PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 24 de março de 2018

O HOMEM VITRUVIANO

Numa garganta diabólica se faz o Homem, este ente que não se reduz ao solo de um ser inanimado, embora seja pó quando confrontado com a morte. Seu sonho rutila como foice e trabalho duro que se expande no cosmos e na mente universal, logo eu que sou poeta teria que contar-lhes do destino cósmico, como um grande som que faz melodia na escalada do tempo infinito, como um pássaro que vê luz e sombra, mas não perde o voo.
Assinatura dos artistas em suas pinturas, eu vi em um grau violento os ângulos da visão filosofal, em termos que o notório saber se anulava frente ao dom místico e visionário que somente a poesia em seu ébrio fardo poderia nos decifrar sua simbologia, é o dom do ocultismo que revela as águas de Caronte, os vinhos que não se detêm no mar dos mortais, eu tinha uma velha arma de brinquedo que eu trazia no meu colo quando eu era ladrão, e minha ideia de luta era um nariz quebrado.
Eu deleitava os chifres de um diabo azul, eu carregava em vermelho as astúcias de uma dose de uísque quando derretia o gelo. Lá na pedra ametista remava com langor o santo beberrão que idolatrava o anjo caído dos sóis, leve como a pluma um vingador lutava também, com a cara na areia, seu deserto intelectual, seu academicismo que era deglutido pelo mundo cão das efervescências de álcool e patifes.
Dentro do proscênio andava a diva dos horrores, pintava a cara de rosa, como uma feiticeira olhava ao derredor, era casta, embora na galhofa se portasse qual prima-dona. Uma ópera se enegrecia no campo do fastio, o solo seco em que o vinho indócil descia era feito dos ossos de antepassados que nos velhos trágicos de Ésquilo vestiam-se de embriaguez e máscara.
Ali, perto do Oriente, dravidianos faziam um ensaio do Mahabarata, velhos lemas contorciam-se no barato transcendental de um soma pré-Huxley. Eu cantava de gaiato um pouco desta concórdia besta de estar impressionado com a natureza e a paisagem, um futuro se abrindo como um leque florido e cheio de vivo calor, somente quando eu entrava em transe é que era possível ver o fantasma que morava dentro da poesia de salão, um meneio de menina rosa somava-se ao caos que o trabalho ajudava a desenhar naquele átrio de pedra.
Um cachorro cego e louco latia com estribilho rouco, eu disse ao dono da banca de jornal ali perto que o dono deste cão deveria estar preso, um homem vitruviano e renascentista do futuro não poderia tolerar violência contra o cachorro louco, era contra a paz urbana que reinava na manhã de domingo quando eu lia na página de cultura que um poeta havia passado por uma prova de fogo, saía da lama e do lodaçal e agora vivia num jardim com seus gnomos cantando alegria do lótus e mantras da era de aquário, ele e seus bobos cantores subiam a montanha para se embriagar de vinho e ver na estrela vésper talvez um disco solar ou uma nave vinda de órion ou do portal que um médium de umbanda havia psicografado na noite de sexta na festa de exu.
Depois deste conhecimento oculto travado com os dravidianos, se costumava ter uma certa memória fictícia de um tibet longínquo ou ainda de Rama, mas mesmo no maior do silente campo, nada superava a dinastia atlante depois das colunas de hércules, sete sábios e um livro do sol em que as coordenadas já estavam postas, o dom da profecia estalava naquele sol vermelho após o dilúvio. As bruxas do mar já dançavam, e as sereias ainda viviam naquele mar de arquipélago em que creta ainda reinava. Somente o capitão fenício tinha rompido as fronteiras em direção ao sol marroquino e a uma cartago que ainda balbuciava nas primeiras casas de terra marrom.
O mapa que tinha o sol ao centro agora, neste mundo contemporâneo, invadia-se de sinais de rádio, de sons de vidas conectadas, elétrico sonho de hiperlink, o sonho faustoso dos programadores cobol, as sinapses virando-se em máquinas em busca da imortalidade, o delírio subatômico e a eterna busca da teoria de tudo, um certo rancor capitalista de injustiça e sonhos derrotados, uma grande miséria rondando o progresso técnico, e o fim da linha para uma sociedade que produz lixo.
Na beira do precipício vira o milênio o homem vitruviano, este que para visionários tem o espírito completo, é uma luz búdica, e que diante da técnica não se satisfez em ter o dom da luz, mas quer se unir ao seu maquinário para ser um ser híbrido, confrontando seu espírito imortal, seu corpo finito, e sua mescla robótica e sua memória que poderá virar um chip dentro do circuito da imortalidade eletrônica. O futuro estará em mãos androides, um fundo distópico sempre realizado em cibercultura, o hiperlink da memória produzirá um super-ser, não mais homem, não mais máquina, este que tinha o dom da luz, e agora tem como que um sonho de golem para conquistar a natureza que lhe destruirá, o homem vitruviano que perderá seu ângulo com a natureza, e como homem decaído, será levado pelo caos climático deste seu sonho de indústria e máquina.
Corta agora para cá, a cinemática romperá a febre do milênio, novos remédios, novas aventuras, abre-se a estrada do sol, como em toda road trip, um poeta e alguns loucos, um filósofo e um cientista, um monge e um ébrio. Abre esta carta náutica, temos dois pólos, uma linha equatorial, eu espero sinceramente que o feitiço que produziu o universo tenha um bom dom de revelar talentos quando tudo está perdido, e o dom da poesia nos faça sol em meio da tempestade, eu rimava bem como um furto, eu ia bem antes do surto, mas não tem tempo de lamento, tem tempo de razão, e minha mira já derrubou diabos e pobres diabos, tenho em mim várias cores em que firmo meu diapasão, e na bússola que sonha, delírio é poesia.
Acerta teu contrato com o editorial do dia, o julgamento político atingirá os carreiristas, os afortunados passarão por provação, já ligo os pontos que um idiota tentará se eleger, em vão, o dia brilha e o sol é justo, vamos em frente com toda a rotina, as cartas estão na mesa e na manga, tira um coelho e mata dois coelhos, tira um ás e guarda teu coringa, um diabo faz guerra, um anjo traz paz, entre os demônios da roda de sangue, a guerra acaba, e a paz mais funda tem poema que lhe dê a forma, que é a forma do riso, poema que enforma, a forma alegre, o dom de ser feliz.
Mas, não fique aí, este teu lamento é de poetas que se suicidam, não seja um poeta triste, se és um homem vitruviano, você, homem e mulher, trans ou o que quiser, teu dom já vem todo inteiro, como Buda, já temos tudo, o dom de ser é que já temos, e nada mais importa, viverá mais quem for ver que tudo cabe em um mundo mais justo, o mundo cão dos injustos cairá, nada restará aos porcos do sistema, vejo luz em vocês, cada um ao seu tempo, como uma orquestra ou big band que se inspira com o raio do sol.

