PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

DORES DA BORRASCA

Que borrasca que nada!
O pranto seco sequestrou
o dia,
e as flechas de bruma
só seriam ao orvalho
da flor,

Que alma danada!
Esta que se mutila
dando ares
de "sinto dor"!

As mais das vezes
flor e dor
são selvagens escravos
do amor.

Se escrevo-escravo
dos olores da flora?
Sim, mais ou menos,
pois talvez de perfumes
o canto do dia
se faça mais ouvido
pela chuva borrasca pranto
que lágrimas pretendidas
tinham novamente o apelo
do tal "sinto dor".

18/02/2016 Gustavo Bastos

ATAVISMO DA ALTA TORRE

Os olhos atávicos semeiam
o caos dos símbolos,
como nota inconsciente de dor
a onisciência da morte,
onipotente aniquilação,
onipresente violência.

Os deuses mais mórbidos
compõem os caminhos
de vitória,
os deuses mais pacíficos
sofrem na dor d`alma.

Os ouvidos atávicos
se bebem em sensações,
como numa viagem de ácido
em que o duro karma
mostra seus dentes de leão,

como na esfera última
circunvolutiva
dos febris delírios
da alta torre,

e a vida passaredo conclama:
o poema está traçado
com veias e sangue
nas náuticas canções
de brutos calores.

18/02/2016 Gustavo Bastos

UM PORRE DE VINHO

As lutas rinhas porradas ...
como na litania libertária
dos corações convulsos,

ah, que mágicos dias!
ah, que ilusionismo
de máscaras!

O teatro dos vampiros
é pura decadência alcoólica,
os lobos das estepes
são fúrias ignotas.

Como um coração puro
desdenha o rito
dos náufragos?

Com o vinho estás em verdade,
e vos digo que a indolência
cria seus musgos de idolatria,

Como um coração sujo
reifica seu ego flutuante?

O teatro dos vampiros
morde a ambição
de ser grande,
a luta rinha porrada
dos poderes faustosos,

In vino véritas
e os lobos das estepes
com suas fugas
de cárcere,

o vinho flutua a flor,
a flor desvela
o segredo,

a convulsão dramática
ao ato final
cai como última nota
de cizânia:
a rinha dos degredados
com seus ditos senhores
da astúcia,

como és vinho a paz vindoura,
como és estrada da vida ...
assim, imprevista!

18/02/2016 Gustavo Bastos

SONARES ESTÉTICOS

Pela ventana com olhos marejados
o sal arde qual fuga,
os déspotas do terror
afagam seus egos,
os miasmas de guerra
afundam a ciclópica
arma de vigilância,

pelos dias de astúcia,
pelos dramas de angústia,

uns, atrás das poucas esperanças,
outros, que jogam a vida
pela janela,

veja:
o poema é uma estrutura densa
de estética,
os pormenores de versos
enunciam a linguagem atávica
das fadas,
como numa psicologia de símbolos
extasiados,
como numa fábrica
de sonares
sonhadores.

18/02/2016 Gustavo Bastos

INSTRUMENTAL (ATO SENSORIAL)

Ouvindo no átrio a dor seminal, eis que:
os catálogos de bares sumiram,
uma dose oca de ilusão
reverbera pelos poros
da vida,
oh que chuva e lágrimas
que secam no horizonte,
como a curva mortal
da tempestade.

As mãos sóbrias e pálidas
carregam o candeeiro
pela noite profunda,

aos que vivem e morrem,
socorram-nos de poesia,
de fina música
para a filosofia
de nossas angústias.

Com o ouvido atento, tal
o instrumentista:
ouça-veja harmonia no sol,
a lua, também,
reverbera o ataque
das letras em uníssono.

