PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 14 de junho de 2018

HOLLOW


"Aéreo o plano aedo cintila, rumoreja ferve e briga”

I

Tantos casos estudados nesta cosmologia, e que são seres nus, como poucos vermes que sobrevivem ao mundo, e que tentam abarcar os númenos com galhardia de soberbos e alvissareiros, pois por pouca monta os severos e os antoninos sucumbem ao senado pueril, eu de meu turno resvalo e reservo fortuna para um cabedal brio de espuma no vento sacal dos hindus e seus vímanas, como uma corrente literária manchada de lodo e vinho, este que é sabor estulto na glória do sistema, este também estulto, capital armado e nauseabundo, contrito o esquema de Aristóteles explode com o rigor de um kantiano crítico feroz do sono metafísico, com um Hume sensitivo na campanha de um fundo vitral que arde por entre os ventos mais modernos, um plano cartesiano que ribomba pétreo com sarcasmo de poeta, e o riso enfermo que mora num castelo em Copacabana, na mais miserável canção que está de frente à rua que grita somos os outsiders, os mamulengos e vitrolinhas da paixão antiga, dos poemas rebuscados com notas de absinto, das rimas ricas como idólatras que têm sede.
Dos poetas antiquados que não vivem no mundo, não neste mundo, em mundo algum, moram em carne e osso como vapores de veneno na história mundial, moram tal os animais ou bestas repletas de carbono em seus corpos e polímeros cosmogônicos teodiceia da arte rupestre, um totem burilado com sílex na caverna de paris, setenta ladrões como gangue, viralizados costumes que são a rixa e o riot das galeras fumegantes, dos estertores do fracasso, dos lenhadores e tremores que sorriem para alguns capatazes com seus enfermos vitoriosos, guerra e paz na aura de um anjo fetichizado com bombas de esterco na fome do boi, estes senhores do mundo que vivem morrem como indigentes da fama, como desejo ruminado nas estrelas mais abscônditas, remadores dos sonhos de pano por entre frestas que olham ao nada, rasputins negros com faces de mago, monitoram os passos a cada dia, e sentam na torre de lume viscoso, eles olham o pote de ouro que revela poesia na esbórnia, são telemas e budismos ranqueados num campeonato de astúcia, num grimório de fardos e buchas de canhão.
Sete pantokrators que vivem giro de escopeta, de fumo revirado com espoleta, belicosos que querem a paz mundial, fervores de antros pacificadores, de não-violência, dos hippies de ocasião, dos fashionistas que definem o mundo de segunda mão, da realidade aumentada como manto e segredo penhorados depois do escaldo e martírio. Venha, os ogros imantam servos com náiades esbeltas como anacoretas, e bebem uísque com tambores na cabeça e flautas nos braços, senhoras músicas que de guitarra e trompete repete o fusion indefinidamente, pois cada retrato destes ossos têm a espessura de uma densidade de átomo, indivisível como uma bola de gude, temerários como templos e pagodes na sarça briosa que elenca vates e vedetas. Canção esmerada que tilinta tal o metal de rigor que funda filosofia de poetastro depois da bebedice, que define saudade como uma rima fugitiva.

II

Aéreo o plano aedo cintila, rumoreja ferve e briga, e ferve tal o campo mestre que cintila, como cobra serpentina, e um estrelado estribilho que cintila, bruma rebuscada que mesmeriza tal o sino que dobra, e o banho em festonado vinho, odre pecaminoso que bebe e ventila, evento e evidência de poema, a prova científica do terror, vertido como água benta na pacífica amurada, um grafite terroso no sonho de poeira, levedura que nos dá a boca de saída, pentecostes nos ombros de atlas com o mapa ao pé do geógrafo, bolhas de mundo estouradas por revoluções, penedos que caem como mísseis no apocalipse, espíritos imundos que brigam com pastores, brechas do sistema que assomam no estudo corrupto dos punguistas, leves sintomas de hematomas que roem a corda do enforcado, sete flechas de indigenistas que buscam o eldorado, tânatos dorido que fervilha necromancia depois do ritual poético.
Linho que costura cada gesto artaudiano com gags beckettianas. Olhos mesmerizados que ensinam a palavra morte aos neófitos que ainda sonham acordados, pleito burlado por campanhas sujas de pós-verdade, brotos de floresta que povoam um mundo perdido, paraíso silvestre que nos dá selvagens novos de literatura da mata, poetas novos que caem como cometas no frio do sistema falido das artes comerciais que deliram anátemas proscritos. Banho de lua nas noites que eu servia ao mártir, estes barcos que navegam mar azul de diamante, frio de mar turquesa caribenho, milhares de remadores que vão à galáxia dos aviadores, reis setentrionais contra centuriões que formam o exército brancaleone dos românticos suicidados.
Eis que vive um novo brio bíblico que sonhava holocaustos na hégira e no êxodo, benta a água de poder de tais sacerdotes em seus levitas pasmados com o Deus-homem. Eis que venho de sonhos tempestuosos e kafkianos e pesadelos de Godot depois do milagre indômito que delirava o paraíso de permuta entre cantores de fancaria. Ai! Ai de mim! Tenho cada visão que caio em deslumbramento como um ósculo olvidado depois do porre. Mas, no meio da canção, com dotes de artista, reverbero samples e synths mais que anacrônicos, são vinhas de monastério com ritmo de jazz na fusão dos elétrons que batem entre neutrinos invisíveis da bala perdida, eis que numa viagem astral venho contar-lhes a dor profunda da miséria dos poetas, mas ainda tenho fogo que queimar na sarça mais potente do sol.

III

O fog londrino me apetece, o beberrão morde os tímpanos com rock de estrada, fervilha um berro kerouakiano, um velho mestre que se chamava Ferlinghetti, Neal Cassady que morria na linha do trem, os Estados Unidos e toda a gama de capitalistas de Wall Street e seu touro valente que faz tentações de estelionato, os espiões da Big Apple que reviram seus bens com fome ventral de cartas na manga, pois que eu tenho por mim que prefiro Louvre e seus melismas potentes como mantras sinfônicos, já que vejo as litanias repetirem Fausto e Mefistófeles depois do urro brutal que Goethe não evitara nem na sua invenção de Werther epistolar, ah que nem mesmo a lenda medieval nos salva do capital, mas é seu cristal mais atraente, e o dinheiro gasto em tais deambulações serve ao historiador para contar uma biografia acidentada como pinguelas de rua de terra, de rios de cobre depois do caos mimético dos plantonistas que encontram a morte com dentes de fogo na noite violenta, pois que sumido está o zen na hora enferma, e nem tenho mais tibetanos que lembrem de maoístas sem lhes ferver as pestanas, e o desastre sonha em se proteger da mediocridade, pois ela mata e delira cabeças ocas como hollow men que não servem para nada.
Ah! Ai de mim! Estou no inferno de Caronte, nas uvas de Dioniso, na febre inaugural de Téspis, nos trágicos que de Ésquilo e seu Prometeu Acorrentado apenas faz loas ao abutre, e leis cósmicas são fado nestas peças antigas, o que hoje temos como puro acaso, e que nos idos putrefatos de Março estavam como novos ventos de um novo mundo cristão, que tem o reverso da moeda como Inquisição, o que também hoje tem o nome de manicômio, e que custa a verba pública para os bolsos de seus torturadores, nova platitude medieva, oh como cada burgo sonhava revolução, e como cada soviete sonhava revolução, e como cada hollow man sonhava status quo.

