PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

CARTA DO POETA INSATISFEITO

"sejamos os novos musicistas do que se anuncia como o futuro da arte"

Vivemos num tempo medíocre, todos falam do cotidiano, tudo é cotidiano, essa verve da stand-up comedy me dá náuseas. Poesia que fala da eternidade e que abusa de metáfora e simbolismo é logo tachada de anacrônica, eles não querem mais poetas que escrevem com o próprio sangue, tal como diria Nietzsche dos poetas trágicos da Grécia arcaica.
No entanto, os poetas hoje devem ser humildes, sim, humildes! Eles dizem: “Quem sou eu para dizer que sou poeta! Seria muita pretensão da minha parte!”. Esta condenação do grandioso pela palavra pretensão é como um interdito moral da escrita que tem náusea do épico, vivemos um tempo anti-épico, apoucado, simulando seu mundinho e se distanciando do spleen que possuía a alma poética.
Eles, os novos poetas do mundo de objetos, querem o modelo cotidiano da hipocrisia da auto-pequenez, os grandiosos morrem de fome, as editoras estão atrás de um futuro inexistente, a influência das coisas comezinhas é o auge do que se faz de poesia hoje em dia, e tem um tanto que só sabem usar das rimas chatas e previsíveis.
Estamos entre o modelo dogmático cotidiano que se tornou standard e a alienação de alguns outros que confundem a lírica com pieguice e fazem na verdade poesia aguada para gostos não estudados.
Vão pela via de uma lírica piegas e brega que ousam chamar de poesia, e sonham em publicar seus versos apoucados na pretensão da humildade do “quem sou eu para qualquer coisa!”. Ó sonhadores, com suas naus furadas num mar revolto de paixão, ó sonhadores das máquinas de Gutemberg!
O que é aplaudido hoje é o chamado reino da mediocridade, o puro discurso se sobrepõe à metáfora, os símbolos são renegados como História e não como plenitude, ó medíocres, sonham tão pouco, sonham errado! Os sonhadores verdadeiros têm mania de grandeza, a grandeza que está bem retratada no Ecce Homo, todas as naus furadas afundarão no mar do esquecimento, todas estas navegações sobre o pouco que resta de original.
Tem muitos que escrevem igual, são escravos do igual, são apologistas do igual, e o diferente que se anuncia na tormenta vem de milênios de História, sim, pois queremos a História, escrevemos por ela e por causa dela, mesmo que muitos obtusos confundam as coisas e entendam que tudo isto que nos cabe é Metafísica!
Ora, onde estão os novos Rimbauds? Ora, veja só, um novo Rimbaud hoje passaria despercebido, como o próprio passou despercebido, precisamos de novos bibliófilos? Sim, precisamos!
Tal poesia do futuro eu antevejo como o contrário de hoje, poesia bem cantada, não poesia comezinha, da falsa virtude do comezinho, da falsa humildade do cotidiano, se queres falar de coisas cotidianas, sejam cronistas, não poetas! A sedução harmônica que muitos dizem anacrônica é o salto necessário para sairmos desta contemporaneidade fajuta do reino da mediocridade!
Ó sonhadores, sonhem do jeito certo uma vez na vida! Sejam detentores do prazer, hedonistas musicais, façam de suas saturnais a fonte de que emana a vida, e não apenas façam um pastiche ou coletâneas de esquetes imitando o humor idiota de americanos!
Podemos ser livres no que fazemos, e que as editoras acordem para a poesia do futuro, a verdadeira poesia do futuro, que não é nada mais que uma reflexão da tradição reaproveitada em novos sentidos, voltemos à poesia sensorial, não esqueçamos de que ela não é Metafísica, no sentido estrito, venhamos dar boas vindas ao sentido lato da vida, que a eternidade não seja trocada por uma simples natureza morta que ousam chamar poesia.
Sejamos vivos como viva é a inspiração, sejamos espertos e não sejamos mesquinhos, poetas devem viver o que dizem. Poesia é vida antes de ser palavra ou verso, poesia é o fundamento de tudo. E façamos música e não rimas sem gosto, sejamos os novos musicistas do que se anuncia como o futuro da arte, nada de sobriedade que fala do armário ou de objetos irrelevantes, voltemos à vida, pois ela é mais do que isto!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38641/14/carta-do-poeta-insatisfeito





quarta-feira, 2 de maio de 2018

MY FATHER`S EYES

“o luto vira luta”

