“para gáudio dos mais idiotas dos comediógrafos, veio a pérola, o opus, que foi a comparação feita por Flávio com Charles de Gaulle”
Depois da fuga de Flávio para os Estados Unidos, não demorou muito para a grita de mau perdedor ecoar, desta vez através de uma carta delirante, feita com ajuda do Chat GPT, com erros crassos e a autoproclamação do derrotado nas eleições como presidente da República. Neste escrito temos novamente a cantilena da fraude eleitoral, junto a ataques ao Poder Judiciário.
Fato é que a atuação dos magistrados durante as eleições foi um desastre completo, mais atrapalhando que ajudando, culminando na alopragem do dia das eleições, embora diante de uma diferença de quatro milhões de votos entre Flávio e a vitória de Lula, não houve ingerência o suficiente para que se duvide dos resultados finais.
Flávio autodenominou-se como “presidente eleito do Brasil” e usou um brasão histórico “Estados Unidos do Brazil”, com esta grafia datada, inspirada no modelo federativo norte-americano, adotada logo após a Proclamação da República, tendo a grafia “z” trocada por “s” em Brasil em 1931 e, finalmente, o nome oficial passou a ser República Federativa do Brasil, pela Constituição de 1967, curioso caso em que até a ditadura militar foi menos vira-lata em relação aos Estados Unidos que o próprio bolsonarismo.
Outra versão da carta mudou a proclamação delirante por uma autodefinição de Flávio como “líder do Brasil”. Na carta, Flávio argumentou também que não havia fugido, mas que saíra de um “regime de exceção”, com o pretenso objetivo de se tornar uma liderança política a partir do exterior. Contudo, dentro do Brasil, o efeito de sua fuga foi reverso, pois logo ficou isolado pela direita, com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o ex-coordenador de campanha Rogério Marinho, que reconheceram a vitória de Lula.
Essas pretensões de Flávio, então, além de o isolar da direita brasileira, também falhou em território norte-americano, pois seu plano de ser um “líder no exílio” se depara com limitações práticas, o desinteresse de aliados, e que atua numa retórica de ruptura que também foi frustrada pelo pragmatismo de Trump, que obviamente e à moda de seu país, deve estar pensando em si mesmo.
O fato é que o governo norte-americano autorizou a entrada e permanência temporária de Flávio, de sua esposa e filhas através de uma autorização chamada humanitarian parole (visto humanitário), com validade de um ano. Tal permissão não significa apoio dos Estados Unidos às pretensões do candidato derrotado no Brasil, muito menos em relação à autoproclamação estapafúrdia de presidente eleito. Tanto que autoridades de Washington, para evitar atritos diplomáticos com o governo brasileiro, exigiram que a tal carta fosse corrigida, com Flávio retirando a autodeclaração citada.
Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, negou que Flávio tenha recebido ajuda do governo norte-americano para fugir do Brasil, o que é contradito devido a relatórios de bastidores que indicam que o secretário e o assessor Jason Miller facilitaram autorizações e trâmites logísticos para o desembarque na Flórida, ao passo que Trump criticou o processo eleitoral brasileiro e está usando este caso para mobilizar eleitores republicanos nas eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos. (Resultado recente saiu, mas isto é outro assunto que vou tratar aqui).
Foi Jason Miller o responsável por intermediar e providenciar o avião particular que levou Flávio e sua família a partir de Puerto Iguazú, na Argentina, com destino a Miami. A articulação com Miller foi iniciada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) logo após o irmão ser intimado pela Justiça brasileira a entregar seus passaportes. Portanto, a Casa Branca sabe da operação e foi de lá que partiu a ajuda estratégica para a fuga de Flávio, o próprio Trump, evidentemente, também sabia, no entanto, usa deste caso pragmaticamente para a campanha republicana nos midterms.
Este caso do acolhimento de Flávio nos Estados Unidos, por outro lado, foi condenado por parlamentares democratas e membros do Comitê de Relações Exteriores da Câmara. Um grupo de 25 deputados democratas enviou uma carta formal cobrando explicações detalhadas da Casa Branca e de Marco Rubio sobre o envolvimento de agentes e carros oficiais dos Estados Unidos no suporte logístico a Flávio no aeroporto de Miami, com um prazo limite até 13 de novembro de 2026 para obter respostas oficiais.
A direita brasileira avança pelo pragmatismo político, pois o fato é que Flávio deixa um vácuo detrás de sua fuga, o que se agrava pela falta de perspectiva dentro do próprio clã, pois isso se soma à ida de Eduardo, o Bananinha, que já está nos Estados Unidos há tanto tempo, que perdeu o mandato de deputado e foi até exonerado da Polícia Federal.
O que sobra do clã no Brasil, temos Jair Renan, que é um boboca que sofria bullying na Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú, e agora descolou uma sinecura melhor de deputado federal, e Carluxo, eleito senador em Santa Catarina, opera nos bastidores do bolsonarismo, tendo sido o responsável pela organização do gabinete do ódio, e dificilmente seria um novo perfil puro sangue para cargos executivos.
