PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

TEATRO DOS VAMPIROS

Fantoff era um pesquisador de Paris, ele estudava lendas antigas, suas origens, e passou a atuar, posteriormente, como uma espécie de curador de artes, estamos em 1870, e Fantoff se dedica agora ao teatro, escreve umas peças de comédia, dentre elas, uma se destacara em 1869, a “A Dama Louca”, que ganhou um prêmio de melhor texto na última temporada parisiense de inverno, concorrendo com um grande amigo seu, este que também era diretor, Lancaster, que havia ganho em 1887 e 1888 dois prêmios, o primeiro de direção e o segundo por melhor texto.

Fantoff se dirigia para a encenação de Fedra de Racine no Teatro Paris, em Montmartre, e se dizia um admirador das remontagens da tragédia neoclássica, que era um desafio que ele não enfrentaria escrever naquela métrica raciniana em que a história se decorre num único dia, e que pensava mesmo era em fazer uma montagem adaptada de O Doente Imaginário de Moliére, com a direção deste seu amigo Lancaster, que era um pesquisador do comediógrafo, este já tendo dirigido O Avarento e As Preciosas Ridículas, e que já planejava a montagem de Tartufo, numa versão que ele queria que fosse a sua melhor versão de Moliére, e já adaptava um texto para isto.

Fantoff havia se destacado num trabalho de produção e figurino, além de ter trabalhado com cenografia por cinco anos, junto com um outro amigo seu, Joseph, no Teatro Pascal, também em Montmartre, e que resultou na cenografia de As Nuvens de Aristófanes, com um Sócrates fazendo um Deus Ex Machina que era pura fanfarronice, e também fez a cenografia da tragédia Electra de Eurípides, e uma versão simpática de Thomas Kid, que era uma miscelânea de sua obra teatral em forma de pequenos fragmentos, tentando imitar algo do período elisabetano, só que lhe dando um ar parisiense meio forçado adrede, e com um cenário acidentado e pobre, meio que subvertendo a enormidade do teatro elisabetano.

Havia ainda, mas no Quartier Latin, um teatro meio sinistro, de verve gótica, aonde estavam sendo montados pequenos textos de terror e horror gótico, que Fantoff foi visitar, e era o chamado Teatro dos Vampiros, ele acabou vendo uma montagem lá de uma peça escrita por um novo autor, Creonte, que escrevera sob efeito de ópio um texto em três atos de nome “O Enigma”, que era uma história gótica com surtos de consumo de sangue, voos e levitações inexplicáveis.

Fantoff fez contato com um dos contrarregras deste Teatro dos Vampiros, que tinha sido fundado há cinco anos, em 1865, por um empresário obscuro que agora investia em teatro e histórias de terror, de nome Leon Blanc, e que era um velho estrambótico de uns setenta anos, que vivia com uma moça de vinte anos que era intitulada “Mademoiselle Nuit”, uma moça bonita, mas sinistra em suas vestes geralmente pretas. Este contrarregra tinha o nome de Lemort, e se dizia sobrinho de criação deste empresário de origem desconhecida de nome Leon Blanc.

Creonte ainda não havia cruzado com Fantoff, quem o conhecia de dois encontros ao acaso era Lancaster, e relatou para Fantoff que foram impressões bem estranhas, ele disse que Creonte parecia uma espécie de alienígena de aparência cadavérica e bem magro, parecia estar sempre sob o domínio do ópio ou de outra substância qualquer de dons oníricos. Creonte, que montaria sua mais nova peça ainda nesta semana da visita de Fantoff, teria como seu astro principal em “O Enigma”, uma espécie de líder e guru do grupo de atores do chamado Teatro dos Vampiros, que era um inglês naturalizado francês e radicado em Paris, que tinha o nome artístico de “Blackstar”.

Esta figura era sinistra e bem alta e forte, pois tinha cerca de dois metros e dez centímetros, e tinha a força de um touro e era um dos melhores amigos deste empresário Leon Blanc, Blackstar era o melhor ator da companhia que se chamava “Seita Gótica”, e que reunia numa espécie de sindicato e companhia de atores, gerida também por Leon Blanc, todos os atores que eram contratados e que trabalhavam desde 1864 no Teatro dos Vampiros.

Depois do ator Blackstar, das mulheres, a atriz que mais se destacava, por sua vez, era uma moça de trinta anos de nome Heloísa, e que fazia papel de louca, de vampira, de freira e tudo o que se exigisse, com uma veia trágica, mas que tirava de letra um papel cômico se calhasse. Creonte até tinha feito uma peça em sua homenagem em 1869, de título “Heloísa no Inferno”, que foi uma peça gótica em quatro atos de enorme impacto e que rendera a Creonte o apelido de “o mestre do horror em Paris”.

O chamado Teatro dos Vampiros não concorria diretamente com o Teatro Pascal e nem com o Teatro de Paris, as peças montadas no Teatro dos Vampiros eram de autores novos e todas inéditas, e só eram montadas lá, isto é, a Seita Gótica se juntava a uma equipe de autores independentes, que eram seis autores, cinco homens e uma mulher, sendo o mais talentoso Creonte, seguido da Senhora das Trevas, que tinha o título também de Marianne Storm, e assinava suas peças alternando os dois pseudônimos.

Também tinha o jovem autor Pierre Jolie, que era casado com a jovem atriz, também da Seita Gótica, Juliette Blanchet, e que fazia papéis de coadjuvante, tendo já trabalhado bastante sob a tutela de Heloísa, que tinha uma expertise adquirida de um estudo independente de teatro elisabetano e técnicas de farsa e clown que utilizou maniacamente em seu sucesso “Heloísa no Inferno”.

Fantoff, em sua primeira visita ao Teatro dos Vampiros, conversou muito com Lemort, e ficou sabendo um pouco mais do funcionamento deste teatro na prática e um pouco da dinâmica dos atores, e viu que era tudo completamente diferente de seus trabalhos realizados no Teatro Paris e no Teatro Pascal, ele pensava em ter contato com Creonte depois de assistir a peça “O Enigma”, e conhecer alguns atores desta chamada “Seita Gótica”.

Fantoff já concebia uma peça inspirada em Thomas de Quincey, O Comedor de Ópio, pois queria um destes atores da Seita Gótica para fazer o papel do dependente de ópio da história contada por Thomas de Quincey, e queria montar a peça no Teatro dos Vampiros, mas para isto teria que convencer a companhia de atores da Seita Gótica, a equipe de autores e também Leon Blanc, pois o Teatro dos Vampiros, até então, tinha sido um grupo fechado e de versões inéditas, sem nada que se relacionasse a adaptações, releituras e remontagens.

E depois de sua noite vendo Fedra de Racine, Fantoff decidiu que sua visita ao Teatro dos Vampiros também serviria para ele buscar algo novo, nada de neoclássico, embora seu plano para O Doente Imaginário de Moliére fosse, para ele, na área da comédia, a sua última adaptação antes de ele fazer mais comédias próprias, que se juntaria ao que ele pensava de Thomas de Quincey como peça, e dali em diante priorizaria versões de textos seus inéditos, como fora a sua peça “A Dama Louca”, e que lhe rendera prêmio.

Fantoff, depois de uma longa conversa com Lemort e de ter visto um dos ensaios fragmentários de dois atores da companhia Seita Gótica, numa espécie de exercício muito estranho com barulhos, grunhidos e gestos estilizados que Fantoff desconhecia em teatro, ele se deu por satisfeito e iria retornar ao Teatro dos Vampiros na noite de sexta-feira para ver a montagem de Creonte da tal peça “O Enigma” e que seria a estreia da mesma.

Fantoff decidiu que falaria novamente com o contrarregra Lemort para ser apresentado ao autor Creonte. A peça “O Enigma”, por sua vez, teria como atores os grandes da companhia, Blackstar e Heloísa, e uma espécie de menino prodígio de nome artístico Flamboyant, que havia feito três peças no Teatro dos Vampiros, virou um tipo de coringa na companhia, pois se encaixava em qualquer buraco em que lhe metessem.

Fantoff entra em contato com Lancaster e o cenógrafo Joseph, os três combinam de ir juntos ver a tal peça gótica de Creonte e talvez buscarem novas ideias para as peças que aconteciam no Teatro Paris e no Teatro Pascal, longe da reverência a Racine e as maníacas remontagens das peças de Moliére, que dominavam, por sinal, os planos de Lancaster, um fanático pelo comediógrafo, e a ideia teatral de Fantoff para O Doente Imaginário, a última peça de Moliére.

O Teatro dos Vampiros tinha um desenho oval da plateia, com poltronas espaçosas, laterais para a área de luxo, na cena havia um estrado bem grande e retangular, e os chamados efeitos especiais eram um mistério, pois o público nunca descobriu por qual mecânica eram feitas as levitações e os brilhos sobrenaturais de algumas das montagens da companhia Seita Gótica.

Muitas vezes, a atriz Heloísa, por exemplo, parecia que entrava numa espécie de êxtase, levitava e ficava com a face iluminada num azul sobrenatural, o que testemunharam algumas pessoas que puderam assistir à montagem de “Heloísa no Inferno”, e ninguém nunca soube qual era o segredo que havia lá no Teatro dos Vampiros para aqueles efeitos especiais avançados.

Chega a noite de sexta, a estreia de “O Enigma”. Fantoff, Joseph e Lancaster chegam, e Fantoff conversa com Lemort, este diz que apresentaria Creonte ao término da estreia, pois Creonte estava confinado em seu camarim (na verdade, Lemort omitiu o fato de que Creonte estava fumando ópio e queria ver a estreia de sua peça sob o efeito da substância onírica, pois fazia tudo inspirado pelo ópio, além de outros fatos que serão em breve elencados aqui sobre a natureza particular desta companhia gótica).

