PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A PESTE – PARTE I

“a Gripe Espanhola chegou a causar a morte de 20 a 50 milhões de pessoas”

A Peste de Atenas ocorreu pela primeira vez em 430 a.C., ficou também conhecida como a Praga de Atenas ou a Peste do Egito, foi uma epidemia e seu primeiro registro foi dado por Tucídides em seu livro “História da Guerra do Peloponeso”, no qual ele descreve a doença que atingiu a polis Atenas, primeiro entre 430 a 429 a.C. e depois em 427 a.C., no cerco das tropas espartanas. Com origem na Etiópia, alcançou o porto de Pireu em 430 a.C., se espalhando rapidamente pela população de Atenas.
Por muito tempo se especulou sobre o que se tratava a peste, Tucídides descreveu muitos dos sintomas da doença, e muitos patólogos tinham dúvidas entre ser peste bubônica, tifo, varíola ou gripe, até que em janeiro de 2006, pesquisadores da Universidade de Atenas analisaram dentes recuperados de uma sepultura coletiva debaixo da cidade e foi confirmada presença de bactérias da febre tifoide.
A peste de Atenas ficou bem conhecida através da descrição de Tucídides, e neste também ficamos sabendo da crise política pela qual passava Atenas, que enfrentava o assédio dos lacedemônios durante a epidemia, esta que está relacionada com a segunda investida peloponésia, e que provoca a acusação sobre Péricles, governante de Atenas, pela guerra e pela doença, e a peste contribui diretamente para as derrotas de Atenas nesta época.
A Organização Mundial de Saúde define uma pandemia como uma determinada doença que rapidamente se espalhou por diversas partes de diversas regiões (continental ou mundial) através de uma contaminação sustentada. Deste modo, a gravidade da doença não é determinante e sim o seu poder de contágio e sua proliferação geográfica. E o conceito de pandemia difere da endemia e da epidemia. A endemia se caracteriza por ser uma doença que se encontra em uma determinada zona de maneira permanente durante anos e anos, e a epidemia é uma doença em que existe o aumento de casos até um máximo de infecções e depois uma diminuição dos mesmos.
Depois do caso da epidemia que ficou conhecida como a Peste de Atenas, temos a pandemia que ficou conhecida como a Peste de Justiniano, que ocorreu por volta de 541 a.C., se iniciando no Egito e chegando na capital do Império Bizantino, uma pandemia provocada por peste bubônica, transmitida por pulgas de ratos contaminados, matando entre 500 mil e 1 milhão de pessoas somente na Constantinopla, se espalhando pela Síria, pela Turquia, Pérsia (atual Irã) e parte da Europa. Estima-se que esta pandemia durou mais de 200 anos.
Outra grande pandemia foi a Peste Negra, uma das mais conhecidas e documentadas da História, e que aterrorizou o mundo medieval, com características apocalípticas, pois se deu num contexto de extrema superstição. Em 1343, a peste bubônica assolou os continentes asiático e europeu, tendo o seu auge no ano de 1353, reaparecendo de forma intermitente no século XIX, e que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas, um terço ou mais da população europeia medieval.
A Peste Negra teve a sua origem provável na Ásia Central ou na Ásia Oriental, viajou pela Rota da Seda e chegou na Crimeia em 1343, e da Crimeia foi provavelmente transportada por pulgas que viviam nos ratos que vinham nos navios mercantes genoveses, de onde se espalhou pelo Mediterrâneo, pela península italiana e daí para o resto da Europa.
Em 1580, houve a primeira pandemia de gripe, que se espalhou pela Ásia, Europa, África e América, e séculos depois, a chamada Gripe Russa, já em 1889, e foi a primeira a ser documentada em detalhes, e que é descrita por sua proliferação inicial de duas semanas pelo Império Russo e que chega até o Rio de Janeiro, e foi estipulado que, ao todo, morreram 1 milhão de pessoas por conta de um subtipo da Influenza A.
Em 1918, por sua vez, a Gripe Espanhola chegou a causar a morte de 20 a 50 milhões de pessoas, afetando desde idosos e pacientes com sistema imunológico debilitado até jovens e adultos, e que se originou, provavelmente, nos Estados Unidos, e que no Brasil quase dizimou as populações indígenas e levou a óbito cerca de 35 mil brasileiros. Houve outras variáveis durante o século XX, que ocasionou surtos pandêmicos nos anos de 1957 e 1968. Já em 2009, uma variação da Gripe Suína – anteriormente evitada na década de 70 – assolou a América do Norte, Europa, África e Ásia Oriental.
A gripe espanhola foi, então, uma vertente pandêmica do vírus influenza, e que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou 500 milhões de pessoas, e como dito, com cerca de 20 a 50 milhões de mortos, numa das epidemias mais mortais da História. Houve uma censura durante a Primeira Guerra Mundial, em que os primeiros relatos foram amenizados, em que a gripe já se espalhava na Alemanha, Reino Unido, França e Estados Unidos, e a divulgação na Espanha, que não estava na guerra, por outro lado, era livre, criando a impressão de que a gripe se centralizava na Espanha, daí a alcunha “espanhola” para esta doença que se espalhava pela Europa.
Os métodos de prevenção diante de pandemias tiveram uma evolução, isto é, foi durante a Peste Negra que a cidade de Veneza adotou o conceito de quarentena, copiando o isolamento bíblico do Velho Testamento, nos surtos de hanseníase na Antiguidade. O que ocorre com a prevenção da Covid-19 tem meios semelhantes de prevenção, isolamento social e cuidados com a higiene. O tema específico sobre a Covid-19 será exposto na segunda parte desta série.

(continua)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



segunda-feira, 4 de maio de 2020

MATILDE CAMPILHO E O MUNDO DA VIDA

“Jóquei é este tipo de tradução do mundo vivido em poesia”

Matilde Campilho é uma poeta que tem na vivência a sua fonte maior de poesia, ao contrário dos poetas pretensamente eruditos, que fazem de seu ofício mais uma exibição de seu conhecimento do que o registro fiel do que se é, o poeta sendo, como a fonte primordial para a poesia, aqui em Matilde temos aos montes. E esta vivência vem de seu hábito saudável de flâneur, com um olhar contemporâneo que funciona como uma antena de seu tempo e da poesia de seu tempo, Matilde vive intensamente o que escreve, e sua passagem pelo Rio de Janeiro prova isto, Matilde vive o que escreve.
A riqueza de suas imagens tem, além de um ar cool sem afetação, um conjunto de registros que passam pela coloquialidade entre temas dos mais diversos, uma miríade de curiosidades se forma nesta escrita criativa no verso, e caudalosa no poema em prosa. Jóquei, seu livro de 2014, tem este espírito fresco, que dá a sensação de poema ao ar livre, longe das afetações de gabinete e de toda a sua gabolice. “Jóquei” é o nome que se dá ao profissional que monta o cavalo de corrida.
Em Jóquei temos imagens em sua diversidade temática, desde publicitários com cotovelos gastos, vendedores de picolé, dólares amassados no bolso na forma da Beretta 92fs, o porteiro da loja de discos e até desemboca num poema em prosa que toma de tema o ácido desoxirribonucleico. Matilde nos indica, com seus poemas, uma leitura fluida entre temas do cotidiano e temas também de conhecimento, como o DNA, mas com uma cadência suave e interessante, a sua condução em seus poemas nos leva a um mundo aberto, como se víssemos tudo de uma janela aberta para o mundo, e lhe dando um forte abraço, ler Jóquei me dá a sensação de uma boa caminhada ao ar livre.
Tem muita poesia no mundo, e não somente nas mitologias, a sua origem, e Matilde nos dá a prova fiel de que ela está aí, e é possível decodificá-la, e Jóquei é este tipo de tradução do mundo vivido em poesia, com uma força original, um registro que renova o mundo, refazendo o que está dado, acabado, num acabamento novo, a poesia que fala e vive o mundo. E o espaço da fé, neste livro, não lhe dá forma de doutrina ou de um livro baseado em crenças, mas no sagrado envolvido no mundo da vida, na profana vida cotidiana, em seus objetos e demandas várias, o mundo da vida é soberano na poesia de Matilde Campilho.
A proximidade com o leitor, seu chamamento, acolhe este leitor, o coloca em plano familiar, numa intimidade, e esta linguagem do mundo da vida, coloca este chamamento e a ideia de proximidade e familiaridade como o modo de operar da poesia de Matilde, a sua dicção cool se junta a temas que nos aproximam cada vez mais de sua vivência, e tal viver nos é familiar, não há estranhamento desnecessário, não há uma complexidade gratuita, o simples aqui se dá como a verdade da vida, a sua vivência num primeiro take, os poemas aqui nos aparecem como instantâneos, registros que capturam uma impressão forte e sensorial, portanto, cheia de vida.
A parte filosófica da poesia de Matilde, por sua vez, vem neste influxo que não se liga à lógica ou ao campo propositivo, de argumentação para fazer inflexão conceitual, bem longe disso, mas colocando a própria filosofia neste jogo da poesia como algo possível para todos, no poema Veleiro, por exemplo, podemos ver isto, aonde se pode ler : “A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo”. Em Jóquei se pode dizer que a filosofia aparece nas ruas, no ato do flâneur, este ser que vem povoar a poesia desde a fundação baudelairiana. Temos esta certa filosofia em “Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê” (“Descrição da cidade de Lisboa”), e também na frase : “subitamente tudo arde e então a única possibilidade é o desvio” (“A volta no cadillac de Billy J.”).
O pensamento cósmico, por sua vez, ganha um tratamento iconoclasta na poesia de Matilde, numa irreverência que lhe confere leveza. O conteúdo metafísico, portanto, tem um ar leve, que lhe tira de sua sisudez filosófica, de sua obscuridade originária, e entra no jogo poético para um divertimento que, novamente, coloca a proximidade como um dos meios em que opera a poesia de Matilde, um convite e chamamento para um encontro de vida e que coloca a palavra no serviço desta vida vivida, a parte filosófica, cósmica, metafísica, ou qualquer operação linguística que poderia se tornar complexa, ganha no jogo poético estabelecido por Matilde, cores leves de um mundo da vida que está próximo de todos nós.
As experiências de dor e de amor, por sua vez, trabalham na poesia de Matilde, como dois polos na tensão do encontro amoroso, experiências necessárias para seu fortalecimento. Nos vídeo-poemas de Matilde, o chamamento é para seus amigos de Portugal, era um envio como a possibilidade de um encontro. Uma poesia do encontro, que chama “vem dançar comigo, vem” (“Fevereiro”), como Drummond nos convoca com os versos “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Esta proximidade que se levanta o tempo todo na poesia de Matilde Campilho, que coloca no plano do mundo da vida o cosmos, a experiência do sagrado, a filosofia, trazendo para perto da vivência qualquer tema é o que coloca o sentido do livro Jóquei como um livro sobre a vida, além de ser um livro de poesia.