Michelle Bolsonaro ganhou vida própria, não tem o DNA do clã, nunca foi afeita aos filhos do marido, ao qual tem lealdade, e agora abre negociações para retomar o PL Mulher, na redistribuição do capital político familiar, e também não foi próxima de Flávio, nem na campanha feita agora, com idas e vindas, encenações de armistício etc. Portanto, a partir do próprio clã, o bolsonarismo está mais fraturado e fragmentado do que nunca. Apesar do aceno de Alcolumbre, que tenta uma troca imbecil entre o indulto para o ex-presidente e o livramento da pele de Moraes, que se encontra encalacrado no caso Vorcaro.
No bolsonarismo amplo e na direita como um todo, começa a busca por novas referências na oposição ao governo Lula, por exemplo, com a ascensão de Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo, em que ele reconheceu os resultados das eleições e passou a focar na unificação do conservadorismo com a centro-direita já mirando as eleições presidenciais de 2030.
Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, também não aprovou a fuga de Flávio e nem a carta, reiterando que ninguém na legenda comprou esta história, e ainda disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro não sabia dos planos de fuga do filho. Ou seja, segundo Valdemar, na visita de Flávio ao pai, antes da fuga, não foi comunicada esta intenção para o ex-presidente, e disse que embora a cúpula do PL entendesse a situação difícil do senador, após a derrota eleitoral, com este alegando perseguição política do STF, não houve endosso por parte do partido em relação à fuga. Tanto para Valdemar como para as lideranças do PL o momento é de avançar com a agenda do partido.
Flávio pode não ter contado com o pragmatismo da direita brasileira, a falta de apoio da máquina eleitoral do PL, desautorizado pelos governadores mais fortes do Brasil, ficando isolado politicamente, e sendo ridicularizado, tanto na tentativa de se tornar uma liderança política à distância, como pelas diferentes versões das cartas golpistas, emulando líderes históricos sugeridos pelo Chat GPT, além do uso de um brasão obsoleto, da época da Proclamação da República, e virando piada na internet.
A ridicularização aumentou tanto com a correção apressada do brasão, como a mudança de tom de “verdadeiro presidente eleito do Brasil” para “líder do Brasil”, diante da repercussão ruim e do risco jurídico. Logo surgiram comparações com o caso de Juan Guaidó, político venezuelano que se autodeclarou presidente em 2019 e acabou sem poder real.
E para gáudio dos mais idiotas dos comediógrafos, veio a pérola, o opus, que foi a comparação feita por Flávio com Charles de Gaulle, na justificativa de sua saída clandestina ao descumprir ordens do STF. O líder da resistência francesa lutou contra o nazismo exilado em Londres e a analogia entre a Segunda Guerra Mundial e a fuga de um derrotado eleitoral encalacrado com investigações jurídicas para Miami não ligou lé com cré. Uma obra-prima do disparate.
AUGUSTO CURY, O COMÉDIA
Um caso que merece menção sobre as eleições foi a atuação do ex-candidato do Avante, Augusto Cury, médico e psiquiatra cuja obra consiste numa gororoba pseudo-científica com tiques de auto-ajuda, que se consuma em teorias sem validação científica, sem ter passado pelo processo padrão de revisão por pares (peer-review), em que cientistas independentes avaliam os métodos, dados e a lógica de um estudo antes de sua publicação em periódicos científicos respeitados.
As duas teorias pseudo-científicas que ergueram o império editorial e educacional de Cury são a Teoria da Inteligência Multifocal, que foi construída de forma isolada pelo autor, e a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA), exaustivamente citada pelo autor como "o mal do século", que não tem reconhecimento de nenhuma diretriz diagnóstica oficial global, estando totalmente ausente da Classificação Internacional de Doenças (CID) da OMS e do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria.
Também existem inconsistências acadêmicas sobre suas titulações, com documentos oficiais contraditórios, por exemplo, como a menção a um suposto doutorado internacional em psicologia por uma instituição estrangeira sem credenciamento governamental tradicional de ensino (a Florida Christian University), cujo registro real constava, na verdade, como doutorado em administração de empresas. O fato é que a obra de Cury é tratada como literatura de autoajuda, com conceitos de desenvolvimento pessoal sem metodologia científica validada.
Para além dessas contradições e de sua atuação abúlica no primeiro turno, sem assumir posições conflitantes diante do espectro político, numa postura hipócrita indulgente, o desvelamento do caso típico de picareta se consumou com o seu polêmico apoio a Flávio no segundo turno, para diante da fuga do mesmo, recriminar tal desdobramento após a derrota do senador. E repetindo a sua postura acovardada, desatou em “poesia”, afirmando: “Na minha opinião, um piloto jamais deveria abandonar o barco, por mais dramática que seja a tempestade que ele enfrenta. Até porque, não há tempestade que dure para sempre”.
E como se trata de um pusilânime contumaz, no sentido de medroso mesmo, diante da avalanche de comentários negativos e ataques por parte dos eleitores e apoiadores de Flávio Bolsonaro nas redes sociais, depois da “metáfora náutica”, Cury apagou o vídeo original, e publicou um outro em que afirmava "não ter expressado adequadamente suas ideias", justificando-se com a frase: "Só não muda de ideia quem não tem ideia".
Ou seja, o poltrão se desviou da crítica direta em relação a Flávio para fazer uma digressão sobre a "radicalização política" do Brasil, argumentando que a polarização extrema estava impedindo as pessoas de manifestarem livremente suas opiniões democráticas. A emenda saiu pior do que o soneto, e além de um farsante, Cury é um poetastro.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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