Fantoff consegue os três lugares para a primeira fileira, é de lá que ele e seus dois amigos veriam a atuação de Blackstar e Heloísa, os dois principais atores da Seita Gótica, e o tão falado Flamboyant, que tinha uns treze anos e parecia que seria o novo astro da companhia. Logo Creonte sai de seu camarim num transe onírico que o fazia se sentir levitando, ele se dirige ao setor de luxo, nas laterais, e de lá veria a sua obra em ação, com a direção de Heloísa, que agora faria a estreia como diretora de teatro, ao mesmo tempo em que atuaria.

No Quartier Latin o chamado Teatro dos Vampiros estava ganhando uma aura mística em que se discutia sobre os tais efeitos especiais das peças, muitos que frequentavam o público do teatro tentavam depreender a mecânica de tais efeitos destas peças feitas pela Seita Gótica, mas ninguém havia chegado a uma conclusão. O trabalho dos contrarregras também não era decifrável, neste ponto, pois eles guardavam segredo com os atores do que era preparado na véspera destas sessões, que sempre eram um tipo de catarse trágica semelhante às descrições do fenômeno feita por Aristóteles em sua Arte Poética.

A impressão que a peça “Heloísa no Inferno” havia causado, por exemplo, talvez tenha sido maior do que as últimas montagens shakespearianas tanto no Teatro Paris como no Teatro Pascal. A concorrência entre estes dois teatros de Montmartre agora convivia com um universo paralelo e misterioso povoado pelas peças autorais do Teatro dos Vampiros.

A diferença de orientação artística entre os teatros Paris e Pascal e o que era feito no Teatro dos Vampiros, por sua vez, era um abismo, pois o que se fazia no teatro sinistro do Quartier Latin era sem precedentes na História do teatro francês e talvez na História mundial do teatro como um todo.

Não havia nada parecido a peças como “Heloísa no Inferno”, ou ainda as peças “Aranhas” e “Dante Vampiro”, estas duas da Senhora das Trevas, por exemplo, ou ainda, uma outra montagem de Creonte, umas das primeiras montadas no Teatro dos Vampiros, que foi a sua peça “Quartier Latin do Ópio”. Até então, contudo, o maior vulto tinha sido com “Heloísa no Inferno”, e que provavelmente seria superada agora pela montagem de “O Enigma”, que já era o resultado do auge criativo do tétrico autor Creonte.

Blackstar havia sido o personagem principal do primeiro sucesso verdadeiro do Teatro dos Vampiros, que foi a peça de Creonte, “Quartier Latin do Ópio”, e que rendeu um prêmio de melhor ator do Júri Parisiense para Blackstar, o mesmo que premiou Creonte um ano depois pela direção de “Sarça Bíblica”, e que premiou a atuação lendária, anos depois, de Heloísa em sua peça mor “Heloísa no Inferno”.

“Quartier Latin do Ópio” foi uma peça escrita e dirigida por Creonte em três atos que se encerrava com Blackstar, encarnado no personagem usuário de ópio e poeta, Jean-Pierre Perrault, que bebe uma taça de sangue de uma jovem loira sacrificada e fuma um narguilé de ópio como ato final, no que o público nunca soube se o sangue e o ópio eram verdadeiros, mais um mistério de Creonte que ficara no ar para o público pensar depois da catarse.

Começa a peça “O Enigma”, primeiro ato, entra Blackstar, que fazia o personagem Claude Gerome, entra Heloísa, que fazia Abigail, Jean Torreau, que fazia Menard, entraria no terceiro ato. Neste primeiro ato, entra Flamboyant, que fazia o menino Clemente, começa a fala de Claude Gerome, ele faz uma declamação poética inspirada nos poemas de William Blake.

Blackstar declama então estes versos com visões escatológicas e cosmogônicas alternando com versos feitos sobre sangue e morte, todos os versos de inspiração em William Blake, e muitas vezes fazendo recapitulações livres de Dante Alighieri e de O Paraíso Perdido de Milton, tudo escrito pelo texto febril sob efeito de ópio de Creonte, que na ala lateral de luxo do teatro, estava num transe onírico contemplando a sua própria criação.

Abigail era uma espécie de bruxa, de mística, e fazia feitiços contra inimigos de Claude Gerome, e era uma das amantes de Claude Gerome, que era casado com Claire, personagem feito pela atriz Susanne Flammarion, que entraria somente no segundo ato, num tipo de conflito kármico com a personagem Abigail, e a transformação em vampiro do menino Clemente, também no segundo ato.

A transformação em vampiro de Clemente no segundo ato vem de uma mordida do personagem Claude Gerome, que tinha sido o vampiro antigo das torres de William Blake, e que usava os poderes mediúnicos de Abigail para fazer novas vítimas, estas que eram hipnotizadas e mordidas por Claude Gerome, sendo que no primeiro ato de “O Enigma”, ele morde cinco mulheres jovens, e se junta a um grupo de vampiros decadentes da Champs-Élysées, que ajudavam Claude Gerome a tomar estas jovens para si, um grupo de dez vampiros que eram atores coadjuvantes da peça e atuavam também como coro nas declamações de Claude Gerome.

Claude Gerome encerra o primeiro ato, depois de morder a quinta jovem (ninguém sabia de onde eram pinçadas estas figuras, pois não pertenciam à Seita Gótica), começa a entrar em transe mediúnico e levita cinco metros acima do estrado em que era apresentada a peça, sua face ganha uma iluminação roxa, meio sinistra, seus olhos brilham, ele entoa um canto gregoriano que tinha uma amplitude desconhecida.

Não havia acústica natural para aquele som que Blackstar emitia, parecia um fenômeno mediúnico e sobrenatural, ele fica trinta segundos suspenso no ar, desce novamente ao estrado do teatro, lentamente, pega a jovem novamente, ele entrega esta jovem ao seu coro de vampiros, que devora a jovem impiedosamente, a cortina se fecha e se encerra o primeiro ato de “O Enigma”.

O segundo ato começa com a mordida de Claude Gerome sobre o menino Clemente, que aparece no primeiro ato furtivamente como um tipo de santo mirim, que acaba sendo convertido ao satanismo por Abigail, toma uma poção mágica que lhe coloca numa espécie de transe que o faz levitar por alguns segundos ainda no primeiro ato.

Neste segundo ato, o menino Clemente, que já havia matado e comido dois morcegos depois do feitiço de Abigail, acaba sendo transformado em vampiro por Claude Gerome e vira seu pupilo contra um hino de anjos em que se só ouvia o som, logo após o começo deste segundo ato. Abigail reaparece e diz a Claude Gerome que tal hino era uma alucinação produzida pela mediunidade do menino Clemente, que até há pouco tempo era considerado um tipo de santo pelo vilarejo de que veio.

Agora, no movimentado Quartier Latin, Clemente era um satanista que virou imortal pelas mãos de Claude Gerome, o chefe do coro de vampiros decadentes que lhe acompanhava e obedecia a suas ordens cegamente. Clemente emite uma luz vermelha inexplicável, logo em seguida, e o hino de anjos silencia, dando lugar a sons que pareciam de demônios angustiados.

Claude Gerome dá uma ordem a Clemente para que pegasse mais uma jovem que adentra o estrado, parecia que o desespero da jovem era real, o coro captura a jovem e a oferece em holocausto para saciar a sede de sangue de Clemente, agora um vampiro.

Em seguida ao sacrifício desta jovem, que sai aparentemente morta do estrado (muitos com a certeza de ser mais um efeito especial do Teatro dos Vampiros), começa um diálogo sobre bruxaria e ocultismo entre Abigail e Claude Gerome, eles se medem entre si com seus conhecimentos ocultos e apresentam um manual de satanismo para o menino Clemente depois deste longo diálogo.

Aparece enfim Claire, que corre em direção a Claude Gerome, perdidamente apaixonada, e com ciúmes terríveis de Abigail, uma intelectual do porte de Claude Gerome, e Claire sabia que os dois eram amantes e parceiros de magia, mas Claire queria mesmo eliminar ou até matar Abigail se pudesse, mas morria de medo dos feitiços e poderes mediúnicos de Abigail, e tentava apenas seduzir Claude Gerome o tempo inteiro para que ele esquecesse aquelas conversas infinitas e noites de amor que ele fazia com Abigail sempre regado a taças de sangue de jovens indefesas e ópio de qualidade.

Claude Gerome, depois de levar Claire a um aposento, com taças de sangue da tal jovem que fora morta em cena (o público ainda se questionava se a jovem fora morta ou era um efeito especial), voltam em transe, Claude Gerome levita depois de ter bebido muito sangue, umas dez taças ao todo, e fica a três metros do chão, seu rosto volta a brilhar, desta vez num azul cobalto.

Claude Gerome declama poemas feitos por Creonte, versos em homenagem às pinturas de William Blake e com um trecho final que Claude Gerome dizia ter sido retirado de um grimório desconhecido, de autor anônimo, que na verdade era uma invenção do texto de Creonte para impressionar o público.

Claude Gerome, depois de declamar o poema em levitação, retorna à superfície do estrado, aonde reencontra Abigail, agora com uma veste negra e ervas alucinógenas para produzir uma poção do amor que ela queria que Claude Gerome bebesse.

Abigail faz um suco de uvas para Claude Gerome, ele bebe, e lá estava misturada a tal poção do amor, que faz com que Claude Gerome tivesse um desejo súbito e incontrolável de beijar Abigail na frente de Claire, que entra em pânico e tenta demover em vão seu amado.

Claire se retira para seus aposentos, e Abigail leva Claude Gerome para um passeio surreal em que, num momento de êxtase, os dois, depois de beberem uma taça de sangue da tal jovem morta, levitam por trinta segundos e brilham em suas faces uma luz vermelha cor de sangue.

