PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

domingo, 16 de março de 2014

O NATIMORTO DE MUTARELLI

"os cigarros fazem parte da paisagem, e o jogo do destino é o vício. Cartas de tarô."

   Esta resenha encerra minha série sobre os livros de Lourenço Mutarelli (por enquanto). Falei do livro A arte de produzir efeito sem causa, na resenha anterior, e fecho o raciocínio, aqui agora, com mais um livro, desta vez, sobre o lançamento de 2009, pela Companhia das Letras, do romance O Natimorto.
   Lourenço Mutarelli parece flertar sempre com um processo de loucura em seus personagens (protagonistas), é ele ali, mas também não é só seu duplo, é uma experiência de ficção, antes de tudo. Na resenha anterior, também se falou num processo de surto psicótico, este mais literal. Desta vez, o romance O Natimorto, também tem algo de loucura, mas é menos literal do que a estória que se passa com o protagonista de A arte de produzir efeito sem causa. No romance O Natimorto, o protagonista é um bipolar, ele é agente de talentos, e começa sua trajetória ao receber uma cantora lírica para encaminhá-la a um maestro.
   O protagonista recebe a alcunha, no romance, de O Agente, e a cantora passa a ser chamada de A Voz. O romance vai alternar entre uma estrutura semiteatral com diálogos dinâmicos, e outra semipoética, no decorrer, com linguagem aparentemente versificada, num neoconcreto do desespero, a obsessão do Agente pela associação entre imagens de advertências presentes no lado de trás das embalagens de cigarros e as cartas (arcanos) do tarô.
   O Agente busca A Voz na rodoviária, compra um maço de cigarros Cowboys Light, atrás do maço: Estampado, o Natimorto. O Agente, logo, vai colocar A Voz dentro de um plano excêntrico, começando por sua dissertação da relação entre as imagens dos cigarros, avisos, e os arcanos do tarô que, diga-se de passagem, também são tipos de advertências. Teoria: as imagens dos cigarros possuem oito arcanos, as cartas do tarô, vinte e dois, contando com a carta sem número e a carta sem nome. A carta sem nome é a Morte, a sem número, O Louco.
   Depois de um jantar na casa do Agente, em que a esposa do mesmo lhes serve uma carne queimada, numa crise de ciúmes, o Agente leva A Voz a um hotel, aonde ela ficaria hospedada, e acaba que O Agente insiste e convence A Voz de que ele ficaria lá com ela. Ele diz que não é broxa, como diz sua esposa, mas um assexuado. O Maestro, por sua vez, aparece como referência apenas, ele é o cara que come a esposa do Agente, segundo o mesmo. Logo, o Agente já sabe que A Voz, que irá fazer um teste com O Maestro, para ver se é aprovada para cantar em recitais, seria mais uma conquista sexual do Maestro, no que ele não se engana, num dos trechos finais deste romance de Mutarelli.
   O Agente faz a proposta: ele tem economias suficientes para pagar o quarto de hotel em que ambos estão (O Agente e A Voz) por cinco a seis anos. Ele propõe à Voz que os dois fiquem ali dentro, que ambos não saíssem mais dali. A Voz quer um meio-termo, não pode comprometer a sua carreira de cantora lírica. O Agente quer ficar no cantinho do quarto. O meio-termo de A Voz também se relaciona com o sexo, ela não é assexuada, como O Agente. Haveria de ter um acordo, mesmo que no começo A Voz não acreditasse muito a sério que a proposta do Agente era de fato verdadeira. De qualquer modo, ficou acordado de que A Voz poderia sair dali, enquanto que O Agente ficaria no quarto, enfurnado fumando cigarros, e fazendo livres associações entre as imagens dos cigarros, e as cartas do tarô.
   O Agente fica obcecado pela imagem nova de um maço: a lemniscata (o símbolo do infinito, que é representado por um oito deitado). A imagem a que se faz referência é de um homem acendendo um cigarro no outro. Era o vício, para A Voz. Mas era a lemniscata, para O Agente. O ciclo contínuo era o significado da imagem do maço. O Agente faz especulação avançada, e que é nada mais que passar da conjectura à livre associação, e, no extremo, passar da livre associação ao delírio puro e simples.
   Os paralelos entre as imagens dos cigarros e as do tarô, feitas pelo Agente, se referem ao tarô de Marselha, de Grimaud. Dizem que o tarô seria um livro, o único, que escapou das bibliotecas egípcias incendiadas. A teoria de Court Gébelin, um pastor francês que viveu no século XVIII, que estudou o tarô, dizia que os ciganos seriam originários dos egípcios que se dispersaram pela Europa e, dessa forma, disseminaram o costume de ler a sorte nas cartas.
