PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

TORQUATO NETO, TODAS AS HORAS DO FIM


“Torquato tinha pleno domínio de seus recursos literários e de letrista”

TEXTO – INTRODUÇÃO

Torquato Neto tem uma obra poética e de letrista muito ligada à sua vivência, ele que possui uma vida curta e, por conseguinte, uma obra de poesia escrita póstuma, mesmo que no cenário do Tropicalismo como letrista e do jornalismo ele tenha tido êxito, mas foi uma chama que se queimou, Torquato talvez não tenha tido a oportunidade de uma ponderação que poderia ter surgido bem depois da idade em que decidiu por se suicidar, aqui temos, já desfazendo a palavra anterior, o imponderável, a especulação exangue diante do que não se sabe e do que, em geral, não aceitamos, nossos inúmeros poetas suicidas, linhagem evolutiva que talvez tenha começado por Safo e que espero que já tenha cessado, em novos tempos de nossa literatura contemporânea (doce ilusão).
Torquato, como se disse, tem uma poesia póstuma, um legado textual breve, de um jovem, que antes de sua compilação, era um conjunto complexo e disperso de fragmentos, num trabalho interrompido quando Torquato, no seu aniversário de 28 anos, se mata ligando o gás, destruindo seus textos, salvos, em parte, pela sua mulher Ana Duarte, e penso em como nós podemos, muitas vezes, ser cruéis com nós mesmos, num beco sem saída, seja por motivação clínica, ambiental ou uma soma de ambas em que a existência não nos serve mais. Foi em novembro de 1972.
Torquato foi um publicista agitador, era um artista polivalente, ator, diretor de filme, fazendo bicos, divulgando discos e fazendo também trabalhos para a televisão. Torquato tinha pleno domínio de seus recursos literários e de letrista. Torquato vai da forma em Louvação para o conflito herdado de Sousândrade do desvio, da deformação, do desalinho, quando cita o mesmo, no verso : “desafinar o coro dos contentes”.
Nos anos de 1971 e 1972, Torquato consegue, com sua coluna Geleia Geral na Última Hora, atravessar a cortina de fumaça da ditadura militar e nos trazer um brilho, uma graça, um frescor, divulgando a cultura que continuava acontecendo ao redor, mesmo com a censura e a tortura. Torquato, portanto, já fazendo vida e suicídio dialogarem, viveu o desbunde, que virou hospício, viveu a contracultura, que virou presídio, num embate entre duas forças opostas que podem ser o custo que lhe veio ao abrir o gás. No caso da internação no Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro, hoje Instituto Municipal Nise da Silveira, temos um diário que descreve os impulsos autodestrutivos, que surgiam dos excessos de álcool e LSD, e a luta de Torquato para ficar lúcido. 
Quanto à obra poética póstuma de Torquato Neto, esta começa pelo livro Os últimos dias de Paupéria, lançado em 1973, organizado pela viúva Ana e por Waly Salomão. Em 1982, temos uma segunda edição ampliada, já com uma compilação maior de sua atividade de jornalista. Tais edições de Paupéria hoje são raridades.
O terceiro trabalho que aparece de Torquato, por sua vez, é a compilação chamada Torquatália, e que representa um avanço importante na organização do espólio literário do escritor, pois aqui temos uma tentativa e também uma realização considerável, de dois volumes, da obra torquatiana, tendo como organizador o editor Paulo Roberto Pires. Aqui temos a obra de Torquato reorganizada, ampliando o corpus conhecido dos escritos que ele produziu, e o mais importante, com as categorias por gêneros textuais mais esclarecidas. Contudo, sempre é bom lembrar que tal ordenamento da obra é feito por outros, pois, obviamente, Torquato já morava no silêncio. O que temos de fortuna crítica, por outro lado, envolve seu sucesso tropicalista, além do pós-Tropicalismo e sua verve praticada na contracultura.
O acervo literário de Torquato, em certo momento, é entregue à sua família no Piauí, que ficou sob os cuidados de seu primo, George Mendes, e vieram então mais dois volumes póstumos, desta vez de poemas de sua adolescência e juventude, que vira o Juvenílias, e temos, ponto interessante, O fato e a coisa, título criado por Torquato, escritos também de juventude, talvez a única obra original decidida pelo próprio Torquato, que o escritor preservou e manteve na íntegra até 1972, ano em que ocorreu a tragédia.
O poeta imberbe Torquato, por sua vez, ao vermos estas duas obras citadas acima, já tem uma poesia lírica e reflexiva, com fonte no modernismo e no pensamento universitário dos anos 1960, bebendo, sobretudo, no conterrâneo Mário Faustino, que é o poeta recitado no filme clássico de Glauber Rocha, Terra em Transe. Na música, vemos um Torquato radiante criativamente e no sentido de sucesso, na MPB pós-Bossa Nova, principalmente da invasão baiana, e compositores como Geraldo Vandré e Edu Lobo, até ao clímax com o Tropicalismo, sob o influxo modernista de Oswald de Andrade, o concretismo poético paulista e, por fim, o desbunde com Hélio Oiticica.