Em seguida à levitação de Abigail e Claude Gerome, se ouve um hino satânico, Clemente reaparece em vestes azuis escuras, toca um sino, chama o coro de vampiros decadentes de Claude Gerome, eles começam a simular cantos de uma missa negra, Claude Gerome e Abigail voltam do transe extático, despertam para um banquete junto com os tais vampiros decadentes.

Aparece mais uma jovem desconhecida para mais um sacrifício, ela é oferecida em holocausto para que Claude Gerome lhe mordesse e bebesse o seu sangue. Depois de colocarem um grande lençol preto sobre o corpo da jovem, mais uma vez parece que sai mais uma jovem morta do estrado, o público se assusta, mas acha que aquilo era parte do espetáculo e mais um efeito especial do Teatro dos Vampiros. E assim se encerra o segundo ato da peça de Creonte, “O Enigma”.

Começa o terceiro ato, aparece um caçador de vampiros, Menard, um tipo social estrambótico, com fama de mulherengo, e que fica vidrado em Abigail, esta decide seduzir Menard para planejar o seu envenenamento, e diz em segredo seu plano para Claude Gerome.

Claire volta de seu sono profundo em seus aposentos, tenta chamar a atenção de Claude Gerome, em vão, ele está imerso em seus planos, e pensa no ardil de Abigail para matar Menard envenenado. Claude Gerome simula uma amizade com Menard, e sabia que o caçador de vampiros tramava contra ele, mas o ataque de Abigail tentava se antecipar aos planos de Menard, que provavelmente seria mais uma vítima naquela trama assassina de toda a peça “O Enigma”.

É feito um jantar em que está Abigail, Claire, Menard, Clemente, Claude Gerome e o grupo de dez vampiros decadentes, Menard conversa, come e bebe muito, Claude Gerome percebe os trejeitos suspeitos do tal caçador de vampiros, também observa a linguagem corporal de Abigail, que fazia a sua estratégia para levar Menard para a sua arapuca.

Claude Gerome encerra o jantar com um discurso, logo em seguida ele deixa o jantar e vai embora com Claire. Abigail, já tendo o jogo ganho com o priápico Menard, o leva a seu aposento, logo após todos os convivas já terem deixado o jantar, lá ela consegue seduzir Menard sem precisar fazer sexo com ele.

Abigail, em seguida, coloca uma bebida vermelha para ele beber, lá ela inocula uma poção com uma mistura inusitada de veneno de Naja e uma dose de láudano que mataria um elefante em questão de minutos. Menard, que já não se controlava de desejo por Abigail, decide beber logo a tal bebida para ir à cama com Abigail, ele bebe, fica um minuto inteiro perseguindo Abigail pelo aposento, ela foge, logo em seguida ele começa a ficar zonzo e babar pela boca, seu coração logo para, ele começa a ter convulsões sinistras e cai duro no chão já morto.

Abigail dá a notícia a Claude Gerome, que comemora com ela bebendo mais um estoque de sangue das duas jovens que haviam saído mortas do estrado, eles levitam por um minuto e dançam entre si numa coreografia tétrica, enquanto Clemente entra e toca um tema fúnebre ao piano.

Claire vê a cena e tem mais uma crise de ciúmes e pânico. Os dez vampiros levam o corpo de Menard, já morto, desta vez a cena era puro teatro, o ator sai do estrado e vai fumar um charuto, mas os vampiros decadentes voltam da coxia e afirmam a Claude Gerome que o corpo havia sido queimado numa pira num ritual satânico, Clemente então toca mais um tema fúnebre, a dança de Claude Gerome e Abigail agora estava no chão do estrado, dominando a cena com desenvoltura.

A peça “O Enigma” então se encerra com um canto de Clemente, que bebe sangue e levita tocando uma flauta, os dez vampiros decadentes deixam o estrado numa espécie de êxtase diabólico. Claire sai de cena atordoada, pois Abigail leva Claude Gerome a seus aposentos, a música ganha tom de hino, vozes estranhas soam de cima da cena, Clemente desce ao chão, faz um monólogo de dez minutos sobre heroísmo e transcendência.

Claude Gerome retorna à cena, bebe uma taça de sangue, e declama um poema do autor Creonte, mais um sobre William Blake com o leitmotiv do misticismo, ao encerrar o poema, ele lê um último trecho de um grimório inventado por Creonte e as cortinas se fecham, a peça “O Enigma” termina. Os atores retornam novamente somente para fazer o usual agradecimento, com dois discursos, um de Blackstar e um final de Heloísa.

Creonte desce de sua lateral de luxo para encontrar com os atores e fazer os seus costumeiros elogios, como sempre fazia ao final de suas estreias, e sobretudo pela sua devoção à Heloísa, sua atriz preferida e que fazia seu debut como diretora de teatro justamente com a melhor peça escrita até então por Creonte, “O Enigma”.

Enquanto Creonte descia em direção à coxia, o público saía do Teatro dos Vampiros, e este se dividia entre pessoas que estavam fascinadas e extasiadas, e um outro grupo que estava horrorizado com as cenas de corpos saindo do estrado, era um misto de sucesso, de um lado, e a impressão de que tudo era muito chocante e gratuito, de outro, e Creonte agora esperaria os textos da crítica teatral parisiense para ter certeza de que havia feito um trabalho impactante, e que nesta estreia teve uma recepção ambígua do público.

Fantoff, Lancaster e Joseph saem das poltronas depois que quase todo o público já deixara o Teatro dos Vampiros, e Fantoff se dirige até Lemort, o contrarregra, que fazia o trabalho de recolhimento do cenário junto com alguns outros funcionários do teatro. Lemort diz que Creonte já havia sido avisado por ele de que Fantoff queria falar com o autor, Lemort diz que haveria um grande banquete naquela noite e Creonte, sempre muito gentil, convidara Fantoff e seus dois amigos para o tal banquete para eles conversarem sobre teatro.

Lemort conduziria os três cavalheiros para o endereço, que ficava a uma quadra do Teatro dos Vampiros, no restaurante Le Chat D`Enfer, que era um estabelecimento em que Creonte era dono em sociedade com Blackstar, o ator-fetiche do Teatro dos Vampiros, com sua altura e porte de gladiador.

Fantoff chega, junto com Lancaster e Joseph, ao Le Chat D`Enfer, Lemort apresenta os três a Creonte que, bem prestimoso, coloca os três cavalheiros num lugar privilegiado da grande mesa retangular que se estendia para o tal banquete, que seria um evento fechado apenas para convidados neste restaurante imenso que era o Le Chat D`Enfer, que era um mundaréu de mesas, cadeiras, e um palco com piano, no qual o ator Flamboyant tocaria naquela noite após a estreia de “O Enigma” e que seria uma comemoração de mais um feito de Creonte e seus atores.

Antes de começar a ser servido o jantar, teria uma apresentação de um ator português com fluência em francês, este que fazia um esquete temático que poderia mudar com o tempo, e que era sempre escrito por Creonte, o ator era Quincas Barreto e seu personagem fixo era Phantôme, era o papel fixo de um fantasma que costumava falar barbaridades, um pequeno número de comédia, e o texto mudava e poderia voltar, havia um rodízio que dependia da inspiração de Creonte, Quincas Barreto era ator contratado e exclusivo do Le Chat D`Enfer, portanto, não pertencia à Seita Gótica e nunca havia trabalhado nas peças que eram montadas no Teatro dos Vampiros.

Depois da apresentação de esquetes de meia hora do ator que fazia Phantôme, começa a sessão de piano de Flamboyant e começa a ser servida a entrada antes do prato principal, e Fantoff começa a conversar longamente com Creonte sobre teatro e a fixação de Creonte na poesia de William Blake, que ficara claro em toda a peça “O Enigma” que muito bem impressionara Fantoff.

Quando Fantoff perguntou a Creonte sobre as levitações e luzes, que Fantoff queria descobrir como se faziam aqueles efeitos especiais, Creonte disse que explicaria tudo isto após o jantar, e Creonte então pediu a Fantoff que fosse com ele, após o jantar no Le Chat D`Enfer, para ir junto com ele e Heloísa de volta ao Teatro dos Vampiros, pois lá Creonte revelaria o segredo de tais efeitos teatrais que aconteciam no Teatro dos Vampiros.

Todos comem a entrada e é servido o prato principal, a Senhora das Trevas, que tinha o nome verdadeiro de Marie Truffaut, que já havia bebido vinho além da conta, começa a contar piadas infames, e Creonte logo avisou a Fantoff e seu dois amigos que isto sempre acontecia nestes jantares, era um hábito da Senhora das Trevas beber e depois contar as suas piadas de gosto bruto e farsesco.

A Senhora das Trevas, depois de finalizar seu número de piadas infames, grita para o garçom trazer a sobremesa, e Flamboyant retoma a música do piano, logo após a Senhora das Trevas sossegar em sua cadeira e saborear a sua sobremesa.

Ao fim da sobremesa, são servidas taças com líquido vermelho para os dez vampiros decadentes, Heloísa, Blackstar, a Senhora das Trevas, e Creonte, eles bebem e Fantoff pergunta, já assustado, o que era aquilo para Creonte, que repete que todos os segredos do Teatro dos Vampiros seriam revelados por ele e Heloísa na coxia do teatro, e que seus amigos não poderiam ver, somente Fantoff, pois Creonte, depois da longa conversa com Fantoff, percebeu que este curioso dramaturgo lhe poderia ser útil em seu Teatro dos Vampiros.

Terminado o jantar, Creonte, Heloísa e Fantoff seguem, somente os três, para o Teatro dos Vampiros, que se encontrava fechado, o último a sair depois de feito todo o alvoroço da estreia de “O Enigma” tinha sido o contrarregra Lemort.

Creonte era um dos que tinham as chaves do teatro, que pertencia ao empresário Leon Blanc, que não havia ido à estreia, pois estava em Toulouse, numa temporada de descanso com sua mulher, Mademoiselle Nuit, e que retornariam na sexta seguinte para assistir à segunda apresentação da nova peça do gênio da Seita Gótica, o autor Creonte.

