PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A POLÊMICA DOS APLICATIVOS DE ENTREGA DE COMIDA

“Com o problema dos entregadores enfrentado durante a pandemia, tivemos o chamado “Breque dos Apps”””

Nesta pandemia, houve um aumento da demanda por entregas de refeições e lanches a domicílio, e os entregadores por aplicativos, passaram a ser mais  acionados, o que aumentou o número de cadastros nestes aplicativos para pessoas trabalharem e, consequentemente, caiu o preço das entregas, diminuindo o lucro dos entregadores deste aplicativos, com a queda das taxas de entrega. Isto envolve aplicativos como iFood, Uber Eats, Loggi e Rappi.

Por exemplo, com a pandemia, o número de entregadores querendo trabalhar no iFood mais que dobrou, pois 175 mil pessoas se inscreveram para trabalhar na plataforma em março, em comparação com 85 mil no mês anterior, de acordo com dados da própria empresa.

No iFood temos um esquema criado chamado “operador logístico” (OL), por exemplo, em que o motoboy trabalha para um intermediário e com uma carga horária de trabalho definida. Neste modelo de OL, por sua vez, o entregador tem direito a uma folga semanal, podendo ser na segunda, terça ou quarta, e uma vez por mês pode folgar em um dia do final de semana. O OL, contudo, não pode reivindicar nada ao iFood, pois ele trabalha para uma outra empresa, terceirizada, não trabalha diretamente para o iFood.

Só que os que mais sofrem com a plataforma iFood não são os OLs, mas a grande maioria, os chamados “nuvem”, que recebem por demanda, isto é, pelo número de pedidos que forem aparecendo, e passaram a fazer reivindicações simples, como um auxílio-lanche. Na outra ponta deste sistema estão os restaurantes, e as plataformas cobram deles comissões que variam de 15% a 35%, o que faz os restaurantes aumentarem os preços de seus produtos.

Este modelo de cobrança de comissões de restaurantes causou diversos processos que foram movidos contra estes aplicativos, e o argumento levantado é que este modelo de negócios criou monopólios, pois cria uma relação de dependência de muitos restaurantes, que têm que se curvar a estas exigências destes aplicativos para se manterem abertos ou competitivos.

Este modelo de negócios, que cria uma dependência dos restaurantes a suas exigências, faz, de outro lado, uma rede de exploração dos entregadores, e os aplicativos, atuando como intermediário entre restaurantes e entregadores, diminui o ganho destes dois, enquanto aumenta a oferta de ambos.

Com o problema dos entregadores enfrentado durante a pandemia, tivemos o chamado “Breque dos Apps”, que teve uma primeira paralisação em 1 de julho deste ano, que envolveu entregadores para aplicativos como iFood, Rappi, Loggi e Uber Eats, num movimento organizado por WhatsApp, e que reivindicou questões que passam pela definição de uma taxa fixa mínima de entrega por quilômetro rodado até o aumento dos valores repassados aos entregadores pelo serviço, além de máscaras e luvas para prevenção da Covid-19.

Parte dos entregadores, por sua vez, no influxo dos protestos, tenta criar um caminho alternativo aos aplicativos, que são as cooperativas de entrega, e que, contudo, não é um processo barato, apenas o desenvolvimento inicial de um aplicativo enxuto do tipo custa cerca de R$ 500 mil, e muitos dos chamados Entregadores Antifascistas contam com o apoio voluntário de diversos profissionais liberais, além de programadores e estudiosos do cooperativismo de plataforma.

Tal conceito de cooperativismo foi criado por Trebor Scholz, intelectual e ativista americano, que se volta para o fenômeno crescente no mundo do uso de plataformas cooperativas, que tem como objetivo fazer que os trabalhadores se apropriem da lógica da plataforma, passando a usar estes algoritmos a seu favor, pois como está sendo feito pelos aplicativos de grandes empresas, estes algoritmos são programados de forma obscura, num gestão algorítmica que beneficia estas empresas.

Os Entregadores Antifascistas buscam inspiração no cooperativismo criado na Europa, como é o caso da Mensakas, criada em Barcelona a partir de um movimento grevista contra a Deliveroo, uma empresa forte de entregas na Europa, em 2017.

O grupo brasileiro buscou apoio da CoopCycle, uma federação que reúne 30 cooperativas do tipo, sendo 28 na Europa e duas no Canadá, esta que é sediada na França, e permite que cooperativas em diferentes cidades compartilhem seus serviços, numa utilização de um software comum, que reúne em um único aplicativo estas cooperativas de diversas regiões. O trabalho dos Entregadores Antifascistas agora é adaptar o modelo à realidade brasileira.

