“um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho da
sutileza de estilo”
Mestre de si mesmo, Góngora, escritor de estro próprio, o
gongorismo, vai ao auge do lirismo barroco, com uma produção literária que irá
se dividir em duas faces.
Uma face será a da lírica popular, que tem um caráter e
origem autóctone, sendo uma produção composta por poemas pequenos, com metros
curtos, como eram as letrillas e romances, nos quais o poeta se utiliza da
ironia para tematizar a vida cotidiana.
E a outra face da poesia de Góngora sendo a de uma arte
aristocrática, com influência da poesia italiana, e que tem um ar bem culto,
muitas vezes hermético, com poemas longos em versos decassílabos, que irá
tratar das profundezas do sentimento humano, numa busca ideal de uma beleza
absoluta e inalcançável, portanto, ilusória, poesia de elite que vai aparecer
então em obras de Góngora como a fábula de Polifemo e Galateia, Soledades e em
Sonetos.
Objeto de debates e polêmicas, a poesia de Góngora terá uma
riqueza vocabular que produzirá neologismos de origem greco-latina, e um
conteúdo de referências do mito antigo, principalmente grego, e também de
memórias bíblicas, com uma complexidade de sintaxe impregnada de anacolutos e
inversões, que serão, portanto, recursos de uma poesia de leitura atenta e
culta, que exige um olhar treinado e estudado para quem nela se debruça.
A poesia de Góngora também ganha em volume e complexidade por
sua abundância metafórica, uma poesia hiperbólica que não prima pela economia
gestual, muito pelo contrário, pois é uma poesia que ostenta e se enfeita com
sutilezas que exige uma percepção estética bem definida, pois com o gongorismo
temos uma herança renascentista, mas já com novos valores estéticos, numa
poesia que em sua época será revolucionária.
Uma das inovações desta poesia gongórica será o uso da
metáfora com um caráter original que irá provocar um estranhamento, pois o
poeta irá realizar com sua metáfora associações ou parentescos entre diversos
objetos com uma elasticidade engenhosa, ampliando as possibilidades da metáfora
poética em sua época.
Góngora é um dos maiores representantes da lírica barroca, e
que irá herdar as referências clássicas e renascentistas da mitologia
greco-romana, mas já com um estro excessivo na metáfora, que irá pelo caminho
da sutileza de estilo, produzindo uma nova poesia já distante do paradigma
clássico de simplicidade formal.
Góngora é autor de uma poesia barroca que em seu caráter
aristocrático já não tem uma concepção de beleza no sentido da clareza formal,
harmônica, racional, mas sim rompendo com estes cânones estéticos
renascentistas, se utilizando neste novo caminho estético barroco da sutileza
rica em oximoros, uma poesia que buscará, na sua forma, a transcendência e o
gosto pelo enigma.
POEMAS :
XXIII : O poema continua sua fábula, este périplo de amor e
de enamorados, no que temos : “A fugitiva ninfa, entanto, onde/Furta um louro
seu tronco ao sol ardente,”. A fugitiva, Galateia, vai em meio ao cenário de
natureza, e o poema acende o rouxinol, e o sono de Galateia não poderá queimar
seus olhos ao sol, no que temos : “De seus membros, dá à fonte ali fluente./Doce
se queixa, doce então responde/Um rouxinol a outro, e docemente/Ao sono dá seus
olhos a harmonia,/Porque não queime com três sóis o dia.”. A fábula vai nesta
dinâmica de perseguição e fuga, como uma boa trama da ilusão amorosa, em todas
as suas faces.
XXIV : O cão do céu late, e está no calor do dia, como
salamandra do sol, no que segue : “Salamandra do sol, vestido estrelas,/Latindo
o cão do céu estava, quando”. E agora a trama amorosa se repete indefinida,
Ácis se volta para ver Galateia, sua branca tez, que era o cristal mudo, no que
temos : “Chegou Ácis;” (...) “A boca deu, e os olhos deu, em tudo,/Ao sonoro
cristal, ao cristal mudo.”. O olhar aqui nos aparece como obsessão, pois o ato
da contemplação amorosa nos parece um tipo especial de hipnose.