POEMAS E CANÇÕES :

COGITO : O poema parte da ideia cartesiana ilustre, sim, apenas no título, ou o que pode erroneamente sugerir, a um filósofo açodado, exibidoso de seu saber acadêmico, mas aqui já temos o drama que vai ocorrer, o sujeito torquatiano aparece fragmentado, nenhum pouco afeito a uma razão como fonte de autonomia, aqui o sujeito é frágil, e a poesia manifesta a ideia de vulnerabilidade, o que entendo numa visão, contudo, desassombrada e não romanceada, como certa crítica literária mistificadora de teses suicidas costuma fazer, numa imprudência exegética que é uma mistura de visão fanática e ingênua sobre os poetas, a famigerada aura que gostam de colocar como um atributo da arte e dos artistas, que culminam na palavra gênio, enfim, mas aqui vem o poema, no que temos : “eu sou como eu sou/pronome/pessoal intransferível/do homem que iniciei/na medida do impossível/eu sou como eu sou/agora/sem grandes segredos dantes/sem novos secretos dentes/nesta hora/eu sou como eu sou/presente”. A vida presente do poeta, que viria aqui como uma virtude de força, o que é de se esperar, no entanto, culmina com uma visão fatalista, o poeta vive já o fim, e Torquato aqui é peremptório. Ao contrário de T.S.Eliot, que dizendo que seu fim é seu começo e vice-versa, comete uma petição de princípio e dá por cíclica a tarefa que finda, começa e recomeça, e finda novamente, chave de prata e de ouro, um círculo, pois. O que não é o caso torquatiano, aqui temos uma linha reta, pois Torquato encara o fim como algo constante, um fim sem fim, mas que na coda anuncia como fim literal do poema, o que chamam de suicídio, uma profecia biográfica, o que eu julgo como tirar sentido psíquico do poema, e eu prefiro olhar o fim como um evento estético do poema, o que não deixa de ser uma perspectiva, não sou dono da verdade, mas o poema, logo, tem seu fim, no que vem : “eu sou como eu sou/vidente/e vivo tranquilamente/todas as horas do fim.”.

SEM TÍTULO : Aqui temos uma concepção de poesia fundante da arte, a poesia é o centro orbital de tudo, e é tão descolada, que além de artística, é também manhosa, no que temos : “A poesia é a mãe das artes/& das manhas em geral :”. O poema ganha um corpo dramático, a seguir : “Mal, muito mal : a paisagem, o verde/da manhã, rever-te sob o sol de tropical/reverso da mortalha (o mal), notícias/de jornal – vermelho e negro – naturalismo/eu cismo.”. A face naturalista é também fatalista, e nada mais certo desta morbidez do que a ideia do mal, aqui o jornal, vermelho e negro, censura e tortura, e um poema que sai de sua manha luminosa, e cai, ao fim, na real, tempos bicudos.

LET`S PLAY THAT : Let's Play That, álbum gravado por Jards Macalé e Naná Vasconcelos em 1983, só vai sair em 1994. A faixa-título é uma letra de Torquato Neto, aqui temos o material bruto, isto é, escrito, que é uma paródia do Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade, um dos poemas mais seminais e canônicos (como você consegue isso Drummond, me ensina?) da poesia brasileira, e que termina com a citação do poeta Sousândrade, no que temos : “Quando eu nasci/Um anjo louco muito louco/Veio ler a minha mão/Não era um anjo barroco/Era um anjo muito louco, torto” (...) “Eis que esse anjo me disse” (...) “Vai bicho desafinar/O coro dos contentes/Let`s play that.”.
Canção : Jards Macalé/Torquato Neto

SEM TÍTULO : O poema bélico e belo, armas e artes, espinho e rosa, e que termina aqui, com Torquato, qual um apresentador de auditório, dá um alô, sem antes lembrar que a poesia maldita é assim por fazer manhas, uma certa esperteza, uma poesia ladina, mas que é uma convocação, escrevam (e/ou declamem) poesia, pois, no que vem :“O Poeta é a mãe das armas/& das Artes em geral –“ (...) “quem não inventa as maneiras/do corte no carnaval/(alô, malucos) é traidor/da poesia : não vale nada, lodal./A poesia é o pai das ar-/timanhas de sempre : quente/ura no forno quente/do lado de cá, no lar/das coisas malditíssimas;/alô poetas, poesia!” (...) “Poetemos pois.”.

MAMÃE, CORAGEM : A canção, emblemática no álbum portador da Tropicália, álbum que é como o opus magnum do movimento, é um dos momentos de arte maior, no que temos, com um Torquato em seu auge como letrista, a luta de filho que vai embora para uma paragem inóspita, cheirando à tragédia, mas que já tenta consolar a mãe, na palavra chave coragem, em fundo brechtiano, no que vem : “Mamãe mamãe não chore/A vida é assim mesmo/Eu fui embora/Mamãe mamãe não chore/Eu nunca mais vou voltar por aí/Mamãe mamãe não chore/A vida é assim mesmo/E eu quero mesmo/É isso aqui” (...) “Veja as contas do mercado/Pague as prestações/- ser mãe/É desdobrar fibra por fibra/Os corações dos filhos,/Seja feliz/Seja feliz” (...) “Mamãe seja feliz/Mamãe mamãe não chore/Não chore nunca mais não adianta” (...) “Eu por aqui vou indo muito bem/De vez em quando brinco o carnaval/E vou vivendo assim : felicidade/Na cidade que eu plantei pra mim/E que não tem mais fim/Não tem mais fim/Não tem mais fim.”. Torquato diz à mamãe, não chore, pois para onde ele vai, não tem mais fim.
Canção : Caetano Veloso/Torquato Neto (do álbum Tropicalia ou Panis Et Circensis, com a voz descomunal de Gal).