Os três chegam ao Teatro dos Vampiros. Creonte abre o teatro, eles entram pela plateia, seguem em direção ao estrado e entram na coxia, lá haviam garrafas com líquido vermelho, e Fantoff toma um susto, pois havia os dois corpos das jovens sacrificadas no estrado na coxia, com lençóis pretos cobrindo as partes destes dois corpos, eram então exatamente as jovens que haviam sido devoradas durante a apresentação da peça.

Fantoff fica em pânico, achava que as mortes tinham sido cenográficas, tenta fugir, mas Creonte tinha trancado a coxia, Heloísa pede para Fantoff se acalmar se ele quisesse descobrir o segredo do Teatro dos Vampiros. Heloísa começa a acariciar Fantoff, lhe aperta as partes, Fantoff se excita. Creonte acende seu narguilé de ópio e começa a fumar, Heloísa pede para Fantoff se aclamar novamente, ele começa a relaxar, Heloísa começa a fazer sexo oral em Fantoff, ele tem um orgasmo, então Heloísa se levanta, pede para Fantoff se sentar numa poltrona confortável que havia na coxia e morde seu pescoço, bebendo parte de seu sangue que circulava na veia aorta.

Fantoff, depois da mordida de Heloísa, entra numa espécie de transe onírico que o leva a ter delírios e alucinações durante uma hora, ele não entendia o que estava acontecendo, Heloísa fala para Fantoff permanecer sentado na poltrona e disse novamente para ele se acalmar que Creonte explicaria tudo após passar o efeito entorpecente da mordida que Heloísa lhe havia dado.

Fantoff, durante seus delírios e alucinações, olha para Creonte, olha para Heloísa, depois olha para os dois corpos das jovens mortas na coxia, pensa em suicídio, pensa em matar Creonte, pensa em esquartejar Heloísa, mas ele não controlava a sua própria mente e só rezava para aqueles efeitos entorpecentes passarem logo e que Creonte lhe explicasse logo o que diabos era tudo aquilo.

Termina o efeito da mordida de Heloísa depois de passada uma hora em que Fantoff delirava e tinha alucinações, em meio a ideações suicidas e de assassinato. Creonte vai em direção à poltrona em que estava sentado Fantoff e diz que Fantoff agora pertencia ao Teatro dos Vampiros.

Fantoff ainda hesitava em entender, e Creonte disse, enfim, para que Fantoff não tivesse dúvidas, que Fantoff virara um vampiro, é quando Fantoff quase desmaia de choque, e diz que aquilo não existia, que ele deveria estar sonhando, e Creonte lhe dá um beliscão na cara e diz que a mordida de Heloísa tinha sido a mordida de uma vampira, era tudo verdade, Fantoff agora teria que beber sangue. Fantoff fica indignado, pensa em sair dali imediatamente, mas Creonte disse que já era tarde, que os dois escreveriam uma nova peça em conjunto, e que Heloísa seria a estrela deles.

Fantoff, depois de mais uma hora, e de ouvir as revelações de Creonte, tudo sobre levitações e luzes, por exemplo, não eram efeitos especiais de teatro, mas fenômenos mediúnicos adquiridos por todos que eram vampiros, e que o primeiro vampiro deles era Leon Blanc, o dono do Teatro dos Vampiros, que mordeu Creonte, este mordeu a Senhora das Trevas, que mordeu Blackstar e este mordeu Heloísa, que se tornou a principal mordedora do grupo, e que foi uma das fundadoras da Seita Gótica, junto com Blackstar.

Blackstar, por sua vez, criara o grupo dos dez vampiros decadentes que, ao conhecerem Blackstar e saberem que ele era um vampiro, pediram para serem mordidos, pois antes de conseguirem trabalho no Teatro dos Vampiros, estas figuras eram seres da rua, não tinham paradeiro ou aonde cair morto, e virar uma equipe de vampiros subalternos de Blackstar no Teatro dos Vampiros, seria tanto um lar, já que havia uma casa de dois andares anexa ao teatro aonde eles forma alojados, como uma oportunidade de trabalho.

Fantoff ouve toda a história de como surgiu o Teatro dos Vampiros e fica chocado ao descobrir que as duas jovens tinham sido assassinadas em cena, e que aquilo já se repetira em todas as apresentações do Teatro dos Vampiros.

Fantoff logo percebe que acabara de entrar num seita de assassinos, mas sente sede, muita sede, ele pensa querer água, mas Heloísa esclarece para Fantoff que a sua sede incontrolável e súbita era por sangue e que ele teria que beber o sangue de um dos corpos que ainda estavam lá na coxia.

Fantoff pula em cima de uma das jovens mortas e morde o pescoço, o sangue já frio de um cadáver de cinco horas atrás, que lhe sacia momentaneamente, ele precisaria beber o sangue que estava no estoque, conservado, e Heloísa traz uma garrafa, enche uma taça com sangue conservado, e finalmente Fantoff aplaca a sua sede.

Leon Blanc e Mademoiselle Nuit voltam na segunda-feira, Creonte apresenta Fantoff ao empresário do Teatro dos Vampiros e logo diz a Leon que este agora era um deles, mais um vampiro, e o melhor, era autor teatral, e que Creonte já maquinava criar uma nova peça com a colaboração de Fantoff.

Leon Blanc ri docemente, bebe uma taça cheia de sangue e oferece uma taça também para Fantoff, que já se acostumando a sua nova condição vampiresca, bebe a sua taça, enquanto isto, Mademoiselle Nuit, num lugar recôndito do Teatro dos Vampiros, faz seus estudos de ópera, soltando trinados e melismas ainda com traços toscos de quem estava aprendendo os rudimentos da voz operística.

Leon Blanc então encontra Blackstar, que chega à tarde no Le Chat D´Enfer, para resolver algumas coisas práticas, pois era ele que fazia a administração do restaurante, deixando Creonte cuidar da parte artística, com o palco com piano, detalhes visuais do restaurante e as montagens de esquetes com o tal ator português que se apresentava lá toda sexta de noite.

O jovem ator Flamboyant, que também era músico, ia eventualmente tocar piano lá, mas havia muitos pianistas que eram contratados temporariamente e se revezavam durante semanas ou meses, com Flamboyant sendo uma espécie de convidado especial, geralmente quando se faziam os encontros fechados da Seita Gótica.

Leon Blanc conversa longamente com Blackstar, e depois se dirige novamente a Creonte, que chega ao restaurante, vindo do teatro, junto com Fantoff, e Leon Blanc chama Fantoff e diz que ficara muito contente em conhecer seu novo autor teatral e que aquilo tudo daria muitos frutos.

Leon Blanc percebera a inteligência ardente de Fantoff, com uma curiosidade mórbida que o levou à coxia para ser mordido por Heloísa somente para poder descobrir os segredos que habitavam o Teatro dos Vampiros e a sinistra companhia de atores, a Seita Gótica. Leon Blanc logo se afeiçoa a Fantoff e todos que estavam naquela tarde no Le Chat D`Enfer combinam que estariam na segunda apresentação de “O Enigma”, Blackstar, claro, representando Claude Gerome.

Fantoff, na noite anterior à segunda apresentação de “O Enigma”, na quinta, se encontra com Lancaster para discutir sobre teatro, e acaba o convidando para ir ao Le Chat D`Enfer, lá eles vão e acabam encontrando ao acaso Blackstar, que estava lá cuidando de gerenciar algumas entregas que haviam chegado ao restaurante, que eram o material de limpeza, material para obras, e muita comida e bebidas.

Blackstar decide, um pouco depois, já tendo resolvido a acomodação das mercadorias e dos materiais com os funcionários da cozinha e da limpeza, se sentar junto com Fantoff e Lancaster.

Os três bebem vinho durante umas três horas seguidas, chega tarde da noite, Fantoff e Lancaster se despedem de Blackstar e eles saem do restaurante para ir cada um para suas casas em Montmartre. No meio do caminho, Fantoff tem uma crise de sede, ele precisava de sangue, tenta morder o pescoço de Lancaster, que não entende nada, fica assustado, e pergunta se Fantoff estava ficando louco, Fantoff começa a emitir uma luz azul escura de sua face e Lancaster acha que estava tendo uma alucinação e acaba desferindo um soco na cara de Fantoff que cai desacordado no meio da rua.

Lancaster não quis saber, e saiu deixando ali no meio da rua, desmaiado, Fantoff, que acaba sendo socorrido somente na manhã seguinte, por um guarda, que o leva, junto com dois bombeiros, para um hospital em Montparnasse.

Fantoff é avaliado neste hospital, e um psiquiatra acaba afirmando que Fantoff precisaria descansar por duas semanas, os três primeiros dias em observação no hospital, e o resto destes dias de repouso em sua casa em Montmartre. Mas, Fantoff percebe que estava entrando numa cilada, e acaba dando um jeito de fugir do hospital na sexta de noite, para conseguir ver a segunda apresentação de “O Enigma” e arrumar algum sangue fresco no Teatro dos Vampiros.

Fantoff chega ao Teatro dos Vampiros, esbaforido, uma hora antes da segunda apresentação de “O Enigma”, lá está Creonte, já sob efeito profundo de seu narguilé de ópio, aparece Leon Blanc, Mademoiselle Nuit, a Senhora das Trevas, Blackstar e os dez vampiros decadentes, Flamboyant, Susanne Flammarion, Heloísa, Jean Torreau.

Também estavam no Teatro dos Vampiros duas jovens que possivelmente seriam sacrificadas naquela noite e estavam ali sem saber em que armadilha tinham entrado, seduzidas por Blackstar, que sempre fazia isto para conseguir material para os holocaustos de sangue praticados no Teatro dos Vampiros.

