verso agora.
   É noite que vive lá fora!

   Andei entre as gaivotas,
   Que mexem meus livros usados,
   E me dão às livres revoltas,
   Serena luta de reinados.

   É o vão da noite que assusta!
   Toda fé e toda luta
   Correm pelos vinhos,
   Tudo gigante, em vasos e ninhos.

   É a dor que cai onde fugimos,
   Da dor que é dor sem céu,
   Da dor que vem e que é sem véu,
   Da negra noite que surgimos.