POEMAS :

ASCENDENTE ESCORPIÃO : O poema começa com o cenário do nascimento de Billy Ray, e aqui temos tal evento em um contexto poético próprio, que vem : “Na noite em que Billy Ray nasceu/(rua 28, cruzamento cm a 7, Nova Iorque)/não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios/Havia, isso sim, o som do mundo que caía/como estalactites múltiplas/sobre as cercanias do hospital”. O contexto urbano, o que cercava este evento, a poeta aqui nos diz, no que segue : “Havia o caminhão varrendo todos os pedaços de lixo da rua/Havia o ruído das fichas de pôquer sendo lançadas/sobre a mesa verde-gasto, entre dedos e fumaça/Alguém gritando, na explosão da minúscula morte/Alguém cantando a canção sul-americana”. Esta noite especial, de tão especial, faz com que Matilde enumere tudo que está em volta disto, e temos : “Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média/Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela/do apartamento de paredes queimadas/Na noite do nascimento de Billy Ray/ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso/da placenta de onde era arrancado/e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe/e depois o som do primeiro toque em sua cabeça/e depois o som de seu próprio grito/o grito que inaugura a festa”. Esta descrição do parto em forma poética é de uma inteligência ímpar, a poesia num espaço inóspito e hospitalar, num evento extremo da vida, no que segue : “centenas de homens vergados/fazendo vênia à metafísica suficiente/que existe nos corredores do mundo/e se extrapola até o infinito luar.”. A coda evocando a metafísica, por fim, se esvai no infinito luar.

O APARECIMENTO DAS CAVEIRAS NO LENÇOL DA VIA LÁCTEA : O poema coloca a poeta em sua decadência, seu envelhecimento, e aponta para o evento bíblico de Jonas e a baleia, no que temos : “Minha cara está envelhecendo/antes de mim/Reconheço meus deuses/e se supõe que Jonas/também tenha reconhecido a baleia/antes da grande meditação/antes do grande silêncio”. A poeta é uma aventureira, e dá seu mergulho, a descrição do cenário natural é rico, e nos dá então seu seguimento : “Pratico mergulho-prego/desde a rocha mais alta/como é próprio da estação/E antes do salto/sempre peço a Deus/que a guerra não me seja/de todo indiferente/Porque foi assim/que me ensinou a santa/Foi assim que me segredou/a estrada de fogo/da oitava região/Há uma seleção de catástrofes/se apresentando firmes”. E do segredo aprendido, o mais importante, é conhecer bem as catástrofes, e a poeta segue : “Minha cara está marcada/por revoluções e iodo/por estilhaços de cobre/e pelo silêncio profundo” (...) “Carrego nas costas/a espada de plástico/que corta o friso nublado/entre signo e ascendente/Sim eu me aproximo/cada vez mais de meu ascendente/enquanto faço pazes com meu sol/Reconheço meus heróis/mas pelo sim pelo não/ainda guardo em meu bolso/a nota de cinco dólares/que me ofereceu o nômade/que cantava no deserto.”. A poeta está em metamorfose, a sua transição para seu ascendente astrológico marca esta transformação, sua nova imagem, ela está envelhecendo, sua cara está marcada.

VELEIRO : O poema se abre num circuito filosófico, no que vem : “Bem : as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos – quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo.”. A filosofia aparece aqui como instrumento de salvação e não mais do pensamento, e então vem a liberdade, dar ao toque do poema, seu jogo com a palavra, no que temos : “A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor.”. Aqui o encontro do tom, como numa banda de música, para que o conjunto dos instrumentos funcione, tem também no exemplo das baleias e a frequência de seu canto, a importância da harmonia na vida para que ela aja em uníssono, no que temos : “Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleias costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária a 52 hertz”. A história da baleia solitária é comovente, incompreendida, ela canta fora do tom, no que temos : “Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin,”. E o poema evoca o brilho natural da terra, como vê-lo, e inverte a profecia de Eliot, curando a sua Madame Sosostris, e para além da paixão e do desejo, o amor salva do afogamento a alma humana, no que temos : “me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a profecia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo : ninguém mais se afogará.”.

PELE DE COURO : A descrição raiz deste poema evoca o mundo primitivo na ilha de Saint Naumpke, no que temos : “Foi no tempo em que/(como apontou Herbert)/adormecíamos/com uma mão debaixo da cabeça/e com a outra/num aterro de planetas/Morávamos na ilha/De Saint Naumpke/no palácio de estacas e cal/construído por nós mesmos”. O cotidiano da vida aqui é descrito, e seus dons revelados, no que temos : “O pão era feito de alecrim/Os pescadores vinham/ensinar-nos os dons/E isso era tudo/o que precisávamos”. A experiência direta com a terra também é evocada : “Por vezes eu pintava/minha cara de amarelo/só para perceber/a consciência telúrica/que trazem consigo alguns/jaguares e cobras corais”. O poema encerra com o enigma deste tempo inóspito, o poema aqui quase arqueológico, se conclui na descoberta de que são feitas as omoplatas dos amantes : “Existiam heróis daquela pátria/mas eu nunca soube quais/Havia um beato sem rosto/a quem tinham feito um altar/junto à primeira rocha de Naumpke/Sua estátua era de aço/e a todas as manhãs/alguém deixava a seus pés/uma esteira de rosmaninho./Aquele foi o nosso tempo,/o tempo da descoberta dos aterros/e das cavernas de que são feitas/as omoplatas dos amantes.”.

TIGER BALM : O poema fala do amor e de como se dá a sua importância, e segue se expandindo para várias frentes, no que temos : “O brasileiro acha que o amor é importante porra, eu cá não acho nada, só fui arranhando poemas, alinhando conchas, tirei o relógio nos últimos anos para escrever, para ler os textos norte-americanos, guaranis e siríacos. Disse que era índio mas nunca me despi na rua. Entendi que não existe um poeta maior e espero ter entendido que um esquiador, um pescador, um astrólogo e um boxeur são quase sempre a mesma coisa.”. As atividades aqui não são idealizadas, todos valem a mesma coisa, e segue o poema : “Soube de histórias de ladrões que foram os primeiros a entrar no céu logo depois de Cristo, e também soube de um anjo que não estava acostumado a fazer de cicerone a esse tipo de gente. Descobri que o cirílico não é tão difícil assim se se prestar atenção à forma como são escritos os nomes.”. As descobertas da poeta aqui são inúmeras, no que segue : “Aquela frase sobre o amor está escrita em cartazes espalhados por todas as cidades onde já estive. Tinha também uma frase sobre tigres, mas essa ficou num só cartaz, numa cidade só. Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros : a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles.”. A poeta enumera e explica as suas descobertas, seu estudo se adensa e se aprofunda, no que vem : “Em determinado momento achei que K. era o homem mais bonito do mundo. Quando não pude mais com o silêncio escutei as canções. Soube da morte no mesmo dia em que soube que o amor sim é importante, mas não é imutável. Acho que chorei. Telefonei a meu primeiro rapaz e lhe contei tudo isso. Lembro-me que ficou muito tempo calado e depois escutou-se pelo país o ruído de uma garganta seca. Entre nós será a guerra, foi o que ele disse, mas isso foi muito tempo antes. Aconteceu também que eu pedi esse tal em casamento : uma vez, outra vez e depois outra vez. Ele negou três vezes mas nem por isso deixei de achar que ele era o poeta mais bonito do mundo.”. A poeta enumera também suas aventuras amorosas, num misto de seriedade e anedotário, uma curiosidade para leitores, e bem interessante, e segue o poema : “Apaixonei-me por bandeiras no verão de dois mil e dez, quando os meninos dançavam um transe muito psicodélico feito do som dos ramos das araucárias varando no ar.”. A paixão pelas bandeiras, e o transe psicodélico, tudo num mesmo espaço, como se fossem a mesma coisa, e o poema segue : “Aprendi a contar pelas manchas múltiplas de uma papaia e acentuei a palavra açaí muitas vezes. Vi dois leões roçando os focinhos um no outro e vi dois leões rugindo contra Deus quando repararam que seus focinhos eram exatamente o mesmo focinho. Decidi que astronauta era a palavra mais incrível de todas, mais ainda do que açaí, e então resolvi que todos os poemas a partir dali seriam escritos no centro de um círculo desenhado num capacete. Já não sei o que acha o brasileiro porque hoje eu acho que brasileiro ou argelino são precisamente a mesma coisa : tudo o que respira, brota. Acho que a ternura é importante.”. O poema, ao fim, celebra a vida, tudo o que respira, brota.