Segue aqui o último trecho do poema :

TEMPO SOLAR :
Eis que tudo é ritmo, eu sei, eu sei,
Acendo um cigarro ou um charuto
e parece sempre tudo a mesma coisa,
mas nem toda revolução se dá no susto,
o território a se tomar muitas vezes
tem o tempo, este mestre, para
nos dar a razão com que sempre
sonhamos.

24/03/2018 Gustavo Bastos
(poema em prosa)







  


quarta-feira, 21 de março de 2018

OLHO MAIOR QUE A BARRIGA

"É a Literatura, estúpido!"

O cenário literário brasileiro está ganhando tonalidades alarmantes, hoje qualquer projeto literário (a não ser que você pertença à alta sociedade ou a uma panelinha) está inviabilizado num primeiro momento, e talvez até num segundo momento. É uma profusão de concursos literários caça-níqueis, com exigências absurdas como não publicação impressa ou eletrônica, no caso das publicações eletrônicas um sinal de ignorância preocupante, em plena era dos blogs e das redes sociais literárias.
De outro lado, editoras que veem o escritor como uma fonte de renda incalculável, não para a venda de livros, por óbvio, mas pelo preço que o infortunado tem que pagar para ter míseros cem exemplares rodando nas livrarias e feiras literárias.
O que vislumbro, com muito pesar, é um cenário literário de cisão, de um lado os burguesinhos com seus livros de poesia de oitenta páginas, e de outro lado um mundo de gente na internet com blogs e divulgações marginais pelas redes sociais literárias.
A cisão será a consequência desta visão anacrônica e, ao mesmo tempo, exploratória sobre os escritores deste país. Anacrônica por ignorar ou fingir que não há uma nova realidade: os blogs e grupos na web de literatura, onde o objetivo é divulgar os trabalhos escritos para, depois, tentar vender seu peixe com uma publicação que seja. O que acontece? Concursos literários exigindo exclusividade sobre direitos e divulgações, um monopólio absurdo da lavra alheia que resulta em fracasso coletivo para a maioria dos escritores deste país.
A visão de que o mercado é que manda é uma visão ultrapassada, quem manda é o escritor, quem manda é quem trabalha e não quem vende. O caminho para os que fazem blogs literários terá de ser o caminho da independência e da autopublicação, senão terão que se submeter aos ritos de um mercado que exige exclusividade sob uma coisa que não deveria lhes pertencer, o trabalho feito é do escritor, e se ele quiser divulgar seu trabalho em um blog ou outro veículo virtual e, posteriormente, vender seu livro, não vejo problema nenhum.
Entendo que o leitor que se interessar por um determinado blog ou rede social literária comprará o livro. Não vejo o blog e outros meios de postagem (que não é publicação como entende equivocadamente os famigerados concursos caça-níqueis) como um impeditivo para venda de publicações, embora possa haver leitores que ao ver o trabalho no blog não comprem o livro, o que é uma visão pessimista e utilitária, pois quem gosta de literatura terá vontade de comprar um livro publicado pelo escritor-blogueiro.
O cenário dos blogs literários e redes de compartilhamento como o Medium é uma realidade, e, como toda realidade, não pode ser ignorada e defenestrada por uma visão pragmática e econômica de que não há como divulgar um trabalho na web sem prejuízos às publicações futuras. Esta é uma visão anacrônica que não tem mais pé com a realidade, que não é a realidade de mercado, mas a realidade de um cenário novo que veio para ficar.
O caminho da cisão será inevitável, novos escritores independentes correrão por fora desta canalha de editoras e concursos literários que só veem a literatura como produto e não como trabalho, em que a visão de produto ignora a visão laborativa da escrita que deveria estar em primeiro plano.
Certos estarão os que vendem seu tempo para o mercado, e errados os que correrem por fora sem abrir mão de suas convicções e conscientes de que a realidade é outra, totalmente diferente, onde o download e a autopublicação, os blogs e redes sociais literárias serão uma voz dissonante dos chupadores de sangue da velha visão de mercado e de que tudo que é literário tem que se pagar um alto preço para ser divulgado.
Não vou aderir às exigências de um mercado literário que não respeita o trabalho escrito e restringe este crescimento com a propriedade de um produto, como se literatura fosse comida e não ideias. E cito os preços escorchantes cobrados por algumas editoras para um escritor inédito se aventurar numa publicação, algo proibitivo para quem não nasceu em berço de ouro.
Ignorando o cenário da literatura da web teremos esta cisão de que falo, onde só haverá uma patota bem nutrida em suplementos literários de jornais, enquanto uma massa crítica se forma por fora do mercado no mundo vasto da internet.
Se não há escapatória ao mercado, azar do mercado.
É a Literatura, estúpido!

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/38068/14/olho-maior-que-a-barriga






 

 


   

quinta-feira, 15 de março de 2018

O LIVRO DISCUSSÃO DE JORGE LUIS BORGES – PARTE I

“o Quijote, porém, ganha batalhas póstumas contra seus tradutores e sobrevive a qualquer versão descuidada”

PEQUENA INTRODUÇÃO

Em “Discussão” de 1932, Borges reúne os temas que serão correntes em toda a sua obra literária, tais como infinito, realidade, magia, inferno e cabala.