TODO DIA É DIA D :  Ronaldo Bastos idealizou e conseguiu lançar a coletânea Todo Dia É Dia D, marcando os 30 anos da morte de Torquato. O álbum traz versos de Torquato combinadas com melodias de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Edu Lobo, e que se trata de gravações, por sua vez, feitas nos anos 1960 e início dos anos 1970. A faixa-título, por sua vez, vem de um primeiro registro, um disco obscuro de Gilberto Gil, o “Cidade do Salvador”, por fim, e aqui vem trechos da canção, da letra, temos : “Desde que eu saí de casa?/Trouxe a viagem da volta/Gravada na minha mão” (...) “Abro a porta e a janela/Todo dia é dia D” (...) “Todo dia é mesmo dia/De amar-te e a morte morrer/Todo dia é mais dia, menos dia/É dia D.”. O fim aparece aqui mais uma vez como esta presença constante. Torquato, contudo, parece viver intensamente, pois o dia D é todo dia, quem vive em situação-limite, e faz letra, cita a palavra fim primeiro como arte, uma arte do limite, depois fica por conta do letrista, a sorte foi lançada.
Canção : Carlos Pinto/Torquato Neto

POEMAS E CANÇÕES :

COGITO
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

SEM TÍTULO

A poesia é a mãe das artes
& das manhas em geral : alô poetas
poesia no país do carnaval,
têm a palavra calada
pelas doenças do mal.

Mal, muito mal : a paisagem, o verde
da manhã, rever-te sob o sol de tropical
reverso da mortalha (o mal), notícias
de jornal – vermelho e negro – naturalismo
eu cismo.

LET`S PLAY THAT

Quando eu nasci
Um anjo louco muito louco
Veio ler a minha mão
Não era um anjo barroco
Era um anjo muito louco, torto
Com asas de avião
Eis que esse anjo me disse
Apertando a minha mão
Com um sorriso entre dentes
Vai bicho desafinar
O coro dos contentes
Let`s play that.

SEM TÍTULO

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral –
alô, poetas : poesia
no país do carnaval;
alô, malucos : poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral :
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos) é traidor
da poesia : não vale nada, lodal.

A poesia é o pai das ar-
timanhas de sempre : quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas, poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar : quem for cortar meu cabelo
já sabe : não está cortando nada
além da MINHA bandeira IIIIIIIIIII =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar
Isso : ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar. a
r : em primeiríssimo, o lugar.

Poetemos pois.

MAMÃE, CORAGEM

Mamãe mamãe não chore
A vida é assim mesmo
Eu fui embora
Mamãe mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe mamãe não chore
A vida é assim mesmo
E eu quero mesmo
É isso aqui

Mamãe mamãe não chore
Pegue uns panos pra lavar
Leia um romance
Veja as contas do mercado
Pague as prestações
- ser mãe
É desdobrar fibra por fibra
Os corações dos filhos,
Seja feliz
Seja feliz

Mamãe mamãe não chore
Eu quero eu posso eu quis eu fiz
Mamãe seja feliz
Mamãe mamãe não chore
Não chore nunca mais não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho jeito de quem não se espanta
(Braço de ouro vale dez milhões)
Eu tenho corações fora do peito
Mamãe não chore, não tem jeito
Pegue uns panos pra lavar leia um romance
leia Elzira, a morta-virgem,
O grande industrial

Eu por aqui vou indo muito bem
De vez em quando brinco o carnaval
E vou vivendo assim : felicidade
Na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim
Não tem mais fim
Não tem mais fim.

TODO DIA É DIA D

Desde que eu saí de casa
Trouxe a viagem da volta
Gravada na minha mão
Enterrada no umbigo
Dentro e fora assim comigo
Minha própria condução
Todo dia é o dia dela
Pode não ser pode ser
Abro a porta e a janela
Todo dia é dia D

Há urubus no telhado
E a carne seca é servida
Escorpião encravado na sua própria ferida
Não escapa, só escapo pela porta da saída
Todo dia é mesmo dia
De amar-te e a morte morrer
Todo dia é mais dia, menos dia
É dia D.


Gustavo Bastos, filósofo e escritor.




 


  

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

FRUTA MORDIDA

Da fruteira brilha a maçã
em sua juventude,
um passeio de laranjas
e tangerinas,
o vigor da melancia,
um lambuzar de manga
e toda a esperteza
da goiaba,

lembro das mangueiras
e das goiabeiras,
sabor de infância
que tem este viço
de felicidade simples,

meu amor pela tarde calma,
meu sentido maior
com as memórias
de família,

meu privilégio é saber
que a vida continua,
e não estamos sós.

07/02/2019 Gustavo Bastos

O POEMA DA SABEDORIA

Funda-se o poema como um monólito,
estrutura críptica,
esfinge esbelta,
flor de lis.

