PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 30 de setembro de 2017

O MUNDO SELVAGEM

Levo comigo fontes incultas
de persuasão,
retóricas embaladas de puro vício,
elencos pútridos de esquemas
corrutos como vilanias,
sestas em comandos
de ataque,
surpresas suicidas
de terror,
fornos em que se queimam
os corpos
de revolucionários,
ditadores posudos
com peitos de pombo,
rebeliões astrais
de vermes
chauvinistas,
planos militares
com operações
de assassinato,
genocídios poéticos
com venenos
nos lutos
infames
sem esperança,
poemas como
dinamites
no sorriso
das feras
putrefatas.

30/09/2017 Gustavo Bastos

A FORÇA

A força do homem não se dá
apenas no mistério das essências,
sua dor edifica todas as formas
possíveis e impossíveis
de felicidade,

a grande armadura contrasta
com o coração mole,
as estruturas rígidas
do caráter lutam
contra tentações
de aniquilamento
e rebelião,

a força toda da fé e do ceticismo,
o esforço ventral e muscular
junto com o espanto espiritual
de existir e persistir,

o elemento fundamental da
força, quem és?
eis o sentido universal
de toda a força do
homem :
sua fraqueza.

30/09/2017 Gustavo Bastos

O MUNDO REAL

Pontes levadiças, ossos perfurados
de rotas palavras secas.

Porto que dormita na antevisão
dos salões de vinho,
dos acadêmicos delirantes,
dos poetas brutamontes.

Sinta-se o poder das causas primeiras,
dos filósofos das origens,
dos monumentos estourados
do sistema de pensamento,

as categorias morrem exangues,
as formas morrem langues,
o tédio implodido
da essência
nutre
o catedrático,

oh, mundo caolho
do sangue e das vísceras,
quanta fome e sede
cercam
os monutros
de cinzas
do mundo da vida,
o mundo da dor,
o mundo real.

30/09/2017 Gustavo Bastos

CRISTAL E AÇO

Próprio do cristal, em sua forma acabada,
como um gládio rútilo movido a pedra
e reto com toda a virulência,

corta a sete facadas o poliedro
em seus lados de astúcia,
como um bólido ancestral.

Resta a fuligem do campo maestro,
e seu estro pontificado
de símbolos e potências,

como nobre porto cada qual uma pedra,
diamante que nutre o cedro,
madeira que esculpe a espada,
ferro queimando o corpo todo.

Diante do cristal e do aço,
a potência da força
e a delicadeza poética,
o coração mole
e a fala dura,

potente o estro como espanto,
rotação feita de pedra e caule,
de cristal e aço.

30/09/2017 Gustavo Bastos

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

PINTURA DE ULISSES (ESTRO MARÍTIMO)

O coração palpitava
com o estro medonho
das naus tontas de vício,
como teares fabulares o mito
vence as batalhas do mar,
um canto de sereia
abisma o sol e o sal,

festonado o vestuário das nereidas,
salpicando gotas de orvalho
as valkírias, sepultando os ermos
ascetas os fios de ariadne
no morto campo de caronte
e perséfone,

melismas na cantoria do fogo,
calipsos e circes
nas atrações do circo
oceânico das viagens
de ulisses
no campo mortal,

as naiades e as eumênides
lutavam nas flores
botânicas
de uma ofélia
suicidada
em pranto
de uma pintura
pré-rafaelita.

29/09/2017 Gustavo Bastos


O ESPÍRITO DA TRAGÉDIA

A noite, como um jorro de mel
ante as asas bucólicas,
estremecia o pântano em que
dormia o monge envolto
com sua túnica de cristal,

pelos montes fervilhava o néctar
e os lilases espoucavam com
tudo de real à monarquia
das estrelas estilizadas,

com vinho de vitral, cântaros marrons
de barro bruto, a vida crua do ventre
que o poema descrevia com sua febre
de águia e sua raiva de leão,

patas marcadas na trilha das rosas,
eram répteis com suas fagulhas
de escamas entre os dentes,
o rio de peixes elétricos
com bombas entre as guelras,

e o morticínio astuto da guerra
com os oris sucumbindo
com os mitos falanges
e tupinambás que se
afogavam no moinho
dos luares loucos,

sentia o poeta seu cadafalso
com a macilenta face de esteta,
entre seus versos nutria de mel
seu espanto como um ser cósmico
que descia da nave para uma nau,

náusea era seu potente canto,
como um trovador ou aedo
registrando as sunyatas
que das vedantas o hino
sussurrava como vímana
dos astros e dos sóis infinitos,

como um monolito negro como carvão
serpenteava o estro,
firme e decidido,
pronto ao ataque sutil
de que a pena brilhante
remexia em seus cantos
de batalhas sequiosas
e enamorado de poções
de amores luxuriantes,

perto do cais o poeta se suicidava
com todos os seus gáudios
e febricitantes sacerdotisas
como na inspirada consulta
à pitonisa depois do terror
com as fúrias,
era como um perseu
na rocha e no penhasco
matando a medusa,

deambulando pelos pórticos
saía à mão cheia os luares
espantados de sal,
os coros das tragédias
eram como fados
deste poeta
de farol.

