PEDRA FILOSOFAL

"Em vez de pensar que cada dia que passa é menos um dia na sua vida, pense que foi mais um dia vivido." (Gustavo Bastos)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PERTO DA ESTRADA

Vejo, com as mãos livres,
o céu dardejar
na nuvem
uma estrela
calma.

E nós, viajantes do tempo,
reconfortando o corpo
numa flor despida
de dor,
despida e fértil
como a vida luminosa
que esquenta
os topázios,
que rege a fauna
na mordedura
dos astros.

As asas semeiam loas
videntes como as vozes
revividas de um
hausto glorioso,
e o corpo da glória
seria a vestimenta
dos fortes
quando
o sino toca
a hora
do destemor.

Leve a plumagem sonora
de seus lenhadores,
cordas amarradas
para sulcar os troncos
da nau itinerante,
vinho temido de vigor
nas sete quedas
do amor.

Os navios naves navegam
nuvens necessárias.
Os calores são amores
que fundam
o sentimento
nobre.

Indo fundo na alma agreste
dos desertos,
encontro qual diva
certeira
em meus sonhos
de leveza.

Onde mais o canto das auroras?
Ressoa febre na liberdade
com a liberdade livre
dos libertos,
e a vida é a História
em matizes de coração.

14/08/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

domingo, 5 de agosto de 2012

VISIONÁRIOS

Canto de guerra
nas odes fantasmas
do coração.

A nuvem doira ao sol
na terra dos ilhados,
o Monte Meru
é a espinha dorsal
do universo,
tal que se compõe
de nervos, veias
e sangue matinal.

O bravo soldado da
estrela brilhante
dá o grito
que ninguém
ouve.

A pena do poeta
quer morder
a nuca
do livreiro,
lamber a orelha
de um editor,
correr no espasmo
de um susto
ao reconhecimento
dos poemas
que caem
de saudade.

O poema-estrela
decompõe
sua estrutura
sem mérito,
seu esquema
sem conceitos,
sua vulgaridade
sem estilo.

O poeta calcula
na sombra azul
do castelo
o romance
perfeito
na lâmina
que corta
a sua carne,
no delírio
que corta
a sua alma,
na velocidade
que corta
o tempo.

Eis o dia nascido
para o martírio
de meus silêncios
em economia de versos
demudados pelo sol
que nasce em aurora
nos ares do calor.

A descoberta da chama
que traz a vidência
corrompe a obra
levitada nos canhões
da guerra fratricida,
e a pólvora revela
o desejo de um fogo
que rompe o verso
em febre, despudor
e o sangue da honra
em puro holocausto.

As gaivotas pousam
na beira do mar
com a areia em
seus bicos
e os peixes
são liquidados
na fome brutal
de um albatroz.

Uma cigana na noite
de verão lê a minha mão
como se o corte da
linha da vida
fosse o enigma
supremo
das voltas
que dá o meu
coração.

As lamúrias de minha sede
se sobressaem na vida
em que o coração flutua,

e a tempestade no deserto
puxa toda a areia
que se acumulou
nos porões da alma,
que enternece
a poesia
de luz e semeadura
infinda
no arrebol
de minhas tão
sonhadas
montanhas
de frio,

quando a noite
na floresta negra
anuncia
em seus vales
a memória
perdida
na névoa
da miragem
que vê
um oásis
como luta
visionária
pelo futuro
em arcanos
esotéricos.

O amor envolve
o meu corpo
na música
pelo sol
rimado
pelo desejo,

e pela lua
no sentimento
brutal
do que vejo.

É o mesmo sentido
da honra
que reina
na poesia
pela luta
infinita
de estar vivo
como o pássaro
da lenda
nos altares,

por estar vivo
com o coração
posto dentro
das batidas
em meu sangue
sequioso
pela eternidade,

e o amor dançando
em volteios
na ilusão
dos sentidos.

A dor sempre será
o mesmo corte
no coração
e o mesmo corte
na carne,
a fratura do corpo
com ossos aniquilados,
e o vazio da alma
com luzes de névoa
na selva do poema
que some nos vãos
às margens escuras
dos ritmos
e no lado oculto
das visões.

O visionário um dia
irá repousar
na paz dos justos,
pois a justiça
é o nervo existencial
de que fala
o poema.

04/08/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)




A METAMORFOSE DO RIO

Passando pelo velho rio caudaloso,
escuto as estórias e lendas,
um espírito zombeteiro
flutua na nascente
com flores de cobre
e desandando a falar
dos horrores da floresta.

Uma mesma fonte
mata a sede
dos cavalos.

Um mesmo rei
corta as cabeças
dos súditos.

Eu atravesso o sistema
com a náusea do dinheiro
nos pés da revolução.
Eu saúdo Che enquanto
canto em gestos
a queda espiritual
dos andarilhos.

O rio estranho da iluminação
me invade todas as cores
em todos os meus poros
com o arrepio do miasma
na pele bronzeada,
e os cavalos correm
tresloucados.

Pescando entre régios elementos
de vinha e sarça,
o fogo venera
a luz incontida
do mundo.