Aprendi contigo muitas coisas, olho em seus olhos agora e minha esperança na vida vem da palavra desafio e não da palavra tragédia. Como eu te conheci? Que jornada meu velho, que honra. A gente não precisava fazer transbordamentos para saber que um gostava do outro, do nosso jeito tínhamos um pouco de palavra e um pouco de telepatia, o peito e o beijo, um tanto de dar calor, às vezes com a música íamos longe, e íamos juntos, e estamos juntos, sempre, eternamente.
Eu meio que ficava zangado com algo, muitas vezes, e era engraçado, nisto tudo você mantinha a calma. Lembro de muitas coisas, priorizo as boas, vou viver com o polo positivo de uma relação forte, muito forte, talvez por isso mesmo teve conflito e choro e riso e tudo o que tem direito.
Lembro de algo ainda recente, fomos ao cinema ver Django Livre do Quentin Tarantino, ficamos quase um mês nos chamando não pelo nome ou por pai e filho, pois um ficava chamando o outro de Django até que tudo voltou ao normal depois deste nosso delírio cinematográfico.
Na música, você ia direto ao assunto, isto é, The Beatles e Pink Floyd, suas invenções eram muitas, mas a linha mestra era o rock clássico, não tinha muita firula, ou seja, esta minha mania de pesquisa infinita. Papai ficava com o filé do que conhecemos por música e o problema dele já estava resolvido, ultimamente eu ouvi muito Pink Floyd e Beatles saindo de seu quarto.
Esta semana, já com você no CTI, me perguntei : “Where’s my father?”, me deu um pequeno aperto, não sabia o que estaria por vir. Nos preparamos várias vezes para esta morte, desde sua doença em 1999, a recidiva em 2003, enfrentamos a crueldade inominável que foi a morte do Alex em 2015, mas sempre te vi positivo, talvez filosoficamente, pois na carne eu sentia um abatimento, um cansaço.
No entanto, no hospital, tive um último momento contigo, parecia tudo tranquilo, bom demais para ser verdade, ficamos vendo o canal Bis, ouvindo Rolling Stones por uma hora, parecia que alguém tinha colocado um cronômetro, pois dez minutos depois do programa do canal Bis terminar, chegou o médico e disse que você só precisava evacuar para ir para casa.
Pensei, está tudo bem, qualquer coisa volto na próxima semana. Dei um beijo em sua testa, você beijou a minha mão, sorrimos, parecia tudo tão normal, uma coisa passageira, mas passageiros somos nós, a viagem, a jornada estava por vir, e foi, recebi a notícia acordando de manhã, e foi suave, sutil, minha irmã me disse isto com leveza, e eu flutuava entre o sono e o choque, com a reação emocional ainda contida e guardada.
Agora lembro dos pontões da barra, meus bonecos, meu castelo de Grayskull que ficava no Rio, no seu apartamento, minha irmã com a barbie, Yakult e Todinho na geladeira, muito Beatles, Sade, Dire Straits e Supertramp, o que na época só conhecia pelo nome e pelo som mesmo os Beatles.
Ah, e a sessão ininterrupta de Indiana Jones e o Templo da Perdição, eu que esperava sempre a cena do kalimá que tirava o coração de um escravo vivo, eu e minha irmã que sabíamos o filme de cor e salteado. E tinha também meus almoços no Frajola no bairro da Saúde aonde ficava a ASB, que foi a sua editora nos anos 1980 e início dos 1990. Muita coisa boa, muita coisa interessante. Os banhos na fonte da casa da vovó no Recreio dos Bandeirantes.
E lembro de suas lutas coletivas, a luta pelos direitos dos deficientes, o livro assimétricos, sua luta interna depois da ida de nosso irmão, sua luta física depois da amputação da perna esquerda, tudo foi luta, e eu aqui, com o peito apertado, também estou nessa, na luta, o luto vira luta, mais uma vez, com uma imensa saudade e um rasgo no peito, e como você gostava de dizer : Vamos nessa!

(Andrei de Sampaio Bastos, nascido em 1951 e falecido em 2018, meu pai é jornalista e escritor, lutou contra a ditadura militar e militou na causa dos deficientes).


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38559/14/my-fathers-eyes







quinta-feira, 26 de abril de 2018

ODESSEY AND ORACLE

“uma pérola do psicodelismo e do pop barroco britânico”