18/02/2016 Gustavo Bastos

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O LIVRO TIBETANO DA GRANDE LIBERAÇÃO

"A Doutrina do Vazio do Mahayana pode ser considerada o caminho para o Nirvana “

A REALIDADE
A realidade, para o Budismo Mahayana, é algo completamente diferente da noção ocidental, acostumados que estamos com a mente científica, isto é, objetiva e experimental, e esta diferença de visão (e de temperamento, se lermos os textos junguianos sobre o tema), como vem sendo colocada aqui nesta análise da Série Tibetana do trabalho realizado por W.Y.Evans-Wentz, e que finaliza agora com esta resenha (vide O Livro Tibetano dos Mortos e A Ioga Tibetana e as Doutrinas Secretas, que foram temas no caderno de cultura da Século Diário nos dois textos anteriores), tem feito desta reflexão um ponto dos encontros e desencontros entre o Ocidente e o  Oriente sobre a psicologia da mente, que envolve, por conseguinte, o Ocidente científico de um lado, e o Oriente místico, de outro lado.
Portanto, a realidade para o budista mahayana é algo ligado à Mente Única Supramundana, que transcende as aparências contidas no dualismo fenomênico que constrói a percepção comum que, no contexto Mahayana, e junto com todas as Escolas das Ciências Ocultas Orientais, não passa de algo da mente sangsárica (ou mundana), e que constitui o que eles chamam de o Brahman dos Rishis, o Sonhador de Maya, o Tecelão da Teia das Aparências, pura ilusão do ciclo de nascimentos e mortes.

A MENTE ÚNICA E O DESVELAMENTO DA REALIDADE
E a Mente Única Supramundana é o que se define (ou indefine, digamos) por ser o Vazio (Shunyata, em sânscrito), também conhecido como o Impróprio, o Não-nascido, o Incriado, O Informe, a Essência Primordial, o Inqualificado, que desintegra o Espaço e o Tempo, a Fonte Cósmica abstrata de onde vêm todas as coisas concretas e fenomênicas e na qual estas mesmas coisas desaparecem.
Padma-Sambhava, o Grande Guru, autor do tratado “Ioga do Conhecimento da Mente em sua Nudez”, desvela o ponto de vista do Budismo Mahayana: “Todo o Sangsara (o Universo fenomenal das aparências) e o Nirvana (o estado Não-manifestado, ou numenal), como uma unidade inseparável, é a nossa mente (no seu estado natural, ou não-modificado do Vazio)”. E, do mesmo modo, segundo o próprio Buda, o Nirvana é a transcendência sobre a transformação constante do que nasce e é formado, então o Nirvana representa também a aniquilação das aparências, a extinção da chama da sensualidade corporal, o despertar do Sonho de Maya, que é, por fim, o desvelamento da Realidade.

A DOUTRINA DO VAZIO
Buda, e ainda depois dele, Nagarjuna, este o compilador do Prajna-Paramita, o principal tratado Mahayana da Sabedoria Transcendental, buscavam, no entanto, evitar extremos de superstição para um lado, ou de niilismo para outro lado, pois um dos principais ensinamentos de Buda e Nagarjuna, por sua vez, é o conhecido Caminho do Meio, que com Nagarjuna ficou conhecido como Madhyamika.
É bom ter claro que na doutrina do Madhyamika, não temos a ideia de renúncia praticada pelos Theravada, por exemplo, que prega a renúncia total do mundo por causa da dor e da aflição, pois em Nagarjuna e no Mahayana a ideia de renúncia é mais simples e menos dramática do que para os Theravada, pois se trata apenas e somente de entender que o mundo fenomênico é tão irreal quanto os sonhos. Sendo, portanto, a doutrina fundamental do Budismo Mahayana a do Vazio. Representando a Doutrina do Vazio para o Budismo do Norte (Mahayana) o que é a Doutrina do Anatma (ou Não-Alma) para o Budismo do Sul.
E a essência universal que fundamenta a Doutrina do Vazio dos mahayanas e exposta no Avatamsaka Sutra, livro atribuído a Nagarjuna, também pode se manifestar em três aspectos que são símbolos dos Três Corpos Divinos (em sânscrito: Tri-Kaya). O primeiro aspecto é o Dharma-Kaya, Corpo Essencial (ou Verdadeiro), que é a Essência Primordial, Imutável, Amorfa, Eternamente Auto-existente do Bodhi, ou Existência Divina. O segundo aspecto é o Sambhoga-Kaya, ou o Bodhi Refletido, onde, nos mundos celestes, habitam os Budas da Meditação (em sânscrito: Dhyani Buddhas) e os demais Iluminados, neste caso quando estão encarnados em formas sobre-humanas. E o terceiro aspecto é o Nirmana-Kaya, Corpo da Encarnação, o Bodhi Prático, estado dos Budas quando estão na Terra.
A Doutrina do Vazio do Mahayana pode ser considerada o caminho para o Nirvana, que é, por sua vez, o Estado Transcendente à Dor, e por conseguinte ao Sangsara. O Vazio do Mahayana é o próprio Nirvana, que nos ensinamentos de Buda é aquilo que não é e nem deixa de ser, não é existência nem inexistência, não é ser nem não-ser, pois todas estas diferenciações não passam, como demonstra Nagarjuna, de dualidades ilusórias. O Nirvana, portanto, está além do discernimento intelectual, está além do intelecto, e por não ser relativo a nada, transcende a relatividade, passa para além de toda concepção e predicação, pertencendo ao Vazio. O intelecto, por sua vez, como o ente que produz as dualidades, é um reflexo, no mundo fenomênico das aparências, da Ipseidade, do Estado Verdadeiro, do Nirvana.