Os carros na distância
batem e capotam
por aí depois
da noitada
frenética.

Eu dou uma galimatia
e depois um salto
no escuro.
As trevas são noites sem fim
no inverno dos amantes.

O rio corre impassível,
o espírito zombeteiro
se desfaz em fumaça
e cai um lençol branco
sobre a água,
logo ele fica vermelho
e o rio fica vermelho.

A água transmuta em vinho,
o vinho do sangue da juventude
na ponta da espada
que quer poesia
no espelho d`água
do rio que se perde
no mar do infinito.

04/08/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

NOTAS LISÉRGICAS

As latitudes corroem
todas as direções
longitudinais.

Creio no salmo e no provérbio
vestidos de vermelho.
A cor-furta grita
embalsamada
de fera,
como as cartas de jogatina
entre fumadores de ópio.

Vasta a flora da poesia
muda úmida descida
aos porões da guerra,
ditaduras de febres
com arapongas
anotando tudo,
e vi, no ritmo denso da polca,
extravios de cartas
no magma da História.

O fauno irritado
numa nuvem de LSD
desceu ao inferno da Terra
com plantas carnívoras,
comi uma flauta em seus chifres
e um ódio animal
aflorou
nas luzes
de uma
bad trip.

O norte fica ao sul
da montanha,
o leste é conflagrado
no oeste desconhecido,
e o centro do mundo
é o fogo-círculo
que vigora e arde
nas sete estrelas
do pau-de-arara,
gritos são ouvidos
e as orelhas temem
o sangue de Van Gogh.

Na estrada de terra batida
ainda está bruta
a cova indigente.
Na beira do despenhadeiro
eu vejo bêbado
uma música
de sonho
como
uma "lullaby"
for today.

O palhaço monta a sua lona,
o teatro dos ossos
rumina pasto
e bestialidade,
como todos os atores
o palhaço sorri
como um bebê.

O prodígio encantatório
semeia à pauladas
um homem forte.
As marafonas se deliciam
com o ventre e o karma
de suas ancas
sem moderação.

Na cadeia estava um poeta
com suas ervas e fungos
no canto selvagem
das ocas canções
do coração vazio
do nada que atravessa
ausências
quando a morte
chega.

Jogando buraco
ou pôquer,
jogando damas
ou xadrez,
jogando gamão
ou jogando
tudo fora,
boêmios querem
viajar
para a lua
como um êxtase
de ventura,
não sei o que devo
fazer.

Tenho planos demais.
Tenho sonhos demais.
Não consigo organizar
os dias em que
caio.
Não tento pegar o tempo
e subjugar
todas as minhas
angústias.

Não vou me dar bem,
não vou ficar milionário,
não farei sucesso.
Vou deglutir a propaganda
enquanto meu passaporte
não sai.

Vou espezinhar os poetaços
enquanto os meus livros
não vendem.

Vou contar anedotas
como lendas
no frontispício
de lumes
contorcidos
pelas névoas.

Vou cantar o absurdo
na minha pele rota
como um anoréxico
que sofre de morbidades
e furúnculos.

A diagnose me condenou
à eternidade da doença,
os junguianos
sofrem de kardecismo
búdico,
e o mensageiro da doença
fincou sua espada
no coração das trevas.

Enquanto o sonho se dispersa,
a vigília desperta
na hora do caos,
e a serpente morde
a viúva do céu
retirado
de seus olhos,
uma nova dança mortal
se vestiria
de vermelho
como no Sabá,
e de branco
como no Candomblé.

O juramento pela vida eterna
em parábolas
era o amor divino
com tempestades diabólicas
de um Lúcifer
indignado,
e Jesus como caminho
é a morte do corpo e da finitude.

Sentiria na carne
as dores de um anátema.
Volveria da lama
os odores do inferno.
Recitaria uma trova
de harmonia provençal.
Declararia o meu amor
pelas fadas psicodélicas.
E tocaria "Crown of Creation"
e "White Rabbit"
enquanto escreveria
novas sensações
que defloram
o verbo
num ato sacrificial
de pães ázimos.

A tolerância da insanidade
cresceria como gigante
na terra dos corpos delgados,
e a vida tomaria de assalto
o fardo da arte
para novos talentos
eclodirem
de seus ovos
como vermes
que viram anjos
depois
do apocalipse.

04/08/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)



SOME OLD SHIT

Vamos, que é a hora do afogado
na vestimenta que adorna
o ventre-matriz da lordose.

Nonagenários sonham
com novas uivadas flores,
corre o sonho do jovem
querendo a falácia
de filosofemas,
silogismo que é mentira
de paradoxos falsários.

Coma carne crua,
ande pelado pela rua.
O poeta faz a performance
num sítio escuro
com esqueletos vivos,
dança na suástica
enrolado na bandeira
dos Estados Unidos.

Mas que morfema fonético
triturou a tua língua?
Foste poeta de um ridículo
teatro de tortura?
Eu leio o jornal
e dele o sangue nobre
é um elemento-carne
sem os respingos
da alma e da arte.

Calmo, eu vou na nota
das classes de putas
diversas,
bundas,
quadris,
peitos,
nomes fictícios.