A realidade é que a concorrência com as grandes empresas de aplicativo não é simple e nem fácil, o trabalho das cooperativas, portanto, é mais de encontrar nichos de mercado do que ocupar o espaço dos grandes aplicativos, pois o cooperativismo de plataforma não elimina a big tech (grande empresa de tecnologia), o desafio das cooperativas em relação às grandes empresas é mais de escala.

Ao contrário destes grandes aplicativos de entrega, que operam em centenas de cidades, e também em diferentes países, as cooperativas de entrega costumam atuar localmente e com poucos cooperados. E como dito, um dos meios de diminuir essa desvantagem é o modelo de federação usado pela CoopCycle.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/a-polemica-dos-aplicativos-de-entrega-de-comida 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

O FENÔMENO DA UBERIZAÇÃO

“O termo uberização se universalizou para definir esta nova economia de compartilhamento”

O termo uberização, que vem do Uber, é deste aplicativo que se tornou o principal concorrente do táxi, que sempre teve o domínio do transporte pago de pessoas de carro, e junto com o Uber, veio o Cabify, e outros aplicativos.
O termo uberização se universalizou para definir esta nova economia de compartilhamento e sem intermediários, sem uma empresa com empregados, mas num regime colaborativo de inscrição, cadastro e numa forma descentralizada que ganhou ares polêmicos, pois a chamada parte de empreendedorismo vendida como ideia principal deste novo regime de relação de trabalho, agora também é acusada de criar relações extremamente precarizadas que já resultam em novos protestos de entregadores de aplicativos de comida, por exemplo.
Uberizar virou um verbo para definir uma nova forma de gestão de negócios, na qual empresas utilizam a tecnologia para colocar consumidores e fornecedores em contato direto, o que configura um sistema em que os intermediários não atuam diretamente no processo, esta função se restringe a garantir apenas que os que procuram um serviço possam encontrar as pessoas dispostas a oferecer esta demanda.
A concorrência deste novo modelo de negócios com as empresas tradicionais é bem forte, pois ocorre um barateamento dos custos para os serviços destas novas plataformas, sem intermediários, pois o consumidor paga mais barato pelo serviço. Este modelo sem intermediários, portanto, é um serviço que ocorre sem burocracia, entraves e funciona diretamente com um sistema de reviews e sistemas sofisticados de pagamento.
Este novo modelo de uberização também pode ser chamado de economia compartilhada. Aqui vemos um modo de trabalho em que há a troca entre as partes, com todas as pontas conectadas, mas sem ter, propriamente, patrões e empregados. Aqui podemos elencar, além da Uber, empresas como iFood, Rappi e Airbnb.
Mesmo que se propague a ideia de empreendedorismo e oportunidade de trabalho, ocorre de fato uma precarização de regime de trabalho, em que o trabalhador não tem vínculos empregatícios e trabalha por conta própria, tendo que ganhar por produção, o que, por outro lado, configura uma alternativa para usuários destes serviços e para os que trabalham nestas empresas.
Contudo, o que se coloca como precarização também envolve ausência de direitos trabalhistas, em que estas empresas não possuem responsabilidades ou obrigações em relação a seus “parceiros cadastrados”, que é como estas empresas nomeiam seus prestadores de serviços, e a ideia que estas empresas vendem, por outro lado, é vender a possibilidade de se tornar um empreendedor, autônomo, com flexibilidade de horário e retorno financeiro imediato.
No caso da Uber, por exemplo, falando da realidade brasileira, é repassado à plataforma entre 20% e 30% dos valores cobrados aos clientes, e o motorista, além disto, tem que trabalhar com valores baixos de retorno por cada corrida e arcar com as despesas de celular, internet, combustível, manutenção do veículo, seguro do carro, e podendo se responsabilizar por danos causados a terceiros.
Além disto, a plataforma tem um controle de qualidade dos serviços prestados bem eficiente, não havendo ônus para a empresa, com os clientes sendo os responsáveis por avaliar a corrida e o motorista, e que serve de fonte de pressão sobre os motoristas.
A pressão que vem do fato de que se os motoristas tiverem duas avaliações negativas, são descredenciados, tendo que manter uma média de 4,6 pontos, numa escala de 1 a 5 estrelas, para continuarem com a parceria. Tudo é feito por um sistema operacional sem fiscalização ou assistência. E temos motoristas trabalhando até mais que doze horas por dia, sem qualquer fiscalização do Estado ou instituição que garantam seus direitos.
Com a flexibilidade do modelo, no Brasil temos, por sua vez, um desdobramento em que há, devido à ausência de fiscalização, um espaço para a subcontratação ou terceirização da Uber, numa exploração agressiva de mão de obra. Pois, como para se credenciar tem que ter carro e celular, começou um comércio de credenciamento, o que burla as regras da plataforma, sem qualquer controle sobre os condutores.
Temos na Europa, por sua vez, devido aos problemas que surgiram deste regime de exploração, países como Espanha, que tornou obrigatória a regulamentação e registros de licenças para a operação da plataforma Uber no país.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