O ESTADO DE BUDA
O processo de desdobramento espiritual, do qual a humanidade, consciente ou inconscientemente, faz parte, é um processo de dissipação de Maya. Maya, por sua vez, significa literalmente ilusão, e para um Buda, Maya é a manifestação, tal como o Sangsara, da energia criativa que emana do Cosmos, falado nos tantras que é a Mãe Universal ou Shakti, pelo ventre de quem os corpos encarnados chegam à existência, e quando esta energia é latente, não temos Criação e, portanto, não há Maya.
A transcendência de Maya, ou a saída do reino da ilusão, é nada mais que a transcendência da dualidade e da transitoriedade do mundo fenomênico, que é, por outro lado, um retorno à primordial reconciliação, percepção da Mente Única (ou Consciência Cósmica), a reunião da parte com o Todo, emancipação do tempo, do espaço e da causa, atingimento pela existência condicionada do Ser incondicionado, do Estado de Buda.
No entanto, o esclarecimento necessário feito pelo caminho da Yogachara, por exemplo, é o de que o mundo fenomênico não é algo do qual se deve escapar, mas está ligado à própria essência, de forma simbólica, dessa onipotente e inefável essência da Mente Única em evolução eterna, sendo a vida na Terra, por sua vez, a Oportunidade Suprema, para a maior bem-aventurança que poderia acontecer aos seres sencientes.
Para o ioguim, no entanto, o processo normal para o fim da toda a evolução, é muito cansativo, longo e doloroso, e muitos destes escolhem um caminho mais curto, que é também um dos significados da Ioga. Pois assim fez o grande ioguim Milarepa do Tibete, por exemplo, que lutou para atingir o Objetivo Supremo numa única vida, para se tornar o mais cedo possível num guia para o melhoramento do mundo, pois ele jurou, com o voto de Bodhisattva, atingir o Nirvana não só para si mesmo, mas para, sobretudo, retornar ao mundo fenomênico de Maya, o reino da ilusão, e levar seus habitantes para a Suprema Altura do Nirvana também.