XXV : O poema retrata Ácis, este que fere os corações,
venábulo de Cupido, no que temos : “Venábulo era Ácis de Cupido,/Por um fauno,
meio homem, meio fera,/Em Simétis, formosa ninfa, havido;”. Ácis, filho de um
fauno, pois, e da ninfa Simétis, no que segue : “O belo ímã, o ídolo dormido,/Que
aço acompanha, idólatra venera,/Rico de quanto o horto oferta pobre,/Rendem as
vacas e destila o robre.” E Galateia venera aqui o ídolo dormido.
XXVIII : A ninfa aqui sente o agitar da água feita por Ácis,
o regato no qual se move a água prateada, no que temos : “A ninfa, pois, a
sonorosa prata/Bulir sentiu daquele arroio apenas,/Quando, com as margens
vírides ingrata,/Machado fez-se de suas açucenas./Fugira; mas tão frio se
desata/O medo ocioso em veias não serenas,/Que ao presto voo, à fuga pronta e
leve,/Plumas de gelo foi, grilhões de neve.”. A ninfa Galateia pensa mais uma
vez em fugir, mas o temor lhe congela o voo, estas plumas de gelo nos grilhões
de neve.
XXX : Galateia, neste poema, não toma a oferenda como do
ciclope, nem de sátiro e nem de silvano, e temos : “Por do ciclope a oferta não
é tida;/Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,/De outro feio silvano, cuja
brida/O sono aflija, que afrouxou o desejo./Mas o deus, cuja venda lhe é
impingida,”. E Cupido vem com Vênus, nesta visão de Galateia cujo desdém por
seus pretendentes faz desta fábula de fuga e amor uma boa trama : “Quer que na
árvore seja da mãe deia/O desdém até ali de Galateia.”.
XXXI : Cupido mira o peito de Galateia, no que temos : “Entre
ramagens do que mais se lava” (...) “Carcaz fez de cristal, se não aljava,/Seu
peito branco, de um arpão dourado./O monstro de rigor, a fera brava,/Olha a
oferenda já com mais cuidado;/Que seja de seu dono, ela até sente,/Confuso
alcaide, o souto viridente.”. Fera de rigor, impiedosa, ela agora já olha a
oferenda com mais cuidado e atenção, deste golpe de amor ela está diante deste
autor que se oculta.
XXXII : Galateia já se perguntando da autoria da oferenda,
terá seu coração tomado por este que então dorme, no que temos : “Chamara-o,
muda embora, sem o entrave/De o nome não saber que mais queria.” (...) “Confia
o intento; e tímida, em sombria/Cama de campo e campo de batalha,/Vê o que
finge dormir, que ali lhe calha.”. A fábula então vai da fuga para o fascínio
da curiosidade, a ninfa, pois, não é tão inatingível.
XXXIV : Galateia está agora com o efeito de Cupido que lhe
cravou o peito, e o enigma ganha vulto na fábula, no que temos : “Não, como a
ninfa bela, a emparelhar/Com o moço adormecido em cortesia,/Não para apenas,
mas o doce atroar/Do lento arroio emudecer queria./Não obstante logo as ramas,
ao notar/Colorido o bosquejo que já havia/Em sua imaginação Cupido feito/Só com
o pincel que lhe cravou no peito.”. A imaginação aqui arde, e a fábula tem uma
virada, Galateia deixa a fuga e agora tem o peito cativado.
XXXVI : O veneno do amor inunda o poema, no que temos :“Na
grenha rústica se aquieta oculto/O áspide,” (...) “Pois no viril desata de seu
vulto/O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:/Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo
raso/Para esgotar toda a peçonha ao vaso.”. E a ninfa Galateia bebe este
veneno, a fábula ganha a desenvoltura da contemplação, nesta caso a ninfa se
volta para ver Ácis melhor.
XXXVII : Galateia está entre o amor e o temor, suspensa, isto
é, com dúvida, no que temos : “Ácis – e ainda mais do que dispensa/A mira de
seu sono vigilante -,/Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,/É sempre Argos
atento ao seu semblante,/Lince penetrador do que ela pensa,” (...) “Porque nos
seus paládios cego Amor,/Sem romper muros, introduz o ardor.”. Ácis tem olhos
de lince, decifra o pensamento de Galateia, e tem esta percepção em meio a um
sono fingido.
XXXVIII : O poema se abre num agito como a perturbar o sono,
no que temos : “O sono de seus membros sacudido,/Galhardo o jovem sua pessoa
ostenta,” (...) “Menos ofende o raio, prevenido,/Ao marinheiro, menos a
tormenta/Prevista o perturbou, ou prenunciada:/Galateia que o diga, salteada.”.
