PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

A COSMOGONIA DOS LOUCOS

O kaos gerou a ordem,

a harmonia, a inteligência,

que gerou o mundo,

e sua alma que gerou

os corpos, os ares que 

geraram as nuvens,

que geraram as chuvas,

que geraram as águas,

e o sol que foi gerado de um deus

de fogo que foi gerado

de um outro deus de magma,

de fogo, que foi gerado

do que surgiu do manto,

que era a barriga de um

outro Deus, com muito poder,

que gerou as estrelas,

e as estrelas que geraram os

cometas, e Gilgamesh,

o guerreiro, que gerou Tiamat

e a guerra dos mundos,

que gerou a morte,

que gerou a ressurreição,

que gerou o milagre,

e o mundo agora

cheio de intelecto

e arte, gerou a ciência,

que gerou o conhecimento

e a destruição, que gerou

a esperança e o medo,

que gerou a coragem,

e o poema foi gerado

do poeta, que gerou 

suas ideias

da matriz

universal,

gerada pelo

deus fogo,

que foi gerado

gerado

por um fogo

deus gerado

de arte gerada

de gerações

de deuses

gerados

de gênesis,

da grande

gênese

de todo

de tudo

e além.


16/10/2023 Gustavo Bastos


POEMA MANEIRINHO

Simbora que a manha é de quem faz e acontece,

enquanto os outro pangua e se esquece.

Na quermesse a boa messe é de quem merece,

se assim a lei natural tem mais e faz da boa

um bom bolado, bem urdido, de uma rosa 

gemida, gostosinha, que no lar estivesse.


O poema, que nem pândego,

vira a noite e bebe bem,

morde um fumo e até alvorece,

pois o bom poeta é bom 

de doer os peito quando

quer falar bonito,

faz que nem belo belo,

na toada do tear

esbelto e denodado.


Se tem um monte de coisa

já na trama, ele não se engana,

esgana a farsa, e ri gargalha

menino foda que assim

Deus ejaculou.


Bora bora, que o todo dos fraco

fica de butuca, cisca e bobeia,

cai na teia, na vala dos mortos,

e a astúcia dos vivo eles 

já não entende, são burro

de porta em porta,

e tomam na cara.


16/10/2023 Gustavo Bastos 


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

CANTORIA NA ESTRADA

O trajeto se estende pela planície.

Esta rota longínqua, longa.

Hoje escrevo a platitude 

de meu poema na ira

de marte e nos dons

de saturno.


Alvíssara, como na noite estrelada

deu para ver uma estrela cadente,

a abóbada limpa do interior,

este paraíso da estrada sem fim,

da noite eterna em que 

a cantoria em volta do fogo

sempre foi de visões

ancestrais, num bruxulear

final que o magma 

da vida aspirou,

o peito cheio de amor,

e os olhos alegres,

na prata que estalava

nos dedos.


06/10/2023 Gustavo Bastos


A FANTASIA (SOBRE A ARTE)

“A beleza salvará o mundo” 

(Dostoiévski em O Idiota)


Do ferro a dilatação lhe formata.

Se antes fosse o poema

uma promessa da vida …

todo saber me daria

a substância do viver,

de uma sabedoria plena.


Contudo, a fantasia da arte

nos dá o que falta, apenas

por uma prestidigitação,

por um encanto,

a tomar da vida

o que falta.


A arte serve

para revestir

o mundo de vozes,

para sair do vazio

e do desamparo,

a dilatar a morte

e a vida.


Este encanto,

este truque, que o artista

mui ladino domina

os hemistíquios,

em transe encantatório,

salva o mundo.


06/10/2023 Gustavo Bastos 


ESQUADRÃO DA MORTE

Estão à toda com a caveira e a milícia,

se tem banho de sangue e vende-se plasma.

Da pá virada, o loucão assunta na noite

e fica que nem cão tarado na pista.


Vem veloz a morte, encomendada,

planejada, é a arte do ardil em seu opus.

Pois, uma camarilha acompanha o chefão,

e o tribunal é capital, cortem-lhes a cabeça,

já dizia a cúpula, estalando os dedos

e bebendo uísque.


Na festa dos peraltas, trajados

com apuro de almofadinhas,

o colarinho cheira a coca,

e os olhos na mira e o bico

de pato da arrogância,

sem o céu da boca.


É uma noite louca,

dos eleitos e danados,

da elite tonta de champanhe.


Assim o sangue é mais doce

qual plasma, de lá, no lado

da guerra, o sangue é amargo.

Lá, o sangue é gratuito,

não se vende, pois a morte

é comprada, a preço caro.


06/10/2023 Gustavo Bastos


LIRA COSMOLÓGICA

Eu reiterei a posse de minha honra,

na verdade que o êxtase me guia.

Por toda a sagrada caminhada,

de joelhos em Fátima para

a revoada, toda a gana

da alvorada e dos auspícios

conquistados.


Seara celeste, na canção noiteira,

com o coração e a veia,

à toda trova bendita

que no mar se voa.


Logo estarei anjo,

por dentro de meu

arcanjo, como um poeta

de cítara, a fundar na lira

uma busca de elixires,

de poções, de visões.


Pois assim está o anjo desperto,

das asas a poesia potente,

de seu voo o céu da verdade,

o santo cálice da imortalidade,

a eterna bruma de orvalho

dos estetas.