O QUE É A MENTE?
Já relativamente aceito pela nova visão quântica da ciência ocidental experimental contemporânea, devemos então considerar como um tipo de postulado científico uma verdade que já era desperta na antiguidade da sabedoria oriental, ou seja, o axioma de que a mente e a matéria, como sugere a “Ioga do Conhecimento da Mente”, por exemplo, são o que podemos chamar de aspecto ilusório da mente, concretamente manifestado.
E a mente em si mesma, da qual o Ocidente não vislumbra nada além do que a ciência conhecida afirma, posta a dominância da visão da neurociência materialista que a reduz ao epifenômeno cerebral, em detrimento até da própria psicologia ocidental, temos algo do texto da Ioga: “Em seu estado verdadeiro (de primordialidade imutável e amorfa), a mente é nua, imaculada, feita de nada, ser do Vazio, clara, vácua, sem dualidade, transparente, intemporal, não-composta, desimpedida, incolor (ou destituída de característica), não perceptível como uma coisa separada, mas como a unidade de todas as coisas, embora não composta por elas, de um só critério (isto é, do Vazio, da Ipseidade, da Realidade última), e transcendente à diferença.”
Do ponto de vista da ciência ocidental, especificamente da dinâmica e da física, a Mente Única é a única origem da energia, o dínamo único do poder universal, o iniciador das vibrações, a fonte desconhecida, de onde procedem os raios cósmicos e a matéria em todos os seus aspectos eletrônicos, como a luz, o calor, o magnetismo, a eletricidade, a radioatividade, ou tal como as substâncias orgânicas e inorgânicas em todas as suas múltiplas aparências, visíveis e invisíveis, incluindo aí todos os reinos da Natureza, de onde se cria, por sua vez, da Mente Única, toda a lei natural.
E quando, como ensina o texto da ioga, a mente atinge o seu Estado Verdadeiro, despida da ilusão de Maya, e fica nua, é como Brahman, o Quiescente, num sono sem sonho, em Samadhi, e o mundo, então, é dissolvido por um estado de Máxima Vigília. E, em relação à noção de sangsara, por exemplo, se a Mente Única fizesse parte da essência do tempo, estaria sujeita à transitoriedade e a dissolução, se fizesse parte da essência do pensamento, não seria, por sua vez, a Quiescência, e se fosse uma coisa, se partilhasse literalmente da existência, estaria, por fim, sujeita ao nascimento e a morte. Por conseguinte, a Mente Única é intelectualmente incognoscível.
Assim sendo, o Guru Príncipe Shri Singha, da antiga Pegu, em Burma, disse a seu discípulo Padma-Sambhava: “Ninguém ainda descobriu a Causa Primária nem a Causa Secundária. Eu mesmo não fui ainda capaz de tal, e vós, da mesma forma, vós, Nascido-do-Lótus, também falhareis nisso.” Então, como poderá o homem solucionar o enigma da existência? Os Budas ensinam simplesmente que apenas ao transcender a existência humana, deixando de existir sangsaricamente, é que se recobra a consciência do estado precedente de liberdade, isto é, o homem não pode solucionar o problema de estar agrilhoado à existência sem alcançar esta liberdade de reconciliação na Mente Única, o Vazio, o Nirvana, ou Transcendente Atman dos Brahmins, o Moksha Brâhmico (ou Mukhti), o Completo Despertar do Estado de Buda.
Nagarjuna e Ashvaghosha, os Patriarcas da Escola Mahyamika, chamaram esta Realidade além-da-Natureza de Vazio (em sânscrito: Shunyata), Asanga, o fundador da Escola Yogachara, chamou-a de o Conhecimento Básico ou Original (em sânscrito: Alaya-Vijnana), a consciência transcendente da Mente Única, pois percebê-la é alcançar o Nirvana, desperto do Sonho ou ilusão de Maya do mundo fenomênico e transitório de nascimentos e mortes. Como ensina este tratado de ioga, o Conhecimento da Mente Única parte do conhecimento de si mesmo, como já ensinava, na Grécia Antiga, o Oráculo de Delfos, pois é quando o homem funde ioguicamente a sua consciência microcósmica e mundana à Consciência macrocósmica supramundana, ele deixa de ser homem e se torna Buda, e o ser individual alcança a Consciência Cósmica no seu estado primordial, no cerne da Realidade.

A SABEDORIA ESTÁ NO DHARMA
A Sabedoria Divina, ou Absoluta (em tibetano: Shes-rab), por sua vez, de acordo com o Mahayana, manifesta-se ou é apreendida de três maneiras: ouvindo o Dharma, refletindo sobre o Dharma, e meditando sobre o Dharma. Pois é o Dharma, ou Verdade, que é transcendente à aprendizagem, que ensina a Sabedoria e dá condições ao discípulo de discernir o verdadeiro do falso, o transitório do eterno, a mente humana finita, também identificada com o intelecto, da Mente Única Cósmica e Supramundana, podendo alcançar o Nirvana, que é a Quiescência do Estado de Buda que reside no Vazio (Shunyata). Pois, por fim, são aqueles que trilham o caminho da Sabedoria contida no Dharma que podem, propriamente, transcender todas as ilusões do mundo fenomênico, ficando indiferentes ao prazer e a dor, como nada mais do que dois extremos de um dualismo já superado pela Doutrina do Vazio.