POEMAS :

ASCENDENTE ESCORPIÃO

Na noite em que Billy Ray nasceu
(rua 28, cruzamento cm a 7, Nova Iorque)
não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios
Havia, isso sim, o som do mundo que caía
como estalactites múltiplas
sobre as cercanias do hospital
Automóveis, alguns a 90 km/hora, outros a 30 km/hora
Bombeiros correndo para salvar o cachorro
preso na escotilha do bote atracado no Hudson
O imigrante rendendo o caixa da loja de conveniência
para roubar alguns dólares e chicletes
Aquele casal na esquina à direita, os dois chorando,
terminando com razão o arrastado namoro de cinco anos
Rosa Burns entrando em casa sem pressa nenhuma,
lançando investidas à fechadura com a chave muito mais velha
que seu rosto – tremendo, tremendo, quase desistindo
desse negócio de viver e atirar no alvo
Havia o caminhão varrendo todos os pedaços de lixo da rua
Havia o ruído das fichas de pôquer sendo lançadas
sobre a mesa verde-gasto, entre dedos e fumaça
Alguém gritando, na explosão da minúscula morte
Alguém cantando a canção sul-americana
Alguém afagando o pescoço do pombo sem dono
Alguém jogando a bola de tênis contra a parede do quarto,
repetidamente, repetidamente, repetidamente
Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média
Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela
do apartamento de paredes queimadas
Na noite do nascimento de Billy Ray
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa
O mundo se reunia inteiro
entre a rua 28 e a rua 7
em Nova Iorque
para rezar a oração dos pequenos gestos
o aleluia da existência ocidental :
centenas de homens vergados
fazendo vênia à metafísica suficiente
que existe nos corredores do mundo
e se extrapola até o infinito luar.

O APARECIMENTO DAS CAVEIRAS NO LENÇOL DA VIA LÁCTEA

Minha cara está envelhecendo
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquanto faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.

VELEIRO

Bem : as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos – quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller`s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleias costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária a 52 hertz – sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza na sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a profecia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo : ninguém mais se afogará.

PELE DE COURO

Foi no tempo em que
(como apontou Herbert)
adormecíamos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas
Morávamos na ilha
De Saint Naumpke
no palácio de estacas e cal
construído por nós mesmos
durante os trinta dias de agosto
Lá os anos nunca eram bissextos
O pão era feito de alecrim
Os pescadores vinham
ensinar-nos os dons
E isso era tudo
o que precisávamos
e precisaríamos mais tarde
para entender a língua de fogo
que se falava nas pracinhas
Por vezes eu pintava
minha cara de amarelo
só para perceber
a consciência telúrica
que trazem consigo alguns
jaguares e cobras corais
Nesse tempo
alguém preferia o relento
à escuridão das casas
e portanto saía para o parque
armado com binóculos
de lentes-diamante
só para se deparar
constantemente
com a fórmula exata
do tempo de crescimento
das folhas de laranja-lima
“O couro de Golias
foi deixado aqui,
há cinco séculos
atrás” era o que ele dizia
no regresso ao palácio
à hora da refeição
Vinha sujo e coberto de areia
Trazendo flores velhas
em seu balde metálico
Existiam heróis daquela pátria
mas eu nunca soube quais
Havia um beato sem rosto
a quem tinham feito um altar
junto à primeira rocha de Naumpke
Sua estátua era de aço
e a todas as manhãs
alguém deixava a seus pés
uma esteira de rosmaninho.

Aquele foi o nosso tempo,
o tempo da descoberta dos aterros
e das cavernas de que são feitas
as omoplatas dos amantes.

TIGER BALM

O brasileiro acha que o amor é importante porra, eu cá não acho nada, só fui arranhando poemas, alinhando conchas, tirei o relógio nos últimos anos para escrever, para ler os textos norte-americanos, guaranis e siríacos. Disse que era índio mas nunca me despi na rua. Entendi que não existe um poeta maior e espero ter entendido que um esquiador, um pescador, um astrólogo e um boxeur são quase sempre a mesma coisa. Escutei muitos ícaros e entendi alguns quando me esqueci de tentar entender. Reparei no rosto daquele moço pintado de azul e vi como o pirata lhe apontava uma arma ao alvo. Acho que toda a gente sabe que o alvo é o lugar entre uma sobrancelha e outra, o olho. Frequentei gabinetes de dermatologia mas não percebi nada antes de ter lido o poeta chinês. Soube de histórias de ladrões que foram os primeiros a entrar no céu logo depois de Cristo, e também soube de um anjo que não estava acostumado a fazer de cicerone a esse tipo de gente. Descobri que o cirílico não é tão difícil assim se se prestar atenção à forma como são escritos os nomes. Aprendi que desenhar montanhas e a palavra espera são lugares muito semelhantes e que ambos podem ser comparados à dormida de um gavião no olho de Deus. Conheci um jogador de críquete que largou o esporte para dedicar-se à prosa porque acreditava na sorte. Reparei que o seu traje se manteve inalterado nas duas profissões : camisa branca e luvas brancas funcionam como músculo em qualquer eremita. Estudei muito sobre a prática do assobio, ainda não concluí nada e acho que é por isso que sei assobiar de três formas diferentes. Aquela frase sobre o amor está escrita em cartazes espalhados por todas as cidades onde já estive. Tinha também uma frase sobre tigres, mas essa ficou num só cartaz, numa cidade só. Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros : a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites sobre qual seria a medida de uma asa. Em determinado momento achei que K. era o homem mais bonito do mundo. Quando não pude mais com o silêncio escutei as canções. Soube da morte no mesmo dia em que soube que o amor sim é importante, mas não é imutável. Acho que chorei. Telefonei a meu primeiro rapaz e lhe contei tudo isso. Lembro-me que ficou muito tempo calado e depois escutou-se pelo país o ruído de uma garganta seca. Entre nós será a guerra, foi o que ele disse, mas isso foi muito tempo antes. Aconteceu também que eu pedi esse tal em casamento : uma vez, outra vez e depois outra vez. Ele negou três vezes mas nem por isso deixei de achar que ele era o poeta mais bonito do mundo. Descobri que o eixo de uma aldeia pode muito bem ser o eixo de um corpo de mulher. Soube que se faziam procissões perto do mar mas que estas nunca chegavam ao mar. Fotografei a mulher mais linda da procissão e apontei o foco à linha que divide as suas omoplatas – foi aí que aprendi a rezar. Apaixonei-me por bandeiras no verão de dois mil e dez, quando os meninos dançavam um transe muito psicodélico feito do som dos ramos das araucárias varando no ar. Descobri que meu pai nem sempre teve razão sobre as pessoas, mas que a terra onde meu pai me educou talvez sim. Tremi quando me disseram que o único imperador era o imperador do sorvete. Também me comovi quando entendi que o xisto nascia laminado nalgumas praias e que isso quer dizer escultura. Aprendi a contar pelas manchas múltiplas de uma papaia e acentuei a palavra açaí muitas vezes. Vi dois leões roçando os focinhos um no outro e vi dois leões rugindo contra Deus quando repararam que seus focinhos eram exatamente o mesmo focinho. Decidi que astronauta era a palavra mais incrível de todas, mais ainda do que açaí, e então resolvi que todos os poemas a partir dali seriam escritos no centro de um círculo desenhado num capacete. Já não sei o que acha o brasileiro porque hoje eu acho que brasileiro ou argelino são precisamente a mesma coisa : tudo o que respira, brota. Acho que a ternura é importante.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



quinta-feira, 30 de abril de 2020

A SAÍDA DE SÉRGIO MORO

“Bolsonarismo e lavajatismo deixaram agora de ser correlatos”