06/10/2023 Gustavo Bastos


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

MEIO AMBIENTE - PARTE III

 “A convergência buscada pela Cúpula da Amazônia é a da construção de posições coordenadas"


O Dia do Meio Ambiente, em 5 de junho último, serviu para que Lula e a ministra Marina Silva se juntassem para anunciar medidas que visam reverter o processo de desmonte do setor feito pelo governo de Jair Bolsonaro. Lula assinou uma série de decretos para a proteção ambiental, no esforço pelo desenvolvimento sustentável. Um dos destaques entre os decretos foi a suspensão da medida provisória (MP) que deixava vulnerável a proteção da Mata Atlântica, o restabelecimento do Comitê Interministerial sobre Mudanças do Clima, a criação do Conselho Nacional para a COP 30 das Nações Unidas, dentre outras medidas importantes.

Um anúncio mais importante ainda, contudo, foi o do lançamento do Plano Amazônia : Segurança e Soberania, com Lula destacando que governadores, prefeitos e a sociedade civil serão ouvidos durante o processo. Este plano visa a proteção aos povos indígenas, demarcação do maior número de territórios possível, incentivo às atividades econômicas sustentáveis, para que se estabeleça um novo ciclo de desenvolvimento e combate à desigualdade.

O Brasil tem destaque na luta pela defesa do meio ambiente e contra as mudanças climáticas, e isto apesar do hiato que foi o período bolsonarista no Executivo. Nosso país tem papel preponderante no cuidado dos biomas, pois temos a maior floresta do mundo, a biodiversidade mais rica, uma matriz elétrica predominantemente limpa e renovável, com a ampliação de investimentos em energia solar e eólica. 

O Brasil retoma este protagonismo mundial no meio ambiente já com uma agenda pronta que envolve a COP 30, cuja sede será em Belém do Pará, que foi precedida pela Cúpula da Amazônia, realizada em agosto deste ano, também em Belém, no Pará. 

A Cúpula da Amazônia, por sua vez, teve a participação de oito países signatários do instrumento, que são, além do Brasil, os países da Bolívia, Colômbia, Guiana, Equador, Peru, Venezuela e Suriname, além de representantes de países convidados e de organismos internacionais, incluindo a OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica). A Cúpula foi precedida pelos Diálogos Amazônicos, que incluiu mais de 300 eventos da sociedade civil. 

O objetivo da Cúpula da Amazônia foi a adoção da Declaração de Belém, que visa estabelecer uma nova agenda comum de cooperação regional para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, conciliando a proteção do bioma e de sua bacia hidrográfica, inclusão social, estímulos à economia local, valorização dos povos indígenas e das comunidades locais.

Além disso, ainda se faz necessário o fomento de ciência, tecnologia e inovação, e também o fortalecimento da OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), organização internacional com sede em Brasília. A convergência buscada pela Cúpula da Amazônia é a da construção de posições coordenadas nas negociações multilaterais em temas ambientais, começando pela COP-28 do Clima e pela COP-16 de Biodiversidade. 

O texto final da Cúpula, contudo, ficou devendo em pontos fundamentais do tema ambiental, uma vez que não se alcançou nada em termos de metas claras, ou seja, que tenham prazos estipulados para a sua efetivação, o que foi coberto por algo vago e evasivo como “consensos progressivos”, confiando muito na sensação geral de ameaça ambiental, como se esta fosse o suficiente para apostar em compromissos firmados para consensos futuros para “não impor a vontade de ninguém”, o que é uma visão um tanto frouxa sobre metas e clareza quanto aos objetivos reais de uma conferência como esta. 

Por exemplo, não existem metas comuns de desmatamento, medidas concretas para evitar o ponto de não retorno da Amazônia, e não teve veto da exploração de petróleo na região. Um dos pontos em que se pode ter um norte mínimo é no compromisso de criação de diversas instâncias de fiscalização comum para fortalecer a OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica). 

Em relação a falta de metas comuns de desmatamento, a Declaração de Belém deixou como perspectiva factível, no entanto, uma iniciativa inédita de compromissos de linhas de financiamento para substituição de atividades nocivas pelas sustentáveis na região. Tal medida  seria efetivada, por exemplo, em fomentos como o estipulado em US$ 25 bilhões pela articulação de 19 bancos, com a liderança do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), com a ideia não somente de disponibilizar crédito como de estimular o crescimento do setor privado.

A importância da união dos países amazônicos, entretanto, é o que move a Cúpula da Amazônia, pois se estes países entrarem em consenso antes da COP-30, em 2025, zerando emissões de gases, desmatamento e degradação florestal, serão os primeiros países do mundo a atingirem as metas estimadas no acordo de Paris. 

Por sua vez, para se ter uma ideia do problema, da solução e de seus impactos, devemos saber que a Amazônia não somente é responsável pela regulação e estabilização climática da região, como do mundo, e a conservação de seu bioma e de sua bacia é vital para a sobrevivência de 10% das espécies conhecidas na superfície terrestre. 

Contudo, o chamado ponto de não retorno tem que ser cada vez mais combatido, uma vez que as taxas de desmatamento alarmantes, a degradação do solo e as mudanças climáticas dificultam cada vez mais a capacidade de recuperação deste bioma, o que pode levar ao estágio de não retorno ecológico, que seria a desertificação da Amazônia. 

Medidas possíveis para combater os problemas ambientais da região, por fim, passam pela cooperação regional em matéria de dados, e a efetivação do desenvolvimento sustentável em toda a região. Outras medidas importantes são o desenvolvimento da bioeconomia, o combate de ilegalidades e de crimes ambientais, além de acordos entre o poder público, o setor privado e as comunidades locais, que devem cooperar e convergir para o bem comum da Amazônia.



Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/meio-ambiente-parte-iii