BUDISMO TÂNTRICO
Padma-Sambhava surgiu como uma emanação tântrica ou reencarnação do Buda Gautama, tendo sua influência sobre o Budismo em todo o Tibete, Mongólia, China, Nepal, Cachemira, Butão e Sikkim, sendo fundamental na formação do Budismo Mahayana, e teve reflexo na sua própria esfera do Tantrismo, assim como Nagarjuna foi fundamental na forma dada à Doutrina do Vazio, tal como foi demonstrada no cânon Prajna-Paramita.
O Tantrismo, por sua vez, é muito pouco conhecido de onde surgiu, tanto no seu aspecto hindu como budista, sendo objeto de pura especulação as questões de sua origem. A Escola Yogachara pode ser considerada, a fortiori, como um estímulo importante ao Budismo Mahayana como um todo, pois se originou com Asanga, um monge budista de Gandara (agora Peshawar), no noroeste da Índia, e de outro modo, o conhecido método de atingir a união do êxtase com a Mente Única conhecido como ioga, que teve seu primeiro sistema com o Yoga Sutras de Patanjali, sistema que se tornou o fundamento do Yogachara, pode ser considerado uma das origens conhecidas do Tantrismo. E o Tantrismo, por sua vez, é definido como uma escola esotérica de ioga aplicada de modo prático, e que tem sua divisão evidente entre o Brahmanismo esotérico e o Budismo Mahayana esotérico.
Uma das características distintivas do Tantrismo é a personificação dos aspectos duais das forças procriadoras da Natureza, Shakta, que representa o aspecto masculino (ou positivo) e Shakti, que representa o aspecto feminino (ou negativo). Como resultado desta influência tântrica, temos que, dentro do Mahayana, surgiram duas escolas, a Vajrayana e a Mantrayana, que são uma mistura da antiga Escola Yogachara.
E o responsável pela introdução do Budismo Tântrico no Tibete foi Padma-Sambhava, durante a segunda metade do século VIIII. E foi na segunda metade do século X que a forma Kalachakra do Tantrismo foi mais ou menos introduzida e desenvolvida no norte da Índia, na Chachemira e no Nepal, uns dizendo que a doutrina Kalachakra surgiu na misteriosa terra secreta de Shambhala. E, com o tempo, o Kalachakra se tornou um sistema próprio do Budismo, colocando o culto do Adi Buda (ou Buda Primordial) em seu cerne, o que na Índia ganhou variedades de culto com Shiva ou Ganesha na posição do Adi Buda.
Uma fonte relativamente especulativa pode nos colocar diante de uma outra origem para o sistema Kalachakra, a qual pode estar, ainda, na religião antiga do Tibete, pré-budista, do Bön. Podendo nos levar à conclusão de que havia algo originário do Kalachakra no próprio Tibete e que ganhou ares, digamos, mais oficiais, com a introdução na forma do Tantrismo de Padma-Sambhava.
E fontes documentais tibetanas podem provar tal associação do Kalachakra, por sua vez, com a religião primitiva do Bön, como, por exemplo, na exposição contida no Bardo Thodol e no texto do rito Chöd, tal rito que é apresentado no Livro V de A Ioga Tibetana e as Doutrinas Secretas de que, bem antes do surgimento do Budismo Tântrico Tibetano, na antiga fé Bön, do Tibete, já havia um culto elevado aos demônios, dos quais o To-wo e o Drag-po (que correspondem ao Bhairava e ao Heruka do Tantrismo Hindu) são grandes representantes. E, dentro da demonologia, por sua vez, elaborada com detalhes na fé Bön, podemos ainda identificar os protótipos não só das Deidades Iradas como também das Deidades Pacíficas do Tantrismo Tibetano.
Por fim, a forma do Tantrismo hoje mais evidente no Tibete é o Vajrayana, ou “Caminho do Raio Indomável dos Deuses.” E se falarmos do Tantrismo, no que ele representa para a evolução do Budismo Mahayana, podemos dizer que, independente de onde se originou o Tantrismo, sua influência sobre o Budismo Mahayana foi de primeira ordem sobre todas as suas fundações.
O Tantrismo, para completar, ensina a compreensão e a sublimação da força ativa reprodutiva, se opondo à sua supressão forçada, pois considera esta uma força importante da Natureza, e que nela tem-se, para o Tantrismo, o nascimento equilibrado com a morte, mantendo em circulação a corrente do Prânico Rio da Vida, até à Emancipação Final do Estado de Buda. E é por esta razão que, também, o Tantrismo propõe uma ciência do sexo, tal como o falecido Sir John Woodroffe (cujo pseudônimo era Arthur Avalon) sugeriu em suas obras “O tantra da grande liberação”, “O poder da serpente” e “Shakti e Shakta”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.