A troca de ministros no governo de Jair Bolsonaro começa a ter efeitos que colocam a imagem deste de “nova política” numa situação complexa. O começo da rachadura no edifício bolsonarista veio com a demissão do ministro da Saúde, Mandetta, em meio à uma crise na saúde pública sem precedentes, numa pandemia que coloca o vírus Sars-Cov-2, que provoca a doença Covid-19, aparecendo como um enorme problema que nos desafia a todos, justamente, no governo mais inepto da História da democracia e da República brasileira recente.
O que agrava a situação, agora, por sua vez, é a saída de Sérgio Moro, abalando o edifício em que se sustenta o governo de Bolsonaro, e uma vez mais operando mais uma dissidência, e surgindo no horizonte um possível concorrente de Jair nas eleições de 2022, uma vez que, agora, se rompe a aliança que houve no início de 2019, quando tínhamos duas nomenclaturas que são o bolsonarismo e o lavajatismo, andando lado a lado, e a ideia de nova política como o fim do conchavo.
Contudo, agora, em 2020, vemos uma ação completamente patrimonialista de Bolsonaro, no jogo político de proteção de seus filhos de possíveis acusações, desde o gabinete do ódio do Carluxo até as rachadinhas de Flávio. O jogo político que coloca, então, a pretensa nova política, que de nova não tem nada, de frente ao flerte pelo apoio do Centrão, a área mais clientelista e fisiológica da política atual do Brasil.
O que uniu lavajatismo e bolsonarismo, o combate à corrupção, acabou colocando Sérgio Moro no caminho de Jair Bolsonaro. Esta união deixou a imagem de Moro de um juiz federal da Operação Lava-Jato, como um possível político ou futuro ministro do Supremo, este era o fim a que se dava a nomeação de Moro como Ministro da Justiça, mirando o Supremo, mas, ao mesmo tempo, dando a sensação de que Moro acabava de se tornar, além de ministro, um político.
Mas, ainda sob o condão do bolsonarismo, Moro ainda era essencialmente lavajatista e representava esta ideia heroica contra a corrupção mais do que a mitologia que cobriu a imagem de Jair Bolsonaro. No andamento dos fatos políticos, contudo, dentro do cenário político da direita brasileira, tal racha entre estas duas nomenclaturas já se radicalizava, e agora os nomes próprios destas nomenclaturas, Bolsonaro e Moro, rompem e entram em colisão.
Sérgio Moro já olha para o horizonte, e já se vê num lugar de oposição à Bolsonaro, com o argumento de que não foi contra os próprios princípios, de que não se rendeu ao patrimonialismo e de que tentou proteger a Polícia Federal, um órgão de Estado, de sua aparelhagem política e que saiu do caminho que lhe colocaria ao lado do movimento de Jair Bolsonaro de beneficiar o seu clã familiar a qualquer custo, como um governo de clã que deixa de governar de fato e age com operações de manter seu poder e de não perder a unidade deste bloco monolítico formado por Bolsonaro e seus filhos.
A nomeação de Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal (que agora foi vetada por Alexandre de Moraes), a demissão de Valeixo, que era próximo de Moro, e este fito de proteção contra denúncias que podem colocar os filhos de Jair Bolsonaro na cena de casos de corrupção ou ação política de gabinete com disseminação de ódio via bots diversos, é o movimento que deixa claro que o bolsonarismo, que rompeu com o PSL e que agora se choca de frente com Moro e o lavajatismo, pode agora descolar a imagem da Operação Lava-Jato do governo Bolsonaro e o bolsonarismo se voltar cada vez mais para a sua claque fiel, pregando para convertidos.
O grande pilar Sérgio Moro é o iceberg gigante que se descola do continente do governo de Bolsonaro, e as consequências são sensíveis para colocar Bolsonaro, enfim, na mão da parte mais fisiológica do Congresso Nacional, contradizendo todo o discurso que elegeu Bolsonaro na sua grande onda mitológica, que mais lembrava a adoração do bezerro de ouro. Esta adoração já causou um certo furor, e os dissidentes viraram iconoclastas, percebendo que amaram uma quimera.
Sérgio Moro, para muitos destes, sempre foi a alternativa e para muitos a ideia principal deste ímpeto anti-corrupção, agora mais factível com este choque político e de declarações por parte de Moro e Bolsonaro, e o fim desta união colocando em lados opostos os dois luminares que se ancoraram no anti-petismo, e que agora produzem, neste entrechoque, duas frentes políticas que consolidam e cristalizam efeitos que apareceram desde as jornadas de junho de 2013, ganharam corpo e fundamentação com a Operação Lava-Jato e foram alçadas ao poder em 2019.
Bolsonarismo e lavajatismo deixaram agora de ser correlatos, e a ideia de nova política se torna uma aventura patrimonialista sem precedentes, com ações de manutenção do poder político e não com o ato mais importante de governar ou de o presidente Jair Bolsonaro se portar como um estadista. Na verdade, o papel de Bolsonaro é de um agente do caos, provocando ruído o tempo todo, perdendo todas as suas bases, colocando na agenda do Congresso a ideia de impeachment, contudo, sem grandes efeitos, pois, certamente, estes pedidos não irão para a frente,  e deixando como saída para Bolsonaro se unir com a ala clientelista da velha política.
Sérgio Moro tem nas mãos um imenso capital político e consegue ser mais popular que Jair Bolsonaro, é um concorrente forte para enfrentar Bolsonaro em 2022, que ainda está longe, e aqui, em 2020, no enfrentamento do coronavírus, depois da saída de Mandetta e de Moro, Bolsonaro endossa novamente seu Posto Ipiranga, pois este é seu último pilar para seu governo parar de pé.
De seu lado, Moro é considerado como um herói, e vai que este herói possa ser mais forte que um mito, num país que já teve seus salvadores da pátria, como Lula, um caçador de marajás, como Collor, e que elege líderes carismáticos que passam longe da postura de estadistas, políticas de Estado que são a utopia verdadeira de toda democracia.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.