Poema água, mineral pétreo
da fonte lodosa,
canto supremo
e máquina
de sonhar,
poema.

Poema que sorri como um devaneio,
que diz sol terroso e vira
a noite sob a flauta doce,
que diz a essência
que habita a beleza,
que revela
o abscôndito
coração,

poema feliz dos mistérios
e das coisas prosaicas,
que bebe licor
e tem no tempo
sua razão
de sabedoria.

07/02/2019 Gustavo Bastos

PARAÍSO ARTIFICIAL

Que prata nos olhos
e que alegria no coração!
Vai-te ronda suprema
com o galardão
dos eleitos,

sobre a terra indomável
um sopro de luz
que invade meu recinto,
meus heróis,
meus ídolos,
todos vivem
em coração
forte!

Que ouro atávico em minhas
pupilas dilatadas!
Venho de viagem psicodélica
lhes dizer que o
paraíso existe,
e vive n`alma
das coisas
como um clarão
que nos rodeia.

07/02/2019 Gustavo Bastos

O MILAGRE DO VENTO

Ao monte que lhe chora
tens um topázio
em teu peito,
órfão do tempo
e do socorro,

eu, menino azul, que da
queda me tenho incólume,
passo à praça, valente
hei de estar, qual uma
flecha varando o ar,

lhe choro meu sangue,
lhe tenho família,
o que mais devo
ver? porfia dos dias
dos astutos,
um caos iminente,
a trovejar.

Ao monte em que choro
uma rosa brota
de minha mão
direita, um mel
se derrama de minha
mão esquerda,
era o milagre
que o vento
me revelava.

07/02/2019 Gustavo Bastos

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

GURUS E CURANDEIROS – PARTE I

“temos a indefinível origem até mítica do Hinduísmo, sendo nesta fonte que surgirá a figura do guru”