Link da Século Diário: http://seculodiario.com.br/27290/17/o-livro-tibetano-da-grande-liberacao       

sábado, 13 de fevereiro de 2016

BERTOLT BRECHT, O POETA – PARTE II

Um recém-chegado à poesia recebe os conselhos de poetas eminentes, consagrados pela História, em meio da briga e da gargalhada, assim Brecht enumera sua ficha particular de poetas com ironia e metáfora em seu “poema de poetas”, isto é, o poema “visita aos poetas banidos”, pois na voz de Eurípides e Shakespeare, na hora representando o teatro, e que também são poetas, o trágico e o elisabetano, o mundo antigo é apresentado pela alma de Ovídio, e outros da dinastia Tang, chineses, obviamente, uma constelação dando conselhos ao desprevenido visitante que no poema não é identificado, mas que, na cara, é poeta, e que de uma das várias advertências, tem a mágica que todo poeta tenta fazer: “Escuta, sabem eles também os teus versos de cor?” pela voz de Dante. O poeta empalidece, pois sua voz poética agora flerta com o desterro, e na sua voz se ouve, ou seja, se ouve toda a constelação de poetas, pois do trabalho poético, o verso não só escreve, como deve, sobretudo, ler. Esta é uma das estórias da série de poesia de Brecht: “Poemas de Svendborg”.
A aventura continua com o socialismo do século XX, a revolução de outubro na Rússia comemora seus vinte anos neste poema de Brecht intitulado “O Grande Outubro”: que tem trechos ou versos como: “Desde então/O mundo tem sua esperança./O mineiro do País de Gales, o cule da Manchúria/E o operário da Pensilvânia que vive pior que um cão”, e mais estes: “Move-se a cada ano na Praça Vermelha/O infindável cortejo dos vencedores.” E a chave de prata que é também a coda, isto é, o início e o fim do poema: “Ó grande Outubro da classe trabalhadora!” Assim, fica patente a época do poema, sua marca é totalmente do século XX e carrega o terror e a esperança do século, aqui mais o termo esperança, pois é um poema de exaltação socialista, uma ideologia que viveu pela nova ordem mundial de justiça social, atualmente muito questionada pelo seu aspecto econômico e político, para além de sua doutrina social para os trabalhadores. Mas aqui temos Brecht vestindo as cores vermelhas do Outubro russo e soviético, Brecht viveu e pensou a esperança social que a Revolução de Outubro oferecia à época, e mesmo sendo fruto de um século particular, este que foi das duas grandes guerras e da guerra fria, não tenho por este poema a forma datada, pois de esperança  vive não só o socialista, mas todo que vive e gosta da vida, deixo aqui a impressão de que a ideologia carrega uma tríade de aspectos políticos, econômicos e sociais, o que neste poema comemorativo é evidente, mas a palavra esperança carrega uma cepa universal, para além disso tudo, refletindo o sonho humano de justiça.
E no último poema desta série temos o intitulado “Aos que vão nascer”, que nestes trechos (versos) temos mais uma vez a tal esperança social, desta vez sem o proselitismo evidente do poema anterior que citei, mas com as mesmas feições de justiça e reforma do mundo, aqui está: “As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque/tem!/Mas como posso comer e beber, se/Tiro o que como ao que tem fome/E meu copo d`água falta ao que tem sede?/E no entanto eu como e bebo.”  Pois temos em Brecht um poeta social e político, proselitista de uma ideologia muitas vezes, mas é bem humano em tudo o que escreve, na sua poesia e neste poema ele deixa sua impressão digital, seu teatro épico é a cabeça maior de seu trabalho, mas tudo é forrado no chão da poesia. “Aos que vão nascer” funciona também como uma carta náutica para os homens e mulheres do futuro, e nesta carta está sua esperança, o mundo do futuro, que muitos de nós sempre almejam como o lugar da fartura do que desejava e esperava, a esperança em Brecht aparece não só como posição política ou ideologia, neste poema para o futuro vemos muito mais de sua fome de justiça social, do que simplesmente uma comemoração socialista de um regime político como no poema do Outubro Vermelho. Antes de Brecht ser político ou ideólogo, Brecht quer um mundo melhor, e nisso a maioria de nós, homens e mulheres, se não somos loucos celerados, concordamos.