quinta-feira, 23 de abril de 2020

ZIGGY STARDUST

Os habitantes do planeta Medalha estavam numa crise mundial, a política influenciava a sociedade de modo deletério, havia dois polos opostos disputando a hegemonia do planeta, em meio a isto, os cientistas desta época, que aperfeiçoavam os sistemas de propulsão por energia gravitacional de seus discos voadores, tinham em mente mais um envio de uma dessas naves para um planeta azul num sistema solar que ficava a cinco anos-luz dali, eles sabiam se chamar Terra, por já terem captado os sinais de rádio que eram enviados de lá, sem que os terráqueos soubessem, pois não havia pulso de resposta pelo lado dos cientistas do planeta Medalha.
Um jovem brilhante, que já se destacava na música, conhecia o cientista Zetan, o jovem se chamava Ziggy, ele gostava de conversar com Zetan sobre os estudos e aplicações dos novos sistemas de propulsão, e de como os deslocamentos bruscos dos discos voadores criados pela indústria Martial estavam cada vez melhores, cujo uso do vácuo fazia com que movimentos incríveis fossem feitos ao anular o campo gravitacional, e em atmosferas planetárias, por sua vez, a propulsão agia de modo a também anular a pressão atmosférica, fazendo que tais discos voadores tivessem uma desenvoltura no céu que desafiavam a velha física, e pudessem aparecer e desaparecer dentro de um vácuo produzido artificialmente ao quebrar as moléculas da atmosfera do planeta em que estivessem.
Estava prestes a começar uma nova guerra mundial no planeta Medalha, e Ziggy queria fugir do planeta, e infernizou Zetan para que o enviasse a outro planeta, o que Ziggy enfim consegue e acaba sendo contratado pela empresa Kerrang para seu envio experimental à Terra, como um golpe de marketing até seu retorno em três anos desta viagem espetacular. Lá, ele teria que montar uma banda e virar um rockstar e registrar as suas turnês, fazer um filme por lá, depois decretar o fim da banda e trazer os registros da Terra para que sejam divulgados, no seu retorno, no planeta Medalha.
Ziggy então se veste com a sua armadura de astronauta, é treinado durante um ano para se preparar para a longa viagem, que duraria cerca de oito meses, até que alcançasse a atmosfera terrestre. Os treinos físicos são intensos, apesar do corpo franzino de Ziggy, e sua habilidade na guitarra elétrica também estava sendo aperfeiçoada, num ritmo alucinante, com composições novas que seriam gravadas para um disco que seria lançado na Terra.
Zetan faz seus estudos sobre a trajetória do disco voador que seria lançado, seus conhecimentos em astrofísica lhe fazem ter segurança sobre o novo empreendimento, e que esta viagem de Ziggy também seria importante para popularizar o conhecimento científico no planeta Medalha e para que todos saibam da importância da ciência para o verdadeiro progresso da espécie medalhista e de todo o universo conhecido.
As viagens das naves de Medalha estavam se expandindo em várias frentes, inúmeras viagens foram realizadas até a Terra naquelas últimas seis décadas, e havia ainda mais trinta e cinco planetas habitados por civilizações tecnológicas que estavam sendo observadas e estudadas, com contato direto com três destas civilizações, as quais, duas estavam no mesmo patamar evolutivo de Medalha, e um planeta cujo avanço era inimaginável pelos próprios medalhistas, que enviavam alguns cientistas para este planeta para que adquirissem conhecimento, num contato direto que era mais eficiente que qualquer engenharia reversa bem-sucedida.
Ziggy também passa a estudar física, e o painel de controle da nave, pois teria que ser o piloto, e ele tinha noções de simuladores, que em um ano teriam que ser aperfeiçoadas o mais rápido possível, e ele se dá bem, pois sua curiosidade por música também se estendia com a mesma intensidade para outros campos de arte e conhecimentos gerais, e Zetan lhe dá inúmeras aulas de física, enquanto o piloto renomado Field lhe dá vários macetes que lhe fazem cortar caminhos no exigente campo da pilotagem de discos voadores.
Zetan fala principalmente da física de propulsão, com a fórmula de criação de vácuo dentro de atmosferas oxigenadas e nitrogenadas, que era a composição da maioria dos planetas atmosféricos, noções de metereologia, de campo gravitacional, de energia produzida para consumo das naves, de engenharia espacial, e por fim, noções importantes sobre velocidade e controle do corpo em condições extremas. Ziggy absorve tudo com uma rapidez e presteza impressionantes, e quando passa um ano de seu treinamento, ele ganha a licença para pilotagem de discos voadores, e também um diploma de astrofísica, e o contrato com a Kerrang é refeito para um seguro vitalício quando de seu retorno da Terra para Medalha com a divulgação de suas aventuras de músico alienígena.
A viagem é preparada, Ziggy se sente seguro, em terreno já observado o suficiente, vai para a última semana de divulgação da grande viagem, o canal de entretenimento Vulty pede entrevistas, ele é autorizado pela Kerrang apenas para uma única entrevista, um dia antes da decolagem, suas impressões de jovem piloto são enigmáticas, ele fala de muitas coisas ao mesmo tempo, Zetan sorri ao ver tudo, pois sabia que muito do que estava sendo dito tinha várias pontas que muitos não percebiam.
Chega o dia, a Kerrang prepara uma filmagem junto com a Vulty, Zetan é o chefe de tudo, a ciência era ali a autoridade máxima, os outros iam atrás. Zetan dá a palavra final antes da decolagem, Ziggy não é incomodado, precisava se concentrar, pois a hora da decolagem era a mais importante, o lançamento seria ao meio-dia, num céu azul e limpo, sem sinal de chuva, tudo certo, começa a contagem regressiva de dez segundos, é feita a decolagem, a propulsão faz seu barulho de metal zunindo, tudo muito rápido, em trinta segundos o disco voador de Ziggy rompe a atmosfera, chega na ionosfera e entra no vácuo espacial, na direção da Terra.
Ziggy vê o painel de controle e fica fascinado, no setor de bagagem, alguns objetos de sua preferência, a guitarra ele compraria na Terra, o disco voador ganha uma velocidade absurda, em três dias contados da rotação de Medalha, que era de trinta horas a cada dia, ele rompe a última fronteira do sistema solar que sustentava Medalha e mais dez outros planetas, que tinha dois gigantes gasosos, os quais ele passa rente, posa na lua de um deste planetas, tanto para refrigerar os propulsores para que não danificassem com o calor extremo, como para observar a vista surreal naquela lua de gelo em frente a um planeta gasoso que brilhava um amarelo ácido inusitado.
Depois desta estadia de apenas uma hora, mais um dia, e ele rompe a fronteira do sistema planetário em que estava Medalha, entra no universo aberto, em direção a um outro sistema com dois sóis, aonde havia órbitas irregulares de planetas desabitados. O disco voador da Martial era o mais avançado de Medalha, última geração feita com propulsores poderosíssimos, cujo poder de manipulação tanto do plasma como de sua capacidade de criar vácuo em diversas atmosferas, fazia com que aquela nave tivesse uma forma de movimento bem livre e desimpedida em qualquer condição astral ou atmosférica e meteorológica, com uma estrutura de diamante, chumbo, aço, e metais de terras raras, que faziam o disco voador de Ziggy ser indestrutível, a não ser por um cataclismo inesperado.
A passagem pelo sistema de dois sóis da nave de Ziggy é propriamente caótica, as órbitas irregulares daqueles planetas malucos exigiam decisões rápidas, com conhecimento, e de uma reflexão e reflexos mais rápidos ainda, Zetan entra em contato com Ziggy pelo computador do painel de controle e deixa Ziggy calmo, havia um cinturão de meteoros pela frente, e a nave teria que contornar por uma volta enorme, após um planeta gasoso que era a visão do inferno. Um planeta que urrava e regurgitava lava, calor, fogo, e parecia que era habitado por uma hoste de demônios. Zetan orienta Ziggy, é o suficiente para que o cinturão de meteoros não danificasse a nave de Ziggy, ele consegue romper o cinturão e deixa aquela vista infernal do planeta gasoso para trás.
Ziggy segue por várias semanas no espaço aberto, com uma visão de estrelas distantes, e tomando frente na direção de um outro sistema, este com um sol, e também com planetas gasosos, e um planeta habitado por homens que ainda não faziam História, conhecido pelos medalhistas, que enviavam alguns poucos antropólogos para a região, habitantes primitivos que ainda balbuciavam e somente gritavam coisas incompreensíveis, desenhando em cavernas e caçando coelhos (estes um pouco maiores que os da Terra e com um padrão evolutivo que os fazia ter mais pelos que os coelhos terrenos) e bichos silvestres (os quais não havia pares na Terra, a não ser pequenos esquilos com aspecto esquisito e uns protótipos de cachorros que eram um misto de bicho do mato com uma mistura genética incompreensível por medalhistas e também para quem mora na Terra).
Zetan envia mais orientações para Ziggy, ele se aproxima do sistema solar em que está a Terra, a empresa Kerrang fala para Ziggy digitar as primeiras impressões do sistema solar em que está a Terra, Zetan diz a Ziggy que aquele texto seria divulgado em um periódico científico patrocinado pela Martial que tinha consumo interno e público, também seria publicado como artigo em uma revista com a marca da Kerrang como divulgadora. Ziggy escreve assim que entra no sistema solar, já permeando Netuno e a lua Tritão. O texto digitado é bem escrito, um tanto poético e floreado, mas também com informações importantes sobre a vista e os efeitos da entrada por estas bandas no corpo e consciência de Ziggy, que se encontrava eufórico e pronto para voltar a tocar música, uma vez que na nave ele não tinha tempo para fazer isto.
O disco voador ganha uma propulsão mais forte ao passar por Saturno e Júpiter, os conhecimentos de Ziggy são auxiliados pela experiência de Zetan, que se comunica com ele por vídeo no painel de controle, o piloto Field se apresenta também em outra transmissão para dar as orientações finais, para a entrada na atmosfera terrestre, a nave pousaria no deserto do Arizona, nos Estados Unidos, e Ziggy seguiria de transporte terrestre até Los Angeles, na Califórnia, para encontrar músicos para a sua banda, que ele já tinha batizado, a The Spiders From Mars, na qual ele seria o líder, voz, guitarra e principal compositor.