domingo, 26 de julho de 2020

HERZOG, A CONQUISTA DO INÚTIL DE FITZCARRALDO NO LIMITE

“chegamos à conclusão de que as melhores histórias são as mais difíceis, desde que o resultado seja bem-sucedido”

Herzog continua sua aventura com as filmagens de Fitzcarraldo no coração da floresta, e segue a sua descrição de um trabalho na dureza das intempéries naturais e da própria natureza de dirigir um filme no caos e fora dos estúdios, ele nos diz : “Em Camisea eu vi muitos rostos novos. Inspecionei a trilha e mandei que parassem imediatamente, por enquanto, os trabalhos no poste central, o muerto, que deve suportar todo o peso do navio na encosta, para filmarmos os trabalhos amanhã logo cedo. Kinski viu a área e declarou que o que eu queria fazer era totalmente impossível, impensável, ditado pela demência.
Ele se transformou no epicentro do desestímulo. Analisando melhor, percebi claramente que ninguém mais está ao meu lado – ninguém, nenhuma pessoa, nem uma, nem uma única pessoa. Em meio a centenas de índios figurantes, dúzias de trabalhadores da floresta, barqueiros, funcionários da cozinha, equipe técnica e atores, a solidão se abateu sobre mim como um animal gigantesco e furioso. Mas eu via algo que os outros não viam.”
Herzog segue, e mais uma vez tem de lidar com os acessos de fúria de Kinski : “Filmei muito : Fitz com o fonógrafo, barcos com índios que escalam o navio. Em meio aos berros e ataques de raiva de K., que punham a perder todo o trabalho, fiquei mudo feito uma parede rochosa e o deixei quebrar suas ondas sobre mim. Afinal, estava bem aí a única coisa certa e produtiva para o que iria aparecer na tela, porque no fim a cólera que existe dentro dele é moldada. Só que no set ninguém compreende isso, ninguém da equipe, dos atores, apenas Huerequeque nesse ou naquele aspecto, mas ele nunca esteve na frente de uma câmera. Os índios, por sua vez, me dão a impressão de que estão tramando algo contra K.”
Os esforços em relação ao navio também são descritos com detalhes por Herzog, fazendo com que este livro chamado Conquista do Inútil revele um trabalho aparentemente sem sentido, mas que hoje é um documento de um trabalho único na História do cinema. Ele estava entre os problemas práticos de uma filmagem caótica e sem previsão de dar certo, a inexperiência de alguns atores, como Huerequeque, e o estrelismo furioso de Klaus Kinski, que tornava aquilo tudo ainda mais tenso e caótico.
Herzog segue seu relato : “Trabalho nos molinetes na encosta, e então filmamos campas puxando a manivela da roldana com mais de quinhentos quilos montanha acima. Ela parece sólida o bastante, mas não estou muito seguro quanto ao cabo de aço. Os valores físicos não dizem muito mais do que vi quando o navio, com o casco rangendo e deformando-se ruidosamente, ameaçou quebrar, lavrando a terra com a quilha como se fosse um arado – foi quando filmamos uma primeira tentativa de puxá-lo para cima. Tomamos coragem, e minha única preocupação é K., já que ele, quando puxarmos o navio montanha acima, será apenas uma espécie de figurante ... E em sua mendacidade humana e falta de dimensionamento, para voltar a ser o centro das atenções ele se valerá da única possibilidade a seu alcance, a saber, ficar doente. Isso eu aposto comigo mesmo.”
As confusões seguem, e Herzog as descreve : “Laplace vai mesmo embora, e de fato me deu a entender, por cautelosas insinuações, que está indo por incompatibilidade com W.; além disso, acrescentou, ele não tinha certeza de que realmente conseguiria cumprir sua tarefa. Segundo ele, o navio seria um verdadeiro monstruo, um monstro com o qual ele não deveria ter se envolvido.  De minha parte, tomei duas decisões : eu mandaria substituir o poste de arrimo, independente de quanto tempo demorasse, por uma construção à prova de idiotas, e, com isso, tomava completamente em minhas mãos a tarefa de puxar o navio montanha acima.