(DOS “POEMAS DE SVENDBORG”):

VISITA AOS POETAS BANIDOS

Quando penetrou em sonho
Na cabana dos poetas banidos, vizinha
À cabana dos mestres banidos (de onde
Ouviu briga e gargalhada), veio-lhe ao encontro
Ovídio, e disse-lhe a meia-voz:
“Melhor não sentares. Ainda não morreste. Quem sabe
Senão tu mesmo.” Porém, consolo nos olhos
Aproximou-se Po Chu-yi e disse sorridente: “O rigor
Fez por merecer todo aquele que uma só vez
               deu nome à injustiça.”
E seu amigo Tu-fu disse suave: “Compreendes, o
               desterro
Não é o lugar onde se desaprende o orgulho.” Mas,
               Mais terreno
Interpôs-se o maltrapilho Villon, e perguntou: “Quantas
Portas tem a casa onde moras?” E tomou-o Dante pelo
              braço
E levando-o para o lado murmurou: “Teus versos
Estão cheios de erros, amigo, considera
Quem está contra ti!” E Voltaire berrou de lá:
“Cuida dos tostões, senão te matam de fome!”
“E usa gracejos!” gritou Heine. “Não ajuda”,
Esbravejou Shakespeare, “quando veio Jacó
Também eu não pude mais escrever.” __ “Se houver
            processo
Toma um patife como advogado!”, aconselhou
           Eurípides
“Pois ele conhece os furos nas malhas da lei.” A
             gargalhada
Ainda soava, quando do canto mais escuro
Veio um grito: “Escuta, sabem eles também
Os teus versos de cor? E eles que sabem
Escaparão à perseguição?” __ “Estes são
Os esquecidos.”, disse Dante em voz baixa
“Foram-lhes destruídos não só os corpos, mas também
                as obras.”
A gargalhada cessou. Ninguém ousou olhar na direção.
               O recém-chegado
Empalideceu.

O GRANDE OUTUBRO

                                No vigésimo aniversário da
                                      Revolução de Outubro

Ó grande Outubro da classe trabalhadora!
Levantaram-se afinal os que estavam
Por tanto tempo curvados! Ó soldados, que afinal
Dirigiram os fuzis para a direção certa!
Os que lavravam o campo no início do ano
Não o fizeram para si mesmos. No verão
Curvaram-se mais ainda. Mesmo a colheita
Foi para os celeiros dos senhores. Mas o Outubro
Viu o pão já nas mãos certas!

Desde então
O mundo tem sua esperança.
O mineiro do País de Gales, o cule da Manchúria
E o operário da Pensilvânia que vive pior que um cão
E o alemão, meu irmão, que ainda
Inveja aquele: todos
Sabem, existe
Um Outubro.

O soldado da milícia espanhola
Vê por isso com menos preocupação
Os aviões dos fascistas
Que investem contra ele.

Mas em Moscou, a célebre capital
De todos os trabalhadores
Move-se a cada ano na Praça Vermelha
O infindável cortejo dos vencedores.
Levando os emblemas de suas fábricas
Imagens dos tratores, novelos de lãs das fábricas
                de tecidos
também feixes de espigas das indústrias de cereais.
Acima deles os aviões de combate
Que escurecem o céu, e à frente deles
Os seus regimentos e esquadrões de tanques.
Em largas faixas
Carregam as suas senhas e
Os retratos dos seus grandes mestres. Os panos
São transparentes, de modo que
Tudo isso é visível a um só tempo.
Pequenas, em mastros delgados
Agitam-se as altas bandeiras. Nas ruas mais distantes

Quando o cortejo para
Animam-se danças e jogos. Alegres
Vão os grupos em desfile, um ao lado do outro, alegres
Mas para todos os opressores
Uma ameaça.

Ó grande Outubro da classe trabalhadora!

AOS QUE VÃO NASCER

I

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou
            Perdido.)
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque
               tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d`água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

II

À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

III

Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.

(DO LIVRO : BRECHT – POEMAS – 1913-1956) – BERTOLT BRECHT – EDITORA BRASILIENSE – SELEÇÃO E TRADUÇÃO DE PAULO CESAR SOUZA

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário; http://seculodiario.com.br/27288/17/bertolt-brecht-o-poeta-parte-ii