Zetan encerra a última transmissão pelo painel de controle, já com o disco voador na atmosfera terrestre, e dali para frente seria com Ziggy e sua câmera de filmar, com a qual levaria os registros de volta ao planeta Medalha depois de sua estadia de três anos na Terra, com uma banda e turnê pelos Estados Unidos, e lançamento de dois álbuns sob o nome de Ziggy Stardust, e que seria a sua passagem pela Terra como um alienígena artístico, sendo que ninguém saberia que ele era de fato um alienígena de verdade, uma vez que suas características humanoides eram de evolução semelhante aos seres humanos da Terra, o parentesco genético deles com os habitantes de Medalha era grande, contudo, de origem desconhecida na História.
Ziggy faz um movimento de propulsão louco, e quando chega a 1 Km de altura da superfície terrestre, desacelera, e pousa levemente no deserto vazio, no meio da madrugada, ele então vai a um lugar de mato seco para esconder a nave, pousa novamente, e a deixaria ali até seu retorno para Medalha, faz o trabalho de refrigeração do motor da nave, que é facilitado pelo frio do deserto na madrugada do Arizona, a nave esfria, Ziggy sai da nave, faz uns alongamentos, tira seu capacete, tira seu uniforme, veste uma roupa nos padrões terrestres, faz uns exercícios aeróbicos, olha para o grande deserto do Arizona e sente um prazer imenso. Ziggy então segue até a estrada, com duas malas com seus pertences, pega um ônibus e vai em direção de Los Angeles, em sua mala havia uma carteira com dois milhões de dólares, que a equipe de Zetan havia deixado para ele não passar dificuldades na Califórnia até que sua banda desse lucro.
Ziggy chega a Los Angeles ao meio-dia e vai para um hotel três estrelas, no flat começa o seu plano de montar uma banda e ficar famoso nos Estados Unidos e na Terra, Ziggy pesquisa em um jornal de Los Angeles, e vê um guitarrista, de nome Mick Ronson, eles se conhecem na semana seguinte, Ziggy não diz que é de outro planeta, mas Ronson acha Ziggy engraçado e que parecia um alienígena, mas Ronson pensou que talvez Ziggy fosse um tipo de alienado criativo, que não sabia bem das coisas práticas, mas que valia como músico e estava curioso para ver que ideias este Ziggy estranho e com a língua enrolada para falar inglês poderia oferecer. Ziggy gosta muito de Ronson e no dia seguinte em que se conheceram e beberam vinho tinto seco, eles combinam de tocar um som na casa de Ronson, Ziggy impressiona Ronson muito bem, e ali começa a se gestar o que seria a banda The Spiders From Mars.
Ziggy apresenta as suas composições para Ronson nos dias subsequentes, ele se junta com Ziggy, um tempo depois, novamente, trazendo arranjos para estas composições, eles sabiam que aquilo não pararia ali, e teriam que encontrar um baixista e um baterista, e Ziggy diz a Ronson que já tinha uma plataforma comercial pronta para esta nova banda e que esta se chamaria The Spiders From Mars. Duas semanas depois desta junção das composições de Ziggy com os arranjos de Ronson, chegam o baixista Trevor Bolder e o baterista Mick Woodmansey, estava pronta a banda The Spiders From Mars, e Ziggy, a partir dali, encarnaria a persona artística de Ziggy Stardust.
A plataforma comercial de Ziggy tinha sido preparada pela Kerrang ainda em Medalha, e Mick Ronson, que não sabia daquilo, fica estupefato com todo o plano, e que a figura de Ziggy Stardust seria a chave para que tudo desse certo, pois Ronson já tinha percebido o faro comercial de Ziggy e sabia que estava com a pessoa certa para ter uma banda de sucesso. Trevor e o baterista Mick também trazem ideias para o que viria a ser a The Spiders From Mars, e o negócio fica pronto quando eles vão ao estúdio e pagam dez dias de ensaios, terminam de fazer doze músicas e apresentam o projeto para empresários do showbiz, um destes logo percebe a mina de ouro que era aquela ideia sobre um alienígena chamado Ziggy Stardust e faz a ponte dos músicos com a Castle Music, o contrato é assinado e eles vão gravar o álbum de estreia da banda, gravações estas que duram um mês, e em semanas o trabalho é editado, mixado, masterizado e o lançamento ganha destaque num jornal local de Los Angeles como um novo tipo de rock espacial feito por um líder alienígena de nome Ziggy Stardust.
Ziggy veste uma roupa prateada e pinta o cabelo de vermelho, o lançamento é acompanhado da música “Ziggy Stardust and The Spiders From Mars”, depois temos a música “Rock`n´Roll Suicide” e Ronson, agora eufórico, faz seu solo como uma criança que acabava de descobrir seu próprio mundo, o rock se abria para uma nova história, a The Spiders From Mars agora era a banda de Los Angeles que tomaria a frente do cenário, de lá para Hollywood e depois para toda a Califórnia. Dentro de um mês, depois de mais uns shows pela Califórnia, Ziggy vai passear uma semana por Nova York, havia ouvido muito sobre esta cidade por muitos anos em sua juventude no planeta Medalha, e ele vai para a cidade mítica, cai em Manhattan, fica enlouquecido e toma um ácido após uma noite num pub de jazz, amanhece e ele era um alienígena de verdade tomando ácido no meio de Manhattan, vai para as ruas urbanas, no meio do burburinho, e sua viagem psicodélica se mistura às faces e silhuetas que via passando nesta cidade enorme.
Ziggy volta para Los Angeles, encontra com Trevor num bar, eles cantam a noite toda e são parados por groupies que queriam tirar fotos a toda hora, Ziggy é meio desajeitado, não sabia ainda alguns códigos sociais e não entende, às vezes, o que as pessoas estão dizendo, mas tinha uns livros de História dos Estados Unidos, só que não teve muito tempo de ler, pois já tinha sido engolido pelo turbilhão que agora era a sua banda nova e esta onda de rock espacial que eles estavam capitaneando e que Ziggy Stardust agora era a sua persona, e seu perfil nefelibata agora combinava com este personagem que era, ao fim, um alienígena. Ziggy sempre pedia ajuda para Trevor, que era o que tinha mais traquejo social para lhe ajudar a entender gírias que o deixavam sem entender nada, e aos poucos Ziggy até arriscava umas galimatias entre os novos músicos que conhecia no cenário de Los Angeles e Hollywood.
Numa noite em Los Angeles, depois de beber uns conhaques e uns uísques, Ziggy acaba sendo atacado por uma groupie que tinha pintado o cabelo de vermelho em homenagem ao alienígena Ziggy Stardust, ele toma um susto, mas, em seguida tem um acesso de riso que o deixa soluçando, a groupie pede então uma cerveja alemã, Ziggy começa a ficar tonto e de tanto soluçar, vomita no salão do bar em que estava, a groupie acha aquela figura engraçada, parecia que Ziggy nunca entendia nada e vivia sempre perdido, ela diz se chamar Anne, e vai com ele para um show, ainda naquela noite, de Iggy Pop, Ziggy olha aquele show e acha o vocalista bem legal, vai ao camarim, e ali começava uma amizade intensa.
Ziggy e Anne, que naquela noite do show já trocaram beijos, conhecem Iggy, e ele acha Ziggy bem esquisito, e conclui que aquela figura dava pano para manga, convidou ele e Anne para uma volta por Los Angeles, disse que era de Detroit e que vivia em Los Angeles há um ano, eles vão para uma praça, bebem cerveja, Iggy fala de seu tempo de The Stooges, sua primeira banda antes de partir para a sua carreira solo, Ziggy ri de tudo que Iggy falava, até o que ele não entendia, pois o modo com que Iggy dizia as coisas, colocava um ar hilariante em Ziggy, Anne bebia e ouvia aquelas conversas sem nexo entre Iggy e Ziggy, a noite inteira, até o amanhecer, numa praça em que só estavam os três, Anne ouvia tudo aquilo e achava tudo muito surreal e curioso, sabia que ali havia três almas semelhantes, de algum modo, que tinham se encontrado em um único dia.
Ziggy segue para a casa de Anne ao meio-dia, depois deles, com Iggy, terem tomado um imenso café-da-manhã num estabelecimento de lanches, Ziggy fica com o contato de Iggy, os dois se convidam para seus respectivos shows, contudo, acabam combinando um mês de turnê conjunta, Anne fica radiante e disse que tinha uma máquina fotográfica, tira uma foto com Iggy e Ziggy fazendo poses bizarras no sol que já despontava. Meio-dia e meia Ziggy e Anne chegam à casa dela, Anne coloca um disco do The Stooges, o Raw Power, e diz que aquela era a tal banda que Iggy mencionou, Ziggy fica elétrico e desiste de dormir depois de ter virado a noite com Anne e seu novo amigo Iggy, Anne dorme, Ziggy fica a tarde inteira ouvindo os LPs que estavam na sala de Anne, que era uma jovem abastada, trabalhava com fotografia de moda, mas tinha herdado uma fortuna do pai aviador que morrera há dois anos.
Dentre os LPs que havia na sala de Anne, além do The Stooges que ela havia lhe apresentado, Ziggy fica fascinado com um disco de Jazz, o Kind Of Blue do Miles Davis, e fica ouvindo So What dez vezes seguidas até imitar o trompete de Miles com a boca de modo perfeito, Anne acorda e acha que tem alguém tocando trompete na sala, mas era Ziggy viajando com Miles e fazendo som de sopro com a boca, Anne ainda estava meio tonta de sono e pede uma pizza, Ziggy disse que no dia seguinte tinha um compromisso comercial envolvendo o produtor e o empresário da banda e que depois se encontraria com Anne no mesmo bar em que se conheceram para comemorar de noite, depois falariam novamente com Iggy, que nesta noite teria mais um show e sumiria para Detroit por duas semanas para visitar amigos e parentes.
Ziggy sai de noite da casa de Anne e nesta primeira noite se encontraria com a sua banda, não teria ensaio, era um encontro entre os músicos da banda para beber e jogar conversa fora, Ronson sabia de um bar especial que tocava delta blues, e sugere que todos se encontrassem lá para tomar umas cervejas caras e jogar sinuca. Ziggy iria paramentado com uma roupa metálica, a mesma que tinha usado em seu último show, seu cabelo vermelho, ao fim da tarde, ganha novo tingimento, e fica meio alaranjado, dali para frente Ziggy usaria esta gradação e um estilo de cabelo arrepiado e uns gestuais estranhos de alienígena, pois agora se sentia um verdadeiro norte-americano, e sua memória do planeta Medalha agora se misturava às cervejas e hambúrgueres que consumia sem parar neste seu novo país.