O disco do The Zombies tem uma história sui generis no mundo do rock, pois foi o canto do cisne de uma banda que não se firmou no fértil cenário da música dos anos 1960. “Odessey and Oracle”, por sua vez, foi o segundo e último disco da banda britânica The Zombies.
A banda começou como uma algo típico do início dos anos 1960, com uma mistura de rhythm’n’blues e blues, da mesma cepa dos The Rolling Stones e dos The Animals, por exemplo. No entanto, o grupo tinha uma herança musical mais clássica, sem a pegada rascante de um The Rolling Stones, de um The Kinks ou de um The Who, por exemplo, o que lhes dificultou o caminho para o sucesso.
A banda, na verdade, durante a sua atividade, não teve singles muito comerciais, e nem, como se diz, “radio friendly”, operando sempre num campo paralelo às bandas citadas, estas que tinham um som mais robusto.
Porém, em meio de tanta novidade musical, mesmo com o relativo sucesso do single “She´s Not There”, a banda passou despercebida a maior parte do tempo, e mesmo sendo uma banda de talento, com bons singles, e um primeiro LP irrepreensível, a banda, digamos, “não aconteceu”.
No meio do ano de 1967 a banda resolve se separar, mas, por exigência da CBS, eles teriam que gravar um segundo álbum, para cumprimento de contrato. E a situação era totalmente inusitada, assim como a história posterior que envolve este álbum.
Agora tínhamos os músicos Argent e White já ensaiando com sua outra banda, Argent, com um registro mais Hard Rock, e o vocalista Blunstone já planejando sua carreira solo. E, em meio destes outros projetos, Odessey and Oracle viria à lume como um trabalho absolutamente livre de pressões mercadológicas, uma vez que o interesse nele era zero, isto é, um álbum de uma banda que já tinha acabado.
Então temos, logo mais, um exemplar bem acabado do que viria a ser chamado de barroque pop, um trabalho musical em que a banda, sem a supervisão da CBS, que já havia entregado os pontos, apenas exigindo o cumprimento do contrato, faz virar um produto em que os músicos da banda puderam ser honestos e sinceros, sem podas de quem quer que fosse, com parte fundamental do álbum sendo feita no mítico estúdio do Abbey Road.
Este cenário anárquico só teve uma exceção, que foi a faixa “A Rose For Emily”, que deveria ter sido acompanhada por um quarteto de cordas, mas que não teve êxito por corte de orçamento da CBS, e então a banda gravou a demo original, só com o piano, que manteve o charme da faixa e uma certa simplicidade acessível.
Gravado em 1967, em pleno “Verão do Amor”, o disco foi finalmente editado em 1968. O fato era que, ninguém ainda sabia, nem sequer tinha notado, mas a banda The Zombies havia realizado uma verdadeira obra-prima para as gerações vindouras.
“Odessey and Oracle” foi um disco feito na sombra, num contexto obscuro. No entanto, já com a banda acabada de fato, aconteceu como que uma luz inesperada, como vindo do nada, que foi a edição da última faixa do disco, “Time of the Season”, em 1969, que vira um hit single que a banda nunca alcançou quando estava em atividade, e o disco ressurge das trevas como uma pérola do psicodelismo e do pop barroco britânico, evocando o melhor da música daquela época como era Pet Sounds, Magical Mystery Tour ou a psicodelia do primeiro Pink Floyd, de Syd Barrett.
O álbum “Odessey and Oracle” tem 12 faixas, abrindo com “Care of Cell 44", com um piano pra cima e com trechos vocais que lembravam um tanto os Beach Boys. Tal piano que continua como destaque em “A Rose for Emily”, seguida de “Maybe After He's Gone", a hipnótica “Beechwood Park", temos ainda "Brief Candles", também a "Hung Up on a Dream", com instrumental mais variado, a estranha “Changes”, a mais pop “I Want Her, She Wants Me", o belo piano em “This Will Be Our Year", mais uma faixa estranha com “Butcher's Tale (Western Front 1914)", seguida de "Friends of Mine", mais curta e também de pegada mais pop.
Por fim, temos a última faixa, que será o hit single tardio "Time of the Season", que é mais um episódio inusitado da feitura e repercussão de “Odessey and Oracle”, que hoje figura como um dos clássicos dos anos 1960 na música.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38500/14/odessey-and-oracle





segunda-feira, 23 de abril de 2018

GÓNGORA, A PAIXÃO DA METÁFORA

“tal estro poético logo ganhou o nome de gongorismo”

Luís de Góngora y Argote, nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, foi um poeta espanhol do chamado Siglo de Oro das letras espanholas. Góngora será o poeta mais importante da que seria a chamada poesia aguda, e líder da corrente literária autodenominada de cultismo.
Góngora então segue tal estilo rebuscado, de uso acentuado da hipérbole, de metáforas complexas, complicadas e obscuras, também uma poesia que praticava a dubiedade, tal estro poético logo ganhou o nome de gongorismo. A denominação desta poesia de aguda, por sua vez, vinha da paixão da poesia gongórica pela metáfora, e isto se dando ao paroxismo e como uma obsessão por uma linguagem rebuscada e de alta abstração.
O que se denomina o Siglo de Oro era o contexto extraordinário em que se deu a produção artística do século XVII espanhol, pois foi o meio em que nasceu um fenômeno literário único nas letras espanholas, com obras de autores importantes como Quevedo, Lope de Vega, Cervantes e do próprio Góngora.
Góngora tinha então a escrita produzida no castelhano imperial, língua que tinha, por sua vez, ocorrências de helenismo, latinismo, uma língua bem retórica e que também trazia alusões mitológicas. E em 1581, já na corte de Filipe III, Luís de Góngora cria algumas inimizades literárias, sobretudo com Francisco de Quevedo y Villegas, um escritor que pertencia ao conceptismo, que cultuava a sutileza dos conceitos, ao contrário do gongorismo que se voltava para a complexidade da forma poética. Já famoso como poeta em 1585, Góngora é citado por Miguel de Cervantes em La Galatea.
Poesia de profunda abstração intelectual, tal estilo cultista de Góngora passa a ser considerado uma poesia fria e de mau gosto a partir do século XVIII. Como exercício ocioso de uma vida cortesã, passa a ser vista como uma poesia frívola, tendo a poesia aguda sido somente readmitida ao plano crítico somente no século XX, já no contexto do Modernismo. A poesia de Góngora, de um rebuscamento extremo, repelia a presença de leitores vulgares, destinada somente àqueles que tivessem a erudição exigida para a decifração de tais labirintos metafóricos que produziram obras como a Fábula de Polifemo e Galateia e as Soledades.
Por sua vez, na Fábula de Polifemo e Galateia, de 1612, temos a narração de um episódio mitológico descrito no livro XIII das Metamorfoses de Ovídio : os amores do ciclope Polifemo pela ninfa Galateia. A versão gongórica de tal mito nos vem, por sua vez, com uma complexidade de recursos estilísticos, com latinismos, figuras de linguagem de alta elaboração, e uma grande ocorrência de referências da mitologia grega e clássica.