Também chegaram parte da companhia da Seita Gótica que não fazia parte da peça “O Enigma”, como o autor Pierre Jolie e sua esposa Juliette Blanchet, atriz da Seita Gótica, ambos que faziam a preparação para a peça que sucederia a temporada de “O Enigma”, que seria o monólogo sobrenatural para declamação de Juliette Blanchet de título “O Voo”, escrito por seu marido, Pierre Jolie.

Também estava no Teatro dos Vampiros, naquela noite, o contrarregra Lemort, que logo Fantoff descobre que também era um vampiro, assim como todos da Seita Gótica e todos que trabalhavam no Teatro dos Vampiros. Fantoff vai, por alguns instantes, para a coxia beber sangue junto com Leon Blanc, que oferece uma taça com o melhor líquido sanguíneo do estoque do teatro para Fantoff, pois Leon Blanc já sabia que Fantoff passara por apuros e precisava se refrescar um pouco para ver “O Enigma” já saciado.

Todos os principais convidados ficam nas laterais de luxo, os atores que iam se apresentar vão para seus camarins, depois se dirigem à coxia, lá Creonte, minutos antes de começar a peça, já acabara de sair de seu camarim individual, que servia somente para ele se empanzinar de ópio antes de ver suas criações teatrais em atividade.

Creonte era o autor mais criativo do Teatro dos Vampiros, mas também o mais junk de todos, vivia constantemente sob o domínio onírico de seu consumo industrial de ópio, mais do que seus surtos de sede, que era um sintoma que ocorria a todos os vampiros.

Os surtos de sede dos vampiros, por sua vez, ocorriam em lapsos de tempo variáveis para cada vampiro individualmente, estes surtos de sede de sangue tinham diferentes gradações de intensidade também, e entre os vampiros entre si, uns tinham mais surtos que outros, e as intensidades eram bem variáveis, a que mais surtava e que mais tinha mordido gente na Seita Gótica era, disparado, Heloísa, e era a atriz, por conseguinte, que dominava com mais intensidade os fenômenos mediúnicos de levitação, brilhos sobrenaturais e episódios de êxtase místico.

Começa o espetáculo de “O Enigma”, e no desenrolar do primeiro ato, na hora exata em que mais uma jovem seria sacrificada no estrado, de súbito, uma batida policial invade o teatro, eram cerca de cinquenta autoridades, que entram colocando o público para fora e interrompendo a peça.

Creonte, que estava na área lateral de luxo, desce correndo, mesmo num transe onírico de ópio. Blackstar desce do estrado para enfrentar os policiais e acaba sendo contido por cinco autoridades, e o chefe de polícia disse que tinha um mandado feito por uma denúncia anônima, ele afirma que ali no Teatro dos Vampiros eram realizados rituais satânicos, beberagem de sangue e assassinatos, que algumas das famílias das jovens que foram sacrificadas no teatro tinham sido informadas no dia anterior da batida policial que tais jovens possivelmente tinham sido sacrificadas durante as peças realizadas no Teatro dos Vampiros.

O Teatro dos Vampiros cremava os corpos após um dia dos sacrifícios. Contudo, nesta noite de sexta, os policiais entram na coxia e salvam as duas jovens que seriam sacrificadas. Uma das jovens é retirada do palco, e a outra, que estava amarrada dentro da coxia, é libertada, e todo o estoque de sangue é confiscado.

Toda a companhia de atores e autores, incluindo Leon Blanc e Mademoiselle Nuit, todos são algemados e presos. No dia de sábado, após a noite em que a polícia entrou no Teatro dos Vampiros, o estabelecimento é interditado para investigação, que dura um mês, e é concluído que se tratava de uma seita de vampiros, a notícia que sai no diário parisiense é “Noite dos Vampiros vira caso de polícia”, e outra manchete “Vampiros assassinos são presos”.

Neste um mês de investigações, com todos os vampiros presos, incluindo Fantoff, eles agonizam de sede, pois não havia sangue para consumo, tinha sido tudo confiscado. Heloísa, Blackstar, Fantoff, Flamboyant, Leon Blanc, e todo o resto dos vampiros começam, primeiro, a enlouquecer, e depois de um mês, começaram a sofrer de inanição, em questão de três meses, todos sem beber sangue desde a interdição do Teatro dos Vampiros, foram morrendo, e em questão de seis meses, todos estavam mortos por inanição, dominados pela loucura.

Conto pronto em 20/08/2020

Contos Psicodélicos – Volume II

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

AS DARK KITCHENS

“O movimento do delivery tende a se expandir com esta atuação das dark kitchens”

As dark kitchens se apresentaram como uma solução para aumentar a eficiência do delivery de restaurantes, com economia e uma maior agilidade de entrega. Tal modalidade se tornou uma extensão natural do mercado em relação ao avanço do delivery e para atender as demandas dos consumidores.

As dark kitchens são cozinhas profissionais de restaurantes que usam o espaço físico exclusivo para o delivery, ou seja, são diferentes das cozinhas tradicionais, pois não há espaço físico para atendimento dos clientes, podem ser cozinhas grandes, compartilhadas, ou “escondidas” em locais que não são acessíveis para o público. E as dark kitchens podem, ainda, atender a diversas marcas ao mesmo tempo, pois o foco é o delivery.

A opção pelas dark kitchens podem ser praticadas por restaurantes novos que só fazem o delivery ou, também, ser uma alternativa para empresas já consolidadas no mercado, mas precisam dar conta da demanda do delivery ou atender em locais mais remotos, como cidades menores.

As dark kitchens podem servir para ampliar o mercado de delivery, e para os restaurantes é uma alternativa mais barata de custo do que um espaço físico para clientes e mais eficiente para atender toda a demanda crescente de delivery. Este conceito de dark kitchens, por sua vez, surgiu com a popularização dos aplicativos de entrega de comida.

Muitas reportagens indicam que as dark kitchens surgiram em Londres, e sua existência no mercado está apenas nas redes sociais, pois não existe loja ou fachada para clientes. As dark kitchens são um empreendimento bem mais barato do que o restaurante tradicional, pois só precisa de uma cozinha, um cozinheiro, contrato com algum aplicativo e um produto para vender.

Com o tempo, as dark kitchens se popularizaram em países como Colômbia, México, Brasil, Argentina, Chile e Peru, e com o sucesso destas dark kitchens, algumas delas puderam expandir seus negócios para se tornarem uma franquia e até abrir os primeiros restaurantes físicos.

A Rappi, por sua vez, aplicativo de entrega de refeições, oferece à estes empreendedores de dark kitchens, por sua vez, espaços para alugar e trabalhar exclusivamente para eles. A Uber Eats, por sua vez, não investe em infraestrutura, mas promove as marcas diferentes de uma mesma cozinha, por exemplo. Os negócios de dark kitchens fazem a sua reputação, por sua vez, nas redes sociais e espaços online.

Hoje temos 12 % do negócio de refeições envolvendo delivery,  e neste ramo temos uma redução de custos de 30% a 40 % com as dark kitchens, pois o aluguel se torna mais barato, e não precisa contratar garçons ou outros funcionários. Os clientes e entregadores também se beneficiam deste modelo, pois há uma maior cobertura das áreas de entrega e uma redução do tempo de entrega.

O aplicativo Apptite, por sua vez, criou um modelo de cozinheiros independentes, pois opera um delivery de comidas feitas em casa, e está em operação desde 2016, aplicativo pelo qual o cliente pede um prato caseiro feito por chefs profissionais e amadores.

O aplicativo diz que todo o trabalho posterior à preparação da comida pelo chef independente é feito pelo aplicativo, os chefs pagam com isto uma comissão de 25% ao aplicativo, e este fornece para o chef independente sacolas, embalagens, lacres e etiquetas, itens de uso obrigatório, e também cobre a gerência de motoboys.

O movimento do delivery tende a se expandir com esta atuação das dark kitchens. Falando da logística, por exemplo, temos a Rappi que utiliza hubs de cozinhas para alocar restaurantes parceiros ou também em um espaço independente, e com o aumento da eficiência e flexibilidade realizada pelas dark kitchens, por exemplo, uma mesma cozinha pode trabalhar com diversos produtos ao mesmo tempo.

O parceiro da Rappi pode fazer uma dark kitchen com uma única especialidade, ou utilizar uma dark kitchen com uma capacidade maior de produção, podendo abrigar duas marcas diferentes, e a Rappi personaliza a infraestrutura e a estrutura para atender estas marcas que trabalham alojadas em dark kitchens.

Gustavo Bastos, filósofo escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/colunas/as-dark-kitchens 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

OS PROJETOS DE LEI PARA PROTEGER OS TRABALHADORES DE APLICATIVOS

 “propostas de parlamentares envolvem projetos de lei que visam a proteção social destes trabalhadores”

Alguns projetos de lei estão avançando para atender reivindicações e balizar direitos para os entregadores de aplicativos, tais propostas que estão no Congresso Nacional incluem desde um valor mínimo por hora trabalhada, como fornecimento de equipamentos de segurança e EPIs, e o afastamento remunerado por motivos de saúde e, de fundamental importância, a questão do vínculo empregatício. Portanto, estas propostas de parlamentares envolvem projetos de lei que visam a proteção social destes trabalhadores.

Dentre estes projetos, o que tem mais abrangência é o do senador Jaques Wagner (PT-BA), que envolve os trabalhadores de aplicativos de transportes individuais privados, visando a proteção social destes trabalhadores, este que é o Projeto de Lei (PL) 3.570 que visa um valor mínimo para hora de trabalho, fornecimento, pelas empresas, de equipamentos de segurança e a possibilidade de seguro-desemprego.

Também temos no projeto do senador a inclusão de direitos como o de associação, cooperativismo e a sindicalização, tendo, por fim, também incluso no projeto de lei, o plano de saúde, auxílios alimentação e transporte, além de seguro-desemprego, seguro de vida e de acidentes, estes que, por fim, seriam negociados coletivamente.