A História Antiga ou Antiguidade é o lugar no qual temos a revelação de figuras de vulto espiritual e religioso, de caráter messiânico ou de portador de uma revelação. No primeiro caso, do messianismo, um fenômeno espiritual e social que eu julgo próprio deste contexto do mundo antigo, era algo relativamente generalizado, podendo ser apontado como originário do profetismo hebreu do Velho Testamento, este que, por sua vez, um pouco antes, no Pentateuco, sobretudo no Gênesis e no Êxodo, nos dá uma revelação divina direta, os dez testamentos, por exemplo, sem ainda a figura de um Messias ou “O Messias”.
Isto vai se dar mais para a frente, com a figura histórica ou não de Jesus de Nazaré, que na encarnação do Cristo se tornou, além de Messias, a figura mais importante da História, mesmo não sendo comprovada materialmente (ou ainda, arqueologicamente) a sua existência real. No campo da revelação, temos a figura de Maomé, este que recebe instruções do Anjo Gabriel para a confecção do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, fechando a trilogia das “religiões do Livro”, ou seja, a Torá e o Velho Testamento judaico, o Evangelho e o Novo Testamento cristão, e por fim o aqui lembrado Alcorão com suas suratas fundamentando a religião do Islã.
Por sua vez, indo ao Oriente, temos a indefinível origem até mítica do Hinduísmo, sendo nesta fonte que surgirá a figura do guru, palavra sânscrita dos Upanishads, hoje de uso corrente, para definir um guia espiritual ou iluminado, ou ainda, alguém que tem um conhecimento e sabedoria superiores, e que, com isto, ganha adeptos, os chamados discípulos. No caso do Oriente, portanto, temos a fonte imemorial do Hinduísmo, e um mestre espiritual, Buda, antes Sidharta Gautama, que terá a iluminação para o caminho óctuplo e as cinco nobres verdades que ecoarão em correntes do Budismo como o Theravada, o Mahayana e o Vajrayana.
A figura do guru, por sua vez, pode ser definida, em seu sentido espiritual principal, como um guia para a autorrealização, um dos diversos sentidos da iluminação, grande liberação, nirvana ou samadhi. Geralmente, tais gurus possuem um pensamento ou reflexão muito mais existenciais, ou seja, falam da vida e nada mais, do mundo da vida, claro que aqui numa elevação de princípios direcionada a uma vida superior e não banal, e que então, portanto, não serão entes intelectuais, haverá até, por parte deste grande movimento de gurus, um certo desligamento das questões do intelecto, tal saber espiritual não será, por conseguinte, exatamente metafísico, no sentido que podemos depreender da filosofia ocidental quando esta trata de abstrações as mais elevadas ou quando de seu período hipostasiado de inspiração escolástica.
Não, tal saber que os gurus nos trazem tem uma origem na vida, eventualmente ensinando técnicas mentais e corporais, como no saber yogue e da meditação, mas com um sabor cotidiano. É só vermos como atuam os mestres do zen budismo, por exemplo, como D.T.Suzuki, que nunca foram portadores de pretensos ou “grandes mistérios”, como temos, por exemplo, em outra áreas do saber espiritual como, por exemplo, no ocultismo, em seitas ou denominações de fraternidades espirituais em diversos graus como o rosacruz ou a maçonaria. Temos aqui, com os gurus de saber oriental, uma certa espiritualidade mais voltada a uma percepção natural do que a uma abstração teosófica ou cabalística, ou ainda de cunho astrológico, mesmo que haja certos simbolismos exagerados no budismo tibetano e suas deidades, por exemplo, sob a influência evidente do animismo Bön, o qual precedeu o florescimento do Budismo no Tibete.
Quando vemos a atuação do saber ensinado pelos gurus, temos esta espiritualidade mais imediata, mais real, menos metafísica, sem ânsias metafísicas como temos no Espiritismo ou no Espiritualismo geralmente de cunho reencarnacionista, mesmo que os ecos hindus nos tragam todos estes mistérios como as fontes de tais sabedorias. Temos, contudo, uma estruturação reflexiva construída pelos gurus modernos que tratam de questões mais simples, em geral, como felicidade ou bem-estar, por exemplo, e não do que nos reserva a vida após a morte ou de como podemos revelar os mistérios da alma ou algum segredo transcendental oculto. Não, pois o que temos são exercícios de meditação, de aprofundamento do autoconhecimento direcionado à autorrealização, o que confere ao conhecimento espiritual oriental na sua versão moderna uma faceta new age sedutora, e é disto que falaremos, a seguir.
Krishnamurti, por exemplo, foi um tipo de guia que, por sua vez, recusava a ser um guru, não queria discípulos, foi descoberto pela Sociedade Teosófica, cuja sabedoria espiritual é uma miscelânea de orientalismos e ocultismos, com a Madame Blavatsky sendo uma de suas figuras mais controversas. Portanto, Krishnamurti é um ponto fora da curva, não era e nunca quis ser um guru, e foi prolífico em sua produção escrita, com ensinamentos simples, intuitivos, nada intelectuais ou de sistema espiritual como tínhamos em Blavatsky, por exemplo, na qual tínhamos revelações de supostos mahatmas espirituais ou evanescentes que poderiam beirar ao charlatanismo ou em certa credulidade mistificadora. Krishnamurti, no seu caso, foi um destes que não se corrompeu. Este que foi, literalmente, o grande achado da Sociedade Teosófica, pelas mãos de Charles W. Leadbeater.
Temos outra figura importante neste cenário espiritual moderno, que é Paramahansa Yogananda, este que é um dos guias ou gurus que vêm do Oriente, no seu caso da Índia, e traz este conhecimento espiritual milenar ao Ocidente. Sua autobiografia, a “Autobiografia de um iogue”, vira um best-seller. O guru fundou a organização Self-Realization Fellowship (SRF), nos Estados Unidos, e começa a divulgar e difundir os conhecimentos e as técnicas da Kriya Yoga.
Yogananda era herdeiro espiritual de Sri Yukteswar, que fora seu mestre, e que o preparou, a pedido de Babaji, para ser o grande responsável pela expansão da Kriya Yoga no Ocidente. A Self-Realization Fellowship, portanto, era parte de uma missão mundial, organização que foi fundada, por sua vez, em 1920, inaugurando um dos primeiros capítulos de sucesso da espiritualidade oriental em sua face moderna, agora no mundo ocidental.
O fascínio era evidente, e logo nos veremos com os tais efeitos adversos desta cultura irrefletida, muitas vezes, deste incensado (sem trocadilho) mundo dos gurus da new age para celebridades, endinheirados, benfeitores, gente perdida, louca, crédula, sincera, muitos com formação sólida, mas que confundiram charlatanismo com mestria, sabendo que não há generalização, mas os casos e escândalos são notórios, e logo falaremos deles.
O guru, como podemos ver na tradição védica, especialmente no Mahabaratha, na parte mais conhecida, até pelos ocidentais, que é o Bhagavad Gita, temos já a tal relação tradicional guru/discípulo nas figuras respectivas de Krishna, que aqui é o próprio Deus, e Arjuna, um nobre. O princípio diz sobre a importância de ter ou encontrar um guru, pois este que lhe fornecerá o conhecimento transcendental (vidyā), segundo o Hinduísmo.
Na sua versão oriental, temos a tradição guru-shishya, o que envolve toda uma transmissão de conhecimento espiritual em torno de uma relação de respeito ao estudante, e da parte deste uma devoção e obediência das instruções pessoais (muitas vezes de tradição esotérica, isto é, um conhecimento fechado, para iniciados) quando o discípulo ou estudante compreende o saber que habita seu mestre ou guru.
Kranenborg, um pesquisador de religiões holandês, por sua vez, faz uma distinção entre tipos de gurus, no que enumera quatro tipos principais, no que segue : O conselheiro espiritual, que atua no ensinamento da casta mais alta dos Hindus, os brâmanes, tais conselheiros que não são sacerdotes, no entanto, e nem possuem templo. Temos um segundo tipo de guru, que é o mestre iluminado, este que faz parte da tradição tântrica e do movimento bhakti, e que ganha a sua autoridade espiritual a partir de sua própria experiência e vivência, estando supostamente apto a conduzir seu discípulo para o caminho da iluminação. Temos um terceiro tipo, que é o avatar, este que encarna a própria divindade, um guru que se confunde com a própria divindade, que são, por exemplo, o guru indiano Sathya Sai Baba e os gurus da linhagem Sant Mat. E por fim, temos o guru na forma de livro, que é o Guru Granth Sahib, na religião Sikh.
A palavra parampara, por sua vez, se origina desta relação entre guru e discípulo, ou entre guru e shishya, na sua versão oriental, e que denota uma sucessão deste saber espiritual, a transmissão que vem do guru ao discípulo, que então também se torna um novo guru e continua a tradição espiritual na qual foi instruído por um guru anterior, esta sucessão chamada de parampara que envolve toda a tradição espiritual indiana. O Hinduism dictionary define parampara como "uma linhagem de gurus espirituais em autêntica sucessão pela iniciação; a cadeia de poderes místicos pela autorização para a continuidade, passada de guru para guru."