Me divirto pesquisando
sobre carros que nunca
sonhei ter,
vejo a guerra
e o sopro sufocado
da economia,
leio a página dos famosos
como se nunca
tivesse lido
senão projetos
e viagens que foram
só para fazer troça
dos pobres idiotas
e assalariados.

E o grito primal
da fera assassina
quis o coração imberbe
do poeta
como manchete
de um crime,
mas morreu de fome
e anônimo
sem carne
e sem alma.

O latrocínio dos déspotas
reuniu todas as façanhas
de presidentes impossíveis.

O mercado refreou
o caos da especulação
em suas tripas
com uma nova regulação
estatal de suas viroses
e tumores.

Como haveria de dar certo
esta sanha
por novas carteiras
de débitos infinitos?

Comam carne crua
e bebam almas nuas,
sejam anátemas
e gnósticos
e façam pacto de sangue
pela riqueza,
descansem numa cabana
na montanha
e esqueçam da vida!

O poeta não ensina
poesia e faz poema
como chora,
o poeta não é livre,
pois a liberdade
é só uma ideia
muito ideal,
e os ideais já passaram
pelo fogo da loucura.

Lograr êxito demanda
um bocado de decepções,
o amor é o principal
vilão do coração incorrigível,
podemos comprá-lo
sem saber
como vendê-lo
depois,
e a paixão nem pensa nisso,
ela quer de graça
o que custa caro,
e não reconhece
o disparate
de seu desejo.

Como poeta, ou talvez
artista de visão,
a morte não calcula
as escolhas feitas,
e a vida das escolhas
não resulta
em êxito ou fracasso,
a ponte é uma só
e  a verdade
é o que passa nela
enquanto nela estamos.

E o fim do caminho
não é nenhum fim,
uma vez que tudo
pode ser eterno
se estivermos sãos.

Leio a classificação
das palavras
num amontoado
de expressões,
e a expressão
máxima
do caminho
não é filosofia,
nem literatura,
é o sangue
e seu fluxo
que não cessa
senão
na hora
do caos.

03/08/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)

sábado, 4 de agosto de 2012

NOITE BUDISTA

Flores de chumbo
na máquina hospitalar
               das dores   e   avarias
                        quando
                       o homem
                      de mil faces
                        era um só

Flores da penumbra
cor de câncer
no ar da névoa passaredo
louco de fumaça

Alertei as autoridades
da invasão das ruas
por carros sem freio
e pedestres com asas,
avisei do infortúnio
das mil vozes
de uma só boca,
das mil luzes
de um só iluminado,
das infinitas estradas
do cérebro em convulsão,
do ás e do coringa
na manga de um idiota
desesperado,
das lutas alhures
que o poema
vingava
na morte apedeuta.

Flores de chumbo
no nióbio das
máquinas de toque
à clara tela
das alienações,
nações conectadas
participando
de um nada
sem comunicar
o ser das coisas,
mas o jogo insalubre
do aparente,
e eu num acorde vital
com rimas de espora
e cânticos de coices
pelo céu mal visto
como um cogumelo mágico
na mente-espelho
sem sinal
para o sentido da vida,
quando os cavaleiros
invadem
a cor vermelha
do meu sol
na sina industrial
de um cinza
que não existe
senão no fogo,
e a viúva lamentando
a terra devastada
de todos os sonhos
da humanidade.

Chumbo fundo
na flor partida
de pétalas
pelo infinito
              do finito do corpo
e a alma-ilusão
                   de uma dakiní
                   desafiando
                   devas
                   na cor de som
                   pelo céu
                   e o espírito infeliz
                   da negra dor
                   sem corpo
                   como um grito
                   corroído
                   de poesia
                   potente
                   como o sol.

02/08/2012 Libertação
(Gustavo Bastos)




RITMADA DE IMPROVISO

Me esquecia dos mares mortos,
plácidos e rotos.
Nuvem na hora da vida,
estrela ferida
que rutila
indolor
no convés
do sol.

Azul cintilante,
como a cor da noite
na passada dura
do retirante,
como o castelo na capela
e o corpo de Florbela.

Restos das marés
na paz do vinho,
vícios de boreste
na luz do oeste,
certezas imorridas
de naus vividas,
eu saberia da vida
num ataque
de fúria
pelos poros
de toda anarquia,
eu veria o corpo rijo
de frio na floresta
nórdica em que
minh`alma dormia.

Lembro, ainda,
da pernoite estrelada
da máquina da memória,
lembrança iconoclasta
no mar fundo
como a rosa
sem par,
como o silêncio
sem o grito,
como o meu corpo
sem a dança.

Viveria o bandolim
na cratera de um violão
que flutua,
sustentando toda sombra
no inferno da percussão.
E, de um instante sem rumo,
olharia o convés de través
no ritmo inquieto
de castanholas
conversando com a luz
de um trompete,
enquanto a clarineta
dava pulos
depois do contra-baixo
bafejar
seu fundo
atônito
de poema
escuro.

02/08/12 Libertação
(Gustavo Bastos)