Temos, dentre outros projetos que estão sendo propostos, os dos deputados federais Márcio Jerry (PCdoB-MA), Bira do Pindaré (PSB-MA), José Airton Félix Cirilo (PT-CE) e Eduardo Bismarck (PDT-CE). O PL 3.577/2020, de Jerry, por exemplo, tenta encaixar na CLT os entregadores de aplicativos. O PL 3.597/20, de Bira do Pindaré, visa uma equivalência entre o entregador de aplicativo e um trabalhador contratado diretamente pela empresa prestadora de serviço. O PL 3.599, do deputado Bismarck, visa regulamentar o serviço de entrega de mercadorias com o uso de bicicleta.

Um Projeto de Lei (PL) da deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), por sua vez, propõe a regulação da relação entre os trabalhadores das plataformas e as mesmas, num novo regime de trabalho sob demanda, uma vez que a intermediação é feita, por exemplo, por empresas como iFood e Uber, entre clientes e os trabalhadores dos aplicativos, pode até haver casos de Microempreendedores Individuais (MEIs), dentre alguns deste serviços, mas em geral a informalidade é a praxe usual destes serviços.

E hoje temos, segundo o a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de quatro milhões de trabalhadores prestando serviço para estes aplicativos, desde os de entrega de mercadorias, os de transporte individual privado, dentre outros.

O projeto de lei de Tabata Amaral visa preencher, segundo a própria deputada, um vácuo jurídico entre estes aplicativos e seus trabalhadores, dando regramento a esta relação, o PL 3748/2020, da deputada, coloca um valor por hora que não pode ser menor tanto do piso da categoria como do salário mínimo, incorporando a este valor os proporcionais de férias e o décimo-terceiro.

Os direitos levantados por esta PL também incluem seguro-desemprego e obrigações das empresas como fornecimento de EPI (Equipamentos de Proteção Individual) e a contribuição para a Previdência. A PL pode criar uma figura híbrida entre um autônomo e um celetista, e pode, ainda, criar um marco legal abrangente que vai além desta categoria de serviços.

Esta regulamentação por lei específica pode, por exemplo, evitar o que ocorreu com a questão da terceirização, que inicialmente era regulada por uma Súmula Vinculante do TST, a qual impedia que as chamadas atividades-fim fossem terceirizadas, restringindo este escopo das atividades terceirizadas às atividades-meio, e que teve uma nova posição, por parte do STF (Supremo Tribunal Federal), contrária a esta jurisprudência feita pela Justiça do Trabalho, liberando, a partir de decisão de 2018 da Corte, todo o tipo de subcontratação, e não mais somente as atividades laborais de limpeza e vigilância.

O questionamento levantado, contudo, é o de que haja uma migração de trabalhadores celetistas para este modelo sob demanda, abrindo um precedente para a precarização, se não tiver balizas claras na legislação que vem proposta na PL de Tabata Amaral, que diz, por sua vez, que o projeto não se aplica a atividades em que o usuário da plataforma escolhe a pessoa responsável pelo serviço.

Mas a PL de Tabata vem sendo questionada neste sentido da necessidade de uma maior clareza nas fontes de custeio dos benefícios deste novo regime sob demanda, e desta legislação proposta não incluir a responsabilidade de outra empresas, como os restaurantes e as plataformas de e-commerce, que também utilizam de forma disseminada os serviços destes trabalhadores.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://www.seculodiario.com.br/colunas/os-projetos-para-proteger-os-trabalhadores-de-aplicativos 

 

 

 

 

 

domingo, 9 de agosto de 2020

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A VONTADE GERAL, A LEI E O LEGISLADOR

Rousseau pensa o contrato social como uma solução para o problema fundamental de toda comunidade humana, que é a conciliação entre liberdade e obediência, tal associação serve para que os homens, que atuam como cidadãos na vida social, possam recuperar a liberdade que tinham no estado de natureza. Tal contrato social teria a capacidade de que todos obedecessem sem ninguém comandar, todos são livres sob este contrato, todos servem sem ter senhor, e tal obra é da Lei, pois é a ela que devemos a justiça e a liberdade.

O que será dito como o prodígio da lei é o acordo entre obediência e liberdade, e tal se realiza na noção de Soberania, que tem como essência, por sua vez, a vontade geral. Rousseau nos diz que a soberania é o exercício da vontade geral. Em Rousseau, por conseguinte, a legitimidade política depende da vontade geral.

Rousseau começa a sua definição de vontade geral diferenciando esta da vontade particular, este que se move por preferências pessoais, e a vontade geral que tende ao interesse comum, e que deve ser o verdadeiro motor do corpo político, uma vez que ocorra isto a vontade geral se torna a vontade do todo.

Rousseau, em seguida, distingue a vontade geral da vontade de todos, pois a vontade geral se liga ao interesse comum somente, e a vontade de todos visa o interesse privado e é nada mais que a soma de vontades particulares. A vontade geral, portanto, é mais o interesse comum, ela é sempre a mesma, e não é geral por ser de todos, não interessa o número de votos que ela expressa, mas sim o interesse comum que une estes votos.

A vontade geral é a essência da soberania, e ela mais se manifestará quanto mais se mantiver ativa, isto é, quanto mais for contínuo o seu exercício, através da participação do cidadão nas deliberações coletivas, a vontade geral dirige o Estado na medida em que é sempre consultada e que responda a esta consulta. A vontade geral, em Rousseau, se expressa no consenso coletivo obtido pela participação permanente do conjunto dos cidadãos nos assuntos da comunidade, ela parte de todos para aplicar-se a todos igualmente.

Rousseau, uma vez tendo estabelecido como princípio fundamental que é soberana somente a sociedade que é dirigida pela vontade geral, ele se volta para o corpo político e sua dinâmica social, ou seja, ele vê a necessidade de dar a este corpo político movimento e vontade pela legislação. O corpo político ganha este movimento através de um governo que tem como tarefa zelar pelo cumprimento da cláusula essencial do contrato, e dar vontade é dotar este corpo político de um sistema de leis fundamentais que fixem o conteúdo concreto da vontade geral.

As leis são atos da vontade geral, atos estes que são expressos pelo conjunto dos cidadãos no exercício do interesse público, as leis são as condições da associação civil, e o povo que se submete a estas leis deve ser seu verdadeiro autor, isto deve resultar das chamadas “luzes públicas”, o que se dá pelo debate público aonde se pode depreender a verdadeira vontade geral da comunidade.

Nasce a necessidade de um legislador, este que deve ter uma clara consciência dos problemas comuns e intenções honestas, ele aparece aqui como razão encarnada. Se o povo não é capaz de fazer o que manda o bem público, pelas próprias luzes, depende de uma declaração expressa do bem através das leis, por conseguinte, entre o povo e a multidão cega existe um abismo a ser transposto pela intervenção de um indivíduo excepcional, este que é o legislador.

O legislador é aquele que ousa empreender, com capacidade, mudar a natureza humana, transformando cada indivíduo, por si mesmo, de um todo perfeito e solitário, em parte de um todo maior do qual, de certo modo, este indivíduo recebe sua vida e seu ser. Alterar a constituição do homem para fortificá-la, substituir a existência fixa e independente por uma existência parcial e Moral, transformar o homem independente e natural em uma parcela do todo social, é o que Rousseau chama, no Emílio, de desnaturar.

A missão do legislador é pois fixar o bem público. Desnaturar é, desta forma, uma ação ou educação política. Rousseau, no entanto, adverte que aquele que redige as leis não deve ter o direito legislativo. O povo não pode abdicar deste direito incomunicável. 

A PROPRIEDADE

Rousseau desenvolve sua ideia de propriedade intimamente ligada ao surgimento da desigualdade social, isto vemos no Discurso Sobre a Desigualdade, e no Contrato Social, Rousseau argumenta que todo o sistema de legislação de qualquer associação política tem dois objetivos principais : a liberdade e a igualdade. É uma sociedade constituída sobre estes dois princípios que se perseguirá permanentemente o bem público.

É no Contrato Social que Rousseau estabelece os princípios de uma verdadeira comunidade política, negando a sociedade que ele chama como um pacto dos ricos, a sociedade que deu origem às desigualdades. Contrariamente a Locke, que a considera um direito natural, para Rousseau, a propriedade só surge com o estado Civil, pois é ele que a legitima, e que a diferencia da mera usurpação.

Para Rousseau, o homem primitivo, vivendo solitariamente a sua relação com a natureza, não tem um direito no sentido jurídico sobre as coisas de que se apossa premido pela necessidade da sobrevivência. Trata-se de um direito baseado na conservação. Será somente com a divisão das terras que se acrescenta o direito sobre as coisas com a respectiva exclusão de outros. Estando a lei da natureza baseada apenas no instinto de conservação, ela implica unicamente uma relação entre o homem e a natureza.

Num momento seguinte, com o início da construção das cabanas, o direito do primeiro ocupante se consolida como consequência de uma atividade pessoal que Rousseau ainda não chama de trabalho. Este direito é atribuído mais propriamente às construções que ergue do que sobre a terra. O direito sobre as habitações, no entanto, assume uma certa permanência anteriormente não observada. Contudo, ainda não é um direito exclusivo em relação a terceiros.

Somente com a divisão das terras é que emerge uma espécie diversa de direito diferente do direito natural fundado no instinto de conservação. Trata-se, no entanto, ainda, de uma lei sem sanção, por implicar um direito não reconhecido socialmente e, portanto, a única forma de garanti-lo é através de represálias contra aqueles que não o respeitam.

Nesta etapa o direito de propriedade é ainda insuficiente e, por uso, constantemente ameaçado. A posse contínua o fortalece, mas apenas o poder estatal, finalmente, é quem pode garanti-lo. Num segundo momento é que fica assegurada a posse como legítima. É o momento da convenção e que, na origem de nossa sociedade, representa o instante de transformação de usurpação em verdadeiro direito.