(continua na segunda parte)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.





domingo, 23 de dezembro de 2018

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA E A BAHIA


“Todo o século XVII, como a Bahia colonial deste mesmo tempo, devem a Gregório um retrato fiel”

Gregório de Matos Guerra e todo o Barroco brasileiro então são, de certo modo, principalmente no estilo de poesia, herdeiros do estro gongórico, também denominado de cultista, que era um jogo de palavras refinado, descrevendo a realidade através do aparato sensorial e tudo num caudal de versos rebuscados. De outro lado, tínhamos também o estilo quevedista, também denominado de conceptista, este que, por sua vez, parte de conceitos lógicos e que versifica através de uma habilidade retórica, tudo isto num discurso que se fundamenta com requinte e beleza.
Os recursos estilísticos, portanto, podem ser exemplificados pela antítese, em que ideias contrárias ficam juntas, causando o que conhecemos por paradoxo. Temos também o oximoro, que é o choque entre ideias que causa a sensação de absurdo, pois tal é nada mais que a junção de sentidos que se excluem entre si. E temos, por fim, o hipérbato, que é uma inversão na ordem direta dos termos que compõem a oração, recurso este bem empregado e de cepa hispânica por excelência.
Historicamente, tivemos o auge do Barroco lusitano, por sua vez, após a Restauração da Independência de Portugal em 1640, na qual a dinastia de Bragança começa. O destaque que temos neste momento da História é a figura emblemática de Padre Antônio Vieira, cuja obra inclui cerca de 200 sermões, obra sacra, mas de valor literário canônico na literatura de língua portuguesa.
No Brasil, o Barroco ganha ares de estro religioso de forma patente. Gregório de Matos Guerra é um dos destaques na poesia nacional, sendo um representante do contexto social baiano, jogando com a realidade soteropolitana e construindo uma obra que figura forte no cenário literário brasileiro. Aqui, com Gregório, temos uma poesia ferina que lhe deu a alcunha de “Boca do Inferno”.
Todo o século XVII, como a Bahia colonial deste mesmo tempo, devem a Gregório um retrato fiel, cujo estro poético ia da sátira, humor este que vinha desde a trova antiga, como também temos Gregório transitando em temas religiosos, amorosos e políticos, e com um leitmotiv sempre bem estruturado na realidade de sua Bahia, mais especificamente a vida citadina no contexto de Salvador.

POEMAS :

PERTENDE AGORA (POSTO QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS, QUE APLICAVÃO O DITO COMETA À VINDA DO ENCUBERTO. : Aqui temos o Gregório satírico, no que vem : “Estamos em noventa era esperada/De todo o Portugal, e mais conquistas,/Bom ano para tantos Bestianistas,/Melhor para iludir tanta burrada./Vê-se uma estrela pálida, e barbada,/E deduzem agora astrologistas/A vinda de um Rei morto pelas listas,”. O culto sebastianista devidamente ridicularizado, e aqui conhecemos o Boca do inferno e sua pena mordaz, no que vem : “Oh quem a um Bestianista pergunta,/Com que razão, ou fundamento, espera/Um Rei, que em guerra d`África acabara?/E se com Deus me dá; eu lhe dissera,/Se o quis restituir, não o matara,/E se o não quis matar, não o escondera.”. Como Deus poderia ocultar um rei de promessas? O culto a Dom Sebastião aqui é contradito na lógica, posto que em Gregório, e em seu poema, a ideia ganha seu contorno justamente absurdo e utópico.