IV

A caça às bruxas está aberta:
Grimório do capa preta,
Eis que rumina maçons
Na sete emblema de arquiteto
Que campeia marmóreo
Como capiteis em Parthenon
Oh Crowley e seus cantos heroicos
Oh bruxos como celtas em Stonehenge
Ah fada musicada que burila soma
Na mente mística do Absoluto
Ah como cada magia tem altas paragens
O paraíso perdido e seus sapientes embriagados
O êxtase de Santa Teresa D`Ávila
No fim da aurora que rutilava salvação.

Poema em prosa

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/39074/14/hollow



segunda-feira, 11 de junho de 2018

EXUBERÂNCIA E ELEGÂNCIA NOS VERSOS DE GÓNGORA


“Quando nós falamos do cromatismo, por exemplo, este carrega as palavras como um lume”

Temos em Góngora grande parte do preciosismo imagético que reverbera a escola poética e artística barroca, pois no exagero da metáfora e com o cromatismo povoando as palavras num poema esteticamente intenso temos um dos grandes escritores aqui do esplendor mais forte no qual viveu a literatura espanhola.
O poeta Góngora, por sua vez, diante de sua época e no contexto social e político de sua nação, agora incluindo a dominância do pensamento religioso, não escapará da influência da ideologia do Concílio de Trento, e sua poesia, quando for tematizar a vida religiosa e sua ideologia, lembrará de certas citações ou ideias bíblicas por excelência, uma vez que o poeta terá na sua produção de versos uma imagética que não estará alienada do que está a sua volta, mesmo com todo o seu formalismo.
Quando nós falamos do cromatismo, por exemplo, este carrega as palavras como um lume que vai enriquecer a cepa barroca com todo este incremento estético próprio deste movimento, que nunca se furtou de exibir uma exuberância que vai ao paroxismo de um exercício de fazer versos bonitos e elegantes, e isto define bem tanto o barroquismo como o que veio dele por Góngora, isto é, o gongorismo.

POEMAS :

XLIV : Polifemo, que de sua boca era prodigioso fole, vem aqui no poema emitir seu som, no que temos : “Árbitro de montanha e praia austera,” (...) “A quantas canas agregou a cera/O prodigioso fole de sua boca;/A ninfa ouviu-os, e ser mais quisera/Breve flor,”. Mas a ninfa, já resoluta, quisera antes ser erva humilde, aqui diante do temor de Polifemo, no que vem a coda nos lembrar : “Que, do tronco recém, vide lasciva,/Morta de amor, e de temor não viva.”

XLV : Aqui temos o poema que descreve o enlaçamento da ninfa Galateia, e Ácis  aqui, o moço, que logo será partido em pedaços pelo ciclope Polifemo, pelo cortante machado dos ciúmes, no que temos : “Mas – cristalinos pâmpanos seus braços –/O amor a enlaça, se o temor a gruda,/Ao infeliz olmeiro que pedaços/A segure dos ciúmes fará aguda./As cavernas, entanto, e os mais espaços,/Que preveniu aquela avena ruda,/O trovão de sua voz fulminou logo :/Referi-o, Piérides, vos rogo!”. E o que resta mais ao poeta é rogar, eis um último verso de piedade que aqui se derrama, pois.

XLVI : A descrição aqui é amorosa, e reúne partes em que a associação é rica, no que temos : ““Ó bela Galateia, mais suave/Que os cravos todos que truncou a aurora;” (...) “Igual em pompa ao pássaro que, grave,/Seu manto azul de tantos olhos doura/Quantas a celestial safira estrelas!/Ó tu, que incluis em duas as mais belas!”. Ao fim, no que temos os olhos, duas estrelas, antes sendo homenageada como bela Galateia, no barroquismo aqui já gongórico e elaborado metaforicamente, demandando forte interpretação.

LI : O ciclope filho de Netuno, este Júpiter do mar, aqui Polifemo como filho evoca seu poder para conquistar Galateia, e ele a chama, no que temos : ““Eu sou filho do Júpiter das ondas,/Mesmo pastor; se em teu desdém já aflora/Que o rei das grutas fundas e redondas/Em trono de cristal te abrace nora,/Polifemo te chama, não te escondas;/Que esposo tal admira a praia agora/Qual outro não viu Febo, mais robusto/Do preguiçoso Volga ao Indo adusto.” Aqui o poema descreve o contexto em que se dá o chamado, já diante do Volga, e rumando para o Indo.

LVII : A gruta aqui então serve de tábua de salvação a um genovês, no que temos : ““Tábua outra a um genovês foi  minha gruta,/Para a pessoa sua e sua fazenda;” (...) “Luzente paga pela melhor fruta/Que em ervas se recline, em fios penda,/Colmilho do animal foi a que o Ganges/Viu sofrer muros e romper falanges :” Vindo de um naufrágio, o genovês agora que do marfim troca pela melhor fruta, eis o refúgio e a recompensa.

LVIII : Recompensa esta um arco gentil e uma aljava brunhida, no que temos : ““Arco, digo, gentil, brunhida aljava,/Obras ambas de artífice brioso,/E de rei de Malaca a deus de Java/Alto dom, tal me disse o hóspede aquoso.” (...) “Convicta a mãe, imita o filho airoso :/Serás a um tempo nestes horizontes/Vênus do mar, Cupido destes montes.”” E ao fim Vênus imita seu filho, do arco se fazendo como Cupido.

LIX : A voz de Polifemo é interrompida, no que temos : “Sua horrenda voz, não sua íntima dor,/Cabras aqui lhe interromperam,” (...) “A Baco ousaram atacar as plantas./Mas o pâmpano ao ver fero o pastor” (...) “Despediu ele, e tanta pedra a funda,/Que voz e pedras varam a hera funda.”. E então Polifemo ao ver pisoteado o pâmpano mais tenro, deu muitos brados, e sua funda lançou tantas pedras que rompeu o muro de heras atrás do qual estavam Ácis e Galateia.

LX : Agora os amantes assustados com a voz e as pedras de Polifemo, se separam dos abraços mais suaves, no que temos : “Dos nós, com tudo isso, mais suaves,/Os doces dois amantes desatados,/Por duros seixos, por espinhos graves/Solicitam o mar com pés alados;/Tal, redimindo de importunas aves/Incauto lavrador os seus semeados,/De lebres cópia dirimiu amiga/Que vário sexo uniu e um sulco abriga.” Os amantes procuram com pés alados o mar, e permanecem apartados entre si, também agora, um casal de lebres.

LXI : A fugitiva ninfa vê o feroz brutamontes correr para o mar, no que temos : “Vendo, o fero brutaz, com passo mudo/Correr ao mar a fugitiva neve” (...) “E o rapaz vendo, antigas faias, rudo,/Agita, quantas cioso trovão deve :/Tal, antes de que a opaca nuvem rompa,/Do raio avisa a fulminante trompa.” Ao fim, o trovão com sua fulminante trompa dá o aviso da queda.

LXII : Polifemo arranca violentamente a ponta maior da elevada rocha, no que temos : “Com violência arrancou ele infinita/A maior ponta de elevada roca,/Que ao jovem, sobre quem a precipita,/Urna é muita, pirâmide não pouca./Com lágrimas a ninfa solicita/As deidades do mar, que Ácis invoca :/Concorrem todas, e o penhasco duro/O sangue que espremeu, cristal foi puro.”. Lançada a rocha contra Ácis, enfim com lágrimas a ninfa apela às deidades do mar pelo seu amado.