E o sono agora virando agitação em Ácis deixa a ninfa Galateia surpreendida. A
fábula de amor e fuga também é de fascínio e surpresa.
POEMAS :
XXIII
A fugitiva ninfa, entanto, onde
Furta um louro seu tronco ao sol ardente,
Tantos jasmins, quanta erva a neve esconde
De seus membros, dá à fonte ali fluente.
Doce se queixa, doce então responde
Um rouxinol a outro, e docemente
Ao sono dá seus olhos a harmonia,
Porque não queime com três sóis o dia.
XXIV
Salamandra do sol, vestido estrelas,
Latindo o cão do céu estava, quando
(Pó o cabelo, úmidas chispas aquelas,
Se não ardentes pérolas suando)
Chegou Ácis; das duas luzes belas
Doce Ocidente vendo o sono brando,
A boca deu, e os olhos deu, em tudo,
Ao sonoro cristal, ao cristal mudo.
XXV
Venábulo era Ácis de Cupido,
Por um fauno, meio homem, meio fera,
Em Simétis, formosa ninfa, havido;
Glória do mar e honra das praias era.
O belo ímã, o ídolo dormido,
Que aço acompanha, idólatra venera,
Rico de quanto o horto oferta pobre,
Rendem as vacas e destila o robre.
XXVIII
A ninfa, pois, a sonorosa prata
Bulir sentiu daquele arroio apenas,
Quando, com as margens vírides ingrata,
Machado fez-se de suas açucenas.
Fugira; mas tão frio se desata
O medo ocioso em veias não serenas,
Que ao presto voo, à fuga pronta e leve,
Plumas de gelo foi, grilhões de neve.
XXX
Por do ciclope a oferta não é tida;
Nem de sátiro ardente, nem, no ensejo,
De outro feio silvano, cuja brida
O sono aflija, que afrouxou o desejo.
Mas o deus, cuja venda lhe é impingida,
Gloriosa ostentação, troféu sobejo
Quer que na árvore seja da mãe deia
O desdém até ali de Galateia.
XXXI
Entre ramagens do que mais se lava
Naquele arroio, mirto levantado,
Carcaz fez de cristal, se não aljava,
Seu peito branco, de um arpão dourado.
O monstro de rigor, a fera brava,
Olha a oferenda já com mais cuidado;
Que seja de seu dono, ela até sente,
Confuso alcaide, o souto viridente.
XXXII
Chamara-o, muda embora, sem o entrave
De o nome não saber que mais queria.
Nem o enxergou, porém um pincel suave
Já o bosquejou em sua fantasia.
Ao pé – não tanto, já, do temor grave –
Confia o intento; e tímida, em sombria
Cama de campo e campo de batalha,
Vê o que finge dormir, que ali lhe calha.
XXXIV
Não, como a ninfa bela, a emparelhar
Com o moço adormecido em cortesia,
Não para apenas, mas o doce atroar
Do lento arroio emudecer queria.
Não obstante logo as ramas, ao notar
Colorido o bosquejo que já havia
Em sua imaginação Cupido feito
Só com o pincel que lhe cravou no peito.
XXXVI
Na grenha rústica se aquieta oculto
O áspide, do intonso prado ameno,
Antes que do penteado jardim culto
No seio regalado e de ordem pleno:
Pois no viril desata de seu vulto
O mais dúlcido, o Amor, de seu veneno:
Bebe-o a ninfa, e dá mais um passo raso
Para esgotar toda a peçonha ao vaso.
XXXVII
Ácis – e ainda mais do que dispensa
A mira de seu sono vigilante -,
Esteja a ninfa inquieta ou bem suspensa,
É sempre Argos atento ao seu semblante,
Lince penetrador do que ela pensa,
Ou bronze o cinja ou mure-o então diamante:
Porque nos seus paládios cego Amor,
Sem romper muros, introduz o ardor.
XXXVIII
O sono de seus membros sacudido,
Galhardo o jovem sua pessoa ostenta,
E ao marfim logo de seus pés rendido,
O coturno beijar dourado intenta.
Menos ofende o raio, prevenido,
Ao marinheiro, menos a tormenta
Prevista o perturbou, ou prenunciada:
Galateia que o diga, salteada.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38693/17/a-lirica-barroca-de-gongora
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