PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

sábado, 20 de fevereiro de 2016

BERTOLT BRECHT, O POETA (PARTE III)

Brecht demonstra em seu poema “Canção do escritor de peças” como ele se revela como dramaturgo, pois sua poesia, o chão em que seu teatro invariavelmente pisa, neste poema, ao contrário, temos seu teatro sendo equacionado pela poesia, ou melhor, pelo que este poema, em particular, afirma. Portanto, o que na dramaturgia de Brecht, temos nela, o serviço prestado da poesia, aqui neste poema o serviço do teatro entra como definição dos próprios versos deste poema. “Eu sou o escritor de peças”, diz Brecht na abertura do poema, e evolui seu compasso com exemplos do que pode ser definido como o que é e o que sustenta como tese em seu teatro, tal como versos assim: “Aquilo que vi. Nos mercados dos homens/Eu vi como o homem é tratado.” Ou ainda: “Como ficam nas ruas e esperam/Como preparam armadilhas uns para os outros”.
Pois Brecht tem no Homem sua tese de teatro, as relações humanas com densidade social e política, muitas vezes até panfletária, e o homem que ama, também pode ser, dada as circunstâncias, algo hobbesiano como o homem é o lobo do homem, como se diz em um dos versos que citei deste poema, no caso das emboscadas e armadilhas que uns preparam para outros, nesta nossa vida regida por leis, mas que é selvagem mesmo assim. Brecht dá tratamento ao homem miserável, no mercado e nas ruas o homem é o exemplo, a demonstração e, por fim, a tese. E neste poema, fica o sentido do teatro de Brecht, o escritor de peças, em que toda sua sustentação vem da poesia.
Já no poema “O pão do povo” Brecht volta com sua demanda social, de sua formação socialista, mas aqui sem panfleto político explícito, mas como tese abundante de seu cabedal de proposições sociais, o que em Brecht une sua poesia e seu teatro. Versos como: “Alimentado do pão da justiça/Pode ser feito o trabalho/De que resulta a abundância.” Neste poema do pão, o trabalho deve se vincular diretamente à justiça. E de que se trata? Nada mais do que a justiça social, força propulsora de grande parte do ofício de arte de Bertolt Brecht. A arte que fala do povo, fala de seus desejos de justiça, como no verso exclamativo: “Fora com a justiça ruim!” E que culmina com sua tese aqui de socialismo implícito, nos versos: “Deve o pão da justiça/Ser preparado pelo povo.” Por fim, é o povo a justiça para o povo, quem faz toda a justiça é quem quer a justiça, e a justiça dita ruim é a que não deixa o pão ao povo, e quando o pão é do povo e não há mais fome, a justiça cai nas mãos dos que fazem todo o trabalho, a divisão social dá lugar à abundância, uma das promessas de vitória do teatro e da poesia de Brecht, com viés político umas vezes, mas sobretudo como tese social e ideia de sociedade, que tem na palavra justiça seu eixo de demanda e lutas.
CANÇÃO DO ESCRITOR DE PEÇAS
Eu sou o escritor de peças. Eu mostro
Aquilo que vi. Nos mercados dos homens
Eu vi como o homem é tratado. Isto
Eu mostro, eu, o escritor de peças.

Como entram uns nas casas dos outros, com planos
Ou com cassetetes ou com dinheiro
Como ficam nas ruas e esperam
Como preparam armadilhas uns para os outros
Cheios de esperança
Como marcam encontros
Como enforcam uns aos outros
Como se amam
Como defendem seus despojos
Como comem
Isto eu mostro.

As palavras que gritam uns aos outros, eu as registro.
O que a mãe diz ao filho
O que o empresário ordena ao empregado
O que a mulher responde ao marido
Todas as palavras corteses, as dominadoras
As suplicantes, as equívocas
As mentirosas, as inscientes
As belas, as ferinas
Todas eu registro.

Vejo tempestades de neve que se anunciam
Vejo terremotos que se aproximam
Vejo montanhas no meio do caminho
E vejo rios transbordando.
Mas as tempestades têm dinheiro na carteira
As montanhas desceram de automóveis
E os rios revoltos controlam policiais.
Isto eu revelo.

Para poder mostrar o que vejo
Leio as representações de outros povos e outras épocas.
Algumas peças adaptei, examinando
Com precisão e respectiva técnica, absorvendo
O que me convinha.
Estudei as representações das grandes figuras feudais
Pelos ingleses, ricos indivíduos
Aos quais o mundo servia para desenvolver a grandeza.
Estudei os espanhóis moralizadores
Os indianos, mestres das sensações belas
E os chineses, que retratam as famílias
E os destinos multicores encontrados nas cidades.

E tão rapidamente mudou em meu tempo
A aparência das casas e das cidades, que partir por dois
               anos
E retornar foi como uma viagem a outra cidade
E as pessoas em grande número mudaram a aparência
Em poucos anos. Eu vi
Trabalhadores adentrarem os portões da fábrica, e os
                portões eram altos
Mas ao saírem tinham de se curvar.
Então disse a mim mesmo:
Tudo se transforma e é próprio apenas de seu tempo.