LXIII : Os membros do moço estão aqui esmagados pela rocha fatal, no que temos :  “Opressos tristemente os membros moços/Da fatal rocha vinda de mãos feias,/Os pés dos grandes vegetais mais grossos/Calçou o líquido aljôfar de suas veias.” (...) “A Dóris chega, que, com pranto pio,/Saudou-o genro, conclamou-o rio.”. Então, Dóris chama o moço de genro, esta que era mãe de Galateia, e lhe aclama como deus-rio.

POEMAS :

XLIV

]Árbitro de montanha e praia austera,
Alento deu, no píncaro da roca,
A quantas canas agregou a cera
O prodigioso fole de sua boca;
A ninfa ouviu-os, e ser mais quisera
Breve flor, erva humilde, terra pouca,
Que, do tronco recém, vide lasciva,
Morta de amor, e de temor não viva.

XLV

Mas – cristalinos pâmpanos seus braços –
O amor a enlaça, se o temor a gruda,
Ao infeliz olmeiro que pedaços
A segure dos ciúmes fará aguda.
As cavernas, entanto, e os mais espaços,
Que preveniu aquela avena ruda,
O trovão de sua voz fulminou logo :
Referi-o, Piérides, vos rogo!

XLVI

“Ó bela Galateia, mais suave
Que os cravos todos que truncou a aurora;
Branca mais do que as penas daquela ave
Que doce morre e que nas águas mora;
Igual em pompa ao pássaro que, grave,
Seu manto azul de tantos olhos doura
Quantas a celestial safira estrelas!
Ó tu, que incluis em duas as mais belas!

LI

“Eu sou filho do Júpiter das ondas,
Mesmo pastor; se em teu desdém já aflora
Que o rei das grutas fundas e redondas
Em trono de cristal te abrace nora,
Polifemo te chama, não te escondas;
Que esposo tal admira a praia agora
Qual outro não viu Febo, mais robusto
Do preguiçoso Volga ao Indo adusto.

LVII

“Tábua outra a um genovês foi minha gruta,
Para a pessoa sua e sua fazenda;
Uma revigorada, a outra enxuta,
Relação do naufrágio fez-me horrenda.
Luzente paga pela melhor fruta
Que em ervas se recline, em fios penda,
Colmilho do animal foi a que o Ganges
Viu sofrer muros e romper falanges :

LVIII

“Arco, digo, gentil, brunhida aljava,
Obras ambas de artífice brioso,
E de rei de Malaca a deus de Java
Alto dom, tal me disse o hóspede aquoso.
Com este a mão, com aquela o ombro agrava;
Convicta a mãe, imita o filho airoso :
Serás a um tempo nestes horizontes
Vênus do mar, Cupido destes montes.”

LIX

Sua horrenda voz, não sua íntima dor,
Cabras aqui lhe interromperam, quantas,
Vagas o pé, sacrílegas o corno,
A Baco ousaram atacar as plantas.
Mas o pâmpano ao ver fero o pastor
Conculcado mais tenro, vozes tantas
Despediu ele, e tanta pedra a funda,
Que voz e pedras varam a hera funda.

LX

Dos nós, com tudo isso, mais suaves,
Os doces dois amantes desatados,
Por duros seixos, por espinhos graves
Solicitam o mar com pés alados;
Tal, redimindo de importunas aves
Incauto lavrador os seus semeados,
De lebres cópia dirimiu amiga
Que vário sexo uniu e um sulco abriga.

LXI

Vendo, o fero brutaz, com passo mudo
Correr ao mar a fugitiva neve
(Que, a vista igual, o líbico desnudo
Registra o campo de sua adarga breve),
E o rapaz vendo, antigas faias, rudo,
Agita, quantas cioso trovão deve :
Tal, antes de que a opaca nuvem rompa,
Do raio avisa a fulminante trompa.

LXII

Com violência arrancou ele infinita
A maior ponta de elevada roca,
Que ao jovem, sobre quem a precipita,
Urna é muita, pirâmide não pouca.
Com lágrimas a ninfa solicita
As deidades do mar, que Ácis invoca :
Concorrem todas, e o penhasco duro
O sangue que espremeu, cristal foi puro.

LXIII

Opressos tristemente os membros moços
Da fatal rocha vinda de mãos feias,
Os pés dos grandes vegetais mais grossos
Calçou o líquido aljôfar de suas veias.
Corrente prata enfim seus brancos ossos,
Lambendo flores e argentando areias,
A Dóris chega, que, com pranto pio,
Saudou-o genro, conclamou-o rio.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/39035/17/exuberancia-e-elegancia-nos-versos-de-gongora


quarta-feira, 6 de junho de 2018

SOBRE MENTIRA E POLÍTICA


“o mitomaníaco mente mal e o dissimulado mente bem”

Por que as pessoas mentem? Para quê as pessoas mentem? O que significa uma pessoa mitomaníaca? E não adianta ser hipócrita e mentir que nunca mentiu! Seria um paradoxo trágico, tal como o clássico “Epimênides, o cretense, diz que todos os cretenses são mentirosos.”
E o contrário, quando um diz só a verdade, devemos acreditar? Ora, a propaganda pode trabalhar só com a verdade e passar uma mensagem mentirosa, tal como a filosofia nazista de Goebbels da repetição de uma mentira à exaustão até que tal mentira se torne uma verdade, não é perigoso isso?
O contrário, dizer a verdade para afirmar uma mentira também tem sua eficácia e é terrível quando não sabemos realizar a distinção cartesiana de separar o verdadeiro do falso. Mais terrível ainda é quando a mentira vem sob a forma indecente da dissimulação. A dissimulação é um fingimento que tem eficácia para seus fins, ou seja, a mentira mais eficaz é aquela que vem junto com a dissimulação. Pois a dissimulação é um disfarce da hipocrisia que tem uma má intenção visando somente o benefício próprio ou um meio de evitar constrangimentos que a mentira da dissimulação oculta.
Portanto, temos dois tipos principais de mentira, a mentira do dissimulado e a mentira do mitomaníaco, a primeira com má intenção e a segunda constituindo uma patologia. Quando falo da diferença do dissimulado e do mitomaníaco, falo que o dissimulado é um psicopata e o mitomaníaco um psicótico. A diferença é que o dissimulado mente com má intenção e que o mitomaníaco mente por impulso fantasista, o dissimulado mente para obter vantagens e o mitomaníaco mente para preencher seu vazio existencial.
Ou seja, a mentira do dissimulado possui uma maldade pragmática que o mitomaníaco desconhece, o mitomaníaco mente mal e o dissimulado mente bem, o mitomaníaco é ó único que acredita na própria mentira, portanto, ele não mente deliberadamente, mas de forma inocente e inconsciente, enquanto que o dissimulado mente de forma persuasiva, já que todo psicopata é inteligente e consegue ludibriar as melhores cabeças, o dissimulado é um psicopata perigoso, ao passo que o mitomaníaco é objeto de compaixão por viver iludido, o dissimulado ilude os outros, o mitomaníaco ilude a si mesmo.
Mas, voltando à pergunta inicial: Por que as pessoas mentem? Para quê as pessoas mentem? Muitos mentem para fugir da dor, outros mentem para impressionar, nem todos são, então, dissimulados ou mitomaníacos, existem muitos que mentem que não são nem uma coisa e nem outra, essas duas categorias principais de mentirosos são apenas as mais evidentes. “O buraco é mais embaixo”.
Muitos dizem: Os políticos mentem! Ora, mas o fato é que todo mundo sem exceção já mentiu, é tipo o cara falando da sua primeira vez na cama, todo homem na sua primeira vez é um furor, já viu? Enfim, mentiras e boatos, o boato é uma mentira pública. E agora? O boato é a forma política da mentira, a mentira pública do boato pulula em épocas de eleição, é o fulano pego de calças curtas, é o desmentido do direito de resposta, e quem está com a verdade? Quem é honesto nesse jogo todo? Vamos pedir piedade dessa gente careta e covarde?
O conluio da política com a mentira e com a sua forma popular do boato impera na mídia, o vermelho diz que o azul é pilantra e vice-versa, pergunta-se: A favor de quem? Para beneficiar quem? Voltando agora novamente às duas categorias: O boato é objeto da dissimulação, a mitomania não tem eficácia persuasiva, a mentira do político é a mentira do dissimulado, a política é um meio de gente digna entre alguns ou muitos psicopatas, tenham cuidado ao votar, o sistema é foda e não perdoa!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38975/14/sobre-mentira-e-politica