A PENÚLTIMA VERSÃO DA REALIDADE

Borges discorre aqui acerca de um artigo de Francisco Luis Bernárdez sobre as especulações ontológicas do livro “A idade viril da humanidade”, trabalho composto, por sua vez, pelo Conde Korzybski, tal obra que Borges confessa desconhecer. E aqui temos como tema as três dimensões que tem a vida, no que Korzybski elenca faculdades geométricas como comprimento, largura e profundidade, sendo a primeira dimensão associada à vida vegetal, a segunda à vida animal, e a terceira à vida humana. Tendo aqui, portanto, os vegetais levando uma vida em longitude, os animais uma vida em latitude, e por fim os homens levando uma vida em profundidade.
O Homem nos aparece aqui como este que abarca o tempo, e segundo Rudolf Steiner, temos aqui este ente humano no tempo como aquele que possui o eu, e então a memória do passado e a previsão do futuro, isto é, possui o tempo. Por conseguinte, só temos uma negação de uma suposta oposição entre o espaço e o tempo após sua origem na concepção spinoziana dos atributos do pensamento e da extensão, erro metafísico, e que é corrigido quando se entende que o tempo antecede o espaço, que o espaço, num idealismo mais elevado, é um dos episódios do tempo.
O espaço, portanto, é uma das formas da fluência do tempo, no que certas faculdades dos sentidos, como o olfato, e a audição, com a música, por exemplo, temos então a subversão deste espaço, ou melhor, uma independência destes fenômenos da concepção e realidades espaciais. Aqui temos então a refutação do espaço como forma universal de intuição, como queria conceber Kant.

A SUPERSTICIOSA ÉTICA DO LEITOR

Borges discorre aqui sobre a superstição em relação ao estilo no que se refere à escrita e também falando sobre a relação do leitor com o texto literário. Temos então um superdimensionamento da concepção de estilo quando se fala do fenômeno literário, dogmas de estilo que passam desde a economia dos adjetivos como pela concisão como qualidade ou virtude literárias, tal conceito último que Borges chama devidamente de charlatanice da brevidade.
Em Dom Quixote e seu autor Cervantes, Borges logo tenta com esta obra fazer uma operação de desmistificação da questão do estilo, esta obra que aparece aqui, portanto, como um todo mal ajambrado, de fácil tradução, ao contrário de um Gôngora, por exemplo, que tem tal qualidade formal, em que a tradução lhe é um tormento.
No caso do Quixote de Cervantes, Borges nos dá a sua dimensão de texto que não busca a perfeição, e portanto, temos aqui páginas imortais que podem “atravessar o fogo das erratas, das versões aproximativas, das leituras distraídas, das incompreensões”, no que Borges então conclui que “o Quijote, porém, ganha batalhas póstumas contra seus tradutores e sobrevive a qualquer versão descuidada”.

O OUTRO WHITMAN

Numa primeira interpretação de Whitman, temos este poeta que pode ter sido um dos precursores dos muitos inventores caseiros do verso livre, como levanta Borges, questão que então passa pela imitação do poeta no que se refere à faculdade literária da enumeração, fato nada original que recua no tempo até ao exemplo dos salmos da Escritura, pois aqui Borges ainda nos articula uma versão equívoca do poeta Walt Whitman.
Temos sim a imagem verdadeira de um poeta conciso, “de um laconismo trêmulo e suficiente”, uma poesia de privação, portanto, que nos dá uma escrita livre de intenções intelectuais e que nos brinda com o mundo comum e sensorial com informações primárias que vão dar o norte de uma poesia, por fim, que tem a riqueza de uma frugalidade que se nutre das contingências e não de formas sublimes.

UMA VINDICAÇÃO DA CABALA

Borges inicia o texto nos lembrando de que o Corão para os islamitas é um escrito original que é um dos atributos de Deus, anterior à própria Criação. E o autor logo faz referência também à concepção de que a Escritura, por sua vez, é uma escrita do Espírito, aqui como não a divindade geral, mas a terceira hipóstase da divindade que ditou a Bíblia.
Este cérbero teológico, nos mostra Borges, tem a imaginação de uma trindade que nos entrega a concepção de um pai e de um filho e de um espectro como a articulação de um único Deus ou entidade divina que é tomado, segundo uma exegese liberal, como uma teratologia intelectual, e Borges ignora qual seria tal desiderato monstruoso de uma divindade de três hipóstases, só aceitas por ato de fé, pois no intelecto se trata de uma aberração lógica e ontológica.
Temos então como lembrete que o tema cabalístico parte da Gênese (que é a substância da Cabala) e não de outros temas bíblicos, o que nos dá uma visão na qual a natureza da extensão e da acústica dos parágrafos, uma vez que a Cabala se propõe uma operação linguística que culmina num misticismo da linguagem, tem implicações casuais.
E Borges opõe tal linguagem ao que está presente na versificação que, por sua vez, opera a linguagem como ente sonoro, numa prosódia aventureira que estará presente, segundo Borges, em poetas como Tennyson, Verlaine e no último Swinburne. Quando então Borges nos lembra que o “casual nos versos não é o som, mas o que significam”, estando aqui no meio deste caminho autores como Valéry e De Quincey, um tipo intelectual, mas que ainda assim limita o casual na escrita.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  http://seculodiario.com.br/37986/17/o-livro-da-discussao-de-jorge-luis-borges-ij-parte-i







  




quarta-feira, 14 de março de 2018

SELFIE

“há um processo viral de quem tira mais fotos"