A propriedade baseia-se essencialmente sobre uma convenção, mas esta não é a sua fonte originária. Ela só se define completamente, enquanto direito, com a instituição do Estado que tem por objeto legislar sobre esse direito individual que é reivindicado no estado de natureza.

Contudo, ao contrário da tradição jusnaturalista, Rousseau se recusa a ver a propriedade como uma instituição benfeitora da humanidade, não pensa que o papel da convenção seja apenas constatar um direito natural como queria Locke. A propriedade é, ao contrário, colocada em questão como fonte de miséria e de horrores.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link do vídeo no Instagram :  https://www.instagram.com/p/CDsSbepDX2t/?hl=pt-br

MATILDE CAMPILHO ANTES DO BRASIL

“Matilde estudou Línguas e Literaturas Modernas, variante Estudos Portugueses e Ingleses”

Jóquei tem um ar sui generis, é um livro de poemas que não estava no radar da crítica literária, nem no mercado, mas que deu super certo, e foi um livro muito bem acolhido por crítica e público, Matilde Campilho se saiu bem e logo ganhou seu espaço, o meio literário português e brasileiro logo passou a entender os códigos desta poesia de Matilde.

Gustavo Rubim, crítico de poesia do Ípsilon, chamou-lhe “um acontecimento precioso em língua portuguesa” e disse que Matilde era uma voz poética como um “vento de pura selvajaria”. Dos diversos elogios à obra Jóquei está um leitmotiv deste híbrido ligando Portugal e Brasil, é o que eu chamei no texto anterior de clichê-Matilde.

A poesia de Matilde Campilho está livre do tom austero, grave, e também livre de toda a pomposidade, e tem no inglês uma bem-vinda influência de Eliot e Whitman. Citando de novo o texto de Rubim, há “verso curto, prosa longa, diálogo, narrativa, quase aforismo, espécie de carta, glosa”.

Em Jóquei os poemas dançam, podemos usar expressões mais sisudas como ética poética, por exemplo, uma vez que Jóquei, em parte, está mais ligado a um modo de falar, um linguajar, do que a uma relação de significados que as palavras de seus poemas comportam. No livro Jóquei temos múltiplas vozes, numa dicção que ganha pluralidade, ecoa muita coisa nestes poemas de Jóquei.

Antes do Brasil (uma vez que a história da poeta tem um antes e um depois do Brasil), Matilde estudou Línguas e Literaturas Modernas, variante Estudos Portugueses e Ingleses, sendo que, curiosamente, a sua “fase de não ler foi na universidade”. Depois tirou um minor em História da Arte, em Milão, mesmo que tenha ficado mais tempo em Florença, e viveu dois anos em Madrid, e no Brasil fez novamente o trabalho de editora de texto para um canal de televisão. E foi no Brasil que Matilde “soltou a língua” que, segundo a própria “estava travada”.

POEMAS :

GOLPE DE 7 GRAUS : O poema se abre em uma peculiar astrolírica, no que vem : “Depois de Manuel de Castro, que disse/Venho dum país de neve e floresta/Há aquele poema que fala de renas/e do filho gigantesco/que nos atravessa as cabeças geladas/Fala de uma astrolírica saudade/que levantava a nave até ao nome/Mas olha esse nome nem é meu/porque ao meu nome lhe falta uma letra/É um poema mais ou menos de exílio”. O poema que Matilde diz ser de exílio, também desfaz velhas noções sobre o amor, e segue : “O amor desenhado à luz das flores velhas/não me interessa mais”. Em sua casa, a poeta tenta ver algo, e lembra da cidade em que já morou, no que segue : “Uma porta entreaberta/não deixa ver o real/Esta manhã não sei se existiriam os melros/depenicando a relva do vizinho/Não sei se vieram as ruas/da cidade onde já morei”. O poema segue em sua visão : “Passeava na avenida onde uma vez/um colibri se embrenhou em minha testa/na época pensei que era o sinal do amor/Fui a ver e não era sinal de nada/era só a simpatia do passarinho”. Matilde descreve então a sua visão durante o sono, em que ela elenca toda uma teia de acontecimentos que viram aqui poesia, no que temos : “Hoje durante o sono/eu passeava na cidade/onde o filho até já pariu irmãos/onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew/onde o cachorro andava meio adoentado/e onde precisei fazer de spiderman/para fugir ao feitiço da umbanda”. Matilde segue : “eu me perdi nas sete estradas/ao volante de um opel vectra/Mas rapidamente me achei/porque casa da gente a gente acha/Depois acordei/para o poema”. Ela se encontra, e nesta aventura, acorda para o poema, no que segue : “Acordei para o som do rádio/que não tocava triste nem fútil/não falava da morte nem dos carretos/Que só acertava os pontos/com o planeta/repetindo aquela frase/que sempre vem exatamente antes/da frase que diz/It`s lonely out in space./Saudade, astrolírica saudade/Teu nome perdeu o agá.”. Sua coda retoma a astrolírica, e a palavra saudade ganha corpo aqui encerrando o poema, a última ideia que revela então esta coda já com mais uma prática do inglês pela poeta que gosta de brincar em seu linguajar esperto.

VENDAVAL : O poema descreve um menino prodígio português num tom de humor poético próprio de Matilde, enquanto ela descreve a si como personagem também deste seu poema, junto com um amor seu, e o bar do Doug, aonde se ambienta toda a descrição peculiar deste poema bem interessante, no que temos : “O rapaz prodígio venceu/o prêmio de ouro/É Portugal brilhando/na grama internacional” (...) “Veja bem não é por nada/Absolutamente nada contra/nosso menino dourado” (...) “Mas repare/Tomei umas quantas cervejas/no bar do hotel do Doug/faz uma semana agora/Era dia de reis/e troquei mirras & beijos/com meu velho costumeiro/amor de aço/Sabe aquele amor/que permanece nos dias/Se espalha nos areais/sem tempo nem nome” (...) “Aquele que sempre vai/e que sempre vem”. Matilde segue esta sua descrição riquíssima, o menino prodígio de Portugal, seu prêmio de menino de ouro, e a vida própria da poeta neste poema louco, no que segue : “Hércules visitou nossa costa/E ao invés de vestir o escafandro/meu velho amor e eu/escolhemos ver a revolução aquática/a partir da bancada do bar”. Ela segue, e se diz mais vivida que o tal prodígio, ela descreve a visita de Hércules, e diz que se abrem fendas na cidade, no que segue : “Foi tudo muito maravilhoso/visto da bancada/Sempre é/desde 1982” (...) “aquele velho amor e eu/Temos uns quantos anos mais/do que o rapaz prodígio/Não saímos nunca no noticiário” (...) “Hércules ainda vem para nos visitar/a cada quatro ou cinco tempos/E sim ainda/se abrem fendas na cidade”. O poema segue, e Matilde descreve esta sua visão da proa que também enxerga um destino, no que temos : “Meu amor e eu/nós fazemos história/no mapa do casco de Noé” (...) “Sim amor os dias se fazem/por placas de resignação/Dois meninos acenando/para o fiel capitão/que chora na proa/do cargueiro da vida/e do destino”. O menino de ouro vence o prêmio de ouro, no que segue : “deu nas notícias/o rapaz de ouro venceu/o prêmio de ouro”. Vemos aqui a última estrofe, o poema diz sobre Portugal, o tal menino de ouro, e a explosão de amor, uma coda brilha no olho da poeta, todo preto e verde, no que temos : “Portugal meu querido/país dos descobridores/aposentados/Tenha orgulho de seu menino/Mas saiba igualmente que você/também foi/para sempre será/o berço e o caixão/para o mais sério caso/de explosão de amor/que o mundo já viu./E é por causa disso/o brilho de meu olho/todo preto e verde.”.

BRIGA ENTRE UM TERRENO SAGRADO E OUTRO : O poema segue com um interlocutor, um método bem usado por Matilde, e muito presente nos poemas do seu livro Jóquei, e aqui temos mais um poema que tem este modo de se colocar, a dicção de Matilde, que volta e meia convoca um interlocutor, seja este amoroso ou outra coisa, no que temos : “Perdi muito tempo pensando/sobre se você iria para o céu/ou para o inferno/Achava que com tanta gente/ferida por seu punhal/havia uma possibilidade/Sim uma possibilidade/de que você fosse parar/no inferno”. Matilde então descreve esta sua figura neste seu poema curioso, no que segue : “Tinha a forma como você/conversava com estranhos/na rua à hora dos lobos” (...) “Aquela sua atrapalhação/quando você se atrasava/Você sempre se atrasava/e chegava correndo/se justificando/olhando o relógio/que você nem tinha/Você toda afogueada/subindo no banco de trás/de minha bicicleta/enquanto eu continuava/lendo o jornal internacional”. Novamente, Matilde evoca o destino metafísico deste seu interlocutor, e temos : “Havia a possibilidade/e havia uma forte possibilidade/de que você terminasse no céu/ou no paraíso/O tempo que você levava/para se despertar/nas manhãs de dezembro/A atenção que você dedicava/a todas as partes de seu corpo/e de meu corpo”. O poema de Matilde e esta influência do interlocutor, que flerta aqui com o inferno e o crime, no que temos : “Passei muito tempo pensando/sobre se tua inclinação/te levaria até o inferno/pouco depois de tua morte/E mais do que isso/eu também pensava/se você morrer eu morro/se você escolher o gole do diabo/eu bebo do mesmo cantil/Foi assim que me tornei ladrão”. E Matilde segue : “Foi assim que esbofeteei o policial/e pior que isso foi assim que esmurrei/meu colega samurai”. E a coda inteligente, com a relação desta morte do interlocutor, que faz Matilde dar de caras com a vida, eis a coda em uma luz bem intensa de final inteligente de poema, com um estro que responde com este humor de Matilde toda a sua maneira de fazer um poema, no que temos : “Para onde você vai eu não sei/Na verdade não me importa mais/Porque no caminho do post-mortem/Aconteceu que dei de caras com a vida.”.