POEMAS :

FÁBULA DE POLIFEMO E GALATEIA

I : Este poema abre já no culto de Talia, musa da poesia ligeira, no que temos : “Estas que me ditou rimas sonoras,/culta embora bucólica Talia,”. O ditado é de rimas sonoras, o poema é fluido, como Talia, no que se vê, então :  “Em que a alva é rosas, rosicler o dia,” (...) “Ouve-as, que minha avena principia,/Se já os muros não te veem de Huelva/Pentear o vento, fatigar a relva.”. A visão bucólica reina neste começo de fábula.
II : O pássaro emerge, e o poema se abre tal qual :“Pronto alise do amestrador na mão/O generoso pássaro sua pluma,” (...) “Tascando o freio de ouro alveje-o então/Do cavalo andaluz a ociosa espuma;/Gema o lebrel em seu cordão de seda/E à trompa enfim a cítara suceda.”. Neste poema, que dá seguimento à fábula, mais uma vez temos uma descrição rápida e curta, em que o falcão está pronto para caçar, embora se queira que a cítara (poesia) possa suceder a trompa (caça), o que o poema esperançoso nos aponta, ao fim.
III : O poema segue contando a fábula, e logo nos apresentará o personagem central, no que temos : “Dá trégua ao exercício teu robusto,/Ócio atento, silêncio doce, enquanto/Debaixo escutas de dossel augusto/Do músico alto e forte o fero canto.” (...) “Teu nome escutarão os fins do mundo.”. Portanto, Polifemo aqui já nos aparece, este que é o músico alto e forte, cuja fama ecoa não inferior ao som do clarim da poesia.
VI : Na gruta está Polifemo, este que conduz seu rebanho, nos ásperos cumes dos montes, Polifemo é o pastor desta sua grei de cabras, no que segue : “Daquele formidável pois da terra/Bocejo, o melancólico vazio/A Polifemo, horror daquela serra,/Bárbara choça é, pouso sombrio” (...) “Grei de cabras esconde : cópia bela,/Que um silvo junta e que um penhasco sela.”. A fábula nos dá agora o mundo em que está inserido o músico e pastor Polifemo.
VII : Aqui temos o ciclope, Polifemo, e que era obedecido até pelo mais valente pinheiro, no que temos : “Um monte era de membros eminente” (...) “Ciclope, a quem pinheiro o mais valente,/Bastão lhe obedecia tão ligeiro,/E ao grave peso junco tão delgado,/Que um dia era bastão e outro cajado.”. Por fim, o ser filho feroz de Netuno, de um olho, tem seu poder de gigante.
VIII : Aqui temos a descrição física do gigante, do ciclope, de Polifemo, no que segue : “Negro o cabelo, imitador undoso/Das tão obscuras águas do Leteu,” (...) “Voa sem ordem, pende sem asseio;/Caudal é a sua barba impetuoso,/Que (adusto filho deste Pireneu)/Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão/Sulcada só dos dedos de sua mão.”. Temos aqui imagens como o do Lete, rio dos mortos, ciclope que aqui é impetuoso, a descrição é então grandiosa.
XII : Aqui temos então a descrição da música poderosa de Polifemo, que altera o mar e rompe o caracol de Tritão, no que segue : “Cera e cânhamo uniu (que não devera)/Cem canas, cujo bárbaro ruído,/De mais ecos que uniu cânhamo e cera” (...) “A selva se confunde, o mar se altera,/Rompe Tritão seu caracol torcido,/Surdo foge o baixel a vela e remo :/Assim é a música de Polifemo!”. Eis, mais uma vez, a descrição desproporcional deste gigante de um olho, do ciclope que altera o mar com a sua música.
XIII : Agora a fábula nos apresenta Galateia, esta que reúne em si as três Graças, filha de Dóris, ninfa, também pavão de Vênus e cisne de Juno, no que segue : “Ninfa, de Dóris filha, e entre as mais bela,/Adora, que já viu o reino da espuma./Galateia é seu nome, e doces nela/Vênus as Graças três junta em só uma.” (...) “Pavão de Vênus é, cisne de Juno.”. A descrição é sublime, e coloca a ninfa no cume da graciosidade.
XVI : Palemo é o jovem do mar, mas Galateia não lhe concede o seu favor, embora nos desdéns o atinja menos do que a Polifemo, no que segue : “Jovem do mar, fontes cerúleas tens,/E as cinges de coral tenro, ó Palemo,” (...) “se nos desdéns/Perdoado algo mais que Polifemo,/Pela que, mal te ouviu, calçada plumas,/Tantas flores pisou como tu espumas.”. A fábula segue seu tom de encantamento, na descrição precisa deste mito.
XVII : Aqui temos a descrição da fuga da ninfa, na sua carreira longe do enamorado, e segue ligeira, no que temos : “Foge a bela; e bem quer ser o marino/Amante nadador, deixando a esteira,” (...) “Mas que dente mortal, que metal fino/Poderá a fuga suspender ligeira/Que o desdém solicita? Ó, quanto erra/Delfim que segue n`água corça em terra!”. A fábula aqui se mantém como uma descrição do mito em detalhes, e que Góngora nos proporciona com sua mestria metafórica.