   O Agente passa o tempo todo deitado, seu único contato com a realidade, neste momento, é com A Voz. A imagem do natimorto nos maços de cigarros é a imagem da Pureza. O Agente diz que o natimorto é um ser imaculado, viveu uma vida intrauterina e morreu sem se contaminar com o mundo, para o Agente, isso é sublime. A Voz pede ao Agente para esquecer "essa história de tentar antever a vida no maço de cigarro." Neste ponto, O Agente está deitado na cama há três dias, e lhe vem a imagem de uma pintura de Magritte: uma menina comendo um passarinho. Seria nesta imagem que se concluiria a missão do Agente, no desfecho em que se dá o romance há uma direta ligação entre o ponto de partida de Magritte, na cabeça do Agente, e sua conclusão maléfica, a mutação animal de seu delírio.
   Tudo é o jogo do destino, o tarô. E, no quarto de hotel, O Agente tem, nisso, a realidade, onde tudo se explica em maços de cigarros. No romance, temos um desfile dos malefícios do cigarro; junto com as imagens, as frases de impacto. E, no romance, os arcanos de Grimaud dialogam, num símbolo, irmão dileto do delírio e da loucura, com as imagens interpretadas pelo Agente. O tarô de cigarros, sentido encerrado no romance, palavra doentia do fim do Agente em sua tela de Magritte. Obsessão. Na lemniscata se abriu a porta, em Magritte se fecha. O Agente cuidaria da Voz, e vice-versa. E o romance, na coda típica das estórias de Mutarelli, termina com uma sugestão. De Magriite, com a menina comendo um passarinho, se dá a ideia macabra do Agente, coda para a conclusão óbvia, mas sem terminá-la. Leiam o livro e descubram.
   Lourenço Mutarelli tem na loucura sua temática recorrente, o protagonista sempre é um homem impregnado de niilismo. Em O cheiro do ralo, A arte de produzir efeito sem causa, e neste romance O Natimorto, o romance niilista e urbano de Mutarelli lida com o cotidiano. Mas, em seus romances, não se trata do cotidiano clichê, de um suposto realismo. Se trata de um método de escrita sui generis na forma, com boas sacadas e inovações, até no desenho de que se compõe suas estórias, e da sua brilhante transgressão do realismo, colocando o cotidiano dentro de uma trama psiquiátrica. O delírio sempre aparece dentro de um contexto prosaico de situações, linguagem cotidiana do delírio. Este é o paradoxo de Mutarelli: o cotidiano, o prosaico, até um tom naturalista, se mantêm, enquanto o realismo é transgredido sem ser de todo negado. O interior de seus protagonistas, dentro de um contexto urbano e rotineiro, ao passar do tempo, se engolem em tramas delirantes, que saem do prumo, e caem no símbolo e na magia.
   Mutarelli maneja imagens, e não as tira de seu contexto habitual de situações comuns de pessoas mais que comuns. O incomum fica por conta da vida interior de seus protagonistas, uma coleção de Mutarellis mórbidos, mas não muito, eles ainda são personagens. E nem é forçoso determinar, numa sanha psicanalítica, personagem com autor, nem sempre isso é certo, ambos os sentidos, imagem ideal ou pervertida, são e não são o autor.
   Mutarelli joga em forma de desenho, junta delírio, referências literárias, e os colocam num prosaísmo que, se não houvesse tanta simbologia, poderia passar por mais um romance sobre vidas comuns, depauperadas de niilismo. Este é o ponto: o niilismo, em Mutarelli, vira trama psiquiátrica, e culmina nos extremos da vida. Ou seja, as fronteiras cotidianas são quebradas, e isto, no próprio universo de suas situações previsíveis, a loucura é ali, o inaudito, e o sentido dos romances  de Mutarelli.
   O romance O Natimorto, de Lourenço Mutarelli, também foi adaptado ao cinema. O filme, Natimorto, foi lançado em 2011, com direção de Paulo Machline. O próprio Lourenço Mutarelli aparece no filme, como ator, no papel de O Agente. A Voz fica por conta de Simone Spoladore. E a esposa do Agente tem participação especial de Betty Gofman. Nazi, o músico que tocou no grupo de rock Ira!, é o narrador do filme. Recomendo a leitura do livro, e, logo depois, ver o filme. As duas obras são complementares, o romance tem uma carga simbólica maior, e o filme passa mais pelo delírio, os cigarros fazem parte da paisagem, e o jogo do destino é o vício. Cartas de tarô.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Link da Século Diário:http://seculodiario.com.br/15865/14/o-natimorto-de-mutarelli