Chega a noite, Ziggy chega no tal bar que tocava delta blues, ouve um som tosco e mal gravado, pergunta ao garçom o que era aquilo, ele diz para Ziggy que era Robert Johnson, Ziggy fica curioso, o rock que conhecia de vídeos pirateados para Medalha sobre o cenário musical da Terra antes que fizesse esta longa viagem não incluiu este gênero em seus estudos, que se resumiu, em geral, a rock clássico ou psicodélico. Ziggy tenta se acostumar àquele som, pede uma cerveja, e nisso chega Trevor, depois Mick, e por último, atrasado, Ronson, que disse estar resolvendo um problema doméstico com sua namorada, pois havia um encanamento estourado em sua casa, que foi resolvido só no começo daquela noite. Ronson traz uns charutos cubanos, Cohibas contrabandeados de Havana, ou melhor, ele disse ter trazido aquilo em sua mala, numa viagem para a República Dominicana, sabia que tais Cohibas e Monsantos eram proibidos, mas que todos os presidentes norte-americanos os fumavam, era um maço cheio, ele acendeu seu Cohiba, baforou todo o bar como um cavalo de terreiro e pediu uma cerveja cara, uma das mais caras, cerveja artesanal alemã, e desatou um alemão macarrônico e deu umas risadas como se estivesse possuído, Ziggy entra na onda e começa a falar a sua língua original de seu país em Medalha, ninguém entende nada e acham que Ziggy tinha o dom de línguas.
Quando acaba aquela dança desengonçada de Ziggy e Ronson, eles se sentam com Trevor e Mick, conversam bastante, a banda andava muito unida, e a liderança e destaque de Ziggy Stardust não provocava ciumeira, pois a postura despachada de Ziggy faria qualquer um que o olhasse e não soubesse da história nem desconfiar de que ele era a figura que ficava sempre em destaque, pois parecia ser mais um tipo falhado de comediante do que um líder de uma banda importante, e seu inglês bizarro não contribuía para que Ziggy fosse olhado, num primeiro lance, como alguém que se tornou importante no cenário rock da Califórnia e, aos poucos, no rock norte-americano e mundial.
Ronson decide ir para um palco que tinha neste bar de delta blues e pede um violão que tinha lá ao garçom, e toca Son House com voz e violão, Ziggy continuava achando aquele som estranho para seus ouvidos, e depois Ronson conta toda a história dos spirituals e das fazendas de algodão e tudo que envolvia o delta blues para Ziggy, que acha a história fascinante, mas continuava achando Robert Johnson algo bizarro e terrivelmente mal gravado, nada que se parecesse com o disco bem produzido que ele tinha acabado de lançar com o The Spiders From Mars, para Ziggy, ouvir Robert Johnson ou ainda Son House não fazia o menor sentido para ele, que tinha curtido mesmo o LP do Kind Of Blue que descobrira na casa de Anne.
Depois de tocar novamente mais uma música de Son House e depois uma de Blind Lemon Jefferson, Ronson não consegue que Ziggy curtisse o delta blues, e então quebra a tradição do bar e toca ao violão “Ruby Tuesday” dos Rolling Stones, que Ziggy tinha ouvido no planeta Medalha, depois de receber versões piratas do comando central da astronáutica de seu país, que captava o sinal de internet da Terra e de outras civilizações, e o material era exclusivo para Ziggy, que o usou como material de estudo para compor para a The Spiders From Mars, tudo num plano metrificado e feito para dar certo. Ziggy fica eufórico com Stones e Ronson agora fica mais tranquilo, não queria que seu estranho amigo e companheiro de banda saísse daquela noite sem ouvir algo que gostasse.
No fim da noite, já bêbados, Ziggy, Ronson, Trevor e Mick cantam juntos o hino dos Estados Unidos, e saem logo após do bar para as ruas de Los Angeles falando alto pela madrugada até ao amanhecer, quando Trevor aperta um baseado e Ziggy fuma um pouco, mas não tinha o hábito de fumar maconha, fica meio zonzo, e Ronson, desta vez para perturbar Ziggy, começa a cantar Son House em seus ouvidos, Ziggy fica desorientado e pensa estar ouvindo um zumbido, o delta blues à capela de Ronson ganha um aspecto bizarro dentro da cabeça chapada de Ziggy, que, pela manhã, ao bater na casa de Anne, falava um inglês incompreensível, Anne sorri e vê que Ziggy estava completamente bêbado e chapado e lhe dá um banho de mangueira com a água no máximo, mexendo em seus cabelos vermelhos alaranjados e ligando o som no máximo que tocava The Stooges, desta vez seu LP do Fun House.
Ziggy só dorme um pouco, logo acorda e segue para o compromisso comercial com o produtor e o empresário da banda, eles discutem a tal famosa plataforma comercial de Ziggy, preparada em Medalha, e que eles não faziam ideia de que era um projeto de outro mundo, elogiam as ideias e dizem para Ziggy se preparar, pois seria convidado para filmar, seu personagem seria um alienígena vindo de um planeta dourado, com tecnologia avançada, uma produção cara e Ziggy seria Zoltar, o personagem principal do filme, um extraterrestre que chega na Terra para ter novas experiências. Ziggy Stardust, que já era a persona alienígena de sua banda The Spiders From Mars, agora seria mais um duplo, o alienígena Zoltar, vindo de um planeta dourado e avançado, num disco voador que pousaria nos Estados Unidos, ali ele teria mil aventuras como um alienígena meio traquinas e com armas laser e gestos robóticos. O nome do filme seria “Zoltar, o forasteiro”.
Ziggy sai da reunião radiante e teria que se preparar para a filmagem que seria após o fim da turnê do debut da The Spiders From Mars, ele volta para a casa de Anne, e a noite saem para o mesmo bar em que se conheceram, Anne leva seu LP do Fun House e coloca na vitrola do bar, os gritos rascantes de Iggy Pop invadem o local, Anne e Ziggy curtem o som e dançam meio tontos de cerveja por duas horas, lá toca Fun House, e depois uns LPs que tinham no bar, Janis Joplin e Jimi Hendrix, Ziggy conheceu estas músicas no seu material em Medalha, e era seu som preferido, dali ele sairia para compor “Starman” e lançar a música no tal filme que faria. Anne sabia que Ziggy tinha acabado de ter uma nova ideia, pois Ziggy tinha um riso frouxo, e Anne sacou que Ziggy tinha uma carta nova na manga, Jimi tocava “Spanish Castle Magic” e Ziggy virava sua cerveja alemã potente.
Iggy Pop voltaria em duas semanas, e uma semana antes Ziggy trabalha na sua composição de “Starman”, ele chama Ronson, que faz uns arranjos, a banda vai para estúdio e grava a música, que seria lançado como single e depois na trilha sonora do filme “Zoltar, o forasteiro”, Ziggy acha aquela a sua melhor composição como Ziggy Stardust, e o lançamento vem acompanhando de um vídeo que também é divulgado na data de lançamento do single, Ziggy consegue então compor esta música e depois faz “The Jean Genie”, que também é um petardo e que entraria no próximo disco do The Spiders From Mars, que seria gravado dali há oito meses, depois da turnê do disco “Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”, que duraria seis meses, e que estava no meio, e ainda passaria pelos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, e depois um pulo rápido na Austrália, e passando rapidamente pelo México e depois Canadá, retornando para dois shows finais e sold out em Los Angeles, os quais seriam gravados para lançamento de filme da turnê.
Iggy Pop volta de sua viagem para Detroit se sentindo renovado e procura Ziggy para combinar como seria a turnê conjunta da banda solo de Iggy com a The Spiders From Mars, eles entram num acordo que a cada show uma banda abriria e a outra fecharia, ou seja, haveria um revezamento de headliners, e seria um show com apenas as duas bandas, Ronson fica sabendo da ideia por Ziggy e acha aquilo genial, que a união das duas bandas numa mesma turnê de um mês faria bem para ambas as bandas. Iggy Pop fala com os músicos de sua banda solo e com o seu empresário, Ziggy também fala com o empresário da The Spiders From Mars e a turnê é uma ideia bem recebida corporativamente, a Castle Music também compra a ideia, e começaria a tal turnê conjunta após a turnê do debut da The Spiders From Mars, que estava para terminar, em três meses, com os shows sold out de Los Angeles.
A The Spiders From Mars faz então mais três meses de turnê do debut, Ziggy começa a tomar muito ácido nestes últimos três meses de shows, e quando chegam as datas para os dois shows sold out de Los Angeles, Ziggy tinha umas ideias estrambóticas sobre a decoração do show, um certo estrelismo histriônico que já não parecia o Ziggy despachado de quando iniciara a banda, até Anne, que ficou um mês sem vê-lo, estranhou aquela figura meio postiça que não parecia o Ziggy que ela tinha conhecido, ele viu Anne antes do primeiro show sold out e ofereceu um ácido para ela, que recusou e disse para Ziggy acordar de seu transe antes que fosse tarde, Ziggy não deu ouvidos e foi fazer seu show.
O primeiro show de Los Angeles é gravado com 15 câmeras, 12 posicionadas, três gruas, e mais uma câmera que ficava na mão de um profissional dentro do palco para fazer closes e filmar os músicos de perto e seus instrumentos, havia vários captadores de som, e o público era gigantesco, Ziggy estava alucinado de ácido e começa a falar uns poemas antes do início do show, parecia alguém declamando sob uma iluminação esotérica, pois a luz vermelha que lhe cobria fazia com que Ziggy parecesse de fato de outro mundo, e de fato, sua mente encharcada de ácido o fazia flutuar num mundo místico e perigoso. Ziggy começava a se afetar com o próprio sucesso.
O segundo show tem um padrão caótico, era o último da turnê do debut, e Ronson, que sempre gostou do jeito de Ziggy, começa a achar o clima estranho, fala com Anne, que lhe relata a sua péssima impressão desta história de Ziggy com ácido, que era para ela e Ronson tentarem tirar Ziggy deste caminho, Anne tinha falado com Iggy Pop, mas desiste, Iggy era mais louco ainda, e tomava muita heroína, ela então faz umas orações antes deste show, e o caos reina do início ao fim, tanto que o vídeo que foi lançado dois meses depois são registros do penúltimo show, o sold out concentrou a sua edição nesta noite, que foi maravilhosa, sendo este último show um fiasco, com Ziggy interrompendo as músicas para fazer palhaçadas ou declamar poesia de improviso, coisa que ele inventava na hora e que, em geral, terminavam num circunlóquio sem nexo algum, parecia um ator dadaísta dando galimatias que ninguém era capaz de entender.