Selfie é uma palavra em inglês, um neologismo que tem origem no termo self-portrait, que significa autorretrato, e é uma foto tirada e compartilhada na internet. Atualmente, no fenômeno da internet, a fotografia se tornou veículo popular e banalizado, e que vem de uma arte que desafiou parâmetros do conceito do que seja arte, em fins do século XIX, e que tem mestres como: Alfred Stieglitz, Edward Steichen, Brassäi, Henri-Cartier Bresson, Robert Capa e o nosso Sebastião Salgado, dentre muitos outros.
Agora, com a transição da fotografia analógica, a crise da Kodak, e a expansão da fotografia digital, que se tornou incontornável com o uso de smartphones, há um processo viral de "quem tira mais fotos". E o melhor : isso dá likes e temos o Instagram de prova, linkado com o Facebook, de preferência.
Não tenho a menor pretensão aqui de fazer o papel de "cagador de regras", de dizer o que é certo e errado nisso, até porque não se tem o correto ainda neste fenômeno de quantidade e redes infinitas de fotografia, via smartphones e suas conexões com a internet e suas respectivas redes sociais. O ponto de crítica seria mais no sentido de tentar exatamente auferir sentido ao que seja uma fotografia. De que, se eu postar o meu almoço diário na minha rede social não faz sentido só para mim, mas também, para meus amigos ou para quem me segue.
O selfie, por seu turno, seria o ápice deste questionamento que deve ser feito, sem uma posição radical contra, mas sem o deslumbramento de que este fenômeno é vítima. Postar "toda a sua vida" na rede social faz bem ao ego, pode influenciar pessoas, mas faz um sentido maior? Tudo bem, o twitter pode funcionar como uma agenda biográfica e de rotina, hoje tenho até maior moderação com isso e meu twitter até se tornou mais irônico e ambíguo.
Mas, vale colocar centenas de fotos nas redes sociais com uma assiduidade que talvez diminua ao invés de aumentar a percepção do que acontece na vida das pessoas? Faço as perguntas que acho pertinentes, não sou dono de nenhuma verdade, e nem venho responder estas perguntas, pois elas são um mote de reflexão e não um jogo certo de certezas absolutas.
A fabricação da felicidade no Facebook, e isto linkado com fotos do Instagram, por seu turno, mexe com o conceito de felicidade, que remete, por sua vez, em tempos de redes sociais, com a exibição de si ao mundo (nada mal, por sinal), mas temos crítica? Ou melhor, temos algo a dizer que mude alguma coisa?
Nada contra a felicidade alienada, nada contra o ser feliz de fotos diárias, mas isso tudo é verdade? Ou seja, vincular sua felicidade com exibição de fotos de selfie não seria algo vazio, na verdade? O duck face, paroxismo do selfie, não seria, como Nietzsche diria, um movimento de rebanho? E, para despertar esta felicidade em direção ao seu irmão rejeitado, o senso crítico, não podemos moderar nossos costumes? Não julgar o excesso, mas saber que as fronteiras da vida são bem maiores que os gestos pré-fabricados e midiáticos.
A exibição do ego deveria ser alicerce fundamental de construção crítica, trabalho filosófico e de informação, dentro deste limite expansivo de consciência nos tornaríamos melhores, não só em sentido de felicidade, mas em sentido de transformação do mundo, em clareza e distinção cartesianas com doses extravagantes, e bem dosadas, da plêiade que explode dionisiacamente de tempos em tempos.
O movimento de criar sentido deve ser imediatamente empreendido, e trabalhar a felicidade em função do sentido. Tal trabalho crítico tem que romper com essa tessitura fotográfica que não se torne só uma fabricação do ego ao gosto do freguês, ou seja, o que o próprio ego trabalha como imagem. O vício embutido neste jogo de aparecimento fotogênico se esquece de seu profundo nada existencial na fronteira muitas vezes irreal que se perde em algumas curtidas e, voilá, viramos lixo digital.
A construção de sentido deveria ser o significado da felicidade. O selfie pulveriza a felicidade e o sentido. A fotografia se torna um registro hipnótico na qual as redes sociais são as mais atuantes e assíduas. Por exemplo, se posto filosofia tenho alguns likes, se posto foto tenho mais, e isso é bom. Mas o sintoma que tento identificar, amiúde, é a relação do conceito de felicidade com o exibicionismo, e retrabalhar esta exibição com fundo de crítica, talvez o abismo e o céu da vida aprofundada como experiência radical de conhecer a si mesmo no meio do furacão do mundo, sem culpa existencial, só como estar nesta jornada consciente, bem informado. O despertar é sinal de saúde, e eu quero esta saúde.
O selfie, com seu duck face (a imagem da foto mandando beijinho), movimento de rebanho, poderia levar Nietzsche a arrancar os bigodes, e levá-lo de criticar o rebanho cristão ao rebanho da "nova fotografia", que, por fim, deve ser bem aproveitada sim, mas o critério é o filho da razão, e sem senso nada se torna, tudo se dilui.
O ponto a se pensar melhor é de que, assim como está ocorrendo um excesso nos rumos das artes plásticas, por outras razões mais históricas, a fotografia também passa por uma mudança radical, a qual não se pode prever os efeitos, mas, filtrando tudo isso, os artistas e fotojornalistas ainda são o sumo de que se alimentará a fotografia como ação histórica, e não no universo previsível do selfie.
O beijo mascara o rebanho, e a fotografia vai ao fundo mais do que à superfície. Usemos nossos smartphones bastante sim, mas sem ser uma fábrica risonha sem fundo de verdade. Construamos o sentido, felicidade sem sentido não é felicidade, ser feliz é saber de que fúria, dor, pranto, e crítica, também fazem parte deste plano chamado mundo. Sorria na fotografia, mas não deixe de olhar o mundo lá fora.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37981/14/selfie



sábado, 10 de março de 2018

CONVERSA COM UM TELEPATA, DENTRO DE UM HOSPÍCIO

“tomei telepatina e meu terceiro olho abriu”