EMBARCADO JA O POETA PARA O SEU DEGREDO, E POSTOS OS OLHOS NA SUA INGRATA PATRIA LHE CANTA DESDE O MAR AS DESPEDIDAS. : O poema é uma crítica social, os maganos portugueses que são cumulados de riquezas, e os brasileiros que trabalham para sustentar o ócio destes fidalgos sem sangue azul, montados em dinheiro, no que temos : “Adeus praia, adeus Cidade,/e agora me deverás,/Velhaca, dar eu adeus,/a quem devo ao demo dar.” (...) “Adeus Povo, adeus Bahia,/digo, Canalha infernal,” (...) “E tu, Cidade, és tão vil,/que o que em ti quiser campar,/não tem mais do que meter-se/a magano, e campará.” (...) “Compre tudo, e pague nada,/deva aqui, deva acolá/perca o pejo, e a vergonha,/e se casar, case mal.” (...) “Porfiar em ser fidalgo,/que com tanto se achará;/se tiver mulher formosa,/gabe-a por esses poiaes./De virtuosa talvez,/E de entendida outro tal,/introduza-se ao burlesco/nas casas, onde se achar.” (...) “Arrime-se a um poderoso,/que lhe alimente o gargaz,” (...) “A estes faça alguns mandados/a título de agradar,”. E segue aqui a tese baiana e nacional de que não é a virtude que faz rico o Homem, mas a esperteza e a ganância, podemos perceber que este ímpeto ladino que é uma parte de nossa cultura até os dias atuais vem de longe, e neste século XVII de Gregório são os maganos que se fazem de fidalgos, os portugueses que ficam no ócio e no luxo, no que temos : “Vá visitar os amigos/no engenho de cada qual,/e comendo-os por um pé,/nunca tire o pé de lá./Que os Brasileiros são bestas,/e estarão a trabalhar/toda a vida por manter/maganos de Portugal.” (...) “No Brasil a fidalguia/no bom sangue nunca está,” (...) “Consiste em muito dinheiro,/e consiste em o guardar,/cada um o guarde bem,/para ter que gastar mal./Consiste em dá-lo a maganos,/que o saibam lisonjear,/dizendo, que é descendente/da casa do Vila Real./Se guardar o seu dinheiro,/onde quiser, casará :/os sogros não querem homens,/querem caixas de guardar.” (...) “Oh assolada veja eu/Cidade tão suja, e tal,/avesso de todo o mundo,/só direita em se entortar./Terra, que não parece/neste mapa universal/com outra, ou são ruins todas,/ou ela somente é má.”. E, ao fim, mais uma vez, maldiz sua cidade e sua origem.

DÉCIMAS [Aos sebastianistas] : Aqui o poema também tematiza o sebastianismo, mas já numa alegoria bíblica e não mais de troça satírica, no que temos : “Ouçam os sebastianistas/ao profeta da Bahia/a mais alta astrologia/dos sábios gimnosofistas :/ouçam os anabatistas/da evangélica verdade,/que eu com pura claridade/digo em literal sentido/que o rei por Deus prometido/é quem? Sua Majestade./Quando no campo de Ourique/na cruz de um raio abrasado/viu Cristo crucificado/el-rei Dom Afonso Henrique :/para que lhe certifique/afetos mais que fiéis,/Senhor, disse aos infiéis/mostrai a face divina,”. E o poeta enumera a geração real do colonialismo lusitano, no que temos então tal sucessão, e que culmina numa imagem apocalíptica da fera inumana que tinha na testa tirana dez pontas, no que temos :  “Na tua prole novel,/lhe disse, hei de estabelecer/um império a meu prazer,/e crê que na atenuação/da dezesseis geração/então hei de olhar, e ver.” (...) “Diz o profeta sagrado/que a quarta fera inumana/tinha na testa tirana/dez pontas, e que entre as dez/uma de grã pequenez/surgiu com potência insana./Que esta ponta tão pequena,/mas tão potente, e tão forte,/a três das grandes deu morte/cruel, afrontosa e obscena :/quer dizer que a sarracena/potência, ou poder tirano/do pequeno maometano/tirara o seu desprazer/as três partes do poder/do grande Império Otomano.”. A guerra das nações, e o intento lusitano vai do oriente ao mundo maometano, no que aqui temos como que a profecia do rei cristão, do império prometido, no que temos : “a chamou Deus a juízo;/e a condenou de improviso/ao fogo voraz que a coma :/e daqui o profeta toma/(pois Deus assim a condena)/o fim da gente agarena/e seita do vil Mafoma.” (...) “chamou Deus um rei cristão/e lhe entregou na mão/o império prometido :” (...) “E pois a gente otomana,/vendo esta sua ruína/à luz da espada divina/de tanta armada austriana,/pode a nação lusitana/confiada neste agouro/preparar a palma e louro/para o príncipe cristão,/que há de empunhar o bastão/do império do Deus vindouro.” (...) “Estes secretos primores/não são de ideia sonhada,/são da escritura sagrada/e de santos escritores :/se não alego doutores/e poupo esses aparatos,/é porque basta a insensatos/por rudeza ou por cegueira,/que em prosa os compôs Vieira,/traduziu em versos Matos.”. E a coda então revela a fonte literária da inspiração bíblica, a mestria de Padre Antônio Vieira.

POEMAS :

PERTENDE AGORA (POSTO QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS, QUE APLICAVÃO O DITO COMETA À VINDA DO ENCUBERTO.

Estamos em noventa era esperada
De todo o Portugal, e mais conquistas,
Bom ano para tantos Bestianistas,
Melhor para iludir tanta burrada.

Vê-se uma estrela pálida, e barbada,
E deduzem agora astrologistas
A vinda de um Rei morto pelas listas,
Que não sendo dos Magos é estrelada.

Oh quem a um Bestianista pergunta,
Com que razão, ou fundamento, espera
Um Rei, que em guerra d`África acabara?

E se com Deus me dá; eu lhe dissera,
Se o quis restituir, não o matara,
E se o não quis matar, não o escondera.

EMBARCADO JA O POETA PARA O SEU DEGREDO, E POSTOS OS OLHOS NA SUA INGRATA PATRIA LHE CANTA DESDE O MAR AS DESPEDIDAS.

Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
Porque o nobre enfim é nobre,
quem honra tem, honra dá,
pícaros dão picardias,
e inda lhes fica, que dar.
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
a magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
A uns compre, a outros venda,
que eu lhe seguro o medrar,
seja velhaco notório,
e tramoeiro fatal.
Compre tudo, e pague nada,
deva aqui, deva acolá
perca o pejo, e a vergonha,
e se casar, case mal.
Com branca não, que é pobreza,
trate de se mascavar;
vendo-se já mascavado,
arrime-se a um bom solar.
Porfiar em ser fidalgo,
que com tanto se achará;
se tiver mulher formosa,
gabe-a por esses poiaes.
De virtuosa talvez,
E de entendida outro tal,
introduza-se ao burlesco
nas casas, onde se achar.
Que há Donzela de belisco,
que aos punhos se gastará,
trate-lhes um galanteio,
e um frete, que é principal.
Arrime-se a um poderoso,
que lhe alimente o gargaz,
que há pagadores na terra,
tão duros como no mar.
A estes faça alguns mandados
a título de agradar,
e conserve-se o afetuoso,
confessando o desigual.
Intime-lhe a fidalguia,
que eu creio, que crerá,
porque fique ela por ela,
quando lhe ouvir outro tal.
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará :
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita em se entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.

DÉCIMAS

[Aos sebastianistas]

Ouçam os sebastianistas
ao profeta da Bahia
a mais alta astrologia
dos sábios gimnosofistas :
ouçam os anabatistas
da evangélica verdade,
que eu com pura claridade
digo em literal sentido
que o rei por Deus prometido
é quem? Sua Majestade.

Quando no campo de Ourique
na cruz de um raio abrasado
viu Cristo crucificado
el-rei Dom Afonso Henrique :
para que lhe certifique
afetos mais que fiéis,
Senhor, disse aos infiéis
mostrai a face divina,
não a quem a Igreja ensina
a crer tudo o que podeis.

E Deu, vendo tão fiel
aquele peito real
auspicando a Portugal,
quis ser o seu Samuel.
Na tua prole novel,
lhe disse, hei de estabelecer
um império a meu prazer,
e crê que na atenuação
da dezesseis geração
então hei de olhar, e ver.

A dezesseis geração,
por cômputo verdadeiro,
assevera o reino inteiro,
ser o quarto rei D.João :
e da prole a atenuação
(conforme a mesma verdade)
se vê em Sua Majestade;
pois sendo de três varões,
com duas atenuações
se tem posto na unidade.

Logo, em boa consequência,
na pessoa realçada
de Pedro, está atenuada
desta prole a descendência :
logo, com toda a evidência,
e à luz da divina Luz,
se vê que a Pedro conduz
o olhar, e ver de Deus,
que ao primeiro rei e aos seus
prometeu na ardente cruz.

E, se o tempo é já chegado,
perguntai-o a Daniel,
que no sétimo aranzel
o traz bem delineado.
Diz o profeta sagrado
que a quarta fera inumana
tinha na testa tirana
dez pontas, e que entre as dez
uma de grã pequenez
surgiu com potência insana.

Que esta ponta tão pequena,
mas tão potente, e tão forte,
a três das grandes deu morte
cruel, afrontosa e obscena :
quer dizer que a sarracena
potência, ou poder tirano
do pequeno maometano
tirara o seu desprazer
as três partes do poder
do grande Império Otomano.

E que pelo prejuízo
que a pequena ponta fez
das dez maiores às três,
a chamou Deus a juízo;
e a condenou de improviso
ao fogo voraz que a coma :
e daqui o profeta toma
(pois Deus assim a condena)
o fim da gente agarena
e seita do vil Mafoma.

Continuando a visão,
refere a história sagrada
que esta audiência acabada
chamou Deus um rei cristão
e lhe entregou na mão
o império prometido :
logo, bem tenho inferido,
que o sarraceno acabado,
é o tempo deputado
de ser este império erguido.

E pois a gente otomana,
vendo esta sua ruína
à luz da espada divina
de tanta armada austriana,
pode a nação lusitana
confiada neste agouro
preparar a palma e louro
para o príncipe cristão,
que há de empunhar o bastão
do império do Deus vindouro.

Pode a nação lusitana,
que foi terror do Oriente,
confiar que no Ocidente
o será da maometana;
pode cortar a espadana
em tal número e tal soma
que, quando o tempo a carcoma,
digamos com este exemplo
que abriu e fechou seu templo
o bifronte deus em Roma.

Estes secretos primores
não são de ideia sonhada,
são da escritura sagrada
e de santos escritores :
se não alego doutores
e poupo esses aparatos,
é porque basta a insensatos
por rudeza ou por cegueira,
que em prosa os compôs Vieira,
traduziu em versos Matos.

(OBS : Caros leitores, aqui se encerra  a série sobre Gregório de Matos Guerra. Estarei saindo de férias. Retorno no início de fevereiro de 2019 com muitas novidades. Boas festas, e até a volta.)

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário : https://seculodiario.com.br/public/jornal/materia/gregorio-de-matos-guerra-e-a-bahia