PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ENTRE O CÉU E O MAR

Entre o céu e o mar

existe a alma do mundo.

Terra de sangue vertido,

tuas madeixas de mulher

vestem o vermelho da canção.



Transeunte do vinho solitário,

que sois vós os filhos

da amada semente do futuro?

Entre o céu e o mar

existe a alma do mundo.



Onde deixei meus poemas?

Onde há poetas?

Eu sei o quanto eu já cantei

em verso destemido,

eu sei a maior das aventuras

de um sonho infinito

que declara amor sem retorno

numa noite sem par,

dos meus ardores eu conheço

a beleza de ser um só

em meu pensamento,

e quando estiver exausto,

darei o sangue novamente

para somente morrer na arte,

darei o sangue pelo ato final,

entre o céu e o mar.



10/10/2009 Gustavo Bastos

ANTES DA MORTE (O QUE EU SEI)

Antes que eu esqueça:

Já tomei as providências necessárias

para edificar o amor de meus sentimentos,

todas as maravilhas da descoberta

são as almas que busco e encontro

ao desmentir o meu coração partido.



Leio as faces estendidas na memória,

e faço da unção a mais bela voragem

de santificados campos de morte.



O coração permanece batendo.

Permanece batendo o coração.



Da luta que eu empreendi,

destas almas que velei,

resta ao indômito selvagem

que abriga o meu sangue

uma dor inexaurível

de vinho e coragem.



Onde estiver, amor da farsa,

não apague a minha presença

em teu corpo,

e não julgue no teu espelho

a minha carne imatura,

pois de jogos se faz

a dança da vida,

e eu sou só mais um

disperso na multidão.



10/10/2009 Gustavo Bastos

domingo, 8 de maio de 2011

POEMA SOBRE O AMOR DO MAR

Sempre o mar, com o seu caldo inaugural

e suas algas e peixes.

Bela época aquela de que recordo

o marulho e a vida que era bela!

Seu límpido azul verde se pintava

de anzóis e de liberdade desmedida.

Toda a prece era para um Deus

silente e terrível de escamas

e recifes na profunda tempestade.



Lembro-me, por agora, de cantar

ao permanente céu que te cobria,

mar indestrutível,

na doçura de me banhar

na eternidade de vidas submersas.

Eu ouvia a gaivota em suas sondagens

de fome, pássaro pronto ao mergulho

fatal de sua caça.

As algas eram infinitas,

e o meu corpo bronzeado.



Fiz da areia o meu maior sonho,

e da minha morte,

uma praia risonha.



Não falta nada ao mar,

não falta o sal,

não falta o sol,

não falta a onda,

não falta o abismo,

não falta a nudez,

não falta o horizonte.



Estava no meu livro

a sua emoção de ser imenso,

Netuno bem o quis,

um mar que é o portento,

um mar que é intenso.



Das vidas que levou embora,

o mar as quis,

como destino,

afogamento submarino.



Tuas delícias, ó mar,

eu as tive em todas as minhas

lágrimas de sal.

E digo então:

Tua é a morada da travessia,

o desvelamento de tuas entranhas

é o nascimento de teu momento

mais líquido de encontrar

depois uma terra virgem,

onde eu possa me deitar

e te olhar,

horizonte impreciso,

lar da barcarola

rumo ao infinito,

lembrança que és

de minha memória oceânica,

mar que guarda

tudo dentro de si,

para então afundar

o meu corpo.



Eu bem o quis!

O mar é este ser total

que o sal batizou,

é o tempo das redes de pesca,

e a hora do mergulho final.

Tu, ó mar, é o sonho

da sereia,

aventuras de Ulisses,

descoberta de Colombo,

mar aberto, enseada,

golfo, delírio bruto

de sua maresia,

eu sou livre

em teu refúgio,

livre sempre

ao te amar,

ó mar.



08/10/2009 Gustavo Bastos

NOVAS VIDAS QUE RESTARAM

E o Homem encantou-se com o seu próprio poder.

Qual será a próxima colheita?

Qual será a próxima guerra?



Eu avistei uma montanha no fim

de um círculo de fogo,

e a noite era sem véu e sem névoa,

era uma noite nua e cálida.



Há muito tempo a rosa desmembrou-se

no fulgor de um assassino,

e a quimera brutal

trouxe meu desejo em forma fetal,

no dia em que aves pousaram cegas

sob os incêndios deste poema que vos dou.



É a memória, agora, que faz seu luto e sua canção.

Mas não é a solidão que me queima,

é o povaréu numa sedução de equimoses

em doses levitadas de vinho e luta.



Sempre toda a vida será o pó,

e o pó será o que findar na morte,

pois a morte é nada,

e a vida é o que nos resta.



21/09/2009 Gustavo Bastos

TEMPO DA MIRAGEM

Tem um tempo para pensar,

e outro para correr.

Tem um tempo que eu não posso mais ter,

aquele tempo largo

de quando se é criança,

hoje o tempo é curto,

hoje o tempo é menos.



Acertar os passos com o relógio,

acertar os passos gregorianos,

duvidar do tempo que resta

e do tempo que foi,

afirmando somente o tempo que é,

eterno presente determinando

o seu passar de passo passando,

não desistindo de seu inexorável

trabalho de viver



Eu sei do que eu preciso,

um tempo eterno,

um sempiterno,

um círculo,

e uma miragem.



16/09/2009 Gustavo Bastos

FUNDAMENTOS DA BELEZA

Por onde vais? Por onde ficas?

Eu tenho o trovão nos olhos quando vejo

a vida na sua exuberância monumental.

Eu espero certa cadência

e me ponho a escrever

nos meus espasmos filosofais

em forma de poesia.

E quanto eu guardo

por não escrever!



Ah! Vai noite gelada!

Esqueço da penumbra em que me enfiei

e lembro de estar vivo,

mais vivo que o sol

que nos ilumina.



Dizem: o pensamento é privilégio

dos homens,

os outros seres vivem organicamente.

Mas é a natureza

que nos dá saúde,

e é dela a ordem do cosmos.

Nós, homens, somos o ápice do existir,

já que o pensar nos é facultado.



Por onde vou? Por onde fico?

A vida é a beleza de toda saudade,

e a saudade é a beleza de chorar,

e a beleza de toda canção

é por fim sorrir.



21/08/2009 Gustavo Bastos

VIDA DOURADA

Eu estava nu frente às pessoas,

e assim me detive

por alguns instantes.



Passei por ti, ó mulher,

de tuas ancas eu guardo na memória

as curvas.



Eu caminhei nu e não tive vergonha,

o despudorado canhão atirou

no meu peito,

eu fugia para as estrelas,

e ninguém me queria perto.



Talvez, estando como uma criança,

eu pudesse retornar ao feto,

ou esquecer a velhice,

ou roubar frutas do vizinho.



Ah, mas quanta bobagem eu quis elencar!

E a vida continua, e a vida passa ...

como eu e como a chuva,

como o sol e a lua,

e a onda que me afoga

e a dança e a música.



Ah, quanta beleza eu quero para mim!

Só em ti, ó mulher,

terei no meu enlevo

a tua face perfeita.



21/08/2009 Gustavo Bastos