Os fatores físicos são conhecidos e de fácil compreensão : peso do navio, inclinação da encosta, transferência das forças no sistema de roldanas, perda por atrito. As imponderabilidades restantes precisavam excluir a possibilidade de o ponto de apoio não aguentar, bem como a de haver pessoas dentro ou atrás do navio quando ele for puxado pela encosta. Aos brados, K. veio dizer que eu era um demente, que era um crime o que eu pretendia. Eu apenas lhe disse que, se o navio se soltasse, ninguém estaria em perigo – eu apenas destruiria um navio em um belo e cataclísmico evento. Mas esse não era o objetivo, e eu estava aqui por outra visão, com a qual eu estava comprometido.”
A vida não estava fácil para ninguém naquelas filmagens, e Kinski era um agente do caos em meio a todas as dificuldades que já seriam naturais num cenário como aquele, e Herzog resistindo bravamente com sua ideia fixa e leitmotiv que resumia todo o sentido de seu filme, o tal navio na montanha, e ele segue seu relato : “Paralisia. Laplace se foi. Gloria se foi. K. passou dos limites com seus ataques de cólera contra ela. Pela manhã, filmamos com muitos índios no tombadilho, captados a partir da ponte, e bastou movermos o navio um pouco de um lado a outro para que surgisse, em uma estreita faixa da imagem, a impressão de que o cenário de fundo estava se movendo e que o navio estava andando. Depois rodamos uma cena que escrevi rapidinho para a compreensão do comportamento dos índios.
Ao meio-dia, Gloria estava no rádio, por causa de algumas encomendas de Iquitos, e eu na minha cabana; o que logo se deu foi uma gritaria dos infernos. K., que não suporta a voz dela, estava feito um demônio e lhe mandou ficar quieta; ela retrucou, com razão, mas berrando com uma voz de feirante, e perguntou se ele achava então que amanhã teria uma única folha de alface em seu prato. Em reação, ele destruiu todo o parapeito do mezanino do refeitório, quase caindo da plataforma. Miguel Vázquez riu ao ver a cena e K. ficou ainda mais fora de si, o que Glória, por sua vez, interpretou erroneamente como um ataque violento contra ela. K., que a essa altura só tinha olhos para danos materiais, veio disparado até mim, berrando, querendo estraçalhar mais alguma outra coisa e transformá-la em lenha.
Nesse meio-tempo, Glória chamou W. pelo walkie-talkie, para que a ajudasse; ele chegou vindo da trilha, pegou a espingarda de Huerequeque, mas desistiu de matar o nervosinho a tiros, pois o viu reclamando na minha cabana. Pedi a W. que me deixasse um momento em paz, que eu assumiria o controle da situação, mas ele aproveitou o momento para jogar mulher, filha e algumas coisas na lancha. Ele já tinha ido, gritou-me quando eu quis conversar com ele. E foi embora.  Ficamos tomados de desilusão, pois com todos os atritos com W., estava claro o quanto ele era importante para tudo aqui, e as pessoas me pressionaram a ir atrás dele; para espanto de todos, porém, eu primeiro me deitei na rede por uma hora, pois sabia que, conhecendo-o, devia deixá-lo por um tempo sozinho.”
Herzog aqui está passando pelos momentos mais difíceis de suas filmagens, e como todo sonho ou objetivo passa por dificuldades e provações, chegamos à conclusão de que as melhores histórias são as mais difíceis, desde que o resultado seja bem-sucedido no meio e no fim da travessia, alcançar a meta era a ideia fixa e a obsessão de Werner Herzog, e ler este livro, Conquista do Inútil, é testemunhar o resultado como pronto, já sabemos de antemão que um filme existe e que foi bem-sucedido, mas, ao lermos o livro, vemos os momentos de tensão e caos nos quais ainda, para aqueles que estavam lá, não se sabia no que aquilo tudo daria.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



quarta-feira, 22 de julho de 2020

VERSO DA CHUVA

Abro este estro
e finda a estrofe
explanando sua coda
de vulcão,

brota da flor potente
meu diapasão,
é o ritmo e sua melodia
que faz timbre com
os ossos e os dedos,

brota da floresta o poema,
um dedilhado enquanto
cai a chuva,

um poema torrencial
de água, água pura
de uma chuva que
faz verso.