quinta-feira, 31 de maio de 2018

MINHA LUTA COM O SOL-PENTAGRAMA – PARTE II


“do sangue nasce uma pomba branca anunciando que não haveria apocalipse”

O sol virá, cada instante será eterno, o sol quando
Cai em nossas mãos como sonho vermelho,
A luz de sua origem é fim de noite em aurora.
Corremos na vida com o livro aberto adiante,
Redemoinhos se formam no pesadelo de criança,
Notas do apocalipse eram tomadas naquele momento,
Um desenho é registrado com o sangue jovem,
Perde-se no tempo, depois do desastre a célebre canção,
A tempestade encontra o sol e se torna o céu com todas as vidas,
Virá o sol maior com todos os elementos da fúria,
Pintará de estrela firme de firmamento com voz de sepulcro,
Todos os lados do enigma ascendem ao espírito da manhã.

Eu sinto, com o ardor da noite, que o sol virá,
Os signos sentidos em dor pungente semearão
Nova colheita, a vida enamorada de vinha e macieira,
Toda flor do campo com montes sinuosos de harmonia,
Toca-se o corpo do sol que virá, o pentagrama
Se forma, a batalha espiritual começa,
Os lares esquecidos são destruídos pelo vento do drama,
O dharma é pronunciado com a substância primordial : o fogo.
Prometeu nos deu, o roubo de todas as eras das esferas,
Vingou-se Zeus, com trovão de grito supremo.
Voz do subterrâneo ecoou como na caverna de Platão,
Visões deste mundo ideal são realidades ocultas,
O signo do poder é uma espada dentro do coração,
Corta o silêncio com seu som de estilhaços,
A realidade partida vai de sombra a luz
Num claro-escuro renascentista,
Num volume de vestes nababescas
Como o reino do sol na paz mundial,
Surge Cristo em vida diamantada de amor,
O amor que ressuscita, a morte fere,
E o pecado esmaga!
Estou vivo, viverei eternamente!

Estou na palavra primordial, a sensação é de
Êxtase, eu vi essas coisas, eu as vi
Em minha alma, e dentro dela estava um sol,
Não sei explicar, era o sol no coração, nos olhos,
A compaixão se tornara irresistível,
Poderia ser um demônio produzindo o satori,
Ou a graça dentro dos simulacros de nossa História.
Não viverei para ver tudo que quero ver, as visões
São múltiplas, mas não são da totalidade do universo,
Nem seu sentido, nem a sua falta de sentido,
É o êxtase, é uma onda de sol com o espírito a flutuar,
Não há lógica, é só o brilho celeste de uma paixão.
Tenho o tempo em minha mão, não sofro mais as trevas
Da loucura, vejo o sol que virá,
Vermelho fogo em que luto na eternidade
Desta visão.

Enfim cheguei ao fim da estrada, logo viria a luta espiritual pela qual passara, eu vou então, desço do meu ônibus, com aqueles dois sonhos dançando em minha cabeça, olho para a vila, fico pela manhã nela, bebo água, tomo um banho de rio, e corro em direção das dunas para ver o mar, a praia é vasta, tão vasta como pode ver a visão, e a visão alucinada logo seria revelada, o livro da morte que um dia vou publicar tem destas armadilhas, um grimório dos 77 demônios que me possuíram quando era bem jovem, eu tive a salvação depois deste tormento, busquei a luz espiritual, e hoje sou um ser celeste com carne e palavra, sou o senhor da palavra, dela faço os conceitos, ideias, da palavra tenho o sentido fundante. Mas, ao chegar às dunas a casa dos meus sonhos ruiu, tudo o que tinha visto naquelas duas noites ao dormir me seria revelado naquele mundo infinito de areia e sol, a visão do horizonte me dá o sentido mais profundo de tudo que contém um espírito livre, a liberdade nos dá a chave da filosofia, a liberdade nos dá a voz da poesia, a vida interior se torna um palácio suntuoso do espírito livre, e eu teria a minha visão definitiva naquele dia, mal sabia que as visões dos meus dois sonhos eram o mais bruto e puro profetismo, tempo que se abre como borboleta que sai do casulo, esse é o sentido ontológico do profetismo, tenho decerto a sensação de fúria ao ver a morte, e a fúria de estar vivo quando a morte tentou lhe tocar, a salvação da alma é a cruzada do abismo, o abismo do sol se revelaria agora, meu corpo perdido na areia. A luta começaria, enfim.
Eu caminhei pelas dunas, estava no meio da tarde, uma tarde de sol gigante, calor escaldante, vi os montes de areia, subi num deles, e, de súbito, olhei o horizonte, o sol se transmutando num desenho de um sol inca, de um segundo ao outro o sol foi ficando laranja, depois vermelho, e aí um espírito oculto desenhou um pentagrama dentro do círculo de fogo, este sol inca e vermelho começou a virar o gigante vermelho, uma grande bola de fogo inca e vermelha que, então, com o calor de um inferno de Dante, desceu em vertical do céu em velocidade uniforme até a areia, seus movimentos eram de um ser consciente, dava para perceber que havia um princípio inteligente dentro daquela bola de fogo vermelha de inspiração inca, eu vi, eu vi com os meus olhos de carne, não era mais um simples sonho numa madrugada em um ônibus de viagem, eu via e não acreditava, talvez pudesse estar sonhando de novo, mas não, eu sentia a minha carne e o meu corpo, eu sabia que, desta vez, era uma visão plenamente consciente, não era mais um jogo simbólico-junguiano de sonhos imagéticos, eu via, não saberia descrever quão viva foi esta visão, as palavras são insuficientes, eu via, e custava acreditar, pensei que poderia ser o apocalipse, e lembrei do sonho do sol-pentagrama, logo percebi a centelha do profetismo, e então esperei a descida daquele sol furioso para a grande luta.
Depois do céu ecoar “Not To Touch The Earth” do The Doors quando aquele sol (um grande animal vermelho) descia, o sol-pentagrama foi em minha direção, se completaria a visão das visões, eu teria uma luta contra aquele bicho esférico e feroz, começa a luta, Miles Davis desce de uma nuvem azul e começa a tocar o seu trompete flutuando sobre aquela cena dantesca, eu via, e já não só via, eu lutava, meu corpo entrava em ebulição de guerra, eu teria que vencer aquele demônio em veste de sol, meu sol tão adorado, agora querendo me devorar, rolamos na areia, parecia uma dança macabra e pagã, um Vodu em transe, dancei o Sabá, a bruxa ria, os duendes riam, os 77 demônios de meu passado se reuniam para ver aquela batalha sangrenta, não saberia explicar suas fisionomias, eram tétricos, uns vermelhos, outros negros como corvos, uns azuis escuros, flutuavam em volta da duna em que se dava a luta, Miles parecia estar em outro plano, parecia estar me vendo, mas na verdade não sei, eu queria o fim daquela agonia, “Pharao’s Dance” entra no jogo, surge uma pirâmide de diamante no cume da duna em que eu rolava ferozmente com o sol-pentagrama, consigo enfim pegar a pirâmide e volto ela em direção ao sol furioso, sua própria luz vermelha reflete no diamante da pirâmide, esta luz vai em direção do próprio sol-pentagrama e este derrete e vira sangue, do sangue nasce uma pomba branca anunciando que não haveria apocalipse, que era o tempo da santidade na Terra, e de que eu era um homem livre.