POEMAS :

FÁBULA DE POLIFEMO E GALATEIA

I
Estas que me ditou rimas sonoras,
culta embora bucólica Talia,
Ó excelso Conde, nas purpúreas horas
Em que a alva é rosas, rosicler o dia,
E quando com áurea luz Niebla decoras,
Ouve-as, que minha avena principia,
Se já os muros não te veem de Huelva
Pentear o vento, fatigar a relva.

II
Pronto alise do amestrador na mão
O generoso pássaro sua pluma,
Ou tão mudo na alcandora, que em vão
Até o guiso desmentir presuma;
Tascando o freio de ouro alveje-o então
Do cavalo andaluz a ociosa espuma;
Gema o lebrel em seu cordão de seda
E à trompa enfim a cítara suceda.

III
Dá trégua ao exercício teu robusto,
Ócio atento, silêncio doce, enquanto
Debaixo escutas de dossel augusto
Do músico alto e forte o fero canto.
Com as Musas hoje alterna o gosto justo,
Que caso a minha possa ofertar tanto
Clarim – e à própria fama não segundo –
Teu nome escutarão os fins do mundo.

VI
Daquele formidável pois da terra
Bocejo, o melancólico vazio
A Polifemo, horror daquela serra,
Bárbara choça é, pouso sombrio
E espaçoso redil no qual encerra
Quanta dos montes o áspero feitio
Grei de cabras esconde : cópia bela,
Que um silvo junta e que um penhasco sela.

VII
Um monte era de membros eminente
Este (que, de Netuno fero herdeiro
Com um olho ilustra a testa, esse orbe ingente,
Êmulo quase do maior luzeiro)
Ciclope, a quem pinheiro o mais valente,
Bastão lhe obedecia tão ligeiro,
E ao grave peso junco tão delgado,
Que um dia era bastão e outro cajado.

VIII
Negro o cabelo, imitador undoso
Das tão obscuras águas do Leteu,
Ao vento que o penteia proceloso,
Voa sem ordem, pende sem asseio;
Caudal é a sua barba impetuoso,
Que (adusto filho deste Pireneu)
Seu peito inunda, ou tarde, ou mal, ou em vão
Sulcada só dos dedos de sua mão.

XII
Cera e cânhamo uniu (que não devera)
Cem canas, cujo bárbaro ruído,
De mais ecos que uniu cânhamo e cera
Alboques, duramente é repetido.
A selva se confunde, o mar se altera,
Rompe Tritão seu caracol torcido,
Surdo foge o baixel a vela e remo :
Assim é a música de Polifemo!

XIII
Ninfa, de Dóris filha, e entre as mais bela,
Adora, que já viu o reino da espuma.
Galateia é seu nome, e doces nela
Vênus as Graças três junta em só uma.
São uma e outra luminosa estrela
Luzentes olhos de sua branca pluma :
Se rocha de cristal não é de Netuno,
Pavão de Vênus é, cisne de Juno.

XVI
Jovem do mar, fontes cerúleas tens,
E as cinges de coral tenro, ó Palemo,
Rico de quantos a água engendra bens
Do Faro odioso ao promontório extremo;
Porém na graça igual, se nos desdéns
Perdoado algo mais que Polifemo,
Pela que, mal te ouviu, calçada plumas,
Tantas flores pisou como tu espumas.