Certo dia, isso já tem uns bons dez anos, resolvi passar uns três dias dentro de um hospício para fazer uma reportagem. Ela rendeu boas histórias, algumas delas até viraram contos pequenos, mas uma em particular me chamou atenção, e me remeteu às viagens de William Burroughs atrás de seu Yage, erva que continha a chamada substância da telepatia, a telepatina. Dentro do hospício, descobri, no meu segundo dia lá dentro, que havia um homem de uns 40 anos no quarto 12 que, segundo outros internos, era um mago. Depois, consultando o seu psiquiatra, descobri que era um sugestionado místico, que o paciente se julgava em transe espiritual e que tinha a faculdade de telepatia.
Pedi autorização ao psiquiatra para conversar com seu paciente que, por recomendação médica, passava a maior parte do dia sedado, numa cama, dentro do quarto 12. Fui até lá de tarde, que é quando o paciente em questão era liberado para o almoço, e que, após a refeição, podia passar umas horas da tarde interagindo com os outros pacientes daquele hospício.
Fui até ele, vi que tinha um olhar do que, no espiritismo, que bem conheço, se tratava de um obsediado já em estágio avançado de fascinação. Fiquei uns bons dez minutos só olhando para ele, antes de abordá-lo, reparando na sua linguagem corporal e no seu diálogo com os outros internos: "Vejam só, eu tomei quinhentos ácidos em um ano, mas o porre mesmo foi o Yage, depois do peiote não deu nada, depois da ayahuasca não deu nada, mas a telepatina me deu o poder, posso ler todos os seus pensamentos, eu sou o dono desse lugar aqui, posso me comunicar com vocês através da telepatia, tomei telepatina e meu terceiro olho abriu, man!".
Ao que outro interno respondeu: "Você é o mago, é? Me mostra sua chama vermelha, me mostra sua chama vermelha!". Outro, ao lado, começou a rir e falou: "O mago tá louco, depois somos nós que somos doidos!". Ao passo que o mago respondeu: "Posso ver o teu pensamento, tem um monstro dentro da tua cabeça, meu caro discípulo, invoco mamón e moloque, tenho a espada da justiça em minhas mãos, meu poder astral é magnânimo, vou me concentrar a criar o teu fogo interior, só um minuto e teu monstro vai sumir daí!". O outro paciente retruca: "Você é o mago, mas não me comanda, daqui a pouco vão te pegar e dar um sossega, você é besta, muito besta, até um metido à besta!".
Olhava aquele diálogo surreal e incrível, e então, finalmente, me aproximei do mago para conversar com ele: "Fala mago! Como você está? Ouvi dizer que tu tem o dom da telepatia? Poderia me mostrar como isso se faz? Também posso me tornar um telepata?" "Ainda bem que você crê! Tenho esse poder da telepatia sim, você quer ver?" "Claro, sou médium e só me falta o dom da telepatia para que tudo funcione para mim."
"Então vai lá, se concentra, vê o que estou vendo? Embuti uma flor de lótus dentro da sua cabeça, posso ver os seus pensamentos, agora vou lhe enviar um tipo de pensamento, e você me diz se recebeu." "Opa, peraí, um minuto, mais um minuto ... ahá! Agora eu vi, você pensou numa serpente lutando com um porco, não foi?" "Eh ... sim! Sim! Você entendeu tudo! Tá vendo como sou um telepata! Eu sou um telepata! Eu sou um telepata!" "Sim, você é um telepata!" "Eu sou o dono deste lugar, ouço todos os pensamentos de todos que estão aqui dentro! Eu sou um telepata! Tá vendo aquele gordão babando ali no meio do pátio? Ele tem o dom da cura nas mãos, ele é meu servo, sou o mago e sei o que ele está pensando agora, ele só pensa em coisas com bacon, seu corpo clama por bacon toda hora, olho e vejo um porco no lugar de sua alma." "Cara, isso é demais, vamos lá falar com seu servo, que tal?" "Claro, eu sou um telepata! Vamos lá que vou ouvir o pensamento dele e falar o que vi dele para você."
Bom, àquela altura já sabia que a fascinação espiritual do autointitulado mago e telepata era um perigo para ele mesmo, sabia que seria muito difícil que ele saísse daquela trama psíquica, e que o máximo que podia fazer, como repórter que sou, e não como psiquiatra, era embarcar na onda pra ver até onde ela ia, e foi o que eu fiz, fingi ser um crédulo, "mais um discípulo". O mago também, a meu ver, tinha um problema sério de ego, sua crença em si mesmo parecia um tanque, ele era o dono de tudo, ao menos naquele lugar, mas, concretamente, não passava de um dos pacientes de um hospício, e pior, vivia a maior parte do tempo recluso, não se sabe e nunca se saberá o que passa exatamente por sua mente quando está sedado e recluso no quarto 12, nem o que sonha quando está dormindo, e nem o que tanta medicação provoca e o que tanta droga alucinógena provocou até ele chegar a este ponto que, agora, eu estava vendo.
Fomos até o seu discípulo, o gordo babão, para mais uma exibição dos dons do mago telepata. "Eu sou um telepata! Todos aqui são meus discípulos, eu sou o dono deste lugar, ouço todos os pensamentos daqui, vamos aqui, eu sou o mago e vou ler seus pensamentos." Se dirige ao gordo babão, "Eu sou um telepata! Agora vou me concentrar e olhar dentro de seu pensamento. Você está pensando em bacon, sempre pensa em bacon, não é verdade?" "Eeeeu tô pen pen san dôôôô ah ah ah ah! Bacoum bacoum magôôô eue tô pensano ou ou ou ou .... blah!" "Tá vendo, ele só pensa em bacon, toda hora ele só pensa em bacon, eu vi seu pensamento, ele tem a alma de um porco, um espírito está a seu lado, sua vida virou uma obsessão por bacon, ele nem fala direito mais, é meu servo, me serve taças de ouro maciço com vinho à meia-noite em um de meus banquetes reais. Faço magia negra dentro do meu palácio. Eu sou um telepata! Eu sou um telepata!".
Bom, depois daquela cena horrível de humilhação contra o gordo babão, pelo mago ególatra, deu quatro horas da tarde, e então dois enfermeiros recolheram o mago para tomar injeção, e o telepata em questão voltaria, pelo resto daquele dia, às trevas de sua reclusão no quarto 12. Da minha parte, produzi uma reportagem, algumas partes eu poupei para não chocar, e aqui está meu relato da principal história que vi dentro do hospício, foram três dias de uma experiência bem curiosa, como se fosse uma antropologia da loucura, muito mais do que o intuito da reportagem em si, ou de possíveis e forçadas psicologizações que não dão conta do fenômeno humano. E foi isso que eu vi lá, a natureza humana, talvez até mais amplificada por uma dor entre anestesias inexplicáveis.