EPÍLOGO: CANÇÃO DA SALVAÇÃO

Não virei anjo, eu vi o anjo.
Olhei o mistério com a alma
Em floração.
Eu refiz a canção da salvação,
Uma pomba branca
No meu peito,
Um dia vivido
Como se fosse perfeito.
O sol-pentagrama morreu,
Sua fúria vermelha derreteu.
Eu vejo o eterno
Como o sol verdadeiro,
Eu ouço a liberdade
Em cada vida bondosa,
Sou a alma que canta no céu
Como campo aberto ao coração,
Tenho a visão do espírito em cada ato,
Não surjo do inferno, venho do paraíso,
A Terra é cantada em sua santidade,
Santo virá, o sol virá,
O vinho vence o sepulcro,
A dor exauriu com a fúria infernal,
Estou salvo de minha maldição,
Tenho tempo para ver todas as coisas novas,
As coisas que compõem a natureza
Em seu espetáculo de vida infinita,
Pode-se ouvir os hinos angelicais
Nesta morada do prazer,
Vejo Deus como o sol que tudo vê,
Tenho a alma como reino do céu,
Longe do abismo do inferno
Que me possuiu,
Vou ao segredo, vou ao cerne,
E a vida se torna sagrada,
A vida no fim da estrada.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38903/14/minha-luta-com-o-sol-pentagrama-ij-parte-ii

quinta-feira, 24 de maio de 2018

MINHA LUTA COM O SOL-PENTAGRAMA - PARTE I


“vi o sol inca ficar vermelho”

(CONTO-POEMA) – INSPIRADO EM 2 SONHOS QUE TIVE

1° SONHO
Estava viajando de ônibus de madrugada e no meu MP4 tocava “Pharao`s Dance” de Miles Davis do seu álbum de Jazz Fusion “Bitches Brew”, já estava dormindo e no meio da música me vi nas areias de uma praia ou duna lutando com um ser invisível, eu lutava contra esse ente maligno rolando nas areias enquanto o trompete de Miles dava seus gritos agudos entre os graves do baixo, parecia tão real, não me lembro qual foi o fim do sonho, lembro desse trecho, talvez pela música visceral de fundo, com certeza pela combinação de luta espiritual com fundo musical, certamente pelo trompete, certamente por Miles, e sem dúvida pelo meu amor pelo Fusion como abertura espiritual, e não existe tal abertura sem luta espiritual, os nossos demônios estão sempre despertos, a luta pode ser de vida e morte, lutei na areia pela minha vida, e o trompete de Miles Davis estava lá, o terceiro olho do meu espírito se abriu com Pharao`s Dance, linguagem cifrada, hieróglifo do ser eterno, eu lutei com o assassino, eu venci o suicídio, eu despertei depois da música e me senti vivo, era duna ou praia, não me lembro, mas era areia, era eu e o inimigo lutando ferozmente, era o trompete cercando todo o enredo de que não lembro o fim e nem sei o porquê.
2° SONHO
Mais uma vez estava viajando de ônibus de madrugada e no meu MP4 tocava, desta vez, “Not To Touch The Earth” do The Doors. Parecia que eu via um sol naquele formato inca, não tenho certeza, o que marcou o sonho foi que estava na praia, conseguia ver o mar, e do nada, com o Doors entrando em meus tímpanos, e a introdução do baixo forrando a cena, vi o sol inca ficar vermelho, e dentro do círculo de fogo formar-se um pentagrama de cabeça para cima (não era o invertido do Satanismo) ... o baixo orgânico tocando, not to see the sun ... e, de súbito, o sol-pentagrama vermelho começa a descer em linha reta, uma vertical psicodélica no horizonte, este sol inca desce ao chão, o mar, sei lá,  a descida é em velocidade uniforme, como se fosse o movimento de um ser consciente, e depois tem um lapso e novamente acordo, e a memória viva me lembrando da imagem que tinha presenciado, o sonho “run, run, run, run with me ....”, que coisa doida, este foi o segundo sonho.
ESCLARECIMENTO:
Por um tempo a minha memória me enganou e achei que estes dois sonhos eram um só, donde tirei a minha ideia de luta com um sol-pentagrama, mas pela música lembrei que eram duas estórias diferentes, as músicas eram diferentes, isso me fez lembrar que foram duas ocasiões diferentes, mas vou seguir aqui um relato ficcional inspirado nestes dois sonhos, usando a imagem de minha memória traída como se se tratasse de um único sonho, vou romantizá-lo, mas o sonho bruto já está acima relatado, agora vou juntar ao signo psicodélico uma estrutura narrativa em forma de um conto-poema. É só seguir o curso da pena, a seguir ...
CONTO-POEMA:
Fui seguindo viagem rumo às dunas, saí de minha cidade no início da semana, queria ver o mar aberto e a abóbada celeste brilhosa das vilas do interior, as dunas eram o caminho mais poético para o mar. Levava a minha mochila com livros e uma mala com roupas, acordei cedo pela manhã e fui à rodoviária, cheguei bem cedo em busca do meu sonho que queria ver, em busca do segredo das areias quando se anda numa duna com o pé queimando, com os olhos buscando o horizonte depois de um certo trecho da caminhada, o momento mágico em que a montanha de areia e vento deixa entrever um risco de mar, é ali aqui o horizonte, é acolá logo lá o horizonte, o dia de verão perfeito, o mar azul cristalino, os olhos serenos ao beijarem o risco no fim da visão, o horizonte e sua fuga. Que vastidão! Era assim que esperava que fosse a chegada ao meu destino, um poeta mambembe em busca de um sonho de areia, e depois deste sonho de areia, um rasgo da visão que olha o sem fim, o horizonte que se vê e não se vê, o paradoxo do estar vendo algo que sempre aponta para um estar-além que nunca ninguém vê.
Notas ao sol, a fuga do horizonte
Está muito além da visão,
Noite que escurece o olho,
Dia que vive pela areia,
Dia vivo que costumo lembrar,
Eu vi o sol e a música
Como signo de um segredo,
A carta do navegante não sabe apontar,
A bússola se perde ao navegar,
Quando se perde a visão e seus olhos
Lacrimejam de tanto sal.

Tocava Jazz ou Blues nos meus tímpanos,
Eu veria o infinito como som,
E imaginaria no meu ouvir como visão,
A estrela vai e volta com brilho de fogo,
A estrada até a praia é cheia de segredos,
Quantas ondas eu peguei e outras que deixei passar ...
Quantas horas em caminhar e se perder?
Por se achar quantas horas mais?