XVII
Foge a bela; e bem quer ser o marino
Amante nadador, deixando a esteira,
Já que não áspide ao seu pé divino,
Dourado pomo a sua veloz carreira;
Mas que dente mortal, que metal fino
Poderá a fuga suspender ligeira
Que o desdém solicita? Ó, quanto erra
Delfim que segue n`água corça em terra!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38448/17/gongora-a-paixao-da-metafora






             

sexta-feira, 20 de abril de 2018

PARA QUE FILOSOFIA?

“é melhor existir do que o nada”

Quando penso em porque alguém escolhe filosofar e, pior que isso, escolhe a filosofia como meio de vida, tal como eu, tem claro o futuro que lhe aguarda, uma vez que sabe que vai ter que pensar sem cessar e, no dito meio de vida, ensinar o que não se ensina, ou seja, filosofar e não filosofia.
Devaneio? Aí é um paradoxo, já que a filosofia, no entendimento do senso comum, trabalha com a razão, mas o devaneio é a escolha por tal labuta, o filosofar exige de nós uma disposição para a reflexão e a construção de um pensamento que nem todos tem, não é para qualquer um!
Uma consciência torturada? Diria outro alguém que desdenha das questões da vida. Bem, talvez ... vai saber, né?! No meu caso eu fui um jovem de certo modo torturado pelas questões da vida e com o tempo isso ganha em disciplina e complexidade, mas deixa de ser tortura e vira indagação seletiva, nem tudo se pergunta, é o que descobrimos com o passar do tempo e com as leituras, como também nem tudo se responde, é a outra obviedade como efeito colateral do questionar.
E me vem à cabeça de porque fiz esta escolha que eu diria ser, sem falsa modéstia, de corajosa. Talvez, na juventude, façamos escolhas inconscientes totalmente conscientes. Ora, novo paradoxo? Sim, é claro! Trabalhamos com paradoxos a vida inteira, e não adianta o filósofo vir com o princípio de não-contradição, uma das estruturas da chamada razão ou raciocínio, é que é uma loucura alguém filosofar em tempos tão bicudos e medíocres, é um fato.
Certa vez eu me indaguei se fiz o certo, ou se deveria ter virado homem de negócios e deixar essas questões existenciais de lado, mas havia uma força maior e inexorável que sempre me conduzia para a filosofia e para a busca de alguma verdade ou sentido na vida. Por quê? Para quê?
Tenho que responder, mas sabendo que é em vão, tudo na vida quando se quer arriscar pode ser em vão, pois a filosofia é em vão em razão de suas respostas mas não em razão de suas perguntas, eis, eureka! Pois então a pergunta é mais importante para o filósofo do que a resposta, pois toda resposta denota certo sinal de arrogância intelectual ou pretensão descabida e irrefletida, já que uma vez sabendo da resposta a questão cessa e torna-se necessária nova ocupação, fato.
Mas a verdadeira ocupação do filósofo é a pergunta e, mais do que isso, a qualidade da pergunta, ou seja, temos que aprender a perguntar para filosofar de fato, senão seremos presas fáceis da falácia e do sofisma, seremos manipulados pela ilusão ardilosa de um raciocínio intempestivo, é preciso então refletir calmamente, a pressa não é própria do filosofar, é preciso ruminar antes de falar, só se fala do que se tem a devida medida, e do que não se pode falar simplesmente calamos, essa é a medida que diferencia os que estudaram dos cabeças de bagre.
Mas, volta a pergunta fundamental, para quê isso tudo? Para quê uma história tão vasta e milenar se até hoje não temos nenhuma conclusão de nada! Ora, às favas com a filosofia! (Diria agora um incauto ... ) Ora, porque perder meu tempo com perguntas fundamentais se não há resposta fundamental. Qual a razão disso? Qual é o mérito da filosofia e do filosofar? Ora, não temos que sobreviver, trabalhar? O tempo acabou! O tempo acabou! Não temos tempo para pensar, quanto mais filosofar! (Mais uma vez, aqui temos o argumento cético do incauto insistente, é a ignorância presa da falácia e do sofisma da qual eu avisei logo acima, todo cuidado é pouco ...) Mas, e então filósofo? Me responda, para quê filosofia? ....
Tal pergunta é da mesma natureza de outra pergunta fundamental que é a seguinte:
Para quê a vida?
Então temos aí o cerne do problema, pois perguntando pela filosofia estamos também e ao mesmo tempo perguntando pela vida, já que, num entendimento que eu chamaria de filosofia honesta e não formal, a pergunta pela filosofia desemboca na pergunta pela vida, aí reunimos duas perguntas da mesma natureza que podem se fundir e recriar a questão numa indagação pelo sentido das coisas, coisas? Objetos? Não, é sentido lato e não o estrito, a filosofia, ao contrário de saber acadêmico estrito, sempre pergunta em sentido lato, já que a pergunta pela vida também está e se dá em sentido lato, para “responder”.
Enfim, precisamos viver bastante e nada de resposta peremptória sobre o porquê ou o para quê, mas uma resposta numa pergunta, uma resposta que pergunta e se instaura no que é importante, por que o mundo? Para quê o mundo? E respondemos: para ensinar o homem a viver, pois é melhor existir do que o nada, que é o impensável.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38408/14/para-que-filosofiaij



segunda-feira, 16 de abril de 2018

BORGES, OS SONHOS BÍBLICOS E MAIS DESCRIÇÕES ONÍRICAS

“um dos temas do sonho é a concepção da insignificância da vida individual neste mundo”