Termina o show e Anne voa em cima de Ziggy aos berros, ele se encontrava desorientado, estava mais uma vez viajando de ácido, Anne sugere o adiamento da turnê dele com Iggy Pop e começa a perceber que Iggy poderia se configurar como uma nova ameaça à saúde de Ziggy. Dito e feito, na semana seguinte Ziggy se encontra com Iggy, e eles tomam heroína, Ziggy fica fascinado com a droga e, inadvertidamente, no dia seguinte, oferece heroína para Anne, que quase tem uma síncope, expulsa Ziggy de sua casa, Ziggy vai para o hotel, em seu flat alugado, e toma a heroína sozinho, acorda no dia seguinte arrependido, mas decide que naquela manhã tomaria um ácido e sairia flanando por Los Angeles sob a luz do sol, no meio do caminho, Ziggy tem alucinações sinistras e corre de volta para o hotel, vai para seu flat, e enfrenta três horas de uma bad trip assustadora, a partir daquele dia ele nunca mais toma ácido.
Ziggy espera uma semana para falar com Anne de novo, eles se encontram no bar em que se conheceram e Anne logo percebe que Ziggy estava normal, bem diferente de seu rito alucinado no fim da turnê do debut de sua banda, eles bebem cerveja e Anne fica feliz ao saber que Ziggy parou com ácido, ela até faz uma zombaria ao saber da bad trip de Ziggy, e este admite que estava fora de si, não lembrava de seu último show, teve uma verdadeira amnésia, e seu flerte com a heroína tinha sido bem rápido, passam duas semanas, e Anne descobre que está grávida, Ziggy, neste dia, bebe uma quantidade razoável de cerveja alemã, e vai para casa de Anne ouvir seus LPs de sua famosa sala.
Ziggy, uma semana depois, começa a fazer as filmagens de “Zoltar, o forasteiro”, estava bem sóbrio, voltou ao seu costume de beber cerveja e sua história toda com o ácido tinha se encerrado num susto, antes que o susto virasse tragédia ou algo próximo disto. Anne vai fotografar durante as filmagens, participa da equipe de filmagem, e faria um book especial com fotos dos bastidores do filme, as filmagens duram dois meses, Ziggy está concentrado, completamente mudado em relação ao que fizera na turnê louca do debut da The Spiders From Mars, Ziggy estava mais inteligente, e seu foco estava maior do que nunca, ele se sai muito bem em todos os takes, e a coisa toda se encerra bem, sem imprevistos, tudo dá certo, e o filme, depois de feitas as filmagens, seria editado e lançado em mais dois meses.
Então começam os preparativos para dois meses da turnê da The Spiders From Mars com a banda solo de Iggy Pop, eles estavam há um tempo sem se ver, e combinam as datas com seus empresários, tudo fica organizado, eles começariam em Los Angeles, depois a Bay Area, e toda a Califórnia, depois shows por todos os Estados Unidos, e um encerramento de dois shows em Londres. Iggy Pop andava muito alucinado, mas fica sabendo da história de Ziggy com o ácido e não oferece mais heroína para Ziggy, que estava bem, bebericando cerveja alemã. Iggy Pop conversa com Anne e a deixa tranquila para a turnê, Ziggy não seria influenciado por ninguém, e o próprio Iggy dá a sua palavra de que ficaria atento, mesmo sob efeito de todas as substâncias possíveis, uma vez que tinha mais resistência que um cavalo para tudo que entrasse em seu organismo.
Começam os shows em Los Angeles e depois na Bay Area, e a junção das duas bandas, e sobretudo das figuras quase míticas de Iggy Pop e Ziggy Stardust, é um sucesso, Ziggy estava mais focado, e nem lembrava o celerado que tinha se tornado em seus meses em que se entupiu de ácido. Iggy Pop estava tomando muita heroína, mas seu domínio de palco era público e notório, ele não se influenciava por nada, sua performance de palco era eletrizante, um frontman nato, e que esbanjava energia o tempo todo, até com bizarrices, como se cortar no palco. Ziggy, por sua vez, tinha uma persona elegante de seu alienígena com cabelo vermelho, roupa prateada e uma guitarra estilizada. Ziggy Stardust era a persona de Ziggy, que logo viraria também o alienígena Zoltar, no lançamento do filme em que era o protagonista. Ele comparece ao lançamento do filme, em meio desta turnê intensa com Iggy Pop, e é fotografado, especialmente por Anne. Ziggy estava com uma roupa extravagante e colorida, e colocou umas lentes na retina em que parecia realmente um ser do outro mundo.
A turnê de dois meses de Iggy Pop e da banda The Spiders From Mars se encerra muito bem em Londres, depois do último show, as bandas vão a um pub londrino e bebem litros de cerveja, Iggy Pop estava eufórico e fala para Ziggy que tudo estava dando certo, exceto seu vício em heroína, Ziggy resolve que iria ajudar, de algum jeito, Iggy a largar aquilo, antes que morresse. Iggy Pop tinha uma energia imensa, mas esta sombra da heroína, que já era um vício que se arrastava por anos, agora estava ficando cada vez maior, e Ziggy fica sabendo então, depois de voltar para Los Angeles, de um médico que tinha umas receitas de metadona e palfium, Iggy começa a tomar metadona, tem umas recaídas, toma palfium algumas vezes, toma demerol, tem um dia que fuma ópio, mas volta e meia, ainda usava heroína, ele não queria morrer de overdose, e estava cada vez mais assustado, Ziggy então lhe dá um esporro e que estava na hora de ele largar aquilo ou morrer, funciona, Iggy passa por um tratamento com metadona e fica limpo, Ziggy comemora bebendo cerveja com Anne.
A bilheteria de “Zoltar, o forasteiro” vai muito bem, e Ziggy agora se volta para seus planos de um novo álbum com a The Spiders From Mars, aonde já tinha composições prontas como “Starman” e “The Jean Genie”, e ele estava tendo novas ideias e daria o título de “Diamond Dogs” para este segundo álbum de sua banda, em meio disso, uns meses depois do fim da turnê com Iggy Pop, já pronto para entrar em estúdios com a The Spiders From Mars para gravar “Diamond Dogs”, seu filho nasce, e o nome dele é John Stardust, este segundo nome foi extravagância de Ziggy, que Anne teve que concordar, e achou interessante, um pouco depois. As gravações de “Diamond Dogs” duram três meses e o resultado fica melhor, na produção, do que o debut, que já tinha uma boa produção.
Diamond Dogs é lançado, depois do promo vídeo de “Starman” e de seu respectivo single, que já tinha sido lançado, e que foi para a trilha do filme “Zoltar, o forasteiro”, Ziggy Stardust e sua banda gravam mais um vídeo, desta vez para “The Jean Genie” e mais um vídeo para “Is There Life On Mars?”, que são bem divulgados e se saem bem como promoção do álbum Diamond Dogs, que vende ainda mais do que o bem sucedido debut. É organizada uma turnê de quatro meses, que iria por todos os Estados Unidos, depois o Japão, depois vários países da Europa, e retornaria para shows na Bay Area e dois shows sold out em Los Angeles.
A turnê vai bem, Ziggy decide fazer todos os shows sóbrio, e só bebe depois no camarim, suas cervejas alemãs, enquanto Ronson só fuma seu baseado também depois do show, e Trevor bebe junto com Ziggy, enquanto o baterista Mick, exausto, cai no sono. A banda sempre fora muito harmônica desde o início, e até na fase do ácido de Ziggy, a peteca não caiu, e Ronson, mesmo muito preocupado, não conseguiu nem brigar e nem romper com seu amigo, e ainda bem, Ziggy teve uma bad trip que foi um verdadeiro filme de terror, que o acordou do transe místico em que vivia absorto. Ziggy agora era a mesma figura despachada do início, engraçado sem querer, e com seu inglês próprio, de uma pronúncia bizarra.
A turnê se encerra bem em Los Angeles, o penúltimo show sold out é épico, com uma performance histórica de Ziggy com sua guitarra elétrica, e no último show, que durante todo o setlist correu bem, tudo muito certo e funcionando, Ziggy toca a última música e, sem avisar os outros músicos da banda, ele anuncia que aquele era o último show da The Spiders From Mars, o que leva todos ao choque, ninguém entendeu absolutamente nada, e o show terminou com esta declaração que ninguém sabia se era verdadeira, ficou uma incógnita no ar, Ronson não entendeu nada, e foi falar com Ziggy, e Ziggy disse que estava tudo acabado, que tinha outros planos, ninguém estava entendendo nada, Trevor fica puto e quebra seu baixo, Mick, o baterista, começa a chorar.
Enquanto Ziggy deixava para trás um rastro de caos após o show derradeiro da The Spiders From Mars, organizava as suas coisas rapidamente no seu flat alugado no hotel, juntou todas as gravações que tinha de sua passagem com a banda, dentre outros registros, como das cidades em que passou, e do filme que foi protagonista, preparou tudo meticulosamente, arrumou as coisas, e partiu de ônibus para o Arizona, não encontrou com Anne e nem seu filho John, pois ele sabia que se fizesse isto poderia desistir de sua viagem de volta para Medalha, portanto, evitou isso, e foi direto para o deserto do Arizona, caminhou pela madrugada fria do deserto até a pequena mata seca aonde ainda estava lá a sua nave, o disco voador que lhe levara de Medalha para a Terra, ele veste a sua roupa de astronauta, coloca o capacete, dá uma última olhada para o horizonte, fica analisando tudo friamente, teria que ter uma perícia imensa dali para frente, e não titubeia, entra no disco voador, aquece os motores de propulsão, e parte de volta para o planeta Medalha.
Ronson, no dia seguinte, procura Ziggy e não acha, depois é Anne, que, desesperada, chama a polícia para encontrar Ziggy, Trevor, que estava indignado com Ziggy, não estava nem aí, e Mick chorava novamente, achando que Ziggy tinha se suicidado. Ziggy segue em sua nave por longos oito meses em direção de seu planeta Medalha, a procura dele pela Califórnia e depois por todos os Estados Unidos dura meses, ele é dado como desaparecido, e depois de dez anos sumido do mapa, a polícia americana decide decretar seu óbito oficial, nunca saberiam do que se tratava seu desaparecimento, nem sequer poderiam imaginar. Ziggy chega ao planeta Medalha, traz toda a documentação que captara da Terra, a empresa Kerrang e a indústria espacial Martial lhe dão as condecorações, ele é recebido como herói em seu país, e ali montaria uma nova banda, que se chamaria Earth.

Link recomendado : David Bowie - Ziggy Stardust - live 1972 (rare footage / 2016 edit) : https://www.youtube.com/watch?v=3qrOvBuWJ-c

Pronto em 24/04/2020

Contos Psicodélicos – Volume I

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.