22/07/2020 Gustavo Bastos

LITERATURA DO DESATINO

Haverá o dia da verdadeira literatura, com os vincos da enorme paisagem que se abre, os cantos de malditos nas tabernas, eu vi desde Anacreonte e Safo aos libelos de Whitman, ao dias que lendo as suratas um ardor se ouvia do Anjo, ele assinava seu nome de anjo sobre a pedra de Roseta, traduzi meus versos infames para o aramaico para ver este Deus castanho de rio, este Deus verde de mar, este universo que pinta meu labor com as cores da Biblioteca que ergui com meus braços de aço.
Obra esta que tem um certo vínculo irrefreável que dialoga diretamente com Ginsberg e se publica com os laços de Ferlinghetti, sim, pois na verdade austera de T.S.Eliot, tocava no rádio Nirvana e dizia “I don`t have a gun” ou “teenage angst has paid off well” etc. Clicava no ícone das startups, tomava xarope syrup roxo e ficava doidão, já gostei de certos ares de maconha, hoje curto mais ficar na Heineken vendo anos 60, hora que vejo anos 60, ah, flower power e o hábito de chamar as outras pessoas de bicho ao invés de cara, ou, sei lá, chamar de psiu.
Lembrei, depois de beber um Pera Manca, que gosto de tocar violão apenas rock, ou ainda lembro que toco as escalas com afinco, mas volto e brinco de power chord, ah, bem divertido é saber tocar acordes, C/G/B, volto e faço deste poema um canto solar, vou à praia e bato tambores com todo o sol que tem pela frente. O sol, este Deus verdadeiro de Amón, Akhenaton quis nomeá-lo Aton, e vi que Rá era soberano num Templo de Karnak ou na selva dura em que as cataratas levavam a Anúbis perto dos etíopes e talvez no reino perdido da Líbia, caí em crateras, fiz mapa da lua e suas fases, elenquei os signos e abri as lâminas do Tarot de Marselha, vi o enforcado, o louco e a fortuna, ah, ri muito, sofria de gota e de esquizofrenia, li minha carta maior, o arcano me dizia o seguinte : não sei bicho, vai na tua.
Certo, certo, reli Michel Foucalt, vi a diferença entre o frenesi e a mania, e como a melancolia entrava numa amálgama geral em que tudo era classificado a esmo dentro das estultícias, ou melhor, asneira, opa, insensatez? Não, era a classe da nau dos insensatos que virou desatino, tudo era desatino e nada era desatino, até que virasse cultura médica e não hospital geral de higiene social, sim, eu passei pela cultura médica e pela cultura mediúnica, me senti mago e doente mental, claro, depois virei sábio da montanha e comediante que faz ponte com o outro mundo, este mundo imaginário dos personagens brutais que se fingem de loucos e acabam enlouquecendo.
Como este poema se abre como rosa, delicada rosa, certa bruma me possui, eu vejo entre o que já foi escrito, mais uma frente de ideias para realizar, jogo buraco, jogo pôquer, não sei muito, royal straight flush? Ah, mesmerizo mesmo no rock, tem agora um tal de streaming, discos que viram streaming, lançamentos de álbuns que viram streaming, tudo virando playlist, eu também faço, vou atrás e os poemas podem entrar na playlist, listo alguns poetas, pode ser Neal Cassady, Bob Dylan, Renato Russo, Cazuza, pode ser Ana C., pode ser eu mesmo, e faço coda com som de guitarra, Hey Joe, where you goin' with that gun in your hand? Ou : Evil man make me kill ya/Evil man make you kill me. E finalizo, meu poema vive, e vive bem.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Poema em Prosa – 22/07/2020


DESERTOS MÁGICOS

Peça ao arcanjo Miguel
sua lança contra
a sombra, o caduceu
sorri entre os verões
dos mares,

sei, de Netuno a face náutica,
eu vejo que do Saara
ao Deserto da Líbia,
ando na caravana
com os beduínos,
vejo o oásis
e penso no éden,

sim, por sua vez,
com o delta do Nilo
entrevejo a Biblioteca
de Alexandria e o reino
de Saís no final
quando Cartago
foi salgada e morta,

vi Moloque descer
às ruas, como um touro
bravo e cego que
bebia sangue
na hora que vi
este poema
virar uma bomba.

22/07/2020 Gustavo Bastos

PORVIR

Eu já sabia que teria
de minhas artes
um tempo hábil
de vida,

coroar o estro este é meu
emblema

veja :
anotar cada gesto entre
os hinos da fumaça,
pensar neste tear
furioso que encanta
a imaginação,

sim, tem um tempo de colheita
aos que plantaram, da raiz
à seiva e a copa densa,
seus frutos e suas flores,
e uma floresta vasta
e imensa pela frente.

22/07/2020 Gustavo Bastos