Borges nos fornece neste seu Livro dos Sonhos uma perspectiva em que a ficção mais uma vez se faz como uma aparente crítica literária, mas no caso deste livro temos um caso mais específico ainda da literatura borgiana, temos uma espécie de documento transcrito, vide o relato inicial da História de Gilgamesh, seja no trecho em que se dá os diversos relatos bíblicos do plano onírico e de como o terreno do sonho sempre foi, na era antiga e demais contextos, também associado com uma faculdade profética ou de adivinhação.
Na abertura do livro temos, portanto, a História de Gilgamesh, este que é um dos registros de ficção mais antigos do mundo civilizado, surgido nos inícios da civilização mesopotâmica, pois, em meio de uma mitologia que reunia entidades como Tamuz e Ishtar, Gilgamesh nos aparece como um personagem sui generis, não fazendo parte do panteão sumério, por exemplo, mas sendo o primeiro poema épico de que se tem notícia na nossa História do mundo. E Borges faz aqui uma reprodução fiel do texto antigo, na relação entre Gilgamesh e Enkidu, e no afã de romper o mundo dos mortais em direção do mundo dos deuses, Gilgamesh teria, no entanto, o mesmo destino reservado aos mortais, a finitude, no que o herói regressa, por fim, a Erech.
Se segue, no livro de Borges, então, uma série de textos bíblicos curtos, todos referentes ao papel do sonho no contexto destes relatos bíblicos, e começando com o mais conhecido, que é o de José no Egito, no Gênese, que era um hebreu feito cativo que ganha a confiança de Faraó ao ser o único que teve a capacidade de interpretar um sonho do soberano que nenhum dos adivinhos do Egito tiveram como decifrar.  E José acaba sendo então nomeado por Faraó o superintendente do Egito.
Outro relato bíblico famoso e também transcrito por Borges em seu Livro dos Sonhos é o de Daniel com os sonhos de Nabucodonosor, já no reino caldeu ou neobabilônico. A história começa com um pesadelo que o soberano tivera, mas que havia sumido de sua memória, e nisto ele convoca todos, isto é, os adivinhos, os magos, os encantadores, e por fim os próprios caldeus, mas ninguém lhe dá a resposta, mesmo com a ameaça do soberano sobre o seu povo de perecerem se não lhe dessem a resposta.  Uma vez que os caldeus disseram ao rei que só os deuses poderiam lhe dar tal resposta, ele então ordena a morte de todos os sábios de Babilônia. E Daniel, que também poderia perecer, pediu ao rei, no entanto, um tempo, e lhe prometeu que desvendaria o mistério.
E então o segredo foi descoberto por Daniel numa visão durante a noite. Daniel então é levado ao rei por Arioc, e este cativo, um dos filhos de Judá, diz ao soberano : “Os sábios, os magos, os adivinhos e os agoureiros não podem descobrir ao rei o mistério que o rei deseja descobrir. Mas no céu há um Deus que revela os mistérios, o qual mostrou, ó rei Nabucodonosor, as coisas que hão de acontecer nos últimos tempos.”
E então temos a revelação de que o sonho era de que o rei olhava uma estátua bem grande, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, uma das partes do pés era de ferro e a outra de barro. O rei olhava, segundo a revelação feita a Daniel, a estátua, quando então rolou uma pedra de um monte e feriu a estátua nos seus pés de ferro e de barro e os fez em pedaços. E tudo se quebrou, o ouro, a prata e o cobre também. Este era o sonho do rei e que Daniel então também teve a visão. 
E a tradução do sonho feita por Daniel, com o concurso de seu Deus, era o de que o rei era a cabeça de ouro, de um reino próspero, que seria sucedido por um reino menor que o dele, que seria de prata, um terceiro reino então viria, de cobre, o quarto reino de ferro, e este reino, por fim, será dividido, entre a firmeza do ferro, e a parte frágil do barro. Então Nabucodonosor se prostra diante de Daniel dizendo-lhe que aquele Deus que revelara o sonho era o Deus dos deuses.
Temos então em seguida mais relatos de sonhos bíblicos, tendo então uma grande alegoria de quatro reinos, com todo o simbolismo que envolve também imagens fundidas de animais para interpretações de acontecimentos históricos, lembrando uma dinâmica comum entre a alegoria do sonho e sua interpretação, o simbolismo sendo sempre um enigma evidente, nunca algo sem sentido, daí que a interpretação, quando nos aparece, revela a lógica interna de tais sonhos. E terminamos o trecho bíblico do Livro dos Sonhos, por fim, com orações e confissões de Daniel e a citação do Evangelho de São Mateus, com a descrição do sonho de José que era uma comunicação espiritual do anjo do Senhor, a fuga para o Egito, incitada pela perseguição de Herodes, e o retorno, com o falecimento do perseguidor, da sagrada família a Israel, por fim.