Eu disse ao enigma:
Seu signo eu torno palavra,
Não me leve a mal,
Caiu em cima de mim
Esta porra como um alarme.
Vejo e não sei ao certo,
Uma onda pegou a sua esmeralda.
Um baixo bem robusto forrou o seu topázio.

Como andei a anunciar, me escondi e fui buscar ...
Como voltei já qual borboleta no ar ...
Fui ao meu autoconhecimento, na tábua da lei
Estava grafado com pontas de fogo:
“Conhece-te a ti mesmo, penumbra não vê,
sombra não sente, a luz vê e sente, mexa com
seus cadáveres e deixe eles dançarem,
depois leia sem parar, leia até a sua face cair no
livro, não descanse, não seja fraco,
olhe em volta e esqueça tudo,
olhe mais para dentro, cada vez mais,
não se perca, dance com os outros cadáveres,
lhes diga que são cadáveres, dá a lembrar
sempre da morte, a deusa que ninguém gosta,
faça profecias publicadas em jornais,
faça orgias em praias pela madrugada,
alimente a sua mente, veja as serpentes vãs,
mate quem quer te matar,
ouça o grito da multidão pelo seu socorro,
mate todos em um gesto da cruz,
mate a moral com seu cadáver fundamentalista,
contradiga tudo, por você ser a contradição radical,
confunda o jogo, eles gostam de confusão,
não permita que te confundam, este é o primeiro
mandamento do guerreiro,
olhe em volta e esqueça, olhe cada vez mais para dentro.
Enlouqueça algumas vezes por pura diversão,
Volte à razão depois mais forte que um leão,
Não olhe mais em volta, eles perderam a razão.

Veja seu próprio horizonte, veja o sol ficar vermelho,
Faça dos ossos e carnes um espírito total,
Veja o todo em tudo como se fosse vazio,
Faça uns diários de meditações,
Duvide de sua crença,
Não há razão sem dúvida,
Não caia em ceticismos,
Não ande pela verdade absoluta,
Só você sabe o que você sabe ...
Conhece-te a ti mesmo!”

Peguei o meu ônibus de viagem, sempre tenho prazer em viajar, e estou acostumado ao clima de rodoviária, eu me sinto bem nesses caminhos de ida e volta, e me parece que minha terceira visão (que, de vez em quando, é favorecida pela música, sobretudo nessas viagens) se abre no estado de transe do sono, o inconsciente individual adormece, o sonho entra, na verdade a imagem que vem no sonho já não mais pertence ao meu inconsciente individual, tais imagens têm outra origem, é do inconsciente coletivo junguiano, o qual foi colhido da filosofia oriental e sobretudo do Budismo, a condição de transe do satori seria este estado fundamental do ser em si mesmo, um paradoxo, pois o encontrar-se no vazio parece com o perder-se, mas neste paradoxo se abre a terceira visão, já como ente ontológico mesmo, não mais eu ou ego, as individualizações não fazem mais parte deste estado, a visualização que parte deste estado búdico de vazio (aí entram os arquétipos do que é símbolo que unem culturas das mais diversas, o que pode ser percebido com mais força na mitologia, todas aparentadas em seus simbolismos), aqui entra o meu sonho, eu vejo ele entrar com suas imagens que sei que não me pertencem, eu não as produzi, o sonho é o estado que nos diz com todas as letras que nós não estamos no comando coisa alguma, só temos esta autonomia ilusória e individualista na vida do ego e do cotidiano, o sonho nos desnuda em símbolo, e como não há mais alguém ali, restam as imagens, e elas falam outra língua, da qual não temos autonomia, Freud contradisse a razão neste transtorno da loucura, e a loucura só é entendida em seus arcanos naqueles que a vivenciaram, e o sonho é um estado de loucura comum a todos, não somente aos psicóticos. O sonho diz: eu navego em você, este que lhe mostra isso é o próprio isso, não tem mais seu lugar, você não está aqui, só a imagem e não há decifração, eu te proponho um jogo, de alguns você lembrará, parecerá que você esteve lá, mas se esteve, não foi o seu pequeno ego, mas algo maior e mais fundamental, um estado fundante animal-símbolo, sua ontologia do sonho é mais que psíquico, é sobretudo espiritual, antes do vazio absoluto do satori, passam-se tais quimeras, leia O Livro Tibetano dos Mortos que verá com os seus próprios olhos.

A viagem foi longa, duas noites sonhei e veria em um único lance esses dois sonhos se juntarem como uma coisa só, os dois sonhos destas duas noites foram “explicados” acima, agora tudo tornaria-se real, eu não esperava que os sonhos que tive nesta viagem aconteceriam realmente, pensei em se tratar de pura inspiração musical, não notei que era profetismo, as notas que derramarei agora não me pertencem, toda esta viagem de que não há eu no transe é muito real, “é oráculo o que eu digo, e não sabendo explicar-me sem palavras pagãs, queria calar-me” (Arthur Rimbaud, Uma Temporada no Inferno, do poema “Sangue Ruim”), pois fui neste não mais eu em termo de símbolo em estado puro, quantas noites seriam como aquelas? Onde mais senão no susto eu as veria? As visões, eu disse, tenho o vinho e a minha pena, e o sol na minha vista, tenho medo de ficar cego, mas o sol no sonho fica vermelho, mas você o vê sem se cegar, ainda lembro, talvez, quando a poesia maturou o suficiente, eu lembro, a memória é certa, e meus passos são certos também, eu vejo, e calo alguma coisa, no entanto, tenho desta miséria demais, o de ter estado louco, acúmulo de visões, sabatina de visões, o espírito como corrosão da percepção, eu estava lá ... na loucura “Eu é um Outro” (Arthur Rimbaud, Carta Dita do Vidente), cisão, corrosão, todos os venenos, todas as magias, magos brancos e magos negros, a festa como possessão, eu não fui anjo, eu não fui demônio, eles moram em mim, este é o mistério, a estória de um louco vive no mistério radicalmente, mas aí vem o sonho, eu veria estes tais dois sonhos de verdade no fim da estrada, nas dunas eu os poderia ver dançando em minhas visões, não vou enumerá-las todas, vou relatar apenas esta: “A minha luta com o sol-pentagrama.”

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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domingo, 20 de maio de 2018

A VIDA É DURA, PORÉM DOCE

“a vida pode ser maravilhosa, como diz o poeta”