Guilherme Thompson, cronista e outsider.

(pseudônimo periódico da coluna)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37945/14/conversa-com-um-telepata-dentro-de-um-hospicio



segunda-feira, 5 de março de 2018

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT – PARTE III

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT E A MORTE

“Schmidt, nos seus poemas, explora o tema da morte por vários ângulos possíveis”

A poesia de Augusto Frederico Schmidt se dá com o tema da morte de um modo não linear, não tem uma objetividade que se espera, por exemplo, de uma postura intelectual sobre o tema, pois por estarmos falando de uma abordagem poética sobre a morte, temos que a lírica schmidtiana não produz um todo ordenado sobre o mistério da morte e suas implicações metafísicas e profundamente filosóficas.
Não temos a ordem metafísica de uma filosofia primeira, nada disso, temos sim um emaranhado em que o fluxo poético, de acordo com a própria evolução da obra deste poeta, não nos apresenta uma linha reta, mas sim um ir e vir do tema com suas vestes de metamorfose, a morte primeiro na busca de sua solução e depois na desistência decorrente de sua radicalidade.
Portanto, a poesia schmidtiana acolhe a morte como mistério que se busca entender e que também, e concomitantemente, se torna o limite do imponderável, do incompreensível, da fuga para uma outra paragem que se ignora completamente, em posições conflitantes e contraditórias como efeito da própria gravidade do fenômeno e da questão da morte.
A ideia da inutilidade da vida física e de sua perecibilidade invade a poesia de Schmidt e nos leva a uma reflexão vestida de fruição estética que nos dá então um sentido de libertação através da morte, liberdade da morte deste nosso mundo de sofrimento e de ignorância sobre o que é a vida, pois a condição física nos impõe a dúvida metafísica, e a morte como libertação pode ser a única resposta que o universo nos oferece.
No entanto, Schmidt também não nos dá uma visão benéfica do mundo dos mortos, mas sim um espaço de fuga da vida finita de um mundo físico repleto de dor. Schmidt, nos seus poemas, explora o tema da morte por vários ângulos possíveis, dando pistas, respostas relativas, numa tentativa de abrandar a angústia da condição mortal do homem.
E no fim do trajeto poético de Schmidt vemos então a sua resignação diante do enigma, a sua lírica já se conformando com a própria ignorância, e isto numa obra poética que tinha, em parte, um caráter religioso, mas que não foi, mesmo assim, numa direção doutrinária, mas sim reflexiva, e isto numa experiência estética que foi a sua poesia.

POEMAS :

CANTO DA NOITE (1934)

MORTE DO HOMEM : O poema descreve o desenlace de uma alma do corpo, e a imagem de todo o 
poema é este fenômeno desconhecido que a poesia de Schmidt tenta decifrar e nos mostrar, no que temos : “Meu espírito seguirá finalmente sem lembranças./Durante um instante porém olhará meu corpo imóvel.” (...) “Meu corpo não será mais meu/E o teu corpo não será mais meu/Sairás esplêndida e o teu olhar será velado/Sairás magnífica e o teu corpo moreno brilhará no calor da/noite./Meu espírito errará um instante.” (...) “A luz pálida do quarto e os trens fugindo!/Meu espírito não levará lembranças/Mãos estranhas levarão meu corpo!”. O poema nos dá esta descrição rica de que o espírito errante vê o corpo e está presente até o momento em que levam este corpo embora.

DESPEDIDA I : O poema ganha este sentido da visão como experiência suprema, no que o poeta tudo vê, e nos mostra então, no que segue : “Viu pássaros riscando o céu nevoento./Viu veleiros no mar,/Viu ondas altas, viu calmarias,/Viu noites sem luz, cheias de susto./Ouviu vozes gritando, vozes rudes/Ouviu vozes cantando toadas tristes.” (...) “Sentiu sobre o seu corpo um outro corpo./Sobre os seus lábios outros lábios./Desceram sobre os seus ombros folhas secas./Um grande silêncio chegou da rua abandonada./Depois levaram seu velho corpo inútil para a terra.”. E novamente o poeta está presente até o momento em que levam o seu corpo, já inútil, para a terra.

MOMENTO : O poema descreve o momento como a fonte do desejo, e eis que o poeta lista tudo o que lhe move, no que temos : “Desejo de não ser nem herói e nem poeta/Desejo de não ser senão feliz e calmo.” (...) “Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes/Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.” (...) “Desejo de integração no cotidiano./Desejo de passar em silêncio, sem brilho/E desaparecer em Deus – com pouco sofrimento/E com a ternura dos que a vida não maltratou.”. E a vida cotidiana aparece aqui como seu intento, passando o poeta discreto, em silêncio, com uma ternura que volta ao seio de Deus, sem sofrimento.

POR QUE CHORAR? : O poema nos dá a questão do choro, e invoca que não há razão para o choro, e o poema nos dá um cabedal de imagens que tentam justificar a felicidade da vida, e de que não há razões para chorar, no que temos : “Por que chorar se o céu está róseo/Se as flores estão nas trepadeiras balançando, ao sopro leve/do vento?/Por que chorar se há felicidade nos caminhos” (...) “Por que chorar se há jasmins nos caminhos/E moças de branco namoradas/Por que chorar?/Por que chorar – meu Deus, se estou feliz e pobre,/Feliz como os pobres desconhecidos dos hospitais/Feliz como os cegos para quem a luz é mais bela do que/a luz.” (...) “Por que chorar?”. A pergunta como coda termina em aberto, e o poeta fica nesta dúvida entre sua felicidade e uma dor que ele pergunta ou tenta fazer com que não exista, ao menos nesta intenção do poema aqui descrito.