quarta-feira, 12 de março de 2014

FRAGMENTO POMPOSO

Absinto absurdo
terra arrasada
fundoscopia
cega,
eu ri muito alto
no dia desfigurado,
minha carcaça e meu dorso
exumados,
farta colheita de paranoia,
farsa refeita de paranoia,
carta não escrita
de pura paranoia,
síndromes deslimitadas,
frases fragmentos facas
outro dia outro pulo do dia
vaga mimética de mar
mar suntuoso baluarte oceânico
com os poemas
o futuro maravilhoso
a saudosa hora do fim
o enfim nunca alcançado
o segredo de tudo
em flechada
como o corpo que estremece
no êxtase com a paz mística
de flores azuis
num campo violáceo
e o leite caudaloso
do rio de Caronte.

12/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

TREMORES DE FRIO

O ponto frio do pentagrama está de ponta cabeça,
fecho com a espada um ponto vivo de ponta dentro,
a cabeça, de ponta a ponta, dá um nó cego.

Vesti o meu blazer do melhor estilo,
sem papas na língua,
desembocadura de trabalho,
o mundo viril do salário.

De ponta a ponta a crise bipolar,
de ponta cabeça a crise conjugal.
Como fada e duende, como santa e beberrão,
oh, mundo cruel! Já me basta
todas as fugitivas,
já me tens em mim coração de
salto no escuro?

Fode como se fode na praia,
um verso explode de raiva.

Cada um com um gesto específico,
cada outro com sua enigmática figura.
Cada qual um gesto universal,
do geral ao uno e ao particular,
da petição de princípio
se faz ponta que volta
em eterno retorno,
como um poema que lateja
nas mãos trêmulas e quentes.

Outrossim, outra época.
Já fiz muita prosa furiosa.
É como o olho quando gira
e depois volta ao corpo,
como num transe hipnótico
 de cannabis,
como a mística de penumbra
do mundo vasto do LSD.

Ah, a carne santa!
Vejo mesmerizado,
outro sim vejo novo dia,
assim, de ponta ao fogo,
clareia o dia em fundo vermelho,
e o poema ricocheteia na paisagem,
e os jograis sussurram
blasfêmias risonhas, enquanto
faunos pulam as guirlandas
numa festa do vinho.

12/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)


domingo, 9 de março de 2014

LIBERDADE FORA

Peço-te ajuda, não sei o limite,
se fosse o limite uma estrela,
saberia.

Não, mas não é uma estrela,
o limite fundamenta a cegueira,
um deserto de zombarias
é o livro poluído
de seus mistérios,
eu, num canto puído,
algures de meus alhures,
vejo o limite imprevisto.

Peço-te um poema:
meu limite explodiu,
cratera de um tanto sol,
fratura de carne estimulada
por vitaminas
que o verso
soçobra
em  nau
ludibriada,
vai e corre o mantema,
metamorfoseia,
de poeta vá à dança,
qual o cerco do continente
quando se abre
a cortina de um palco
ao vermelho da saída.

09/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

MELODIA DEAMBULADA

Páginas vistas, tal ócio primeiro é o fundo da ligadura,
corre o meu vento, ectoplasmas escorrem de meu nariz.
Vulgo poeta, o crânio da hora malvada é o poema.

Ligo ao atendente, retiro um pedido,
o som estalado de meus dedos são a mão
misteriosa do meu ocre na parede,
vejo uma sombra na luz apagada,
socorram-me do fundo do abismo,
levem-me ao seu líder.

Outra coisa:
a luz furiosa é o préstito,
como na odisseia,
como nos mares.

Tal ócio primeiro de tudo:
o poema calcula ritos geométricos,
o poema simula mundos concêntricos,
gira o topázio gigante como uma bola,
os cristais de sândalo
fortificam as estruturas,
o olho viril da melodia
faz as suas.

09/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)




BUSCAS DE VERÃO

No abajur fica o livro não lido,
tento lembrar do telefone,
perdi o número,
perdi o relógio,
encontrei uma dedicatória,
chorei e ri,
no luto e na guerra
a selva de si.

Como o rito, a saudade espanca,
flor trevas socorro de fauna,
litros de paixões arrebatadas,
flor flora paranormal,
eu descanso qual caixa preta,
lá no fundo o dia amanhecido,
lá no fundo a noite anoitecida.

Peço ao vento:
sopra meu coração de gelo
num altar,
e que o sol venha logo,
como um verão inesquecível.

08/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)

ENCANTAMENTO DAS RUAS

Pesco no samba letra de bamba:
beijo, um sucinto desejo.
Quando o morro, a cabrocha canta.
Vive o pilar dos amores.

Eu ando meio tonto,
deveras bicudo,
como um  torto de olho sem foco,
anjo torto e bêbado,
qual a estrela que foge.

No tudo do enredo mora o segredo:
passo passarela passarada
passa meu amor o vulgo nada.

Pesco samba sem retina
só pompa de ouvido
tiro no hospício
lugar de vagabundo

pesco o poema, samba de fenda,
na fissura o entrave liga e frio,
na pintura da rua João do Rio,
no asfalto nariz sangrando,
lá no alto o Cristo,
corcovado de um tanto
 de vista infinita,
o platô é o pensamento
resolvido.

08/03/2014 Êxtase
(Gustavo Bastos)