A vida não é para principiantes, definitivamente. E quem acha que pode passar incólume se enganou feio. Os perigos estão aí, e que sejam bem vindos todos os perigos, pois eles nos fazem fortes, nos jogam no circuito vivo de que nem tudo se controla, planejamos coisas, mas nem sempre elas dão certo, ou ainda não deram certo.
O erro é o instrumento da sabedoria da vida para nos ensinar a sermos mais tolerantes, mais moderados, mas isso, meu caro, vem com a experiência. Vejo muita gente madura de pouca idade e muita gente infantil de muita idade. O tempo de vida biológico não credencia ninguém à adaptação ao mundo, não que tenhamos que nos adaptar para agradar aos outros ou que seja o caso de adaptar-se.
A questão é mais profunda, que queiramos crescer e tomar as rédeas da própria vida, o que não é tarefa fácil, adaptar-se ou não é questão de escolha, e aceitar o mundo e enfrentar os “perrengues”, aprender com as porradas que, vira e mexe, a vida nos dá, é um bom exercício de fortalecimento do tônus vivencial. O conhecimento, a vivência e a experiência, é esta tríade que diferencia os fortes e corajosos das crianças que sonham sem sair do lugar, “deitadas eternamente em berço esplêndido”.
Se alguém lhe nega algo porque não pode lhe dar este algo, até por que este alguém não tem o que você quer, a criança sonhadora, que vive na lua, demora a acordar, mas o despertar é necessário. Não estamos no mundo para passear no jardim das delícias, não estamos, nesta vida, num jardim de lazer. É preciso estar atento e forte, não temos tempo para este culto da mediocridade, da vida superficial, da zona de conforto que nos torna uns bundões e que, à primeira desdita, culpa o céu e a terra e, pior, os outros.
Pois esta pessoa não reconhece o próprio fracasso, os próprios erros, e acha que o outro, que não lhe deu a felicidade plena, quanta audácia, é culpada de todo infortúnio de que ela é vítima. Não temos tempo para príncipes encantados ou princesas encantadas, não temos tempo para dar a troco de nada, não somos a tábua de salvação de gente que não quer crescer.
Muitas vezes a criança sonhadora demora a entender, culpa os outros, acha que está certa em seu desatino, mas um dia, depois de muita porrada, a criança passa a entender que é ela e não os outros é que tem que tomar conta de si. Não é fácil, mas temos que tentar, e saber que a vida não é vivida na zona de conforto, de que querer no outro o seu sentido, do querer viver a vida do outro, numa obsessão que não tem fim, não é o caminho do que chamam de sábio.
Então é hora de mudar, mudar a conduta, mudar o pensamento, e mudar, sobretudo, as atitudes. Ninguém quer uma pessoa que não quer nada com a hora do Brasil por perto, a virtude da vida é ter com o que compartilhar, e não sugar a energia dos outros de forma desleal. É, então, a hora da grande mudança, da grande revolução, de sorrir sim, mas de ter postura séria quando o assunto é a própria vida, a construção de seu próprio destino.  Aí é a hora do primeiro passo rumo à maturidade, bem vindo à vida adulta.
A sabedoria é um exercício diário, o entender o espaço do outro, o respeito pela vida do outro, o não confundir um gesto educado e gentil com disponibilidade a qualquer hora. A vida é um caminho árduo, a vida é dura sim, muito dura, mas também é doce, e sua doçura maior vem quando sabemos que estamos tentando, de que estamos no caminho certo, caminho de crescimento, caminho de luz, libertação das velhas ilusões e um bem viver que não é do bon vivant, mas do que luta.
E é na luta pela própria vida, de seu lugar no mundo para ser no mundo, no incremento de seu ser, no leque cada vez maior das percepções, em ser agradável às pessoas sem querer agradá-las, mas em ser agradável por estar crescendo, se incrementando, buscando o entendimento da vida, é então que a conquista da sabedoria de saber que a senda universal do ser humano é dura, nos leva a crer e ter certeza de que a vida pode ser maravilhosa, como diz o poeta.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

A LÍRICA BARROCA DE GÓNGORA

“um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho da sutileza de estilo”

Mestre de si mesmo, Góngora, escritor de estro próprio, o gongorismo, vai ao auge do lirismo barroco, com uma produção literária que irá se dividir em duas faces.
Uma face será a da lírica popular, que tem um caráter e origem autóctone, sendo uma produção composta por poemas pequenos, com metros curtos, como eram as letrillas e romances, nos quais o poeta se utiliza da ironia para tematizar a vida cotidiana.
E a outra face da poesia de Góngora sendo a de uma arte aristocrática, com influência da poesia italiana, e que tem um ar bem culto, muitas vezes hermético, com poemas longos em versos decassílabos, que irá tratar das profundezas do sentimento humano, numa busca ideal de uma beleza absoluta e inalcançável, portanto, ilusória, poesia de elite que vai aparecer então em obras de Góngora como a fábula de Polifemo e Galateia, Soledades e em Sonetos.
Objeto de debates e polêmicas, a poesia de Góngora terá uma riqueza vocabular que produzirá neologismos de origem greco-latina, e um conteúdo de referências do mito antigo, principalmente grego, e também de memórias bíblicas, com uma complexidade de sintaxe impregnada de anacolutos e inversões, que serão, portanto, recursos de uma poesia de leitura atenta e culta, que exige um olhar treinado e estudado para quem nela se debruça.
A poesia de Góngora também ganha em volume e complexidade por sua abundância metafórica, uma poesia hiperbólica que não prima pela economia gestual, muito pelo contrário, pois é uma poesia que ostenta e se enfeita com sutilezas que exige uma percepção estética bem definida, pois com o gongorismo temos uma herança renascentista, mas já com novos valores estéticos, numa poesia que em sua época será revolucionária.
Uma das inovações desta poesia gongórica será o uso da metáfora com um caráter original que irá provocar um estranhamento, pois o poeta irá realizar com sua metáfora associações ou parentescos entre diversos objetos com uma elasticidade engenhosa, ampliando as possibilidades da metáfora poética em sua época.
Góngora é um dos maiores representantes da lírica barroca, e que irá herdar as referências clássicas e renascentistas da mitologia greco-romana, mas já com um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho da sutileza de estilo, produzindo uma nova poesia já distante do paradigma clássico de simplicidade formal.
Góngora é autor de uma poesia barroca que em seu caráter aristocrático já não tem uma concepção de beleza no sentido da clareza formal, harmônica, racional, mas sim rompendo com estes cânones estéticos renascentistas, se utilizando neste novo caminho estético barroco da sutileza rica em oximoros, uma poesia que buscará, na sua forma, a transcendência e o gosto pelo enigma.