Portanto dei a cada cenário seu emblema
E em cada fábrica e cada edifício gravei em fogo o seu ano
Como os pastores gravam números no gado, para que seja
                reconhecido.
E também às frases que lá eram faladas
Dei-lhes seu emblema, para que se tornassem como as
                   sentenças
Dos homens efêmeros, que são registradas
Para não serem esquecidas.

O que a mulher em avental de trabalho disse
Nesses anos, debruçada sobre os panfletos
E como os homens de bolsa falaram com seus empregados
Ontem, chapéus atrás da cabeça
A isto marquei com o sinal de impermanência
De seu ano.

Tudo entreguei ao assombro
Mesmo o mais familiar.
Que uma mãe deu peito ao filho
Isto relatei como algo em que ninguém acreditará.
Que o porteiro bateu a porta ao homem morrendo de frio
Como algo que ninguém jamais viu.
O PÃO DO POVO
A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.

De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.

Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?

Quem prepara o outro pão?

Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.

Bastante, saudável, diário.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/27394/17/bertolt-brecht-o-poeta-parte-iii

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

NÉVOA DE NARDO

Giz de cera, bruma azul
lampeja, qual furibundo
dia, o poema golpeia.

Ataca a composição
o traço marcado:
como numa revolta,
sim, como a rebelião!

Peça de comédia bufa
é o canhão e a pólvora,
peça de tragédia
este vil coração!

Dai ao golpe da letra
seu terrir de fardo,
dai ao poeta
seu porvir de nardo.

18/02/2016 Gustavo Bastos

ESPANTO FRIO

Gerações ao espanto frio,
eu tinha muita sorte
no grito destemido.

As lutas das literaturas rotas
são frouxos de riso,
as lutas dos artistas brutos
são de estética e vinho.

O poema, como uma dose de veneno,
eis que de karma e música
enfada o homem prático,
eis que de dança e delírio
exalta o homem dissipado.

Contas de colares do frasco madrepérola:
o poema, nota bruta, fábrica da pedra,
regenera o fraco de seus vícios,
e enobrece o forte de suas ambições.

Estética da vinha, por mim mesmo:
o tanino é denso
como madeira de lei,
não enverga
no espanto,
não deplora
a viagem da vida.

18/02/2016 Gustavo Bastos

NOTÍVAGO DA FADA VERDE

Luzidio frasco de absinto,
com karma de indolor esfera,
às notas rotas que pressinto,
qual dharma que dormita fera.

Azedume dos folguedos vãos,
quais descansos de risos frouxos,
às mais claras vinhas dos sãos,
são risos e escárnios de brutos ocos.

Ah, pois mesmerize fada azul,
ah, pois catalise a manta de verdor,
ah, que nada me espante ao debrum,
ah, e nem me encante o albor!

Luzidia razão dos nobres,
pois do mundo vão aos vinhos,
que são obras dos fortes,
e caem bem em sonos de linhos.

Absinto do frasco alucina,
já bêbado de alta miragem,
que sinto absorto na vil sina,
ao estar no encanto selvagem.

18/02/2016 Gustavo Bastos

FIM DO POEMA

Assim, de carne e veste envolvida,
a estrela de chumbo tonteia,
pois mais seca e densa neblina,
às amarras do coração bombeia.

Pois, do canto mais solar,
como o verão de cal e sonho,
a mais funda estrela polar
cai como luva no caldo risonho.

Das trevas enuncia luz,
como uma jarda longínqua,
que enternece o que supus,
por mais alta sala contígua.

Assim, de sol e lua à carne dura,
sonha vinha assim de mel,
pois à arma fruto de sal e luta,
sonha o fim do mundo e do fel.

Pois de chumbo estrela escarlate,
lá no alto com albor de carmim,
que da branca nuvem tudo arde,
do fim ao fim deste sonho de fim.

18/02/2016 Gustavo Bastos

HAXIXE MARROQUINO

Ah, quão longe flor de flora!
Que meus pés já não sentem,
que meus olhos só veem!

Atrás da big band,
atrás dos cacos
de fumo.

Um ar de fumaça toma o trompete,
psiconáutico flor morfema,
que as vinhas seviciadas
de mosto aos pés
embriaga!

Ah, quão longe o caminho
da espera matreira!

Atrás da música solista
o kaaos on the hills,
pois because of you
I have been mad.

Haxixe marroquino
nos tímpanos:
oh como é doce o pecado
das cores e dos sons
quando se está
em êxtase!

18/02/2016 Gustavo Bastos

DORES DA BORRASCA

Que borrasca que nada!
O pranto seco sequestrou
o dia,
e as flechas de bruma
só seriam ao orvalho
da flor,

Que alma danada!
Esta que se mutila
dando ares
de "sinto dor"!

As mais das vezes
flor e dor
são selvagens escravos
do amor.

Se escrevo-escravo
dos olores da flora?
Sim, mais ou menos,
pois talvez de perfumes
o canto do dia
se faça mais ouvido
pela chuva borrasca pranto
que lágrimas pretendidas
tinham novamente o apelo
do tal "sinto dor".

18/02/2016 Gustavo Bastos