Segue-se então, ao término do ciclo bíblico em Livro dos Sonhos, um conto sobrenatural hitita, História de Kessi, e então a fonte grega “Os sonhos procedem de Zeus”, da Ilíada, As Duas Portas, parte I, da Odisseia, uma fonte latina, a parte II, vinda da Eneida, O Sonho de Penélope, que era alegoria do retorno de Odisseu a Ítaca, o qual dava um fim ignominioso aos pretendentes de Penélope, a águia que mata os gansos rompendo-lhes o pescoço, retirado da Odisseia. E temos em seguida Os Idos de Março, um dos episódios mais famosos do périplo que foi o trajeto romano do reino à República e daí para se constituir como um grande império, Idos de Março que envolve a conspiração contra Júlio César e sua morte, relato este que foi feito pelo historiador Tito Lívio, mas que aqui em Borges se inspira na conhecida Vidas Paralelas de Plutarco.
Segue-se um pequeno relato sobre O Sonho de Cipião, obra de Cícero, que tem caráter filosófico-religioso, e tem a descrição do sonho do título, que envolve, na sua parte reflexiva, ou seu leitmotiv, a questão da piedade e da justiça, que então nos leva a uma descrição dos mundos supralunares e sublunares, de como esta divisão astronômica é também uma divisão da alma do Homem, o mundo inferior, sublunar, como lugar da mortalidade e da decrepitude, “exceto as almas dos homens”, como nos lembra Borges nesta descrição, e temos então a necessidade destes homens de se voltarem às virtudes citadas da piedade e da justiça, voltando então a vista a este plano superior das esferas supralunares, “onde nada é decrépito ou mortal”, como nos lembra Borges.
E o autor então também nos dá a chave : “A alma se acha ligada por sua parte superior a estas esferas, e somente poderá regressar efetivamente a elas, como sua verdadeira pátria, quando esqueça a caducidade dos bens materiais e das falsas glórias terrenas”. A origem de tais ideias em Cícero remete a Pocidônio, a qual alguns negam, e temos um plano geral em que tais concepções eram correntes, seja da influência das ditas religiões astrais, seja na concepção platônica, e que vai influenciar, por sua vez, autores posteriores, se destacando então Macróbio.
E aqui cito mais uma vez o texto borgiano, que nos diz : “É mister observar que um dos temas do sonho é a concepção da insignificância da vida individual neste mundo, comparada com a imensidade do cosmo. O tema está igualmente desenvolvido no Livro VI da Eneida (revelação de Eneas a Anquises) e em alguns escritos estoicos (por exemplo, em Sêneca, Ad Marciam de consolatione, XXI).”
Quanto a Macróbio, o temos citado pelo texto borgiano que se segue em Livro dos Sonhos, que é o Sonhos Caseiros, que nos diz da desimportância dos sonhos prosaicos ou cotidianos, e temos a valorização dos sonhos mais sublimes, lembrando que este autor, por exemplo, da obra Saturnais, escreveu um difundido Comentário ao Sonho de Cipião, capítulo VI da República de Cícero, Macróbio que, por sua vez, era um escritor latino do século V, e temos novamente esta descrição cosmogônica de origem platônica e pitagórica.
E seguindo a primazia de tais sonhos maiores, após na História, temos o mestre de São Tomás de Aquino, que era São Alberto Magno, iniciador da conciliação escolástica entre a filosofia grega e a doutrina cristã, na sua obra Da alma, reforçando a irrelevância dos sonhos menores e elevando os de origem divina. E tal levantamento se baseia bem em Rodericus Bartius, uma das fontes principais do Livro dos Sonhos de Borges.
(continua)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/38375/17/borges-os-sonhos-biblicos-e-mais-descricoes-oniricas






 



sábado, 14 de abril de 2018

METAL FERVIDO

Nos jardins suspensos
eu tenho as garras
do que me impulsiona,
estes caros livros
de vultos e sopros,
os cantos setentrionais
e meridionais,
os ventos austrais e boreais,
poemas divinos e satânicos,
noites negras e dias solares,
setas de corações convulsos,
borrões de poemas incultos,
vastas formas estouradas
de versos petrificados,
imensos rios que desaguam
como uma golfada
de literatura,
ah, como me faz bem
este pouco poema
de estrela e de cometa
que volteia
como supernova
e quasar,
como me faz bem
ser este meio
e mensagem
com a fúria
do metal fervido.

14/04/2018 Gustavo Bastos