POEMAS :
XXIII : O poema continua sua fábula, este périplo de amor e de enamorados, no que temos : “A fugitiva ninfa, entanto, onde/Furta um louro seu tronco ao sol ardente,”. A fugitiva, Galateia, vai em meio ao cenário de natureza, e o poema acende o rouxinol, e o sono de Galateia não poderá queimar seus olhos ao sol, no que temos : “De seus membros, dá à fonte ali fluente./Doce se queixa, doce então responde/Um rouxinol a outro, e docemente/Ao sono dá seus olhos a harmonia,/Porque não queime com três sóis o dia.”. A fábula vai nesta dinâmica de perseguição e fuga, como uma boa trama da ilusão amorosa, em todas as suas faces.
XXIV : O cão do céu late, e está no calor do dia, como salamandra do sol, no que segue : “Salamandra do sol, vestido estrelas,/Latindo o cão do céu estava, quando”. E agora a trama amorosa se repete indefinida, Ácis se volta para ver Galateia, sua branca tez, que era o cristal mudo, no que temos : “Chegou Ácis;” (...) “A boca deu, e os olhos deu, em tudo,/Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.”. O olhar aqui nos aparece como obsessão, pois o ato da contemplação amorosa nos parece um tipo especial de hipnose.
XXV : O poema retrata Ácis, este que fere os corações, venábulo de Cupido, no que temos : “Venábulo era Ácis de Cupido,/Por um fauno, meio homem, meio fera,/Em Simétis, formosa ninfa, havido;”. Ácis, filho de um fauno, pois, e da ninfa Simétis, no que segue : “O belo ímã, o ídolo dormido,/Que aço acompanha, idólatra venera,/Rico de quanto o horto oferta pobre,/Rendem as vacas e destila o robre.” E Galateia venera aqui o ídolo dormido.
XXVIII : A ninfa aqui sente o agitar da água feita por Ácis, o regato no qual se move a água prateada, no que temos : “A ninfa, pois, a sonorosa prata/Bulir sentiu daquele arroio apenas,/Quando, com as margens vírides ingrata,/Machado fez-se de suas açucenas./Fugira; mas tão frio se desata/O medo ocioso em veias não serenas,/Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,/Plumas de gelo foi, grilhões de neve.”. A ninfa Galateia pensa mais uma vez em fugir, mas o temor lhe congela o voo, estas plumas de gelo nos grilhões de neve.
XXX : Galateia, neste poema, não toma a oferenda como do ciclope, nem de sátiro e nem de silvano, e temos : “Por do ciclope a oferta não é tida;/Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,/De outro feio silvano, cuja brida/O sono aflija, que afrouxou o desejo./Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,”. E Cupido vem com Vênus, nesta visão de Galateia cujo desdém por seus pretendentes faz desta fábula de fuga e amor uma boa trama : “Quer que na árvore seja da mãe deia/O desdém até ali de Galateia.”.
XXXI : Cupido mira o peito de Galateia, no que temos : “Entre ramagens do que mais se lava” (...) “Carcaz fez de cristal, se não aljava,/Seu peito branco, de um arpão dourado./O monstro de rigor, a fera brava,/Olha a oferenda já com mais cuidado;/Que seja de seu dono, ela até sente,/Confuso alcaide, o souto viridente.”. Fera de rigor, impiedosa, ela agora já olha a oferenda com mais cuidado e atenção, deste golpe de amor ela está diante deste autor que se oculta.
XXXII : Galateia já se perguntando da autoria da oferenda, terá seu coração tomado por este que então dorme, no que temos : “Chamara-o, muda embora, sem o entrave/De o nome não saber que mais queria.” (...) “Confia o intento; e tímida, em sombria/Cama de campo e campo de batalha,/Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.”. A fábula então vai da fuga para o fascínio da curiosidade, a ninfa, pois, não é tão inatingível.
XXXIV : Galateia está agora com o efeito de Cupido que lhe cravou o peito, e o enigma ganha vulto na fábula, no que temos : “Não, como a ninfa bela, a emparelhar/Com o moço adormecido em cortesia,/Não para apenas, mas o doce atroar/Do lento arroio emudecer queria./Não obstante logo as ramas, ao notar/Colorido o bosquejo que já havia/Em sua imaginação Cupido feito/Só com o pincel que lhe cravou no peito.”. A imaginação aqui arde, e a fábula tem uma virada, Galateia deixa a fuga e agora tem o peito cativado.
XXXVI : O veneno do amor inunda o poema, no que temos :“Na grenha rústica se aquieta oculto/O áspide,” (...) “Pois no viril desata de seu vulto/O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:/Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso/Para esgotar toda a peçonha ao vaso.”. E a ninfa Galateia bebe este veneno, a fábula ganha a desenvoltura da contemplação, nesta caso a ninfa se volta para ver Ácis melhor.
XXXVII : Galateia está entre o amor e o temor, suspensa, isto é, com dúvida, no que temos : “Ácis – e ainda mais do que dispensa/A mira de seu sono vigilante -,/Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,/É sempre Argos atento ao seu semblante,/Lince penetrador do que ela pensa,” (...) “Porque nos seus paládios cego Amor,/Sem romper muros, introduz o ardor.”. Ácis tem olhos de lince, decifra o pensamento de Galateia, e tem esta percepção em meio a um sono fingido.
XXXVIII : O poema se abre num agito como a perturbar o sono, no que temos : “O sono de seus membros sacudido,/Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,” (...) “Menos ofende o raio, prevenido,/Ao marinheiro, menos a tormenta/Prevista o perturbou, ou prenunciada:/Galateia que o diga, salteada.”. E o sono agora virando agitação em Ácis deixa a ninfa Galateia surpreendida. A fábula de amor e fuga também é de fascínio e surpresa.

POEMAS :

XXIII

A fugitiva ninfa, entanto, onde
Furta um louro seu tronco ao sol ardente,
Tantos jasmins, quanta erva a neve esconde
De seus membros, dá à fonte ali fluente.
Doce se queixa, doce então responde
Um rouxinol a outro, e docemente
Ao sono dá seus olhos a harmonia,
Porque não queime com três sóis o dia.

XXIV

Salamandra do sol, vestido estrelas,
Latindo o cão do céu estava, quando
(Pó o cabelo, úmidas chispas aquelas,
Se não ardentes pérolas suando)
Chegou Ácis; das duas luzes belas
Doce Ocidente vendo o sono brando,
A boca deu, e os olhos deu, em tudo,
Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.

XXV

Venábulo era Ácis de Cupido,
Por um fauno, meio homem, meio fera,
Em Simétis, formosa ninfa, havido;
Glória do mar e honra das praias era.
O belo ímã, o ídolo dormido,
Que aço acompanha, idólatra venera,
Rico de quanto o horto oferta pobre,
Rendem as vacas e destila o robre.

XXVIII

A ninfa, pois, a sonorosa prata
Bulir sentiu daquele arroio apenas,
Quando, com as margens vírides ingrata,
Machado fez-se de suas açucenas.
Fugira; mas tão frio se desata
O medo ocioso em veias não serenas,
Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,
Plumas de gelo foi, grilhões de neve.

XXX

Por do ciclope a oferta não é tida;
Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,
De outro feio silvano, cuja brida
O sono aflija, que afrouxou o desejo.
Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,
Gloriosa ostentação, troféu sobejo
Quer que na árvore seja da mãe deia
O desdém até ali de Galateia.

XXXI

Entre ramagens do que mais se lava
Naquele arroio, mirto levantado,
Carcaz fez de cristal, se não aljava,
Seu peito branco, de um arpão dourado.
O monstro de rigor, a fera brava,
Olha a oferenda já com mais cuidado;
Que seja de seu dono, ela até sente,
Confuso alcaide, o souto viridente.

XXXII

Chamara-o, muda embora, sem o entrave
De o nome não saber que mais queria.
Nem o enxergou, porém um pincel suave
Já o bosquejou em sua fantasia.
Ao pé – não tanto, já, do temor grave –
Confia o intento; e tímida, em sombria
Cama de campo e campo de batalha,
Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.

XXXIV

Não, como a ninfa bela, a emparelhar
Com o moço adormecido em cortesia,
Não para apenas, mas o doce atroar
Do lento arroio emudecer queria.
Não obstante logo as ramas, ao notar
Colorido o bosquejo que já havia
Em sua imaginação Cupido feito
Só com o pincel que lhe cravou no peito.

XXXVI

Na grenha rústica se aquieta oculto
O áspide, do intonso prado ameno,
Antes que do penteado jardim culto
No seio regalado e de ordem pleno:
Pois no viril desata de seu vulto
O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:
Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso
Para esgotar toda a peçonha ao vaso.

XXXVII

Ácis – e ainda mais do que dispensa
A mira de seu sono vigilante -,
Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,
É sempre Argos atento ao seu semblante,
Lince penetrador do que ela pensa,
Ou bronze o cinja ou mure-o então diamante:
Porque nos seus paládios cego Amor,
Sem romper muros, introduz o ardor.

XXXVIII

O sono de seus membros sacudido,
Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,
E ao marfim logo de seus pés rendido,
O coturno beijar dourado intenta.
Menos ofende o raio, prevenido,
Ao marinheiro, menos a tormenta
Prevista o perturbou, ou prenunciada:
Galateia que o diga, salteada.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

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