ESTRELA SOLITÁRIA (1940)

DESTINO DA BELEZA : O poema se dá com o perecível da vida física, e nos dá a entender que a beleza não morre, que ela reside na eternidade, no que temos : “Quando o tempo desfaz as formas perecíveis,/Para onde vai, qual o destino da Beleza,/Que é a expressão da própria eternidade?” (...) “A Beleza não morre./Não importa que o seu caminho/Seja visitado pela destruição,” (...) “Deus recolhe o que venceu as substâncias frágeis/E realizou o milagre do Espírito Impassível/No movimento e na matéria./Deus recolhe a Beleza como o corpo absorve a sua sombra/Na hora em que a luz realiza o seu destino de unidade e pureza.”. A experiência da beleza, e por fim, da poesia, se dá com algo que não reside no mundo mortal, a origem da estética está num fundo eterno que o poeta intui neste poema.

AZUL! : O poema descreve o pássaro e o azul, no que segue : “Vejo um pássaro num voo tranquilo pelo céu./No ar matinal e azul há um perfume de amor novo,/Uma palpitação de cachoeiras, de águas em flor, de águas/caídas./Para o olhar, a contemplação das paisagens inéditas./Cheias de grandes verdes e de árvores com frutos se balançando,/E com tudo isto um renascimento de esperanças perdidas./Alegria próxima da vida!/Alegria das sestas protegidas pelas árvores maternas./Alegria das tranças do Amor,/Como chegaste ao meu ermo?” (...) “Alegria, quem te indicou meu abrigo?/Foi o pássaro que eu vi passar nos caminhos do Céu,/Ou o olhar de minha Mãe que brilhou no seio escuro da Morte?”. A alegria e o caminho do pássaro, seu voo que indica ao poeta o céu que ele indaga como um abrigo, e que vê através de sua mãe um enigma que mora no seio escuro da morte.

POEMAS :

CANTO DA NOITE (1934)

MORTE DO HOMEM

Meu espírito seguirá finalmente sem lembranças.
Durante um instante porém olhará meu corpo imóvel.
Serei diante dos outros o estrangeiro e me desconhecerão
Meu corpo não me pertencerá mais!
Me olharão todos com olhos novos, aclarados
E as imaginações estarão desvairadas.

O automóvel percorrerá ruas molhadas
Um ruído de pandeiros se distanciando
Um cão parado no meio da rua.

Meu corpo não será mais meu
E o teu corpo não será mais meu
Sairás esplêndida e o teu olhar será velado
Sairás magnífica e o teu corpo moreno brilhará no calor da
noite.

Meu espírito errará um instante.
Minha mãe, meu pai, os telheiros
A chuva caindo nos campos, nos canaviais
A chuva caindo nas noites frias nas cidades
A chuva caindo sobre meu avô no túmulo, sobre minha
mãe no túmulo, sobre meu pai no
túmulo, sobre mim no túmulo!

A luz pálida do quarto e os trens fugindo!
Meu espírito não levará lembranças
Mãos estranhas levarão meu corpo!

DESPEDIDA I

Viu pássaros riscando o céu nevoento.
Viu veleiros no mar,
Viu ondas altas, viu calmarias,
Viu noites sem luz, cheias de susto.
Ouviu vozes gritando, vozes rudes
Ouviu vozes cantando toadas tristes.

O vento da tarde entrou pelas janelas
E trouxe um cheiro de mar bravio.

Viu, de relance, portas tristes, sujas.
Viu velhas casas, velhas pontes negras.
Ah! viu também pequenas ruas.
Chuvas sem fim caindo, viu!
Viu fisionomias desaparecidas
Viu um berço de criança na penumbra de um quarto.
Sentiu sobre o seu corpo um outro corpo.
Sobre os seus lábios outros lábios.
Desceram sobre os seus ombros folhas secas.
Um grande silêncio chegou da rua abandonada.

Depois levaram seu velho corpo inútil para a terra.

MOMENTO

Desejo de não ser nem herói e nem poeta
Desejo de não ser senão feliz e calmo.
Desejo das volúpias castas e sem sombra
Dos fins de jantar nas casas burguesas.

Desejo manso das moringas de água fresca
Das flores eternas nos vasos verdes.
Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes
Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.

Oh! não as tentaculares investidas para o alto
E o tédio das cidades sacrificadas.
Desejo de integração no cotidiano.
Desejo de passar em silêncio, sem brilho
E desaparecer em Deus – com pouco sofrimento
E com a ternura dos que a vida não maltratou.

POR QUE CHORAR?

Por que chorar se o céu está róseo
Se as flores estão nas trepadeiras balançando, ao sopro leve
do vento?

Por que chorar se há felicidade nos caminhos
Se há sinos batendo nas aldeias de Portugal?
Por que chorar se os meninos estão nos circos
Se a poesia está rolando nas pedras da serra do nunca mais?
Por que chorar se há clarinetes entardecendo
Se há missas no fundo do Brasil?
Por que chorar se há virgens morrendo
Se há doentes sorrindo
Se há estrelas no céu de junho
Por que chorar?
Por que chorar se há jasmins nos caminhos
E moças de branco namoradas
Por que chorar?
Por que chorar – meu Deus, se estou feliz e pobre,
Feliz como os pobres desconhecidos dos hospitais
Feliz como os cegos para quem a luz é mais bela do que
a luz.

Feliz como os mendigos alimentados
Feliz como os desamados que tiveram um beijo
Feliz como as velhas dançarinas aplaudidas de repente
Feliz como um prisioneiro dormindo
Por que chorar?

ESTRELA SOLITÁRIA (1940)

DESTINO DA BELEZA

Quando o tempo desfaz as formas perecíveis,
Para onde vai, qual o destino da Beleza,
Que é a expressão da própria eternidade?

Na hora da libertação das formas,
Qual o destino da Beleza, que as formas puras realizaram?

Qual o destino do que é eterno,
Mas está configurado no efêmero,
No momento inexorável da purificação?

A Beleza não morre.
Não importa que o seu caminho
Seja visitado pela destruição, que é a própria lei
E pelas sombras.

A Beleza não morre.
Deus recolhe as flores que o tempo desfolha;
Deus recolhe a música das fisionomias que o tempo escurece
e silencia;

Deus recolhe o que venceu as substâncias frágeis
E realizou o milagre do Espírito Impassível
No movimento e na matéria.
Deus recolhe a Beleza como o corpo absorve a sua sombra
Na hora em que a luz realiza o seu destino de unidade e pureza.