POEMAS :

GOLPE DE 7 GRAUS

 

Depois de Manuel de Castro, que disse

Venho dum país de neve e floresta

 

Há aquele poema que fala de renas

e do filho gigantesco

que nos atravessa as cabeças geladas

Fala de uma astrolírica saudade

que levantava a nave até ao nome

Mas olha esse nome nem é meu

porque ao meu nome lhe falta uma letra

É um poema mais ou menos de exílio

mais ou menos não

Não sei se fala do amor por alguém

e isso não me importa nem um pouco

O amor desenhado à luz das flores velhas

não me interessa mais

Não agora, não depois disto

Esta manhã a persiana do meu quarto

partiu ao meio

não deu para ver o mar da varanda

Uma porta entreaberta

não deixa ver o real

Esta manhã não sei se existiriam os melros

depenicando a relva do vizinho

Não sei se vieram as ruas

da cidade onde já morei

Sim as ruas estiveram neste quarto

isso é mais que certo

Mas eu não sei se vieram antes

ou depois do princípio da manhã

Hoje durante o sono

eu passeava na cidade sem renas

Passeava na avenida onde uma vez

um colibri se embrenhou em minha testa

na época pensei que era o sinal do amor

Fui a ver e não era sinal de nada

era só a simpatia do passarinho

e isso foi mais que suficiente

Hoje durante o sono

eu passeava na cidade

onde o filho até já pariu irmãos

onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew

onde o cachorro andava meio adoentado

e onde precisei fazer de spiderman

para fugir ao feitiço da umbanda

Hoje durante o sono

eu me perdi nas sete estradas

ao volante de um opel vectra

Mas rapidamente me achei

porque casa da gente a gente acha

Depois acordei

para o poema

Para o urro doloroso

da palavra Fidelidade

Para o contorno trêmulo

da letra que me falta

Para o país do azevinho

e da excitação coletiva

costurada a verde e a vermelho

Para o tom neutro do cansaço

que acontece principalmente aos domingos

quando a rena ainda não se transformou em cervo

Quando o bicho ainda não veio

comer das folhas de minhas mãos

Nem soprar seu bafo quente

para formar as folhas

que devem crescer-me nos pulmões

Acordei para o som do rádio

que não tocava triste nem fútil

não falava da morte nem dos carretos

Que só acertava os pontos

com o planeta

repetindo aquela frase

que sempre vem exatamente antes

da frase que diz

It`s lonely out in space.

Saudade, astrolírica saudade

Teu nome perdeu o agá.

 

VENDAVAL

O rapaz prodígio venceu

o prêmio de ouro

É Portugal brilhando

na grama internacional

e brilhando tão pouco

em meu olho preto

Veja bem não é por nada

Absolutamente nada contra

nosso menino dourado

Ele que já era de ouro

mesmo antes da loucura

do Zé Bexiga

Mas repare

Tomei umas quantas cervejas

no bar do hotel do Doug

faz uma semana agora

Era dia de reis

e troquei mirras & beijos

com meu velho costumeiro

amor de aço

Sabe aquele amor

que permanece nos dias

Se espalha nos areais

sem tempo nem nome

Se enterra vezinquando

nas barbas de um estrangeiro

e depois volta

no cangote de um peixe prata

Aquele que sempre vai

e que sempre vem

feito o trem de Minas

Quase ninguém viu Maria

Fumaça

mas todo mundo sabe que existe

Li um poema que falava de

“my little space cadet”

É mais ou menos isso

My little space cadet

veio comigo ao bar do Doug

e juntos enfrentamos

as ondas de 22 metros

Sim foi na noite da tempestade

Faça suas contas

está fazendo uma semana agora

Hércules visitou nossa costa

E ao invés de vestir o escafandro

meu velho amor e eu

escolhemos ver a revolução aquática

a partir da bancada do bar

Nos estamos quedando mayores

mi viejito amor y yo

já não temos estofo

pra ver as ondas do pontão

Vai que entra uma pedra

de sal no olho

Vai que surge a verdade

de Netuno

na cara dos vagalhões

e na cara de nosso friso

Foi tudo muito maravilhoso

visto da bancada

Sempre é

desde 1982

Somos bastante da mesma idade

e do mesmo time

aquele velho amor e eu

Temos uns quantos anos mais

do que o rapaz prodígio

Não saímos nunca no noticiário

O país não vestiu de todo

nossa camisa vermelha e verde

Quase ninguém brindou a nossa vitória

Mas nós sim

O Doug sim

O Doug ainda nos trata

por menino e menina

apesar de nossos 30 e tal anos

Hércules ainda vem para nos visitar

a cada quatro ou cinco tempos

E sim ainda

se abrem fendas na cidade

por cada vez que escolhemos

embater nossas testas

nossos corações

nossos cílios

nossa tenebrosa loucura

Meu amor e eu

nós fazemos história

no mapa do casco de Noé

“All men are Noah’s sons”

a gente sempre confirma isso

Faz uma semana agora

e dessa vez não foi diferente

Para variar a dialética é bom

falar que dessa vez não foi diferente

e assumir nosso velho trem

Dois meninos no bar

Dois meninos medindo

a distância daqui para Sírius

Dois meninos aceitando

a benção horária

que constrói os dias

Sim amor os dias se fazem

por placas de resignação

Dois meninos acenando

para o fiel capitão

que chora na proa

do cargueiro da vida

e do destino

É pois é

deu nas notícias

o rapaz de ouro venceu

o prêmio de ouro

Oito dias depois da morte

do outro futebolista português

Portugal entrou em pausa

para se orgulhar de seus heróis

E nós dois paramos

junto ao balcão do bar de Doug

para aplaudir o amor eterno

numa resignação tão pacífica

mas tão pacífica

que só pode encher o país

de brilho e de sossego.

 

Portugal meu querido

país dos descobridores

aposentados

Tenha orgulho de seu menino

Mas saiba igualmente que você

também foi

para sempre será

o berço e o caixão

para o mais sério caso

de explosão de amor

que o mundo já viu.

 

E é por causa disso

o brilho de meu olho

todo preto e verde.

 

BRIGA ENTRE UM TERRENO SAGRADO E OUTRO

Perdi muito tempo pensando

sobre se você iria para o céu

ou para o inferno

Achava que com tanta gente

ferida por seu punhal

havia uma possibilidade

Sim uma possibilidade

de que você fosse parar

no inferno

Mas depois também tinha

aquela coisa de você nadando

na Praia da Amoreira

ou de você desenhando

com uma pedrinha branca

na pele do rochedo irregular

ou até de você aparecendo

sorrindo na minha frente

Tinha a forma como você

conversava com estranhos

na rua à hora dos lobos

Seu jeito de segurar a raquete

quando jogava badminton

Aquela sua atrapalhação

quando você se atrasava

Você sempre se atrasava

e chegava correndo

se justificando

olhando o relógio

que você nem tinha

Você toda afogueada

subindo no banco de trás

de minha bicicleta

enquanto eu continuava

lendo o jornal internacional

calmamente

sempre calmamente

te esperando

Você dizia des-des-desculpa

eu lia a última parte da notícia

que falava de um barco

encalhado na Mesoamérica

e depois te dizia vamos?

Havia a possibilidade

é havia uma forte possibilidade

de que você terminasse no céu

ou no paraíso

O tempo que você levava

para se despertar

nas manhãs de dezembro

A atenção que você dedicava

a todas as partes de seu corpo

e de meu corpo

e do corpo do raminho

de peônias

que adormeciam

e acordavam conosco

no hotel mais sujo da cidade

em dezembro e fevereiro

Isso dizia muito sobre

sua vocação para a meditação

e também para o desespero

Passei muito tempo pensando

sobre se tua inclinação

te levaria até o inferno

pouco depois de tua morte

E mais do que isso

eu também pensava

se você morrer eu morro

se você escolher o gole do diabo

eu bebo do mesmo cantil

Foi assim que me tornei ladrão

Assim que apontei o canivete

na têmpora de Xavier Tementree

Assim que assaltei a horta biológica

para levar todos os pés da salsa dourada

Foi assim que esbofeteei o policial

e pior que isso foi assim que esmurrei

meu colega samurai

quando eu sabia que ele fazia aquilo

só por diversão ou por imitação

Passei muito tempo pensando

num lado e no outro

E portanto nos intervalos do terror

para cobrir minha retaguarda

Eu dançava na quermesse

Alimentava os castores

Contava as línguas das tribos

Fazia vênias aos astrofísicos

Beijava todas as cabeças

dos pássaros e dos lampiões

Não fosse deus tecer a manta

e fazer-te escolher a água benta.

 

Para onde você vai eu não sei

Na verdade não me importa mais

Porque no caminho do post-mortem

Aconteceu que dei de caras com a vida.

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário :  https://www.seculodiario.com.br/cultura/matilde-campilho-antes-do-brasil        

                          

Nagasaki

 O fim do império de Hiroito,

a rendição enfim trágica

sobre mais um genocídio,

Fat Man sobre a cidade

de Nagasaki,


caiu o último deus fictício

e o fim deste eixo

que desmorona sobre

a pele queimada

do plutônio.


09/08/2020 Gustavo Bastos 

Hiroshima

 A tragédia que ruiu

o império, uma marca

da História que a bomba

delineou em seu desenho

de genocídio,


a bomba, despejada do

Enola Gay, que dizimou

e produziu o câncer,

a bomba Little Boy

sobre o sol nascente

que virou noite e cinzas.


09/08/2020 Gustavo Bastos