29/09/2017 Gustavo Bastos













quarta-feira, 27 de setembro de 2017

VENUS IN FURS

“A ideia de beleza em Vênus, por fim, tem este duplo aspecto do amor celeste e do desejo carnal”

Afrodite, deusa grega de origem asiática, surgida sob a influência do culto fenício de Astarte, e mais remotamente da Ishtar acádia e babilônica, são estas e a citada representadas como deusas do amor, relacionadas a ritos de fertilidade, Afrodite que na era romana ganhará o nome Vênus. E aqui temos além da ideia fundante do amor, também o tema da beleza e do desejo, formas que ganham tanto sua pureza celeste como o sentido literal do desejo carnal, e logo veremos que Afrodite representa tudo isso.
A versão mais conhecida de seu nascimento vem do autor Hesíodo, que nos conta que ela nasceu quando Cronos, tendo cortado os órgãos genitais de Urano, os lançou ao mar, e da espuma nasceu a já bela e adulta Afrodite. Contudo, temos também o relato de Homero, que coloca Afrodite como filha de Zeus e Dione. Por conseguinte, vista esta dupla origem, seu culto se dividiu em duas versões, a primeira da Afrodite mais antiga, era da origem descrita por Hesíodo, a Afrodite Urânia, e a outra, da versão homérica, a Afrodite Pandemos.
Uma das pinturas mais famosas que retrata o surgimento de Afrodite da espuma do mar é uma têmpera sobre madeira intitulada O Nascimento de Vênus de Sandro Boticelli, este um pintor italiano do século XV e XVI, vindo da Escola Florentina do Renascimento, influenciado na pintura do Quatrocento por Masaccio, recebendo também em sua pintura o Gótico tardio.
Boticelli explorou bem as cores frias, com a veia visionária das pregações de Savonarola, e tendo nas esculturas da Antiguidade também o seu culto de adoração e inspiração, participando da corte de Lourenço de Médici, com a pintura O Nascimento de Vênus, por sua vez, sendo uma das pinturas de Boticelli que surgiu sob a influência da ideia de amor neoplatônica do filósofo Ficino.
E uma das possíveis versões modernas da ideia de beleza produzida pelo mito de Vênus, por sua vez, pode ser traduzida no fenômeno das bombshells do cinema, com Jean Harlow, que recebeu o epíteto de blonde bombshell pelo filme Platinum Blonde de 1931, culminando com Marilyn Monroe, um dos maiores ícones femininos do cinema de todos os tempos.
Mas logo Hollywood expande o conceito da versão original loura, indo para versões exóticas e étnicas, fenômeno este que foi bem intenso entre os anos de 1940 e os anos de 1960. Depois tal intensidade da ideia de beleza feminina passou a ser consumida comercialmente no mundo pop em geral, exigindo do imaginário coletivo algo somente vendido como produto, mais um fenômeno midiático do que algo palatável aos pobres mortais, resultando numa idealização mais potente até que a figura dos poetas românticos do século XIX, pois agora a dinâmica passava o bastão da paixão pura e casta para o desejo sexual propriamente dito.
Venus in Furs, por sua vez, diz respeito tanto a uma novela do autor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, publicada em 1870, como se refere a uma música da banda americana The Velvet Underground, música esta que figura no debut da banda, o álbum The Velvet Underground & Nico, e que tem toda a letra baseada nesta novela do autor austríaco, focando no aspecto masoquista da relação de Severin com a sua dominadora, Wanda.
A Vênus das Peles (Venus in Furs), por sua vez, é a obra mais conhecida de Leopold von Sacher-Masoch, que tem o personagem Severin, bem citado na letra da banda The Velvet Underground, como um jovem nobre, que conhece Wanda, e que então tem o começo de uma história que coloca o tema da paixão entre eles no sentido de uma relação que gerasse felicidade e que durasse.
Nessa busca da felicidade e de uma relação duradoura aparece então o tema da dominação, tema masoquista que a letra da banda The Velvet Underground enfatiza, na sua versão fetichizada da novela austríaca, e a figura de um martelo que golpeia uma bigorna passa a reger as ações das personagens. Severin pede a Wanda que ele mesmo se torne seu escravo, no que é feito um contrato e a história se torna a descrição de cenas torturantes de um Severin dominado por sua amante no culto do prazer através do sofrimento físico, tema do prazer em sentir dor e humilhação que ganhou o nome de masoquismo pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing.
Portanto, o tema de Vênus tem no mito a sua origem, e que descreve também o fenômeno artístico da beleza como ideal da arte, passando pelo culto midiático desta ideia de beleza e culminando no tema levantado de Venus in Furs, tema final deste texto, que tem na relação masoquista também um dos segredos do desejo.
Aqui então passamos tanto pelo tema celestial da beleza, o tema do amor, como ao fim caímos na gandaia do desejo carnal como fonte primária das dores e prazeres recônditos que governam os instintos tanto da arte como dos humanos na vida comum. A ideia de beleza em Vênus, por fim, tem este duplo aspecto do amor celeste e do desejo carnal, a dupla face reina em seu duplo culto, Afrodite de Hesíodo e de Homero, a Vênus das Peles do autor austríaco e da letra de Lou Reed da banda The Velvet Underground.  

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : http://seculodiario.com.br/35917/14/venus-in-furs