AZUL!

Vejo um pássaro num voo tranquilo pelo céu.
No ar matinal e azul há um perfume de amor novo,
Uma palpitação de cachoeiras, de águas em flor, de águas
caídas.

Para o olhar, a contemplação das paisagens inéditas.
Cheias de grandes verdes e de árvores com frutos se balançando,
E com tudo isto um renascimento de esperanças perdidas.

Alegria próxima da vida!
Alegria das sestas protegidas pelas árvores maternas.
Alegria das tranças do Amor,
Como chegaste ao meu ermo?
Alegria dos trigais e das raparigas do povo,
Das raparigas de corpos substanciais como os vinhos agrestes,
Quem te derramou sobre o peito deserto e cheio das sombras
da memória?

Alegria dos sinos e dos ninhos,
Dos sons e dos pássaros,
Quem te trouxe para o velho coração úmido como os quartos
escuros da infância?

Alegria dos rebanhos na madrugada,
Dos mergulhos nas águas noturnas dos lagos,
Alegria do pão e das fontes,
Alegria das primeiras flores dos campos,
Quem te trouxe a mim como o leito fresco para o corpo
cansado do trabalhador,
Como as viandas para os famintos?

Alegria, quem te indicou meu abrigo?
Foi o pássaro que eu vi passar nos caminhos do Céu,
Ou o olhar de minha Mãe que brilhou no seio escuro da Morte?

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37866/17/augusto-frederico-schmidt-e-a-morte

sexta-feira, 2 de março de 2018

ENFANT TERRIBLE

“meu duplo cãozinho raivoso, tá mudado, transmudado, com a sorte da sobrevida”

A juventude sempre tem algo de subversivo. Desde os anos 1950 com "juventude transviada" e os beats, a evolução dos poetas malditos do século XIX na figura mítica de Arthur Rimbaud.
O jovem "enfant terrible" veste uma aura, lhe vestem também, e muitas vezes faz coisas sem pensar, e nem liga, com o populacho sobrevalorizando e num ataque o delírio dos ideólogos o pintam até como Lúcifer. Seu nome romantizado, e sua deliberada ação de vestir tal aura (e sendo a própria aura), e os efeitos do sucesso de sua jornada, e sua sorte e seu azar de ser o que é, e se sobreviver, virar, talvez, um estoico com pulso firme, o duplo oculto no jovem irresponsável, talvez, decerto.
"Enfant Terrible", termo ligado à arte, e que também quer dizer marca, escritura biográfica, a vida curta dos que morrem de overdose, heróis da contracultura, os que passam como viçosos cometas, os desviados, os loucos, os que vão na vida rápida, os que encaram a autobiografia até os 27 anos como um "tour de force".
Sorte dos que estão vivos aos 30 anos. Quem passa dos 15 aos 20, e depois dos 21 aos 29 anos, e sobrevive, mesmo que ainda não haja nada garantido daqui para frente, mesmo a morte ou a vida, poderá, mesmo ainda, ter a sorte de testar sua nova persona (ou não-persona) estoica, ex-louco, ex-mártir, que olha um reflexo difuso do ímpeto porra-louca, olha com ternura seu duplo antigo, superado.
“Enfant terrible" que agora é um ser que se rarefaz num espelho já sem uso, miragem, nostalgia, você não viveu em 1967, conforme-se, e já não há saudade, é a libertação do fardo de ser marginal e herói, agora este duplo dança, mas bem longe, é uma casca, lago do passado remoto, mas uma memória cara, cheia de afeto, como uma carta náutica solta no mar, memória terna de tempos vividos, sumo biográfico e que o poeta diz: "confesso que sobrevivi! (até aqui)".
"Enfant Terrible" é contemporaneamente conhecido como o "vida loka", este jovem de todas as classes, ídolo e ícone, que sempre teve bom trânsito, sempre teve, também, gente enfadonha, verdadeiras malas no seu caminho, este transitar faz parte da festa, flâneur esportivo, sem nunca ter sido vaselina. "Enfant Terrible" é marca biográfica, o que escreve a mensagem do impossível, o oiticiano "seja marginal, seja herói".
É reflexo da vida já contada, em ritmo e poesia, contra as almas sebosas, filho do crime, mais honesto que o cartaz da hipocrisia, que não se humilha ou baixa a cabeça, que não mistura mais as coisas, não compra e vende a festa idiota dos que usam seu nome, súcia vestida de "cordeiro do amor", mas você sabe o que ele quer ... súcia bárbara, suicida, homicida, que mente e omite, que engana e que se auto-engana.
O estoicismo dos meus mais de 30 anos, o método do verdadeiro descer o malho quando necessário, é a cristalização positiva, fruto do próprio trabalho, nunca de outros, de regras antigas, aprendidas na senda torta da rua, malhado em ferro quente, os anos de infante terrível que passou, ainda bem que passou, mas o código não muda, mudam as ações, até a velocidade, mas a mente é a mesma, todo reto é imutável, o que muda é a dimensão da ação, a precisão das palavras e da crítica, aonde muitos chorariam e esperneariam, a moral da "vida loka" ganha pausa refinada, sabedoria.
Por mais absurdo que pareça, é o cimento do Homem e deve ser tratado como tal, estoicismo reto é poder, "Enfant Terrible" produz um código para toda a vida, fruto da intuição, na mutante estrada do inesperado. Eis que a inocência está morta, mas o sangue, já batido e fervido, corre quente em artéria e veia, dando facadas em qualquer sanha ou astúcia, com a visão clara, e com o mesmo dom visionário da anunciação daquele pequeno príncipe do mundo cão.
“Enfant terrible", meu duplo cãozinho raivoso, tá mudado, transmudado, com a sorte da sobrevida, ainda, e que do código de matar ou morrer, agora é pacato cidadão, estoico na fita da discrição, não gosto de gente espalhafatosa, me erra, agora a antena está ligada, mais do que nunca, os sentidos em dia, já fez check-up da cabeça, tá feita, agora tudo é como deve ser, e quem ainda não entendeu, vai sofrer, e não é problema meu.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/37847/14/enfant-terrible